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Falsificadores da história - Para a História do Socialismo

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Falsificadores da história - Para a História do Socialismo
Para a História do Socialismo
Documentos
www.hist-socialismo.net
Tradução do russo e edição por CN, 04.07.12
_____________________________
Falsificadores da história
(Resenha histórica)
Bureau Soviético de Informação
19481
No final de Janeiro [de 1948], o Departamento de Estado dos EUA, em
colaboração com os ministérios dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha e da
França, publicou uma colectânea de relatórios e diversas anotações dos diários do
pessoal diplomático de Hitler, apresentando essa colectânea sob o misterioso título
As Relações Sovieto-Nazis, 1939-1941.2
Como se lê no prefácio a esta colectânea, logo no Verão de 1946, os governos dos
EUA, da Grã-Bretanha e da França acordaram entre si publicar os documentos dos
arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, relativos ao período de
entre 1918 e 1945, que haviam sido apreendidos pelas autoridades militares norteamericanas e britânicas. É de notar, no entanto, o facto de que, na colectânea
publicada, figurarem apenas documentos relativos ao período entre 1939-1941. Os
documentos dos anos anteriores, em particular do período de Munique, não
constam na colectânea do Departamento de Estado, sendo assim ocultados à
opinião pública mundial. Como é evidente isto não aconteceu por acaso, mas com
propósitos que nada têm a ver com uma atitude objectiva e honesta para com a
verdade histórica.
Para justificar de alguma maneira aos olhos da opinião pública a edição
unilateral desta colectânea de notas de funcionários hitlerianos, não verificadas e
seleccionadas arbitrariamente, a imprensa anglo-americana inventou a explicação
de que, alegadamente, «os russos recusaram a proposta do Ocidente de publicar
conjuntamente a relação completa dos materiais da diplomacia nazi».
Esta declaração dos meios anglo-americanos não corresponde à realidade.3
A realidade é a seguinte. No Verão de 1945, quando surgiram informações na
imprensa estrangeira de que, na Inglaterra, se começara a preparar a edição de
1
Traduzido da edição russa, Фальсификаторы истории (Историческая справка),
OGIZ, Gossudárstvenoe Izdatelstvo Politítcheskoi Literaturi, Moscovo, 1948 (disponível em
http://militera.lib.ru/research/false/index.html.) (N. Ed.)
2 Nazi-Soviet Relations, 1939-1941, Documents from the Archives of the German
Foreign Office, editado por Raymond James Sontag e James Stuart Beddie, publicação do
Departamento de Estado, 1948 (disponível em http://www.ibiblio.org/pha/nsr/nsrpreface.html). (N. Ed.)
3 Destacado a negro no original. (N. Ed.)
1
documentos confiscados na Alemanha, o governo soviético dirigiu-se ao governo
britânico, solicitando com insistência que especialistas soviéticos participassem na
análise conjunta dos documentos alemães levados pelas tropas anglo-americanas. O
governo soviético declarou que a edição de tais documentos, sem comum acordo,
era inadmissível, e que não assumiria qualquer responsabilidade pela sua
publicação sem uma verificação prévia, minuciosa e objectiva, uma vez que, não
sendo cumpridas estas condições elementares, tal publicação só poderia conduzir à
deterioração das relações entre os estados membros da coligação anti-hitleriana.
Todavia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha declinou a
proposta soviética, alegando que a questão de trocar cópias dos documentos
nazis, colocada pelo governo soviético, era prematura.
É também conhecido que a delegação americana no Directório Político do
Conselho de Controlo na Alemanha4 apresentou, em 6 de Setembro de 1945, um
projecto de directiva sobre o manuseamento dos arquivos e documentos alemães.
Este projecto preconizava o estabelecimento de um regulamento único para a
recolha e conservação dos arquivos em toda a Alemanha, bem como o direito de
acesso aos representantes dos estados membros da Organização das Nações
Unidas. Também previa a possibilidade de os documentos serem copiados e
publicados. Esta proposta foi analisada em quatro reuniões do Directório Político,
mas foi suspensa a pedido dos britânicos e americanos, com o pretexto de que
aguardavam instruções. Posteriormente, depois de o representante norteamericano ter declarado que o governo dos EUA estava a preparar uma nova
proposta e pedia que o projecto apresentado fosse considerado nulo, o assunto foi
retirado da ordem do dia do Directório Político.
Deste modo, a afirmação de que, alegadamente, o governo soviético se recusou a
participar na preparação da publicação dos documentos dos arquivos alemãs é
falsa.
Em simultâneo com a publicação da colectânea atrás referida nos EUA e nos
países seus dependentes, como que por efeito de uma varinha mágica, levantou-se
uma nova vaga persecutória e uma desenfreada campanha de calúnias a propósito
do pacto de não agressão, assinado entre a URSS e a Alemanha em 1939,
alegadamente contra as potências ocidentais.
Deste modo, não oferece quaisquer dúvidas qual foi o verdadeiro objectivo da
publicação da colectânea nos EUA sobre as relações entre a URSS e a Alemanha
entre 1939 e 1941. O objectivo não era apresentar uma exposição objectiva dos
acontecimentos históricos, mas distorcer o quadro real, caluniar a União Soviética,
4
O Conselho de Controlo na Alemanha, também conhecido como Conselho de Controlo
Aliado ou Autoridade de Controlo Aliado (em alemão Alliierter Kontrollrat), era
constituído por um Comité de Coordenação, com representantes da União Soviética, EUA e
Grã-Bretanha e mais tarde da França, ao qual se subordinavam vários «directórios» ou
secções que desempenhavam o papel de ministérios. Entrou em funções em 20 de Julho de
1945, pouco depois de se ter iniciado a Conferência de Potsdam (17 Julho - 2 de Agosto de
1945), e só foi extinto formalmente com a unificação da Alemanha em 1990. No entanto,
logo em Março de 1948, em protesto contra decisões das potências ocidentais que levariam
à divisão da Alemanha, a URSS deixou de participar nas reuniões deste órgão, que deu
lugar, nas zonas ocidentais, à Alta Comissão Aliada, com representantes dos EUA, GrãBretanha e França. (N. Ed.)
2
difamá-la e enfraquecer o seu prestígio internacional, como lutadora firme e
genuinamente democrática contra as forças agressivas e antidemocráticas.
Esta atitude desleal corresponde à concepção do carácter das relações entre
aliados, típica dos meios dirigentes dos países anglo-saxónicos, ou seja, em vez de
relações honestas e sinceras, de confiança mútua e apoio, adopta-se uma política de
enfraquecimento do seu aliado, que deita mão a quaisquer meios, incluindo a
calúnia, para utilizá-lo no seu interesse estrito e reforçar a sua própria posição à
custa dele.
Não se pode perder de vista que os círculos dirigentes dos EUA, com a sua
campanha caluniadora contra a URSS, visam também minar o prestígio dos
elementos progressistas no seu país, que defendem a melhoria das relações com a
URSS. Este ataque aos elementos progressistas dos EUA visa, além do mais,
enfraquecer a sua influência, tendo em vista as próximas eleições presidenciais que
se realizam no Outono de 1948.
A colectânea está pejada de documentos fabricados pelos funcionários
hitlerianos nos labirintos das chancelarias diplomáticas alemãs. Esta circunstância
bastaria para prevenir contra a utilização e publicação unilateral dos documentos,
que se caracterizam pela sua parcialidade e tendenciosidade, expondo os
acontecimentos a partir da perspectiva do governo hitleriano, com vista a
apresentá-los de modo favorável aos hitlerianos. Foi precisamente por isso que o
governo soviético se opôs na altura à publicação unilateral dos documentos alemães
confiscados, sem que previamente fossem sujeitos a uma verificação exaustiva
conjunta. Mesmo a agência governamental francesa France Press teve de
reconhecer que o modo como os documentos foram publicados pelos três governos,
sem o conhecimento da União Soviética, «não se coaduna com o normal
procedimento diplomático».
Todavia, o governo britânico não concordou com a posição do governo soviético.
Não hesitando em falsificar a história, os governos norte-americano, britânico e
francês decidiram publicar unilateralmente os documentos alemães com a intenção
de caluniar a União Soviética, que carregou nos seus ombros o principal peso da
luta contra a agressão hitleriana.
A responsabilidade pelas consequências deste acto unilateral recai assim
inteiramente sobre estes governos.
Perante tal situação, o governo soviético sente-se no direito de, por sua vez,
publicar os documentos secretos que chegaram às suas mãos sobre as relações entre
a Alemanha de Hitler e os governos da Grã-Bretanha, França e EUA. Estes governos
ocultaram estes documentos e não desejam publicá-los. No entanto, em face do
ocorrido, consideramos que devemos torná-los públicos de modo a restabelecer a
verdade histórica.
A publicação da importante documentação confiscada pelas tropas soviéticas no
momento da derrota da Alemanha de Hitler ajudará a esclarecer o processo de
preparação e desenvolvimento da agressão hitleriana e da II Guerra Mundial.
Este é também o objectivo da presente resenha histórica Os Falsificadores da
História.
Os documentos secretos relacionados com este assunto serão em breve
publicados.
3
I
Como começou a preparação da agressão alemã
Os falsificadores norte-americanos e os seus cúmplices ingleses e franceses
tentam criar a impressão de que, alegadamente, a preparação da agressão alemã,
que desembocou na II Guerra Mundial, começou no Outono de 1939. Mas haverá
alguém nos nossos dias, à excepção de pessoas totalmente ingénuas prontas a
acreditar em qualquer falsidade sensacionalista, que possa morder este anzol?
Haverá quem não saiba que a Alemanha começou a preparação da guerra logo após
a chegada de Hitler ao poder? Haverá quem não saiba que o regime hitleriano foi
criado pelos círculos monopolistas alemães com a total aprovação dos círculos
governantes da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos?
Para se preparar para a guerra e munir-se de armamento moderno, a Alemanha
precisava de recuperar e desenvolver a sua indústria pesada, sobretudo a
metalurgia e a indústria militar do Ruhr. Depois da derrota na primeira guerra
imperialista, estando sob o jugo do Tratado de Versalhes, a Alemanha não tinha
forças para o fazer num curto prazo. O poderoso apoio prestado pelos Estados
Unidos da América ao imperialismo alemão teve aqui um papel decisivo.
Haverá quem não saiba que os bancos e trusts norte-americanos, agindo em
pleno acordo com o governo, investiram na economia alemã e concederam créditos
à Alemanha na ordem dos milhares de milhões de dólares, que se destinaram à
reconstrução e desenvolvimento do potencial da sua industria militar?
É sabido que o período posterior a Versalhes ficou marcado por todo um
conjunto de medidas orientadas para a reconstrução da indústria pesada alemã, em
particular do seu potencial industrial-militar. O plano Dawes, sobre as reparações
de guerra,5 com a ajuda do qual os EUA e a Grã-Bretanha contavam colocar a
indústria germânica na dependência dos monopólios norte-americanos e
britânicos, desempenhou aqui um enorme papel. O plano Dawes abriu caminho a
um intenso fluxo e à implantação de capitais estrangeiros, sobretudo americanos,
na indústria germânica. Em resultado, logo em 1925, a economia alemã começou
recuperar graças a um processo intensivo de reequipamento do aparelho produtivo.
Ao mesmo tempo, as exportações alemãs cresceram fortemente, atingindo em 1927
o nível de 1913, sendo que nos produtos manufacturados aquele nível foi superado
em 12 por cento (a preços de 1913). Em seis anos, entre 1924 e 1929, o afluxo de
capitais estrangeiros cifrou-se entre dez mil milhões e 15 mil milhões de marcos, em
investimentos a longo prazo, e em mais de seis mil milhões de marcos de
investimentos a curto prazo. Mas segundo algumas fontes, o volume de capitais
investidos foi significativamente maior. Isto conduziu a um enorme aumento do
potencial económico e, em particular, militar da Alemanha. Os capitais norteamericanos desempenharam aqui o papel principal, constituindo pelo menos 70
por cento de todos os empréstimos a longo prazo.
É bem conhecido o papel que desempenharam os monopólios industriais norteamericanos, controlados pelas famílias Du Pont, Morgan, Rockefeller, Lamont e
outros magnatas dos EUA, no financiamento da indústria pesada alemã e na
5
O plano Dawes (1924), que sucedeu ao leonino Tratado de Versalhes (1919), foi
concebido por um grupo de financeiros dirigido pelo norte-americano Charles Gates Dawes
(1865-1951), por iniciativa dos governos norte-americano e britânico. (N. Ed.)
4
criação e alargamento de estreitas ligações entre as indústrias de ambos os países.
Os maiores monopólios norte-americanos ficaram estreitamente ligados não só à
indústria pesada, mas também aos consórcios militares e à banca.
A Dupont de Nemours, a principal corporação química norte-americana, e um
dos maiores accionistas do trust automobilístico General Motors, e a inglesa British
Imperial Chemical mantinham estreitas relações industriais com o consórcio
químico alemão I. G. Farbenindustrie, com o qual concluíram em 1926 um acordo
de cartel para a partilha do mercado mundial da pólvora. O presidente da
administração da Rohm & Haas, sedeada em Filadélfia (EUA), foi até ao eclodir da
guerra parceiro do responsável da filial desta companhia em Darmstadt
(Alemanha). Note-se, a propósito, que Rudolf Mueller, ex-director dessa
companhia, desenvolve agora a sua actividade na Bizona6 e tem um papel
proeminente nos círculos dirigentes da União Democrata-Cristã (CDU). No período
entre 1931 e 1939, o capitalista alemão Schmitz, presidente da I.G. Farbenindustrie
e membro do conselho de direcção do Deutsche Bank, controlou a empresa
americana General Dyestuffs Corporation. Depois da conferência de Munique
(1938), a American Standard Oil assinou um contrato com a I.G. Farbenindustrie,
segundo o qual esta última receberia uma parte dos lucros da produção de gasolina
para aviação nos EUA, em troca de renunciar à exportação de gasolina sintética,7
combustível de que a Alemanha estava a constituir reservas para fins militares.
Tais ligações não eram exclusivas dos monopólios capitalistas norte-americanos.
Estreitas relações económicas, não meramente comerciais mas também com
importância militar, existiam, por exemplo, entre a Federação das Indústrias
Britânicas e a Associação das Indústrias Alemãs do Reich. Em 1939, representantes
destas duas associações monopolistas divulgaram uma declaração conjunta em
Dusseldorf, em que se afirmavam, entre outros, que o objectivo do acordo era
«assegurar a cooperação mais plena possível entre as indústrias dos seus países».
Isto aconteceu na altura em que a Alemanha nazi tinha arrebatado a
Checoslováquia! Não surpreende que a este propósito a revista londrina The
Economist tenha escrito: «Haverá algo no ar de Dusseldorf que faça as pessoas
sensatas perder o juízo?»8
Um exemplo característico do entrelaçamento dos capitais alemães e norteamericanos, bem como britânicos, constitui o caso do Banco Schröder, que tinha
sedes em Nova Iorque e Londres, no qual assumia um papel dirigente o trust
siderúrgico alemão Vereinigt Stahlwerke A. G., fundado por Stinnes, Thyssen e
outros magnatas industriais do Ruhr. Allen Dulles, director da J. Henry Schröder
Banking Corporation, em Nova Iorque, que representava os interesses do Schröder
em Londres, Colónia e Hamburgo, teve um papel destacado neste banco. Um papel
central na sucursal do Banco Schröder em Nova Iorque foi ainda desempenhado
pela conhecida firma de advogados Sullivan & Cromwell, dirigida por John Foster
Dulles, actual conselheiro principal do sr. Marshall, e estreitamente ligado à
6
A Bizona foi a designação dada ao território alemão ocupado pelas tropas norteamericanas e britânicas, no qual foi fundada em 1949 a República Federal Alemã. (N. Ed.)
7 A gasolina sintética, obtida do carvão através de processos químicos, começou a ser
produzida na Alemanha numa escala industrial para suprir as dificuldades de
abastecimento de petróleo num cenário de guerra. (N. Ed.)
8 Corwin D. Edwards, Economic and Political Aspects of International Cartels, 1944.
5
Standard Oil, o trust petrolífero mundial de Rockefeller, assim como com o Chase
National, o maior banco da América do Norte, que realizou enormes investimentos
na industria alemã.
