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bacon e o império da epistemologia indutivista

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bacon e o império da epistemologia indutivista
BACON E O IMPÉRIO DA EPISTEMOLOGIA INDUTIVISTA
Ricardo da Silva Vieira
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Cataguases (Fafic)
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Além Paraíba (Fafi/FEAP)
Resumo: Neste artigo, discorremos sobre a proposta de Bacon (1561-1627)
quanto aos procedimentos que devem ser adotados com vistas à produção de
conhecimento, com suas respectivas críticas à ciência da antiguidade e de sua
época; ressalvamos, também aí, a distinção feita por Bacon entre indução por
enumeração simples, rejeitada por ele, e a indução eliminativa, esta última defendida por Bacon como o legítimo método da ciência. Ensaiamos, outrossim,
uma possível aproximação entre os enfoques metodológicos de Bacon e Popper, pelo fato de ambos valorizarem a evidência negativa. Optamos, no entanto, pela interpretação clássica de Bacon como avesso a conjeturas e ávido
defensor de uma postura estritamente indutivista da ciência.
acon, filósofo e político inglês
do século XVII, é normalmente considerado o precursor do método científico moderno.
Sua contribuição não se deve propriamente ao resultado empírico de
seus trabalhos e, sim, à arquitetura
metodológica que montou para se
fazer pesquisa científica. Sem ser um
cientista, ou filósofo profissional, Bacon aponta os erros das filosofias de
seu tempo e das anteriores, considerando que algumas pecam pela generalização precipitada e outras, por
observações difusas e fragmentárias.
A mente humana, de acordo com ele,
está impregnada de falsas crenças
que contaminam a correta percepção
do mundo, tornando-a uma mera
projeção do que se acredita ser o
mundo e não do que ele realmente é.
Na acepção baconiana, o conhecimento decorre da observação diligente da natureza, envolvendo uma
B
parceria equilibrada entre o intelecto
e os sem
tidos. Do primeiro exige-se total neutralidade, ou seja, o intelecto deve ser
sempre imparcial e, portanto, passivo
diante do que observa; assim como,
dos sentidos, espera-se que sejam
receptores fidedignos do que a natureza lhes revela.
Deixa de haver criação para passar
a existir apenas constatação: os resultados obtidos são conseqüências
inevitáveis da aplicação adequada
das regras estipuladas. E como não
há para o empirismo, sujeito epistêmico, uma vez que o produtor ideal
de conhecimento é simples registrador/catalogador da racionalidade incrustada nos fenômenos investigados, é evidente que o decisivo passa a ser a existência de regras profícuas cuja adequada manipulação
não tem como deixar de conduzir a
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
conhecimentos
1990, p.17)
novos.
(OLIVA,
Bacon diz que a razão sozinha não
tem capacidade preditiva, adquirindo-a somente quando em combinação com a observação. Os métodos
preditivos da razão estão contidos
nas operações lógicas por meio das
quais elaboramos uma ordem com o
material adquirido pela observação
e derivamos conclusões. (REICHENBACH, 1967, p.91)
Assim, o autêntico conhecimento só é
possível quando o homem se dedica
humildemente à observação dos fenômenos, registrando-os passivamente de modo a deles alcançar as
leis que os explicam. O trabalho de
investigação científica é, pois, empírico-analítico, na medida em que implica o acompanhamento cuidadoso
dos fatos, percebendo como se comportam para, a partir daí, integrar as
possíveis constatações sob forma de
leis universais. Com efeito, sem uma
metodologia adequada, pouca serventia têm a observação e o raciocínio e em nada contribuem para o
avanço da ciência. E, na análise de
Bacon, as ciências do século XVII,
bem como as precedentes, não lograram êxito em suas empresas. As supostas conquistas científicas registradas em livros e manuais não passam de estudos dispersos (isolados)
da natureza, sem vínculo algum com
as leis universais (axiomas); daí a
produtividade cognitiva ser casual e
repetitiva, insossa e nada original.
Até agora não se buscaram nem se
recolheram coleções de fatos particulares, em número, gênero ou em
exatidão, capazes de informar de
algum modo o intelecto. (BACON,
1999, p.77)
O homem, segundo Bacon, sob o
influxo de suas paixões ou do legado
da tradição e da educação, tende a
antropomorfizar o que encontra a sua
volta, como se a realidade que o cerca fosse uma mera extensão de seu
pensamento, algo passível de ser
entendido sem exigir da parte do investigador a cansativa tarefa de
acompanhar com meticulosidade os
modos de manifestação e reprodução
dos fenômenos. O fato é que as causas das ocorrências naturais não têm
como ser detectadas por meio dos
sentidos e dos raciocínios imediatos
que facilmente se deixam arrastar
pela precipitação e pela prevenção. A
análise superficial se confunde com
tentativas inarticuladas de domar a
natureza que, por não se submeterem ao império dos fatos, constituem
especulações vazias sem qualquer
teor explicativo.
O conhecimento das leis da natureza
não é apenas expressão do genuíno
saber, mas também meio de colocar
sob controle as forças cegas que se
aninham na natureza. O saber fundamentado na experiência gera conhecimento e este deve ser colocado
a serviço da melhoria das condições
de vida do homem em sociedade. De
acordo com Bacon, a busca de conhecimento vinha mostrando-se falha
e estéril por se basear numa lógica
inútil e num empirismo rústico. A lógi-
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
ca atacada por Bacon é a que se
estriba no silogismo aristotélico,
construído à margem da leitura do
mundo e encarcerado entre as paredes formalistas da dialética. Assim,
quando lança mão de preceitos empíricos, o faz a partir de raciocínios
equivocados, os quais mais confundem que esclarecem.
Então, acontece que buscando o
que está mais além acaba por retroceder ao que está mais próximo, ou
seja, às causas finais, que claramente derivam da natureza do homem e não do universo.
