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Shakespeare, Suassuna e o mercador de Taperoá

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Shakespeare, Suassuna e o mercador de Taperoá
REVISTA LITTERIS No 2 ISSN: 1982-7429
Maio 2009
www.revistaliteris.com.br
Shakespeare, Suassuna e o mercador de Taperoá
Elisângela Aparecida Zaboroski de Paula 1(UFSC, Florianópolis, Brasil)
Resumo
A microssérie televisiva (1998), posteriormente adaptação cinematográfica (2000), O Auto
da Compadecida, feitas por Guel Arraes e baseadas na obra do escritor paraibano Ariano
Suassuna (1927) tratam-se de uma releitura, de uma recriação tanto de Suassuna quanto de
William Shakespeare e sua peça O Mercador de Veneza [The Merchant of Venice]. Guel
Arraes utilizou-se de elementos intertextuais para uni-los, retirando de Suassuna o enredo
da peça e de Shakespeare os pontos que se ligam à obra do escritor paraibano.
Palavras-Chave: Shakespeare – Suassuna - Cultura Popular – Medievalismo – Apropriação
Abstract
The television microseries (1998), and subsequent cinematograph adaptation (2000) O auto
da Compadecida, produced by Guel Arraes and based on Parahiban writer Ariano
Suassuna’s work is a rereading, a recreation from Suassuna as well as from William
Shakespeare and his play The merchant of Venice. Guel Arraes used intertextual elements
to unite the two writers, removing the plot from Suassuna’s work and from Shakespeare has
strong influence of medieval theatre and especially of North-eastern popular culture.
Key-Words: Shakespeare – Suassuna – Popular Culture – Medievalism – Appropriation
APROPRIAÇÕES NA PEÇA AUTO DA COMPADECIDA
Auto da Compadecida (1955) é uma das peças mais importantes de Ariano
Suassuna (1927), possui suas raízes na tradição cultural do Ocidente, tanto pelo aspecto
temático, transmitido através de um Romanceiro, quanto pelo aspecto religioso. Suassuna
recolheu de Leonardo Mota, alguns elementos para a produção do Auto da Compadecida.
Segundo Bráulio Tavares, “foi nos livros de Leonardo Mota que ele recolheu, anos depois,
alguns episódios cômicos de origem popular que enriqueceram o Auto da compadecida”.
(TAVARES, 2007, p. 26.)
1
Formada em Letras – Português / Inglês pela Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da
Vitória – PR, atualmente cursa mestrado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC.
Endereço eletrônico: [email protected]
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Suas matrizes são os folhetos de cordel e um entremez do próprio autor, o mesmo
intitulado como O Castigo da Soberba (1953), sendo esse religioso e sério, todo cantado
em versos de sete sílabas e também rimados aos pares como no cancioneiro nordestino e
também no cancioneiro medieval. Segundo Vassallo, o “Auto da Compadecida é a peça
mais festejada do escritor paraibano [...], suas matrizes são os folhetos populares e o
entremez “O Castigo da Soberba”. (VASSALLO, 1993, p. 85.)
O primeiro ato da peça baseia-se no O enterro do cachorro, história que Suassuna
encontrou no livro de Leonardo Mota (Romanceiro popular), porém mais tarde veio saber,
por intermédio do pesquisador Evandro Rabello, que a peça anônima que estava no livro
Violeiros do Norte do respectivo autor era fragmento de O dinheiro do cantador Leandro
Gomes de Barros (1865 – 1918). O segundo ato baseia-se na História do cavalo que
defecava dinheiro, romance anônimo, registrado por Leonardo Mota. Já o terceiro ato
provém de O castigo da soberba, auto popular anônimo, e de A peleja da alma, de Silvino
Pirauá Lima, ambos retomados pelo entremez de Suassuna intitulado também como O
castigo da soberba. Provém ainda do Romanceiro a cantiga de Canário Pardo, utilizada por
João Grilo como invocação a Virgem Maria.
Ainda do entremez de Suassuna retiramos o nome da Compadecida e a estrofe com
que o palhaço encerra o espetáculo pedindo dinheiro. Comparando-se cada peça com a
fonte popular que lhe dá origem, percebemos a preferência de Suassuna ao texto e a cultura
popular.
