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Hospitalidade e mercado Ada de Freitas Maneti Dencker

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Hospitalidade e mercado Ada de Freitas Maneti Dencker
Hospitalidade e mercado 1
Ada de Freitas Maneti Dencker (UAM/SP)2
Resumo:
Reconhecendo que os problemas da exclusão e da quebra da solidariedade são fatores
limitantes da hospitalidade na sociedade moderna, indaga sobre a nossa responsabilidade
enquanto origem do problema e avalia as formas existentes de superação. Indaga até que
ponto é possível separar as relações de mercado das demais relações de troca na
hospitalidade, uma vez que relações de mercado coexistem com outras formas de relação de
troca, próprias da condição humana. O ser humano se constitui a partir das relações que
estabelece com outros seres humanos, e estas são todas as relações aí incluídas as relações
de mercado, que hoje parecem definir a própria identidade dos indivíduos. O
relacionamento profissional/comercial procura se revestir de um caráter de eficiência,
marcado pelas avaliações de custo e benefício. Existe espaço nestas relações para a inclusão
de elementos da dinâmica do dom?
Palavras-chave: Hospitalidade, Comunicação, Relações Sociais, Inclusão social.
O Enigma do Dom
Godelier3 em sua obra “O enigma do dom”, após realizar uma profunda análise dos
textos de Mauss e de Lévi Strauss, conclui que:
“Não pode haver uma sociedade sem dois domínios: o da troca, do dom ao potlatch, do
sacrifício à venda, à compra, ao mercado; e aquele em que os indivíduos e grupos
conservam preciosamente para eles mesmos, e depois transmitem a seus descendentes ou
àqueles que compartilham a mesma fé, coisas, relatos, nomes, formas de pensamento”.
(GODELIER,2001,p 303)
Assim todas as sociedades possuem coisas que se devem dar e outras que se devem
guardar, sendo que o que se guarda são “realidades” que arrastam os indivíduos e os grupos
e os remetem à sua origem.
Considerando o período que vai de 1989 até o presente Godelier argumenta que o
mundo foi obrigado a render-se à evidência de que só havia futuro na generalização para
todas as sociedades humanas do casamento da democracia com o capitalismo. Nesta
sociedade onde tudo se vende e tudo se troca, “ter dinheiro tornou-se a condição necessária
1
Trabalho submetido ao NP: Comunicação, Turismo e Hospitalidade
Doutora em Ciências da Comunicação. Professora do Mestrado em Hospitalidade da Universidade Anhembi
Morumbi.
3
GODELIER, M. O enigma do dom.
2
para existir física e socialmente” (p. 309). Paradoxalmente este mesmo dinheiro se
apresenta na sociedade “como se fosse mortal para os sentimentos, matasse a
afeição”.(p.314) (GODELIER:2001).
O dinheiro, porém não seria o responsável pelos
interesses conflitantes, mas apenas a aparência desses interesses que são recalcados para
manter a fachada de uma comunidade solidária.
Para Godelier, na sociedade atual temos o ressurgimento do apelo ao dom “sem
interesse”, de caráter caritativo o qual estaria em vias de institucionalizar-se, desta vez com
a missão de resolver os problemas de uma sociedade que vive e prospera ao preço de um
permanente déficit de solidariedade. Esta falta de solidariedade acontece porque vivemos
em uma sociedade que ao mesmo tempo libera, como nunca anteriormente, todas as forças
contidas no indivíduo, porém se serve dele, levando-o a se dessolidarizar dos outros. Com
isso o dom passa a ser idealizado na sociedade atual onde funciona no imaginário como
último refúgio da generosidade na partilha. O dom torna-se assim portador de utopia, “um
sonho” que Godelier afirma que havia em Mauss.
