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Matéria de capa
CAPA
Por Rodrigo Moreira Ramos, Amanda Rodrigues da Silva e João Gabriel Ruffo Dumbra
O AQUECIDO
DOS VEGETAIS
Brasil tem grande potencial para
É crescente a demanda no Brasil por alimentos práticos, de fácil preparo e, ao mesmo tempo, nutritivos e saborosos. Nesse contexto, o segmento de vegetais congelados apresenta forte potencial de expansão no mundo todo.
A procura por esses alimentos, já relativamente populares
no Brasil, tem se fortalecido nos últimos anos, à medida
que o ritmo de vida acelerado, sobretudo nos grandes centros urbanos, limita o tempo dedicado às refeições.
Estudo realizado pelo Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a
Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em
2008, apontou que o tempo de preparo dos alimentos em
casa, que antes era de 150 minutos diminuiu para 15 minutos. Assim, qualquer alimento que requeira mais tempo
de preparo tem seu potencial de consumo reduzido no
País.
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF),
do IBGE, apontam no mesmo sentido. Segundo essa apuração, o consumo de hortaliças in natura nos lares diminuiu
entre 2002 e 2008. Dentre as hortaliças (batata, cenoura,
cebola e tomate), a batata, a mais consumida nos lares
brasileiros em termos de quilos por pessoa, apresentou a
maior queda. De acordo com a POF, em 2002, o consumo
do produto in natura era de 6,56 kg/pessoa no lar e, em
2008, de 5,60 kg/pessoa.
Paralelamente ao interesse (ou necessidade) de alimentos de fácil preparo no lar, cresce também o setor de
food service. No Brasil, esse termo norte-americano pode
ser traduzido como Serviços de Alimentação e representam as refeições servidas no local de trabalho, de lazer, em
hotéis e em hospitais entre outros.
Ainda segundo dados da POF, as despesas com alimentação fora do domicílio (população urbana e rural)
passaram de 24,1% para 31,1% dos gastos totais com alimentação da família entre 2002 e 2008. Considerando-se
somente a população urbana, o gasto com alimentação da
família fora do domicílio passou de 25,7% para 33,1% do
8 - HORTIFRUTI BRASIL - Abril de 2013
MERCADO
CONGELADOS
expandir a indústria nacional
total no mesmo período, representando aumento de um
quarto para um terço em seis anos.
Os vegetais congelados são atraentes também para
empresas de food service, já que requerem menor espaço
para armazenamento e proporcionam economia de mão
de obra no preparo e padronização quanto ao tamanho
e qualidade dos produtos oferecidos. No mundo todo, o
mercado de comida congelada é o segmento de alimentação que mais cresce e, no Brasil, também tem sido um dos
que mais se beneficiam da melhora econômica recente
do País, contabilizando ótimos índices de crescimento e
faturamento. Isso representa aumento na participação relativa dos vegetais congelados nas ofertas do varejo, que
ganham paulatinamente mais espaço nas gôndolas dos supermercados. Ainda assim, o consumo brasileiro é baixo
frente aos padrões internacionais, evidenciando notável
potencial de expansão nos próximos anos.
Um dos vegetais congelados que se destacam em
todo o mundo é a batata pré-frita congelada, importante
acompanhamento de lanches e de pratos rápidos, atingindo fatia considerável do mercado. Esse produto é bastante
difundido em redes de fast food, o que favorece ainda mais
o avanço do seu consumo. Atualmente, além da batata,
destacam-se entre os congelados o brócolis, a ervilha, cenoura, vagem, couve-flor e o milho doce. A distribuição
desses vegetais se concentra nos grandes centros urbanos
devido tanto à pouca disponibilidade de tempo para o preparo das refeições quanto à maior presença de food service, restaurantes e grandes redes de supermercados.
É importante observar que muitos vegetais congelados são importados, com destaque para a batata pré-frita
congelada. Isso é um indicativo de oportunidade para que
a indústria nacional se volte para esse segmento, que representaria mais uma alternativa de escoamento da produção hortifrutícola. É neste contexto que a Matéria de Capa
desta edição da Hortifruti Brasil aborda o tema, dando
maior ênfase à batata pré-frita congelada.
