...

Baixar este arquivo PDF - Revistas Eletrônicas Unijuí

by user

on
Category: Documents
1

views

Report

Comments

Transcript

Baixar este arquivo PDF - Revistas Eletrônicas Unijuí
“
PLANEJAMENTO
NA EDUCAÇÃO INFANTIL:
Contemplando o Respeito
aos Tempos/Espaços
das Crianças.
Aline Simone Holzschuh
Viviane Ache Cancian
Este artigo foi escrito com base em uma pesquisa de Trabalho de Conclusão
do curso de Pedagogia, e teve como principal objetivo compreender como
algumas professoras do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo planejam
suas atividades pedagógicas de modo a respeitar os tempos/espaços das
crianças. Para obter os dados, realizaram-se observações, entrevistas e
análise de cadernos de planejamento. Constatou-se que as professoras que
participaram da pesquisa atribuem grande importância ao planejamento na
Educação Infantil, e também respeitam os tempos/espaços das crianças, o
que acontece de diversas formas, tendo como principal atenção o respeito
ao desenvolvimento das crianças.
ESPAÇOS DA ESCOLA
EDITORA UNIJUÍ
ANO 21
Nº 69
Jan./JUN. 2011
P. 52 - 60
53
Este artigo é um recorte da pesquisa realizada
em um Trabalho de Conclusão do Curso de Pedagogia
da Universidade Federal de Santa Maria, e teve como
problema: “Como as professoras do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo planejam suas atividades
pedagógicas de modo a respeitar os tempos/espaços
das crianças?”.
O objetivo geral da pesquisa foi compreender
como algumas professoras do Núcleo de Educação
Infantil Ipê Amarelo planejam suas atividades pedagógicas de modo a respeitar os tempo/espaços das
crianças; e os objetivos específicos foram entender o
que algumas professoras deste Núcleo de Educação
percebem sobre planejamento na Educação Infantil, e
verificar se há respeito quanto ao tempo e ao espaço da
criança no seu planejamento no local da pesquisa.
O local onde a pesquisa foi realizada é o Núcleo
de Educação Infantil Ipê Amarelo (NEIIA), que se caracteriza como um projeto de ensino, pesquisa e extensão que está vinculado ao Núcleo de Desenvolvimento
Infantil do Centro de Educação da Universidade Federal
de Santa Maria, localizando-se, então, no campus desta
Universidade. Por estar vinculado à UFSM, atende a
crianças cujos pais tenham vínculo com esta instituição,
seja como funcionários, professores ou estudantes.
A metodologia de trabalho adotada pelo Núcleo
de Educação Infantil Ipê Amarelo é a Pedagogia de
Projetos, e estes são elaborados e executados com as
crianças a partir de seus interesses. Ou seja, as crianças participam das atividades do projeto, pois, com a
ajuda dos pais e dos professores, aprendem a pesquisar,
procurar informações, podendo opinar e refletir coletivamente sobre os assuntos que envolvem o projeto.
METODOLOGIA
Iniciou-se esta pesquisa fazendo leituras de
diversos autores que escrevem sobre o assunto. Após,
partiu-se para a inserção no Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo, quando foram feitas observações das
reuniões gerais e também dos momentos de planeja-
mento das professoras que participaram da pesquisa,
que foram quatro do turno da tarde e duas que atuavam
em turno integral. Após cada observação realizada
fez-se um registro das questões discutidas que fossem
importantes para a pesquisa.
Realizou-se também uma entrevista com cada
professora. Esta entrevista já tinha as perguntas formuladas, mas foi permitido a elas que se sentissem à
vontade para falar sobre os conhecimentos que tinham
sobre o assunto e também para acrescentarem informações que acreditavam importantes naquele momento.
Por fim, solicitou-se os cadernos de planejamento das professoras para observar se as informações ditas
na entrevista realmente apareciam no planejamento
pedagógico das mesmas.
O PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO
NO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO
INFANTIL IPÊ AMARELO
No Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo o
planejamento das atividades pedagógicas é feito quinzenalmente. Em 2009, ano em que foram realizadas
as observações das reuniões gerais e dos momentos
de planejamento, os professores e bolsistas que trabalhavam no turno da tarde faziam seu planejamento
nas quintas-feiras, no horário das 17 às 19 horas. Já os
professores e bolsistas do turno da manhã planejavam
suas atividades nas sextas-feiras pela parte da manhã,
no horário das 7 às 9 horas.
Quando ocorriam estas reuniões, era solicitado
aos pais que buscassem as crianças mais cedo do Núcleo
para que os professores pudessem fazer o planejamento
pedagógico das duas semanas seguintes. Neste dia, as
funcionárias que preparam as refeições se organizavam
para servi-las mais cedo e as responsáveis pela limpeza
limpavam todas as salas também mais cedo.
Eram oferecidos plantões pedagógicos às crianças que permaneciam no Núcleo nos horários destinados às reuniões (normalmente porque os pais estavam
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
54
em horário de trabalho, o que lhes dificultava para
buscarem os filhos), e para este dia eram previamente
organizadas escalas para alguns bolsistas ficarem com
as crianças enquanto outros participavam da reunião
juntamente com gestoras e professoras. Nestes plantões, as crianças ficavam em algum espaço do NEIIA,
com bolsistas que organizavam atividades para serem
realizadas com as crianças neste período de tempo.
O planejamento era feito num primeiro momento
por turmas pois cada professor, com a ajuda de seu
bolsista, planejava as atividades de sua turma. No caso
de haver algum aluno universitário fazendo estágio
supervisionado na turma, este também participava do
planejamento.
Logo após o término do planejamento por
turmas, era feito um planejamento coletivo, o qual se
caracterizava como um momento de trocas no qual professores e bolsistas de todas as turmas compartilhavam
experiências e intencionalidades e faziam discussões.
Mensalmente era feita uma reunião geral com
todos os professores e bolsistas do NEIIA, diretora,
coordenadoras pedagógicas e professoras formadoras
do Núcleo de Desenvolvimento Infantil do Centro de
Educação, na qual eram tratados assuntos referentes ao
NEIIA, sendo também realizada a formação de professores. Esta reunião se caracterizava por ser um momento de formação inicial e continuada no grupo, uma vez
que eram feitos estudos e reflexões por alunos da Graduação (estagiários e bolsistas), professores-referência
e professoras formadoras do Centro de Educação. Esta
reunião geral era muito importante para os professores
e bolsistas do NEIIA, pois lhes possibilitava momentos
de trocas, quando compartilhavam as vivências de suas
turmas, refletiam sobre estas e sobre as prioridades
que têm enquanto profissionais da Educação Infantil,
e também construíam conhecimentos.
Em uma das reuniões gerais observadas sentiuse a importância atribuída pelas professoras de terem
este momento, este espaço de reflexão e de trocas,
pois durante o cotidiano elas não têm muito tempo
nem oportunidades de conversarem com professores e
bolsistas do turno inverso. Percebeu-se, portanto, que
as professoras sentem muita necessidade de terem estes
momentos de conversa e reflexões.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Na pesquisa que foi realizada, inicialmente
buscou-se saber o que as professoras entendem por
planejamento na Educação Infantil, e se percebeu que
estas o consideram importante na sua prática, e também
para deixar claras as intencionalidades, as quais devem
sempre existir. Notou-se isto na fala desta professora:
Acredito que o professor não pode vir trabalhar
na creche sem ter intencionalidades. Estas devem existir em todos os momentos vivenciados
pelas crianças: nas atividades dirigidas, nos
momentos em que brincam, enfim, para tudo o
que é feito é preciso ter uma intencionalidade.