No livro de Richard Sasuly, publicado em Nova Iorque em 1947, sublinha-se
que, no período pós-Versalhes, assim que foi travada a inflação e se fortaleceu o
marco, os empréstimos estrangeiros jorraram literalmente para a Alemanha. Entre
1924 e 1930, a dívida externa alemã aumentou em mais de 30 mil milhões de
marcos.
Com a ajuda do capital estrangeiro, sobretudo norte-americano, a indústria
alemã, em particular a Vereinigte Stahlwerke A. G., foi amplamente reconstruída e
modernizada. Alguns empréstimos foram concedidos directamente às empresas
com importância crucial para o rearmamento.9
Juntamente com o banco anglo-germânico-americano Schröder, o
financiamento do trust siderúrgico Vereinigte Stahlwerke A.G. foi assegurado neste
período pelo Dillon, Read & Co., um dos maiores bancos de Nova Iorque, que
durante uma série de anos contou, entre os seus directores, com o actual secretario
da Defesa, Forrestal10 [James Vincent (1892-1949)].
Foi esta chuva de ouro, de dólares americanos, que fertilizou a indústria pesada
da Alemanha de Hitler, em particular, a indústria militar. Foram os milhares de
milhões de dólares americanos, investidos pelos monopólios transoceânicos na
economia militar da Alemanha de Hitler, que reconstituíram o potencial bélico
alemão e colocaram nas mãos do regime hitleriano as armas necessárias para a
agressão.
Num curto prazo, com o apoio financeiro sobretudo dos monopólios americanos,
a Alemanha reconstituiu uma poderosa indústria militar capaz de produzir em
grandes quantidades armamento de primeira categoria, muitos milhares de
tanques, aviões, peças de artilharia, os mais modernos navios de guerra e outros
tipos de armamento.
Os falsificadores pretenderiam esquecer tudo isto, visando apagar as
responsabilidades da política que armou a agressão nazi, desencadeou a II Guerra
Mundial e conduziu a uma catástrofe militar inaudita na história da humanidade,
que custou muitos milhões de vítimas.
Deste modo, não se pode esquecer que a primeira e mais importante premissa da
agressão hitleriana foi a reconstituição e renovação da indústria pesada e militar da
Alemanha, o que só foi possível mediante o apoio financeiro directo e amplo dos
meios dirigentes dos Estados Unidos da América.
Mas isto não é tudo.
Outro factor decisivo que contribuiu para o desencadeamento da agressão nazi
foi a política dos círculos dirigentes da Grã-Bretanha e da França, que ficou
conhecida como a política de «apaziguamento» da Alemanha de Hitler, a política de
rejeição da segurança colectiva. Agora deve ser claro para todos que foi
precisamente esta política dos círculos dirigentes anglo-franceses, traduzida na
rejeição da segurança colectiva, na sua recusa em responder à agressão alemã, na
9
Richard Sasuly, I. G. Farben, Boni and Gaer, Nova Iorque, 1947, p. 80.
Stock Exchange Year Book, Londres, 1925; Who’s Who in America; Who’s Who in
Finance, Banking and Insurance; Moody’s Manual of Railroads and Corporation
Securities; Poor’s Manual, 1924-1939.
10
6
indulgência face às exigências agressivas da Alemanha de Hitler, que conduziu à II
Guerra Mundial.
Passemos aos factos.
Em 1933, logo após a chegada de Hitler ao poder, em resultado dos esforços dos
governos britânico e francês, foi assinado em Roma o «Pacto do Consenso e
Cooperação» das quatro potências: Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália. Este
pacto significou o conluio dos governos britânico e francês com o fascismo alemão e
italiano, que já na altura não escondiam as suas intenções agressivas. Além disso,
este pacto com os estados fascistas representava a rejeição da política de
consolidação de uma frente única dos estados amantes da paz contra os estados
agressivos. Conluiando-se com a Alemanha e a Itália, à margem das outras
potências – que nessa altura participavam na conferência sobre desarmamento
discutindo a proposta soviética para a conclusão de um pacto de não agressão e de
um outro sobre a definição do agressor – a Grã-Bretanha e a França assestaram um
golpe à causa da paz e da segurança dos povos.
Na sequência disto, em 1934, a Grã-Bretanha e a França ajudaram Hitler a
aproveitar a hostilidade da Polónia dos pans, deles aliada, em relação à URSS,
tendo sido assinado o pacto de não agressão germano-polaco, que constituiu uma
importante etapa na preparação da agressão alemã. Hitler precisava deste pacto
para desorganizar as fileiras dos partidários da segurança colectiva e demonstrar
com este exemplo que a Europa precisava não de uma segurança colectiva, mas de
acordos bilaterais. Isto permitia ao agressor alemão decidir com quem e quando
assinaria acordos e contra quem e quando desencadearia o ataque. O pacto
germano-polaco representou, indubitavelmente, a primeira brecha importante no
edifício da segurança colectiva.
Mostrando-se mais ousado, Hitler tomou abertamente uma série de medidas
para a reconstituição das forças armadas da Alemanha, o que não suscitou qualquer
oposição da parte dos governantes britânicos e franceses. Pelo contrário, pouco
depois, em 1935, Ribbentrop deslocou-se a Londres para assinar um acordo com a
Grã-Bretanha, por força do qual esta concordava com a reconstituição das forças
armadas navais germânicas com uma capacidade quase igual à da marinha de
guerra francesa. Além disso, Hitler obteve o direito de construir submarinos com
uma tonelagem global equivalente a 45 por cento da frota submarina britânica.
Neste período, a Alemanha de Hitler empreendeu acções unilaterais destinadas a
eliminar todas as outras restrições ao crescimento das suas forças armadas,
estabelecidas no Tratado de Versalhes, não encontrando da parte da Grã-Bretanha,
da França e dos EUA qualquer oposição.
O apetite dos agressores fascistas aumentava de dia para dia com a manifesta
conivência dos EUA, da Grã-Bretanha e da França. Não foi decerto um acaso que
nesta altura as intervenções militares da Alemanha e da Itália, em Espanha e na
Abissínia, tenham ficado impunes.
Só a União Soviética seguiu firme e consequentemente a sua política de paz,
defendendo os princípios da igualdade de direitos e da independência da Abissínia,
que ademais era membro da Liga das Nações, e o legítimo direito do governo
republicano de Espanha a receber apoio dos países democráticos contra a
intervenção germano-italiana.
Na Sessão do Comité Executivo Central da URSS, de 10 de Janeiro de 1936, a
propósito do ataque da Itália à Abissínia, V.M. Mólotov afirmou:
7
«A União Soviética demonstrou na Liga das Nações a sua
fidelidade ao princípio da independência nacional e igualdade
de direitos de todos os estados, tomando como exemplo um
dos mais pequenos países – a Abissínia. A União Soviética
também aproveitou a sua participação na Liga das Nações para
pôr em prática a sua política em relação ao agressor
imperialista.»
V.M. Mólotov afirmou ainda:
«A guerra na Abissínia mostra que a ameaça de uma guerra
mundial aumenta cada vez mais e domina cada vez mais a
Europa.»11
E que faziam nesta altura os governos dos EUA, da Grã-Bretanha e da França, à
vista dos quais os bandidos fascistas, cada vez mais descaradamente, davam cabo
das suas vítimas? Não levantaram um dedo, não se mexeram para refrear os
agressores alemães e italianos, para defender os direitos espezinhados dos povos,
para salvaguardar a paz e deter a aproximação da II Guerra Mundial.
Só a União Soviética fez tudo o que era possível para barrar o caminho ao
agressor fascista. Foi a URSS que tomou a iniciativa e defendeu a segurança
colectiva. Logo em 6 de Fevereiro de 1933, o representante soviético na Comissão
Geral para o Desarmamento, M.M. Litvínov, propôs a adopção de uma declaração
que definisse a agressão e o agressor. No interesse da segurança universal e para
facilitar um acordo sobre a redução máxima dos armamentos, a União Soviética
considerou necessário definir com a maior precisão possível o conceito de
«agressão», de modo a «prevenir qualquer pretexto que o pudesse justificar».
Todavia, esta proposta foi rejeitada pela conferência, que agiu sob a batuta da GrãBretanha e da França, em benefício da agressão alemã.
É do conhecimento geral que a União Soviética e a sua delegação na Liga das
Nações, presidida por M.M. Litvínov, travaram uma firme e prolongada luta pela
manutenção e reforço da segurança colectiva. Durante todo o período que
antecedeu a guerra, a delegação soviética na Liga das Nações defendeu o princípio
da segurança colectiva, levantando a sua voz em defesa deste princípio em
praticamente todas as sessões da assembleia e em quase todas as reuniões das
comissões. Porém, como é sabido, a delegação soviética foi uma voz a clamar no
deserto. São conhecidas no mundo inteiro as propostas para reforçar a segurança
colectiva, enviadas pela delegação soviética, por incumbência do governo da URSS,
em 30 de Agosto de 1936, ao secretário-geral da Liga das Nações, sr. Avenol,
solicitando que fossem discutidas. É também sabido que estas propostas foram
sepultadas nos arquivos da Liga das Nações sem merecerem qualquer atenção.
Era evidente que a Grã-Bretanha e a França, que então controlavam a Liga das
Nações, renunciavam à resistência colectiva frente à agressão alemã. Renunciavam
à segurança colectiva porque esta impedia-os de seguir a sua nova política de
«apaziguamento», a política de cedências à agressão hitleriana. Naturalmente que
11
V.M. Mólotov, Artigos e Discursos, 1935-1936, Partizdat, Moscovo, 1937, p. 176. [Em
russo (N. Ed.)]
8
esta política não podia senão provocar a intensificação da agressão alemã, mas os
círculos dirigentes britânicos e franceses não viam perigo nisto, pensando que
fazendo cedências à agressão de Hitler no Ocidente, seria possível orientá-la depois
para Leste e utilizá-la como arma contra a URSS.
No seu relatório ao XVIII Congresso do PCU(b), em Março de 1939, analisando
as razões da intensificação da agressão hitleriana, I.V. Stáline afirmou:
«A principal razão reside na rejeição por parte da maioria
dos países não agressivos, e antes de mais, da Inglaterra e da
França, da política de segurança colectiva, da política de
resistência colectiva ao agressor, na sua passagem para uma
posição de não ingerência, uma posição de “neutralidade”».12
O correspondente norte-americano, Neal Stanford, com o propósito de confundir
os leitores e ao mesmo tempo caluniar o governo soviético, escreveu que este se
opunha à segurança colectiva e que M.M. Litvínov foi afastado do cargo de
Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros e substituído por V.M. Mólotov
porque seguia uma política de reforço da segurança colectiva. É difícil imaginar algo
tão estúpido quanto esta fantasiosa afirmação. É óbvio que Litvínov não seguia a
sua política pessoal, mas a política do governo soviético. Por outro lado é
amplamente conhecida a luta do governo soviético e dos seus representantes,
incluindo o próprio Litvínov, pela segurança colectiva ao longo de todo o período
que antecedeu a guerra.
No que respeita à nomeação de V.M. Mólotov para o cargo de Comissário do
Povo dos Negócios Estrangeiros, é totalmente claro que, naquela situação tão
complexa, em que os agressores fascistas preparavam a II Guerra Mundial com a
conivência directa da Grã-Bretanha e da França que, sentindo as costas quentes
pelos EUA, incitavam os agressores a desencadear a guerra contra a URSS, era
necessário colocar naquele cargo tão responsável um dirigente com mais
experiência e mais popularidade no país que Litvínov.
A rejeição por parte das potências ocidentais de um pacto de segurança colectiva
não foi acidental. Neste período havia uma luta aberta entre duas linhas da política
internacional. Uma era a linha da luta pela paz, pela organização da segurança
colectiva e de resistência à agressão mediante a união de esforços dos povos
amantes da paz. Esta linha foi seguida firme e consequentemente pela União
Soviética, defendendo os interesses de todos os povos amantes da paz, grandes e
pequenos. A outra era a linha que rejeitava a organização da segurança colectiva, a
resistência à agressão, o que inevitavelmente alentou os países fascistas a
intensificar a sua actividade agressiva e desse modo contribuiu para o
desencadeamento de uma nova guerra.
A verdade histórica, como tudo isto demonstra, é que a agressão de Hitler
tornou-se possível, em primeiro lugar, porque os EUA ajudaram os alemães a criar
num curto prazo a base económica-militar para a agressão alemã e deste modo
armaram esta agressão, e, em segundo lugar, porque a rejeição da segurança
colectiva por parte dos círculos dirigentes da Grã-Bretanha e da França
12
I.V. Stáline, Relatório ao XVIII Congresso do PCU(b), em Março de 1939, Obras (em
russo), Izadátelstvo Pissátel, Moscovo, 1997, t. 14, p. 297 (N. Ed.)
9
desorganizou as fileiras dos países amantes da paz, decompôs a frente única destes
países contra a agressão, abriu caminho à agressão alemã e ajudou Hitler a
desencadear a II Guerra Mundial.
Que teria acontecido se os Estados Unidos não tivessem financiado a indústria
pesada da Alemanha de Hitler e a Grã-Bretanha e a França não tivessem rejeitado a
segurança colectiva, mas pelo contrário, tivessem organizado juntamente com a
União Soviética a resistência colectiva à agressão alemã?
A agressão alemã encontrar-se-ia sem armamento suficiente. A política
anexionista debater-se-ia nas peias do regime de segurança colectiva. As
possibilidades de os nazis desencadearem com êxito a II Guerra Mundial reduzirse-iam ao mínimo. E se, apesar destas condições desfavoráveis, os nazis decidissem
mesmo assim desencadear a II Guerra Mundial, teriam sido derrotados logo no
primeiro ano do conflito.
Todavia, infelizmente, isto não aconteceu em resultado da política perniciosa
seguida pelos EUA, Grã-Bretanha e França durante todo o período que antecedeu a
guerra.
Eis os culpados de os nazis terem podido desencadear com êxito a II Guerra
Mundial, que durou quase seis anos e provocou milhões de vítimas.
II
Política de isolamento da URSS, em vez de combate à agressão alemã
O desenvolvimento posterior dos acontecimentos mostrou ainda com mais
clareza que as cedências da Grã-Bretanha e da França e a sua condescendência para
com os estados fascistas, que se uniram em 1936 num bloco político-militar,
conhecido como o Eixo Berlim-Roma, apenas animaram e impeliram a Alemanha
no caminho da agressão.
Repudiando a política de segurança colectiva, a Grã-Bretanha e a França
adoptaram a chamada posição de não ingerência, que foi assim definida por I.V.
Stáline:
«(…) A política de não ingerência pode ser caracterizada do
seguinte modo: “Cada país que se defenda dos agressores
como quiser e puder, isso não é da nossa conta, nós faremos
negócios tanto com os agressores como com as suas vítimas.”
Na realidade, porém, a política de não ingerência significa
conivência com a agressão, desencadeamento da guerra e
consequentemente a sua transformação em guerra mundial».13
Além disso, I.V. Stáline acrescentou:
«(…) O grande e perigoso jogo político, iniciado pelos
partidários da política de não ingerência, pode acabar para eles
num grande fracasso».14
13
I.V. Stáline, Relatório ao XVIII Congresso do PCU(b), op. cit., p. 297 (N. Ed.)
14 Idem, Ibidem, p. 299. (N. Ed.)
10
Logo em 1937 era absolutamente claro que se caminhava para uma grande
guerra, projectada por Hitler com a conivência da Grã-Bretanha e da França.
Documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão, capturados pelas
tropas soviéticas após a derrota da Alemanha, revelam a verdadeira essência da
política externa da Grã-Bretanha e da França naquele período. Como se depreende
dos documentos, a essência da política anglo-francesa consistia não em unir as
forças dos estados amantes da paz, mas em procurar isolar a URSS e dirigir para
Leste a agressão alemã, contra a União Soviética, utilizando Hitler como arma para
os seus fins.
