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1 Transferência e Transformações Relação continente/contido

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1 Transferência e Transformações Relação continente/contido
Transferência e Transformações
Relação continente/contido: transformações em alucinose e
transformações autísticas
Celia Fix KORBIVCHER
“Na guerra, o objetivo do nosso inimigo é nos aterrorizar para
impedir-nos de pensar claramente. O nosso objetivo, entretanto, é
continuar a pensar com clareza apesar da situação ser adversa ou
amedrontadora... A idéia subjacente é que pensar com clareza é
vantajoso e conduz a ficar atento ao que chamo de realidade...Mas
tornar-se conhecedor da realidade pode envolver o conhecimento do
desprazer, porque a realidade não é necessariamente prazerosa ou
bem-vinda.
Bion ,1979 p.46
“A perda da noção de existir é muito pior do que a morte.
Na morte, pelo menos se sente que um corpo é deixado. Ao se perder
o senso de existir, nada é deixado... A aniquilação é a maior ameaça
de todas porque isto significa a extinção do senso de existir...
Tustin, 1990,p.39
Bion considera que o trabalho do psicanalista com pacientes psicóticos
pode ser comparado ao do arqueólogo em suas escavações. O arqueólogo ao
realizar suas escavações nas ruínas de cidades destruídas, descobre que devido
a um colapso e ao movimento de camadas de pedras, fragmentos e outros
objetos de estágios mais primitivos se misturaram com cerâmicas e artefatos de
estágios posteriores. (Bion,1962 citado por Tustin, 1992 p. 96).
O psicanalista em seu trabalho clínico, assim como o arqueólogo,
descobre entre as manifestações mentais de seus pacientes fenômenos de
diferentes estágios; desde os mais desenvolvidos até mais os primitivos e nesses
últimos, ainda aqueles de natureza primordial (Bion, 1979). É importante que o
analista identifique a cada movimento na sessão, o nível mental em que o
paciente está operando, ou seja, se está operando em níveis neuróticos,
psicóticos, autísticos ou não integrados. As características dos fenômenos
1
desses diferentes níveis são distintas, requerendo para cada um deles, uma
abordagem específica.
Existem alguns pacientes nos quais prevalecem a parte neurótica da
personalidade que apresentam núcleos psicóticos acentuados. Para evitarem o
contato com a situação intolerável a que estão submetidos, eles a substituem por
alguma outra de sua criação, independente dos fatos reais. Este tipo de
configuração provoca grande distância entre o par, devido ao analista não dispor
de um interlocutor com quem se comunicar.
Há
outros
pacientes
que,
embora
também
se
comuniquem
predominantemente em níveis mentais neuróticos, conservam uma parte da
personalidade em que prevalecem certos núcleos impenetráveis. Eles mantêm
uma parte encapsulada, uma parte autística, de modo a impedir o acesso a
determinados aspectos mentais seus. Esses são estados que produzem
fenômenos semelhantes às proteções autísticas, cuja finalidade é proteger o self
primordial de vivências intoleráveis de não-integração (Tustin,1986, Klein, S.
1981).
O meu propósito nesta apresentação é examinar a transferência e seus
desdobramentos nas áreas em que prevalecem estados mentais primitivos;
estados psicóticos e autísticos. Investigo a respeito de como abordar esses
fenômenos na sessão, considerando a força e o impacto provocados por eles na
mente do analista. Utilizo Bion como referência e a teoria de transformações
(1965). Destaco nessa teoria apenas as transformações projetivas, em alucinose
e as transformações autísticas (). Apresento vinhetas clínicas de Nina, uma
adolescente, e de André, uma criança nas quais poderemos observar fenômenos
contidos
nesses
tipos
de
transformações.
Ambos
pacientes
operam
predominantemente com a parte neurótica da personalidade, entretanto, Nina
apresenta manifestações psicóticas importantes e André, núcleos autísticos
acentuados.
Transferência e Transformações
O conceito de transferência desde Freud sofreu algumas expansões que
merecem ser mencionadas.