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 9
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS POR CONGELAMENTO
O congelamento é um dos métodos mais antigos e mais utilizados de conservação de alimentos no mundo todo. Garante a preservação de sabor, textura e valor
nutritivo dos alimentos, favorecendo a sua comercialização. Sob baixas temperaturas,
micro-organismos não podem crescer, as reações químicas são reduzidas e as reações
metabólicas celulares ocorrem de forma bem mais lenta, garantindo a manutenção da
qualidade e o prolongamento da vida de prateleira.
No entanto, a qualidade do produto in natura destinado ao congelamento é fundamental na determinação das características do produto final. De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU),
publicado em 2005, a qualidade, a segurança e o valor nutricional dos produtos
congelados são melhores quando as matérias-primas utilizadas são de alta qualidade.
Além disso, devem ser empregadas boas práticas de fabricação e os produtos devem
ser transportados e mantidos de acordo com as temperaturas especificadas.
Após a colheita, os vegetais são enviados diretamente para o processo de congelamento, que envolve a redução da temperatura do produto geralmente a -18°C ou
menos. Nesse processo, o estado físico do alimento é alterado quando a energia é
removida por arrefecimento abaixo da temperatura de congelamento.
A indústria de vegetais congelados cresceu nos países desenvolvidos, sobretudo, após o advento de métodos para branqueamento e processamento em 1940, que
permitem a melhor conservação das vegetais tanto em relação à qualidade quanto ao
valor nutricional. O branqueamento é um tratamento térmico aplicado em vegetais
frescos, antes do congelamento, e tem a finalidade de inativar enzimas que poderiam
provocar deterioração na cor, sabor, textura e nutrientes durante a estocagem. Também reduz o número de micro-organismos, remove ar dos tecidos e torna o alimento
mais compacto. Essa técnica é bastante simples e consiste em mergulhar os vegetais
em água fervente (branqueamento por imersão) ou tratá-los com vapor (branqueamento por vapor) e, em seguida, submetê-los a rápido resfriamento, até que sejam
congelados.
Somente após o desenvolvimento dessas técnicas de conservação, os vegetais
congelados ganharam forte apelo tanto no varejo quanto no setor de serviços de alimentação.
10 - HORTIFRUTI BRASIL Abril de 2013
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 11
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
VANTAGENS DOS
VEGETAIS CONGELADOS
Segundo pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto de Pesquisa de
Alimentos, coordenado pela Birds Eye (empresa multinacional do ramo de
alimentos congelados), aproximadamente 45%, ou seja, quase a metade
dos nutrientes mais importantes dos alimentos é perdido no período entre
a compra e o consumo dos vegetais frescos. Em geral, os consumidores adquirem os vegetais de uma a duas semanas antes de consumi-los, o que se
soma ainda aos dias de exposição nas prateleiras dos supermercados. Estudos mostram que 16 dias após a colheita, por exemplo, as ervilhas perdem
15% do total de seus nutrientes, a cenoura, em torno de 10% e o brócolis
e a couve-flor perdem até 25% no mesmo período. Já o “desgaste” dos
vegetais congelados é bem menor, tendo em vista que são inseridos no processo de congelamento logo depois de colhidos.
Para o produtor, indústria e distribuidor, o congelamento pode contribuir com a agregação de valor ao produto in natura, produção e distribuição mais racionais, redução de
perdas durante o armazenamento e economia com transporte, manipulação e acomodação
do produto nas prateleiras. Além disso, em alguns casos, os resíduos provenientes do processamento dos vegetais, como cascas e pedaços desprezados podem ser reaproveitados
na elaboração de outros alimentos, na adubação de lavouras e na alimentação de animais.
Na busca crescente da satisfação do consumidor, agentes envolvidos no ramo dos
vegetais congelados se beneficiam, procuram agregar, cada vez mais, valores aos produtos,
incorporando atributos de qualidade, diferenciação e utilização de embalagens mais adequadas às características do produto e mais atrativas para os consumidores, tornando, desta
forma, as atividades de vegetais mais dinâmicas, eficientes e lucrativas.