Acresce que os governantes da Grã-Bretanha e da França conheciam
perfeitamente a linha principal da política externa nazi, que foi definida por Hitler
do seguinte modo:
«Nós, os nacionais-socialistas, pomos fim deliberadamente
à orientação da nossa política externa no período precedente à
guerra.15 Nós começamos no ponto em que outros pararam há
seis séculos atrás. Suspendemos a eterna ambição dos alemães
pelo Sul e Oeste da Europa e dirigimos o nosso olhar para as
terras a Leste. Rompemos, por fim, com a política colonial e
comercial anterior à guerra e adoptamos a política territorial do
futuro. Mas, quando hoje falamos, na Europa, de novas terras,
só podemos pensar, em primeira linha, na Rússia e nos estados
adjacentes que lhe estão subordinados. Parece que é o próprio
destino a mostrar-nos a direcção».16
Até recentemente era consensual considerar que toda a responsabilidade pela
política de traição em Munique cabia aos círculos dirigentes da Grã-Bretanha e da
França, aos governos de Chamberlain e Daladier. O facto de o governo norteamericano ter decidido agora publicar documentos dos arquivos alemães, excluindo
todavia aqueles relacionados com o acordo de Munique, mostra que está
interessado em branquear os heróis da traição de Munique e, ao mesmo tempo,
lançar as culpas para cima da URSS.
O objectivo fundamental da política da Grã-Bretanha e da França em Munique já
antes era suficientemente claro. Porém, os documentos dos arquivos do Ministério
dos Negócios Estrangeiros alemão, na posse do governo soviético, fornecem
numerosos factos adicionais que revelam o verdadeiro objectivo da diplomacia das
potências ocidentais no período anterior à guerra, mostrando como jogaram com o
destino dos povos, como negociaram descaradamente territórios alheios, como
secretamente refizeram o mapa do mundo, como incentivaram a agressão e que
esforços fizeram para dirigir essa agressão para Leste, contra a União Soviética.
Isto é testemunhado com eloquência, por exemplo, num documento alemão que
transcreve a conversa entre Hitler e o ministro britânico Halifax, na presença de
15
Trata-se obviamente do período que antecedeu a I Guerra, dado que Hitler escreveu
estas palavras no Mein Kampf, publicado em 1925 e 1926. (N. Ed.)
16 Hitler, Mein Kampf, Munique, 1936, p. 742.
11
von Neurath, ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, que teve lugar em
Obersalzberg, no dia 19 de Novembro de 1937. Halifax declarou que:
«Ele [lord Halifax] e outros membros do governo britânico
estão convencidos de que o Führer não só alcançou grandes
resultados na Alemanha, mas, ao destruir o comunismo no seu
país, barrou-lhe o caminho para a Europa ocidental e por isso a
Alemanha pode considerar-se de pleno direito como o bastião
da Europa contra o bolchevismo».17
Halifax, falando em nome do primeiro-ministro britânico, Chamberlain, afirmou
que existia a possibilidade de encontrar solução até mesmo para problemas
complicados, desde que a Alemanha e a Grã-Bretanha conseguissem chegar a
acordo também com a França e a Itália. E acrescentou:
«Não deve haver a impressão de que o “Eixo Berlim-Roma”
ou as boas relações entre Londres e Paris serão prejudicadas
por uma aproximação entre a Grã-Bretanha e a Alemanha.
Depois de se preparar o terreno, em resultado da aproximação
britânico-germânica, as quatro grandes potências da Europa
Ocidental18 devem conjuntamente lançar as bases para o
estabelecimento de uma paz duradoura na Europa. Nenhuma
das quatro potências deve em caso algum ficar de fora desta
cooperação, de contrário não será posto um fim à actual
situação de instabilidade.»19
No entanto, Hitler respondeu a esta proposta declarando que um tal acordo lhe
parecia muito fácil se houvesse boa vontade e relações de mútuo respeito, mas o
assunto complicava-se se a Alemanha não fosse vista «como um Estado que
deixara de ter o estigma moral ou material do Tratado de Versalhes»
Em resposta, segundo o documento, Halifax declarou:
«Os ingleses são realistas e, talvez mais que outros, estão
convictos de que os erros do diktat de Versalhes devem ser
corrigidos. Também no passado a Inglaterra sempre exerceu a
sua influência a partir deste sentido realista. Referiu o papel da
Inglaterra
na
evacuação
da
17
Renânia
antes
do
prazo
«Registo da conversa do Führer e Reichskanzler com Lord Halifax, na presença do
ministro do Reich dos Negócios Estrangeiros em Obersalzberg, 19 de Novembro de 1937»,
dos Arquivos do Ministério alemão dos Negócios Estrangeiros.
18 Ou seja, a Grã-Bretanha, a França, a Alemanha e a Itália.
19 Registo citado.
12
estabelecido, na solução da questão das reparações, bem como
aquando da reocupação da Renânia20».21
Mais à frente na acta da conversa de Hitler com Halifax é patente que o governo
britânico era favorável ao plano nazi de «aquisição» de Dantzig, da Áustria e da
Checoslováquia. Depois de discutir com Hitler as questões do desarmamento e da
Liga das Nações, Halifax declarou:
«Todas as outras questões podem ser caracterizadas como
respeitantes a mudanças na ordem europeia que, mais cedo ou
mais tarde, provavelmente acontecerão. Dantzig, a Áustria e a
Checoslováquia estão relacionadas com estas questões. A
Inglaterra está apenas interessada em que estas mudanças se
processem por via de uma evolução pacífica e que seja possível
evitar métodos que possam causar futuras convulsões, que
nem o Führer nem os outros países desejariam.»22
Como se constata, esta conversa não foi uma mera sondagem para perscrutar o
interlocutor, o que por vezes na política é uma necessidade, mas um conluio, um
acordo secreto entre o governo britânico e Hitler para satisfazer os apetites do
último a expensas de países terceiros.
A este propósito deve-se referir a declaração do ministro britânico, John Simon,
no parlamento, em 21 de Fevereiro de 1938, de que a Grã-Bretanha nunca tinha
dado particulares garantias de independência à Áustria. Isto era uma manifesta
mentira uma vez que tais garantias tinham sido dadas nos tratados de Versalhes e
de Saint-Germain-en-Laye.
Na mesma altura, o primeiro-ministro britânico, Chamberlain, declarou que a
Áustria não podia contar com qualquer protecção da parte da Liga das Nações.
«Não devemos equivocar-nos e muito menos devemos
enganar as nações pequenas e fracas dando-lhes esperanças
de que terão a protecção da Liga das Nações contra uma
agressão e que será possível agir em consequência, uma vez
que sabemos que nada disso poderá ser feito».23
Foi desta forma que os responsáveis políticos britânicos incentivaram Hitler a
empreender acções anexionistas.
No arquivo confiscado em Berlim pelas tropas soviéticas existe também o registo
da conversa entre Hitler e o embaixador britânico na Alemanha, Neville
20
A ocupação ou remilitarização da Renânia iniciou-se em de 7 de Março de 1936, com a
entrada de unidades da Wermacht nesta região da Alemanha, desmilitarizada por
imposição do Tratado de Versalhes. (N. Ed.)
21 Registo citado.
22 Idem, ibidem.
23 The Times, 23 de Fevereiro de 1938, p. 8.
13
Henderson, que teve lugar em 3 de Março de 1938, na presença de Ribbentrop.24
Logo no início Henderson sublinhou o carácter confidencial da conversa,
precisando que o seu conteúdo não seria dado a conhecer aos franceses, belgas,
portugueses ou italianos, aos quais apenas seria dito que a conversa se inseriu na
continuação das negociações entre Halifax e Hitler sobre questões respeitantes à
Alemanha e à Inglaterra.
Falando em nome do governo britânico, Henderson referiu:
«Não se trata de um acordo comercial, mas de uma tentativa
de estabelecer as bases de uma amizade autêntica e cordial
com a Alemanha, começando com a melhoria da atmosfera e
acabando na criação de um novo espírito de entendimento
amigável.»25
Não se opondo à exigência de Hitler de «unir a Europa sem a Rússia»,
Henderson lembrou que Halifax, que nessa altura se tinha tornado ministro dos
Negócios Estrangeiros, já tinha concordado com as alterações territoriais que a
Alemanha tencionava efectuar na Europa, e que «o objectivo da proposta inglesa
era participar nesse ajustamento razoável».
Nesta conversa, segundo a transcrição, Henderson declarou que Chamberlain
«demonstrou grande coragem quando, sem olhar a nada, desmascarou a
fraseologia internacional, como a segurança colectiva, etc. (…)».
Por isso, acrescentou Henderson, «a Inglaterra declara a sua disposição para
eliminar todas as dificuldades e pergunta à Alemanha se, da sua parte, está
preparada para fazer o mesmo».26
Quando Ribbentrop interveio na conversa para lembrar a Henderson que o
embaixador britânico em Viena tinha feito uma declaração num tom «dramático» a
von Papen a propósito dos acontecimentos na Áustria, Henderson apressou-se a
demarcar-se da declaração do seu colega, afirmando que «ele próprio, se tinha
pronunciado várias vezes a favor da Anschuluss [anexação].»
Era esta a linguagem da diplomacia britânica no período anterior à guerra.
Na sequência deste acordo, Hitler anexou a Áustria logo em 12 de Março de
1938, sem qualquer reacção da Grã-Bretanha e da França. Nesse momento apenas a
União Soviética levantou a sua voz de advertência e de novo apelou à organização
de uma defesa colectiva dos países cuja independência era ameaçada pela agressão.
Logo em 17 de Março de 1938, o governo soviético enviou uma nota às restantes
potências, manifestando a sua disponibilidade para «iniciar imediatamente com as
outras potências, dentro ou fora da Liga das Nações, a discussão de medidas
práticas», que «tenham como fim deter o desenvolvimento futuro da agressão e
eliminar o perigo crescente de uma nova guerra mundial.»27 A resposta do
24
«Registo da conversa do Führer e Reichskanzler com o embaixador britânico de Sua
Majestade, na presença do ministro dos Negócios Estrangeiros, von Ribbentrop, que teve
lugar em 3 de Março de 1938, em Berlim», dos arquivos do Ministério alemão dos Negócios
Estrangeiros.
25 Idem, ibidem.
26 Idem, ibidem.
27 Izvéstia, 18 de Março de 1938.
14
governo britânico à nota soviética testemunhou a sua falta de vontade de criar
obstáculos aos planos da agressão nazi. Afirmava que a conferência para a adopção
de «acções concertadas contra a agressão, na opinião do governo de Sua
Majestade, não teria necessariamente um efeito favorável nas perspectivas da paz
na Europa».28
O elo seguinte na cadeia da agressão alemã e da preparação da guerra na Europa
foi a anexação da Checoslováquia. Este importantíssimo passo para o
desencadeamento da guerra na Europa só pôde ter sido concretizado por Hitler
com o apoio directo da Grã-Bretanha e da França.
Logo em 10 de Julho de 1938, Dirksen, o embaixador alemão em Londres,
informou Berlim de que o governo britânico «fez da busca de um compromisso
com a Alemanha um dos pontos essenciais do seu programa» e que «este governo
revela uma tal compreensão máxima em relação à Alemanha, que nenhuma outra
combinação possível de políticos ingleses poderia superar».29
Dirksen escreveu que o governo britânico «se aproximou da compreensão dos
pontos mais essenciais das principais exigências apresentadas pela Alemanha em
relação ao afastamento da União Soviética das decisões sobre os destinos da
Europa, do afastamento da Liga das Nações no mesmo sentido e da conveniência
das conversações e acordos bilaterais».
Dirksen também informou Berlim de que o governo britânico estava disposto a
fazer grandes sacrifícios para «satisfazer outras justas exigências da Alemanha».
Deste modo, o governo britânico e Hitler estabeleceram efectivamente um
acordo de grande alcance sobre planos de política externa, como Dirksen tão
expressivamente comunicou a Berlim no seu relatório.
Não é necessário lembrar os factos amplamente conhecidos relacionados com o
acordo de Munique. Mas não se pode esquecer que, em 19 de Setembro de 1938, ou
seja, passados quatro dias do encontro de Hitler com Chamberlain, que viajou de
avião com este fim até à residência do Führer em Berchtessagden, os
representantes dos governos britânico e francês exigiram que o governo
checoslovaco cedesse à Alemanha as regiões do seu território povoadas
maioritariamente por alemães sudetas. Alegaram que sem isso não seria possível
preservar a paz e garantir os interesses vitais da Checoslováquia. Os protectores
britânicos e franceses da agressão hitleriana tentaram esconder a sua traição com a
promessa de uma garantia internacional das novas fronteiras do Estado
checoslovaco, a título da sua «contribuição para o apaziguamento da Europa».30
Em 20 de Setembro, o governo checoslovaco respondeu à proposta anglofrancesa. Declarou que «aceitar uma proposta deste carácter equivaleria a
estropear total e voluntariamente o Estado em todos os sentidos». O governo da
Checoslováquia chamou a atenção dos governos britânico e francês para o facto de
que «a paralisia da Checoslováquia teria como resultado profundas mudanças
políticas em toda a Europa Central e do Sudeste».
28
Nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha de 24 de Março de
1938.
29
Соrrespondence respecting Czechoslovakia, Setembro de 1938, Londres, 1938», ctd
5817, рp. 8-9. (Correspondência relativa à Checoslováquia, Londres, Setembro de 1938).
30 «Relatório Político, de 10 de Julho de 1933, apenso ao relatório n.º 2589, de 10 de
Junho de 1938», dos Arquivos do Ministério alemão dos Negócios Estrangeiros.
15
O governo checoslovaco declarou:
«O equilíbrio de forças na Europa Central e na Europa em
geral seria destruído; isso traria consequências com grande
repercussão para todos os restantes estados, em particular
para a França».
O governo checoslovaco dirigiu aos governos da Grã-Bretanha e da França «um
último apelo» para que reconsiderassem a sua posição, sublinhando que isso
corresponderia não só ao interesse da Checoslováquia, como de todos os seus
amigos e também da «causa da paz e do desenvolvimento harmonioso da
Europa».
Mas os dirigentes britânicos e franceses mantiveram-se inflexíveis. No dia
seguinte, o governo britânico enviou uma nota ao governo checoslovaco, sugerindolhe que retirasse a sua resposta às propostas iniciais anglo-francesas e «ponderasse
depressa e seriamente» antes criar uma situação pela qual o governo britânico não
poderia responsabilizar-se. Sublinhando que não acreditava que a proposta
checoslovaca de arbitragem fosse aceitável, o governo britânico recusava-se a
admitir que «o governo alemão considere a situação susceptível de ser resolvida
pela arbitragem, como propõe o governo checoslovaco».
A nota finalizava em tom de ameaça, advertindo o governo checoslovaco de que,
caso recusasse o conselho, o governo britânico «será livre de tomar todas as
medidas que considerar adequadas à situação que vier a ser criada».
A reunião entre Hitler, Chamberlain, Mussolini e Daladier, realizada em
Munique, nos dias 29 e 30 de Setembro de 1938, foi a consumação do vergonhoso
pacto, que foi inteiramente concertado entre os principais participantes na
conspiração contra a paz. O destino da Checoslováquia foi decidido sem qualquer
participação sua. Os representantes checos foram convidados a Munique apenas
para aguardarem passivamente os resultados do pacto entre os imperialistas.
Toda a conduta da Inglaterra e da França não deixam dúvidas de que o seu
inaudito acto de traição ao povo e à Republica da Checoslováquia não era um
episódio ocasional na política destes estados, antes constituía o elo principal dessa
política, que visava dirigir a agressão nazi contra a União Soviética.
O verdadeiro significado da conspiração de Munique foi então desvendado por
I.V. Stáline, ao notar que «a entrega das regiões da Checoslováquia aos alemães
foi o preço pela obrigação que estes assumiram de começarem a guerra atacando
a União Soviética».31
A essência da política dos círculos dirigentes anglo-franceses durante este
período foi revelada por I.V. Stáline, no XVIII Congresso do PCU(b), em Março de
1939, com as seguintes palavras:
«A política de não ingerência significa conivência com a
agressão,
com
o
desencadeamento
da
guerra
e,
por
conseguinte, com a sua transformação em guerra mundial. Na
política de não ingerência transparece o propósito, o desejo de
não impedir o agressor de criar a sua obra maléfica, não
31
I.V. Stáline, Relatório ao XVIII Congresso do PCU(b), op. cit., p. 299. (N. Ed.)
