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O FEMININO NA POESIA DE EXPRESSÃO ÁRABE

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O FEMININO NA POESIA DE EXPRESSÃO ÁRABE
Revista Litteris – DOSSIÊ ESTUDOS ÁRABES & ISLÂMICOS
Número 5, Julho de 2010
O FEMININO NA POESIA DE EXPRESSÃO ÁRABE
CONTEMPORÂNEA
( Muna Omran- Unipli)1
Resumo
O presente trabalho é parte de uma pesquisa sobre a presença do orientalismo (
Edward Said) nas produções artísticas tanto ocidentais quanto orientais. Neste artigo
discutiremos a representação da figura feminina na poesia de expressão árabe
contemporânea.
Palavras-Chaves: Orientalismo – Literatura – Feminino – Poesia – Gênero
Abstract
This article analyze the presence of the orientalism theory, formulated by Edward Said
in the process of artistic creation in east and west production. Here we will analyze the
female representation in the Arabian contemporany literature.
Key words: orientalism – Literature – Women – Poems Gender
INTRODUÇÃO
A literatura de expressão árabe sempre reservou um espaço para as mulheres.
Como exemplo, temos as narrativas de As mil e uma noites, na quais a narradora e
protagonista é Sherazade. Quem é esta narradora?
Sherazade, a narradora de As mil e uma noites, constitui-se num mito do
imaginário ocidental sobre as mulheres orientais, no entanto, a jovem que seduziu o
sultão Sahriyar, com suas histórias cheias de aventuras e erotismo, está presente no
1
Doutora em Literatura Comparada pela Unicamp. Professora Titular de Teoria da Literatura no Centro
Universitário Plínio Leite. Desenvolve pesquisas sobre a representação feminina nas imagens e literatura
sobre e do Oriente Médio.
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imaginário dos autores de língua árabe, pois este mito da sedução feminina é muito mais
do que uma mera imagem, “é uma expressão simbólica cujos valores são carregados de
conotações afetivas, o que caracteriza seu poder de sedução”2.
Essas narrativas circularam pelo mundo árabe por volta do século XIII d.C, como
nos afirma Mamede Mustafá Jarouche:
No mundo árabe, circulou pelo menos desde o século III H./IX d.C. uma
obra com título e características semelhantes ao Livro das mil e uma noites.
Contudo, contudo foi somente entre a segunda metade do século VII H./ XIII
d.C e a primeira do século VIII H./ XIV d.C que ela passou a ter, de maneira
indubitável, as características pelas quais é hoje conhecida e o título que
Jorge Luis Borges considerava o mais belo de toda a literatura.3
Assim, homens e mulheres são seduzidos pelas histórias de amor e erotismo
narradas por Sherazade, personagens, ouvintes e leitores querem o prazer e o amor
natural.
Nesse momento, o jovem avançou até ela – estava completamente
embriagado - , pegou-a pelas pernas e ergueu-as até sua cintura, enquanto ela
lhe enlaçava o pescoço com as mãos e os recebia com beijos intensos e
lascivos. Imediatamente ele rasgou pela cintura as roupas que ela trajava e a
deflorou.4
No entanto, é importante lembrar que estes textos não fogem à visão islâmica que
se tem do jogo entre amor e erotismo. Nos textos corânicos a figura feminina é
apresentada com diversos “ „ esteriótipos‟ carregados de sentido.”5 como também
A visão islâmica da cópula, fundada na harmonia preestabelecida e
premeditada dos sexos, supõe uma complementaridade fundamental do
masculino e do feminino. Essa complementaridade harmônica é criadora e
procriadora. Entendemos por isso que o prolongamento da vida, que é não só
a felicidade e o apaziguamento das tensões mas também satisfação e gozo
legítimo, não se pode fazer senão no quadro único do nikah6 de que
sublinhamos o caráter global e totalizante.7
2
NOVASKI, 1989. p 37
JAROUCHE, 2005, p. 11.
4
JAROUCHE, As Mil e uma noites, 2005. pp.79-80 volume 2.
5
BOUHDIBA, 2006. p. 36.
6
Nikah significa a cópula.
7
IDEM, p. 48.
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As histórias da jovem Sherazade chegaram ao ocidente no século XVIII através
de Antoine Galland, que em 1703 após voltar do Oriente publicou as duas primeiras
partes de As mil e uma noites (Mille et une nuite). Entre 1704 e 1717 foram publicados
outros volumes, traduzidos de alguns manuscritos e baseados em histórias da tradição
oral contadas por Hanna de Alepo, dentre estas histórias estavam Aladim e a Lâmpada
Maravilhosa e Ali Babá e os Quarenta Ladrões.