Compreendeu-se a importância atribuída pelas
professoras em ter intencionalidades no planejamento,
enfatizando que essas precisam existir nos diversos
momentos e situações que as crianças vivenciam na
escola de Educação Infantil. Foi bastante enfatizado
nesta pesquisa que as professoras façam um planejamento que contemple todo período que atuam com as
crianças, o que envolve desde a forma de recebê-las:
com a sala organizada de um modo diferente, disponibilizando materiais atrativos, propondo brincadeiras e
atividades dinâmicas, entre tantas outras possibilidades;
com momentos de alimentação, higienização, trocas de
fralda, brincadeiras, enfim.
A ideia é a de que se desconstrua o entendimento
de planejar somente uma atividade – a chamada “Atividade do dia”, ou “Atividade da tarde” – a qual resulta
num produto concreto, que geralmente as crianças
levam para casa no final do dia. Na Educação Infantil,
o pedagógico não pode se restringir à realização de
uma única atividade no dia, pois precisa acontecer em
todas as ações que o professor realiza com o grupo de
crianças. “O pedagógico também envolve o que se passa
nas trocas afetivas, em todos os momentos do cotidiano
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
55
com as crianças; perpassa todas as ações: limpar, lavar,
trocar, alimentar, dormir” (Ostetto, 2000, p. 192). Sendo
assim, é importante que se tenha um planejamento com
uma intencionalidade em tudo o que for realizado com
as crianças.
Foi destacado também pelas professoras que
o planejamento não deve ser fixo, nem rígido, mas
flexível, uma vez que:
Não se pode fazer um planejamento e somente
realizar o que está escrito nele. É preciso ter um
planejamento flexível, realizar atividades que
estejam de acordo com o interesse das crianças
(fala de uma professora).
Compreendeu-se que esta flexibilidade no planejamento se refere à não predeterminar o tempo para
a realização de atividades, de modo que o período de
duração das mesmas esteja relacionado ao envolvimento das crianças, não sendo determinada conforme
o tempo do adulto.
Acredita-se também que, ao ser flexível no planejamento, é importante o professor ter a sensibilidade
em compreender que, na realização de uma atividade,
seja ela qual for, podem surgir outros interesses das
crianças, e é importante respeitá-los, prolongando o
período de estudo sobre determinado tema trabalhado ou inserindo subtemas para fazer um estudo mais
detalhado.
Em outras palavras, é importante que o professor seja aberto a fazer mudanças em seu planejamento
quando surgirem outros interesses das crianças. Para
isso, porém, é fundamental o professor ouvir as crianças, permitindo que manifestem seus interesses e curiosidades, os quais podem nortear seu planejamento.
Ao planejar, o professor aprende a observar o
grupo de crianças de um modo que consegue perceber
suas necessidades, os problemas e, consequentemente,
buscar as causas que os originaram. Deste modo, o planejamento é uma ferramenta que auxilia o professor a
conhecer bem cada um de seus educandos, seus jeitos
de ser, suas preferências, o que repercute no modo como
organiza suas atividades.
Além disso, o planejamento também permite ao
professor prever as necessidades das crianças, o que
requer que ele tenha um olhar atento à realidade das
mesmas. Isto facilita a identificação de problemas e, por
conseguinte, a busca das causas, tornando o planejamento tão importante no trabalho com crianças.
Foi sugerido nas reuniões gerais, em decorrência desta pesquisa, que as professoras não planejem
o simples brincar pelo brincar, mas um brincar com
intencionalidade, quando ofereçam elementos para que
as brincadeiras aconteçam e até mesmo se modifiquem
conforme a interação estabelecida entre elas e o grupo
de crianças. Ao brincar com as crianças, o professor
fortalece os laços afetivos com as mesmas, uma vez
que estas sentem segurança ao perceber que ele não
está apenas propondo a brincadeira, mas também participando, se envolvendo na mesma.
Considerando que no contexto das instituições
de educação infantil “deve haver espaço para as diversas linguagens e para a brincadeira” (Ostetto, 2000, p.