Para Godbout (1999) Mauss se mostrou tímido demais para tirar todas as
implicações derivadas do Essai sur lê don, primeiro no que diz respeito ao fato de que a
dádiva não diz respeito apenas às sociedades primitivas, mas se apresenta também na
sociedade contemporânea (embora de forma alterada), e segundo que a dádiva diz respeito
a um ciclo que se realiza em três momentos: dar, receber, retribuir, e não a um ato isolado.
Isso, segundo Godbout, mostra:
“Claramente onde peca o utilitarismo científico dominante: ele isola
abstratamente o momento do receber e coloca os indivíduos como movidos
pela única tentativa do recebimento, deixando assim incompreensíveis tanto
a dádiva quanto sua retribuição, tanto o momento da criação e do
empreendimento quanto o da obrigação e da dívida” (GODBOUT, 1999,
p.28)
As relações de mercado
As sociedades nas quais predominam as relações de mercado imaginam novas
solidariedades negociadas sob a forma de contrato. Nem tudo, entretanto é negociável no
que se refere ao estabelecimento de laços entre os indivíduos, principalmente àqueles que
compõem suas relações públicas e privadas, sociais e íntimas.
O ser humano é um ser social uma vez que os indivíduos precisam uns dos outros
para sobreviver. Esta necessidade do outro implica em uma abertura para o acolhimento,
para a convivência, para a troca. A sociedade se forma a partir dessas relações que se
estabelecem e que são responsáveis pelo tecido social. Quando os indivíduos se isolam um
dos outros a tendência é que o equilíbrio entre estas relações fique comprometido. Acontece
uma quebra de solidariedade, pois as relações de compromisso tornam-se menos fortes, as
regras sociais tornam-se menos claras, e isso se reflete nos indivíduos aumentando a
insegurança com relação ao futuro em função da imprevisibilidade que permeia tudo.Na
vida moderna isso contribui para aumentar a necessidade das pessoas de acolhimento, de
ser bem recebido, de estabelecer relações de hospitalidade, mesmo que isto ocorra de forma
aparentemente comercial, por meio do acolhimento em equipamentos especialmente
montados com esta finalidade e nos quais se espera que estas necessidades dos indivíduos
sejam atendidas. O atendimento de necessidades como acolhimento, reconhecimento, não
podem ser realizadas, porém de forma estritamente comercial, exigem um envolvimento
maior, além das relações de mercado e que dizem respeito aos vínculos sociais, entrando no
espaço da dádiva.
Segundo Caillé4 a definição sociológica da dádiva seria:
“Qualquer prestação de bens ou de serviços efetuada sem garantia de retorno, tendo em
vista a criação, manutenção ou regeneração do vínculo social. Na relação de dádiva, o
vínculo é mais importante que o bem”.
A hospitalidade se manifesta nas relações que envolvem as ações de convidar,
receber e retribuir visitas ou presentes entre os indivíduos que constituem uma sociedade,
assim como formas de visitar, receber e conviver com indivíduos que pertencem a outras
sociedades e culturas, podendo assim ser considerada a partir da dinâmica do dom.Todas as
sociedades possuem normas que regulam estas relações de troca entre as pessoas o que
demonstra que elas atendem a necessidades humanas básicas. A redução da interpretação
destas trocas ao sistema mercantil considerando o valor de uso e o valor de troca como
4
Alain Caillé. Dádiva e associação. In.MARTINS, Paulo Henrique. A dádiva entre os modernos. p. 192.
únicas formas possíveis de valor, elimina a dimensão que extrapola esta lógica, ou seja, o
valor de vínculo.
A predominância do paradigma de mercado na análise das relações de torça, na
sociedade atual, faz com que haja uma tendência em considerar que as trocas efetuadas são
decorrentes de escolhas racionais e que, as dividas contraídas nas relações de mercado, são
quitadas de imediato não restando obrigações a serem cumpridas por nenhuma das partes
envolvidas, o que não aconteceria na dinâmica do dom onde a divida não se extingue.