VANTAGENS DOS VEGETAIS CONGELADOS
EM COMPARAÇÃO COM O PRODUTO IN NATURA
Praticidade
Qualidade
Zero desperdício
Maior praticidade no
preparo, reduzindo
significativamente o
tempo despendido
O congelamento
favorece a manutenção
das características
sensoriais e nutricionais
Praticamente não há
desperdício com partes
estragadas, como ocorre
com as hortaliças in natura
Segurança
Durabilidade
Rastreabilidade
Maior segurança na
aquisição de hortaliças
limpas e embaladas
Possibilidade de compra de
alimentos mesmo estando
fora da época, visto que o
congelamento permite largo
período de armazenamento
Maior facilidade em
conhecer a procedência
do produto, visto que
há sempre uma marca
vinculada
12 - HORTIFRUTI BRASIL Abril de 2013
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 13
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
MERCADO DOS VEGETAIS
CONGELADOS NO BRASIL
Além do mercado de batatas pré-fritas, o Brasil
também apresenta índices crescentes na produção e
consumo de outros vegetais congelados. Em busca de
uma maior praticidade, uniformidade e maior tempo
de armazenagem, os consumidores também estão direcionando suas preferências para tais produtos. Com
isso, a produção brasileira de vegetais congelados
cresce cada vez mais, conforme dados da Pesquisa
Industrial Anual (PIA), realizada pelo IBGE.
A Pesquisa Industrial Anual (PIA), realizada pelo
IBGE, proporciona boa mensuração do crescimento
do mercado de vegetais congelados no Brasil.
Nesses dados, observa-se crescimento de 320%
na produção de 2003 a 2008. Apesar do recuo em
2009, provavelmente devido aos efeitos do baixo crescimento brasileiro naquele ano, a tendência segue positiva, em linha com o avanço do poder de consumo
do brasileiro.
Esse movimento é evidenciado também pelo
montante gasto com esses produtos. Segundo pesquisas do Euromonitor International, a quantia anual gasta com a compra de vegetais congelados no varejo por
habitante do Brasil dobrou de 2002 a 2007, enquanto
que o dispêndio com vegetais in natura permaneceu
constante.
No mesmo sentido, dados da consultoria Nielsen mostram que o crescimento das compras de vegetais congelados no País, em peso, exceto a batata, foi
de 52% entre 2008 e 2010.
Quanto às importações de vegetais congelados,
embora o predomínio ainda seja de batatas, com mais
de 90% do total, ganha destaque também o segmento
de ervilhas, com alto crescimento nos últimos anos.
No último triênio, por exemplo, o total gasto com importação foi 65% superior aos três anos anteriores.
Nos últimos três anos (2010 a 2012), excetuando-se batata e ervilha, também entraram no Brasil o
equivalente a quase US$ 7 milhões de outros vegetais
congelados, com destaque para o milho doce, que
corresponde a 19% desse valor, e ao espinafre, com
17%. Para a maioria destes outros produtos, a importação no último triênio mais que dobrou em relação
aos três anos anteriores.
Os dados de importação são um indicador importante do potencial de desenvolvimento da indústria ofertante de vegetais congelados no País. A indústria nacional ainda não consegue atender toda a
demanda, necessitando das importações.
Fonte: PIA (IBGE)
PRODUÇÃO BRASILEIRA DE VEGETAIS CONGELADOS, NÃO COZIDOS OU COZIDOS
A VAPOR, EXCETO BATATA E ERVILHA (EM KG)
14 - HORTIFRUTI BRASIL - Abril de 2013
EVOLUÇÃO DAS IMPORTAÇÕES DE ERVILHAS CONGELADAS
POR TRIÊNIO (EM US$)
Fonte: MDIC/Secex (as estatísticas por triênio referem-se à soma do total das importações nos três anos)
Fonte: MDIC/Secex
PARTICIPAÇÃO DOS VEGETAIS CONGELADOS NA SOMA DO TRIÊNIO 2010-2012,
EXCETO BATATA (EM US$ FOB - ORIGEM)
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 15
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
foto: Flávio Irokawa
AUMENTO DO CONSUMO DE BA
IMPULSIONA A I
O consumo de batatas congeladas no Brasil começou em maior escala há cerca de 20 anos, com a
demanda de restaurantes por maior agilidade no preparo das refeições. Antes, todas as batatas precisavam
ser descascadas para a fritura, o que exigia mais mão de
obra e tempo, além de o produto final não ter a uniformidade desejada para agradar a todos os clientes.
A primeira empresa a iniciar as vendas de pré-fritas no País, em 1992, foi a canadense McCain, fundada
em 1957 e líder mundial no segmento, com capacidade instalada de 180 mil toneladas/ano. Inicialmente,
os produtos consumidos no Brasil eram importados do
Canadá, Estados Unidos e Europa. Nos primeiros cinco
anos de atuação da empresa no País, o consumo per capita passou de zero para 300 g de batata congelada por
ano, em 1997, de acordo com a própria McCain. A instalação de uma fábrica na Argentina, em 1995, aumentou em grande escala a disponibilidade das pré-fritas no
mercado brasileiro, que chegavam a um menor custo e
passaram a atender, além dos restaurantes e lanchonetes, consumidores dentro de suas próprias residências.