16
impedir, digamos, o Japão de se envolver numa guerra contra a
China, ou melhor ainda contra a União Soviética, não impedir,
digamos, a Alemanha de se atolar nos assuntos europeus, de
se envolver numa guerra contra a União Soviética, deixar que
todos os beligerantes se atolem profundamente no pântano da
guerra, instigá-los pela calada, deixar que se enfraqueçam e se
esgotem
mutuamente,
e
depois,
quando
estiverem
suficientemente enfraquecidos, aparecer em cena com forças
frescas, intervir, naturalmente, “no interesse da paz”, e ditar
aos beligerantes enfraquecidos as suas condições.»32
Nos círculos democráticos de vários países, incluindo nos Estados Unidos da
América, na Grã-Bretanha e na França, o acordo de Munique foi recebido com
indignação e firme condenação. A atitude destes círculos para com a traição dos
governantes anglo-franceses em Munique pode ser avaliada, mais que não seja,
pelo livro de Sayers e Kahn, A Grande Conspiração, A Guerra Secreta Contra a
Rússia Soviética, publicado nos EUA. Veja-se o que escreveram os autores deste
livro sobre Munique:
«Os governos da Alemanha nazi, da Itália fascista, da Grã-
Bretanha e da França assinaram o acordo de Munique: realizouse o sonho da “Santa Aliança” anti-soviética acariciado pela
reacção mundial desde 1918. O acordo deixou a Rússia sem
aliados. O tratado franco-soviético – pedra angular da
segurança colectiva na Europa – foi enterrado. Os sudetas
checoslovacos tornaram-se parte da Alemanha nazi. As portas
do Leste abriram-se para as hordas hitlerianas.»33
De todas as grandes potências, só a União Soviética, em todas as fases da
tragédia checoslovaca, interveio activamente em defesa da independência e dos
direitos nacionais da Checoslováquia. Tentando justificar-se aos olhos da opinião
pública, os governos da Grã-Bretanha e da França declararam hipocritamente que
não estavam certos de que a União Soviética cumpriria as suas obrigações perante a
Checoslováquia, que decorriam do tratado de ajuda mútua. Tratou-se de uma
mentira descarada uma vez que a União Soviética havia declarado publicamente a
sua disposição de intervir contra a Alemanha em defesa da Checoslováquia, em
conformidade com as disposições do tratado que exigia a intervenção simultânea da
França em defesa da Checoslováquia. Mas a França recusou cumprir o seu dever.
Apesar disso, nas vésperas da negociata de Munique, o governo soviético voltou
a pronunciar-se a favor da convocação de uma conferência internacional para
prestar auxílio à Checoslováquia e adoptar medidas práticas para a preservação da
paz.
32
Idem, ibidem, p. 297. (N. Ed.)
Sayers e Kahn, The Great Conspiracy – The Secret War Against Soviet Russia,
Boston, 1946, pp.324-325.
33
17
Quando a ocupação da Checoslováquia se tornou um facto, e os governos
imperialistas, um após outro, reconheceram esse facto consumado, a União
Soviética, numa nota de 18 de Março, qualificou a anexação da Checoslováquia,
realizada pela Alemanha nazi com a cumplicidade da Grã-Bretanha e da França,
como um acto arbitrário, uma violência e uma agressão. Na mesma nota, o governo
soviético sublinhou que as acções da Alemanha tinham criado e aumentado a
ameaça à paz mundial:
«Perturbaram a estabilidade política na Europa Central,
intensificaram os elementos de alarme já antes criados na
Europa e assestaram um novo golpe no sentimento de
segurança dos povos».34
Mas o caso não se limitou à entrega da Checoslováquia a Hitler. Os governos da
Grã-Bretanha e da França apressaram-se, ao desafio, a assinar amplos acordos
políticos com a Alemanha de Hitler. Em 30 de Setembro de 1938, em Munique,
Chamberlain e Hitler assinaram uma declaração anglo-germânica, em que se
afirmava:
«Continuámos
hoje
a
nossa
conversa
e
chegamos
unanimemente à convicção de que as relações anglogermânicas têm uma importância primordial quer para ambos
os países quer para a Europa. Consideramos que o acordo
assinado ontem à noite e o acordo naval anglo-germânico
simbolizam o desejo dos nossos povos de nunca mais entrarem
em guerra um contra o outro. Estamos firmemente decididos a
examinar outros assuntos, respeitantes a ambos os países,
através de consultas, e aspiramos a superar quaisquer motivos
de divergência, de modo a contribuir para a garantia da paz na
Europa».35
Esta foi a declaração de não agressão mútua por parte da Grã-Bretanha e da
Alemanha.
Uma declaração semelhante franco-germânica foi assinada por Bonnet e
Ribbentrop no dia 6 de Dezembro de 1938. Nela afirmava-se que os governos
alemão e francês tinham chegado unanimemente à convicção de que as relações
pacíficas e de boa vizinhança entre a Alemanha e a França constituíam uma das
condições essenciais para a consolidação das relações na Europa e preservação da
paz mundial e que ambos os governos envidariam todos os esforços para garantir a
manutenção de tais relações entre os seus países. A declaração constatava que entre
a França e a Alemanha tinham deixado de existir litígios territoriais e que a
fronteira existente entre os dois países era definitiva. A declaração concluía
afirmando que ambos os governos estavam firmemente decididos,
independentemente das suas relações particulares com terceiros países, a manter
34
Izvéstia, 20 de Março de 1939.
«Archiv fur Aussenpolitik und Landerkunde», Setembro, 1938, (Arquivo de Política
Externa e de Estudos Geográficos) p. 483.
35
18
contactos mútuos em todas as questões respeitantes aos seus países e a consultar-se
entre si, caso essas questões pudessem vir a ter desenvolvimentos que
complicassem a situação internacional.
Esta foi uma declaração de não agressão mútua entre a França e a Alemanha.
Na sua essência, estes acordos significaram que tanto a Grã-Bretanha como a
França assinaram com Hitler pactos de não agressão.
Estes acordos com a Alemanha de Hitler revelam com toda a clareza o propósito
dos governos britânico e francês de afastarem de si a ameaça da agressão hitleriana,
contando que os pactos de Munique e outros semelhantes teriam já aberto as portas
para a agressão hitleriana a Leste, em direcção à União Soviética.
Deste modo foram criadas as condições políticas necessárias para a «união da
Europa sem a Rússia».
Tinha-se chegado ao total isolamento da União Soviética.
III
O isolamento da União Soviética.
O pacto de germano-soviético de não agressão
Depois da anexação da Checoslováquia, a Alemanha fascista começou a
preparar-se para a guerra de modo completamente aberto, à vista do mundo
inteiro. Hitler, incentivado pela Inglaterra e pela França, deixou-se de cerimónias e
fingimentos com os partidários da solução pacífica dos problemas europeus.
Começaram os meses mais dramáticos do período que precedeu a guerra. Tornouse logo claro que a humanidade se aproximava a cada dia de uma catástrofe militar
inaudita.
Qual foi, por um lado, a política da União Soviética e, por outro, a política da
Grã-Bretanha e da França?
A tentativa de fugir a esta pergunta por parte dos falsificadores da história nos
EUA é um testemunho da sua consciência pesada.
A verdade é que a Grã-Bretanha e a França, com o apoio dos círculos dirigentes
dos EUA, mantiveram a anterior linha política funesta, inclusive no período da
Primavera e Verão de 1939, quando se estava no limiar da guerra. Foi uma política
provocatória de açulamento da Alemanha nazi contra a União Soviética, camuflada
não só com frases farisaicas manifestando disponibilidade para cooperar com a
URSS, mas também com algumas manobras diplomática banais, destinadas a
esconder da opinião pública o verdadeiro carácter do rumo político que estavam a
seguir.
A mais importante dessas manobras foram as conversações que a Grã-Bretanha
e a França decidiram entabular com a União Soviética. Para enganarem a opinião
pública, os círculos dirigentes anglo-franceses tentaram apresentar estas
conversações como uma tentativa séria de obstaculizar a propagação da agressão
nazi. Todavia, à luz do curso ulterior dos acontecimentos, tornou-se totalmente
claro que, para os britânicos e franceses, desde o começo, estas conversações não
passavam da continuação do seu jogo duplo.
Isto era também claro aos olhos dos dirigentes da Alemanha de Hitler, para
quem o significado das conversações entabuladas pela Grã-Bretanha e França com
a União Soviética não constituía, naturalmente, nenhum segredo. Veja-se, por
19
exemplo, o que escreveu a propósito disto Dirksen, embaixador alemão em
Londres, em 3 de Agosto de 1939, segundo consta nos documentos confiscados pelo
Exército Soviético no momento da derrota da Alemanha nazi:
«Aqui, a impressão predominante é a de que as ligações
surgidas nos últimos meses com outros estados constituem
apenas um meio auxiliar para uma verdadeira reconciliação
com a Alemanha, e que estas ligações cairão logo que for
alcançado o único objectivo importante e digno de esforço: o
acordo com a Alemanha.»
Todos os diplomatas alemães que seguiam a situação em Londres partilhavam
firmemente esta opinião.
Noutro dos seus relatórios secretos enviados para Berlim, Dirksen escreveu:
«A Inglaterra pretende reforçar-se por meio do armamento e
da aquisição de aliados e equiparar-se ao Eixo, mas ao mesmo
tempo pretende chegar por via das negociações a um acordo
amistoso com a Alemanha.»36
Os caluniadores e falsificadores da história procuram ocultar estes documentos
porque eles lançam uma luz brilhante sobre a conjuntura dos últimos meses antes
da guerra, sem uma avaliação correcta dos quais não é possível compreender a
verdadeira história da guerra. Ao entabularem conversações com a União Soviética,
e oferecendo garantias à Polónia, Roménia e a alguns outros estados, a GrãBretanha e a França, com o apoio dos EUA, faziam um jogo duplo, apostando num
acordo com a Alemanha de Hitler, com o fim de dirigir a sua agressão para Leste,
contra a União Soviética.
As conversações com a Grã-Bretanha e França de um lado e a União Soviética do
outro começaram em Março de 1939 prolongando-se durante cerca de quatro
meses.
Todo o curso das conversações mostrou com total evidência que enquanto a
União Soviética aspirava alcançar um amplo e equitativo acordo com as potências
ocidentais, capaz pelo menos de no último momento impedir a Alemanha de
desencadear a guerra na Europa, os governos da Grã Bretanha e da França, com o
apoio dos Estados Unidos, tinham objectivos totalmente diferentes. Os círculos
dirigentes anglo-franceses, habituados a tirarem as castanhas das brasas com a pata
do gato, também desta vez tentaram impingir tais obrigações à União Soviética que
recairia sobre ela todo o fardo dos sacrifícios necessários para repelir uma possível
agressão de Hitler, enquanto a Grã-Bretanha e a França não assumiam quaisquer
obrigações para com a União Soviética.
Se os dirigentes anglo-franceses tivessem tido êxito nesta manobra, teriam
ficado muito perto de realizar o seu objectivo principal, que consistia em lançar a
Alemanha e a União Soviética uma contra a outra, o mais rapidamente possível. No
entanto, o governo soviético apercebeu-se desta intenção e em todas as fases das
conversações contrapôs aos truques e habilidades diplomáticas as suas propostas
36
Nota de Dirksen: «Sobre o desenvolvimento das relações políticas entre a Alemanha e
a Grã-Bretanha durante a minha missão de serviço em Londres», Setembro de 1939.
20
claras e abertas, que apenas visavam servir um único fim: a causa da defesa da paz
na Europa.
Não é necessário lembrar todas as peripécias destas conversações. Cabe avivar a
memória apenas de alguns dos momentos mais importantes. É suficiente recordar
as condições que foram apresentadas pelo governo soviético nestas conversações: a
conclusão entre a Grã-Bretanha, a França e a URSS de um tratado de efectiva
assistência mútua contra a agressão; a garantia de segurança por parte da GrãBretanha, França e URSS aos estados da Europa central e de Leste, incluindo todos
os estados europeus fronteiriços com a URSS sem excepção; a conclusão de um
acordo militar concreto entre a Grã-Bretanha, França e URSS sobre as formas e
limites da imediata assistência efectiva mútua e aos estados protegidos em caso de
ataque dos agressores.37
Na 3.ª Sessão do Soviete Supremo da URSS, em 31 de Maio de 1939, V.M.
Mólotov assinalou que certas propostas anglo-francesas, apresentadas durante
estas conversações, não respeitavam nenhum dos princípios elementares de
reciprocidade e igualdade de obrigações, indispensáveis em qualquer acordo
equitativo. A este propósito Mólotov afirmou:
«Salvaguardando-se a si próprios de um ataque directo
através de pactos de assistência mútua entre ambos e com a
Polónia, e assegurando a assistência da URSS em caso de
ataque dos agressores à Polónia e à Roménia, os ingleses e
franceses deixaram em aberto a questão: poderá a URSS por
sua vez contar com a assistência por parte deles no caso de
sofrer um ataque directo dos agressores? Da mesma forma que
deixaram em aberto outra questão: poderão eles participar na
protecção dos pequenos estados vizinhos da URSS, junto à
fronteira Noroeste da URSS, se estes países se revelarem
incapazes de defender a sua neutralidade face ao ataque dos
agressores? Concluiu-se deste modo que a URSS ficaria numa
posição desigual».
Mesmo quando os representantes anglo-franceses concordaram verbalmente
com o principio da assistência mútua entre a Grã-Bretanha, França e URSS, ao
tratar-se das condições dessa assistência, no caso de um ataque directo do agressor,
colocaram tantas restrições que transformavam o acordo numa ficção.
Além disso, as propostas anglo-francesas previam a assistência por parte da
URSS aos países que a Grã-Bretanha e a França tinham prometido protecção, mas
nada disseram sobre a assistência da sua parte aos países da fronteira Noroeste da
URSS, os estados do Báltico, no caso de sofrerem um ataque do agressor.
Partindo das considerações atrás expostas, V.M Mólotov declarou que a União
Soviética não podia assumir obrigações em relação a determinados países sem que
fossem dadas as mesmas garantias aos países limítrofes com a fronteira Noroeste
da União Soviética.
37
Informe de Mólotov à 3.ª Sessão do Soviete Supremo da URSS, 31 de Maio de 1939.
21
Deve-se ainda recordar que quando o embaixador britânico em Moscovo, Seeds,
em 18 de Março de 1939, perguntou ao comissário do povo dos Negócios
Estrangeiros qual seria a posição da União Soviética no caso de uma agressão nazi
contra a Roménia, de cuja preparação os britânicos dispunha de informações, e
quando o lado soviético retorquiu indagando qual seria a posição da Grã-Bretanha
numa circunstância dessas, Seeds, fugiu à pergunta, observando que a Roménia
está geograficamente mais próxima da União Soviética do que da Inglaterra.
Deste modo, desde o primeiro momento, tornou-se evidente o desejo dos
círculos dirigentes britânicos de vincular a União Soviética a determinadas
obrigações, mantendo-se eles à margem. Este estratagema torpe foi depois utilizado
sistematicamente, repetindo-se sempre ao longo das conversações.
Em resposta à pergunta britânica, a União Soviética apresentou a proposta de
convocar uma conferência de representantes dos estados mais interessados,
nomeadamente: Grã-Bretanha, França, Roménia, Polónia, Turquia e União
Soviética. Na opinião do governo soviético tal conferência permitiria esclarecer a
situação existente e definir as posições de todos os participantes. Porém, o governo
britânico respondeu dizendo que considerava a proposta soviética prematura.
Em vez de se convocar a conferência, que tornaria possível chegar a acordo sobre
medidas concretas de luta contra a agressão, o governo britânico propôs ao governo
soviético, em 21 de Março de 1939, a assinatura conjunta, incluindo também a
França e a Polónia, de uma declaração, na qual os governos subscritores se
comprometeriam a «consultar-se sobre os passos que deveriam ser dados para
uma resistência comum», no caso de ameaça «à independência de um qualquer
Estado europeu». Pretendendo mostrar o quão aceitável era a sua proposta, o
embaixador britânico enfatizou em especial os termos muito pouco
comprometedores com que fora redigida a declaração.
