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Profissão - Backstage
ILUMINAÇÃO
Profissão
Operador de Canhão de Luz
Tudo é importante dentro da iluminação, porém, segundo os profissionais
entrevistados, a atividade de operador de canhão é uma profissão que
deveria ser mais valorizada e não vista como um detalhe sem importância
dentro da iluminação.
Karyne Lins
[email protected]
A
Parece simples, mas não é
A maioria acredita que operar canhão é fácil, porém, essa
atividade é um detalhe muito importante dentro da iluminação. Vale ressaltar que a operação de canhão pode ter conceitos
bem básicos, mas consegue-se fazer coisas muito criativas.
Rodrigo Valdrighi, no oficio há sete anos, disse que não é uma
tarefa fácil. Tudo vai ser de acordo com o que o iluminador determinar. Dependendo da produção, os operadores até participam das passagens de luz para receber as orientações do
iluminador. Quando isso não acontece, o operador chega na
hora do show e é orientado pelo iluminador por meio de fone. A
comunicação do chefe de iluminação com os operadores é sempre simultânea.
“O iluminador da banda fala de suas preferências para o
operador, que, por sua vez, sempre vai seguir os conselhos e
dicas do iluminador. Cada momento depende de como ele
visualizou a utilização do canhão para aquele determinado
Fotos: Divulgação
maioria dos operadores de canhão começa nesse ramo
montando equipamento de luz para shows e participando assiduamente dos eventos. Nessa primeira fase,
a pessoa é um montador de equipamento. Conforme o
montador adquire experiência e aprende todas as particularidades de uma produção de luz num show, ele passa a ter mais
uma habilidade: operar canhão. Na verdade, essa não é somente uma função à parte. O operador de canhão participa de
todas as atividades dentro da iluminação. Depois que passa
por uma qualificação na montagem, passa para o canhão e,
depois, para a iluminação.
Lucas Ribeiro, canhoneiro do Circo Voador (RJ) e
iluminador do espetáculo Piano Orquestra e do show Perdidos
na Selva, diz que um caminho para ser um bom iluminador é
começar como operador de canhão, pois é nesta fase que o
profissional consegue aprender todas as técnicas e testar a sensibilidade dentro da área de luz.
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ILUMINAÇÃO
Erich Bertti tem experiência em shows insternacionais
Murilo trabalha no Claro Hall
Zé Carlos com cantor Netinho
show. Se o operador tiver sensibilidade,
ele vai conseguir acompanhar o comando do iluminador mesmo não tendo participado da passagem antes do show”,
disse Rodrigo Valdrighi.
Erich Bert, há dez anos fazendo shows
internacionais, disse que a participação
dos canhoneiros na passagem de luz vai
depender muito da organização do
evento. Nos shows onde Erich é solicitado, ele reúne os canhoneiros e explica
como serão as cenas, numera os canhões
de acordo com os artistas, mas diz que
nem tudo é pré-determinado. “Essas
bandas são grandes bandas devido à
criatividade de sua equipe de saber improvisar. Isso é o que vai diferenciar o
canhoneiro de teatro do de show. E é o
perfil do canhoneiro de show que os
gringos gostam”, explica Erich.
Ricardo Alves, hoje iluminador do
Lulu Santos, lembra que na época que
trabalhou como canhoneiro em teatro os
operadores recebiam um cronograma de
como ia ser o espetáculo e, em seguida,
participavam de um ensaio geral para
marcar cores, hora de entrada, etc. “Um
simples canhão pode estragar o show, porque luz é visual, se está ruim todo mundo
vê”, disse.
Coelho é canhoneiro com experiência em shows desde o Hollywood
Rock, quando fazia parte da equipe
de montagem e operava canhão, e
inaugurou o Metropolitan (hoje Claro
Hall), onde trabalhou um ano operando canhão para shows e peças musicais. Esses ensaios eram essenciais
para que tudo no espetáculo tivesse
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ILUMINAÇÃO
sucesso. Ele lembrou que a sensibilidade e habilidade dos operadores nesta
etapa levavam alguns a se destacarem
na profissão.
É essencial que qualquer operador conheça o equipamento. Saber como ele se
movimenta, deixá-lo regulado de maneira que satisfaça melhor o operador e ter
um bom condicionamento de braço. “Todos esses detalhes são importantes, porque
é difícil agüentar uma gravação de DVD,
que chega a durar seis horas”, disse Erich
Bert, que trabalhou em shows como os de
Roger Waters, U2, Rolling Stones, além
de algumas gravações de DVD.
