...

120 PROJETO PÉROLAS NEGRAS

by user

on
Category: Documents
4

views

Report

Comments

Transcript

120 PROJETO PÉROLAS NEGRAS
PROJETO PÉROLAS NEGRAS: valorização da diversidade cultural na escola.
Raíssa Rosa Quadra
RESUMO
O artigo faz uma análise da história da mulher negra, priorizando a história de mulheres negras em Minas gerais.
O texto tem como metodologias, pesquisas bibliográficas e experiências/vivências pessoais. Inicialmente, é feita
uma analise histórica sobre a trajetória das mulheres negras no Brasil, levando em consideração pontos que
melhor retratam essa trajetória. O texto faz também uma revisão histórica da ditadura da beleza e do percurso do
feminismo negro. Em seguida é feita uma apresentação do projeto Pérolas Negras, projeto socioeducativo
desenvolvido inicialmente na cidade de Viçosa, localizada na Zona da Mata Mineira. A apresentação foca a
importância do trabalho de projetos sociais que incentivam a valorização da beleza e da autoestima da mulher
negra como forma de empoderamento político e social. Finalizando, será enumerada a importância das
organizações feministas de mulheres negras em Minas Gerais para o acesso a educação, levando em
consideração que o projeto teve a sua criação em Minas Gerais.
Palavras-Chave: ditadura da beleza, educação, empoderamento, Lei 10.639 e mulher negra
MULHERES NEGRAS DO BRASIL
As diversas intervenções do movimento negro no Brasil reforçam a cada dia as
mazelas da população negra e a desigualdade racial, que é reinante na sociedade, e vem
contribuindo para solapar o mito da democracia racial em nosso país. Acostumamos a estudar
e conhecer uma história romantizada da escravidão dos negros no Brasil.
Segundo Shuma Schumaher, escritora do livro Mulheres Negras do Brasil (2007), não
é possível subtrair a violência da história da mulher negra, e é extremamente importante
conhecer as raízes que mantiveram a escravidão e a importância do papel feminino nessas
raízes, sendo sobre tudo um papel de resistência.
A história das mulheres negras reflete uma longa trajetória que ilustrada melhor a
importância do movimento feminista negro brasileiro. Entre os grupos escravizados, as
120
mulheres correspondiam por cerca de 20 % inferior aos números dos homens sequestrados e
transportados aos navios negreiros.
Ao chegarem cativas no Brasil, as negras recebiam nomes cristãos, com a finalidade
de apagar um passado, recebendo os nomes de Marias, Evas e ironicamente Felicidades. No
período de colonização, depois de uma penosa travessia atlântica, as africanas
desempenhavam diferentes papeis nas fazendas, o que seria desde tarefas domésticas, até
trabalhos com a terra, o que seria o plantio e a lida com a cana de açúcar.
Schumaher (2007) chama atenção para as consequências para algumas atividades que
afetavam seriamente a vida de algumas mulheres, como a vida das “amas de leite”. A
disponibilidade do leite de uma ama implicava necessariamente no afastamento de seus filhos,
os quais sob o ponto de vista dos escravocratas seriam de pouca ou de nenhuma serventia. O
que traduzia na negação da maternidade de muitas escravizadas e o aumento da taxa de
mortalidade de crianças negras.
Na escola, quando estudamos história, estamos acostumados a encontrar figuras de
negras com tabuleiros na cabeça, seriam as quitandeiras, mulheres negras em sua maioria de
origem africana, elas constituíam um grupo bastante organizado para a época, onde
circulavam e se aproximavam dos espaços urbanos.
O historiador Eduardo França Paiva, em seu livro – Escravidão e Universo Cultural
na Colônia – Minas Gerais 1716-1789 (2001), ressalta alguns dados sobre a trajetória das
vendedoras. O autor conta a trajetória da negra Bárbara Gomes de Abreu, ex-cativa que viveu
durante o século XVIII, em Minas Gerais, que após conseguir a sua alforria construiu uma
vasta rede de comércio, que ligava Minas Gerais ao Rio de Janeiro, o que fez acumular uma
grande riqueza, se tornando uma das comerciantes mais importantes. O escritor ainda
menciona Francisca Poderosa que chegou a Minas Gerais com os seus dois filhos, concedidos
121
fora do casamento, fugida de São Paulo. Já em Minas Gerais conquistou com o seu próprio
comércio, alcançando uma pequena fortuna.