Era absolutamente evidente que tal declaração não podia constituir um meio
eficaz para afastar a ameaça iminente da agressão. No entanto, acreditando que
mesmo uma declaração tão pouco auspiciosa como aquela poderia de algum modo
contribuir para refrear o agressor, o governo soviético concordou em adoptar a
proposta britânica. Mas logo no dia 1 de Abril de 1939, o embaixador em Moscovo
comunicou que a Grã-Bretanha considerava que a questão da declaração conjunta
perdera actualidade.
Depois de duas semanas de manobras dilatórias, o ministro britânico dos
Negócios Estrangeiros, Halifax, apresentou uma nova proposta, através do
embaixador em Moscovo, segundo a qual o governo soviético deveria fazer uma
declaração afirmando que «em caso de um acto de agressão contra qualquer
vizinho europeu da URSS que oponha resistência, poderá contar com o auxílio do
governo soviético, se assim o desejar».
A ideia principal desta proposta visava que, no caso de um acto de agressão da
Alemanha contra a Letónia, Lituânia, Estónia ou Finlândia, a União Soviética fosse
obrigada a prestar-lhes auxílio, sem nenhum compromisso por parte da GrãBretanha, ou seja, enredar-se sozinha numa guerra com Alemanha. No que tocava à
Polónia e à Roménia, países aos quais a Grã-Bretanha tinha prometido protecção,
seria igualmente a União Soviética a prestar-lhes ajuda contra o agressor. Também
neste caso a Grã-Bretanha não queria assumir quaisquer obrigações conjuntas com
a URSS, ficando com as mãos livres para todo o tipo de manobras, já sem falar de
22
que, segundo esta proposta, a Polónia e a Roménia, bem como os estados do
Báltico, não contraíam nenhum compromisso em relação à URSS.
No entanto, o governo soviético, que não queria perder nenhuma oportunidade
de alcançar acordos com outras potências contra a agressão nazi, apresentou sem
demoras a sua contraproposta ao governo britânico. Esta proposta visava, em
primeiro lugar, que a União Soviética, a Grã-Bretanha e a França se
comprometessem mutuamente a prestar uns aos outros todo o tipo de assistência
imediata, incluindo militar, em caso de agressão contra qualquer um destes
estados; em segundo lugar, que a União Soviética, a Grã-Bretanha e a França se
comprometessem a prestar todo o tipo de assistência, incluindo militar, aos estados
da Europa de Leste, situados entre os mares Báltico e Negro e fronteiriços com a
União Soviética, em caso de ser alvo de agressão. Em terceiro e último lugar, a
União Soviética, a Grã-Bretanha e a França deviam comprometer-se a definir num
curto prazo a dimensão e as formas da assistência militar que prestariam a cada um
destes estados, nos dois casos atrás referidos.
Estes eram os pontos mais importantes da proposta soviética. Havia uma
diferença fundamental entre a proposta soviética e a apresentada pela GrãBretanha, uma vez que a primeira continha medidas verdadeiramente eficazes de
reacção conjunta à agressão.
Passaram três semanas sem surgir qualquer resposta por parte do governo
britânico, o que provocou uma agitação crescente no país e acabou por levar os
governantes a inventar mais uma manobra habitual para enganar a opinião pública.
No dia 8 de Maio chegou a resposta britânica ou, mais precisamente, a
contraproposta britânica. Voltava a propor que o governo soviético fizesse uma
declaração unilateral em que «se comprometeria, em caso de envolvimento da
Grã-Bretanha e da França em acções militares, a cumprir as obrigações por eles
assumidas» (perante a Bélgica, Polónia, Roménia, Grécia e Turquia), e «prestar
assistência imediata, sempre que seja desejável, devendo o tipo e as condições da
prestação desta assistência ser matéria de acordo».
Também esta proposta falava de compromissos unilaterais da União Soviética,
que deveria prestar ajuda à Grã-Bretanha e à França, sem que estes países, por sua
vez, assumissem quaisquer obrigações em relação aos estados do Báltico. Deste
modo, a Grã-Bretanha propunha que a URSS se colocasse numa posição desigual, o
que era inaceitável e indigno para qualquer estado independente.
É fácil compreender que, na prática, a proposta britânica era dirigida mais a
Berlim, do que propriamente a Moscovo. Ela convidava os alemães a atacar a União
Soviética, dando-lhes a entender que a Grã-Bretanha e a França permaneceriam
neutrais, desde que o ataque fosse realizado através dos países do Báltico.
No dia 11 de Maio, as conversações complicaram-se ainda mais devido à
declaração do embaixador polaco em Moscovo de que «a Polónia não considerava
possível concluir um pacto de ajuda mútua com a URSS».
Naturalmente que esta declaração do representante polaco não podia ter sido
feita sem o conhecimento e consentimento dos círculos dirigentes da Grã-Bretanha
e da França.
O comportamento dos representantes britânicos e franceses nas conversações
em Moscovo tinha um carácter de tal modo provocador que até políticos do campo
das potências ocidentais criticaram severamente este jogo grosseiro. Lloyd George,
por exemplo, publicou no jornal francês Ce Soir um contundente artigo contra os
23
mentores da política britânica. Referindo-se às razões da ladainha infindável em
que a Grã-Bretanha e a França tinham enredado as conversações com a União
Soviética, Lloyd George escreveu que esta pergunta só pode ter uma resposta:
«Neville Chamberlain, Halifax e John Simon não desejam
chegar a nenhum acordo com a Rússia.»
Certamente, aquilo que era óbvio para Lloyd George não devia oferecer dúvidas
aos líderes da Alemanha de Hitler. Estes compreendiam perfeitamente que as
potências ocidentais não pretendiam nenhum acordo sério com a União Soviética, o
seu objectivo era outro complemente oposto. Queriam impelir Hitler a atacar o
mais rapidamente possível a União Soviética, e como prémio para o fazer criavam
as condições mais desfavoráveis à União Soviética no caso de uma guerra contra a
Alemanha.
Com esse fito, as potências ocidentais protelavam até ao infinito as conversões
com a União Soviética, afundando as questões essenciais num pântano de emendas
menores e inumeráveis versões. Sempre que vinham à liça quaisquer compromissos
reais, os representantes destas potências faziam-se desentendidos, como se não
compreendessem o que se estava a tratar.
No final de Maio, a Grã-Bretanha e a França avançaram com novas propostas
que, nalguns aspectos, melhoravam a versão anterior, mas continuava em aberto a
questão de suma importância para a URSS das garantias para os três estados
bálticos, situados junto à fronteira Noroeste da União Soviética.
Deste modo, fazendo algumas concessões verbais por pressão da opinião pública,
os governantes britânicos e franceses permaneceram nas suas posições, pejando as
suas propostas com tais cláusulas que as tornavam deliberadamente inaceitáveis
para a União Soviética.
O comportamento dos representantes anglo-franceses nas conversações em
Moscovo era de tal modo intolerável que V.N. Mólotov se viu obrigado a declarar,
em 27 de Maio de 1939, ao embaixador britânico, Seeds, e ao encarregado de
Negócios francês, Payart, o projecto de acordo que lhe fora apresentado de reacção
conjunta à agressão na Europa não continha um plano de organização de uma
efectiva assistência mútua entre a URSS, a Grã-Bretanha e a França e nem sequer
manifestava um interesse sério por parte dos governos britânico e francês na
celebração de um pacto nesse sentido com a União Soviética. Além disso declarou
frontalmente que as propostas anglo-francesas sugerem que os respectivos
governos estão mais interessados em que se fale do pacto do que propriamente em
assiná-lo. Provavelmente estas conversas eram úteis à Grã-Bretanha e à França
para quaisquer outros fins. O governo soviético desconhecia que fins seriam esses e
estava interessado não em conversas sobre o pacto, nas na organização de uma
verdadeira assistência mútua entre a URSS, a Grã-Bretanha e a França contra a
agressão na Europa. Os representantes anglo-franceses foram advertidos de que o
governo soviético não tencionava participar em conversas sobre o pacto, cuja
finalidade desconhecia, e que os governos britânico e francês podiam encontrar
parceiros mais adequados para tais conversas do que a URSS.
As conversações de Moscovo prolongavam-se indefinidamente. As razões desse
intolerável protelamento foram reveladas pelo jornal londrino The Times, que
escreveu: «Uma rápida e decidida união com a Rússia pode prejudicar outras
24
conversações»38 O diário referia-se seguramente às conversações entre o ministro
britânico do Comércio Externo, Robert Hudson, e o conselheiro económico de
Hitler, Helmut Wohltat, sobre a concessão de um empréstimo inglês muito
avultado à Alemanha de Hitler, de que adiante se falará.
Além disso, como é sabido, no dia em que o exército nazi entrou em Praga, como
noticiou a imprensa, uma delegação da Federação das indústrias britânicas
mantinha conversações em Dusseldorf com vista à assinatura de um grande acordo
com a indústria alemã.
Significativo é também o facto de a Grã-Bretanha se ter feito representar nas
conversações em Moscovo por figuras secundárias, ao mesmo tempo que
Chamberlain se deslocou repetidamente à Alemanha para conversações com Hitler.
É igualmente importante assinalar que o representante britânico nas conversações
com a URSS, William Strang, não tinha poderes para assinar qualquer acordo com
a URSS.
Dada a exigência da União Soviética de iniciar negociações concretas sobre
medidas para enfrentar uma possível agressão, os governos britânico e francês
aceitaram enviar a Moscovo missões militares. No entanto, estas missões não só
demoraram imenso a chegar a Moscovo, como depois se constatou que eram
constituídas por patentes de segunda ordem sem poderes para concluir qualquer
acordo. Nestas condições, as conversações militares revelaram-se tão infrutíferas
como as políticas.
As missões militares das potências ocidentais demostraram logo que não
tencionavam discutir seriamente a respeito dos meios de assistência mútua em caso
de agressão da Alemanha. A missão soviética salientou que não tendo a URSS
fronteira comum com a Alemanha, em caso de a guerra eclodir, apenas poderia
prestar assistência à Grã-Bretanha, França e Polónia se as tropas soviéticas
pudessem atravessar o território polaco. Porém, o governo polaco tinha declarado
que não aceitaria auxílio militar da URSS, mostrando que receava mais o reforço da
União Soviética do que a agressão nazi. Tanto a missão britânica como a francesa
apoiaram a posição da Polónia.
No decorrer das conversações militares foi ainda colocada a questão da
quantidade de tropas que cada parte deveria disponibilizar de imediato em caso de
agressão. Os britânicos disseram que poderia avançar com cinco divisões de
infantaria e uma divisão mecanizada, o que era um número ridículo, tanto mais que
a União Soviética se comprometia a colocar na frente contra o agressor 136
divisões, cinco mil peças de artilharia pesada e média, cerca de dez mil tanques
pesados e ligeiros, mais de cinco mil aviões de combate, etc. Por aqui se vê a atitude
pouco séria do governo britânico nas negociações militares com a URSS.
Os factos atrás referidos são suficientes para confirmar as conclusões seguintes,
que se impõem por si próprias:
1. O governo soviético, demonstrando uma enorme paciência, procurou ao longo
das conversações chegar a um acordo de assistência mútua com a Grã-Bretanha e a
França contra o agressor, baseado nos princípios da igualdade e na condição de que
a assistência mútua seria realmente eficaz, ou seja, que a conclusão de um tratado
político seria acompanhado da assinatura de um convénio militar, que
38
Sayers e Kahn, The Great Conspiracy: The Secret War Against Soviet Russia, Boston,
p. 329.
25
estabelecesse as dimensões, as formas e os prazos da assistência, uma vez que todo
o curso dos acontecimentos tinha mostrado de modo suficientemente claro que só
um tal acordo poderia ser eficaz e chamar à razão o agressor nazi, apaparicado por
uma total impunidade e tolerância por parte das potências ocidentais durante
vários anos.
2. O comportamento da Grã-Bretanha e da França durante as conversações com
a União Soviética confirmou plenamente que não tencionavam chegar a nenhum
acordo com a URSS, uma vez que a política de ambos visava objectivos, que nada
tinham em comum com a causa da paz e a luta contra a agressão;
3. O pérfido propósito da política anglo-francesa consistia em dar a entender a
Hitler que a URSS não tinha aliados, que estava isolada, e que ele podia atacá-la
sem arriscar uma reacção por parte da Grã-Bretanha e da França.
Em vista de tudo isto, não surpreende que as conversações anglo-francosoviéticas tenham terminado num fracasso.
Este fracasso não foi evidentemente ocasional. Era cada vez mais evidente que a
ruptura das conversações tinha sido planeada previamente pelas potências
ocidentais como parte do seu jogo duplo. A verdade é que a par de conversações
abertas com a URSS, os britânicos mantinham conversações de bastidores com a
Alemanha, e atribuíam a estas últimas uma importância incomparavelmente maior.
Se com as conversações com Moscovo os círculos dirigentes das potências
ocidentais visavam sobretudo baixar a vigilância da opinião pública e enganar os
povos que estavam a ser arrastados para a guerra, já as conversações com os nazis
tinham um carácter completamente diferente.
O programa das conversações anglo-germânicas foi enunciado com suficiente
clareza pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, Halifax, que
lançou apelos inequívocos à Alemanha de Hitler, na mesma altura em que os seus
funcionários mantinham conversações em Moscovo. Em 29 de Junho de 1939, no
discurso proferido no banquete no Royal Institue of International Affairs, Halifax
manifestou a disposição para chegar a acordo com a Alemanha sobre todas as
questões que «angustiam todo o mundo». E acrescentou:
«Numa nova atmosfera desse tipo poderíamos discutir o
problema colonial, a questão das matérias-primas, as barreiras
comerciais, o “espaço vital”, a limitação dos armamentos, e
qualquer outra questão que afecte a vida de todos os cidadãos
europeus».39
Se nos recordarmos de como o jornal conservador, Daily Mail, próximo de
Halifax, abordou o problema do «espaço vital» logo em 1933, sugerindo aos
hitlerianos que o conquistassem à URSS, não restará a mais pequena dúvida sobre
o verdadeiro sentido da declaração de Halifax. Foi uma proposta clara feita à
Alemanha de Hitler para chegarem a acordo sobre a partilha do mundo e das
esferas de influência e para resolver todas as questões sem a União Soviética e
sobretudo à sua custa.
39
Speeches on Foreign Policy, by Viscount Halifax, Oxford University Press. Londres,
1940, p. 296.
26
Logo em Junho de 1939, os representantes da Grã-Bretanha, iniciaram
conversações rigorosamente secretas por intermédio de Wohltat, que se deslocou a
Londres na qualidade de delegado de Hitler para o plano quadrienal. Mantiveram
encontros com ele, o ministro britânico do Comércio Externo, Hudson, e o
conselheiro mais próximo de Chamberlain, G. Wilson. O conteúdo destas
conversações de Junho permanece por enquanto sepultado nos arquivos
diplomáticos secretos. Todavia, em Julho, Wohltat voltou a Londres para retomar
as conversações. O conteúdo dessa segunda ronda negocial é hoje conhecido através
dos documentos confiscados na Alemanha que estão na posse do governo soviético
e que em breve serão divulgados.
Hudson e G. Wilson fizeram a proposta a Wohltat e depois a Dircksen,
embaixador da Alemanha em Londres, de entabular conversações secretas com
vista à conclusão de um amplo acordo, que incluiria um acordo sobre a partilha de
esferas de influência à escala mundial e a eliminação da «concorrência mortífera
nos mercados comuns». Previa-se conceder à Alemanha uma influência
predominante no Sudeste da Europa. No seu relatório ao Ministério alemão dos
Negócios Estrangeiros, de 21 de Julho de 1939, Dircksen indicou que o programa
discutido por Wohltat e Wilson abrangia questões políticas, militares e económicas.
Entre as questões políticas foi dado particular relevo, a par do pacto de não
agressão, a um pacto de não intervenção, que deveria incluir a «delimitação dos
espaços vitais entre as grandes potências, sobretudo entre a Inglaterra e a
Alemanha».40
Durante a discussão dos problemas relativos à conclusão destes dois pactos, os
representantes britânicos prometeram que no caso de ambos os pactos serem
assinados, a Grã-Bretanha retiraria as garantias que tinha acabado de dar à
Polónia.
Caso os pactos fossem assinados os britânicos estavam ainda dispostos a
permitir que os alemães resolvessem a sós com a Polónia o problema de Dantzig e
do corredor polaco, comprometendo-se a não interferir nesse processo.