2
Freud (1905 ) define transferência como:
“ São as novas edições, ou fac-símiles, dos impulsos e fantasias que são criados e
se tornam conscientes durante o andamento da análise; possuem, entretanto, esta
particularidade, que é característica de sua espécie: substituem uma figura anterior pela
figura do médico. Em outras palavras: é renovada toda uma série de experiências
psicológicas, não como pertencentes ao passado, mas aplicadas à pessoa do médico no
momento presente” .( p.113)
Em relação à contratransferência (1912) Freud diz:
....“a contransferência se instala no médico, devido ao poder que o paciente exerce
sobre o seu inconsciente” ... É necessário que o psicanalista possa detectá-la e dominála...Cada psicanalista só chega até onde permitem seus próprios complexos e
resistências interiores… A única maneira de controlar o fenômeno da contratransferência
é a análise de próprio analista”.
Melanie Klein (1946) amplia o conceito clássico de transferência
ao
introduzir a noção de identificação projetiva. A identificação projetiva irá em
Klein substituir este conceito. Para a autora a transferência está enraizada nos
estágios mais iniciais do desenvolvimento e nas camadas profundas do
inconsciente. Sua concepção é mais abrangente e envolve uma técnica através
da qual os elementos inconscientes da transferência são deduzidos a partir da
totalidade do material apresentado. Com a noção de identificação projetiva e da
transferência como situação total, a psicanálise passa a se ocupar, não apenas
com o conteúdo do que o paciente diz, mas também, pela maneira como diz, para
o uso da linguagem e para as suas ações dentro do consultório. (p. 78)
Com Bion (1962 a), o conceito de identificação projetiva é também
ampliado, passando este a ser considerado como um método de comunicação
primordial entre mãe e bebê, do mesmo modo que seria a relação entre analista
e analisando. Bion passa a adotar a noção de continente-contido para se referir
a este tipo de configuração.
Bion ao longo de sua obra propõe diferentes modelos teóricos. Ele propõe
(1957) a presença de partes psicóticas e não psicóticas da personalidade, ponto
de partida para que outras partes pudessem também ser destacadas, como é o
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caso da parte autística da personalidade introduzida por Tustin (1990, 1992). Bion
sugere (1962ª) que o campo de trabalho do analista na sessão é o do aprender
com a experiência emocional e a teoria de transformações (1965) uma teoria de
observação dos fenômenos mentais compartilhados pela dupla analítica na
sessão.
Transformação implica em invariância, ou seja, para que haja a
transformação de uma experiência , alguns elementos da situação original não
podem variar, devem se manter invariantes; caso contrário não seria uma
transformação, mas sim outra situação. Para Bion, o contato com a emoção em
si, (O) não é acessível. Assim, as apreensões do analista, como as
comunicações do paciente são consideradas transformações pessoais das
emoções em curso de cada um deles.
Entendo que com Bion o conceito da transferência clássica se modifica.
A partir de Transformações passa a ser englobado no campo analítico, também
os movimentos da mente do analista, o que significa que o fenômeno observado
irá se alterar pelo próprio ato de observação. Abandona-se a idéia de uma visão
absoluta do fenômeno, passando a abordagem do analista a ser apenas uma das
possibilidades a serem consideradas.
Quanto à contratransferência, Bion ( 1979) diz que esta se refere à
sentimentos inconscientes do analista, portanto não disponíveis à função
analítica. A contratransferência seria a transferência não analisada do analista em
relação ao seu paciente.
Bion em Transformações propõe diferentes grupos de transformações:
transformações em movimento rígido, projetivas, em alucinose, em K, -K e em O.
Bion
expande o campo analítico de conhecer a realidade; K,
realidade, O.
para
“ser” a
As transformações em movimento rigido abarcam o campo da
transferência clássica de Freud. Nas transformações projetivas predominam o
mecanismo de spliting e identificação projetiva. Cabe ao analista acolher as
projeções de partes indesejáveis do self do paciente, projetadas sobre a sua
mente, transformá-las em algum significado de modo a possibilitar que seu
conteúdo passe a ser mantido na mente e não mais expelido. Nas
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transformações em alucinose, a experiência emocional vivenciada com a figura
do analista como um objeto real, é substituída por uma outra figura criada pelo
analisando, independente da sua existência real. Bion ( 1965) diz:
“rivalidade, inveja, avidez, roubo, juntamente com o seu sentido de ser inocente,
são consideradas como invariantes sob alucinose ( p.157)
Para Bion a alucinose é um mecanismo bastante freqüente em pacientes
neuróticos, os quais quando submetidos à forte pressão operam com
transformações psicóticas (projetivas e em alucinose). Ele menciona que o
conceito de alucinose necessita ser ampliado para englobar um número de
configurações que não são reconhecidas como pertencentes à ele.