Canhoneiros em turnê
Operador de canhão fazer parte da
equipe técnica nas turnês é incomum no
Brasil. Para Valdrighi, isso acontece porque é sempre um custo a mais. Ricardo
Alves concorda. “A banda viaja com
equipamento e equipe técnica. Às vezes,
contratam empresas locais. Essas pessoas
que montam o show acabam operando o
canhão também. Na maioria das vezes
não contratam uma pessoa específica
para operar canhão. É por isso que quando a banda não viaja com equipe completa não leva um operador; por causa do
custo”, disse.
“Acho que os Rolling Stones é a
banda que viaja com o maior número
de canhoneiros. Eram seis no show do
Rio de Janeiro. Acredito que a equipe
seleciona os mais importantes e leva
para a turnê. Nos shows do U2, dois
operadores eram canhoneiros da ban-
Ricardo Alves trabalhou como operador em teatro
da”, lembrou Erich. No Brasil, o cantor
e músico Lulu Santos viaja com Marcelo Ribeiro e Rodrigo dos Santos, dois
operadores de canhão e paga um cachê
só para este ofício através do escritório
e não da empresa de luz. Outros grupos
que também viajam com um operador
de canhão são o Roupa Nova e o Jota
Quest, o cantor Leonardo e a cantora
Ivete Sangalo.
Valorização
do profissional
De acordo com os profissionais que
estão na ativa como canhoneiros e os que
estão na área de iluminação, esta é uma
profissão que não é valorizada no Brasil.
Para eles, deveria ser, para que se crie
um maior nível de comprometimento
entre os profissionais da área. “Acho que
essa deveria ser uma profissão mais valorizada no Brasil, porque quem opera canhão deve ser uma pessoa apta para isso.
Tem que conhecer o show. Ele é tão importante quanto um técnico de som ou luz.
Um canhoneiro sem habilidade pode estragar um show. Quando um operador de
canhão não é um bom pegador, ele acaba
atrapalhando a iluminação. Inclusive sabe-
“A idéia é que a empresa de iluminação indique, por
exemplo, os operadores de canhão e a produção do
show contrate estes técnicos. Se vão trabalhar durante
dez dias, serão dez diárias. Ele vai ser pago pelo
contratante” (Ricardo Alves)
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mos que há muitas bandas e muita produção que não viaja com iluminador. Se for
pensar que não dão valor para iluminador,
imagine para o operador de canhão”, reclamou Rodrigo Valdrighi.
Zé Carlos foi operador de canhão em
vários shows no Maracanãzinho para bandas internacionais como Iron Maiden e foi
canhoneiro da ultima turnê do musical
Holiday On Ice no Brasil em 2001. Na
sua opinião, a situação do operador está
melhorando. A valorização da área cênica no Brasil contribui para uma nova esperança para esses profissionais. “O problema com o sindicato é que ele está ligado aos atores e atividades de teatro.
Quem trabalha em show geralmente segue a tabela de músicos e acho que isso
era uma coisa que precisava ser mais definida”, disse Zé Carlos.
Ricardo incentiva a reivindicação por
um cachê melhor e que o sindicato faça
mais pelo profissional de show. “A idéia é
que a empresa de iluminação indique,
por exemplo, os operadores de canhão e a
produção do show contrate estes técnicos. Se vão trabalhar durante dez dias,
serão dez diárias. O cara sabe que vai trabalhar dez dias e ganhar dez diárias no
valor estipulado independente da empresa. Ele vai ser pago pelo contratante.
Assim a nossa classe vai trabalhar mais
satisfeita com uma expectativa de vida
melhor”, ressalta Ricardo Alves.
Orçamento
De acordo com os entrevistados, a
produção do show contrata a empresa de
luz para fazer o evento, mas o operador
de canhão não é pago especificamente
para fazer esta atividade; ele recebe para
montar o show e fazer canhão. Os profissionais reclamam, pois o operador ganha
um cachê e faz dois trabalhos. “Quando
a produção do evento contrata a empresa de luz, ela recebe a relação de equipamentos e quantas pessoas vão trabalhar.
ILUMINAÇÃO
Não vem especificados nesta relação
operadores de canhão. O cara que chega
às sete da manhã para começar a montagem acaba ficando até a noite para operar canhão sem receber a mais por isso.