Alem disso, como se prova documentalmente pelos relatórios de Dircksen, que
em breve serão publicados, Wilson reiterou que em caso de conclusão dos referidos
pactos a política britânica de garantias seria na prática abandonada.
A este propósito, o relatório de Dircksen observa:
«Então, a Polónia ficaria, digamos, sozinha frente a frente
com a Alemanha.»
Tudo isto significava que os governantes da Grã-Bretanha estavam dispostos a
entregar a Polónia para que Hitler a esquartejasse, ainda mal secara a tinta com que
os britânicos haviam assinado as garantias à Polónia.
Além disso, se o acordo anglo-germânico fosse assinado, tal aumentaria a
possibilidade de precipitar o conflito entre a Alemanha e a URRS, ou seja, a França
e a Grã-Bretanha alcançariam o objectivo que tinham colocado ao iniciarem as
negociações com a União Soviética.
Por último, previa-se que o acordo político entre a Grã-Bretanha e a Alemanha
fosse completado com acordos económicos, incluindo um pacto secreto que
40
«Nota do Embaixador alemão em Inglaterra, Dirksen, de 21 de Julho de 1939»,
arquivo do Ministério alemão dos Negócios Estrangeiros.
27
compreendia as questões coloniais, a partilha de matérias-primas e de mercados,
bem como um vultuoso empréstimo à Alemanha.
Deste modo, os governantes britânicos entreviam o quadro atraente de um
acordo sólido com a Alemanha e a chamada «canalização» da agressão alemã para
Leste, contra a Polónia, à qual acabavam de dar garantias, e a União Soviética.
Não surpreende que os caluniadores e falsificadores da história silenciem
cuidadosamente e tentem ocultar estes factos, cuja importância é crucial para a
compreensão das circunstâncias que estavam a tornar a guerra inevitável.
Nessa altura já não podia haver quaisquer dúvidas de que a Grã-Bretanha e a
França não só não tinham intenção de empreender qualquer iniciativa para impedir
Hitler de desencadear a guerra, como, pelo contrário, estavam a fazer tudo o que
podiam para, mediante conluios e acordos secretos, mediante todo o tipo de
provocações, açular a Alemanha nazi contra a União Soviética.
Nenhum falsificador conseguirá apagar da história nem da consciência dos
povos o facto crucial de que, naquelas condições, a União Soviética só tinha duas
alternativas:
– Ou aceitava em nome da sua autodefesa a proposta feita pela Alemanha de
assinar um pacto de não agressão, assegurando assim o prolongamento da paz
durante um certo tempo, que o Estado soviético utilizaria para uma melhor
preparação das suas forças para resistir ao provável ataque do agressor;
– Ou recusava a proposta da Alemanha a respeito do pacto de não agressão,
permitindo assim que os provocadores da guerra no campo das potências
ocidentais arrastassem de imediato a União Soviética para um conflito armado com
a Alemanha, numa situação totalmente desfavorável à URSS dado estar numa
situação de completo isolamento.
Nestas circunstâncias, o governo soviético viu-se obrigado a optar pela
assinatura do pacto de não agressão com a Alemanha.
Esta escolha constituiu um acto clarividente e sábio da política externa soviética
na situação então existente. Este passo do governo soviético determinou em grande
medida o desfecho favorável da II Guerra Mundial para a União Soviética e para
todos os povos amantes da liberdade.
Seria uma calúnia grosseira afirmar que a assinatura do pacto com os nazis fazia
parte dos planos da política externa da URSS. Pelo contrário, a URSS sempre
aspirou a alcançar um acordo com os estados ocidentais não agressivos, com vista à
realização da segurança colectiva na base dos princípios de igualdade, contra os
agressores germano-italianos. Mas um acordo é um acto recíproco. E se a URSS
estava empenhada num acordo para lutar contra a agressão, a Grã-Bretanha e a
França rejeitaram-no sistematicamente, preferindo conduzir uma política de
isolamento da URSS, uma política de cedências ao agressor, uma política para
dirigir a agressão para Leste, contra a URSS. Os Estados Unidos da América não só
não se opuseram a esta política funesta como, pelo contrário, apoiaram-na de todas
as formas. No que respeita aos multimilionários americanos, estes continuaram a
investir os seus capitais na indústria pesada alemã, a ajudar os alemães a
desenvolver a sua indústria militar e a armar, desta forma, a agressão alemã. Era
como se arengassem:
«Combatam
senhores
europeus,
façam
bom
proveito,
combatam com a ajuda de Deus, enquanto nós, modestos
28
multimilionários americanos nos enriqueceremos à custa da
vossa guerra, fazendo centenas de milhões de super lucros.»
É óbvio que perante uma tal situação na Europa só restava uma saída à União
Soviética: aceitar a proposta alemã de um pacto. Apesar de tudo era a melhor das
alternativas possíveis.
Tal como em 1918 a União Soviética se viu forçada a assinar a paz de BrestLitovsk com os alemães, devido à política hostil das potências ocidentais, também
agora, em 1939, 20 anos depois da paz de Brest-Litovsk, a União Soviética via-se
forçada a assinar o pacto com os alemães, devido novamente à política hostil da
Grã-Bretanha e da França.
Os discursos dos caluniadores de todo o tipo, que alegam que a URSS não
deveria ter feito o pacto com os alemães, só podem ser qualificados de ridículos. Por
que razão a Polónia tendo como aliados a Grã-Bretanha e a França pôde fazer um
pacto de não agressão com os alemães logo em 1934 e a União Soviética,
encontrando-se em condições ainda mais desfavoráveis, não o podia fazer em 1939?
Por que razão a Inglaterra e a França, que eram as forças dominantes na Europa
puderam fazer uma declaração conjunta de não agressão com os alemães em 1938 e
a União Soviética, que estava isolada devido à política hostil anglo-francesa, não
podia fazer um pacto com os alemães?
Não é um facto que, de todas as potências europeias não agressivas, a União
Soviética foi a última a concluir um pacto com os alemães?
É claro que os falsificadores da história e reaccionários da mesma estirpe não se
conformam com o facto de a União Soviética ter conseguido habilmente utilizar o
pacto sovieto-alemão para reforçar a sua defesa; de ter conseguido deslocar as suas
fronteiras bem longe para Ocidente e barrar o caminho ao livre avanço da agressão
alemã para Leste; com o facto de as tropas nazis serem obrigadas a começar a sua
ofensiva não a partir da linha Narva-Minsk-Kíev, mas de uma linha que estava a
centenas de quilómetros a Ocidente; com o facto de que a URSS não ficou exangue
na Guerra Patriótica, mas saiu dela vitoriosa. Mas essa insatisfação entra já no
domínio da raiva impotente dos políticos fracassados.
A raiva destes senhores só pode ser vista como uma demonstração do facto
inquestionável de que a política da União Soviética foi e é uma política justa.
IV
A criação da frente «oriental», o ataque alemão à URSS,
a coligação anti-hitleriana e a questão das obrigações inter-aliados
Ao assinar o pacto germano-soviético de não agressão, em Agosto de 1939,41 a
União Soviética nunca duvidou sequer por um instante de que, cedo ou tarde, Hitler
atacaria a URSS. Esta certeza decorria dos fundamentos da orientação política e
militar dos nazis e tinha sido confirmada pela acção prática do governo de Hitler
durante todo o período antecedente à guerra.
41
O documento assinado teve a designação oficial de «Tratado de Não Agressão entre a
Alemanha e a União Soviética». (N. Ed.)
29
Por isso a primeira tarefa do governo soviético consistia em criar uma frente
«Leste» contra a agressão nazi, construir uma linha de defesa junto às fronteiras
ocidentais da Bielorrússia e da Ucrânia e organizar deste modo uma barreira que
impedisse o livre avanço das tropas alemãs para Leste. Para isso era preciso unir a
Bielorrússia e a Ucrânia ocidentais, ocupadas pelos pans polacos em 1920, à
Bielorrússia e à Ucrânia soviéticas, e deslocar tropas soviéticas para estes
territórios. Não podia haver demoras neste assunto, uma vez que as mal equipadas
tropas polacas vacilavam, o comando e o governo polaco já estavam em fuga e as
tropas hitlerianas, se não encontrassem entraves sérios, podiam ocupar os
territórios bielorrussos e ucranianos antes da chegada das tropas soviéticas.
Em 17 de Setembro de 1939,42 por ordem do governo, as tropas soviéticas
atravessaram a fronteira sovieto-polaca anterior à guerra, ocuparam a Bielorrússia
e a Ucrânia ocidentais e iniciaram a construção da defesa ao longo da linha
ocidental dos territórios ucraniano e bielorrusso. Tratava-se no essencial da mesma
linha que ficou conhecida na história como «linha Curzon», estabelecida na
Conferência dos Aliados em Versalhes.
Alguns dias depois, o governo soviético assinou tratados de assistência mútua
com os estados do Báltico, que previam o acantonamento nos territórios da Estónia,
Letónia e Lituânia de guarnições do exército soviético, a preparação de aeródromos
e a criação de bases militares navais.
Foram assim criados os alicerces da frente «oriental».
Não era difícil compreender que a criação da frente «oriental» constituía um
contributo sério não só para a organização da segurança da URSS, mas também
para a causa comum dos estados amantes da paz, que lutavam contra a agressão
hitleriana. No entanto, os círculos anglo-franco-americanos, na sua esmagadora
maioria, responderam com uma perversa campanha anti-soviética, qualificando
este passo do governo soviético como uma agressão.
Contudo, houve também figuras políticas que se mostraram suficientemente
perspicazes para compreender o sentido da política soviética e reconhecer a justeza
da criação da frente «oriental». Entre estes, o primeiro foi Churchill, na altura
ainda Primeiro Lorde do Almirantado, que numa alocução radiofónica, em 1 de
Outubro de 1939, depois de uma série de reacções hostis contra a União Soviética,
declarou:
«Que os exércitos russos tinham de ficar nesta linha era
claramente necessário para a segurança da Rússia contra a
ameaça nazi. Em qualquer caso, a linha existe, e a frente
oriental foi criada, a qual a Alemanha nazi não se atreve a
atacar. Quando o sr. von Ribbentrop foi chamado a Moscovo na
semana passada, foi para que se inteirasse do facto, e o
aceitasse, de que os nazis deviam pôr termo aos seus planos
para os estados bálticos e a Ucrânia.»
Mas se nas fronteiras ocidentais, a uma distância considerável de Moscovo,
Minsk e Kíev, a situação era mais ou menos satisfatória no que respeita à segurança
42
Recorde-se que as tropas hitlerianas iniciaram a invasão da Polónia no dia 1 de
Setembro de 1939, dando por terminada a ocupação do país logo em 6 de Outubro. (N. Ed.)
30
da URSS, o mesmo não se podia dizer relativamente à sua fronteira Norte. Aqui, a
uma distância de apenas 32 quilómetros, estavam as tropas finlandesas, cujo
comando, na sua maioria, estava sob as orientações da Alemanha nazi. O governo
soviético sabia bem que os elementos fascistas dos círculos dirigentes da Finlândia,
estreitamente ligados aos hitlerianos e com grande influência no exército finlandês,
aspiravam à conquista de Leningrado. Não se podia considerar fortuito o facto de
Halder, chefe do Estado-Maior General do exército hitleriano, se ter deslocado à
Finlândia, logo no Verão de 1939, para dar instruções aos chefes superiores do
exército finlandês. Dificilmente se podia duvidar de que os círculos governantes
finlandeses eram aliados dos hitlerianos e que pretendiam transformar a Finlândia
numa praça de armas para a agressão da Alemanha nazi à URSS.
Não surpreende por isso que todas as tentativas da URSS para encontrar uma
linguagem comum com o governo da Finlândia a respeito do melhoramento das
relações entre os dois países tenham fracassado.
O governo da Finlândia recusou, uma após outra, todas as propostas amistosas
do governo soviético, visando garantir a segurança da URSS e, em particular, de
Leningrado, apesar de a União Soviética ter ido ao encontro e estar disposta a
satisfazer os legítimos interesses da Finlândia.
O governo finlandês recusou a proposta da URSS de deslocar a fronteira no
Istmo da Carélia algumas dezenas de quilómetros, não obstante o governo soviético
ter concordado em troca ceder à Finlândia um território duas vezes maior na
Carélia soviética. O governo finlandês recusou igualmente a proposta da URSS de
assinar um tratado de assistência mútua, mostrando com isso que, do lado da
Finlândia, a segurança da URSS não estava garantida.
Com estas atitudes hostis e outras semelhantes, bem como acções provocatórias
na fronteira sovieto-finlandesa, a Finlândia desencadeou a guerra contra a União
Soviética.
O resultado da guerra sovieto-finlandesa é conhecido. As fronteiras da URSS no
Noroeste foram deslocadas, em particular na região de Leningrado, e a segurança
da URSS foi reforçada. Isto teve um papel importante na defesa da União Soviética
contra a agressão hitleriana, uma vez que assim os nazis e os seus lacaios
finlandeses foram obrigados a começar a sua ofensiva no Noroeste da URSS, não
nas proximidades de Leningrado, mas a partir de uma linha situada a 150
quilómetros para Noroeste.
No discurso na sessão do Soviete Supremo da URSS, em 29 de Março de 1939,
V.M. Mólotov afirmou:
«(…) A União Soviética, tendo derrotado o exército finlandês
e dispondo de todas as possibilidades para ocupar a Finlândia,
não o fez, nem exigiu nenhuma indemnização pelos gastos
militares, como teria feito qualquer outra potência, mas limitou
ao mínimo os seus pedidos (…)»
«No Tratado de Paz não visamos quaisquer outros fins para
além da garantia da segurança de Leningrado, de Murmansk e
do caminho-de-ferro de Murmansk.»
Deve assinalar-se que apesar de toda a política dos círculos governantes
finlandeses em relação à URSS aproveitar à Alemanha hitleriana, os representantes
31
anglo-franceses na Liga das Nações colocaram-se imediatamente do lado do
governo finlandês e declararam a URSS como «agressor», aprovaram e apoiaram
assim abertamente a guerra iniciada pelos governantes finlandeses contra a União
Soviética. A Liga das Nações, que manchara o seu nome pela conivência e estímulo
aos agressores japoneses e germano-italianos, votou obedientemente, às ordens dos
representantes anglo-franceses, a resolução contra a URSS, «excluindo»
ostensivamente a União Soviética da Liga das Nações.
Mas há mais. Na guerra desencadeada pelos reaccionários finlandeses contra a
União Soviética, a Inglaterra e a França auxiliaram por todos os meios os militares
finlandeses. Os círculos governantes anglo-franceses não cessaram de incitar o
governo finlandês a prosseguir as acções militares.
Os governantes anglo-franceses forneceram armamento à Finlândia de forma
sistemática e preparavam energicamente o envio de um corpo expedicionário com
100 mil homens para a Finlândia.
Em três meses, transcorridos desde o início da guerra, segundo declarou
Chamberlain na Câmara dos Comuns, a Grã-Bretanha entregou à Finlândia 101
aviões, mais de 200 peças de artilharia, centenas de milhares de munições, bombas
aéreas e minas antitanque. Na mesma altura, Daladier informou a Câmara dos
Deputados de que a França tinha entregue à Finlândia 175 aviões, cerca de 500
peças de artilharia, mais de cinco mil metralhadoras, milhões de munições e
granadas de mão e outro material de guerra.
Pode-se ter uma noção completa dos planos que os governos britânico e francês
tinham na altura, a partir de um memorando entregue pelos britânicos aos suecos
em 2 de Março de 1940, no qual se afirmava:
«Os governos aliados compreendem que a situação militar
da
Finlândia
examinarem
está
a
tornar-se
minuciosamente
desesperada.
todas
as
Depois
de
possibilidades,
chegaram à conclusão de que a única forma de prestar uma
ajuda eficaz à Finlândia é através do envio de tropas aliadas, e
estão dispostos a enviar estas tropas a pedido da Finlândia».43
Nessa altura, no parlamento britânico, em 19 de Março, Chamberlain declarou o
seguinte:
«A preparação do envio das unidades expedicionárias
realizou-se
com
a
máxima
rapidez,
e
o
exército
expedicionário estava pronto para partir no início de Março
(…) dois meses antes do prazo fixado pelo marechal de
campo Mannerheim para a sua chegada».
