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Saúde incentiva parto normal: mais segurança para a mãe e o bebê

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Saúde incentiva parto normal: mais segurança para a mãe e o bebê
Saúde incentiva parto normal: mais segurança para a mãe e o bebê
São nove meses de expectativa! Durante a gestação, a barriga cresce e a mãe se prepara
para o nascimento da criança. Nas consultas de pré-natal, ela obtém informações sobre
um parto seguro. Os benefícios do parto normal são inúmeros. A cesariana é indicada
apenas em casos de risco para a mãe e/ou bebê, mas é comum a cirurgia ser marcada
sem uma indicação precisa, o que aumenta os riscos de complicação e morte para
ambos.
O ministério da saúde, por meio de suas ações e publicações, baseadas em evidências
científicas, incentiva os profissionais de saúde a oferecerem suporte às mulheres que
escolhem dar à luz por meio do parto normal. Mesmo assim, o Brasil registra muito
mais cesarianas do que os 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde
(OMS).
Para falar sobre os benefícios do parto normal, nossa entrevistada é a Dra. Daphne
Rattner, médica epidemiologista pela Universidade da Carolina do Norte. Atualmente é
Professora Adjunta de Epidemiologia, no Departamento de Saúde Coletiva, Faculdade
de Ciências da Saúde, na Universidade de Brasília. É presidente da Rede pela
Humanização do Parto e Nascimento - ReHuNa e membro da diretoria da International
MotherBaby Childbirth Organization - IMBCO, além de organizadora de livros, entre
eles "Humanizando Nascimentos e Partos".
Entrevista:
E1: Professora Daphne, quais os benefícios do parto normal em relação ao parto
cesáreo?
E2: Em primeiro lugar a gente precisa que saber que o parto cesárea é muito bom
quando existe um risco de morte tanto pra mãe quanto para o bebê, ou pra ambos, nesse
caso ele é benéfico.
Agora, o parto cesárea é uma cirurgia e toda cirurgia implica em riscos, tem o risco da
anestesia, tem o risco do corte, de infecção, é mais frequente infecção após uma cirurgia
do que um parto normal, hemorragia é mais frequente após a cesária do que o parto
normal, então a cirurgia tem que ser muito bem indicada.
Com relação ao parto vaginal é importante vocês saberem que o parto vaginal em si
depende de como e onde ele é atendido, quando se respeita a mulher, quando se respeita
o processo natural, os processos fisiológicos, os tempos do trabalho de parto, o parto
vaginal é extremamente benéfico pra mulher, para o bebê, para os profissionais que
estão atendendo também se sentem mais fortalecidos e valorizados, então não é
qualquer parto vaginal, o parto vaginal na forma como ele vem sendo realizado em
muitos serviços, a nossa cultura ocidental acabou acrescentando muitas intervenções
que não são tão necessárias, na nossa cultura parece que tudo tem que ser rápido, tudo
tem que ser apressado e quando a gente tenta apressar o tempo de um parto normal a
gente acaba introduzindo algumas intervenções que atrapalham o processo e às vezes
acabam gerando uma “cascata de intervenções”, por causa de uma intervenção pra dar
uma piorada, aí tem que fazer outra, aí tem que fazer outra, ai no fim acaba indo pra
uma cesárea porque as pessoas não souberam esperar o tempo do parto normal. O parto
benéfico é esse que respeita a escolha do acompanhante da mulher, a escolha da posição
de parto, a necessidade dela de deambular, de caminhar, porque a gravidade ajuda o
bebê a vir pra baixo. Se ela ficar deitada, como é uma das intervenções que a gente faz,
em primeiro lugar a cama fecha a bacia e joga pra cima, então o espaço pra o bebê sair
já fica um pouco mais apertado. Segundo, a gravidade é uma força que ajuda o bebê a
nascer, ai você põe ela deitada o bebê tem que ir reto, é muito mais difícil de parir. Ela
estando na vertical ela pode escolher posições que alargam a bacia, então isso só por si
já permite um alívio, dói menos, na posição deitada parece que é mais incômodo pra
mulher. São pequenas coisas que a gente pode fazer e aí sim, o parto pode ser fantástico
ou pode ser uma sessão de torturas pra mulher e muitas delas tem se queixado de que a
forma que elas foram tratadas não foi adequada.