O intelecto humano não é luz pura,
pois recebe influência da vontade e
dos afetos, donde se pode gerar a
ciência que se quer. (BACON, 1999,
p.43). (...) as palavras volvem e refletem suas forças sobre o intelecto,
o que torna a filosofia e as ciências
sofísticas e inativas. (BACON, 1999,
p. 46)
A realidade, de acordo com Bacon,
não pode ser reduzida a construções
lingüísticas, sob pena de comprometer o caráter objetivo do conhecimento. Assim, a inferência que vai
além daquilo que constatamos literalmente, isto é, daquilo que a própria
natureza nos informa, tende a perverter nosso entendimento e induzi-lo
a forjar teorias imaginosas, porém
vazias. O crucial é que a teoria se
caracterize como uma leitura fiel do
que se passa na natureza. Para a
epistemologia baconiana, criatividade
que não encontra total respaldo na
experiência não enseja progresso na
ciência. A inventividade que leva à
confecção de teorias interessantes
precisa ser, o tempo todo, regulada e
controlada pelas atividades de identificação e catalogação dos fatos. Do
contrário, o pesquisador estará criando uma “realidade” que se sobrepõe
à existente. A atividade científica
deve, com efeito, não apenas contemplar a natureza, e sim de interpretá-la de modo rigoroso, livrandose, assim, das fantasias do intelecto,
que são inimigas do conhecimento.
Para se discorrer de forma mimética
sobre o mundo real, salienta Bacon,
não dependemos apenas de sentidos
bem apurados, como querem os empiristas, e adestramento intelectual,
como querem os dialéticos. Necessitamos de um espírito despojado, livre
dos condicionamentos culturais, pessoais e educacionais, bem como de
um intelecto passivo, a fim de, não
lhe sendo possível evitar totalmente a
ingerência da livre imaginação, fazêla interferir o mínimo possível naquilo
que a natureza tem a nos dizer, tem a
nos revelar como “sua” realidade:
De vez que toda ação natural se
cumpre em mínimos graus, ou pelo
menos em proporções que não chegam a ferir os sentidos, ninguém
poderá governar ou transformar a
natureza antes de havê-lo devidamente notado e compreendido.
(BACON,1999, p.106)
Como podemos preparar-nos para
ler o livro da natureza adequadamente, do modo verdadeiro? A resposta de Bacon é: eliminando da
nossa mente todas as antecipações,
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
conjecturas, preconceitos.
PPER, 1972, p.42)
(PO-
Bacon destaca que há duas condutas
metodológicas que podem ser adotadas na investigação da realidade.
Uma é idealista e presunçosa, que
parte de observações particulares
contaminadas de preconceitos, os
quais levam à formulação de enunciados universais, como se fossem
derivados de tais observações, e, só
em seguida, elaboram-se os enunciados intermediários; a outra, realista
e comedida, evita produzir ingerências subjetivas no que observa, ou
seja, contempla a realidade sem preconceitos, observando criteriosamente suas manifestações naturais
para poder traduzi-las em forma de
leis. Não existe, nesse último caso, a
tentativa de ajustar a manifestação
dos eventos naturais ao sistema de
crenças do observador, pois o desvelamento das leis naturais vai se
dando gradualmente e de forma progressiva, prescindindo das interferências ideológicas do sujeito cognoscente.
Bacon denomina a primeira conduta
metodológica de “antecipação da
natureza”, porquanto seus corifeus
não têm paciência para deslindar as
leis de Deus impressas na natureza
e, assim, com o recurso da dialética,
forjam teorias especiosas que deformam o “universo dos fatos” de modo
a adequá-lo às interpretações sobre
ele criadas. Em outras palavras,
substituem o imperativo da “mente
divina” pelo imperativo dos “ídolos da
mente humana”. O grande erro desta
conduta, segundo Bacon, é conferir à
dialética o mesmo status cognitivo
reservado à observação direta da
realidade. Isto porque a dialética lida
com argumentos, que são o produto
da linguagem humana e não fatos
decorrentes da interpretação literal da
natureza. Quanto à segunda conduta
metodológica, Bacon a denomina
justamente de “interpretação da natureza”, pois quem se orienta por ela
expurga o entendimento de todas as
fabulações lingüísticas, próprias da
dialética, para ocupar-se estritamente
daquilo que as observações particulares podem lhe fornecer.
Para efeito de explanação, chamamos à forma ordinária da razão humana voltar-se para o estudo da
natureza de antecipações da natureza (por se tratar de intento temerário e prematuro). E à que procede
da forma devida, a partir dos fatos,
designamos por interpretação da
natureza. (BACON, 1999, p.37)
Assim, os dois métodos são: 1) ‘a
leitura do livro aberto da natureza’,
que leva ao conhecimento ou episteme; e 2) ‘o preconceito da mente
que prejulga erroneamente a natureza, e possivelmente a julga mal’,
levando à doxa, às opiniões e a uma
leitura imprópria do livro da natureza. (POPPER, 1972, p.42)
O método de antecipação da natureza é, segundo Bacon, o procedimento
adotado pelos cientistas antigos e de
seu tempo. Daí a ciência do século
XVII não ter logrado êxito algum em
relação às ciências que a precederam. Os cientistas modernos, afirma
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
Bacon, continuam repetindo os erros
de seus predecessores, pois confundem verdade com consenso. Na
acepção baconiana, uma coisa é a
realidade, outra bem diferente são as
concepções que livremente forjamos
sobre ela. Assim, a unanimidade sobre determinado assunto não é garantia de sua verdade, pois pode ser
que todos estejamos equivocados e,
desse modo, emitamos juízos falsos
sobre os fenômenos observados. No
entanto, adverte Bacon, quando admitimos que a natureza é algo distinto
de nosso pensamento e portadora de
complexidade intrínseca, procuramos
atentar para os possíveis erros interpretativos de nossas teorias confrontando-as com a evidência empírica de modo a, se necessário, corrigilas:
O intelecto humano, mercê de suas
peculiares propriedades, facilmente
supõe maior ordem e regularidade
nas coisas que de fato nelas se encontram. (BACON, 1999, p.41)
Cabia à experiência confirmar a verdade. Somente ela seria capaz de
proporcionar uma verdadeira demonstração sobre o que é verdadeiro ou falso. (KÖCHE, 1999, p.50)
A crença, porém, na verdade de sua
teoria e a satisfação de vê-la confirmada pela experiência, ressalva Bacon, exacerbam o lado passional do
investigador e o remetem a outros
procedimentos confirmadores, tornando-se, cada vez mais difícil, vislumbrar
contra-exemplos.