Chamberlain acrescentou que o efectivo destas unidades se elevava a 100 mil
homens.
Simultaneamente, também o governo francês havia preparado um primeiro
corpo expedicionário de 50 mil homens, a enviar para a Finlândia via Narvik.
43
«Nota da Missão Britânica, de 2 de Março de 1940», Livro Branco do Ministério dos
Negócios Estrangeiros da Suécia, Estocolmo, 1947, p.119.
32
E esta actividade beligerante era desenvolvida num momento em que, na frente
contra a Alemanha hitleriana, a Grã-Bretanha e a França não tomaram quaisquer
iniciativas, travando assim a chamada «guerra falsa».44
Mas o auxílio militar à Finlândia contra a União Soviética era apenas uma parte
do plano mais amplo dos imperialistas anglo-franceses.
O já citado Livro Branco do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Suécia
contém um documento redigido pelo ministro sueco dos Negócios Estrangeiros,
Ernest Günther, no qual se afirma:
«O envio deste contingente de tropas fazia parte do plano
geral de um ataque contra a União Soviética»
e que este plano
«começará a ser posto em prática a partir de 15 de Março
contra Baku e ainda antes através da Finlândia».45
No seu livro, De Gaulle, dictateur, Henri de Kerillis refere-se a este plano nos
seguintes termos:
«Segundo este plano, que me foi resumido em linhas gerais
por Paul Reynaud numa breve carta que conservei, um corpo
expedicionário
motorizado,
desembarcando
na
Finlândia
através da Noruega, teria destroçado as hordas desorganizadas
da Rússia e marchado sobre Leningrado».46
Este plano foi concebido em França por De Gaulle e o general Weygand, que na
altura comandava as tropas francesas na Síria e se ufanava de que:
«Com alguns reforços e 200 aviões tomaria o Cáucaso e
entraria na Rússia como se fosse manteiga».
É igualmente conhecido o plano de operações militares anglo-francesas contra a
URSS, elaborado pelo general Gamelin em 1940, que dedicava uma atenção
particular ao bombardeamento de Baku e de Batumi.
Os preparativos dos governantes anglo-franceses com vista a um ataque à URSS
avançavam a toda a velocidade. Os estados-maiores generais da Grã-Bretanha e da
França elaboravam com afinco os planos para um tal ataque. Estes senhores, em
vez de combater a Alemanha nazi, queriam desencadear a guerra contra a União
Soviética.
44
«Guerra falsa» é a tradução portuguesa dos termos inglês e francês, respectivamente,
phoney war e drôle de guerre, e designa o período iniciado com a declaração de guerra da
França e da Grã-Bretanha à Alemanha, em 3 de Setembro de 1939, que terminou com a
invasão alemã da França, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, em 10 de Maio de 1940, durante
o qual as tropas britânicas e francesas não empreenderam nenhuma iniciativa militar
contra a Alemanha nazi. (N. Ed.)
45 «Notas de Günther para memória, 2 Março de 1940», Livro Branco do Ministério dos
Negócios Estrangeiros da Suécia, ed. cit., p.120.
46 Henri de Kerillis, De Gaulle, dictateur, Montreal, 1945, pp. 363-364.
33
Mas estes planos não estavam destinados a concretizar-se. Nesta altura, a
Finlândia foi derrotada pelas tropas soviéticas e obrigada a capitular, apesar de
todos os esforços feitos pela Grã-Bretanha e a França para o impedir.
O tratado de paz sovieto-finlandês foi assinado em 12 de Março de 1940.
A defesa da URSS contra uma agressão hitleriana foi deste modo melhorada
também no Norte, na região de Leningrado, com o deslocamento da linha defensiva
150 quilómetros para Norte até Viborg, inclusivamente.
Porém, isto não significava que já estivesse concluída a frente «oriental», desde o
Mar Báltico até ao Mar Negro. Haviam sido concluídos pactos com os estados do
Báltico, mas ainda não havia na região tropas soviéticas capazes de assegurar a
defesa. A Moldávia e a Bucovina tinham sido formalmente reagrupadas na URSS,
mas também aí não havia ainda tropas soviéticas suficientes para garantir a defesa.
Em meados de Junho de 1940, as tropas soviéticas entraram na Estónia, Letónia e
Lituânia. E em 27 de Junho do mesmo ano fizeram o mesmo na Bucovina e na
Moldávia, que tinham sido arrancadas à URSS pela Roménia após a Revolução de
Outubro.
Concluiu-se assim a formação da frente «oriental», desde o Mar Báltico até ao
Mar Negro, contra uma agressão hitleriana.
Os círculos governantes anglo-franceses, que continuavam a injuriar a URSS
tratando-a de agressor por ter criado a frente «oriental», aparentemente não se
davam conta de que o surgimento desta frente significava uma mudança radical no
desenvolvimento da guerra contra a tirania hitleriana e a favor da vitória da
democracia.
Não compreendiam que o que estava em causa não era menosprezar ou não os
direitos nacionais da Finlândia, Lituânia, Estónia ou da Polónia, mas impedir a
transformação destes países em colónias párias mediante a organização da vitória
sobre os nazis.
Não compreendiam que o que estava em causa era erguer uma barreira ao
avanço das tropas alemãs em todas as regiões onde tal fosse possível, organizar uma
forte defesa para depois passar à contra-ofensiva, derrotar as tropas hitlerianas e
assim criar possibilidades para o livre desenvolvimento desses países.
Não compreendiam que não existiam outras vias para assegurar a vitória sobre a
agressão hitleriana.
Terá o governo britânico agido correctamente ao estacionar as suas tropas no
Egipto durante a guerra, apesar dos protestos dos egípcios e mesmo da resistência
de alguns elementos no país? Sim, incontestavelmente. Foi um meio
importantíssimo para barrar o caminho da agressão hitleriana em direcção ao canal
do Suez, proteger o Egipto de um ataque por parte de Hitler, organizar a vitória
sobre Hitler e impedir desse modo a transformação do Egipto numa colónia
hitleriana Só inimigos da democracia ou loucos podem afirmar que as acções do
governo britânico neste caso representaram uma agressão.
Terá o governo dos Estados Unidos agido correctamente ao desembarcar as suas
tropas em Casablanca, apesar dos protestos dos marroquinos e da resistência
armada directa da parte do governo de Pétain em França, cuja autoridade se
estendia a Marrocos? Sim, incontestavelmente! Este foi um meio importantíssimo
de criar uma base de resistência à agressão alemã nas imediações da Europa
ocidental, organizar a vitória sobre as tropas hitlerianas e criar deste modo a
possibilidade de libertar a França do jugo colonial hitleriano. Só inimigos da
34
democracia ou loucos poderiam considerar estas acções das tropas norteamericanas como uma agressão.
Mas o mesmo se deve dizer das acções do governo soviético, que, no Verão de
1940, organizou a frente «oriental» contra a agressão hitleriana, estacionando as
suas tropas o mais longe possível de Leningrado, Moscovo ou Kíev. Este foi o único
meio de barrar o caminho ao livre avanço das tropas alemãs para Oriente, criar uma
forte defesa para depois passar à contra-ofensiva com vista a derrotar, em conjunto
com os aliados, o exército hitleriano e impedir, deste modo, a transformação dos
países amantes da paz da Europa, nomeadamente a Finlândia, a Estónia, a Letónia,
a Lituânia ou a Polónia, em colónias da Alemanha de Hitler. Só inimigos da
democracia ou loucos poderiam qualificar estas acções do governo soviético como
uma agressão.
Daqui decorre que Chamberlain, Daladier e os respectivos círculos, que
qualificaram esta política do governo soviético como uma agressão e organizaram a
exclusão da União Soviética da Liga das Nações, agiram como inimigos da
democracia ou como loucos.
Daqui decorre ainda que os caluniadores e falsificadores da história, que hoje
trabalham em estreita colaboração com os senhores Bevin e Bidault e qualificam a
criação da frente «oriental» contra Hitler como uma agressão, agem igualmente
como inimigos da democracia ou como loucos.
Que teria acontecido se antes do ataque da Alemanha a URSS não tivesse criado
a frente «oriental», situada longe para Ocidente das antigas fronteiras da URSS, se
a frente passasse não pela linha de Viborg-Kaunas- Biélostok-Brest-Lvov, mas pela
antiga fronteira Leningrado-Narva-Minsk-Kiev?
Isto permitiria que as tropas de Hitler ocupassem uma faixa de território com
centenas de quilómetros, aproximando a frente alemã de Leningrado-MoscovoMinsk-Kíev, aceleraria seriamente o avanço alemão para o interior da URSS,
aceleraria a queda de Kíev e da Ucrânia, conduziria à tomada de Moscovo pelos
alemães e finlandeses e obrigaria a URSS a passar à defensiva por um longo
período, o que permitiria aos alemães libertar umas 50 divisões a Leste para o
desembarque nas ilhas britânicas e reforço da frente germano-italiana na região do
Egipto. É muito provável que o governo britânico se visse obrigado a exilar-se no
Canadá e que o Egipto e o Canal do Suez tivessem caído sob o domínio de Hitler.
Mas isto não é tudo. A fim de reforçar a sua defesa, a URSS seria obrigada a
transferir para a frente «oriental» a maior parte das suas tropas estacionadas junto
à fronteira com a Manchúria, o que permitiria aos japoneses libertar até 30 divisões
na Manchúria, dirigindo-as contra a China, as Filipinas, contra o Sudeste da Ásia
em geral – no fim de contas, contra as forças armadas norte-americanas no
Extremo-Oriente.
Tudo isto teria levado a que a guerra se prolongasse pelo menos mais dois anos.
A II Guerra Mundial teria terminado não em 1945 mas em 1947 ou um pouco mais
tarde.
Eram assim as coisas no que toca à questão da frente «oriental».
Entretanto, os acontecimentos no Ocidente seguiam o seu curso. Em Abril de
1940, os alemães ocuparam a Dinamarca e a Noruega. Em meados de Maio as
tropas alemãs invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo. Em 21 de Maio, os
alemães alcançaram a Mancha e isolaram os aliados na Flandres. No final de Maio,
as tropas britânicas foram evacuadas de Dunquerque, deixaram a França e
35
dirigiram-se para Inglaterra. Em meados de Junho, Paris caiu. Em 22 de Junho a
França capitulou frente à Alemanha.
Deste modo, Hitler espezinhou todas as declarações de não agressão assinadas
com a França e com a Grã-Bretanha.
Foi o fracasso total da política de apaziguamento, da política de recusa da
segurança colectiva, da política de isolamento da URSS.
Tornou-se claro que, ao isolarem a URSS, a França e a Grã-Bretanha haviam
destroçado a frente unida dos países amantes da paz, tinham-se enfraquecido e elas
próprias viram-se isoladas.
Em 1 de Março de 1941, os Alemães ocuparam a Bulgária.
Em 5 de Abril, a URSS assinou um pacto de não agressão com a Jugoslávia.
Em 22 de Junho do mesmo ano, a Alemanha atacou a URSS.
A Itália, Roménia, Hungria e a Finlândia entraram na guerra contra a URSS ao
lado da Alemanha.
A União Soviética começou uma guerra de libertação contra a Alemanha
hitleriana.
A reacção dos diferentes círculos na Europa e nos Estados Unidos a este
acontecimento não foi homogénea.
Os povos subjugados por Hitler respiraram aliviados, convencidos de que Hitler
quebraria a cerviz entre duas frentes, ocidental e «oriental».
Os círculos governantes da França rejubilaram com a desgraça alheia, não
duvidando de que a «Rússia será derrotada» no mais breve espaço de tempo.
O sr. Truman, na altura um proeminente membro do Senado dos Estados
Unidos da América, e hoje presidente dos EUA, declarou no dia seguinte ao ataque
alemão à URSS:
«Se virmos que a Alemanha está a vencer, devemos ajudar a
Rússia, e se a Rússia estiver a vencer, devemos ajudar a
Alemanha, e assim deixemos que se matem tantos quanto
possível».47
Uma declaração análoga foi feita na Grã-Bretanha, em 1941, pelo então ministro
da Indústria Aeronáutica, Moore-Brabazon, segundo o qual, no que respeitava à
Grã-Bretanha, o melhor desfecho dos combates na frente leste seria o esgotamento
mútuo da Alemanha e da URSS, o que permitiria à Grã-Bretanha ocupar uma
posição dominante.
Estas intervenções traduziam, sem dúvida, as posições dos círculos reaccionários
dos EUA e da Grã-Bretanha.
Ao mesmo tempo, a esmagadora maioria dos britânicos e dos norte-americanos
estavam a favor da URSS, exigindo a unidade com a União Soviética para a luta
vitoriosa contra a Alemanha de Hitler.
47
New York Times, 24 de Junho de 1941 (em inglês, a frase original de Truman é a
seguinte: «If we see that Germany is winning we ought to help Russia and if Russia is
winning we ought to help Germany, and that way let them kill as many as possible». (N.
Ed.)
36
Podemos considerar como um reflexo deste estado de espírito a seguinte
declaração do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Winston Churchill, em 22 de
Junho de 1941:
«O perigo que ameaça a Rússia constitui um perigo para nós
e para os Estados Unidos, assim como a causa de cada russo
que combate pela sua terra e o seu lar constitui a causa de
todas as pessoas e povos livres em qualquer parte do mundo».
O governo de Roosevelt tomou uma posição idêntica nos Estados Unidos.
Isto foi o início da coligação anglo-sovieto-americana contra a Alemanha de
Hitler.
A coligação anti-hitleriana fixou o objectivo de derrotar o regime de Hitler e
libertar os povos subjugados pela Alemanha nazi. Apesar das diferenças ideológicas
e dos sistemas económicos dos estados aliados, a coligação anglo-sovietoamericana tornou-se numa poderosa aliança de povos, que uniram esforços na luta
libertadora contra o nazismo.
Naturalmente que mesmo durante a guerra surgiram divergências entre os
aliados sobre algumas questões. É conhecida, por exemplo, a importância que
tiveram as divergências sobre questões tão relevantes como a abertura da segunda
frente, os compromissos dos aliados, o seu dever moral recíproco.
Agarrando-se as estas divergências, os falsificadores da história e todo o tipo de
caluniadores procuram «demonstrar», apesar da evidência dos factos, que a URSS
não foi e não podia ser um aliado leal e sincero na luta contra a agressão hitleriana.
Todavia, como não encontraram qualquer fundamento para essa acusação na luta
conjunta contra a Alemanha de Hitler e no comportamento revelado pela URSS,
socorrem-se do passado, do período que precedeu a guerra, afirmando que, em
1940, durante as «conversações» com Hitler em Berlim, os representantes da União
Soviética tiveram um comportamento desleal, impróprio de um aliado.
Asseveram que durante as «conversações» de Berlim foram discutidos e
adoptados pérfidos «planos de partilha da Europa», bem como as reivindicações
territoriais soviéticas «a Sul da URSS em direcção ao Oceano Índico», planos
relativos à Turquia, Irão, Bulgária e outros «problemas». Os caluniadores utilizam
para este fim os despachos dos embaixadores alemães e de outros funcionários
hitlerianos, todo o tipo de notas e projectos alemães de uns quaisquer «protocolos»
e outros «documentos» semelhantes.
O que é que se passou realmente em Berlim? É preciso dizer que as chamadas
«conversações de Berlim» em 1940 não foram mais do que uma visita de V.M.
Mólotov em retribuição a duas viagens de Ribbentrop a Moscovo. As conversas
mantidas incidiram principalmente sobre as relações sovieto-germânicas. Hitler
empenhou-se em transformá-las numa base para um amplo acordo entre as partes
alemã e soviética. Inversamente, a União Soviética utilizou estas conversas para
sondar, tactear as posições alemãs, sem nenhuma intenção de concluir qualquer
acordo. Nestas conversas, Hitler considerou que a União Soviética devia adquirir
uma saída para o Golfo Pérsico, ocupando a parte ocidental do Irão e as explorações
petrolíferas dos britânicos neste país. Afirmou de seguida que a Alemanha poderia
ajudar a resolver a questão das pretensões soviéticas relativamente à Turquia,
chegando inclusivamente a propor a alteração da Convenção de Montreux sobre o
37
Regime dos Estreitos. Mas enquanto ignorava em absoluto os interesses do Irão,
Hitler protegia cuidadosamente os interesses da Turquia, vendo claramente este
país como seu aliado actual ou, em todo o caso, futuro. Tanto os países balcânicos
como a Turquia eram vistos por Hitler como parte da esfera de influência da
Alemanha e da Itália.