Por terem uma liberdade de circulação, as quitandeiras representavam um grande
perigo para o governo e os lideres escravocratas. As quitandeiras constituíam em um elo
muito importante de integração, resistência e comunicação entre a população negra local e os
negros ainda escravos. Com acesso as ruas, as vendedoras percorriam varias ruas e vielas das
cidades. Alguns documentos atestam que as vendedoras auxiliavam no mercado clandestino
de ouro e a fuga de escravos nas vilas de Minas Gerais. Algumas quitandeiras foram presas e
apontadas como corresponsáveis por revoltas, como Luiza Mahim na Bahia, apontada como
corresponsável pela revolta dos malês. Podemos considerar as quitandeiras como um
movimento feminista?
MUITA DIGNIDADE E POUCO RECONHECIMENTO.
Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até
acho o cabelo de negro mais educado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de
preto põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça
ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existem reencarnações, eu quero voltar
sempre preta. (p.65)
Quarto de despejo: o diário de uma favela. Carolina Maria de Jesus (1955)
Os estereótipos negativos ás populações afro descendentes foram sendo recriadas com
o passar do tempo, partindo do período das pós-abolição da escravidão. O preconceito é
sentindo literalmente na pele. Quando estudamos e pensamos na história do Brasil, lembramonos da multiculturalidade e da diversidade africana, que juntamente com a Cultura Indígena e
Europeia formaram a diversidade étnica cultural do Brasil.
A estética assume os papéis de resistência, manutenção de identidades e a criação de
outras identidades não necessariamente africanas, mas afro-brasileiras. A estética reproduz o
papel de memória e autentica a história de povos e civilizações africanas. Os penteados, as
122
joias, os panos, as maquiagens corporais, fazem uma revitalização nacional na construção da
identidade brasileira. Trabalhar e afirmar à estética afro brasileira é dialogar com o corpo
feminino como forma de poder e reconhecimento, ostentando orgulho de pertencimento. Até
o final da década de 1950, os concursos de misses excluíam das passarelas as candidatas afro
descendentes. Em 1963, a enfermeira Aizita Nascimento, representando o Clube Renascença
do Rio de Janeiro rompe com a ditadura de beleza discriminatório desses eventos.
PROJETO PÉROLAS NEGRAS
Vivemos em uma sociedade que pratica a discriminação e atos de racismo com
frequência. E são recorrentes atos que minimizam os outros que se diferenciam da ditadura da
beleza, pessoas e grupos que não correspondem aos padrões estabelecidos por uma sociedade
classista e racista, que valoriza a tipos de inteligência que lhe convém, estabelece modelos de
saudável, modelo de homem branco, jovem, bom, bonito, e bem sucedido, e, ainda, o que se
denomina cristão, rico e sem deficiência aparente. Veja-se bem que as mulheres, de qualquer
grupo étnico racial e todos os índios, afros descendentes e afros asiáticos estão fora desse
padrão. Em outras palavras: o padrão de beleza é a beleza europeia, fruto de uma estrutura
histórica pré-estabelecida.
O Projeto Pérolas Negras, vem sendo realizado juntamente com Casa Cultural do
Morro desde junho de 2013, como forma de valorização da beleza negra, utilizando como
base a Lei 10.639, implantada em janeiro de 2003. Essa lei estabelece como obrigatório o
ensino da História da Cultura Africana e Afro Brasileira nas escolas públicas e particulares. O
projeto procura responder a um dos principais desafios que se apresenta para os afrobrasileiros: a autoestima – uma vez que se verifica na sociedade brasileira a desvalorização da
123
imagem e da história do negro. Este é o principal motivo pela opção por um trabalho que
atinja as meninas com idade de 07 a 15 anos. Atualmente são atendidas 20 meninas.
O projeto é desenvolvido com as moradoras do morro do Rebenta Rabicho,
comunidade em Viçosa, que carrega em seu histórico de existência o forte laço com o tráfico
de drogas e outras mazelas. É importante levar em consideração que em bairros periféricos e
favelas existe uma maior concentração da população negra e pobre.
Nas reuniões semanais são realizadas intervenções nos cabelos que possuem algum
tipo de química de alisamento e são feitos tratamentos para manter os cabelos crespos
naturais, aumentando e valorizando a autoestima da menina e mulher negra. São realizados
ensaios fotográficos com produção de vestuário e locações que integram temas relacionados
ao pertencimento a cidade, ao bairro e o empoderamento da mulher negra. Através de
variadas oficinas temáticas, como a confecção de turbantes, oficinas de maquiagens, história
oral de mulheres negras, culinária, ensaios fotográficos, tratamento do cabelo com produtos
naturais e rodas de conversas, os valores da Cultura Negra fazem com que aumente a
conscientização das meninas atendidas, conscientizando a importância da história do
movimento feminista negro e também a importância da mulher negra na formação do Brasil.