Estes,
quando acidentalmente se manifes-
tam, são facilmente olvidados ou,
mesmo, não percebidos. Isto porque,
segundo Bacon, a contemplação diligente da natureza tende a causar um
desconforto intelectual muito grande
a quem se dedica a tal empresa, pois
a realidade, livre das fantasias humanas, se apresenta caótica e composta
de uma infinidade de eventos desconexos, que não demonstram nenhuma organicidade entre si. Assim, na
sede de encontrar uma ordem universal e inteligível na natureza, o intelecto incide em interpretativismo
dando vida própria às suas próprias
criações, como, por exemplo, a causa
final de Aristóteles – que é, a seu
modo de ver, um antropomorfismo
tácito das leis da natureza.
Nas ciências que se fundam nas
opiniões e nas convenções é bom o
uso das antecipações e da dialética,
já que se trata de submeter o assentimento e não as coisas. (BACON, 1999, p.38)
À culpa inicial dos gregos, que produziram uma filosofia incapaz de
procriar, veio acrescentar-se uma
segunda culpa ainda mais grave: os
modernos confiaram e confiam o
seu destino àquela estéril filosofia,
substituíram o culto da natureza,
que é obra de Deus, pelo culto de
alguns filósofos da antiguidade.
(ROSSI, 1992, p.65/66)
Bacon denomina de ídolos a tendência que temos de adequar a realidade
às nossas crenças e sugere sua supressão para que o conhecimento se
torne possível. Caracteriza-os como
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
os principais fatores do atraso na
investigação científica. São em número de quatro: ídolos da tribo, ídolos
da caverna, ídolos do foro e ídolos do
teatro. O primeiro grupo compreende
os condicionamentos filogenéticos,
isto é, as limitações e projeções da
espécie humana, que nos fazem conceber o mundo a partir de nossos
sentidos falhos e de nossa imaginação viciada. Sob seu jugo, não explicamos o que se passa na natureza,
apenas lhe aplicamos nossas projeções antropomorfizadoras. O segundo conjunto atua no campo dos componentes ontogenéticos, isto é, dos
condicionamentos pessoais e psicológicos, que nos fazem ver a natureza a partir de nosso estado de espírito. O terceiro grupo concerne à
substituição que fazemos da natureza
e de suas leis por palavras e definições, de modo que nossas discussões girem em torno de termos vazios ou imprecisos, em detrimento do
escrutínio dos fatos. O quarto e último corresponde ao coroamento das
distorções antropomórficas por meio
de visões de mundo. Servimo-nos de
abstrações filosóficas generalistas
para aplicarmos aos fenômenos naturais uma racionalidade que não lhes
pertence, reduzindo-os aos caprichos
da capacidade criativa e fantasiosa
de nosso intelecto, envolto em sofismas e superstições e, assim, prescindindo por completo da interpretação fiel das leis naturais.
Todo estudioso da natureza deve ter
por suspeito o que o intelecto capta
e retém com predileção. (BACON,
1999, p. 46)
Quando a mente humana trabalha
sobre as obras reais de Deus, encontra um limite nelas, mas quando
trabalha apenas sobre si mesma,
como uma aranha que tece sua teia,
fica absolutamente privada de limites e produz tramas admiráveis,
mas frívolas e inúteis. (ROSSI,
1992, p. 68)
O método de interpretação da natureza, ao contrário do método de antecipação mental, não é, segundo
Bacon, um produto da imaginação
humana e, sim, um procedimento
baseado em observações solidamente registradas e catalogadas por
meio de exaustivas ações intelectuais
e sensoriais sobre as múltiplas manifestações das leis da natureza. Tais
investidas, no entanto, estão longe de
ser intervencionistas, como podem
sugerir à primeira vista, porquanto
tencionam apenas registrar as leis
naturais em suas manifestações mais
recônditas e profundas, entendendoas como são de fato e, a partir daí,
modelar a produção científica adstrita
ao que a natureza é na sua essência.
Dessas observações cuidadosamente implementadas, denominadas
“axiomas
intermediários”,
Bacon
sustenta ser possível chegar às verdades universais sem, com isso, lançar mão de conjeturas e teorias
oriundas da imaginação fértil e fantasiosa do espírito humano. Isto porque, segundo ele, as leis da natureza
estão na própria natureza e não no
intelecto do homem. Assim, Bacon
procura, com seu método, esquivarse de qualquer empresa investigativa
que recorra a elementos subjetivos
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
de criatividade ou que os favoreça.
Vale dizer que sua crítica à indução
por enumeração simples decorre
justamente do perigo de esta fomentar a liberdade imaginativa do investigador. Este, ao cingir-se à observação de um número inexpressivo de
fenômenos regulares, tomando-os
como os princípios fundamentais da
realidade, sem levar em conta seus
possíveis contra-exemplos (os quais
apontam para uma interpretação
mais ampla e complexa das leis naturais), lança mão de seu espírito criativo a fim de concluir seu trabalho. Isto
é, ao limitar-se à observação de uma
quantidade exígua e aleatória de fenômenos, o investigador tende a recorrer à imaginação para concluir sua
pesquisa, afastando-se assim da leitura fiel da natureza.