Devemos destacar também que para a produção dessa peça Suassuna inclui nela,
elementos circenses, evidenciados não só pela figura do palhaço, mas, também pela forma
de auto, pela maneira de encenação da peça, pelo cenário, pois a mesma poderia ser
encenada utilizando-se apenas uma cortina e algumas cadeiras. Para Newton Júnior,
“percebe-se a presença de uma “estética circense” no Auto da Compadecida a partir mesmo
das considerações do autor acerca da encenação da peça [...], o cenário pode realizar-se
apenas com cortinas e cadeiras de espaldar alto”. (NEWTON JÚNIOR, 2000, p. 84.)
E é através dessas fontes, onde Suassuna inspira-se, que podemos afirmar quão
nosso escritor busca inspiração na cultura popular e como é adepto à técnica de apropriação,
as quais fizeram enriquecer sua peça. Apropriações estas que Shakespeare também utilizou,
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para a maioria de sua produção dramática. Suassuna utiliza-se de Shakespeare como uma
fonte de inspiração, e não o cita explicitamente como tal, pelo fato de hoje Shakespeare ser
considerado erudito, mesmo quando é evidente a apropriação. Suassuna deseja aproximarse do popular, por isso expressa primeiramente sempre suas fontes populares.
APROPRIAÇÕES FEITAS POR SHAKESPEARE EM O MERCADOR DE VENEZA
Sabe-se que Shakespeare também era adepto a apropriações, advindas da oralidade,
ou mesmo de outros escritos, e sabendo-se que ele os utilizou como recurso no próprio
Mercador, o qual deriva de duas outras fontes (fontes estas acessíveis ao poeta inglês), e de
uma possível terceira fonte. Essas são peças dotadas de características tradicionais, e assim
temos a evidência desse fato e das recriações que Shakespeare fazia. “A trama de O
Mercador de Veneza é o resultado da mistura de duas outras de origens diversas, mas
dotadas ambas de fortes características de narrativas tradicionais, como os contos de fadas
ou os do folclore”. (HELIODORA In: SHAKESPEARE, 1999, p. 06.)
A história de pagamento da dívida de uma “libra de carne” poderia ser encontrada
em inúmeras fontes, sendo que duas seriam de fácil acesso a Shakespeare, sendo uma delas
de origem popular intitulada como A balada da crueldade de Geruntus, que data de antes
de, 1590 (sendo que o Mercador só foi publicado em 1600) e O orador, uma coletânea de
orações dentre as quais se encontra a que leva o título De um judeu, que queria, por uma
dívida, obter uma libra de carne de um cristão.
Existe talvez mais uma fonte, de onde possivelmente Shakespeare tenha buscado
inspiração, trata-se de uma peça intitulada O judeu, a qual é descrita por Stephen Gosson,
em 1576. A mesma trabalha com temas como a avareza e como ela pode dominar a mente
humana, mas infelizmente não existe qualquer possibilidade de comprovação dessa terceira
fonte, pois a suposta peça desapareceu antes que fosse realizado qualquer estudo
comparativo com o Mercador. Segundo Barbara Heliodora, “O fato de Shakespeare
raramente compor enredos originais é tão universalmente conhecido quanto o de seu
tratamento de antigos enredos ser o que coloca sua obra em nível tão acima do de suas
fontes”. (HELIODORA, 1997, p. 263.)
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E estas fontes, nas quais Shakespeare baseou-se são fatos decisivos em relação ao
poeta ser adepto a apropriação.
GUEL ARRAES A AS APROPRIAÇÕES D’O AUTO DA COMPADECIDA E D’O
MERCADOR DE VENEZA
Com o surgimento do cinema, deparamo-nos com uma arte nova, tratando-se da
capacidade de narrar, com recursos próprios, uma história já contada, surge, a partir daí, a
prática de transformar obras literárias em filmes, ou seja, adaptar uma obra literária para
uma versão cinematográfica, pois de acordo com Thaïs Flores Nogueira Diniz, “O que se
entende normalmente por adaptação é, pois, a versão cinematográfica de uma obra de
ficção. Essa é a razão de, ao se abordar o tema adaptação, pensar-se prioritariamente em
uma fonte literária”. (DINIZ, 2005, p. 13.)
Sendo que a preocupação principal é se a adaptação para o cinema consegue captar
todos os elementos da narrativa literária (enredo, personagens, entre outros), ou seja,
verificar “a fidelidade do filme à obra de ficção”. (Idem. Ibidem.)
Porém o cineasta pode utilizar-se de elementos intertextuais, fazer apropriações sem
que a obra perca sua essência, mas sim sofrendo transformações e transmutações
necessárias para que a sua “nova” versão fique mais atrativa aos olhos do público.
