...

Imprimir artigo

by user

on
Category: Documents
3

views

Report

Comments

Transcript

Imprimir artigo
Perfil dos Concursos Públicos na Área de
Fisioterapia Geral
Profile of Public Tenders in the Area of
General Phy
Júlia de Cássia Oliveira1; Thereza Cristina Abdalla Veríssimo1; Giulliano Gardenghi2#
Centro de Estudos Avançados e Formação Integrada - Goiânia/GO;
Centro de Estudos Avançados e Formação Integrada - Goiânia/GO; Hospital Encore - Aparecida de Goiânia/GO;
Hospital e Maternidade São Cristóvão - São Paulo/SP; Hospital de Urgências de Goiânia - Goiania/GO
#
[email protected]
Recebido em 20/maio/2015
Aprovado em 21/junho/2015
Sistema de Avaliação: Double Blind Review
1
2
Resumo:
Introdução:
A
principal
forma
de
o
fisioterapeuta
ser
inserido
nos
serviços
públicos de saúde é por meio de concurso público. Objetivo: Analisar o perfil dos concursos na área de
fisioterapia
geral.
Material
e
métodos:
Realizada
uma
busca
de
provas
na
internet.
Foram
incluídas provas dos anos de 2010 a 2012 voltadas para o fisioterapeuta. Resultados: Os anos de
2010, 2011 e 2012 tiveram respectivamente 125, 123 e 167 provas. A região Nordeste registrou
maior número de concursos. A maioria dos concursos ofereceram vencimentos abaixo de 2 mil reais.
Verificou-se um número superior de concursos com 30 a 40 horas semanais de jornada. A média de questões por prova foi de 42,2 ± 8,9. Nas questões específicas, as áreas mais abordadas foram:
fisioterapia ortopédica, cardiopulmonar e neurológica. Conclusão: O vencimento básico do setor
público assemelhou-se ao do domínio privado, sendo inferior à média salarial brasileira. O conteúdo das provas de concurso foi variado, indicando que é preciso um conhecimento amplo e generalista.
Palavras-chave: fisioterapia; setor público; questões de exames
Abstract: Introduction: The main form for the physical therapist to enter public health service is
through public tender. Objective: To analyze the profile of
tenders in the area of
general
physiotherapy. Material and methods: We conducted a search for public tender tests on the internet.
We included tests from the years 2010 to 2012 for physical therapists. Results: The years 2010, 2011,
and 2012 had, respectively, 125, 123, and 167 tests. The Northeast region recorded the highest number of tenders. Most tenders offered salaries below two thousand reais. There was a higher number of
tenders with a working time of 30 to 40 hours a week. The average number of questions per test was 42.2
± 8.9. On specific issues, most areas addressed were: orthopedic, cardiopulmonary, and neurological
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 23 -33, Set. 2015
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
physiotherapy. Conclusion: The basic salary of the public sector was similar to that of the private
sector, being lower than the average Brazilian salary. The content of the tests was varied, indicating that it
demands a broad and general knowledge.
Keywords: physical therapy specialty; public sector; examination questions
Introdução
A Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro, criada em 1956, foi a primeira instituição no Brasil a
oferecer em caráter regular o curso de graduação em fisioterapia [1]. O Decreto-Lei n° 938/69
legitimou a fisioterapia como profissão e definiu as atividades privativas do fisioterapeuta: executar
métodos e técnicas fisioterapêuticas com a finalidade de restaurar, desenvolver e conservar a
capacidade física do paciente [1-3]. Em 1984, o Decreto nº 90.640 continuou a descrever as atividades da
profissão: supervisão, coordenação, programação e execução especializada referente a trabalhos relativos à
utilização de métodos e técnicas fisioterápicas, avaliação e reavaliação de todo processo terapêutico
utilizado em prol da reabilitação física e mental do paciente [4].