E1: Professora, de acordo com a recomendação da Organização Mundial da Saúde, as
cirurgias deveriam corresponder a, no máximo, 15% dos partos, porém, segundo
matéria publicada na Revista Planeta, 80% dos partos realizados nas maternidades
particulares e 27% dos realizados nas maternidades públicas do Brasil são cesáreas. Por
que o percentual de cesarianas é tão alto no Brasil e quais as consequências desse
aumento de partos cesáreos?
E2: Em primeiro lugar, 27% já está desatualizado. Já subiu, já está 35% ou mais no
SUS, nas maternidades públicas e isso tem muitas consequências. Para a mulher, além
de tudo o que a gente já comentou, a cesariana implica em maior infecção, maior
hemorragia, também um desconforto muito grande no pós-parto. A mulher, pra se
recuperar, leva uns 2 meses pra estar inteira, ao passo que no parto vaginal é rapidinho,
passou o cansaço, às vezes por conta do parto, ela sai até com um gás a mais, aquela
onda de endorfina. O parto cesárea tem isso, as consequências pra mulher inclusive
podem implicar na próxima gravidez, você tem uma cicatriz aqui e a gente hoje em dia
já sabe que se a placenta se implantar na gestação seguinte na cicatriz isso é um risco
pra mulher, pro bebê, tem que tirar o útero e depois ela não vai poder ter mais filhos.
Você tem uma série de problemas que a cesárea traz que impactam na vida da mulher e
na vida do bebê, o problema mais sério é que as cesárias estão sendo agendadas de
acordo com a conveniência, antes de um feriado prolongado, se o profissional vai
participar de um congresso, antes dele viajar e o que acaba acontecendo é que muitas
vezes esse bebê não está maduro e a gente chama isso de “prematuridade iatrogênica”.
Iatrogenia é o problema de saúde causado pelo tratamento, nós estamos interferindo e
provocando um começo de vida desagradável pra o bebê com esse excesso de cesárias.
Imagine um bebê que na hora que nasce, ao invés de ir pro colo da mãe ele vai pra
incubadora porque ele está prematuro, ele não está em condições de viver a vida aqui
fora. Esta nossa cultura de cesárias está implicando em um início de vida que não é o
mais favorável, lembrando também que quando o bebê está na barriga da mãe ele está
totalmente protegido em um ambiente estéril, ele saindo prematuro ele fica em um
hospital, os germes do hospital são aqueles que já desenvolveram resistência à
antibióticos, ele é sujeito de infecções e germes muito mais patogênicos do que os
normais que ele encontra na vida.
Por que isso aconteceu? É uma cultura nossa que copiou um determinado modelo que
eu acho que é a origem de tudo, que é o modelo americano, muitas intervenções no
parto, o parto por muito tempo foi domiciliar e nos anos 40 e 50 ele passou para os
hospitais e os hospitais são locais que permitem você organizar como se fosse uma
indústria, a mentalidade hospitalar de administração, a teoria de sistemas adotados era
input, throughput e output, como uma linha de produção, entra a matéria prima, passa
pelo processamento e sai o produto e essa visão industrial do hospital é tão marcante
que mesmo nos Estados Unidos que ainda hoje se fala em Health Service Industry, é
uma indústria e, com isso, você coloca como se as mulheres tivessem que parir em um
processo meio industrializado. Eu penso que a cesárea traduz essa visão industrial, é
possível marcar seis nascimentos em um período de 4 ou 6 horas. Chega a mulher, a
gente corta, tira o bebê, a gente costura, manda a próxima, corta, tira o bebê, costura,
manda a próxima... Então essa visão mecanizada da assistência em que o profissional se
comporta com um operário de uma linha de produção de nascimentos é o que originou
este movimento pela humanização do parto e nascimento, a resposta foi: “Precisamos
lembrar que cada ser humano é único, cada mulher tem a sua hora de entrar no trabalho
de parto e nascer”. Se existe uma coisa única pra cada pessoa é a hora do seu
nascimento, tanto que todo mundo gosta de comemorar aniversário. “Puxa, cheguei!!”