Efetivamente construímos no intelecto humano um modelo verdadeiro
do mundo, tal qual foi descoberto e
não segundo o capricho da razão de
fulano ou beltrano. Porém, isso não
é possível levar a efeito, sem uma
prévia e diligentíssima dissecção e
anatomia do mundo. (BACON, 1999,
p. 93)
Com o nascimento da ciência moderna, ganha força a retórica empirista que começa a conferir função
capital à observação. Passa-se, assim, a sublinhar o papel crucial dos
fatos ou da experiência na formação
e validação das alegações de conhecimento. (OLIVA, 1999, p.61)
Bacon parece sugerir que o progresso do conhecimento se dá pelo con-
flito entre postulações antigas e novas, já que enfatiza serem as instâncias negativas promotoras de descobertas genuínas, na medida em que,
por meio de refutações, as falsas
interpretações da realidade são derrubadas, possibilitando o advento da
interpretação
verdadeira.
Nesse
caso, Bacon pode ser considerado
um precursor do aproximativismo
metodológico proposto por Popper
(1902-1994), pois este considera que
o conhecimento cresce com a eliminação de erros e que o conteúdo
empírico de uma teoria científica reside em seus falseadores potenciais,
ou seja, naquelas deduções empíricas da teoria em teste que a contradizem.
No entanto, tal aproximação metodológica entre Bacon e Popper encontra algumas dificuldades. Uma
delas concerne ao fato de Bacon ter
uma preocupação eminentemente
descritivista e justificacionista, isto é,
ele não está interessado em forjar
conjeturas sobre a realidade e testálas de uma maneira a aceitá-las,
quando muito, de forma provisória, e
sim em desvelar a realidade por meio
de explicações totalmente isentas de
interferências subjetivas e a salvo
dos procedimentos ativistas do intelecto, servindo-se apenas de observações neutras e judiciosas.
Em contrapartida, Popper considera o
conhecimento de um ponto de vista
prescritivista e falibilista, ou seja,
sustenta que as teorias científicas
não são extraídas da natureza, mas
inventadas pelo espírito criativo dos
cientistas e que, por serem entidades
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
lingüísticas, estão sempre sujeitas a
retificações à luz de outras teorias
mais informativas e ousadas, mas
nem por isso comprovadamente verdadeiras, já que também são conjecturais:
Contudo, só a Deus, criador e introdutor das formas, ou talvez aos anjos e às inteligências celestes compete a faculdade de apreender as
formas imediatamente por via afirmativa, e desde o início da contemplação. Certamente essa faculdade
é superior ao homem, ao qual é
concedida somente a via negativa
de procedimento, e só depois no
fim, depois de um processo completo de exclusões, pode passar às
afirmações. (BACON, 1999, p.127)
Penso que o que devemos fazer é
abandonar a idéia das fontes últimas
do conhecimento, admitindo que
todo conhecimento é humano – que
se mescla com nossos erros, preconceitos, sonhos e esperanças; o
que podemos fazer é buscar a verdade, mesmo que ela esteja fora do
nosso alcance. (POPPER, 1972,
p.58)
Em algumas de suas considerações
sobre o perfil desejável do verdadeiro
cientista (Cf. o aforismo XCV do Novum Organum), Bacon parece defender a idéia de que o conhecimento é
fruto da conjugação entre pensamento criativo e experiência. Por
exemplo, quando compara a atividade do cientista idealizado por ele com
a atividade da abelha, Bacon quer
dizer, em última instância, que, na
produção do conhecimento, são importantes tanto a experiência quanto
a razão. Mas é temerário deduzir daí
que Bacon defende um modelo de
produção de conhecimento semelhante ao de Popper, dado o fato de
que a função do intelecto baconiano
restringe-se a dissecar a realidade
limitando-se àquilo que a experiência
fornece e ao tratamento indutivo das
informações, e não construindo livremente hipóteses para testá-las por
meio de técnicas dedutivas. A razão
em Bacon é serva da experiência e,
assim, é incapaz de gerar conhecimento por si. O que ela pode e deve
fazer é acompanhar meticulosamente
as manifestações da experiência,
servindo-se de um método rigoroso
capaz de registrar as variações mais
sutis dos fenômenos naturais e, dessa forma, disciplinar o intelecto de
maneira a torná-lo fiel à experiência.
E não se deve inventar ou imaginar
o que a natureza faz ou produz, mas
descobri-lo. (BACON, 1999, p.109)
Como já aludimos, ao se reportar às
conquistas científicas do passado e
às de seu tempo, Bacon as considera
um produto do acaso, porquanto não
se valeram de um legítimo método de
descoberta. De posse dele não ficariam os pesquisadores submetidos aos
itinerários erráticos de uma imaginação deixada a si mesma. O espírito
criativo se mostra menos importante
quando o método é tido como via
segura de geração de conhecimento.
Nesse sentido, as conjeturas e especulações só dificultam o progresso do
conhecimento científico, na medida
em que intoxicam o intelecto com
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
falsas crenças, forjadas pela imaginação, e, em razão disso, alheias aos
verdadeiros modos de ser da natureza.
Com isso, no entanto, Bacon não
propõe uma ciência insossa, que não
se atreve a ir além do dado imediato;
sua proposta, ao contrário, sugere
que a investigação científica não se
acomode à constatação pura e simples do familiar, tomando o dado
imediato como estéril de um ponto de
vista heurístico, mas que se descubra
nele elementos novos e repletos de
informações sobre os princípios sutis
da natureza. Assim, a diferença que
existe entre a filosofia baconiana e a
escolástica, alvo de freqüentes críticas por parte de Bacon, não reside
no fato de a segunda ser metafísica e
a primeira não, mas no fato de que a
metafísica de Bacon é monitorada
pelo escrutínio da experiência, tendo
vocação praxiológica, ao passo que a
metafísica dos escolásticos se perde
em discussões lingüísticas totalmente
estéreis, de um ponto de vista empírico, e dissociadas da realidade.
Assim, não é de se dar asas ao intelecto, mas chumbo e peso para
que lhe sejam coibidos o salto e o
vôo. É o que não foi feito até agora;
quando vier a sê-lo, algo de melhor
será lícito esperar-se das ciências.