O Sistema Único de Saúde (SUS) foi criado através da Constituição Federal de 1988, com enfoque
em um sistema universal, gratuito, hierarquizado, descentralizado e integral [2, 5, 6]. O Programa Saúde
da Família (PSF), atualmente Estratégia Saúde da Família (ESF) [6], está inserido no SUS desde 1994
e é voltado para a atenção primária. Apesar de o fisioterapeuta não compor a equipe mínima, pode-se
inseri-lo, visto que a fisioterapia não está ligada somente à reabilitação, mas também à
promoção de saúde e à prevenção de doenças [5]. Para fortalecer a ESF, o Núcleo de Apoio à Saúde da
Família (NASF) foi criado em 2008 [7, 8]. O NASF é composto por profissionais de diferentes áreas do
conhecimento que atuam em parceria com a ESF, dentre eles o fisioterapeuta [8].
O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) reconheceu a saúde
coletiva como campo de atuação da fisioterapia em 2009 através da publicação da Resolução n° 363 [2]. Na
atenção básica à saúde, o fisioterapeuta pode participar de equipes multiprofissionais destinadas a
planejar, implementar, controlar e executar políticas, programas, cursos, pesquisas ou eventos em saúde
pública [9].
Uma das formas de o fisioterapeuta ser inserido no NASF e outros serviços de saúde pública é por
meio de concurso público. Desde 1967, com a promulgação de uma Constituição do Brasil, o concurso
público é obrigatório para o provimento dos cargos públicos, excetuando-se os cargos em comissão
[10]. Com o crescente número de oferta de cargos públicos [11], eleva-se também o interesse [12] e
a preparação do profissional para a aprovação em concursos. Logo, este estudo é relevante ao ter o
objetivo de investigar o perfil dos concursos públicos para fisioterapeutas no Brasil, realizando uma
análise que contempla as principais características dos concursos, como o conteúdo da prova e a
remuneração oferecida.
Material e Métodos
A presente pesquisa consistiu em estudo do tipo descritivo retrospectivo. Foi realizada uma
busca de provas de concursos nos sites www.pciconcursos.com.br/provas e www.questoesdeconcursos.
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
24
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
com.br/provas, ambos bastante acessados por pessoas que realizam concurso público no Brasil. As
palavras-chave utilizadas no primeiro foram: fisioterapeuta e fisioterapia. No segundo, foi utilizado o
filtro de resultados, sendo fisioterapia a área de formação. As questões das provas foram agrupadas de
acordo com o conteúdo que abordavam.
Foram incluídas provas disponíveis de anos recentes, contemplando o período de 2010 a 2012.
Outros critérios de inclusão foram provas de qualquer órgão e instituição, de nível superior, voltadas
para o graduado em fisioterapia. Os de exclusão foram provas disponíveis incompletas, indisponíveis ou
repetidas e provas de concursos que eram específicas para determinada área fisioterapêutica.
A remuneração do cargo e a quantidade de horas semanais de trabalho foram pesquisadas no edital
de cada site da instituição que fabricou a prova. Esses dados, se disponíveis, fizeram parte da discussão.
Foi utilizado o software Microsoft Excel 2007 para a análise dos dados.
Quanto aos aspectos éticos, o estudo não passou por um comitê de ética em pesquisa por não
ter havido o envolvimento de seres humanos. Apenas as provas e os editais foram analisados pelos
pesquisadores.
Resultados
Foi obtido um total de 415 provas. A maior parte (99,3%) delas foi pesquisada no site
www.pciconcursos.com.br/provas. O número de bancas organizadoras totalizou 157, sendo que as
cinco com o maior número de organizações foram: ADVISE, CONSULPLAN, FUNCAB, METTA e
ACAPLAM, com respectivamente 19, 17, 14, 14 e 10 provas confeccionadas. Somaram uma variedade
de 405 órgãos diferentes, sendo em sua maioria (86,8%) prefeituras.
Grande parcela dos cargos (93,7%) teve a denominação “fisioterapeuta”. No entanto, houve
variações, como “técnico em saúde” e “especialista em saúde”. Ainda em relação ao nome do cargo, 9
(2,2%) vieram acompanhados da sigla NASF.