Outras empresas de menor escala também reforçaram a oferta ao mercado nacional, e o consumo
de batata congelada evoluiu para 700 g per capita em
2007, também segundo dados da McCain. Já em 2012,
o consumo nacional chegou à marca de 314 mil toneladas, o equivalente a 1,6g por habitante, ainda distante
dos 15 kg/ano do europeu.
Estima-se que a unidade argentina da McCain
destine entre 60 e 70% da sua produção para o Brasil.
As vendas da empresa podem crescer ainda mais em
2013, já que comprou, em 2012, a divisão de batatas
da concorrente Pinguin Lutosa, que tinha vendas correspondentes a 10% do que a McCain comercializava
no Brasil.
Outra empresa com inserção significativa no mer-
CONSUMO BRASILEIRO DE BATATAS PRÉ-FRITAS CONGELADAS
(EM TONELADAS)
Fonte: Bem Brasil e McCain. Valores aproximados.
16 - HORTIFRUTI BRASIL - Abril de 2013
TATAS PRÉ-FRITAS CONGELADAS
NDÚSTRIA NACIONAL
cado nacional é a holandesa Farm Frites. Com uma fábrica também instalada na Argentina desde 1996, processa mais de 100 mil toneladas/ano, destinando grande
parte da sua produção para o Brasil.
Até 2006, estimava-se que 98% da batata congelada consumida do Brasil correspondia a produto importado, sendo que o restante vinha de produção quase
artesanal. Com a criação da Bem Brasil em novembro
de 2006 em Araxá (MG), a participação nacional aumentou. Em 2012, aproximadamente 26% das batatas
pré-fritas congeladas consumidas no País podem ter
sido produzidas aqui mesmo – em grande parte, pela
Bem Brasil.
Essa empresa aponta como motivos para a sua expansão problemas burocráticos com a Argentina, especialmente em maio e junho, quando ocorreram mudanças nas licenças de importação, e a valorização do Real.
Além disso, o ganho de confiança do consumidor na
marca também favoreceu crescimento superior a 100%
no volume produzido em três anos (de 2009 a 2012).
E, para os próximos, a empresa estima expansão de 5
a 10% ao ano. Em 2012, a Bem Brasil produziu 82 mil
toneladas de batata processada, com capacidade para
processar 100 mil.
O fortalecimento da classe média impulsiona
a procura por batata processada, tanto para consumo
nos domicílios como nos restaurantes e lanchonetes. A
demanda, entretanto, ainda se concentra nos food services, que utilizam de 80 a 85% do total disponível no
mercado. Com o consumidor se alimentando cada vez
mais fora de casa, a tendência é que isso se mantenha.
A indústria nacional impulsiona toda a cadeia de
suprimentos da batata. Atualmente, estima-se que 10%
da batata colhida no País seja direcionada ao segmento
industrial, não só para a produção da batata pré-frita,
mas também para a batata chips. A tendência é que essa
participação aumente nos próximos anos com a mudança do perfil do consumidor brasileiro.
Para se ter uma comparação, dois terços da produção dos principais países do Noroeste da Europa (Países
Baixos, Bélgica, França, Alemanha e Grã-Bretanha) são
destinados ao processamento industrial.
Apenas França e Grã-Bretanha ainda consomem
pouco mais da metade de suas produções na forma in
natura, embora a batata industrializada já esteja quase
se igualando nesses locais.
PRINCIPAIS DESTINOS DA PRODUÇÃO DE BATATA NA EUROPA EXCLUINDO SEMENTE E AMIDO - EM MILHÕES DE TONELADAS
País
Processada % Fresca%
Países Baixos
3,5
90%
Bélgica
3,4
87% 0,513%
França
1,1
48% 1,252%
Alemanha
3,1
63% 1,837%
2
45% 2,455%
13,1
68% 6,332%
Grã-Bretanha
TOTAL
0,4
10%
Fonte: NEPG (Associação dos Produtores de Batata do Noroeste da Europa, em português) - 2010/11
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 17
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
BRASIL É O QUINTO MAIOR IMPO
As importações ainda são a base do mercado
brasileiro de batatas pré-fritas. Em 2010, segundo a FAO, o Brasil ocupava o nono lugar entre os
maiores importadores de batata congelada.