MULHER NEGRA E O ACESSO À EDUCAÇÃO
Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o
significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os
efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da
libertação?
Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire
Desde o período colonial, a educação feminina esteve voltada, em sua maior parte das
vezes, para funções domesticas, sendo valorizado o aprendizado por cuidados com a casa,
cuidados com o marido e os filhos, resumindo, “mulheres prendadas”, que na maioria das
124
vezes eram mulheres semianalfabetas. Nem brancas, nem negras ou indígenas eram
alfabetizadas.
Schumaher, no seu livro Mulheres Negras do Brasil, faz uma pesquisa bibliográfica
onde ressalta sobre o acesso da mulher negra á educação. De acordo com a sua pesquisa, as
primeiras noticias sobre experiência de ensino da população negra na colônia começaram a
aparecer na década de 1720. Nesse período, as escravizadas, mulheres negras passaram a
serem aceitas em instituições que antes só aceitavam as “sinhazinhas”, instituições que
ensinavam as boas maneiras. O autor ainda menciona o nome do dom Lourenço de Almeida,
até então, governador de Minas Gerais, que recebe uma ordem expressa de João VI exigindo
que as “ilegítimas”, filhas de escravas com os senhores, começassem a aprender a contar, a ler
e escrever em português e latim. Entretanto, a ordem não foi obedecida sobre a justificativa
que as crianças eram “filhas de negras”.
A educação das crianças negras se dava em convivência com a brutalidade, onde
aprendiam modos de resistência e luta pela sobrevivência e nos intervalos lições de tarefas
domésticas e agricultura. Nas senzalas, as jovens escravizadas aprendiam com as mulheres
mais velhas lições que teriam que exercer. Eram preparadas para lavar, passar, cozinhar, tecer,
colher, plantar e atender caladas os desejos dos homens da casa grande. Têm-se registros de
escolas administradas por mulheres livres que ensinavam regras de conduta.
Somente no final da década de 1870, com a Reforma do Ensino Primário e
Secundário, a população negra obteve o direito ao ensino público. Entretanto, antes deste
direito “ser concedido”, os homens e mulheres negras, diante dos preconceitos vividos e do
cenário de posturas e medidas preventivas, criaram uma resistência e adquiriram diversas
maneiras de aprenderem a ler e a escrever. Incentivados por ideias abolicionistas
pressionaram o governo com manifestos, fundando escolas para que fossem tomadas atitudes
definitivas para o acesso do homem e da mulher negra na educação pública.
125
Em 1888, com a Abolição alguns cenários começaram a mudar. No final do século
XIX, algumas instituições de ensino passaram a serem mistas, educando meninas e meninos
brancos, e meninas e meninos negros. Algumas escolas possuíam requisitos para uma jovem
ingressar na escola, como a comprovação de ausência de doença contagiosa, de defeito físico
ou psíquico – as jovens deveriam ter boa conduta social e vocação individual, que seria
comprovação de tios, primos e algum parente no magistério. Critérios com base nas ideias de
soberania branca, entretanto esses critérios não foram suficientes para o impedimento do
acesso de mulheres negras aos cargos de professoras. Em Minas Gerais, Elza Moura, foi uma
das mulheres negras mais atuantes na história da educação na metade do século XX, onde
lutou por igualdade e o fim da segregação racial velada. Elza Moura era educadora e
comunicadora social, se destacando pela a dedicação em escrever para materiais infantis.
Muitos anos se passaram e poucas coisas mudaram, em meio o clima de segregação
racial velada, foram surgindo projetos mais amplos pela a conscientização e a mobilização do
afro descendente e afro brasileira. Começou o surgimento de associações que visam à
valorização e o reconhecimento da história negra, como a Associação Carla Rosa, que leva
como nome fantasia Casa Cultural do Morro, organização não governamental que trabalha em
parceria com o projeto Pérolas Negra. As associações começam a se multiplicarem e a
desenvolverem atividades arte educacionais diversas, como encenações de peças teatrais,
saraus de poesias, palestras e oficinas educativas.