Nesta perspectiva, nas relações de hospitalidade comercial onde o receber deixa de
ser uma atribuição da esfera doméstica passando a ser realizado por equipamentos
gerenciados por empresas, sujeitas, portanto às normas que regulam o mercado; após a
troca, não existiriam relações de obrigação de uns em relação aos outros, sendo a divida
quitada pelo pagamento em dinheiro da hospedagem recebida.
A questão que fica é saber até que ponto se pode separar as relações de mercado
(relações de interesses imediatistas e voláteis) das demais relações de troca na
hospitalidade. As relações de mercado não existem isoladas, coexistem com outras formas
de relação de troca uma vez que faz parte da condição humana interagir com o outro, trocar
emoções, compartilhar sonhos, esperanças, tristezas, aflições, reconhecer e ser reconhecido
pelo outro. Temos assim as relações de mercado marcadas pela concorrência, competição,
associadas a outras relações de troca onde existe interesse genuíno, empatia, solidariedade.
O ser humano se constitui a partir das relações que estabelece com outros seres humanos, e
estas são todas as relações aí incluídas as relações de mercado, que hoje parecem definir a
própria identidade dos indivíduos.
O acirramento da concorrência e a necessidade de atuar de forma competitiva na
economia de mercado fazem com que se busquem posições racionais, objetivas na
administração deixando de lado interferências de sentimentos, relações de amizade,
apadrinhamento. O relacionamento profissional/comercial procura se revestir de um caráter
de eficiência, marcado pelas avaliações de custo e benefício. Existe espaço nestas relações
para a inclusão de elementos da dinâmica do dom? Até que ponto as relações pessoais,
afetivas, podem coexistir em harmonia com as relações de mercado?
“A dádiva conserva o vestígio dos relacionamentos anteriores, para além da
transação imediata. Ela tem memória ao contrário do mercado, que só
observa do passado o preço, a memória do vínculo entre as coisas, e não do
vínculo entre as pessoas”.GODBOUT, 1999, p.197.
A competitividade se baseia na idéia de que os confrontos, entre interesses
diferentes ou mesmo contrários, é que fazem com que as pessoas trabalhem e lutem para
melhorar sua situação social e econômica. Neste processo de confronto entre as diferenças é
que estaria a condição social para o desenvolvimento. Isso significaria a aceitação da
dinâmica de exclusão como parte integrante do processo de desenvolvimento, na medida
em que este é gerado pela luta entre as pessoas para que não sejam excluídas. É importante
destacar que não se trata apenas da competição entre mercados e sim entre pessoas as quais
diante deste processo tendem a se tornar isoladas e egoístas. Nesta disputa o sucesso e o
fracasso são considerados do ponto de vista individual quando na realidade são resultados
de dinâmicas sociais.
A convivência entre as pessoas no desempenho de suas atribuições gera laços e
vínculos sociais que são importantes para sustentar o tecido social. Hoje se fala muito em
capital social, referindo-se à capacidade da sociedade de gerar relações de solidariedade
entre os diversos grupos. Essas relações informais são freqüentemente mais eficientes que
as relações de mercado, podendo contribuir para uma melhor performance das empresas.
As modernas técnicas de administração procuram incentivar a criação de grupos ou equipes
que possuam solidariedade entre seus membros, mas cabe aqui indagar até que ponto estes
vínculos permanecem além das relações de mercado? Até que ponto a competitividade
baseada no desempenho individual compromete a criação de uma rede solidária de relações
entre os indivíduos no ambiente de trabalho?