192), o professor de Educação Infantil, quando faz seu
planejamento, precisa pensar, além de outras coisas,
em brincar e interagir com as crianças, ajudando-as a
estruturar repertórios que enriqueçam suas brincadeiras.
No planejamento, então, é necessário que tenha espaço
para a criação de brincadeiras nas salas e nos diversos
ambientes da instituição.
Nesta pesquisa também buscou-se saber como
são os tempos vivenciados pelas crianças no Núcleo
de Educação Infantil Ipê Amarelo, e o modo como as
professoras o compreendem e o trabalham na Educação
Infantil. Percebeu-se que os tempos do cotidiano escolar
do NEIIA são organizados de acordo com os horários
da alimentação e limpeza, e que há certa igualdade de
acontecimentos no período da manhã e no da tarde.
Uma das professoras que atuou em turno integral
na instituição destacou que faz planejamentos diferenciados para o período da manhã e para o da tarde
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
56
para não cansar as crianças que ficam no Núcleo de
Educação Infantil Ipê Amarelo em turno integral. Esta
professora procura respeitar e qualificar o período que
as crianças que ficam em tempo integral passam na
escola de Educação Infantil, de modo a torná-lo menos
cansativo e monótono possível.
Acredita-se na importância de o professor de
turno integral construir um ambiente acolhedor, no
qual estabeleça com as crianças relações de respeito,
autonomia, confiança e afetividade, principalmente
com aquelas que ficam em turno integral, pois estas
precisam se sentir seguras e acolhidas pelo professor
com o qual convivem o dia todo.
Ao se pensar no tempo que as crianças vivenciam
no Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo, destacase esta fala de uma das professoras, na qual se percebe
que esta busca proporcionar momentos dinâmicos para
as crianças durante a tarde:
Meus alunos vivem plenamente o tempo deles,
uma vez que proporciono momentos diferentes
no decorrer da tarde, diversas proposições de
atividades. Deste modo, busco tornar o tempo
das crianças na creche um tempo prazeroso e
diversificado.
É possível e importante o professor oferecer atividades variadas no decorrer do período que as crianças
passam na escola de Educação Infantil, de modo que
estas não mecanizem os acontecimentos diários, e que
por meio de vivências diversificadas as crianças façam
a cada dia novas descobertas.
Também foi informado por uma professora que
esta trabalha o tempo na Educação Infantil potencializando o desenvolvimento das crianças, oferecendo
um ambiente saudável, seguro e estimulador na sala
do Berçário. “É em um espaço físico concreto que
os bebês experimentam suas primeiras sensações”
(Barbosa, 2006, p. 121). Sendo assim, percebe-se a
importância de organizar este ambiente (espaço da sala
dos bebês) da forma mais lúdica e segura possível, de
modo a propiciar descobertas, sensações, interação
com os outros bebês e com as professoras, fatores tão
importantes nesta faixa etária.
Além disso, considera-se importante destacar
que existe no Núcleo uma interação muito interessante
entre bebês e crianças maiores. Um exemplo é a turma
Integração, que recebe crianças de diferentes idades e
também inclusas. Durante a realização da entrevista, a
professora-referência desta turma, relatou que
A interação existente entre crianças de diferentes idades é muito interessante, porque as
crianças maiores ajudam as menores, e estas se
sentem desafiadas a “acompanhar” as crianças
maiores em suas capacidades.
Este tipo de interação também existe entre bebês
e crianças maiores de outras turmas, em diversos espaços do Núcleo, como o refeitório, o pátio, o corredor,
a pracinha, entre outros.
Percebe-se, portanto, que no Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo existem muitas trocas entre as
crianças maiores e menores, e cabe ao professor atuar
como mediador destas interações e organizar o tempo
das crianças de modo a torná-lo o mais significativo
possível em termos de qualidade, estímulo, interações
e aprendizagem para as mesmas.