Como é possível observar na Tabela I, o ano de 2012 alcançou o número de 167 provas (40,2%) em
todo o Brasil. Com 123 provas (29,6%), 2011 sofreu uma regressão em relação a 2010, quando foram
contabilizadas 125 (30,1%). A região Nordeste obteve o maior número de provas (174), seguida da
Sudeste com 106, que passou por um aumento nos anos de 2010 a 2012 de 76,0%. Já a região Centro
-Oeste tem mantido o baixo número de concursos públicos para fisioterapeuta, com somente 19 provas.
O concurso realizado pela Aeronáutica não adentrou na divisão de regiões por ser de caráter nacional.
Tabela I. Quantidade de concursos para o fisioterapeuta no Brasil e nas regiões do país –2010 a 2012
Região
Ano
Brasil
Norte
Nordeste
Centro-Oeste
Sudeste
Sul
Total
415
29
174
19
106
86
2010
125
11
64
6
25
18
2011
123
6
43
7
37
30
2012
167
12
67
6
44
38
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
25
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
O vencimento inicial encontrado somente em 405 dos 415 concursos, sem incluir as
gratificações, resultou em uma média de R$ 1.575,62 e desvio-padrão de R$ 780,77. Observando a Tabela II,
constata-se que a maioria dos concursos (249) ofereceu um vencimento entre R$ 1.000,00 e R$
2.000,00. Apenas 16 concursos públicos (3,9%) tiveram remuneração acima de R$ 3.000,00.
Tabela II. Quantidade de concursos para o fisioterapeuta segundo o vencimento básico – Brasil – 2010
a 2012
Vencimento Básico (R$)
Concursos
300 |–– 1.000
68
1.000 |–– 2.000
249
2.000 |–– 3.000
72
3.000 |–– 4.000
9
4.000 |–– 5.000
4
5.000 |–– 6.000
1
6.000 |–– 7.000
2
Identifica-se na Tabela III que a média do vencimento mais alta
região Centro-Oeste (R$ 2.074,94), seguida da Norte (R$ 1.986,34), Sul (R$
e Sudeste (R$ 1.611,12). A região Nordeste teve a menor média, de R$
O desvio-padrão da região Norte foi o mais elevado, enquanto que o da Sudeste foi
Tabela III. Média do vencimento dos concursos para o
a 2012
Região
está na
1.754,20)
1.340,61.
o menor.
fisioterapeuta nas regiões brasileiras – 2010
Média
Desvio-padrão
Norte
R$ 1.986,34
R$ 1.068,51
Nordeste
R$ 1.340,61
R$ 708,62
Centro-Oeste
R$ 2.074,94
R$ 978,66
Sudeste
R$ 1.611,12
R$ 577,24
Sul
R$ 1.754,20
R$ 833,05
Comparando as horas semanais de trabalho com a média do vencimento inicial (Tabela IV),
encontra-se um pequeno declínio no vencimento quando as horas passam de 15 a 20 para 20
a 30 horas. Enquanto as horas aumentam 100,0% de 20 para 40 horas, a média do vencimento
aumenta somente 45,0%. O desvio-padrão do período de 30 a 40 horas foi superior ao dos outros.
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
26
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
Tabela IV. Comparação entre jornada de trabalho e vencimento básico de concursos para o
fisioterapeuta – Brasil – 2010 a 2012
Horas semanais
Média
Desvio-padrão
Concursos
15 |–– 20 horas
R$ 1.247,19
R$ 257,10
4
20 |–– 30 horas
R$ 1.237,75
R$ 405,59
123
30 |–– 40 horas
R$ 1.678,11
R$ 874,16
155
40 |–– 45 horas
R$ 1.795,01
R$ 841,13
123
Assim como o vencimento, as horas semanais trabalhadas só estavam disponíveis em
405 editais. Ainda na Tabela IV, verifica-se um número superior de concursos com 30 a 40
horas de jornada, e somente quatro concursos tinham a carga horária inferior a 20 horas semanais.
O número de questões objetivas variou de 20 a 80, com moda de 40 e média de 42,2 ± 8,9
questões por prova. Somando-o, totalizam-se 17.509 questões. As questões de conhecimentos
básicos totalizaram 9.194 questões (52,5%). Português representou 4.263 (46,4%) dentre essas questões
(Tabela V). A média de questões por prova das principais disciplinas foi: português com 10,3 ± 4,1
questões, atualidades/generalidades com 3,9 ± 4,3 questões e SUS com 3,9 ± 5,0 questões por prova.