Essa possibilidade de humanizar é devolver ao binômio mãe e filho a oportunidade de
vivenciar toda a riqueza do processo de parturição e nascimento, o parto é da mulher o
nascimento é da criança, são duas coisas que acontecem intimamente vinculada. A
mulher pode ter vários partos, mas cada pessoa só tem um nascimento, é único.
A teoria do caos tem uma máxima que chama dependência hipersensível dos momentos
iniciais, dependendo de como são esses primeiros momentos do bebê do lado daqui de
fora isto o marca, porque ele não tinha impressão nenhuma de como era a vida aqui
fora, então se nós recebermos o bebê com violência interferindo em todo o processo não
deixando que o parto seja harmônico a marca que ele vai ter da vida aqui fora é de
violência e esta é a resposta que ele vai dar ao mundo. Hoje em dia nós temos o Michel
Odent que é um teórico do movimento pela humanização do parto e nascimento e que
comenta isso, as raízes da violência estão muito nessa maneira de como nós estamos
acolhendo essas crianças, ao invés de acolhermos com carinho, com amor, com
naturalidade deixando que o parto se processe no seu tempo, nós estamos colocando
soro pra apressar, deitando a mulher, colocando ela de jejum, ela grita e nós não a
atendemos, nós desrespeitamos. Será que é isso que deve ser? Eu acho que não...
E1: Baseado no fato de que as maternidades particulares praticam muito mais
cesarianas, o que, na sua opinião, a ANS deveria propor para diminuir a taxa de cesárias
nos planos de saúde?
E2: A ANS tem problemas muito sérios porque ela trabalha com as operadoras, as
operadoras são a AMIL , a UNIMED, Seguro Saúde Bradesco, os vários convênios
existentes e os convênios contratam os prestadores. Os prestadores são os hospitais,
médicos, laboratórios, serviço de imagem, etc. Um mesmo hospital pode ter várias
operadoras trabalhando e um profissional também pode ter várias operadoras, então a
forma como se estruturou essa medicina de mercado é muito difícil de você interferir
porque a operadora não consegue interferir no trabalho dos prestadores. Então um
hospital para reduzir a taxa de cesárias, eu lembro de um hospital privado de São Paulo
que disse que ele tinha 3000 obstetras vinculados, quer dizer, eles podem trazer o parto
pra dentro do hospital, se o hospital começar a criar regras mais estritas pra cesárea, o
médico vai para outro hospital, então a forma que está estruturado é muito difícil de
interferir.
Alguns convênios se interessaram em diminuir a taxa de cesárias, mas o que eles
conseguiram reduzir foi pra 60%, 65% dos 80%, 90% que é o geral da saúde
suplementar.
Eu acho assim, o que a ANS pode fazer, ela tem que reconhecer que ela é Ministério da
Saúde, as políticas devem ser dirigidas pra saúde pública e pra o sistema de saúde
suplementar e tem que ser as mesmas e tem que haver algum esquema coercitivo que
desencoraje os profissionais a fazer tanta cesárea.
Eu tenho conversado com médicos que trabalham nesse esquema e eles acham que
talvez a saída seja eles montarem equipes, ao invés de ter o vínculo do médico com a
paciente, a equipe de saúde com a paciente, aí se aquele médico estiver de plantão
naquele dia ele poderia atender. Da forma que está sendo hoje em dia, se a paciente que
fez o pré-natal com ele quer o parto ele não tem 12 horas, 10 horas pra ficar a
disposição dela. Então ele vai lá, faz a cesárea e continua com o horário de consultórios,
plantões e todas as outras atividades que ele tem.