Utilizando-se destes preceitos de adaptação e apropriação e sabendo-se da
admiração que Suassuna nutre por Shakespeare, Guel Arraes incorporou elementos d’O
Mercador de Veneza de a microssérie televisiva e a adaptação cinematográfica do Auto da
Compadecida, do escritor paraibano, que na televisão e cinema passou a chamar-se O auto
da Compadecida, permanecendo a forma de “Auto” apenas no título.
Essa apropriação fica bastante evidente no episódio da “libra de carne” ou, “tira de
couro”, como foi adaptado. Nesse episódio em O auto, ocorre uma das apropriações do
Mercador, ato I, cena III, onde Antônio pede dinheiro emprestado a Shylock (o judeu),
sendo que o dinheiro seria utilizado por Bassânio, seu grande amigo, para conquistar Pórcia,
e que Antônio promete pagar em três meses ao judeu. O judeu, porém como garantia do
pagamento da dívida, pede uma “libra de carne” de Antônio, sendo que se o mesmo não
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honrasse a divida, perderia sua “libra de carne”. Já em O auto, o Major Antônio Moraes
cede a mão de Rosinha (sua filha) a Chicó, que se diz muito rico, porém nada possui, e
pede o pagamento do dote da mesma no dia do casamento. Como garantia desse pagamento,
o Major pede uma “tira de couro” das costas de Chicó, se ele desonrar a dívida perde sua
“tira de couro”.
Outro caso de apropriação ocorre através da personagem Rosinha, advinda
primeiramente de duas outras peças de Suassuna; A pena e a lei e Torturas de um coração,
sendo que a personagem aparece com o nome de Marieta e posteriormente nos remete a
Pórcia, a primeira grande heroína shakespeariana, pois Pórcia, auxiliada por Nerissa, vai
vestida de homem até o tribunal onde Antônio está sendo julgado e salva-o, dizendo que no
contrato fala-se de uma “libra de carne”, porém nada é mencionado sobre sangue, e,
portanto, não pode haver sangue nessa retirada da “libra de carne”, o que é impossível.
Assim, Shylock só poderia retirar a “libra de carne” de Antônio se nenhuma gota de sangue
escorresse. Como isso não é possível, com esse argumento Pórcia salva Antônio.
Em O auto, ocorre uma cena semelhante, Rosinha, com o auxílio de João Grilo,
salvam Chicó com o mesmo argumento. Dizem ao Major Antônio Moraes que ele pode
retirar a “tira de couro” das costas de Chicó desde que nenhuma gota de sangue escorra do
mesmo, e como isso é impossível Chicó livra-se da pena.
Outro ponto onde se pode estabelecer uma analogia entre as duas peças são as arcas
de Pórcia que nos remetem à porquinha de Rosinha, que ela herda como herança de sua avó.
Pórcia “herda-as” de seu pai com o mesmo intuito: Casamento. Porém a porquinha de
Rosinha possui dinheiro dentro, para que assim ela possa casar-se. Já as arcas de Pórcia,
que são em um total de três, requerem um pouco mais de habilidade para que ela possa
utilizá-las para os fins matrimoniais, pois cada pretendente de Pórcia deve escolher dentre
as três, uma arca, se na arca escolhida estivesse escrito o nome de Pórcia o felizardo teria o
direito de casar-se com ela e herdando com isso toda sua fortuna, mas se escolhesse a arca
errada deveria partir e jamais revelar a ninguém a arca escolhida.
Temos ainda o tribunal, outro ponto de ligação, que em O auto é um tribunal
celestial, aonde João Grilo vê-se morto, diante de Deus e do diabo. Em O Mercador temos
o tribunal terreno onde se passa a cena do julgamento de Antônio, aonde o mesmo vê-se
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sem salvação diante de Shylock, que aqui nos remete a figura do diabo, o qual condena
Antônio sem piedade.
Outro ponto de ligação, pensando ainda na cena do julgamento, é a questão de quem
intercede por João Grilo e por Antônio, sendo que em O auto, João Grilo pede que a
Virgem Maria se compadeça de sua vida tão sofrida no sertão da Paraíba, de ter passado
fome, etc. João Grilo espera que a Virgem Maria rogue, que interceda por ele diante de seu
filho Jesus Cristo. Já no Mercador, Antônio vê em Pórcia, de certa forma, a Compadecida,
a mulher que roga, que intercede por ele diante de todos inclusive de Shylock. E mesmo
Pórcia estando vestida de homem não perde sua semelhança com a Virgem Maria, pois as
duas ocupam a mesma função, em peças diferentes. Uma intercede do céu por João Grilo e
a outra intercede da terra por Antônio.