As importações são direcionadas principalmente para as maiores redes de food service, como
McDonald’s, Burger King e Bob’s. Tradicionalmente, a Argentina tem sido um importante fornecedor
devido principalmente à produção em grande escala das fábricas da McCain e Farm Frites.
As importações de batata congelada do
Mercosul subiram de 59 mil toneladas, em 2002,
para 92 mil toneladas, em 2012, atingindo o pico
de 126,6 mil em 2011. Em meados do ano passado, houve redução devido a problemas burocráticos entre os governos do Brasil e Argentina,
mas, nos últimos meses, tudo tem transcorrido
normalmente.
A grande responsável pelo aumento nas
importações brasileiras de pré-fritas nos últimos
anos, no entanto, não foi a Argentina, mas a União
Europeia. O bloco, que é fornecedor do Brasil des-
de o início do consumo de batatas congeladas no
País, tem aumentado consideravelmente suas vendas de 2010 para cá. O alto volume de produção
europeia, a custos relativamente baixos, e o Real
valorizado fizeram com que as importações saltassem de 57 mil toneladas em 2009 para 136,7 mil
toneladas em 2012, aumento próximo a 140%.
Convertendo-se todas as importações de pré-fritas em 2012, cerca de 232 mil toneladas, em
área plantada, e considerando-se a produtividade média de 30 t/ha no Brasil, tal volume corresponde a quase 15.500 hectares. Se esse volume
importado fosse cultivado no País, a área total de
batata industrial (pré-frita e chips) seria 2,5 vezes
maior que a atual – estimativa do Cepea.
Em relação ao preço, na média de 2012,
a pré-frita europeia foi importada pelo Brasil a
R$ 1,43/kg (valores FOB na origem), alta de 6%
em relação a 2011. Já a importada do Mercosul
entrou ao valor médio de R$ 2,15/kg (valores FOB
na origem), ficando 25% acima do registrado em
2011. Mesmo com os custos mais elevados para
Fonte: MDIC/Secex
IMPORTAÇÕES BRASILEIRAS DE BATATA CONGELADA, POR BLOCO fornecedor (EM KG)
18 - HORTIFRUTI BRASIL - Abril de 2013
RTADOR DE BATATA CONGELADA
trazer a batata congelada da União Europeia para
o Brasil, o menor valor FOB em comparação ao
Mercosul viabilizou a importação.
Em outubro do ano passado, no entanto, a
Câmara de Comércio Exterior (Camex) elevou de
14% para 25% a tarifa de importação de batatas
processadas da União Europeia. A medida faz parte de um conjunto de decisões governamentais que
visam a estimular a indústria nacional. Com isso, é
esperado redução da entrada de batata da Europa
em 2013. Essa tendência é reforçada também pela
diminuição da área plantada naquele bloco. Com
os baixos preços na última temporada, produtores
dos principais países limitaram os investimentos.
De novembro de 2012 a fevereiro de 2013, com
a nova tarifa de importação em vigor, chegaram
ao Brasil pouco mais de 50 mil toneladas de batatas congeladas vindas da União Européia, volume
12,6% inferior ao do mesmo período da temporada passada.
Animada com o consumidor brasileiro, a
McCain estuda abrir uma planta no País nos próximos anos, segundo divulgado na imprensa nacional. Para isso, já está testando cultivares em
diferentes regiões do Brasil. O aumento da tarifa
alfandegária à Europa pode, de certa forma, contribuir ainda mais com o comércio dentro do Mercosul e com a própria produção nacional.
Fonte: MDIC/Secex
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 19
CAPA O aquecido mercado dos vegetais congelados
QUEM SÃO OS PRINCIPAIS EXP
foto: Flávio Irokawa
Em termos de exportação, os líderes 2010
foram Bélgica e Países Baixos. Bem atrás, estavam
Canadá e Estados Unidos, seguidos por França,
Alemanha, Arábia Saudita e Argentina.