O fenômeno autísticos
Alguns pacientes, como já foi mencionado, nos quais predominam um
funcionamento mental neurótico, conservam em sua personalidade uma parte
autística (Tustin, 1990,1992). Nesta parte autistica, predominam manifestações
autísticas que se caracterizam por um estado de recolhimento no interior de uma
“concha protetora”, auto-gerada de modo a permitir que o individuo evite
vivências insuportáveis de vulnerabilidade. Esses indivíduos apresentam uma
sensibilidade extrema e uma auto-sensualidade exacerbada. Neles a consciência
da separação corporal do objeto deu-se de maneira abrupta, sem que tivessem
meios para suportá-la. Eles a vivenciam como se partes do próprio corpo
tivessem sido arrancadas, acarretando a experiência de aniquilamento. A relação
entre eu e não eu dá-se por meio de “objetos/sensação”; “objetos e formas
autísticas2” (Tustin,1981,1986,1990). O contato sensorial com o objeto é
essencial, não por representar outro objeto ou pela fantasia que ele desencadeia,
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Os objetos autísticos são objetos duros por meio dos quais a criança obtém uma experiência
sensorial de dureza e de contato com bordas, propiciando-lhe um estado coesão e de proteção
contra um pavor inominável. As formas autísticas consistem em experiências sensoriais que
adquirem formas. São formas inteiramente particulares daquele indivíduo, não compartilhadas
com outras pessoas São experiências com objetos macios e com substâncias corporais sentidas
como reconfortantes e calmantes. Essas formas adquirem uma função apaziguadora propiciando
por meio da sua sensação física, rudimentos da noção de limites, contendo em seu interior um
espaço. (Tustin, 1980, 1984).
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mas por se tornar o próprio objeto. A falta do objeto é tampada por objetos e
formas autísticas, de modo que os sentimentos de terror advindos da sua
ausência, sejam suprimidos. Frente à vivências aterrorizadoras eles tendem a
aderir às superfícies em contigüidade, à superfícies que se tocam evitando o
surgimento de qualquer espaço. A comunicação entre eu e não-eu, desse modo
irá ocorrer, não por identificação projetiva como nos casos em que há a presença
de um objeto separado, mas por identificação adesiva (Bick,1968,1986 e Meltzer,
1975) .
Bion com a sua abordagem de uma mente multidimensional abre a
possibilidade de outros tipos de transformações, lado a lado com as
transformações neuróticas (em movimento rígido) e as psicóticas (transformações
projetivas e em alucinose). (Braga, J.C. 2009, comunicação pessoal)
Em trabalhos anteriores ( ) propus que a área dos fenômenos
autísticos, fosse introduzida na teoria das transformações. Sugerí acrescentar
aos grupos de transformações destacados por Bion, um novo grupo; as
transformações autísticas. As transformações autísticas se desenvolvem em um
meio autístico, o que implica na ausência da noção de objeto. As relações entre
eu e não-eu são dominadas por sensações e ocorrem por meio de objetos/
sensação, objetos e formas autísticas que não adquirem representação na
mente. Algumas das suas invariantes se relacionam à experiência de ausência de
vida afetiva, à experiência de vazio afetivo, e à presença de atividades autosensuais.
O universo autístico
Com
a
introdução
das
transformações
autísticas
na
teoria
das
transformações o campo de observação na sessão passa a ser ampliado para a
àrea dominada por sensações, uma area não mentalizada. O universo autistico;
como sabemos, é um universo à parte organizado por leis específicas, diferentes
daquelas do campo da neurose e psicose. Vale a pena mencionar algumas das
diferenças entre esses universos:
1-Nas àreas neuróticas e psicóticas os vínculos emocionais L,H, K e
seus negativos (Bion, 1959) perpassam qualquer relação conectando os objetos.
