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Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses

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Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses
Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses conceitos
Doença versus saúde: como os idosos se percebem
diante desses conceitos
Sandra Carolina Farias de Oliveira*; Maria Isabel Patrício de Carvalho Pedrosa**;
Maria de Fátima Souza Santos***
Resumo
Introdução
Este artigo tem como objetivo verificar se os
idosos se percebem como doentes e se essa
condição afeta sua rotina diária. Para tanto,
foi realizada uma pesquisa com cem idosos de 60 a 97 anos numa cidade do Sertão
Pernambucano, com estado mental preservado, ou seja, todos com estado de lucidez.
Em seus domicílios, os idosos responderam
a entrevistas guiadas por um roteiro semiestruturado com questões sobre seu cotidiano
e contextualização de vida. Numa segunda
parte, foram-lhes apresentadas palavras ou
frases que deveriam ser por eles associadas
às diversas faixas etárias – criança, jovem,
adulto e idoso. Os resultados apontam para
uma ideia compartilhada pelos idosos de
que estão numa faixa etária em que mais
adoecem e reconhecem alguma morbidade que modifica e influencia na sua rotina
diária. Isso lhes causa tristeza, principalmente pelo sentimento de inutilidade acarretado pelas enfermidades. Esses resultados
podem subsidiar ações que beneficiem os
idosos, propiciando-lhes uma maior integração social.
De acordo com Camarano (2002), os
estudos sobre o envelhecimento humano
são relativamente recentes. No meio
acadêmico brasileiro tiveram início na
década de 1960 e o seu aumento acompanha, de certo modo, o envelhecimento
populacional, que vem se alastrando
em escala mundial, atingindo diversos
países, entre os quais o Brasil. Tal fato
parece ter despertado o interesse por
essa fase do desenvolvimento, o que pode
ser verificado em instâncias diversas,
seja pela crescente produção científica
sobre essa população, seja pelo destaque
que assuntos relativos aos idosos têm
conseguido na mídia, pelas estratégias
de marketing especialmente voltadas
para esse segmento populacional, seja,
ainda, pela preocupação em desenvolver
uma política nacional para as pessoas
idosas. (BRASIL, 1996).
Diferentes autores (VERAS, 1994,
2003; NERI, 1991; KALACHE, 2007)
Palavras-chave: Saúde. Doença. Idoso. Rural.
*
**
***
Psicóloga. Mestra em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Endereço para correspondência: Sandra Carolina Farias de Oliveira, Rua Santa Cruz do Capibaribe, 93, CEP 50870-620, Bairro Areias,
Recife - PE. E-mail: [email protected]
Psicóloga e Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo. Professora Associada do Departamento
de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisadora bolsista do CNPq.
Psicóloga e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Professora Associada do
Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco. Pesquisadora bolsista do CNPq.
Recebido em junho de 2008 – Avaliado em março de 2009.
doi:10.5335/rbceh.2009.017
RBCEH, Passo Fundo, v. 6, n. 2, p. 181-188, maio/ago. 2009
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Sandra Carolina Farias de Oliveira, Maria Isabel Pedrosa, Maria de Fátima Souza Santos
retratam essa nova realidade: o Brasil
é hoje um país que vem envelhecendo
rapidamente. (KALACHE; VERAS;
RAMOS, 1987).
O envelhecimento humano é, antes
de tudo, um processo biológico, logo,
natural e universal. O homem, como
os outros animais, segue um contínuo
processo de desenvolvimento, que o leva
necessariamente à velhice e à morte. No
entanto, diferencia-se dos outros animais
por uma série de características, entre as
quais se pode destacar o fato de que ele
é, ao mesmo tempo, produtor e produto
de uma sociedade, de uma cultura, e tem
a consciência de si enquanto ser finito,
isto é, tem consciência de seu processo
de envelhecimento e de sua própria
morte. Entretanto, a velhice é também
uma convenção sociocultural. A idade em
que alguém é reconhecido e se reconhece
como velho e os sentidos atribuídos à
velhice variam ao longo do tempo e nas
diferentes culturas.