O tempo no Núcleo de Educação Infantil Ipê
Amarelo também é trabalhado pelas professoras em
função da rotina, a qual possui certa sequência de acontecimentos, por meio da qual as crianças desenvolvem
a noção temporal.
Compreende-se que a sequência de situações
que as crianças vivenciam no Núcleo, por se repetirem
todos os dias, lhes proporciona a noção temporal no que
se refere ao que ocorre antes e depois de determinados
momentos, percebendo então o suceder de situações
que acontecem diariamente no Núcleo.
Além de utilizar a rotina institucional para que as
crianças compreendam a noção de tempo, percebeu-se
durante a realização da entrevista com uma das profes-
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
57
soras que esta utiliza outras formas de trabalhar o tema.
Uma delas é desenvolvendo a noção de tempo a partir
das vivências particulares das crianças em suas casas,
no convívio com a família.
Ressalta-se a importância de o professor sempre
conversar com seus alunos a respeito da sequência
de acontecimentos que estes vivenciam na escola, e
também fora dela.
A outra forma de esta professora trabalhar o tempo em Educação Infantil é procurando, durante a fala
das crianças, fazer com que compreendam o tempo.
Por exemplo, quando uma criança diz que irá
fazer um passeio ontem, explico para ela que
ontem já passou, e que irá fazer o passeio
amanhã.
Percebe-se que, ao usar como exemplo situações
do contexto das crianças, as quais foram tão importantes
para elas que até relataram na escola, é um bom início
para o professor desenvolver nas crianças a noção
temporal, pois é mais fácil para estas entenderem uma
situação que já vivenciaram.
Um dos aspectos mais destacados nesta pesquisa
em relação ao modo como as professoras trabalham o
tempo em Educação Infantil é respeitando o tempo de
desenvolvimento de cada criança. Nota-se isto na fala
desta professora:
No trabalho com a Educação Infantil o tempo
que priorizo e que sempre procuro respeitar é
o tempo de desenvolvimento de cada criança.
Em minha turma tenho crianças de diferentes
idades, portanto não posso exigir o mesmo de
todos. Isto me faz respeitar os diferentes tempos
destas crianças, não somente nos momentos
de fazer atividades dirigidas, mas também nas
refeições, nos momentos de higienização, nas
brincadeiras, enfim, em todos os momentos o
tempo de cada criança é respeitado.
O trabalho na Educação Infantil requer respeito
ao tempo de desenvolvimento das crianças, uma vez
que, nesta faixa etária, as necessidades biológicas e
psicológicas ainda estão muito presentes.
Outra professora entrevistada nesta pesquisa
também afirmou que respeita o tempo de cada criança,
destacando que na turma em que atua não se definiu
horários de sono, uma vez que as crianças dormem
quando sentem sono. É importante o professor ter consciência e respeitar as diferentes necessidades de sono
das crianças, oferecendo-lhes descanso no momento em
que sentem sono e necessitam descansar, independente
do horário em que isto aconteça.
Também observa-se com esta pesquisa que a
rotina institucional no NEIIA interrompe algumas
vezes o trabalho pedagógico, quebrando o envolvimento das crianças em determinada atividade que está
sendo realizada porque chegou a hora do lanche ou da
janta ou por conta da limpeza da sala. Nestes casos, é
importante o professor buscar romper com o que está
imposto pela rotina quando necessário, se posicionando
com os sujeitos que fazem parte da equipe da cozinha,
do lactário, da limpeza, argumentando sobre os motivos
pelos quais estão priorizando realizar esta mudança e
tentando entrar no entendimento comum de que é preciso conduzir o trabalho de modo a atender aos interesses
e necessidades das crianças e não dos adultos.
É preciso também romper com a ideia de que a
rotina é engessada, pois isto acarreta em nunca buscar
mudanças, e muitos professores se utilizam deste argumento porque, de certa forma, convém, posto que os
impossibilita de realizar outras formas de trabalho.