Pórcia é retratada por Shakespeare como sendo humanizada, jovem herdeira que
teve de assumir, com a morte do pai, o controle de suas grandes propriedades. E é
exatamente esta humanização celestial que é também herdada pelo poeta inglês do teatro
religioso da Idade Média, refletida em suas peças e também em seus personagens que
apresenta aspectos dessa ligação de Shakespeare com o teatro brasileiro.
No Ato IV do Mercador, com a grande cena do julgamento, é, em termos
humanizado, um Auto da Compadecida, pois não é outra a situação na exemplar
peça de Ariano Suassuna, que reconhecidamente buscou sua inspiração nos autos
medievais. Em O Mercador de Veneza. Pórcia age com uma seriedade que faria a
moça secularizada evocar na platéia a figura da Virgem Maria de O Auto da
Compadecida. (HELIODORA, 1997, p. 229.)
Lembremos ainda que Pórcia é dotada de uma astúcia, da qual utiliza-se muito bem
para salvar Antônio, assim como João Grilo utiliza astúcia para livrar-se das aventuras e
problemas que passa no sertão da Paraíba ao longo da peça e do filme.
APROPRIAÇÕES DE SHAKESPEARE EM SUASSUNA
Ariano Suassuna é adepto a apropriações tanto dos folguedos populares do Nordeste
quanto dos autos medievais. Sabe-se que ele sempre admirou William Shakespeare, sua
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obra testemunha a presença do poeta inglês, como nas recriações de episódios
shakespearianos.
Quando falamos que um autor apropriou-se de outro, estamos nos referindo aos
diversos elementos incorporados de outros autores por um determinado escritor, porém, o
escritor produz sua obra incorporando nela elementos de seu mundo particular, suas
experiências vivenciadas, as quais, só ele é capaz de definir. E apropriar-se de um texto é
também modificá-lo de acordo com as suas necessidades. Ariano Suassuna não é diferente
dos demais autores, ele busca incorporar elementos de outras fontes para enriquecer sua
obra. “Como Idelette Muzart Fonseca dos Santos observou e analisou em [Demanda da
poética popular], a escrita de Suassuna é uma reescritura de textos próprios ou
alheios”.(SANTOS Apud TAVARES, 2007, p. 119.)
A obra de Suassuna sofreu e sofre claras influências dos folguedos do Nordeste, da
literatura de cordel, das marionetes, do Mamulengo, do Bumba-meu-boi, todas fontes
populares. E aqui temos uma semelhança dele com o poeta inglês William Shakespeare,
pois o mesmo teve acesso, em sua época, a algo muito semelhante com o que chamamos de
literatura de cordel, inclusive Shakespeare retirou alguns personagens desses “cordeis” para
produzir seus próprios personagens, utilizando o modelo popular, que era engraçado,
dinâmico e folclórico.
No período elisabetano, onde Shakespeare viveu e produziu a maior parte de sua
obra, haviam várias manifestações populares, as quais certamente o influenciaram, sendo
que o teatro de marionetes ( fonte popular de inspiração de Suassuna), já era representado
em feiras livres para a diversão da população.
Outra característica popular marcante do período elisabetano e interligada com
Suassuna são os folguedos, os quais na época de Shakespeare constituíam-se em festas
populares das quais todos participavam cantando e dançando, sendo denominado aqui no
Brasil, e mais precisamente no Nordeste brasileiro, como um “jogo” ou “brinquedo”, que é
executado por atores exclusivamente masculinos para todos os papéis, nos remetendo
novamente ao teatro elisabetano onde em uma peça de teatro só poderiam participar
homens para desempenhar qualquer personagem. Ariano Suassuna sempre evidencia suas
fontes populares, e não faz menção a Shakespeare devido o mesmo ser hoje considerado
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uma fonte erudita. Mas assim como Suassuna, Shakespeare também sofreu influências
populares, e em algumas obras de Suassuna fica evidente a presença de elementos do
dramaturgo inglês. Vejamos aqui alguns exemplos dessas evidências.
Um exemplo claro dessa apropriação de Shakespeare feita por Suassuna é a História
do amor de Romeu e Julieta, escrita com evidente presença de leitura da obra do Bardo.