No que se refere à “idade da velhice”, a Organização das Nações Unidas
define os idosos nos países desenvolvidos a partir de 65 anos e, nos países em
desenvolvimento, a partir dos sessenta
anos. No Brasil a lei no 10.741, de 1o de
outubro de 2003, define essa parcela
da população como “pessoas com idade
igual ou superior a 60 (sessenta) anos”.
Porém, muitas sociedades caracterizamna segundo outras referências, por exemplo, como a capacidade de produção e a
aparência física.
Mesmo no Brasil, a velhice na zona
urbana é, em geral, considerada como
ausência de saúde, ao passo que na zona
rural o sujeito se considera velho a partir
do momento em que não consegue mais
trabalhar. (SANTOS; BELO, 2000).
Albuquerque (2005), em sua tese
de doutorado, chama a atenção de que
uma definição do que é ser velho deve
considerar a heterogeneidade desse
grupo social, a relação entre os aspectos
biológicos e culturais e a finalidade do
conceito social de idoso.
Diversos estudos demonstram que
a velhice é, em geral, associada a inutilidade e ausência de saúde. (SANTOS;
BELO, 2000; ALMEIDA; SANTOS,
2002). Ser velho é quase sinônimo de
ser doente.
O conceito de saúde, assim como
o de velhice, é polêmico entre os estudiosos das diversas áreas. O que parece quase unanimidade na população
em geral é a associação entre saúde e
doença, a qual existe desde os egípcios.
(CANGUILHEM, 1995). Na definição de
saúde e doença, outra ideia subjacente
e controversa é a separação entre corpo
e mente.
Atualmente, o conceito de saúde predominante é o proposto pela Organização
Mundial de Saúde, que data de 1987.
Para a OMS a saúde é um estado de
perfeito bem-estar físico, mental e social,
não apenas ausência de doença.
O conceito apresentado é considerado utópico já que as pessoas, concretamente, nunca irão atingir um total bemestar em todos os aspectos de sua vida.
Ao tomar o bem-estar como parâmetro,
deve-se, portanto, levar em contar a percepção de cada um sobre o seu próprio
bem-estar. A subjetividade de cada um
será uma importante variável nessa definição. Critica-se, ainda, o fato de definir
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RBCEH, Passo Fundo, v. 6, n. 2, p. 181-188, maio/ago. 2009
Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses conceitos
separadamente bem-estar físico, mental
e social, uma vez que tal definição traz
em seu bojo a separação entre as diversas instância da vida do ser humano.
Espera-se de um conceito atulizado a
integração, não a dissociação desses aspectos. (SEGRE; FERRAZ, 1997).
Como forma de minimizar esses
questionamentos, alguns autores falam
de qualidade de vida. Ter saúde é ter
uma vida considerada pelo próprio sujeito como uma vida com qualidade; porém,
mais uma vez a variável subjetividade
limita essa definição.
O assunto é ainda mais complexo
quando se fala da saúde na terceira
idade. Em sua maioria, os idosos apresentam alguma disfunção crônica; por
isso, são considerados doentes de acordo
com o conceito da OMS. Porém, podemos perceber que muitos deles lidam
bem com suas disfunções, mantendoas sob controle, razão por que não se
consideram doentes. Sobre isso Ramos
(2002) refere-se ao novo paradigma em
saúde, que é o conceito de “capacidade
funcional”. Este conceito se relaciona
com a capacidade do indivíduo de gerir e
realizar suas atividades com autonomia.
Assim, “o bem-estar na velhice, ou saúde
num sentido amplo, seria o resultado
do equilíbrio entre as várias dimensões
da capacidade funcional do idoso, sem
necessariamente significar ausência
de problemas em todas as dimensões”.
(RAMOS, 2002).
RBCEH, Passo Fundo, v. 6, n. 2, p. 181-188, maio/ago. 2009
Método
Caracterização da cidade escolhida para
a pesquisa
Figura 1 - Mapa de Pernambuco indicando a
cidade onde foi realizada a pesquisa.