Em 2003 é aprovada a Lei 10.639 que teve como corresponsáveis Maria Auxiliadora
Lopes e Eliana Cavalleiro, ambas formadas em pedagogia e lutarem pela inclusão das
questões étnico raciais na educação. Maria Auxiliadora, mineira, historiadora, desde 1953 é
funcionária do Ministério da Educação, onde exerceu o cargo de diretora do Departamento do
Desenvolvimento do Sistema de Ensino da Secretaria de Educação Fundamental. Eliana,
atualmente é responsável pela coordenação Geral de Diversidade e Inclusão Educacional do
126
MEC, sendo também formada em letras, é oriunda do Geledés- Instituto da Mulher Negra. A
lei determina a obrigatoriedade do ensino de história e da cultura afro brasileira nas escolas,
porém é pequeno o numero de escolas que já implantaram a disciplina no plano de estudo. E
importante ressaltar que nenhuma escola publica ou privada de Viçosa/Minas Gerais
implantou a disciplina até o dia da finalização deste artigo.
OBJETIVOS DO PROJETO PÉROLAS NEGRAS
O objetivo principal do Projeto Pérolas Negras é a valorização da menina e da mulher
negra através da autoestima. Buscando através de estímulos – oficinas temáticas- uma relação
de conhecimento com a ancestralidade negra.
Construir a autoestima dos afro-brasileiros por meio de relações mais humanitárias,
conscientizando-os de que cada etnia, por meio de sua cultura, contribui para a formação de
um povo único.
Incentivo para efetivação da Lei 10.639/03 nas escolas públicas e de periferia com
estimulo para o conhecimento da história afro brasileira.
Objetivos específicos do Projeto Pérolas Negras
Sensibilizar os educadores a importância do trabalho de valorização da criança negra e
a efetivação da Lei 10.639/03.
Valorização da pedagogia da diversidade, sempre levando em consideração que
possuem diferentes culturas e etnias.
Adentrar as escolas, preferencialmente as publicas e as de periferia, levando em
consideração que são às com maiores numero de alunos negros.
Possibilitar o acesso das oficinas Pérolas Negras em salas de aulas ou outros espaços
127
de aprendizagem.
Identificação do racismo no cotidiano escolar, trabalhando causas, consequências e
extermínio.
Preservar, incentivar e valorizar as manifestações culturais dos descendentes da
imigração Africana.
Construir um novo olhar sobre a história nacional/regional local e ressaltar a
contribuição dos africanos na construção do Brasil.
Desmistificar ideias e concepções (pré) adquiridas e geralmente carregadas de sentidos
desvalorativos.
Efetuar pesquisa visando o conhecimento sobre as diversificadas etnias.
Metodologia de execução
Embora os brasileiros, em especial as mulheres negras, venham aumentando a sua
presença nas instituições de ensino, passarelas de beleza/moda e locais antes considerados
para pessoas “de valores”, a situação se encontra longe de onde deveria estar. Trabalhar com
crianças e adolescentes negras é valorizar e reafirmar a sua importância na construção da
sociedade brasileira, e valorizar as raízes e a importância que cada etnia e cultura representam
na vida destas crianças. Para efetivar os objetivos do Projeto Pérolas Negras, trabalhamos com
pesquisas bibliográficas de autores e autoras negras que acercam o tema da importância da
mulher negra na formação histórica do Brasil.
As oficinas ministradas pelas educadoras do Pérolas Negras são/serão realizadas com
meninas negras que tenham interesse em participar de forma voluntária, sendo que as oficinas
são/serão pautadas em temas que valorizem as relações étnico-raciais, de gênero, culturais,
educacionais e pedagógicas. Estas oficinas são preparadas e pensadas em cima das questões
mais pertinentes na comunidade. A proposta é também criar espaços de (re) construção
128
coletiva do saber, incentivando as crianças a manifestarem de diferentes formas percepções
sobre sua localização na sociedade, resgatando a cidadania e sua identidade negra.
Considerando que a criança é, sim, um sujeito que ainda não encontrou o seu mundo e
as suas opiniões sobre “as coisas do mundo”. Não podemos levar em consideração que a
infância é singular, pelo o fato que o Brasil possui varias infâncias, varias crianças e o mais
importante, essas crianças são pertencentes a várias culturas.
Procuramos dar visibilidade e valorizar a participação da população negra em
conexões com a sociedade mineira e brasileira, construindo análises que contextualizem
experiências, através de textos, poemas, desenhos, músicas e diálogos, de forma que
manifestações variadas possam ser socializadas pelo grupo todo e apropriadas pelas crianças,
educadores, familiares e demais envolvidos (as) em encaminhamentos futuros.