Galland, Lane, Gide, Burton e Masdruss divulgaram As Mil e uma noites8 para o
Ocidente, porém impregnados da moral burguesa e cristã ocidental, estes autores
apresentavam o Oriente em suas obras “através das intervenções cultas”9 suprimindo
passagens ou histórias inteiras.
No entanto, a imagem da sedutora Sherazade é forte não só nas histórias que
chegaram ao ocidente, como também no inconsciente coletivo de muitos autores de
países de língua árabe. Muitos escritores de expressão árabe passaram, então, a ter uma
visão orientalista dos orientais em relação às narrativas de Sherazade, reforçando, a tese
sobre o orientalismo, de Edward Said, uma vez que para o teórico palestino, é um
“estilo de pensamento”, um modo de pensar e ver abstratamente o oriente, um produto
das forças da dominação ocidental, assim:
O Oriente é parte integrante da civilização e da cultura materiais da Europa.
O Oriente expressa e representa esse papel, cultural e até mesmo
ideologicamente, como um modo de discurso com o apoio das instituições,
vocabulário, erudição, imagística doutrina e até burocracias e estilos
coloniais.10
Da mesma forma que os europeus Burton, Gide e Lane criaram a “fantasia do
oriente” para servir a seus próprios objetivos, os poetas contemporâneos como Taha
Hussein, Tawifiq Al Hakim, Al-Tayib Salih e Suhayl Idris e Nizar Kabanni
continuaram com ela e assim idealizaram o amor e a mulher em sua literatura, a mulher
como fonte de prazer, a mulher como promessa da felicidade eterna ou ainda
paradoxalmente numa outra perspectiva, a mulher é apresentada como fonte de
8
Recentemente, no Brasil, As Mil e uma noites foram traduzidas diretamente do árabe por Mamede
Mustafá Jarouche. Ver Edição Editora Globo. Volumes 1, 2 e 3.
9
SAID, op.cit. p. 204.
10
SAID, 1995, p.15
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perdição. Assim, a presença da voz feminina na literatura de língua árabe é capaz de
seduzir e de acender o mais adormecido dos desejos masculinos.
Colocar a mulher nesta posição, na poética de expressão árabe, permitiu que
muitos autores contemporâneos do oriente construíssem, na maioria das vezes, uma
imagem da mulher numa perspectiva orientalista, da qual nos fala Edward Said, pois
encontra-se o desejo por novas aventuras, como forma de expor a dialética entre o
sagrado e o erótico da tradição do Islã.
Nosso objeto de estudo, no entanto, será parte da obra poética de Nizar Kabanni,
(1923-1998). Autor de diversos poemas que elogiam e estimulam o pan-arabismo, a
poesia lírico amorosa do autor destaca-se pela mestria com que trata o amor numa
sociedade repleta de moralismo e religiosidade.
A poesia de Kabanni fala de, sobre e por mulheres. Estas ora se encontram
envoltas pelo seu tradicional véu, ora desejadas, zoomorfizadas e ao mesmo tempo
elevadas ao patamar de deusas do Olimpo ou, ainda, na voz do eu lírico feminino expõe
o desejo destas filhas de Sherazade.
29
AS QASĪDAS E KABANNI
Poetas como o sírio Nizar Kabanni trazem em sua obra a forte presença deste mito
feminino. A mulher ora é apresentada como fonte de prazer ora como promessa da
felicidade eterna, muitas vezes, ainda, causa da perdição masculina.
Nascido na cidade de Damasco, Síria, em 1923, Kabanni talvez seja o poeta do
amor mais popular da literatura árabe contemporânea. Autor de mais de cinquenta
livros, sua poesia se concentra em dois grandes temas, o nacionalismo árabe e o amor.
A poesia de Kabanni é capaz de estimular as mulheres a lutarem contra a
submissão imposta pela sociedade em que vivem.
O Oriente recebe meu canto, como elogio e como maldição
Para qual dos dois caminhos conduzo minha gratidão?
Para vingar o sangue da mulher oprimida
E sempre deixar claro que poderá ser temida. 11
11
KABANNI, 1970. Livre tradução.