É um mecanismo muito perverso essa organização do nosso sistema de saúde e a gente
vai ter que levar isso em conta. Infelizmente, as entidades médicas tem se envolvido
apenas parcialmente nisso, tanto a FEBRASGO (Federação Brasileira da Sociedade de
Ginecologia e Obstetrícia) como o Conselho Federal de Medicina, eu acho que eles
temem em mexer nesse vespeiro.
E1: Qual seria a diferença entre parto natural e parto normal?
E2: Eu acho que eu já comentei um pouco sobre isso, parto natural é aquele que respeita
o tempo da mulher, o tempo do bebê e permite que as coisas aconteçam o mais
harmonicamente possível, e com isso se consegue um resultado muito mais amoroso,
muito mais tranquilo. O parto normal, simplesmente, não quer dizer que ele seja tão
normal assim. E depois, só pra lembrar, nós temos a norma estatística, aquela questão
de que o que é mais frequente passa a ser normal então, no serviço privado, o normal já
é a cesárea.
E1: Hoje existem intervenções medicamentosas, anestésicas ou cortes na região perineal
para realizar o parto normal, essas técnicas são realmente necessárias? É possível e
adequado que as mulheres não sejam submetidas a essas intervenções para auxiliar no
trabalho de parto?
E2: A Organização Mundial de Saúde (OMS) em seu manual de atenção ao parto
normal, um guia prático, deixou bem claro que qualquer intervenção, pra ser realizada
no parto, tem que ser muito bem indicada e deve ser necessária. O que nós temos, na
maioria dos hospitais, são rotinas definidas que submetem todas as mulheres, como se
fosse mesmo uma linha de produção, a mulher chegou ela tem que estar em jejum,
tricotomia, clister, pega veia, deixa ela deitada no leito, faz isso, faz isso, faz aquilo e na
verdade todas essas intervenções hoje em dia são consideradas danosas, atrapalham o
processo natural do parto e que deveriam ser abandonadas e isso com base nas
evidências científicas.
Então isso que você comentou, quais são as intervenções que são necessárias?
Analgesia de parto pode ser indicada, mas depois que nós esgotamos os métodos não
farmacológicos de alívio da dor, e nós temos muitos recursos, então determinadas
mulheres, só de estar numa banheira, num chuveiro a água alivia a dor, então pra que
usar uma droga que vai interferir com o processo de parto e às vezes o bebê nasce até
“chumbadinho”.
Tem um trabalho muito bonito, um filme na internet que mostra quando um bebê sai de
uma mulher que não tomou droga nenhuma no parto ele é colocado na barriga e ele
sozinho vai rastejando e pega a mama da mulher, como um bichinho mesmo, aí quando
você usa derivados de ópio, ou alguma outra droga, coloca o bebê na barriga da mãe
depois do parto e ele está lá “chumbadão”, não sabe o que ele faz, o que ele quer, nós
estamos interferindo com uma coisa que é natural e está dada e que o bebê já sabe fazer,
o bebê já nasce com a habilidade de ir atrás da sua comida, como um gatinho, um
cachorrinho, um animalzinho, nós somos mamíferos e aí nós estamos interferindo com
isso. Às vezes é necessário? Sim, tem mulheres que não têm tolerância nenhuma à dor,
aquilo tira ela do centro. Nesse caso, a analgesia de parto pode contribuir para que ela
consiga vivenciar o parto normal, mas tendo tantos outros recursos, nós temos, por
exemplo, a bola. Ela fica rodando na bola, ela senta sobre a bola, aquela pressão sobre o
períneo dá uma aliviada. Ou massagem, tem algumas mulheres que adoram massagem,
acupressura, são tantos os recursos, então eu acho assim... A deambulação, na verdade a
dor do parto é pra incomodar a mulher pra ela caminhar, ela caminhando a dor
desaparece e a gravidade vai atuando. Eu tenho uma amiga que inclusive comenta
assim, quando ela estava em trabalho de parto ela tinha aprendido a dança do ventre,
dava a dor ela lá, dançando a dança do ventre e o pessoal falando “não, volta pra cama”,
ela voltava pra cama, doía de novo ela levantava e dança do ventre. E ela disse assim
que com a dança do ventre passava porque rebola vai encaixando a cabeça, a dor é pra
incomodar pra fazer a cabeça encaixar, aí encaixava e não tinha problema, ia descendo.