Na área autistica, entretanto, como não existe a noção de objeto interno nem
externo, não encontramos nela vínculos emocionais; esta seria uma àrea em que
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há a ausência de vinculos.
2-A dimensão da mente preponderante nas transformações das àreas
neuróticas e psicóticas pertence ao campo do conhecer e não conhecer (K e –K)
enquanto nas transformações autísticas elas pertencem ao campo do existir e
não existir.
3-Os fenômenos autísticos e os elementos beta embora guardem
alguma semelhança, eles apresentam diferenças de qualidade importantes.
Elementos beta, são elementos sensoriais que não foram transformados pela
função alfa em elementos psíquicos e portanto não podem ser utilizados para
pensamento. São elementos não digeridos que devem ser expelidos para livrar o
aparelho psíquico do acúmulo de tensão. Os elementos beta (Bion,1962a)
agrupados formam uma barreira de contato; a Tela beta3, a qual tem o poder de
provocar emoções no analista, afetando a sua condição de pensamento e
potência analítica. O fenômeno autístico, por outro lado, é caracterizado pela sua
natureza estática e por pertencer ao mundo inanimado. Assim como os
elementos alfa e beta quando agrupados constituem respectivamente a barreira
de contato e a Tela beta, também os elementos autísticos ao serem agrupados
formam uma barreira; a barreira autística. O individuo procura proteção por meio
desta barreira. (Tustin, 1984,1986).
Diferentemente dos elementos beta, os
elementos autísticos não têm a função de discarga ou alívio, mas de proteção,
principalmente em situações de terror diante da ameaça de não existência
psíquica. ( )
Material clínico
Nina, 18 anos é uma adolescente que ao encontrar-me para a sua sessão
está sempre envolta numa atmosfera de altivez, superioridade, intimidando-me
diante de qualquer pequeno pretexto que surge. O clima é de tirania, de ameaça,
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A Tela beta é formada por um acúmulo de elementos beta.. Onde poderia se constituir a
barreira de contato da função alfa, o que se observa é a sua destruição. Isto ocorre por uma
inversão da função alfa, ou seja: aqueles elementos que constituem a barreira de contato se
dispersam e se convertem em elementos alfa despojados de todas as características que os
separam dos elementos beta. Esses elementos são projetados, formando a Tela beta. A inversão
da função alfa não provoca um retorno aos elementos beta originais, mas formam-se novos
elementos beta, acrescidos de vestígios do ego e do superego. São os objetos bizarros.(Bion,
1962)
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gritos e acusações. Ela parece que escuta apenas os sons que ela própria
produz, a minha presença, muitas vezes, sequer é notada.
Quando há um
momento de aproximação entre nós na sessão sou ràpidamente engolfada por
suas atuações. Este seu funcionamento requer que eu mantenha distância de
modo a preservar a minha função analítica e não reagir com atuações. Numa de
suas sessões Nina avisou-me que não viria mais. Combinamos que teria ainda
uns poucos encontros antes de interrompermos. Ela havia faltado na véspera da
sessão que eu vou relatar. Ao chegar Nina adentra a sala, como é de seu hábito
com um ar bastante enfezado. Atira a bolsa na poltrona e joga-se no divã.