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Estruturalmente, seus poemas mantêm a clássica metrificação, as aliterações e
assonâncias são frequentes, mas a sua linguagem é inovadora, pois aproxima o literário
ao prosaico, permitindo que as pessoas mais simples pudessem entender sua obra, como
afirma em sua autobiografia.
I pondered long before this language. I wondered whether people would
forgive me this deliberate aggresion against the history of the arabic rethoric
with all its pride. Magic and majesty. This was more, this was an aggresion
against my own poetic history...
my question led me to other questions: why should simplicity be an
aggression against history?12
Sua forma poética predileta são as qasīdas (odes), expressão poética do período
clássico da literatura árabe, no apogeu do Califado Abássida, com grande expressão na
cultura Andaluz.
Bagdá produziu um discurso em torno da literatura cortesã, que elegeu a
qasīdah de longa extensão a forma-poema ideal para a expressão conjunta
dos propósitos amoroso e laudatório em verso.13
Estas poderiam ser escrita, mas predominantemente fazem parte da tradição oral.
As qasīdas são poemas com uma única rima até o final. Com uma
extensão variável de 20 a 80 versos e, quanto aos temas, priorizou o
politematismo, entendido como a combinação de duas seções no poema:
uma primeira voltada aos temas do amor, da sensualidade, do vinho e da
viagem do poeta até os domínios do seu elogiado.14
Kabanni retoma esta vertente da poesia clássica de língua árabe e a explora tanto
na expressão amorosa quanto na laudatória, intitulando diversas obras apenas com
qasīda como os publicados em 1956. Em 1970 lança a seleção de Qasīda Mutwahisha e
em 1986,
12
Qasīda Maghdoub A´laiha.
WILD, Stefen. 1995, p. 202.
SLEIMAN, Michel. 2007, p. 15.
14
Idem.
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No fragmento do poema que apresentamos, extraído do livro Qasaīd
Mutwahisha, o eu lírico masculino se coloca totalmente submisso aos desejos de sua
amada, deseja por ela ser dominado com toda sua força erótica, é o típico vassalo do
amor. Pode-se ainda notar um diálogo permanente com as histórias de As mil e uma
noites15, contadas pela narradora de todas as narrativas, Sherazade, na medida em que o
erotismo se faz valer em na poesia de Kabanni.
Ama-me
com toda a fúria dos bárbaros
com todo o calor do deserto
com a fúria da tempestade
não pense como os demais seres civilizados
a civilização perdeu seus instintos
ama-me como um terremoto
como a surpresa da morte inesperada
deixa meus seios arderem em brasa
ataca-me como uma loba faminta e perigosa.
Além de cantar a figura feminina em sua poesia, Kabanni é capaz de estimulá-la a
16
lutar pela submissão imposta às mulheres do mundo islâmico e árabe.
Quando um homem está apaixonado
Como pode usar velhas palavras?
Deveria a mulher a quem desejada
Deitar-se com gramáticos e lingüistas?
Eu não digo nada a mulher amada
Mas concentraria palavras de amor numa bolsa
E viajaria por todos os idiomas
Por louvor ao seu corpo. 17
Como também assim é capaz de vê-las como fonte da perdição, é capaz de
elevá-las ao patamar das grandes musas.
Eu não me pareço com outros amantes, minha amada
15
Indicam-se as histórias da tradução direta do árabe, de Mamede Mustafá Jarouche. Volumes 1 e 2,
ramo sírio e volume 3, ramo egípcio.
16
Na maioria dos países árabes o percentual de mulheres que trabalha ainda é pequeno, a liberdade
sexual ainda é condenada, como exemplo, muitas mulheres recorrem à cirurgia restauradora do hímen ou
recorrerem ao suicídio quando perdem a virgindade.
17
Arab Poems. Vintage. 1978. p.56.
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Se algum lhe desse a nuvem
Eu lhe daria a chuva
Se outro lhe trouxesse a luz
Eu lhe daria a lua
Se algum lhe desse um ramo
Eu lhe traria as árvores
E se um outro, ainda, lhe trouxesse o navio
Eu lhe daria a viagem.18
Considerando que os poemas de Kabanni foram escritos entre os anos 1950 e
1980, enquanto o ocidente revia seus valores morais, no oriente o poeta publicava
versos libertários na medida em que apontam para uma relação livre entre homens e
mulheres. Kabanni recorre ao eu lírico masculino, emprestando muitas vezes sua voz
para as mulheres. Ao dar voz ao feminino, o poeta as coloca totalmente dominadas e
dominadoras.