Destas conversas, o governo soviético tirou as seguintes conclusões: a Alemanha
não valoriza os laços com o Irão; a Alemanha não está ligada nem planeia ligar-se à
Grã-Bretanha, o que significa que a União Soviética pode ter na Grã-Bretanha um
aliado fiável contra a Alemanha; os estados balcânicos ou já tinham sido comprados
e transformados em satélites da Alemanha (Bulgária, Roménia, Hungria), ou
subjugados como a Checoslováquia, ou estavam a caminho de o ser à semelhança
da Grécia; a Jugoslávia é o único país dos Balcãs que pode contar como futuro
aliado do campo anti-hitleriano; a Turquia ou já está estreitamente ligada à
Alemanha de Hitler ou tenciona ligar-se a ela.
Depois de ter tirado estas úteis conclusões, o governo soviético não voltou a
abordar estas questões noutras conversas, apesar das repetidas menções de
Ribbentrop.
Como se vê, tratou-se meramente de uma sondagem das posições do governo de
Hitler por parte do governo soviético, que não conduziu nem podia conduzir a
qualquer acordo.
Será admissível que um estado amante da paz sonde as posições do inimigo?
Certamente que sim. Não só é admissível como, por vezes, constitui uma
necessidade política directa. Convém apenas que a sondagem se realize com o
conhecimento e o acordo dos aliados e que os seus resultados lhes sejam
comunicados. Porém, na altura, a União Soviética não tinha aliados, estava isolada
e, infelizmente, não tinham com quem partilhar os resultados da sondagem.
Deve-se assinalar que uma sondagem análoga, ainda que muito suspeita, das
posições da Alemanha foi efectuada por representantes da Grã-Bretanha e dos
Estados Unidos da América, já durante a guerra, depois da formação da coligação
anti-hitleriana entre a Grã-Bretanha, Estados Unidos da América e a URSS. É o que
se depreende de documentos confiscados pelas tropas soviéticas na Alemanha.
Estes documentos revelam que no Outono de 1941 e também em 1942 e em 1943,
decorreram conversações em Lisboa e na Suíça, sem conhecimento da URSS, entre
representantes da Grã-Bretanha e da Alemanha, e depois entre representantes dos
Estados Unidos e da Alemanha, sobre a questão da assinatura da paz com a
Alemanha.
Um desses documentos, anexo ao relatório do vice-ministro alemão dos
Negócios Estrangeiros, Weizsäcker, descreve o curso das conversações em Lisboa,
em Setembro de 1941, revelando que, no dia 13, se realizou um encontro entre
Aitken, filho do Lord Beaverbrook e oficial do exército britânico, mais tarde
membro do parlamento, na qualidade de representante da Grã-Bretanha, e o
húngaro Gustav von Koever, por incumbência do Ministério dos Negócios
Estrangeiros alemão, como se depreende de uma carta de Krauel, cônsul geral da
Alemanha em Genebra, enviada a Weizsäcker.
Nestas conversações, Aitken colocou directamente a seguinte questão:
«Seria possível aproveitarmos o próximo Inverno e Primavera
para discutirmos confidencialmente as possibilidades de paz?»
38
Outros documentos referem conversações entre representantes dos governos dos
EUA e da Alemanha, em Fevereiro de 1943, na Suíça. Estas conversações foram
conduzidas, pela parte dos EUA, por Allen Dulles (irmão de John Foster Dulles),
delegado especial do governo norte-americano, identificado com o pseudónimo de
«Bull», que tinha «instruções directas e poderes atribuídos pela Casa branca». O
seu interlocutor do lado alemão era o príncipe Hohenlohe, próximo dos círculos
governantes da Alemanha nazi, que agia na qualidade de representante de Hitler,
sob o nome falso de «Pauls». O documento que contém a descrição destas
conversações pertencia ao serviço de segurança hitleriano (SD).
Como se pode ler, na conversa foram abordadas importantes questões relativas à
Áustria, Checoslováquia, Polónia, Hungria e, o que era particularmente importante,
a questão da assinatura da paz com a Alemanha.
Nesta conversa, A. Dulles (Bull) declarou:
«Nunca mais será permitido que povos como o alemão se
vejam obrigados a recorrer a experiências e heroísmo
desesperados em consequência da injustiça e da miséria. O
Estado alemão deve continuar a existir como factor de ordem e
reconstrução. A questão da sua divisão ou da separação da
Áustria nem sequer se coloca.»
Referindo-se à Polónia, Dulles (Bull) declarou:
«(...) Através da expansão da Polónia para Leste e da
conservação da Roménia e de uma Hungria forte, devemos
apoiar a criação de um cordão sanitário contra o bolchevismo e
o pan-eslavismo».48
Mais adiante, no registo da conversa, assinala-se:
«O Sr. Bull está mais ou menos de acordo com a organização
política e económica da Europa na base de grandes territórios,
considerando que uma grande Alemanha Federal (à semelhança
dos EUA), contígua a uma confederação do Danúbio será a
melhor forma de garantir a ordem e a reconstrução da Europa
central e oriental.»49
Dulles (Bull) declarou ainda que reconhecia plenamente as pretensões da
indústria alemã a desempenhar um papel liderante na Europa.
Não se pode deixar de salientar que esta sondagem foi efectuada pelos britânicos
e norte-americanos sem o conhecimento e acordo do seu aliado, a União Soviética,
sendo que o governo soviético não foi informado dos resultados da mesma, nem
sequer posteriormente. Isto poderá significar que os governos dos EUA e da GrãBretanha tentaram enveredar neste caso pela via das conversações com Hitler sobre
uma paz separada.
48
«Conversa Pauls-Sr. Bull», dos documentos dos arquivos alemães.
49 Idem, ibidem.
39
É claro que tal conduta dos governos da Grã-Bretanha e dos EUA não pode ser
considerado senão como uma violação dos mais elementares deveres e obrigações
dos aliados.
Decorre daqui que os falsificadores da história, ao acusarem a URSS de «falta de
sinceridade», fazem pagar o justo pelo pecador.
Não pode haver dúvidas de que os falsificadores da história e outros
caluniadores conhecem estes documentos. E se os ocultam da opinião pública,
omitindo-os na sua campanha caluniadora contra a URSS, é porque temem a
verdade histórica como a peste.
No que respeita às divergências sobre a abertura da segunda frente, estas
reflectiram os diferentes entendimentos das obrigações dos aliados nas suas
relações mútuas. Os soviéticos consideram que quando um aliado se encontra numa
situação difícil, deve-se socorrê-lo com todos os meios disponíveis; consideram que
se deve tratar um aliado não como um companheiro temporário de viagem, mas
como um amigo, cujos êxitos e fortalecimento nos causam alegria. Os
representantes britânicos e americanos não concordam com isto e consideram esta
moral como uma ingenuidade. Partem do princípio de que um aliado forte é
perigoso, que o fortalecimento de um aliado não serve os seus interesses, que é
melhor ter um aliado fraco que um forte, e mesmo assim se ele se fortalece então é
preciso tomar medidas para o enfraquecer.
É do conhecimento geral que no comunicado conjunto anglo-soviético, tal como
no comunicado sovieto-norte-americano, em Junho de 1942, os anglo-americanos
assumiram o compromisso de abrir a segunda frente na Europa logo em 1942.
Tratou-se de uma promessa solene, de um juramento, se quisermos, que devia ser
cumprido dentro do prazo a fim de aliviar as tropas da União Soviética, que
carregaram no primeiro período da guerra todo o fardo da resistência ao fascismo
alemão. Contudo é igualmente conhecido que esta promessa não foi cumprida nem
em 1942, nem em 1943, apesar de o governo soviético ter declarado várias vezes que
não podia conformar-se com o protelamento da abertura da segunda frente.
A política do protelamento da abertura da segunda frente não foi de modo algum
casual. Foi uma política impulsionada pelas aspirações dos círculos reaccionários
da Grã-Bretanha e dos EUA, que perseguiam os seus próprios objectivos na guerra
contra a Alemanha, os quais nada tinham em comum com os objectivos
libertadores da luta contra o fascismo alemão. Nos seus planos não constava a
derrota total do fascismo alemão. Partindo dos seus estreitos objectivos egoístas,
estavam interessados em minar o poder da Alemanha e, sobretudo, na sua
eliminação como perigoso concorrente no mercado mundial. Porém, nas suas
intenções não estava de modo algum a libertação da Alemanha e de outros países
do domínio das forças reaccionárias, fontes permanentes da agressão imperialista e
do fascismo, tal como não previam a realização de reformas democráticas radicais.
Ao mesmo tempo, contavam com o enfraquecimento da URSS, que ficasse
exangue em resultado de uma guerra esgotante, perdesse por muito tempo a sua
importância como grande potência e caísse, após a guerra, sob a dependência dos
Estados Unidos e da Grã-Bretanha.
Naturalmente que a União Soviética não pode considerar normais semelhantes
atitudes para com um aliado.
A URSS pratica uma política diametralmente oposta nas relações entre aliados.
Esta política caracteriza-se invariavelmente pelo cumprimento desinteressado,
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consequente e honesto das obrigações que assume, pela disponibilidade
permanente de prestar uma ajuda fraterna ao seu aliado. Durante a última guerra, a
União Soviética deu exemplos dessa atitude de aliado genuíno para com outros
países, camaradas de armas na luta contra o inimigo comum.
Eis um desses exemplos.
Como é conhecido, no final de Dezembro de 1944, as tropas hitlerianas
desencadearam uma ofensiva na frente ocidental, na região das Ardenas, rompendo
a frente e colocando as tropas anglo-americanas numa situação difícil. Segundo
declarações dos aliados, os alemães pretendiam com o ataque na direcção de Liège
destroçar o 1.º exército norte-americano, alcançar Anvers, isolar o 9.º exército
norte-americano, o 2.º britânico e o 1.º canadiano e obrigar os aliados a um
segundo Dunquerque, para colocar a Grã-Bretanha fora da guerra.
Foi nestas circunstâncias que, em 6 de Janeiro de 1945, Winston Churchill
enviou a seguinte mensagem a Stáline:
«A batalha a ocidente é muito dura e a todo o momento
podem ser exigidas ao Alto-Comando decisões da mais alta
importância.
Sabe,
por
experiência
pessoal,
quanto
é
angustiosa a situação quando tem de defender-se uma frente
muito extensa após uma temporária perda de iniciativa. O
general
Eisenhower
deseja
e
necessita
profundamente
conhecer, em grande linhas, o que tenciona fazer, dado que
isso influirá, naturalmente, nas mais importantes decisões da
parte dele e nossas. O nosso enviado, o marechal-chefe da
aviação Tedder, teve de aterrar ontem à noite, no Cairo, devido
ao mau estado do tempo. Por isso, a sua viagem está muito
atrasada mas não, certamente, por culpa vossa. No caso de ele
ainda não ter chegado aí, ficaria muito grato se me desse a
saber se no mês de Janeiro poderemos contar com uma grande
ofensiva russa na frente do Vístula ou noutro ponto, bem como
qualquer outro pormenor que me possa fornecer. Não
transmitirei
essas
informações
secretas
a
ninguém,
exceptuando o marechal Brooke e o general Eisenhower e
mesmo assim sob o mais absoluto segredo. Considero a
questão urgente.»
Em 7 de Janeiro de 1945, I.V. Stáline endereçou a Churchill a seguinte resposta:
«Recebi dia 7 de Janeiro à noite a sua mensagem de 6 de
Janeiro de 1945.
Infelizmente, o marechal-chefe, sr. Tedder, ainda não
chegou a Moscovo.
É extremamente importante aproveitarmos a superioridade
que temos sobre os alemães em artilharia e aviação. Para este
efeito precisamos de tempo limpo para a aviação e da ausência
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de nevoeiros baixos que impedem a artilharia de realizar fogo
de precisão. Estamos a preparar uma ofensiva, mas agora o
tempo não nos é favorável. No entanto, tendo em conta a
situação dos nossos aliados na frente ocidental, o QuartelGeneral decidiu concluir os preparativos a ritmo acelerado e,
independentemente das condições atmosféricas, iniciar amplas
operações ofensivas contra os alemães ao longo de toda a
frente central, o mais tarde na segunda metade de Janeiro.
Esteja certo de que faremos tudo o que for possível para apoiar
as nossas gloriosas tropas aliadas».
Na sua resposta à mensagem de I.V. Stáline, W. Churchill escreveu em 9 de
Janeiro:
«Estou-lhe muito grato pela sua tocante mensagem. Remeti-a
ao general Eisenhower como mensagem altamente secreta. Possa
a melhor das fortunas ajudar a vossa nobre empresa.»
Desejoso de acelerar o auxílio às tropas aliadas no Ocidente, o comandante
supremo das tropas soviéticas decidiu antecipar a data da ofensiva contra os
alemães na frente sovieto-germânica de 20 para 12 de Janeiro. No dia 12 de Janeiro
iniciou-se uma grande ofensiva das tropas soviéticas na extensa frente desde o Mar
Báltico até aos Cárpatos. Entraram em acção 150 divisões soviéticas munidas de
uma grande quantidade de artilharia e de aviação, que romperam a frente alemã e
fizeram recuar as tropas nazis centenas de quilómetros.
Em 12 de Janeiro, as tropas alemãs na frente ocidental, designadamente os 5.º e
6.º exércitos blindados, que se preparavam para um novo ataque, foram retirados
da frente e transferidos para Leste, contra as tropas soviéticas. A ofensiva das
tropas alemãs frustrou-se.
Em 17 de Janeiro de 1945. W. Churchil escreveu a Stáline:
«Estou
muito grato pela sua mensagem e sinto-me
particularmente satisfeito por o marechal Tedder lhe ter
causado tão favorável impressão.
Em nome do Governo de Sua Majestade e em meu nome
pessoal, apresento-lhe os nossos agradecimentos e as nossas
vivas felicitações pela grandiosa ofensiva que desencadeou na
frente oriental.
Conhece
agora,
sem
dúvida,
os
planos
do
general
Eisenhower e sabe de que forma foram retardados pelo ataque
destruidor de Rundstedt.
Estou certo de que a batalha sobre toda a nossa frente não
terá tréguas.
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Todo o 21.º Grupo de Exército britânico, sob o comando do
marechal Montgomery, iniciou um ataque na zona a Sul de
Roermund.»
Numa ordem do dia às tropas soviéticas, emitida em Fevereiro de 1945, I.V.
Stáline referiu-se a esta ofensiva nos termos seguintes:
«Em Janeiro do presente ano, o Exército Vermelho assestou
sobre o inimigo um golpe com uma força sem precedentes ao
longo de toda a frente, desde o Báltico aos Cárpatos. Rompeu,
numa extensão de 1200 quilómetros, a poderosa defesa dos
alemães, que tinha sido construída ao longo de vários anos. No
decurso da ofensiva, o Exército Vermelho, com operações
rápidas e hábeis, repeliu o inimigo para longe a Ocidente.
Os êxitos da nossa ofensiva de Inverno tiveram antes de
tudo como resultado fazer frustrar a ofensiva dos alemães no
Ocidente, que tinham como objectivo tomar a Bélgica e a
Alsácia, e permitiram aos exércitos nossos aliados de, por sua
vez, passar à ofensiva contra os alemães e assim conjugar as
suas operações ofensivas a Ocidente com as operações
ofensivas do Exército Vermelho a Leste.»
Era assim que I.V. Stáline agia.
É assim que agem os aliados genuínos numa luta comum.
***
São estes os factos.
Naturalmente, os falsificadores da história e os caluniadores não têm qualquer
respeito pelos factos, precisamente por isso são chamados de falsificadores e
caluniadores. Preferem lidar com boatos e calúnias. Mas não há nenhuma razão
para duvidar de que, no final, estes senhores terão de reconhecer a verdade
universalmente conhecida de que os boatos e as calúnias passam, mas os factos
persistem.
Bureau Soviético de Informação
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