Levanta o encosto do divã deixando-o na posição vertical, talvez por necessitar
delimitar o espaço entre nós. Ela diz que está com muita raiva pelo fato de um
colega não tê-la convidado para realizarem um trabalho juntos. Acrescenta muito
irritada: isso porque eu não sou da terra de Caras. Chama a minha atenção ela
não mencionar sobre a sua decisão de interrompermos o trabalho e sobre a sua
falta na véspera. Como não compreendo o que ela havia dito indago-lhe a
respeito e ela com muito ódio diz: é porque eu não ando de helicóptero. Peço-lhe
mais esclarecimentos e ela reage explodindo. Grita, se irrita, agindo como se eu
devesse saber do que está falando. Tento lhe comunicar sobre o seu ódio, o
terror por perceber que sou separada dela e que posso não saber do que ela está
falando a não ser que me esclareça. Enquanto conversamos, Nina se envolve
com uma atividade na qual arranca com suas unhas pontudas dos dedos
indicador e polegar, a cutícula de cada um dos outros dedos. Parece ter a
intenção de me afetar com isso. Esta atividade é entremeada por outra em que
levanta a unha do polegar de uma das mãos com a unha do outro polegar, como
se através de uma alavanca fosse arrancar a sua unha. Sinto tremendo
desconforto com esta atividade, o que faz com que eu vire a minha cadeira para a
janela de modo a evitar enxergar o que ela está fazendo. Em meio a este clima
digo-lhe que ela parece viver uma situação de verdadeiro terror ao perceber que
eu não estou dentro dela e que eu não posso saber exatamente o que está se
passando. Digo-lhe ainda que ela reage a isto como se tudo explodisse e
pedaços voassem pelos ares como está ocorrendo hoje. Ela diz: é claro; você é
burra, você não entende!!! Consigo me manter parcialmente em contato com a
situação e conter o desconforto de seus ataques violentos. Menciono que repete
hoje um episódio semelhante ao ocorrido em tantas sessões anteriores e que
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parece ter precisado se organizar na vida desta maneira para não se sentir
perdida e desesperada. Ela reage bufando e diz gritando: Ta vendo! Tá vendo!,
não dá!!! Eu já sei tudo isto, e daí? Você não me diz nada de novo! Digo que ela
talvez tenha se organizado como um gladiador que precisa meter medo nas
pessoas para sentir que tem existência, do mesmo modo que precisa cutucar
seus dedos com as unhas. Neste momento ela parece se acalmar e diz que se
sente mais para mendigo do que para gladiador. O seu estado mental se modifica
parecendo poder me escutar e estar mais próxima.
André, 8 anos é um menino distraído, disperso que não se concentra nas
tarefas escolares. Sua inteligência é normal, embora acompanhe a escola com
dificuldade. Este foi o motivo que levou os pais a me procurarem . É um menino
bonito, bem desenvolvido para a idade, mas que apresenta um olhar bastante
desvitalizado. É muito passivo e submisso. Ao entrar na sala abre a caixa de
brinquedos, pega os carrinhos e se atira sobre o divã, transformando-o numa
espécie de pista corrida onde os carrinhos a percorrem dando inúmeras voltas.
Emite sons de motor de carro, intercalados com narrativas de estórias, ligadas
àqueles movimentos. A estória é de dois irmãos, cada um tem o seu carro e
disputam um Rally. Depois fala de um pai viúvo que viaja com o filho, e também
de dois casais de namorados que viajam juntos. Tento me agarrar ao conteúdo
das estórias, mas tenho enorme dificuldade em me manter ligada, pois sou
acometida por um estado de intenso torpor e muito sono. O clima se torna
parado, sem vida. Comunico-lhe algumas idéias, mas percebo-o totalmente
absorto nesta atividade, parecendo ignorar a minha presença. Na sessão
seguinte André, em meio à um estado desvitalizado enche a lata de lixo com
água e vai colocando aos poucos, dentro dela diversos brinquedos da sua caixa,
além de muito papel picado. Mexe tudo aquilo e diz que é uma “sopa”. Noto-o
tomado pelo movimento circular da água se mexendo no interior da lata. O clima
é de vazio emocional, bastante difícil de ser suportado por mim. Em outra sessão
algum depois, André chega com um olhar mais vivo, entusiasmado me contando
sobre a sua escola de natação. O assunto logo se esgota e decide iniciar um
desenho. Abandona-o em seguida e recolhe-se num estado desvitalizado e de
desânimo. Diz que não tem idéia do que fazer. Tendo a me evadir da situação
devido à atmosfera sem vida da sala. Consigo lhe dizer que a pouco ele parecia
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estar cheio de idéias sobre a escola de natação e que talvez pudesse encontrar
também alguma idéia para o seu desenho. Ele demonstra interesse pela minha
fala, retoma o desenho e algum tempo depois para minha surpresa pergunta:
Você conhece a biblioteca do Mar Morto? É uma biblioteca onde guardam os
mapas do Mar Morto, os pedaços de gesso, de vasos, tudo o que sobrou. Digo:
mas por que ficou morto? Mostra o desenho do mar, os raios do sol. Fala que os
o sol bateu no mar e o secou todo ficando apenas sal e então não existe mais
vida lá. Digo-lhe que ele está me contando que se sente, às vezes, como este
mar morto, sem vida sem nada dentro, sem saber o que desenhar. Pergunta-me
se eu sabia que existem uns lugares onde os arqueólogos escavaram montanhas
e que descobriram umas pirâmides? Diz que havia desenhos nas pirâmides e as
pessoas se comunicavam por meio deles. Digo que é assim que nós estamos nos
comunicando hoje. Parece que á pouco tudo estava meio morto dentro de você,
mas depois de conversarmos está mais vivo.