A cidade escolhida para a realização
da pesquisa, Carnaíba (as informações
foram adquiridas no site oficial da cidade: www.carnaiba.pe.gov.br), localiza-se
na mesorregião do Sertão de Pernambuco e na microrregião do Sertão do Alto
Pajeú, distante 420 km da capital Recife.
Tem como principais características o
clima tropical semiárido, com temperaturas acima de 27 oC, a caatinga como
vegetação predominante, a economia
baseada na agricultura e comércio e uma
população bastante religiosa. Carnaíba
sobrevive ao intenso calor e seca.
De acordo com dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística,
em 2000 Carnaíba contava com 17.696
habitantes, dos quais 6.560 viviam na
zona urbana e 11.136, na zona rural.
Quanto à população idosa, os dados da
Secretaria do Idoso do Estado de Pernambuco registram um total de 1.715
indivíduos que apresentam idade superior a sessenta anos. Portanto, pode-se
verificar que aproximadamente 10% da
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Sandra Carolina Farias de Oliveira, Maria Isabel Pedrosa, Maria de Fátima Souza Santos
população encontram-se na faixa etária
considerada como velhice. Justifica-se e
reforça-se a importância de se ter realizado a pesquisa nessa cidade por se
tratar de uma cidade envelhecida.
Participantes
Foram selecionados cem indivíduos
com idade igual ou superior aos sessenta
anos cadastrados nas unidades de PSFs
da cidade de Carnaíba. Ao todo foram 77
mulheres e 23 homens, com idades que
variaram entre 60 e 97 anos. É importante salientar que todos os indivíduos
tinham discernimento para escolher se
desejavam ou não participar da pesquisa, considerando os aspectos mostrados
a eles no “termo de consentimento livre
e esclarecido”; apresentavam as funções
cognitivas conservadas (não demonstravam possuir nenhum quadro demencial,
ou patologia que comprometesse sua lucidez) e tinham suas habilidades físicas
preservadas, ou seja, não apresentavam
nenhuma enfermidade que atrapalhasse
seu desempenho na realização das atividades que estavam sendo propostas (surdez, afasias ou ausência de linguagem
oral). A coleta foi realizada no domicílio
dos idosos.
Materiais
Para a coleta dos dados foi utilizado
um roteiro de entrevista semiestruturado. Utilizou-se ainda um “mp3 Player”
para registrar a entrevista, assim como
lápis e papel para alguma anotação relevante. O roteiro de entrevista compunhase de dois conjuntos de questões: uma
caracterização do contexto de vida, com
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perguntas direcionadas ao modo como
as pessoas estão vivendo, e uma segunda parte com associações, nas quais os
idosos deveriam associar as frases/palavras apresentadas às diferentes faixas
etárias: criança, jovem, adulto ou idoso.
Desse modo foi possível analisar se os
idosos estão associando sua condição de
vida atual ao ser doente e triste.
Procedimentos
Em primeiro lugar, é importante
salientar que este projeto de pesquisa
seguiu as normas estabelecidas pela
Comissão Nacional de Saúde na resolução de nº 196, de 10 de outubro de 1996,
com registro de no 077/07, sendo liberado para a coleta no dia 26 de junho de
2007. Após, iniciou-se um contato com
a Prefeitura da cidade com o intuito de
verificar qual seria a melhor forma de
encontrar esses participantes. A solução
encontrada foi realizar a pesquisa junto
às equipes de PSFs. A vantagem de se
realizar a pesquisa junto aos PSFs foi a
utilização da listagem de sujeitos idosos,
agilizando a localização dos participantes (da zona rural e urbana), além de que
um idoso abordado em sua casa muitas
vezes já indicava um colega ou parente,
até se completar o número proposto
pela pesquisa. Coletados os dados, as
entrevistas foram analisadas e quantificadas pela pesquisadora, obtendo-se
um olhar quantitativo e qualitativo dos
resultados.
Resultados e discussão
É importante informar que dos cem
idosos entrevistados todos tomavam
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Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses conceitos
medicação em decorrência de alguma
complicação de saúde. Contudo, é interessante notar que nem por isso eles se
consideravam doentes.
Faço (tratamento de saúde), mas tomo remédio e tá tudo controlado [...] remédio eu
só tomo de 2, 3 pra colesterol, coração e pra
fazer cocô.