Acho injusto”, reclama Ricardo Alves.
“É muito raro você ver uma produção
que pague pela operação de canhão.
Geralmente, o montador de luz é pago
para montar a luz do evento e operar canhão acaba sendo mais uma atividade
do montador. Ninguém trata como uma
coisa específica, mas como se fosse mais
uma função do montador, mais uma
obrigação e não um trabalho mais especifico, como o de um operador de luz”, ressalta Rodrigo Valdrighi.
O chefe dos operadores de canhão da
casa de show Claro Hall (RJ), Chicão,
confirmou que cerca de oito anos atrás os
operadores ganhavam um cachê como
montador e um cachê a parte para operar
canhão. “As pessoas hoje em dia não se
preocupam em se profissionalizar justamente porque a profissão não é valorizada e quem trabalha na área não está satisfeita”, disse Chicão.
Ricardo Alves, que trabalhou há
oito anos como operador de canhão e
hoje é iluminador profissional, também
reivindica um reconhecimento para
esse trabalho. “O cara da montagem
até pode saber operar canhão, mas ele
deve ser remunerado dentro da profissão como operador de canhão. Na área
de show, essa atividade não é reconhecida como a área de teatro. Meu primeiro trabalho como operador de canhão foi em 1991 na peça Não Fuja da
Raia e ganhava um salário por mês só
para operar canhão. Soube no show dos
Stones, em Copacabana, que um dos
técnicos ganha 2.500 dólares por semana durante a turnê para cuidar dos
Space Cannon. No Brasil, quem sai em
turnê de um mês vai trabalhar em cinco, sete shows, para ganhar cachê por
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Rodrigo faz parte da equipe de operadores do Claro Hall
show. Deveria haver um contrato melhor para o profissional que estipulasse
um valor de diária e não por show”.
Eventos internacionais
De acordo com os entrevistados, os
profissionais dessa área são mais valorizados pelos estrangeiros. Por haver um
Por haver um maior
reconhecimento dessa
função fora do Brasil,
os gringos esperam
muito dos brasileiros
e cobram uma
qualificação maior do
operador de canhão
maior reconhecimento dessa função
fora do Brasil, os gringos esperam muito
dos brasileiros e cobram uma qualificação maior do operador de canhão.
“Além de eles esperarem muito de nós,
dominar o idioma é um problema que
reduz e muito a quantidade de profissionais qualificados”, opinou Rodrigo
Vieites, com experiência há dois anos
com shows internacionais.
Desde os 15 anos Erich faz operação de canhão como free lance para a
LPL Iluminação. Ele ressalta a importância da especialização nesta área.
Segundo Ricardo Alves, as produções
estrangeiras quando trazem algum es-
petáculo para o Brasil como teatro e
balé, solicitam bons operadores de canhão e estes recebem por fora. Além
disso, o operador deve se encaixar no
perfil que o gringo está acostumado a
trabalhar. “Acho que esse problema
está mais ligado ao sindicato que não
faz nada pela área de show. O operador de canhão de teatro não se enquadra na linha de show e às vezes a
empresa não tem como base a tabela
do sindicato para pagar operador. Isso
tem que ser uma coisa desvinculada
da empresa”.
Dicas dos profissionais
Quem está na profissão recomenda
especialização na área de eletrônica e
eletricidade antes de efetivamente entrar numa companhia de luz. “Nos EUA,
pelo menos, existe uma triagem e os técnicos que não estiverem habilitados não
podem trabalhar num evento. Ter um
curso de eletrônica e ter conhecimentos
em eletricidade é o básico para a profissão”, disse Ricardo Alves.
Outra dica é que o canhoneiro deve
estar o tempo todo atento ao espetáculo,
saber os tempos de entrada e saída, saber os termos usados pelos iluminadores
e diretores e o momento certo para mudança suave ou radical de cores. Ter
habilidade no manejo do canhão também é muito importante.
O conselho de Rodrigo Vieites para
que um operador se destaque na carreira é falar muito bem o inglês, conhecer o equipamento e ter o máximo de
atenção nos shows. Julio Monteiro e o
irmão Lucas Ribeiro enfatizaram que
para os iniciantes é imprescindível um
curso profissionalizante voltado para a
área de teatro. “Iniciar no teatro é importante, porque você aprende muita
teoria baseada em detalhes e pode ser
uma boa escola para quem vai fazer
show”, finaliza.
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