Tabela V. Número de questões sobre conhecimentos básicos do concurso para o fisioterapeuta –
Brasil – 2010 a 2012
Português
Matemática
Informática
4.263
551
466
Atualidades/
Generalidades
1.630
SUS
1.599
Outras
Legislações
685
As perguntas sobre os conhecimentos específicos do fisioterapeuta abrangeram 8.315
questões, ou seja, 20,0 ± 8,4 do total, variando de 0,0 a 100,0% da prova. A fisioterapia
ortopédica obteve a maior média, sendo 6,9 ± 4,3 questões por prova (Figura 1). Em relação ao
número de questões, 2.842 (34,2%) foram sobre fisioterapia ortopédica, 1.718 (20,7%) sobre
fisioterapia neurológica, 1.776 (21,4%) sobre fisioterapia cardiopulmonar e 1.979 questões
(23,8%) sobre outras áreas da fisioterapia. Nestas últimas, as principais abordadas foram a área de
recursos físicos (550 questões), de fisioterapia pediátrica e neonatal (258 questões) e de fisioterapia em
ginecologia e obstetrícia (210 questões). Outras incluídas em ordem decrescente foram: legislação
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
27
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
de fisioterapia (194), conhecimentos fisioterapêuticos acerca de geriatria (173), reumatologia (148),
amputação (108), massoterapia (98), hidroterapia (80), ergonomia (71), queimaduras (59) e oncologia (30).
Figura 1. Média de questões sobre conhecimentos específicos por prova do concurso para o
fisioterapeuta – Brasil – 2010 a 2012
Somente 13 concursos (3,1%) tiveram questão discursiva. O principal tema abordado, em 10 provas,
foi atualidades/generalidades. Outros temas versaram sobre políticas públicas, fisioterapia neurológica e
cardiopulmonar, em cada prova.
Discussão
Entre 1995 e 2007, a quantidade de atendimentos oferecida pelos estabelecimentos municipais
cresceu 278,7%, um aumento superior ao do crescimento na quantidade de atendimentos total
nesse período (57,9%) [7]. Isso corrobora com a maior presença (86,8%) de prefeituras nos órgãos dos
concursos públicos analisados e também reflete a descentralização progressiva que vem sendo
implantada pelo SUS [7]. Os municípios de pequeno e médio porte têm conseguido ampliar a cobertura
da ESF [13]. Todavia, a idealização diminutiva do fisioterapeuta como reabilitador, que trata as doenças
e suas sequelas, exclui os serviços de fisioterapia da rede básica [14].
A grande maioria dos usuários do SUS precisa do profissional fisioterapeuta na unidade básica
de saúde e ESF realizando atendimentos individuais e em grupos, trabalhando com educação para a
saúde e prevenção [3]. Como o fisioterapeuta é um dos profissionais que podem compor o NASF, essa
estratégia ajuda a quebrar o paradigma de ser uma profissão apenas reabilitadora [8]. No entanto, ter
apenas 2,2% de todos os concursos com denominação do cargo relacionada ao NASF demonstra que a
participação da fisioterapia nesse serviço ainda pode ser ampliada.
Analisando editais de concursos publicados em 2011 pelas secretarias estaduais e municipais de
saúde da região Nordeste, Carvalho & Aleluia [2] observaram que somente 53,1% dos editais possuíam
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
28
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
vagas destinadas aos fisioterapeutas. Na análise dos concursos no Nordeste, houve, em 2011, uma queda
em relação ao ano anterior de 64 para 43 concursos, subindo para 67 em 2012. Como este estudo não
contabilizou todos os editais existentes, apenas os que incluíam o fisioterapeuta, não é possível analisar
se muitos editais não ofereceram vagas ao fisioterapeuta somente em 2011 ou se isso persistiu em outros
anos. Contudo permite dizer que 2011 foi um ano de recessão de vagas relacionadas à fisioterapia na
região Nordeste.