Nós não tem doença, a única doença que
tenho é a coluna.
Não tenho nada, só um problema nos ossos.
Vale a pena ressaltar que, por mais
que se tente dissociar a ideia de corpo e
mente, os indivíduos não fazem essa dissociação. Principalmente quando se trata
do idoso, eles tendem a referir muito a
relação existente entre soma e psique,
ou seja, a psicossomática, visto que os
“aperreios” que têm afetam diretamente
a pressão arterial, o coração, a tontura.
Ah, minha filha, eu tenho um problema nas
pernas que ando apulso, tenho problema de
coluna, tenho pressão alta... Qualquer aperreio já fica doente. Eu não tendo aperreio,
tudo corre bem.
Quando minha mulher morreu, minha pressão
subiu, alterou um pouco.
Faço, eu assim, por causa de muita preocupação, eu apresentei labirinto. Aí eu tomo
remédio uma semana, duas, aí paro. Passo
um monte de tempo sem preocupação, dormindo bem.
Não faço nada, mas quando minha irmã morreu agora ela ficou bem alta (pressão), faz
quatro meses que ela morreu.
No que diz respeito à questão de
quem fica mais doente e triste, os escores obtidos foram: 67 dos entrevistados
relataram que os idosos são os que mais
adoecem e ficam tristes. A resposta “to-
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dos” foi citada 13 vezes; “adulto”, 8 vezes;
“criança”, 9; “jovem”, 3. Esses resultados
remetem à sua história de vida atual, já
que grande parte das doenças que acometem os idosos são crônicas e prejudicam
o andamento de sua rotina diária. Sendo
característica da população o trabalho
baseado na agricultura, eles só deixam
de trabalhar quando alguma doença os
impede. Por essa razão, a doença é razão
da tristeza deles, por não terem atividade, sentindo-se inúteis, principalmente
no que se refere ao gênero masculino.
Por se tratar de uma cultura machista,
os homens não realizam atividades domésticas, como lavar louça, roupa, varrer
a casa. Por sua vez, as mulheres, além
de trabalhar na lavoura, realizam tais
atividades; por isso, sempre têm afazeres
e se mantêm ocupadas.
As mesmas de antes, faço tudo: comida, lavo
roupa, engomo, cuido dessa menina porque a
mãe dela trabalha, faço tudo como se tivesse
quinze anos. (Feminino)
A luta da casa mesmo. (Feminino)
Hoje não faço mais nada, trabalhar velho desse jeito, com 81 anos. Aí não trabalho, vivo
assim da minha aposentadoria. (Masculino)
Comer e dormir, não faço mais nada, sou doente da coluna, da cabeça. (Masculino)
O sentimento de tristeza relatado
durante as entrevistas quando os idosos se referiam à doença apresentada é
bastante subjetivo e abre um leque de
muitas interpretações sobre as possíveis
causas. O que se pode dizer é que a doença que tira o indivíduo das atividades
relacionadas ao trabalho – agricultura –
deixa-o com um grande vazio, representado em suas falas pela ideia de inutilidade como se veem.
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Sandra Carolina Farias de Oliveira, Maria Isabel Pedrosa, Maria de Fátima Souza Santos
Me criei na roça, faz oito anos que saí porque
não pude mais trabalhar por causa da coluna
[...]. Não to fazendo nada, só comendo, nem
dormindo não to direito porque fico preocupada com a casa.
Eu trabalho em casa, ajeitando a casa por aí
[...]. Não é fácil não, porque estou com um
problema no braço e faço tratamento duas
vezes por semana [...]. Além desse do braço,
tenho um problema na próstata, que já fui
operado faz três anos e faço exame quase
todo ano, sou muito doente.
Eu só faço comer e dormir. A irmã cuida na
casa e faz almoço, ela é dez anos mais nova
do que eu. Vem uma sobrinha e arruma a
casa também [...]. Não, eu tinha muito a pressão alta, mas tomo remédio. E eu comia muito
doce, aí o médico falou: “Você tem que parar
de comer doce.” Eu abusei de doce.