(BACON, 1999, p.81)
Contudo, o que se tem constituído,
de longe, no maior obstáculo ao
progresso das ciências e à propensão para novas tarefas e para a
abertura de novas províncias do saber é o desinteresse dos homens e
a suposição de sua impossibilidade.
(BACON, 1999, p.74)
De fato, as lições e os exercícios
estão de tal maneira dispostos que
não é fácil vir à mente de alguém
pensar ou concentrar em algo diferente
do
rotineiro.
(BACON,
1999,p.73)
Se alguém espera ou promete algo
maior, é acusado como espírito descontrolado e imaturo e diz-se que
em tais iniciativas o início é risonho,
árduo o andamento e confusa a
conclusão. (BACON, 1999, p.74)
Bacon pode ser visto como um precursor remoto da metaciência neopositivista, que considera a produção
científica a única forma possível de
cognição – favorecendo, desse
modo, a interpretação cientista da
ciência, que a encara como autogerada e autojustificada e, assim, nada
devendo a outras modalidades de
saber. A ciência passa, assim, a ser
concebida como a encarnação perfeita da racionalidade, distinguindo-se
das especulações filosóficas pelo fato
de só forjar hipóteses com fundamentum in re, não sofrer influências
ideológicas e não incorrer em impropriedades semânticas. Bacon não é
um filósofo da linguagem, mas sua
preocupação com a pureza da observação e da fidelidade empírica, ao
expressá-las por meio de palavras,
conduziu-o à discussão sobre os significados dos termos empregados
nas formulações teóricas que aspiram a ter caráter científico. A imprecisão terminológica, segundo ele, é
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
uma das grandes inimigas da cognição e uma das principais barreiras de
acesso à realidade. A linguagem para
ser clara e inteligível, ressalta Bacon,
não deve ir além daquilo que a experiência pode oferecer, pois o intelecto
é facilmente enganado por palavras
vãs, tomando-as como adequadas e
apropriadas, quando na verdade não
encontram nenhum respaldo na experiência, que, em última instância, é
o que fundamenta o discurso racional.
É de se esperar algo melhor de alguém que, na idade madura, de plena posse de seus sentidos e mente
purificada, se dedique integralmente
à experiência e aos exames dos fatos particulares. (BACON, 1999, p.
77)
Os homens, com efeito, crêem que
a sua razão governa as palavras.
Mas sucede também que as palavras volvem e refletem suas forças
sobre o intelecto, o que torna a filosofia e as ciências sofísticas e inativas. (BACON, 1999, p. 46)
A teorização não é um procedimento
bem visto pelo empirismo baconiano.
Ela somente é admitida quando se
restringe a ser um decalque da realidade, pois como um descritivista justificacionista, Bacon só considera
dignas de status científico as teorias
que sejam redutíveis à linguagem
observacional. A observação é a
base rochosa sobre a qual os empiristas edificam seu universo discursivo e a indução é o procedimento
metodológico do qual se servem para
legitimar a passagem das experiências particulares aos enunciados universais.
A indução baconiana, como já salientamos, não decorre de um empirismo ingênuo, que acumula os dados da observação prescindindo de
uma metodologia rigorosa; a indução
em Bacon exerce uma função eliminatória, ou seja, pela indução ele
pretende identificar as teorias falsas.
Servindo-se da incompatibilidade
destas com o exaustivo exame das
leis naturais, Bacon parece atribuir
um critério negativo à objetividade
científica, isto é, parece conferir a ela
a função de demonstrar não o que o
mundo é e, sim, o que ele não é.
Mas, tal atitude não chega a comprometer o justificacionismo de Bacon, já que o seu objetivo precípuo é
esvaziar o intelecto de conjeturas e
suposições superficiais, deixando
vigorar apenas as legítimas abstrações, que são extraídas diretamente
da natureza.
Há, no entanto, quem não conceba
Bacon como propriamente um justificacionista
(cf.
PÉREZ-RAMOS,
1988), pois a leitura de algumas passagens do Novum Organum sugere
um Bacon que defende a elaboração
de hipóteses e uma versão fraca do
falibilismo (cf. aforismo CXVIII, por
exemplo). Sem a intenção de minimizar a pertinência de uma leitura nãoortodoxa de Bacon, como a supracitada, mantivemos neste trabalho a
interpretação clássica de um Bacon
justificacionista, por entendermos ter
ela fundamento em textos importantes de sua autoria.
An. Filos. São João del-Rei, n. 10. p. 13-31, jul. 2003
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
Bacon inicia a segunda parte do Novum Organum dizendo que o homem
tem o poder de fazer transformações
substantivas nos objetos do mundo
sensível e que a função da ciência é
proporcionar ao homem conhecimento para tal, desvelando a forma,
ou as leis da natureza. Ao que parece, Bacon acredita que o mundo é
mutante, que naturalmente está sempre passando por modificações, mas
que as mudanças não comprometem
o caráter rígido das leis naturais, pois
estas são tomadas como estáveis e,
assim, não estão sujeitas a variações. Essa amálgama de mudança
com permanência, que remonta às
estratégias platônicas e aristotélicas
de solucionar o impasse entre o ser
parmenídeo e o devir heraclitiano, é
considerada por Bacon à luz da distinção que ele estabelece entre o que
podemos apreender por meio dos
sentidos e o que escapa à jurisdição
destes.
Como já tivemos oportunidade de
salientar, Bacon distingue a ciência
do saber vulgar, considerando a primeira como promotora do conhecimento indubitavelmente certo e o
último como formado por crenças
equivocadas, resultantes do vício
humano de interferir com seus mitos
e preconceitos na ordem natural das
coisas. O vulgo, nesse caso, não tem
dificuldade de criar teorias mirabolantes servindo-se de parcas observações, desconsiderando a dinâmica
da natureza, pois conta com fértil
imaginação que desponta como capaz de autorizá-lo a fazer prognósticos temerários como se fossem absolutamente óbvios. E, desse modo,
não corre risco de ser desmentido,
em suas criações intelectuais, pela
realidade.