Comentários
Nina apresenta-se para a sessão imersa num estado de grande
perturbação mental, aparentemente sem qualquer relação com a analista. Não
podendo contê-lo em sua mente, ela o descarrega através de ações, como jogar
a bolsa na poltrona, atirar-se sobre o divã.
(Tp5 seriam transformações
projetivas). Ao deitar-se Nina levanta o encosto do divã na posição vertical de
modo a construir uma barreira concreta entre ela e a analista, talvez por perceber
a ausência de uma barreira de contato dentro de si que separe consciente de
inconsciente. Com esta barreira concreta ela adquire, possivelmente, um estado
mental minimamente organizado. Ela justifica a sua perturbação por não
pertencer à “ilha de Caras”. (Tp seriam transformações em alucinose). A analista
solicita-lhe esclarecimento sobre o significado desta comunicação, fato este que
provoca na paciente uma reação de violência, de ódio, por não tolerar a
percepção da analista como uma figura separada e com autonomia. (Tp são
transformações em alucinose e projetivas). A manifestação com as unhas é uma
ação plena de violência e crueldade. A analista se vê afetada com esta ação, e
para que possa continuar pensando necessita virar a sua cadeira para a janela.
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Transformações do paciente- Tp e transformações do analista Ta
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(Ta seriam transformações em –K e as Tp projetivas). A ação predominante da
paciente é de descarga. O seu intuito é provocar medo, terror na analista, como
um meio de se sentir existindo. (Tp seriam transformações projetivas e Ta em K.)
André, é uma criança que opera com a parte neurótica da personalidade e
que apresenta núcleos autísticos acentuados. O seu jogo é repetitivo,
desvitalizado, com um conteúdo aparentemente rico, mas que provoca forte
desinteresse na analista despertando-lhe torpor e sono. A analista tenta encontrar
algum significado neste conteúdo de modo a evitar em si mesma, estados de
vulnerabilidade insuportáveis. Custa-lhe perceber que o jogo não é utilizado como
uma comunicação com um simbolismo que transmite fantasias ou sentimentos,
mas que é uma manobra autistica por meio da qual Andre se protege de
vivências aterrorizadoras de não integração. O movimento circular dos carros na
pista, os sons emitidos, o ato de falar nas estórias narradas, além do movimento
da água da “sopa”, são formas autisticas que o protegem diante da ameaça de
vivenciar estados de vulnerabilidade provenientes da consciência da separação
do objeto. Com essas manobras ele obtém um estado de continuidade corporal
com o objeto que lhe garante minimamente a noção de existir. A atmosfera na
sala de análise é sem vida, é de vazio emocional o que faz com que a analista se
sinta isolada, sem existência para a paciente. (Tp são transformações autísticas).
Na outra sessão André, é capaz de nomear por meio da metáfora do Mar morto,
um mar seco, sem vida; o seu estado interior e relacionar o nosso trabalho ao do
arqueólogo, que ao escavar a montanha encontra pirâmides; algo muito precioso.
Seria muito atraente aqui analista se agarrar ao simbolismo contido nesta
comunicação em relação ao sol que seca o mar, mas prevalece para ela a idéia
de que Andre está operando em outro nível. Ele está podendo traduzir em
palavras o seu interior ”um mar morto, sem vida, apenas de sal. (Tp seriam T
autisticas → K) .