Algumas considerações
Este estudo teve como principal objetivo desvendar como os idosos se veem
diante do conceito de saúde/doença e se
isso afeta a forma como realizam suas
atividades diárias. Pelas falas expostas
percebe-se que o idoso não está satisfeito
com a vida que tem hoje, revelando uma
qualidade de vida prejudicada. Tanto no
conceito da OMS quanto no conceito de
gerontólogos, verificou-se a importância
de um estudo em que se aprofundem as
reais necessidades dessa parcela da população para que se sinta saudável.
Como afirmado anteriormente, a
doen ça é uma constante na vida dos
idosos e limita bastante suas atividades,
o que os deixa tristes. Contudo, pode-se
dizer que a pesquisa realizada conseguiu
atender aos seus objetivos ao oferecer dados para a compreensão de como o idoso
de uma cidade do Sertão Pernambucano
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entende sua própria saúde/doença. Vale
ressaltar a contradição em seus discursos quando falam de si, pois sua doença é
minimizada, e quando falam pela classe
dos idosos, percebendo que os idosos
estão mais doentes.
Pode-se fazer um paralelo dessa
ideia do ser doente com o próprio conceito de velhice, visto que não existe
um consenso sobre o que é ser velho, ou
melhor, quando se começa a ser velho.
Santos (1998) apresenta em um de seus
textos o quanto a representação da velhice ameaça os indivíduos, levando-os
a fazerem uma construção do que é ser
velho sempre se reportando a um outro,
como forma de afastar de si características negativas associadas a essa fase da
vida, como mostrado a seguir:
O verdadeiro velho é o outro – neste sentido,
os sujeitos enfatizam o estágio final da velhice como fase de dependência total. Assim, há
sempre um “outro” mais velho que ele. Parece importante salientar, que ao destacar
aspectos negativos da velhice que de certo
modo ameaçam a identidade do sujeito, alguns mecanismos de defesa são acionados.
Assim, há sempre um outro mais velho que
concretizaria as características negativas da
velhice. (SANTOS, 2000, p. 158).
Com o ser doente acontece o mesmo.
Então, ao mesmo tempo em que os entrevistados apontam que os idosos hoje
apresentam um maior comprometimento de sua saúde, negam que estejam
dentro desse grupo. Com os indivíduos
do gênero masculino essa questão fica
ainda mais evidente, pois em hipótese
alguma eles querem demonstrar a fragilidade em que se encontram. Apesar de
não retratar um sentimento de fracasso
diante da vida hoje, aparentemente eles
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Doença versus saúde: como os idosos se percebem diante desses conceitos
sofrem mais com as doenças, porque
trazem a limitação ou total extinção de
suas atividades. Com as mulheres isso
não acontece, pois elas permanecem
cumprindo as obrigações como donas
de casa, mesmo que sejam mínima, em
razão das suas limitações físicas.
Uma primordial consideração que a
pesquisa traz é a importância de se olhar
para a faixa etária dos sessenta anos e
mais de forma diferenciada. As doenças
e as limitações (físicas, psicológicas e
sociais) são inúmeras e o apoio social se
faz muito importante para ajudar o idoso
a lidar melhor com tais questões.
Disease versus health: how the elderly
perceive themselves within these
concepts
Abstract
This article aims to verify whether the elderly perceive themselves as ill and if this
condition affects their daily routine. Thus, a
research was conducted involving 100 elderly aging 60 to 97, with preserved mental status, ie, all of them lucid, residents in
a city hinterland in Pernambuco state. In
their homes, they responded to interviews
from a semi-structured scheme, with questions about their daily life and its context.
In a second part, they were given words or
phrases with which they were supposed to
associate them to various age groups – children, youth, adult and elderly. The results
point to an idea shared by the elderly that
they are at an age most likely to become
ill and they also recognize a sort of morbidity that provokes changes and affects
their daily routine. This causes them grief,
especially due to the feeling of uselessness
caused by the disease. These results may
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lead to actions that would benefit the elderly by providing them with greater social
integration.
Key words: Health. Disease. Elderly. Rural.
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