Eu acho que tem vários recursos aí, inclusive não precisa ser dança do ventre pode ser
samba, bem brasileiro, rebola bem ali, bota um sambinha e vai nascendo. A gente
precisa aproveitar esses recursos e sim há intervenções que são necessárias, mas elas
têm sido usadas muito mais do que o necessário. Você falou sobre o corte embaixo, o
corte embaixo no Brasil é feito mais de 60% dos partos vaginais e o que se recomenda,
é que seja talvez 10%, talvez menos do que isso, depende. Tem serviço que consegue ter
6% de episiotomia ,de corte embaixo. Pra que cortar se vai nascer sem isso também?
E1: E quando o parto normal não é indicado?
E2: Não é que o parto normal não é indicado, não é indicada a cesárea. Por exemplo, se
você tiver um bebê de cabeça muito grande pra uma pelve muito estreita da mãe, mães
adolescentes de 12, 14 anos, você percebe que o bebê não vai passar, a desproporção da
cabeça do bebê e a pelve da mulher é uma indicação de cesárea. Sofrimento fetal agudo
do bebê - tem que ser bem diagnosticado esse sofrimento, então se o bebê entra em
sofrimento aí é o caso de fazer uma cesariana rapidinho e tirar o bebê, pra salvar a vida
do bebê. Hemorragia, a mulher entra num processo hemorrágico, rapidamente se tira pra
ela não se esvair em sangue. Placenta Prévia, se na hora que o bebê for passar a placenta
estiver bem na saidinha do útero ele for comprimir a placenta, a placenta é nutrição pra
ele, é indicação. A gente tem um problema que às vezes a rompe bolsa e o cordão sai,
então isto é pra o profissional empurrar o cordão pra dentro e correr pra tirar o bebê,
porque se o bebê comprimir o cordão aí acaba a nutrição pra ele, então ele corre risco de
vida, então, algumas indicações muito precisas de quando que se intervêm. Agora, a
maior parte das cesarianas no nosso país não é indicada com base em evidências
científicas.
A gente teve um período muito grande aqui no nosso país que, como a laqueadura não
era permitida, se fez cesárea pra aproveitar e fazer a laqueadura e hoje em dia, qualquer
coisinha, conveniência principalmente, tem indicado cesáreas. Não há justificativa pra
taxas tão alta como as que nós temos no setor privado e mesmo no setor público.
E1: A mulher precisa de tecnologia para parir?
E2: A mulher já traz todo o equipamento, toda a tecnologia e toda a competência pra
parir. Os cursos de preparação pra o parto, na verdade, são pra reorientar a mulher
porque a nossa cultura conseguiu fazer com que a mulher deixasse de ter sintonia com o
próprio corpo e agora ela precisa reaprender o que ela, teoricamente, já tem a
competência. Mas tem muitas mulheres que conseguem parir sem curso nenhum, que
nessa hora a nossa característica mamífera toma conta da gente e a gente consegue
expressar toda a nossa competência, a habilidade de parir, se ninguém atrapalhar, muito
bem. O nosso problema são os que atrapalham.
E1: A senhora acha que há falta informação sobre o parto normal e os seus benefícios?