No poema Inta19 O’mri, (Você é minha vida), a mulher condiciona sua
existência a dele.
(...) Meu coração nunca viu a felicidade antes de você
meu coração nunca viu ninguém além de você.
(...) Você é minha vida que começa ao amanhecer com o seu brilho
Como antes minha vida estava perdida
Foi um tempo perdido, meu amor.
Meu coração nunca viu a felicidade antes de você
Meu coração nada viu outra coisa além de você
E então, sentiu a dor do sofrimento
Só agora eu comecei a zelar pela minha vida. ( ...)
Já como eu lírico masculino, a mulher é avassaladora, assim como muitas
personagens de As mil e uma noites.
Não pense como os seres civilizados,
Na quero você pensando como os civilizados
A civilização perdeu seus instintos
Ama-me como um terremoto
Como a morte inesperada
Deixe seus seios arderem em brasa,
18
Idem.
Em língua árabe o pronome Inta se refere ao masculino você. O eu-lírico aqui é feminino, pois o
pronome “você” em árabe sofre variações para marcar o gênero.
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Ataca-me como uma loba faminta e perigosa(...)
Essa alternância de vozes estabelece limites definidos em relação ao enfoque que
se deseja dar. Ao assumir a voz do eu lírico masculino, as musas são submetidas aos
caprichos e desejos masculinos.
No entanto, Kabanni culpa a vida moderna pela perda da delicadeza feminina,
reafirmando a visão do tradicional homem árabe sobre o feminino, uma mulher que
pensa e deseja apenas bens materiais, interessante notar que há uma inversão de papéis
os homens são mais emotivos que as mulheres. Há uma retomada das cantigas de amor,
de tradição medieval, influência da poesia Andaluz, o eu lírico masculino é o vassalo
amoroso.
Você deseja como todas as mulheres
as minas de Salomão
como todas as mulheres
lagos de perfumes
pentes de ferro
horda de escravos
você deseja um lorde
que cantará suas glórias como um canário
que lava seus pés com vinho
Oh Sherazade
como toda a mulher
você quer que eu lhe dê as estrelas dos céus
banquetes confortáveis
você quer sedas de Shangai
tapetes de Isfahan
eu não sou nenhum profeta que impõe sua autoridade
e o mar se abre
Oh Sherazade
Sou um simples trabalhador de Damasco
eu mergulho meu pão em sangue
meus sentimentos são modestos
meu salário também
eu acredito em pão e profetas
e gosto de sonhos de amor.
Esta retomada, no entanto, vai além, novamente são as influências das histórias
de Sherazade que aproximam o poeta a este tipo de pensamento.
“ „ Se acaso me indagais sobre as mulheres, digo que sou perito nos
remédios das mulheres – um médico; se a cabeça do homem
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embranquece e diminui seu dinheiro, Ele já não terá sorte nenhuma no
afeto delas.‟”20
Na poesia de Kabanni, a primeira pessoa do singular é uma recorrente, a mulher
árabe contemporânea, habitante de cidades como Damasco, Cairo e Beirute, é
interlocutora deste eu lírico. Ele fala para mulheres já ocidentalizadas, invocando
Sherazade, uma oriental, apresentada aqui como uma mulher ardilosa e interesseira. Ele
fala com mulheres que perderam sua pureza e sua força emotiva para a superficialidade
da vida moderna, ocidentalizando-se, a atenção antes dedicada ao ser amado, agora cede
lugar para sua vaidade.
Paradoxalmente, o poeta marca sua posição em relação ao amor pelas orientais,
afirmando sua dificuldade em amar mulheres ocidentais, mulheres sem as influências do
mito de Sherazade.
I felt that to love a foreigner or to marry her would be signing a
marriage contract in hieroglyphs. The husband of a foreign woman
will serve all his life as an interpreter. By my very nature, I cannot
love a woman in which I do not smell the smell of mint, of wild,
thyme, of basil, of genista, of jasmine, of guilly-flower and dahlias
which fill the fields of my country.21
Por outro lado, muitas vezes recorre ao eu lírico feminino, apontando para a
hipocrisia, masculina e sua dupla moral, ou ainda para a total dependência afetiva da
mulher.
(...) sei quem eu sou
agradeça por me ter
você é afortunado
você é meu amado
você salvou meus seios da solidão
você colocou neles a aura da realeza
você os moldou
você os coroou
ao me tocar
transformei-me em uma das maravilhas do mundo
fiz maravilhas por você.