Discussão
Como podemos observar, nos materiais apresentados, a experiência
emocional do analista frente aos fenômenos psicóticos é diferente daquela nos
estados autísticos. Ambos estados produzem forte tensão na relação analítica.
Nas transformações projetivas e em alucinose, como vimos com Nina, a
atmosfera na sala é intensa, é cheia de vida, há violência de emoções e
movimento. Com André, entretanto, a situação é diferente. O clima da sessão é
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de vazio, é de ausência de emoção, a situação é estática o que faz com a
analista sinta-se sem existência, isolada, sem um interlocutor com quem se
comunicar.
Nina, com a atividade de arrancar sua cutícula provoca na analista forte
emoção. Para ela (analista) a intenção de Nina seria atingi-la com tal ação,
enquanto com André ocorre o contrário, surge indiferença. André se recolhe, em
seu jogo utilizando-o como uma manobra autística para se proteger de estados
de terror diante da consciência da separação. André com a ajuda da analista é
capaz de sair deste estado sem vida e nomear a sua situação interior. Fala de um
Mar Morto, seco, sem vida, no qual se misturam fragmentos de estágios
anteriores do seu desenvolvimento. Assim como Bion, André relaciona o trabalho
de análise ao do arqueólogo e faz alusão dizendo que por traz de suas proteções
autísticas -as montanhas- existiu anteriormente um mundo rico que poderia talvez
ser resgatado.
É importante enfatizar neste ponto, que se a situação autística não for
abordada durante o processo de análise, dificilmente o paciente terá a
oportunidade de substituir o seu mundo inanimado por uma situação viva.
A questão que proponho discutir seria: como o analista pode se
comunicar com o seu paciente quando este se encontra diante de transformações
projetivas, em alucinose e transformações autisticas?
Diante de transformações projetivas o analista é impactado pela
violência das projeções do paciente em sua mente, como podemos observar no
material de Nina. O analista necessita contê-las de modo a continuar pensando, e
por meio da sua capacidade de révèrie e função alfa, transformá-las em algum
significado, comunicando-o ao paciente. Com isso o paciente poderá,
eventualmente, conter aqueles conteúdos em sua mente e não mais expelí-los.
Em relação às transformações em alucinose, o analista necessita
aguardar pacientemente até que surja uma oportunidade para informar ao
paciente que as experiências que ele vivencia concretamente, são criações da
sua mente e que não correspondem aos fatos reais. Isto poderá auxiliá-lo a tomar
consciência do seu estado de alucinose e, eventualmente, abandoná-lo.
O analista frente às transformações autísticas para que possa
se
comunicar com o paciente, necessita penetrar a sua barreira autística e
introduzir-se como um elemento vivo, aproximando-se daquele mundo inanimado,
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de modo a conferir-lhe vida psíquica. É preciso, entretanto, que a barreira
autística tenha alguns pontos vulneráveis, e que haja um trânsito entre estados
autísticos e estados em que a mente opera. Só assim o paciente poderá vir a ser
alcançado pelo analista. Esta experiência irá permitir-lhe se movimentar em seus
estados mentais, sem se sentir tão vulnerável e aterrorizado ().
Experiências como as descritas principalmente com Nina colocam o
analista, como menciona Bion na epígrafe deste trabalho : “diante de alguém cujo
objetivo é aterrorizar o analista para impedir-lhe de pensar claramente. O objetivo
do analista ,entretanto, é se manter pensando com clareza apesar da situação
ser adversa ou assustadora”. Com André, por outro lado, se há algum objetivo é o
de se proteger.
Como Tustin diz, também na epigrafe: “uma das piores ameaças para o ser
humano é a perda da noção de existir”. André se protege isolando-se num Mar
Morto, um mar sem vida, num mundo de sensações, como um meio de sentir
existindo. Pacientes como Nina e André nos lançam freqüentemente num
universo desconhecido sem referências para nos guiarmos. Penso, entretanto,
que este fato pode nos estimular a desenvolvermos uma condição privilegiada
para o trabalho analítico, nos solicitando a operarmos a maior parte do tempo
com nossa capacidade negativa e investigar o universo particular daquele
paciente por meio da disciplina de ausência de memória e desejo. (Bion 1967).
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