E2: Eu acho que há muita falta de informação nesse meio, acho que infelizmente, se
criaram várias culturas que favorecem a intervenção, o agendamento, a conveniência e
acho que é preciso reverter sim, é preciso a gente reconstruir a cultura da competência
da mulher. As mulheres são muito competentes pra muitas coisas, inclusive parir, acho
que elas são melhores que os homens.
E1: Dra. Daphne, a Lei 11.108, de abril de 2005, regulamentada pela Portaria n° 2.418,
do Ministério da Saúde, em dezembro do mesmo ano garante a presença do
acompanhante no parto e pós-parto nas maternidades do Sistema Único de Saúde
(SUS). Existe o cumprimento efetivo desse direito? Quais seriam os benefícios dessa
prática?
E2: Em um levantamento, com base em evidência científica, se percebeu que suporte
emocional por uma pessoa da relação da mulher é a melhor tecnologia pra o sucesso de
um parto vaginal, então ter ao seu lado uma pessoa que você conhece, que é das suas
relações e que você confia parece que te dá uma outra força pra enfrentar o trabalho de
parto. Reconhecendo isso a Presidente da República publicou a lei 11.108 que depois
foi regulamentada pelo Ministério da Saúde. Infelizmente, o levantamento feito num
inquérito Nascer no Brasil, de cerca de 24.000 partos, que é representativo de todo o
país, mostrou que apenas 25% das mulheres relatam ter tido um acompanhante da
escolha delas durante o trabalho de parto, sendo que muitos serviços não permitem nem
um acompanhante da escolha, tem pré-requisito de que seja mulher, então essa
tecnologia que se fosse uma máquina todos os hospitais gostariam de ter, um
acompanhante, parece que tem uma dificuldade muito grande e há uma resistência dos
serviços, a gente percebe que haja alguém mais do lado da mulher. De vez em quando a
gente diz que esse seria o controle social da mulher, pra ver tudo o que é feito com as
mulheres. Em 2010 saiu publicada uma pesquisa pela Fundação Perseu Abramo com
parceria com a USP (Universidade de São Paulo) e com o SESC (Serviço Social do
Comércio), em que se referia que 25% das mulheres relatam alguma forma de violência
na atenção ao parto, sendo 27% no SUS e 17% no setor privado. Acho que tendo um
acompanhante de escolha talvez não ocorressem tantas violências contra as mulheres.
E1: A mãe uma vez submetida ao parto cesáreo pode vir a ter um parto normal numa
próxima gestação?
E2: Por muitos anos se acreditou que uma vez cesárea sempre cesárea, mas essa foi uma
frase que foi cunhada quando a técnica cirúrgica era uma técnica que cortava o útero
longitudinalmente então as fibras musculares eram cortadas, então era muito difícil o
útero voltar a contrair. Desde os anos 60 você tem o corte transversal, bem entre o colo
do útero e o útero, e isso cicatriza muito bem e já tem trabalhos mostrando que mulheres
podem ter parto vaginal após duas, até três cesáreas. Uma vez me contaram caso de uma
mulher que teve quatro cesáreas e conseguiu ter um parto normal depois então,
efetivamente, essa máxima perdeu validade.
E1: Quais as técnicas de parto natural e quais as vantagens de cada uma? Existe a
possibilidade de escolha de alguma dessas técnicas por parte da mãe, nas maternidades
do SUS?