20
JAROUCHE, p. 165. Vol II.
WILD, 1995, p. 204.
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Em outros poemas, rompe os limites impostos pela sociedade conservadora em que
vivia, o poeta explorou e expôs o prazer sexual feminino, como se pode ver num dos
poemas de Qasaīd Mutwahisha.
Não entre!
sua voz cerrou meu caminho
suas palavras trancaram meus passos
você estava sem seus amigos
sua mentira foi denunciada pela voz feminina que chamava a você
foi ela quem me substituiu?
„Pare!‟
esta ordem até agora envenena meu coração
enquanto isso, o vento soprava e trazia com ele a humilhação imposta pela sua voz
não se desculpe, mar em tormenta. 22
Ou ainda, no mesmo poema,
Perdoa-me, senhor
Se eu desejei uma aventura nos domínios dos homens
a literatura clássica, é claro, era domínio dos homens
e o amor era prerrogativa masculina
e sexo era o ópio dos homens vendidos
um mito em suas terras é a liberdade feminina
mas não existe outra liberdade senão para os homens...
(Id. ibid.)
O amor só é permitido ao universo masculino, o eu lírico pede perdão por
aventurar-se nos domínios dos homens, o eu lírico reconhece seu papel social, mas o
avança, quer ter o direito de amar, quer ter, no espaço masculino, sua liberdade.
Kabanni avança assim todos os limites impostos pelo seu tempo. Em seus poemas
reconhece que amor e morte, Eros e Tânatos, caminham juntos.
Não entre!
Sua voz cerrou meu caminho
Suas palavras trancaram meus passos
Seus amigos não estavam com você,
Sua mentira foi denunciada pela voz feminina que te chamava
Foi ela quem me substituiu?
Foi por ela que minha entrada foi proibida?
22
Kabanni, 1968.
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“Pare!” Essa ordem até agora me envenena o coração (...)
(Id. ibid.)
O poeta associa a sua produção poética com o prazer ou a frustração do ato
sexual, conforme afirma em suas memórias.
The relation of the poem with the sheet of paper I am writing on is a relation
whichs hares many of its peculiarities with sex. It begins like all physical
relations with the desire to occupy a space which we do not know, in a
country which we do not know. The sheet of paper in front of me is a boy
which I do not know. (…) A sheet of paper – like any woman – has to
master the rules of the game and the fundamentals of hunting and the
catching of the prey.(…)Sometimes I feel that the paper is ready and I make
love with it successfully. 23
CONCLUSÃO
A contribuição de Kabanni é inegável para a literatura árabe contemporânea.
Explorando o erotismo e o amor carnal como algo não só inerente aos homens, mas
também às mulheres, num espaço social onde sexo, erotismo, prazer, amor são vetados
ao corpo feminino, o poeta embora, algumas vezes, mantenha um olhar orientalista, não
deixa de explorar temáticas que séculos antes, Sherazade em suas narrativas havia
explorado, o mérito de Kabanni se encontra em ter dado voz para a mulher na poesia de
língua árabe.
Mesmo numa perspectiva ainda masculina, o poeta abre as portas para o retorno
Sherazade, cujas palavras seduzem os mais desavisados dos mortais. Seus poemas
como as histórias de As mil e uma noites tiram o véu que encobre a palavra, o corpo e o
desejo feminino. Kabanni coloca estas mulheres num espaço real e palpável.
Referências bibliográficas
ALLEN, Roger. Love and Sexuality in Modern Arabic Literature. London/England:
Saqi Books, 1995
23
WILD, op. cit., p. 201
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LIVRO das Mil e Uma Noites. Tradução de Mamede Mustafá Jarouche. 1. ed., v. I. Rio
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HOURANI, Albert. A História dos povos árabes. São Paulo: Cia das Letras, 1996.
KABBANI, Nizar. Love Poems – Full Arabic and English Texts. Colorado/USA: Lyne
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SLEIMAN, Michel. A arte do Zajal – Estudo da Poética Árabe. São Paulo: Ateliê
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QABBANI, Nizar. Qasa´id min Nizar Qabanni. Cairo. 1956
______. Yaumita imraa. Beirute. 1968.
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WILD. Stefan. “Nizar Qabbani´s Autobiography: Images os Sexuality”. In: ALLEN,
Roger & KIL`PATRICK, Hilary, MOOR. Love & Sexuality, in Modern Arabic
Literature. Saqi Books. London, 1995.
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