Suassuna alega que utilizou como fonte de inspiração a história do italiano Matteo Bandello,
na qual Shakespeare também se inspirou, lembrando que o poeta inglês teve acesso ao texto
de Bandello através do poema de Arthur Brooke [The tragic history of Romeo and Juliet],
publicado em 1562, sendo que Brooke inspirou-se em Bandello e digamos que fez uma
nova versão da história italiana. Suassuna escreve sua “imitação brasileira” tendo como
uma de suas fontes de inspiração, elementos da cultura popular, trata-se de um folheto de
cordel, intitulado Romance de Romeu e Julieta, de origem anônima, cantado no Nordeste
do país e que apresenta uma visão bem brasileira da história tão antiga.
Apesar de Suassuna evidenciar o folheto de cordel e o italiano Matteo Bandello
como suas fontes para a produção dessa peça, nos perguntamos: de quem ele estava falando,
quando cita os nomes de Romeu e Julieta? E talvez logo muitos respondam-nos “de Matteo
Bandello” ou ainda, “de um cordel intitulado Romance de Romeu e Julieta”. Mas esses
nomes não são nomes comuns e nem personagens comuns; são personagens de Shakespeare.
Logo é clara a presença de elementos shakespearianos na peça de Suassuna, sendo que
nesse ponto precisamos também reconhecer a admiração que Suassuna tem por
Shakespeare.
Publicado em 1997, a História do amor de Romeu e Julieta: imitação brasileira
de Matteo Bandello, inspirada no folheto O romance de Romeu e Julieta, Ariano
Suassuna continua nos inquietando pela reafirmação (cômica) do próprio
exercício artístico de reelaboração, numa obra cujo título remeteria a uma
possível prática similar empreendida por William Shakespeare. (RABETTI, 2000,
p. 99.)
Outra relação entre os dois autores, ainda referindo-se a peça Romeu e Julieta de
Shakespeare é a peça Uma mulher vestida de sol, do escritor paraibano, a qual conta à
história de um amor entre dois jovens sertanejos, Rosa e Francisco, cujos pais, embora
aparentados, eram inimigos. Segundo Suassuna, a peça Uma mulher vestida de sol é
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baseada no Romanceiro Popular Nordestino, em uma das versões de José de Souza Leão.
Entretanto pode ser detectada na trama da narrativa a presença do Romance de Romeu e
Julieta. Sente-se, porém, nessa peça a presença de elementos shakespearianos,
principalmente pelo final trágico de ambos. Suassuna cita sempre as fontes populares, mas
aqui a alusão a Shakespeare é inegável. “Isso só vem comprovar que, no rico universo do
Romanceiro, os diálogos entre os romances são frequentes, móveis são suas fronteiras,
imprecisas as indicações de autoria e originalidade”.(NEWTON JÚNIOR, 2000, p. 53.)
E não é só desse Romanceiro, que encontramos a poética de Suassuana, mas
também na presença do teatro elisabetano, que de acordo com Hermilo Borba Filho sobre a
peça Uma mulher vestida de sol: “De minha parte, acrescentaria a presença de Shakespeare
em peças como Romeo e Julieta, Macbeth ou Ricardo III”. (BORBA FILHO In:
SUASSUNA, 1964, p. 19.)
Um dos aspectos característicos do teatro elisabetano visível em Uma mulher
vestida de sol é a presença de elementos trágicos no decorrer de momentos ligados ao
cômico, ocorrendo uma quebra intencional de ritmo, sem qualquer alteração na
predominância do trágico, sendo que isso em Shakespeare pode ser encontrado em Hamlet
quando o jovem príncipe da Dinamarca finge-se de louco e conversa com Polônio, seu
conselheiro real, e também em alguns diálogos, no Rei Lear (King Lear), entre o Bobo e o
Rei.
Outro ponto de ligação entre Shakespeare e Suassuna, é a Commédia de’ll arte
utilizada pelo escritor brasileiro como apoio na produção da peça O casamento suspeitoso,
utilizando, porém, uma história própria, sem copiar, por exemplo, tipos como o Arlequim.
Já em Shakespeare em Sonhos de uma noite de verão, a forma como os atores-artesãos
encenam o metateatro nos faz alusão a personagens-tipo da Commédia de’ll arte. “No
Casamento Suspeitoso Suassuna apoiou-se na commédia de’ll arte, mas conseguiu ainda
uma suficiente autenticidade de pessoas e ambientes, criando, pensamos nós, em termos
nordestinos, uma trama sua, inspirada no esquema da comédia italiana”.(HELIODORA,
2000, p. 115.)