Nos últimos dez anos, os Países Baixos e a
Bélgica, principalmente, têm ocupado fatias cada
vez maiores do mercado. A Bélgica passou de 572
mil toneladas exportadas em 2001 para 1.418 mil
toneladas em 2010. A ampla vantagem dos dois
países se deve, entre outros fatores, aos menores custos de produção obtidos graças à elevada
produtividade. Segundo estudos da Agriculture &
Horticulture Development Board, a produtividade
média na Bélgica e nos Países Baixos em 2010 estava próxima de 55 toneladas/hectare. Para efeito
de comparação, o mesmo estudo apontou que, na
França, Alemanha e Grã Bretanha, a produtividade
dificilmente ultrapassava 48 t/ha. No Brasil, segundo informações coletadas pela equipe Hortifruti/
Cepea, produtores de batata para a indústria raramente colhem mais de 40 t/ha.
Os custos por hectare, sem considerar produtividade e destinos da produção, também se
mostram mais elevados no território brasileiro. No
levantamento do Cepea referente à safra das águas
2010/11 no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, o
custo médio da batata in natura beneficiada foi de
R$ 17.809,34 por hectare. No mesmo período, o
valor médio aproximado nos Países Baixos foi de
R$ 12.720,00/ha (5.299 euros), enquanto que, na
Bélgica, foi de R$ 10.500,00/ha (4.378 euros), de
acordo com relatório publicado pela Agriculture &
Horticulture Development Board.
Outro indicativo relevante é obtido a partir da comparação dos preços recebidos pelo
produtor brasileiro, europeu e argentino. Estipulando-se a média de R$ 35,00/sc de 50 kg pago
ao produtor pela indústria nacional e levando-se em consideração que 2 quilos de batata in
natura produzem 1 quilo de pré-fritas congeladas, o custo da indústria brasileira somente com
a aquisição do tubérculo seria de USS 0,70/kg,
praticamente o mesmo valor pelo qual a batata
já processada saiu da União Europeia em 2012
(US$ 0,73/kg, segundo os dados da MDIC/Secex
– porém, a este valor, precisam ser acrescentadas
as despesas de importação. Tal comparação reitera a baixa competitividade nacional frente ao
produto importado da Europa.
Outro fator também de desvantagem para as
PREÇO DA BATATA CONGELADA PRÉ-FRITA IMPORTADA PELO BRASIL (R$ FOB/KG),
VALORES NOMINAIS DE 2002 A 2012
Fonte: MDIC/Secex (preços originais em dólar; conversão feita pelo Cepea)
20 - HORTIFRUTI BRASIL - Abril de 2013
ORTADORES DE BATATA CONGELADA?
iniciativas brasileiras são os custos de processamento. Pela escala que os grandes exportadores
da batata congelada atuam, o seu custo industrial
é inferior ao dos brasileiros, que enfrentam também outros desafios típicos do nosso País.
Assim, para que a indústria e os produtores
nacionais tenham maior participação no mercado
nacional de batata congelada, não basta elevar as
barreiras tarifárias. É preciso maior inovação tecnológica, no campo e na indústria, que permita
a redução dos custos, ou seja, que proporcione
aumento efetivo da competitividade nacional.
CONSUMO DOS VEGETAIS CONGELADOS
DEVE SEGUIR AQUECIDO
O comércio de batatas e outros vegetais
congelados tem se expandido devido ao crescente interesse por alimentos de conveniência,
além da expansão dos food services. A consolidação da mulher no mercado de trabalho é
uma sinalização forte de que essa tendência
deve ser mantida. Além disso, aumentou o
número de pessoas que passaram a morar sozinhas, ampliando a necessidade de produtos
que possibilitem períodos longos de armazenamento e que sejam práticos.
Essas constatações figuram entre os resultados da pesquisa Brasil Food Trends, feita pelo
Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2010, a pedido da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Segundo essa pesquisa, é forte a tendência de
aumento na procura por alimentos que relacionam aspectos saudáveis e nutritivos com a
praticidade de consumo. Dentro desse perfil
de produtos, os vegetais congelados encaixam-se perfeitamente, uma vez que necessitam
de pouquíssima preparação e são saudáveis.
Outra tendência destacada é a demanda por
produtos que sejam mais seguros ou que tenham sua qualidade comprovada, condições
também oferecidas pelos vegetais congelados,
já que possuem marca.
No balanço, observa-se que esse mercado vem absorvendo de forma dinâmica a nova
geração de tecnologia de produção, de colheita e de embalagens, que partem dos insumos
primários e chega à distribuição final. A todos
os agentes da cadeia vale ter em mente que três
quartos das batatas congeladas consumidas no
País ainda são importados. É um segmento que,
com certeza, apresenta oportunidades para os
brasileiros.
Abril de 2013 - HORTIFRUTI BRASIL - 21
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