As professoras do NEIIA têm a possibilidade
de fazer mudanças na rotina, de diversificarem o seu
tempo; basta defenderem o seu ponto de vista e abrirem
espaço, na sua própria prática, para o diferente, para
o inovador.
Por fim, buscou-se perceber com a pesquisa o
que as professoras entendem e como trabalham o espaço
na Educação Infantil. Constatou-se que algumas professoras o trabalham procurando diversificar o espaço
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
58
da sala de sua turma, organizando e reorganizando a
disposição dos móveis e dos materiais existentes na
mesma.
Procuro sempre causar mudanças na estrutura
física e nos objetos oferecidos às crianças no
espaço de sala de aula, de modo a estimulá-las
a perceber e interagir de maneiras diferentes a
cada dia (fala de uma professora).
O modo como os móveis e materiais são organizados no espaço da sala de aula permitem a visibilidade
de como as crianças interagem com os mesmos. O
professor, ao fazer mudanças na disposição de móveis
e objetos, permite às crianças interagirem de formas diferentes e modificarem suas brincadeiras. Além disso, o
modo como está organizado o espaço da sala possibilita
ao professor dar mais ou menos atenção às crianças,
proporcionando-lhes diferentes descobertas.
Na organização do espaço,
Os móveis, objetos e registros explicitam as
possibilidades oferecidas e aguçam a curiosidade, a atenção e o desejo de produzir das
crianças, que, ao usarem este espaço, dão conta
de compreendê-lo, de apropriarem-se dele, de
agirem sobre ele, lendo-o à medida que o usam
(Leite, 2004, p. 27).
Diante disto, acredita-se que é importante o
professor diferenciar o modo de organização do espaço,
uma vez que as crianças sentirão interesse e motivação
em usufruir do mesmo, buscando compreendê-lo durante os momentos em que o usam.
Ainda em relação ao modo como é organizado
o espaço, uma professora costuma mexer em alguns
espaços, organizando, juntamente com as crianças, os
diferentes ambientes da sala de acordo com os interesses manifestados pela turma. Um exemplo é o circuito
de brincadeiras, no qual são realizadas concomitantemente diferentes brincadeiras em diferentes espaços da
sala, quando as próprias crianças criam os chamados
“cantinhos” de brincadeiras. Sendo assim, é importante que o professor, além de organizar um espaço que
estimule as crianças a interagirem de diversas formas,
possibilite que estas também participem na organização
deste espaço. Ao respeitar os interesses das crianças em
relação ao modo como querem organizar sua sala, por
exemplo, o professor lhes possibilita vivências interessantes, uma vez que estas passarão a se sentir sujeitos
participantes e atuantes de seu espaço.
Outra professora relatou na entrevista que na
sua turma são as próprias crianças que organizam seus
espaços, e estas negociam entre si no que se refere a
quem vai brincar em cada “cantinho”. Sendo assim, esta
professora tenta fazer com que as crianças negociem
entre si para estimular a linguagem delas.
O professor de Educação Infantil, portanto, ao
proporcionar estes momentos nos quais as crianças
definem e organizam seus espaços de brincadeiras,
estimula não só a linguagem das mesmas, mas também
a interação do grupo, o que é muito importante nesta
modalidade de ensino.
Duas professoras também destacaram na entrevista que trabalham o espaço em Educação Infantil
de modo a estimular a preservação e o cuidado com
o espaço físico, não só o da própria sala de aula, mas
todos os espaços do NEIIA, e os materiais existentes
nestes. Como exemplo, cita-se uma atividade que se
constatou no planejamento pedagógico de uma destas
professoras:
Realizaremos uma brincadeira que as crianças
tenham que trabalhar questões relacionadas à
organização e aos cuidados com os brinquedos
da sala. Todos os brinquedos serão colocados no
tapete. Conversaremos com as crianças sobre o
cuidado com nossos materiais e após, ao sinal
do apito, todos juntos guardarão nas estantes os
brinquedos conforme acharem melhor.