O verdadeiro cientista, segundo Bacon, procura não interferir com avaliações subjetivas sobre o que observa, cuidando apenas de interpretar a
natureza em total conformidade com
o que exibe, descrevendo diligentemente as regularidades e nuanças
em seus modos de ser. O erro do
vulgo reside, assim, na confiança
demasiada que deposita na informação dos sentidos e na imaginação do
intelecto, quando a conduta correta,
de acordo com Bacon, deveria ser
disciplinar os sentidos e censurar a
imaginação, guiando-se por meio do
legítimo método da ciência: a indução
por eliminação.
A admiração pelas doutrinas e artes,
por si mesma bastante singela e
mesmo pueril, foi incrementada pela
astúcia e pelos artifícios dos que se
ocuparam das ciências e as difundiram. Pois, levados pela ambição e
pela afetação, apresentam-nas de
tal modo, ordenadas e como que
mascaradas que, ao olhar dos homens, pareceriam perfeitas em suas
partes e já completamente acabadas. (BACON, 1999, p. 68)
Há tanta distância, em matéria filosófica, entre essas fantasias e as
artes verdadeiras, quanto em história, entre as gestas de Júlio César
ou de Alexandre Magno e as de
Amadis de Gaula ou de Artur da
Bretanha. (BACON, 1999, p. 69)
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
A indução, na visão baconiana, não
decorre simplesmente do acúmulo de
dados sensoriais, normalmente contaminados por crenças e opiniões
equivocadas, e, sim, do processamento adequado – classificação e
catalogação – dos fatos que se oferecem dispersos à observação. A
investigação baseada na indução
encerra espírito de vigilância crítica
em virtude de não poder conferir valor absoluto às instâncias confirmadoras, isto é, aos casos circunscritos
num universo exaustivamente observado, e priorizar novas experiências,
que podem dar conhecer manifestações inusitadas dos fatos e eventos
anteriormente acompanhados. Por
isso, corre o pesquisador sempre o
risco de, em suas atividades, se deparar com contra-exemplos, ou seja,
experiências que joguem por terra as
teorias até então referendadas pelos
fatos.
O contra-exemplo, enquanto instância negativa, ameaça a teoria que
vinha sendo, até o momento em que
é encontrado, confirmada. O fato de o
pesquisador ter conseguido, ao menos com relativo sucesso, colocar
sob controle as possíveis fontes de
contaminação subjetiva não significa
que a teoria que elaborará com desvelo não possa vir a ser derrubada
por uma evidência discrepante das
que tinham sido acumuladas. O estudioso pode se empenhar no sentido
de rechaçar a ação insidiosa dos
ídolos, para assim poder produzir
uma interpretação fidedigna da natureza, mas não tem como evitar a
eventual ocorrência de uma instância
negativa capaz de decretar a derro-
cada de uma teoria elaborada em
contato íntimo com os fatos.
Se a interferência de hipóteses, por
serem interpretações imaginativas,
pode perverter a pesquisa, isso não
quer dizer que os resultados por ela
alcançados sejam definitivos desde
que se restrinja ao “levantamento de
dados”. Controlar o pendor à antropomorfização não é garantia de que
a descrição literal do mundo natural
não terá que se revista pela constatação, por exemplo, de quebra de
uma regularidade. A possibilidade do
erro ronda, por isso, até mesmo o
processo heurístico da pura ciência
tal qual a concebe Bacon. A ruptura
com os mitos e a imaginação anárquica são o passo preliminar à investigação científica de modo a torná-la
epistemologicamente confiável. Mas
o trabalho de investigação neutro e
impessoal pode não coincidir com a
natureza tendo em vista a possibilidade de esta apresentar evidência
contrária ao que vinha sendo observado:
(...) o intelecto humano tem o erro
peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando
deveria rigorosa e sistematicamente
atentar para ambos. Vamos mais
longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as
instâncias
negativas.
(BACON,
1999, p.42)
A indução por eliminação afasta do
empirismo os rótulos de “ingenuidade
epistemológica” que freqüentemente
lhe são pespegados. Permite que se
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
fale até de uma tradição empirista
com vocação crítica na medida em
que considera que nenhuma pesquisa séria pode se contentar com os
exemplos de evidência que ratificam
a teoria perfilhada (pela comunidade
científica). É inovadora, à época de
Bacon, a atitude que se propõe a
levar em conta todas as possíveis
situações empíricas com ênfase especial para as que podem vir a colocar em risco a integridade explicativa
da teoria, ou seja, a correspondência
de seu conteúdo ao que o mundo é
realmente.
Bacon critica tanto os filósofos antigos quanto os modernos por entender que ficam deslumbrados com os
êxitos de suas teorias, não se dando
conta de seus insucessos. Tal narcisismo metodológico bloqueia a reflexão crítica e, com isso, dificulta o
progresso do conhecimento. A facilidade de se deixar seduzir pelas primeiras impressões decorre, segundo
Bacon, não de incompetência intelectual para lidar com questões complexas e, sim, da ausência de uma
metodologia adequada, que restrinja
a atividade da imaginação à construção impedindo-a de contaminar a
interpretação .
Bacon, por sustentar o mundo natural, com suas leis, é bem mais complexo que os sentidos e a razão, não
se ilude com as primeiras impressões
ou idéias que se costuma ter sobre a
natureza de determinado evento. É
fundamental destrinçar toda a complexidade que envolve os mobiliários
do mundo natural. O autêntico método é o que permite elucidar qualquer
tipo de fenômeno, seja físico, mental
ou social, identificando-lhe as causas.
Assim como a dialética dos escolásticos não conhecia fronteiras, tratando
de questões factuais como adstritas a
operações da mente, a indução baconiana também não exclui evento
algum de seu programa de pesquisa.