Há uma distribuição desigual no acesso aos serviços de saúde no Brasil [7]. O Nordeste, Sudeste e Sul
do país apresentaram número de concursos superior em relação ao Norte e, principalmente, ao Centro
-Oeste. Essa desigualdade acaba refletindo sobre a quantidade de sessões de fisioterapia nas regiões. Um
exemplo disso é a quantidade de sessões em âmbito ambulatorial aprovadas em 2008 para pagamento
pelas secretarias de saúde, que foram 47,0% na Sudeste, 29,8% na Nordeste, 13,9% na Sul, 5,4% na
Norte e apenas 4,0% na Centro-Oeste [7].
No ano de 2005, verificou-se um crescimento absoluto de 394,0% na quantidade de fisioterapeutas
em apenas 10 anos [3]. Um fator causador foi o aumento da oferta de cursos de graduação, de 48 em
1991 para 475 cursos em 2007. O crescimento exponencial de egressos a cada ano pode comprometer a
autonomia profissional, gerar inserção marginal no mercado de trabalho [15] e insatisfação com relação
à remuneração [3]. Em uma entrevista com 17.110 fisioterapeutas em São Paulo (SP), 42,0% tinham
rendimentos abaixo de R$ 1.000,00 [3]. Em outro exemplo, um estudo com 167 fisioterapeutas de Santa
Maria (RS) demonstrou que 44,7% recebiam até 4 salários mínimos (R$ 1.400,00) [15, 16]. O vencimento inicial no setor público encontra-se nessa faixa, visto que a maior parcela (60,0%) está situada entre
R$ 1.000,00 e R$ 2.000,00.
A média salarial do brasileiro em 2013, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), foi equivalente a R$ 1.792,61 [17]. Os vencimentos disponíveis nos concursos avaliados não
ultrapassavam tal média em sua grande maioria. Uma ação por parte do COFFITO e dos Conselhos
Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (CREFITO), além dos sindicatos de classe, faz-se
necessária com base na necessidade de maior remuneração à categoria fisioterapeuta.
A Lei 8.856, de 1994, fixou a jornada de trabalho do fisioterapeuta em 30 horas semanais [18].
A prática é vivenciada com uma realidade diferente [19]. Mais da metade dos concursos públicos
tinha previsto no edital uma jornada semanal acima de 30 horas, evidenciando que é grande o
número de concursos a serem retificados pelo COFFITO. Na pesquisa de Silva, Bittencourt &
Mendonça et al [20] com 49 fisioterapeutas de clubes e seleções de futebol e voleibol, a carga horária foi
ainda mais elevada: 80,0% relataram trabalhar mais de 8 horas diárias. Essa distorção é supostamente
compensada pelos rendimentos extras, visto que 58,2% recebem dentro ou acima da faixa de R$ 3.214,22 [20].
Diferentemente, comparando os diversos concursos públicos, dobrar a jornada de trabalho não tem
significado um vencimento mais vantajoso proporcional às horas aumentadas.
Normalmente, questões sobre conhecimentos básicos estão presentes nas provas de concursos:
elas representaram 52,5% de todas as questões. É inquestionável a presença da língua portuguesa nas
provas, visto que foi o conteúdo básico mais cobrado. Outro conhecimento, sobre o SUS, foi o terceiro
mais presente, ficando atrás de atualidades/generalidades. Para alguns autores [3, 8, 13], a formação do
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
29
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
fisioterapeuta deveria ser mais próxima da saúde pública proposta pelo SUS. Os profissionais devem
estar bem preparados e informados sobre o SUS para desenvolverem atividades em programas de
assistência à comunidade [21].
No concurso público, o conteúdo específico de fisioterapia apresentou maior cobrança da área de
ortopedia. Isso se relaciona com a prática diária, em que a demanda de serviços dessa área é superior
[7, 15, 19, 22, 23]. As áreas de cardiopulmonar e neurologia também apresentam demanda alta [15],
justificando a presença elevada nas questões de concursos. Esses três conteúdos mais presentes nas
provas de concursos também foram os mais frequentes em temas de trabalhos de conclusão dos cursos
de graduação em fisioterapia [24]. Silva, Bueno & Sandoval [24], ao classificarem os trabalhos em 3
instituições de Goiânia (GO), de 1998 a 2006, de acordo com as diferentes áreas de atuação, constataram
que 25,5% foram sobre ortopedia, 20,4% sobre neurologia e 15,7% sobre cardiorrespiratória.