Porém as principais metodologias do projeto são passadas através de relatos de
mulheres que já sofreram pela a desvalorização e que atualmente desenvolvem a importância
da valorização da menina e mulher negra através beleza, combatendo e questionando os
padrões de beleza. Trabalhar a representatividade com meninas negras é de extrema
importância para o desdobramento da opinião critica de cada criança.
E através das oficinas de beleza (confecção de turbantes, maquiagens, manicure,
culinária, penteados, tranças e hidratações naturais) levamos até as meninas a história afro
brasileira e sempre contextualizando fatos corridos no dia a dia de cada Pérola.
Os ensaios fotográficos
Os ensaios fotográficos têm como intuito maior o combate à ditadura de beleza, que
repassa a valorização da beleza europeia. E através destes, mostramos para as Pérolas Negras
a importância da valorização da beleza natural. A foto é utilizada como um instrumento de
regaste da autoestima, partindo do ponto educacional que a criança com autoestima baixa
129
possui um desenvolvimento intelectual atrasado.
Apostila pedagógica
Com o objetivo de construir a valorização da pedagogia da diversidade cultural e um
modelo alternativo para a educação étnico-social, o Projeto Pérolas Negras criou a apostila
Cabelo Crespo é Bonito! o material é utilizado como forma de apoio nas oficinas ministradas
nas escolas. A apostila é prática e de fácil entendimento. O embasamento teórico da apostila
parte do pressuposto de valores étnicos, estéticos e problematizando que é belo e feio, do que
cabelo ruim ou bom.
Os livros didáticos utilizados nas escolas não cumprem o seu verdadeiro papel
educativo, ou seja, estimular a cidadania de cada estudante e contrariar qualquer tipo de
preconceito e discriminação dentro ou fora da escola. Em seu livro Desconstruindo a
discriminação do negro no livro didático, Ana Célia da Silva afirma que o livro didático, de
modo geral, omite o processo histórico-cultural, o cotidiano e as experiências dos negros, do
índio, da mulher, entre outros.
Em relação ao negro, a sua ausência nos livros é quase total, e quando presente é
estereotipada destruindo a autoestima da população negra.
A criança negra que é educada com livros didáticos que apresentam a imagem do
negro como submisso e tolerante a atos racistas e opressões, sentirá grandes dificuldades na
formação da sua identidade e perda da sua autoestima.
Intervenções Artísticas
Umas das metodologias pedagógicas e culturais desenvolvidas pelo Projeto Pérolas
Negras são as intervenções artísticas em espaços “elitizados” da sociedade. Espaços como
universidades e espaços que existe a presença da mulher e do homem negro, mas que na
130
maioria das vezes passam despercebidos.
A metodologia de intervenção são um dos caminhos de aproximação da vida
cotidiana, se inserir no tecido social, abrindo novas frentes de atuação e fornecendo uma
visibilidade para os trabalhos já realizados pelo o projeto e tornando acessível ao público. Os
objetivos dessas ações são dinamizar e humanizar os espaços públicos, divulgar ações das
Pérolas Negras, fomentar espaços para as manifestações de talentos da comunidade em geral
e fortalecer a importância da valorização da cultura afro brasileira como parceira no processo
educacional. As propostas das intervenções são embasadas em contextos sociopolíticos das
mulheres negras da cidade de Viçosa e dos contextos raciais do Brasil.
A última intervenção promovida pelas Pérolas Negras aconteceu em 25 de julho de
2014, data em que é comemorado o dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e
Caribenha. Foram fotografadas estudantes, professoras e funcionárias negras que possuem
algum laço com a Universidade Federal de Viçosa, e estiveram presentes em todas as falas as
dificuldades em serem mulher e negra em uma universidade conservadora e elitista.
Reconhecimento do Projeto Pérolas Negras.
Um trabalho feito com amor e muita dedicação deram frutos, as meninas do Projeto
Pérolas Negras foram parabenizadas por diversos meios de comunicações nacionais e
internacionais, dando um novo rumo para o público alvo.
O Projeto Pérolas Negras recebeu em setembro de 2014 o Prêmio Comenda de Ébano,
oferecido pelo o movimento negro de Viçosa. Comenda Ébano é um prêmio por relevantes
serviços prestados à comunidade negra de Viçosa, por meio da difusão da cultura afro.