É possível compreender que aquele professor
que é organizado no modo como guarda os materiais,
desenvolverá nas crianças o hábito de também guardarem os materiais igualmente e com responsabilidade.
Ao desenvolver nas crianças o hábito de guardarem
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
59
os brinquedos após o uso destes, auxilia não só na
organização da sala, mas também para desenvolver
noções matemáticas e outros aspectos. Para isso, é
preciso que cada professor seja criativo no seu modo
de construir estes hábitos com as crianças, aproveitando
estes momentos para realizar atividades que auxiliem
na aprendizagem das mesmas.
A questão da organização do espaço da sala foi
destacado em reuniões pedagógicas do Núcleo, uma vez
que a equipe gestora do mesmo considera importante
o professor manter uma arrumação deste espaço e dos
materiais que este contém, para que a criança chegue
e se sinta bem por estar em um ambiente disposto de
forma ordenada. Nesta reunião, uma professora manifestou sua opinião sobre este aspecto:
Outra forma de possibilitar um movimento
pelos espaços do NEIIA é a realização dos Ateliês
Pedagógicos,1 que ocorreu em diferentes locais da
instituição, e que proporcionam às crianças não só a
possibilidade de frequentarem diferentes espaços do
NEIIA, mas também interações com diferentes crianças
e adultos.
Um dos aspectos mais enfatizados pelas professoras, tanto nas reuniões pedagógicas quanto na
entrevista, é que buscam explorar ao máximo os diferentes espaços do Núcleo, utilizando-os para realizar
brincadeiras, refeições, atividades dirigidas, tendo
sempre uma intencionalidade.
Todos os espaços da instituição de educação
Um espaço adequado e organizado demonstra
capricho e criatividade.
infantil podem e precisam ser utilizados e explorados
Kramer (1997) ressalta a importância de que as
próprias crianças sejam as responsáveis pela manutenção e conservação da sala e de seus materiais, uma vez
que este é um momento fundamental do processo de
conquista do espaço.
terem vivências e fazerem descobertas em ambientes
Assim, é possível perceber o quanto é interessante o professor de Educação Infantil organizar junto com
as crianças os espaços, estimulando-as a guardarem os
brinquedos que não estão sendo usados no momento,
pois desta forma as crianças aprenderão a cuidá-los.
outros recursos para a realização de atividades na sala
Nesta pesquisa percebeu-se também que as professoras do Núcleo de Educação Infantil Ipê Amarelo
consideram de extrema importância que as crianças conheçam e desfrutem de todos os espaços do NEIIA.
Para que as crianças de sua turma conheçam
outros espaços do Núcleo, uma professora as estimula
a irem sozinhas em outros espaços do NEIIA, porém
tendo a certeza de que terão segurança e um adulto
esperando no local. De acordo com esta professora,
as crianças desta turma conhecem todos os espaços da
instituição e, como já estão com a linguagem desenvolvida, recebem estímulo para frequentarem outros
espaços, de modo a desenvolver sua autonomia.
de diversas formas, pois é importante para as crianças
diversificados, e não apenas no espaço de sua sala.
É importante, porém, não somente frequentar e usar
outros espaços físicos, mas também empregar materiais existentes em outros espaços, de modo a buscar
de aula.
A fala desta professora aponta sua preocupação
em proporcionar às crianças vivências em diferentes
espaços:
Vejo crianças que não saem de sua sala, e penso
que estas não aproveitam os diferentes espaços.
No trabalho com a Educação Infantil sempre
temos que inovar no que se refere às atividades
e nas formas de desenvolvimento das mesmas,
além dos espaços em que são realizadas.
1
Os Ateliês Pedagógicos são atividades que ocorrem quinzenalmente no Núcleo e são realizados em diferentes espaços do mesmo.