Dentre as outras áreas abordadas nos conhecimentos específicos, as quatro principais foram recursos
físicos, fisioterapia pediátrica e neonatal, ginecologia e obstetrícia, e legislação de fisioterapia. O Código
de Ética da Profissão, que tem sido fonte para questões, foi aprovado em 1978 e deixou mais visíveis os
avanços ocorridos na legislação com relação à atuação profissional [3].
Nem sempre as matrizes curriculares dos cursos de fisioterapia contemplam todas as diversas áreas
da fisioterapia. Ao analisarem as matrizes das principais faculdades públicas e privadas de Salvador (BA),
Carvalho & Aleluia [2] identificaram que a fisioterapia ortopédica, neurológica e em geriatria estavam
presentes em 100,0% das matrizes curriculares. Já as áreas de pneumologia e cardiologia estavam em
87,5%; as de ginecologia e obstetrícia, em 62,5%; as de pediatria e de saúde coletiva, em 75,0%; as de
reumatologia, em 87,5%; e as de ergonomia, somente em 50,0% [2]. Isto sugere que o profissional
disposto a prestar concursos públicos provavelmente tem de buscar materiais de estudo
complementares.
Conclusão
Os concursos públicos têm oferecido cargos ao fisioterapeuta em todo o Brasil, principalmente
nos municípios das regiões Nordeste e Sudeste. A jornada de trabalho mais encontrada foi superior a
30 horas semanais. O vencimento básico no setor público, em média R$ 1.575,62, assemelhou-se ao
encontrado em estudos que entrevistaram os fisioterapeutas de domínio privado e público.
Considerando todas as ocupações, esse vencimento não se mostrou superior à média salarial do Brasil.
Faltam pesquisas sobre a satisfação quanto à remuneração dos fisioterapeutas do setor público. É válido
que se realizem estudos acerca desse tema.
As provas dos concursos, em relação aos conhecimentos básicos, apresentaram normalmente
questões de português, atualidades/generalidades e sobre o SUS. As questões sobre os conhecimentos
específicos do fisioterapeuta representaram cerca de metade de todas as perguntas. Os conteúdos de
fisioterapia ortopédica, neurológica e cardiopulmonar se destacaram como os mais citados. Apesar
disso, muitos outros conteúdos foram abordados, indicando que o concurso público requisita do
fisioterapeuta um conhecimento amplo e generalista.
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
30
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
Referências
1. Calvalcante CCL, Rodrigues ARS, Dadalto TV, Silva EB. Evolução científica da fisioterapia em 40
anos de profissão. Fisioter Mov. 2011; 24(3): 513-522.
2. Carvalho MA, Aleluia IRS. Desafios da integralidade no campo da assistência fisioterapêutica no
sistema único de saúde. Rev Eletr Gestão & Saúde 2012; 3(2): 743-758.
3. Almeida ALJ. O lugar social do fisioterapeuta. Presidente Prudente. Tese [Doutorado em Geografia]
- Universidade Estadual Paulista; 2008.
4. Brasil. Decreto n.° 90.640, de 10 de dezembro de 1984. Inclui categoria funcional no Grupo-Outras
Atividades de Nível Superior a que se refere a Lei nº 5.645, de 10 de dezembro de 1970, e dá outras
providências. Diário Oficial da União 11 dez 1984; 238(1): 18409.
5. Augusto VG, Aquino CF, Machado NC, Cardoso VA, Ribeiro S. Promoção de saúde em unidades
básicas: análise das representações sociais dos usuários sobre a atuação da fisioterapia. Ciênc Saúde
Colet. 2011; 16(1): 957-963.
6. Linhares JH, Pinto PD, Albuquerque IMN, Freitas CASL. Análise das ações da fisioterapia do NASF
através do SINAI no município de Sobral-CE. Cadernos ESP. 2010; 4(2): 32-41.