Retomando a visão da dádiva de Caillé
“a dádiva não é, de modo algum, desinteressada; simplesmente, ela dá o privilégio aos
interesses de amizade (de aliança, sentimento de amor, solidariedade, etc) e de prazer e/ou
de criatividade sobre os interesses instrumentais e sobre a obrigação ou a compulsão. A
obstinação das religiões ou de numerosos filósofos em procurar uma dádiva plenamente
desinteressada não tem, portanto, objeto; aliás, ela baseia-se em uma confusão entre
gratuidade da relação e desinteresse. A dádiva não deve ser pensada sem o interesse
(instrumental) ou fora dele, mas contra ele; a dádiva é o movimento que, tendo como
objetivo a aliança ou a criação, subordina os interesses instrumentais aos interesses não
instrumentais. (CAILLÉ, In MARTINS, 2002, P.194)
Parece, diante disto, não ser possível qualificar uma relação entre duas pessoas
como “exclusivamente comercial”, nem ser correto desqualificar como hospitaleira toda e
qualquer relação entre duas pessoas em função do fato de que a mesma envolve algum
objetivo comercial. As trocas estão baseadas no reconhecimento dos indivíduos entre si
enquanto parceiros em uma relação, o que torna provável que se formem laços de
solidariedade em relações iniciadas com objetivo comercial, fazendo com que as relações
avancem e se mantenham após o término da troca comercial. Na realidade os fenômenos
econômicos não existem isolados e sim entrelaçados com fenômenos religiosos, jurídicos,
estéticos e morais. A existência em sociedade implica em uma rede de vínculos que
impedem que os indivíduos se isolem o que aparentemente acontece quando analisamos as
relações apenas do ponto de vista comercial.
Retomando Caillé:
“A dádiva é o meio pelo qual se estabelece o pacto associativo. Com efeito, este não poderá
surgir, nem da incondicionalidade da violência que prescreve de forma incondicional, nem
na incondicionalidade do amor que fala em nome do incondicionado, nem - contrariamente
ao que todas as teorias do contrato social pretendem nos impingir - em nome de uma
impossível condicionalidade (contratualidade) incondicional. O pacto associativo só poderá
formar-se no registro da incondicionalidade condicional, neste caso, cada um se
compromete dar incondicionalmente ao outro, mas mostra-se também preparado para
retirar-se do jogo, a qualquer instante, se os outros deixarem de jogar” (CAILLÉ, In
MARTINS, 2002, p.201-202)
Sem dúvida podemos perceber que as práticas vigentes nas relações de mercado
podem contribuir muitas vezes para deteriorar as relações sociais, com o estímulo à
competição individual e a desconsideração pelo social, que acontecem quando nos
concentramos no ato isolado do receber. Mas ainda assim não podemos desconsiderar que
na lógica das relações comerciais de troca existe a necessidade de reconhecimento do outro
enquanto parceiro para que seja possível concluir a troca/negócio, o que nos leva a
considerar que a troca não é um ato isolado e sim parte de um ciclo. Para que a troca
aconteça é preciso que exista alguma forma de identificação entre aqueles que dela
participam. Nas formas de circulação de bens e serviços existentes nas sociedades para que
não haja conflitos é preciso que todos respeitem regras previamente definidas. O não
respeito às regras levaria à retirada dos parceiros do jogo (incondicionalidade condicional),
o que indicaria que o ciclo da dádiva foi rompido.
Godelier indica ainda que a dádiva entre os modernos se transforma, mas não se
interrompe. Ao apontar o retorno ao Dom caritativo mostra que a sociedade possui a
capacidade de gerar respostas alternativas à ordem existente que atenuam ou se contrapõem
às dinâmicas de exclusão. As Organizações não Governamentais seriam uma resposta
institucionalizada a este problema. Em um mundo inóspito, estas (as ONGs) seriam uma
forma possível de hospitalidade, de acolhimento daqueles que se encontram excluídos.