Outra referência a Shakespeare, ainda tratando-se da peça O casamento suspeitoso
de Suassuna e Hamlet do próprio dramaturgo inglês, falamos primeiramente de Hamlet,
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mais precisamente no ato III, da cena 04, quando Polônio se oculta atrás de uma cortina
para que a Rainha fale com o filho (Hamlet), ela sente-se ameaçada pelo filho e grita,
provocando uma reação verbal de Polônio que estava escondido. Hamlet, sem pensar,
desembainha a espada e dá um golpe na cortina matando assim Polônio. Já em O
casamento suspeitoso, Gaspar esconde-se atrás da cortina para ouvir a conversa de Lúcia,
Roberto e Susana, os três fazem ameaças a Gaspar, o qual faz a cortina tremer denunciando
que estava lá, então Roberto tira o cinto e da uma surra em Gaspar.
São inúmeras as semelhanças que podemos encontrar da obra do poeta inglês em
Suassuna. Talvez por terem tido influências semelhantes, fontes populares, italianas, gregas
e entre tantas outras fontes, ou ainda, devemos aqui ressaltar a admiração que o escritor
brasileiro tem pelo dramaturgo inglês, sendo que aqui esse fato contribuiu para mais uma
evidenciação dos elementos de Shakespeare em seu trabalho, falamos agora das adaptações
televisiva e cinematográfica da peça Auto da Compadecida, feitas por Guel Arraes em 1998
e 2000. Guel, sabendo da admiração que Suassuna alimenta por Shakespeare, incorporou
vários elementos shakespearianos nessas adaptações, entre elas temos a própria questão do
Mercador de Veneza, a qual já foi discutida anteriormente, e temos ainda uma alusão feita à
peça Romeu e Julieta, quando os personagens Rosinha e Chicó, na passagem em que eles
conversam e surge à ideia de tomarem algo, fingirem-se de mortos e em seguida fugirem e
finalmente casarem-se. Qualquer leitor Sabe que essa passagem refere-se à tragédia de
Shakespeare.
Aqui então trabalhamos com o termo apropriação juntamente com a originalidade
feitas por Suassuna na obra de Shakespeare. Suassuna apropria-se de vários componentes
shakespearianos para embasar suas peças, muitos chamariam isso de plágio, mas ao
contrário de plágio que significa cópia, imitação, a apropriação leva muito do seu autor
original e de seu apropriador, pois quando um autor apropria-se de uma obra, e faz dela
uma nova releitura, introduz na mesma elementos de seu universo próprio. Então nos
deparamos aqui com mais uma questão: o que vem a ser o autor original de um texto? Se,
ser original implica em ser natural, possuidor de caráter próprio. E quando produzimos uma
obra ou um simples texto, não estamos sendo totalmente originais? nosso texto sempre terá
algo relativo a outros autores, autores esses, os quais, nós conhecemos enquanto leitores.
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E é exatamente isso que ocorre na obra de Ariano Suassuna, o qual apropria-se de
obras de autores como Shakespeare, e através delas, enriquece suas peças.
REFERÊNCIAS:
DINIZ, T. F. N. Literatura e cinema: tradução, hipertextualidade e reciclagem. Belo
Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2005.
HELIODORA, B. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva, 1997.
______. A aulularia de Suassuna. In: O Percevejo [Revista do Departamento de Teoria de
Teatro/ Programa de Pós-Graduação em Teoria da UNIRIO], Rio de Janeiro, ano 08, n.08,
p.114-118, 2000.
NEWTON JÚNIOR, C. O circo da onça malhada: iniciação à obra de Ariano Suassuna.
Recife: Artelivro, 2000.
SHAKESPEARE, W. O mercador de Veneza. Tradução. Barbara Heliodora. 2. ed. Rio de
Janeiro: Lacerda, 1999.
RABETTI, B. Ariano Suassuna: apontamentos para o dossiê. In: O Percevejo [Revista do
Departamento de Teoria de Teatro/ Programa de Pós-graduação em Teatro da UNIRIO],
Rio de Janeiro, ano 08, n.08, p. 98-99, 2000.
SUASSUNA, A. Uma mulher vestida de sol. Recife: Imprensa Universitária, 1964.
de Janeiro: José Olympio, 2004.
TAVARES, B. Abc de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
VASSALLO, L. O sertão medieval: origens européias do teatro de Ariano Suassuna. Rio
de Janeiro: Francisco Alves, 1993.
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