7. Castro AP, Neves VR, Aciole GG. Diferenças regionais e custos dos procedimentos de fisioterapia no
sistema único de saúde do Brasil, 1995 a 2008. Rev Panam Salud Publica. 2011; 30(5): 469-476.
8. Barbosa EG, Ferreira DLS, Furbino SAR, Ribeiro EEN. Experiência da fisioterapia no núcleo de
apoio à saúde da família em Governador Valadares, MG. 2010; 23(2): 323-330.
9. Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Definição de Fisioterapia [internet]. [s. d.]
[acesso em 18 mar 2013]. Disponível em: http://www.coffito.org.br/conteudo/con_view.asp?secao=27
10. Andrade TWC. Tomada de decisão: utilização do método de análise hierárquica para a escolha de
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
31
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
um curso preparatório para concursos públicos. Brasília. Monografia [Bacharelado em Administração]
- Universidade de Brasília; 2011.
11. Nogueira RP. Problemas de gestão e regulação do trabalho no SUS. Serv Soc Soc. 2006; 87: 147-182.
12. Medeiros JLA. Perfil do discente em fisioterapia da Universidade Estadual da Paraíba. Campina
Grande. Monografia [Graduação em Fisioterapia] - Universidade Estadual da Paraíba; 2011.
13. Delai KD, Wisniewisk MSW. Inserção do fisioterapeuta no programa saúde da família. Ciênc Saúde
Colet. 2011; 16(1): 1515-1523.
14. Naves CR, Brick VS. Análise quantitativa e qualitativa do nível de conhecimento dos alunos do
curso de fisioterapia sobre a atuação do fisioterapeuta em saúde pública. Ciênc Saúde Colet. 2011; 16(1):
1525-1534.
15. Badaró AFV. Ética e bioética na práxis da fisioterapia: desvelando comportamentos. Brasília. Tese
[Doutorado em Ciências da Saúde] - Universidade de Brasília; 2008.
16. Brasil. Lei n. 11.321, de 7 de julho de 2006. Dispõe sobre o salário mínimo a partir de 1o de abril de
2006. Diário Oficial da União 10 jul 2006; 1: 1.
17. Gardenghi G. Esforços médios, resultados médios. RESC. 2013; 3(2): 5-6.
18. Barros FBM. A formação do fisioterapeuta na UFRJ e a profissionalização da fisioterapia. Rio de
Janeiro. Dissertação [Mestrado] - Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2002.
19. Trelha CS, Gutierrez PR, Cunha ACV. Perfil demográfico dos fisioterapeutas da cidade de Londrina/
PR. Salusvita 2003; 22(2): 247-256.
20. Silva AA, Bittencourt NFN, Mendonça LM, Tirado MG, Sampaio RF, Fonseca ST. Análise do
perfil, funções e habilidades do fisioterapeuta com atuação na área esportiva nas modalidades de futebol
e voleibol no Brasil. Rev Bras Fisioter 2011; 15(3): 219-226.
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
32
Perfil dos Concursos Públicos na Área de Fisioterapia Geral
21. Silva DJ, Da Ros MA. Inserção de profissionais de fisioterapia na equipe de saúde da família e
sistema único de saúde: desafios na formação. Ciênc Saúde Colet 2007; 12(6): 1673-1681.
22. Bispo JP Jr. Fisioterapia e saúde coletiva: desafios e novas responsabilidades profissionais.
Ciênc Saúde Colet 2010; 15(1): 1627-1636.
23. Machado GLR, Fayer VA. Análise do perfil do serviço de fisioterapia do setor secundário do SUS
de Juiz de Fora/MG. Juiz de Fora. Monografia [Graduação em Fisioterapia] - Universidade Federal de
Juiz de Fora; 2008.
24. Silva LF, Bueno LP, Sandoval RA. Regulamentação dos trabalhos de conclusão de graduação em
fisioterapia e divisão nas áreas de atuação. Trances. 2010; 2(4): 323-343.
Revista Brasileira de Saúde Funcional, Cachoeira- BA, v. 2, n. 2, p. 24 - 33, Set. 2015
33
Fly UP