O reconhecimento vindo de importantes meios de comunicação como Gelédes –
Instituto da Mulher Negra, que foi criado em 30 de abril de 1988. Sendo uma organização
política de mulheres negras que tem por missão institucional a luta contra o racismo e o
131
sexismo, a valorização e promoção das mulheres negras. (http://www.geledes.org.br/projetoestimula-criancas-valorizarem-beleza-negra-em-vicosa/#axzz3DycTdcDW). Reconhecimento
da Revista Raça Brasil, que é a primeira revista voltada aos negros no país. Com editorais de
cultura e comportamento, moda e beleza, noticias sobre a comunidade e valorizando a cultura
e a história afro brasileira. (http://racabrasil.uol.com.br/tag/projeto-perolas-negras/4811/).
O Projeto Pérolas Negras também foi divulgado no site do Meeting Of Favela (MOF).
O MOF é maior evento voluntário de graffiti do mundo. Projeto que se dedica pela inclusão
cultural e artística da comunidade da Vila Operária localizada em Duque de Caxias, na
Baixada Fluminense do estado do Rio de Janeiro, revelando para os moradores o universo da
Arte Urbana (http://www.meetingofavela.com.br/2014/09/perolas-negras.html).
Visibilidade em rede nacional, como na Rede Globo de Televisão, no programa Bem
Estar e no site (http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2014/05/projeto-estimulacriancas-valorizarem-beleza-negra-em-vicosa.html).
Em um site internacional também foi divulgado as ações do Projeto Pérolas Negras
(http://blackwomenofbrazil.co/2014/05/21/perolas-negras-project-encourages-children-toappreciate-black-beauty/).
Público Alvo do Projeto Pérolas Negras
Trabalhamos com mulheres negras que tenham o interesse de cuidarem dos cabelos
crespos e cacheados de forma natural, podemos perceber nas oficinas os testemunhos dos
preconceitos vivenciados onde o maior alvo são os cabelos.
Mais o público central e principal são meninas com idade entre 08 e 15 anos e,
estudantes do ensino médio em comunidade quilombolas e periféricas vulneráveis.
Atualmente as meninas do Projeto Pérolas Negras de Viçosa juntamente com as
coordenadoras, oferecem oficinas gratuitas em quilombos e nas comunidades periféricas do
132
Brasil, além das oficinas semanais das próprias Pérolas Negras. Atualmente são atendidas 15
meninas com idade entre 08 a 15 anos, moradoras da comunidade do Rebenta Rabicho em
Viçosa, 29 meninas estudantes da Escola Municipal Vinicius de Moraes localizada na
comunidade da Vila Operária na cidade de Duque de Caxias/MG e as oficinas itinerantes que
possuem um numero significativo, oficinas que acontecem em escolas públicas, escolas
família agrícola e eventos culturais. Já atendemos cerca de 200 meninas.
CONCLUSÃO
Embora os brasileiros, em especial as mulheres negras, venham aumentando a sua
presença nas instituições de ensino, passarelas de beleza/moda e locais antes considerados
para pessoas “de valores”, a situação se encontra longe de onde deveria estar.
Trabalhar com crianças negras, é valorizar e reafirmar a sua importância na construção
da sociedade brasileira, e valorizar as raízes e a importância que cada etnia e cultura
representa na vida destas crianças. Considerando que a criança é, sim, um sujeito que ainda
não encontrou o seu mundo e as suas opiniões sobre “as coisas do mundo”. Não podemos
levar em consideração que a infância é singular, pelo o fato que o Brasil possui varias
infâncias, varias crianças e o mais importante, essas crianças são pertencentes a várias
culturas.
Os projetos sociais que trabalham com a linha temática, baseando-se na pedagogia da
diversidade, ressaltam a multiculturalidade que o Brasil tem, e que os saberes perpassam as
questões de gênero, sexo, geração, etnia e etc. permitindo o entendimento que elas não são um
produto acabado.
Finalizando, um trabalho árduo e na maioria das vezes muito difícil, mas as crianças
negras necessitam conhecer a história para dela se empoderar.
133
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. São Paulo: Paulo de
Azevedo LTDA, 1955.
PAIVA FRANÇA, Eduardo. Escravidão e Universo Cultural na Colônia – Minas Gerais
1716-1789. São Paulo: 2001.
SCHUMAHER, Schuma e BRAZIL, Érico Vital. Mulheres Negras do Brasil. Rio de Janeiro:
Senac Nacional,2007.
SILVA, Ana Célia Da. Desconstruindo a discriminação do negro no livro didático. Salvador:
EDUFBA, 2001, p 14; 16; 19; 51; 58.
134
Fly UP