Analisando esta mudança Caillé coloca que:
“Tradicionalmente, a solidariedade desenrolava-se no âmago da sociabilidade primária, no
registro do interconhecimento; além disso, era garantida pelos mecanismos próprios à
dádiva partilha ou sob uma forma ou outra de dádiva assimétrica (a caridade cristã ou as
liberalidades aristocráticas). Essas diferentes formas, até mesmo profundamente
modificadas, são ainda vivazes. No entanto, o caráter próprio da modernidade consiste em
ter procedido à substituição sistemática da solidariedade de homem a homem,
personalizada, por uma solidariedade impessoal, funcional, pública e estatística (relativa à
seguridade social). A forma predominante de solidariedade é garantida por um sistema
público de redistribuição (Polanyi) que implanta a dádiva mecânica e impessoal que poderia
ser qualificada como dádiva secundária (ou secundarizada). (CAILLÉ, In MARTINS, 2002,
p.201-203)
A dádiva se apóia em compromissos que vão além dos indivíduos e dizem respeito
aos grupos.Nessa perspectiva as questões de identidade e diferença também precisam ser
mais bem percebidas e trabalhadas. A tendência hoje em se considerar o mundo como um
lugar onde as diferentes alternativas de vida se equivalem, não se justificando a discussão
sobre valores ou julgamentos sobre estilos diferentes de vida, pode ter efeitos danosos. A
relativização da diferença parece não levar em conta que conviver com a diferença não
significa aceitar que tudo seja permitido. O fato de vivermos em uma sociedade mais fluida,
flexível, menos previsível, não quer dizer que em seu cotidiano as pessoas não estejam
orientadas por valores e regras que definem noções de certo e errado, de pecado e virtude,
de bem e de mal e que promovem a identificação entre aqueles que partilham as mesmas
regras.Essas regras e valores são a base do tecido social, e fazem parte do domínio das
coisas que não podem ser trocadas, são parte das coisas que devem ser guardadas,
preservadas, transmitidas aos descendentes ou àqueles que compartilham a mesma fé,
coisas, relatos, nomes, formas de pensamento. São formas grupais que sedimentam os
compromissos entre os grupos.
b)As novas comunidades
Hoje o compartilhar valores, princípios e ideais une os indivíduos em diferentes grupos por
afinidade de seus interesses; sem que seja preciso que estejam fisicamente próximos. As
novas tecnologias fazem com que se ampliem as perspectivas de formação de grupos de
interesse sobre os mais variados assuntos, verdadeiras comunidades que atingem raios
espaciais cada vez mais amplos, onde a tendência parece ser o estabelecimento de códigos e
normas de relacionamento que permitam a formação relações entre pessoas que partilham e
respeitam valores comuns. O entendimento e a troca também se processam no meio
informacional que permite uma maior autonomia individual e faculta a participação em
múltiplos
grupos
promovendo
afinidades
mediante
experiências
interativas,
uma
hospitalidade virtual, na qual um indivíduo pode pertencer a várias comunidades, e que cria
laços e vínculos sociais potencialmente capazes de gerar solidariedade.
As mudanças apontam para uma nova ordem na qual a tecnologia assume um papel
relevante. Lévy e Althier (2000)5 observam que:
Vivemos hoje uma destas épocas limítrofes em que a antiga ordem das representações e dos saberes
bascula para dar lugar à dos imaginários, dos modos de conhecimento e dos estilos de regulação
social ainda mal estabilizados. Assistimos a um desses raros momentos em que, a partir de uma nova
configuração técnica, ou seja, de uma nova relação com o cosmos, inventa-se um estilo de
humanidade. (p.109)
Refletindo sobre o significado desta nova ordem e os principais valores que se colocam na
base da sociedade atual os autores apontam:
Mas o que será, nessa nova ordem, dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade? Assim
como a democracia antiga supunha o pequeno camponês livre, pois sua subsistência
dependia então da terra, a democracia ou a república do futuro será fundada sobre a livre
apropriação de uma terra ainda invisível, a do saber, que está em vias de se tornar o
principal estrato produtivo. (p.110)
A questão maior que se coloca para estas comunidades virtuais é a inclusão dos saberes, o
reconhecimento de formas de conhecimento que se originam nas mais diversas práticas
sociais, legitimando-as. É preciso que esta terra do saber seja hospitaleira e acolhedora em
relação aos saberes de diversas origens, incluindo também os saberes que se colocam como
alternativas as formas dominantes de saber. Também neste domínio percebe-se a dinâmica
5
LEVY, Pierre, AUTHIER, Michel. As arvores do conhecimento. 2.ed. São Paulo:Escuta,2000.