Há, contudo, segundo Bacon, uma
diferença substantiva entre seu método e o dos dialéticos: enquanto
estes trabalham como a aranha, fazendo da dialética um fulcro lógico
para a extração de suas fantasias, o
método baconiano, à semelhança do
procedimento adotado pela abelha,
une o poder do mundo mental ao do
mundo físico para sintetizar o conhecimento, que nem é produto da especulação intelectual, nem é resultado
do acumulo aleatório de impressões
sensíveis, mas sim a explicação das
formas que dão identidade aos fenômenos:
Não se admirem, pois, os homens
de que o curso das ciências não tenha tido andamento, visto que, ou a
experiência foi abandonada, ou nela
(os seus fautores) se perderam e
vagaram como em um labirinto; ao
passo que um método bem estabelecido é o guia para senda certa
que, pela selva da experiência, conduz à planura aberta dos axiomas.
(BACON, 1999, p.65)
A idéia de que o gênero humano se
perdeu a si próprio e avançou tateando, como um cego, pelo caminho
difícil do saber é um dos elementos
centrais da filosofia de Bacon.
(ROSSI, 1992, p.63)
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O cientista baconiano deve se mostrar fiel ao que a indução por eliminação exige de suas operações mentais; assim como é fundamental que
ele se purifique de todos os preconceitos a fim de que os mesmos não
interfiram no desenvolvimento da
investigação; tão logo esteja livre das
interferências da vontade e imaginação, o cientista baconiano deve contemplar com neutralidade, paciência
e rigor a natureza do evento em estudo. Como, porém, esta etapa é por
demais complexa, na medida que
envolve uma infinidade de instâncias
interligadas (não sendo possível, com
apenas um olhar, por mais cuidadoso
que seja, sobre o referido evento, vir
a elucidar as leis universais que o
regem), faz-se necessário inventariar
as várias situações em que o evento
em estudo ocorre, as que ele não
ocorre, bem como as que ele ocorre,
quando não é esperado, e as que ele
não ocorre, quando é esperado. Tal
inventário consta basicamente de três
tábuas: a tábua de essência ou de
presença (registro de ocorrência do
evento em estudo); a tábua de desvio
ou de ausência (registro de nãoocorrência do evento estudado); a
tábua de graus ou de comparação
(registro das variações graduais de
ocorrência do evento).
Mas, na verdade, a história natural e
experimental é tão vária e ampla
que confunde e dispersa o intelecto,
se não for estatuída e organizada
segundo uma ordem adequada. Por
isso devem ser preparadas as tábuas e coordenações de instâncias,
dispostas de tal modo que o inte-
lecto com elas possam operar. (BACON, 1999, p.109)
Com o emprego das três tábuas e o
destaque dado à indução eliminativa,
Bacon acredita ser possível a superação gradual dos erros e enganos na
atividade filosófico-científica. Segundo ele, não é função do investigador
sério, comprometido com a busca da
verdade, criar ou imaginar coisa alguma, mas sim deixar que a realidade se revele por meio da investigação
metódica e infatigável, desprovida de
qualquer tipo de preconceito ou juízo
antecipatório. Bacon, ao que parece,
concebe a identificação das leis naturais como algo semelhante ao “projeto genoma” da engenharia genética
contemporânea. Assim, como há por
parte de muitos geneticistas contemporâneos a crença arraigada de que
os grandes problemas da humanidade podem ser solucionados pela decifração e retificação do código genético e o comportamento humano pode
ser inteiramente explicado pela relação normal ou anormal entre neurotransmissores, o pesquisador baconiano sustenta ser possível mapear a
natureza, partindo de suas manifestações mais explícitas até as suas
manifestações menos tangíveis, ou
mesmo ocultas. Bacon serve-se, para
tanto, de conceitos como “processo
latente” e “esquematismo latente” e
se empenha para conciliá-los com a
estrita aplicação do método indutivo.
Quanto mais a investigação se dirige às naturezas simples tanto mais
se aplainam e se tornam perspicazes às coisas, passando o objeto do
multíplice ao simples, do incomen-
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surável ao comensurável, do insensível ao calculável, do infinito e vago
ao definido e certo, como ocorre
com as letras do alfabeto e com as
notas da música. (BACON, 1999,
p.108)
Para entendermos a estratégia de
resolução de problemas no justificacionismo baconiano, faz-se necessário identificar sua ontologia. Bacon é,
de um ponto de vista metafísico, um
realista, ou seja, concebe o mundo
natural como algo objetivo, isto é,
distinto e independente de nosso
pensamento. Admite, outrossim, que
a natureza é regida por leis que lhe
são inerentes e que o entendimento
humano é incapaz de apreendê-las
diretamente. Considera tais leis equivalentes à causa formal de Aristóteles, a única, aliás, que Bacon acredita
poder se mostrar promotora fiel da
verdade. A descoberta da forma, segundo Bacon, implica o acesso às
operações primárias, simples, que
constituem os corpos complexos do
mundo natural, de tal sorte que quem
dela se servir será capaz de realizar
feitos prodigiosos, como, por exemplo, proporcionar transformações
mutacionais entre objetos os mais
distintos possíveis. A causa formal,
na acepção baconiana, ao contrário
da causa final (esta considerada por
Aristóteles como a mais importante),
não corresponde a uma antropomorfização da natureza e, sim, à descoberta de seus princípios fundamentais e, conseqüentemente, à possibilidade de um aumento substantivo do
poder do homem sobre a natureza,
dominando-a, na medida em que
submete sua atividade intelectual ao
acompanhamento diligente de suas
ocorrências e eventos:
Mas o que conhece as formas abarca a unidade da natureza nas suas
mais díssimeis matérias e, em vista
disso, pode descobrir e provocar o
que até agora não se produziu, nem
pelas vicissitudes naturais nem pela
atividade experimental, nem pelo
próprio acaso e nem sequer chegou
a ser cogitado pela mente humana.
Assim é que da descoberta das formas resultam a verdade na investigação e a liberdade na operação.