Cada Ateliê é ministrado por um ou mais professores e tem como
participantes crianças de diferentes turmas, tendo, portanto, uma
heterogeneidade de idades, considerando que as crianças escolhem
para onde querem ir.
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
60
Os espaços não devem ser modificados somente quando a rotina exige, como a hora do lanche ou
janta que, na maioria das turmas do NEIIA, ocorre
no refeitório. A mudança nos espaços deve acontecer
também em outros momentos da tarde, para que o
tempo que as crianças passam na escola de Educação
Infantil não seja tão monótono, mas sim interessante,
sendo vivenciado em diferentes espaços ao longo da
tarde.
Por fim, uma das professoras relatou na entrevista que compreende o espaço em Educação Infantil
como também sendo o espaço de cada um, tanto dos
alunos quanto dos professores. Ela acredita que o
professor precisa saber conquistar o seu espaço, reconhecer que existe um outro e que este possui também
o seu espaço, o qual deve ser respeitado. Diante disso,
compreende-se que o educador, ao respeitar o espaço
de seu aluno, respeita sua autonomia, sua dignidade,
seus pensamentos, interesses, enfim, respeita o aluno
como ser humano.
Além disso, esta mesma professora apontou em
sua fala que o mesmo respeito que o professor tem por
seu aluno ele deve ter por ele mesmo. Em sua prática,
esta professora busca conquistar o seu espaço e reconhecer o espaço do outro por meio de muito diálogo
com as crianças, para que estas percebam que precisam
respeitar o espaço dos demais.
Acredita-se, portanto, que se o educador tiver
respeito por si mesmo, pelo espaço dos seus alunos,
construindo esta relação de respeito por meio de
diálogo, possivelmente os espaços de cada sujeito
(professor/aluno) serão respeitados. E isto é importante
não somente entre professores e alunos, mas também
entre todos os sujeitos envolvidos na instituição de
Educação Infantil.
Educação Infantil, independente das suas funções,
e todos precisam realizar um trabalho coletivo, buscando atender primordialmente as necessidades e
interesses das crianças. Sendo assim, o respeito aos
tempos e espaços das crianças, além de constar no
planejamento pedagógico dos professores, precisa
se concretizar não só na prática destes, mas também
na de todos os sujeitos envolvidos no trabalho com
a Educação Infantil.
Neste sentido, todos os profissionais, independente da função que realizam, necessitam ter
postura para manifestar o seu ponto de vista sobre
o que seja o melhor para as crianças e ter abertura
para o diálogo e humildade em ouvir o outro. Se
isto acontecer, as relações entre os sujeitos serão
mais agradáveis e certamente será instituído um
planejamento e trabalho pedagógicos que respeitem
o tempo e espaço das crianças, ou seja, voltado
para a criança.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Maria Carmen Silveira. A rotina nas pedagogias da educação infantil: dos binarismos à complexidade.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Currículo Sem
Fronteiras, v. 6, n. 1, 2006.
KRAMER, Sônia. Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a educação infantil. 10. ed. São Paulo:
Editora Ática, 1997.
LEITE, M. I. Linguagens e autoria: registro, cotidiano e
expressão. In: OSTETTO, L. E.; LEITE, M .I. (Org.). Arte,
infância e formação de professores: autoria e transgressão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um trabalho pedagógico na Educação Infantil
requer planejamento, organização e envolvimento de
todos os profissionais que atuam na instituição de
Campinas, SP: Papirus, 2004.
OSTETTO, Luciana Esmeralda (Org.). Planejamento na
Educação Infantil: mais que atividade, a criança em foco. In:
Encontros e encantamentos na Educação Infantil. Campinas,
SP: Papirus, 2000.
E S P A Ç O S D A E S C O L A • E D I T O R A U N I J U Í • A N O 2 1 • Nº 6 9 • J A N. / J U N. 2 0 1 1
Fly UP