da dádiva enquanto compromisso de grupo assim como processos de inclusão e exclusão e
necessidade de reconhecimento e respeito entre os participantes dos grupos. A quebra de
regras como no caso da disseminação de vírus na rede, por exemplo, faz com que esta
comunidade virtual se mobilize e crie soluções de proteção que são disponibilizadas para
todos numa reação solidária. O comportamento humano que envolve a dádiva, a troca, se
manifesta nas tecnologias que permitem a extensão da ação humana.
Finalizando
Os seres humanos imaginam e produzem a sociedade em que vivem sendo o espaço
configurado pelas trocas sociais. A situação de exclusão em que se encontram pessoas e
mesmo países no mundo atual, são um apelo a nossa generosidade, a prática do dom, e
indicam a necessidade de um paradigma que explique a ação humana além do interesse
econômico e de razões utilitárias.
É muito cedo para que possamos ter idéia de onde iremos chegar neste processo dialético
que envolve as relações de hospitalidade derivadas do dom e as relações de mercado nas
quais está presente o dinheiro que parece ameaçar a prática do dom, no contexto das
mudanças sociais que ora presenciamos. A sociedade civil tem um papel importante neste
processo, pois se constitui no conjunto de grupos organizados, formais e informais,
independentes tanto do Estado quanto do Mercado, que pode promover ou facilitar os
interesses da sociedade oferecendo oportunidade de participação àqueles que ainda não se
encontram incluídos. Trata-se de trabalhar a hospitalidade possível dentro de condições de
realidade existentes promovendo a inclusão gradativa de grupos e pessoas mediante o
reconhecimento e acolhimento de suas práticas sociais. Reconhecendo que, os problemas
da exclusão e da quebra da solidariedade são fatores limitantes da hospitalidade temos que
tomar tais limites como desafio indagando sobre a nossa responsabilidade enquanto origem
do problema e atuando de forma efetiva para sua superação.
Se hoje podemos observar que as relações de mercado prevalecem sobre as demais e que a
hospitalidade vem sendo mercantilizada, por que não podemos imaginar que no futuro o
inverso possa acontecer e que o mercado possa ser humanizado tornando-se mais
hospitaleiro, incorporando princípios de solidariedade?
A introdução de novos comportamentos voltados para a hospitalidade derivados da prática
do dom, nos processos de planejamento e gestão de serviços e equipamentos que integram a
hospitalidade comercial, pode vir a contribuir para o desenvolvimento de uma cultura
empresarial mais solidária que certamente causará impacto positivo na sociedade como um
todo. A solidariedade e generosidade não eliminam o poder, apenas o disciplinam, uma vez
que a dádiva é mais importante para aquele que dá, ainda que exista a necessidade por parte
daquele que a recebe.
Pode-se perceber uma tendência para a visão da hospitalidade em uma perspectiva dialética
da potencialidade transformadora de suas relações. Como forma privilegiada de encontro
interpessoal marcado pelo acolhimento a hospitalidade pode ser a bandeira de uma cruzada
contra a intolerância e o racismo, como quer Derrida, constituindo a base do que ele chama
de democracia total.
Referências bibliográficas
DENCKER, Ada e BUENO, Marielys.(Org) Hospitalidade: Cenários e oportunidades.
São Paulo: Thomsom, 2003.
GODBOUT, Jacques T. O Espírito da dádiva. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
1999.
GODELIER, Maurice. O enigma do dom. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LEVY, Pierre, AUTHIER, Michel. As arvores do conhecimento. 2.ed. São Paulo: Escuta,
2000.
MARCONDES FILHO, Ciro. A produção social da loucura. São Paulo: Paulus, 2003.
(Comunicação)
MARTINS, Paulo Henrique. A dádiva entre os modernos. Petrópolis: Vozes, 2002.
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