(BACON, 1999, p.102/103)
Porém, conquanto enalteça a causa
formal, tomando-a como a promotora
das operações mais radicais e profundas que podem ser realizadas
pelo homem, Bacon admite que ela
não tem como fazer parte da agenda
da ciência de seu tempo, devendo,
por isso, ser descartada como estratégia de resolução de problemas,
ficando esta entregue a procedimentos menos ambiciosos, mas mais
eficazes. Tais procedimentos, assegura Bacon, não partem da conjugação de naturezas simples e de conseqüentes deduções advindas da
referida conjugação e, sim, da observação meticulosa dos corpos concretos, em seu curso natural ordinário, que é sensorial, para o desvelamento gradual do processo e esquematismo latentes. Estes, segundo
Bacon, conduzem aos constitutivos
primários, imutáveis e absolutos que
correspondem, em última instância,
às leis ou formas da natureza (natureza naturante). Ao que parece, o
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processo latente é a expressão dinâmica do esquematismo latente,
que, por sua vez, está intimamente
vinculado à forma (lei) da natureza.
Bacon, no entanto, adverte que o
processo latente está longe de ser
algo empiricamente obvio, porquanto
envolve um emaranhado de experiências, que normalmente concorre
para confundir o entendimento ao
invés de esclarecê-lo, além de implicar um desenvolvimento contínuo,
que muitas vezes escapa ao âmbito
sensorial. Por isso, Bacon faz questão de enfatizar que a elucidação do
processo latente não deve ser feita
amparando-se na indução cumulativa, decorrente da prática usual do
empirismo ingênuo, mas servindo-se
do constante auxílio da razão contemplativa conjugada ao escrutínio
experimental, gerando, assim, o verdadeiro método indutivo, ou seja, a
indução por eliminação.
O processo latente de que falamos
está longe daquilo que pode ocorrer
à mente dos homens, com as preocupações a que ora se entregam.
Não o entendemos, de fato, como
medidas, ou signos ou escalas dos
processos visíveis dos corpos, mas
como um processo continuado, que
na maior parte escapa aos sentidos.
(BACON, 1999, p.106)
O universo cognitivo de Bacon é, por
assim dizer, dividido em dois estratos
fundamentais: um que trata das formas, que correspondem às leis eternas e imutáveis da natureza, sendo
por isso de caráter metafísico e teológico; e outro que trata do processo
e esquematismo latentes, que parte
do exame da manifestação sensível
dos fenômenos naturais, diligentemente monitorado pela indução eliminativa e que, portanto, encerra
caráter científico. O conhecimento da
forma, na interpretação baconiana,
corresponde à própria essência ou ao
princípio de diferenciação da natureza, de modo que os eventos naturais
só se sustentam na presença de sua
respectiva forma. Esta, no entanto,
como salienta Bacon, por ser de âmbito teológico-metafísico, não deve
ser o ponto de partida do verdadeiro
método de interpretação da natureza
(embora seja, inexoravelmente, o seu
ponto de chegada), na medida em
que tal intento pode concorrer para o
emprego inadequado do intelecto na
investigação científica, suscitando o
espírito fabulador, o qual, pela contemplação indisciplinada, tende a
forjar a fictícia causa final e ofuscar a
causa formal, que expressa a verdadeira descrição da natureza e sua
legítima justificação.
O procedimento correto do cientista
baconiano é, pois, extrair os axiomas,
ou as formas (leis) fundamentais, da
observação da natureza, purificando
a verdade das construções “ficcionais”, de modo gradual, pela eliminação de falsos juízos que venham de
encontro ao que é dado pela observação neutra (esvaziada de mitos) da
realidade. Para que tal procedimento
corresponda à legítima indução, fazse necessário, segundo Bacon, um
controle rigoroso e constante dos
sentidos, da memória e da razão, já
que a constatação da verdade depende da draconiana disciplina de
ambos.
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VIEIRA, Ricardo da Silva. Bacon e o Império da Epistemologia Indutivista
Assim, a investigação das formas
que são (pelo seu princípio e lei)
eternas e imóveis constitui a Metafísica. A investigação da causa eficiente, da matéria, do processo latente e do esquematismo latente
(que dizem respeito ao curso comum e ordinário da natureza, não a
leis fundamentais e eternas) constitui a Física. E a elas subordinam-se
duas divisões práticas: à Física, a
Mecânica; à Metafísica, a Magia
(depois de purificado o nome), em
vista das amplas vias que abrem e
do maior domínio sobre a natureza
que propiciam. (BACON, 1999,
p.108)
Bacon pensa, desse modo, ter encontrado o caminho que conduz à
descrição literal da natureza. Pelo
esvaziamento de toda herança cultural e dos impulsos individuais, o pesquisador baconiano torna-se livre de
preconceitos e, assim, pode registrar
diretamente os fenômenos naturais,
interpretando-os como manifestações
de uniformidades e não como fabulações da subjetividade humana, projetadas sobre as ocorrências dos
eventos sensíveis.
A verdadeira contemplação, seguindo
esse raciocínio, serve-se da indução
eliminativa, tendo em vista que, dada
à série de imbricações entre os fenômenos observáveis, torna-se impossível discernir entre uma lei e outra caso não se faça um rastreamento
diligente, gradual e seletivo dos
eventos envolvidos na pesquisa. De
acordo com Bacon, pela contemplação neutra da realidade, somada à
indução eliminativa (sendo esta forjada a partir das tábuas de investigação), tem-se como resultado cognitivo a comprovação da verdade, isto é,
a contemplação real e inteligível da
natureza que permite ao entendimento não ser mais escravizado aos
caprichos das crenças e ideologias
humanas, nem ficar à mercê de concepções duvidosas, ou mesmo caóticas, a respeito dos fenômenos observados e de suas respectivas leis.
O saber é, pois, na acepção baconiana, um conjunto de procedimentos
que ensejam o gradual domínio da
natureza. E tal domínio depende, o
que configura um aparente paradoxo,
da total subserviência do pesquisador
ao que constata na realidade.
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