E2: Depende da maternidade do SUS, o Hospital Sofia Feldman, um hospital
filantrópico que só atende SUS, lá em Belo Horizonte, a mulher pode parir dentro da
água, pode parir na banqueta, pode parir na cama, pode parir de quatro, ela escolhe a
posição, ela faz o que ela sentir que o corpo dela está determinando. A maternidade
Nascer Cidadão, de Goiânia, começou com esse projeto também, aí teve uma mudança
da gestão municipal, tiraram o diretor, mudaram tudo, agora está voltando. Tem uma
maternidade em Natal que é do SUS, tem as casas de parto. Têm alguns locais onde há
possibilidade de escolha sim, agora a maior parte das maternidades, a maior parte dos
profissionais ainda desconhece do que seja parto humanizado, o respeito ao direito de
escolha, tratar a mulher como sujeito e não como objeto de atendimento. Nos anos 50,
foi moda adormecer a mulher e aí se fazia episiotomia e tirava o bebê com fórceps,
quando ela acordava o bebê já estava fora. Tem muitas mulheres que se ressentem até
hoje dessa forma de tratamento, elas não viram o bebê delas nascer, elas não
participaram ativamente. Eu acho que dentro desse processo passou-se a considerar as
mulheres como objeto, então este movimento pela humanização do parto e nascimento é
uma busca de resgatar as mulheres como sujeito dos seus processos, pessoas que podem
fazer escolhas acerca do corpo delas e que têm uma participação ativa no processo de
trazer seu filho no mundo. A gente espera que tenha cada vez mais gente interessada em
fazer isso acontecer e que as mulheres possam ser protagonistas desse pedaço da sua
história.
E1: Dra. Daphne, considerando a diversidade de culturas, distância e acesso à
assistência disponível em todo o território brasileiro, qual a importância da contribuição
das doulas e parteiras às parturientes atendidas pelo SUS?
E2: Sempre teve mulheres apoiando mulheres no parto. Você tinha as parteiras e na
época não se chamavam doulas, eram mulheres que acompanham mulheres. O nome
doulas é mais recente, é uma palavra grega que significa a serva ou mulher que está ao
lado. E temos um movimento que está se ampliando, de ter doulas e as mulheres se
sentem mais fortalecidas, é o suporte emocional. Muitas doulas, na sua capacitação,
conhecem algumas técnicas de posições que permitem abrir mais a bacia, alívio da dor,
massagem, uma série de coisas e principalmente a questão de suporte de uma mulher a
uma mulher ajuda a mulher a passar pelo seu processo de parto e aí a experiência de
parto é mais gratificante. O compromisso da doula, basicamente, é com a memória do
parto da mulher. Ela quer que a mulher tenha uma memória gratificante inclusive pra
que ela desejar ter outros filhos e em geral, sugere-se que sejam doulas, mulheres que
tiveram experiência positiva de parto, porque daí elas conseguem passar isso pra mulher
que elas estão cuidando.
E com respeito às parteiras, muitos países no mundo mantiveram a parteiras ou
obstetrizes, mulheres que atendem mulheres na hora do parto. Esses países são os que
têm as taxas mais baixas de cesáreas, as obstetrizes são mulheres treinadas pra
acompanhar fisiologia, o que é normal, o que é natural e elas sabem detectar direitinho
quando é que tem um problema, quando é que precisa chamar um médico, quando é
cesárea. E eu acho que é um modelo que talvez nós precisemos ressuscitar aqui no país,
ter mais mulheres obstetrizes ou enfermeiras obstetras pra atender as mulheres no
trabalho de parto e no parto, com a vantagem de que elas não sabem fazer cesáreas,
quem sabe a gente conseguisse reduzir essa vergonhosa taxa que a gente tem. Por outro
lado aqui a gente também tem as parteiras tradicionais e estas parteiras são bem
sintonizadas nas culturas de onde elas vêm. Você tem as parteiras tradicionais, as
ribeirinhas, as quilombolas, as indígenas, em cada comunidade dessas você tem uma
parteira. A parteira, em geral, é uma liderança na comunidade, ela é uma pessoa muito
respeitada e existe todo um trabalho pra resgatar esse conhecimento. O grupo Nômades,
em Recife, vem trabalhando no inventário, recolhendo a sabedoria do conhecimento
dessas mulheres e está propondo que isto seja considerado patrimônio imaterial da
humanidade, porque é um patrimônio da nossa cultura e que se nós não resgatarmos é
possível que a gente perca.
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