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Ares e azares da aventura ultramarina - Brasil África

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Ares e azares da aventura ultramarina - Brasil África
Ares e azares da aventura
ultramarina: matéria
médica, saberes endógenos e
transmissão nos circuitos do
Atlântico luso-afro-americano
Maria Cristina Cortez Wissenbach
Universidade de São Paulo
Nos últimos tempos uma nova escala de observação historiográfica tem permitido
repensar a expansão marítima e a formação dos territórios do ultramar, redimensionado de um lado, os circuitos que tomaram mercadorias, ideias e saberes e de outro,
as dinâmicas de encontro entre sociedades europeias e não europeias em diferentes
partes e continentes. Desde a percepção do oceano enquanto espaço histórico, introduzido pelos expoentes da Escola dos Annales, sobretudo Fernand Braudel, aos conceitos historiográficos que mobilizaram a ideia de fluxos e refluxos, de mundos em
movimento,l até chegar ao conceito de mundialização ou da primeira globalização e
ao de connected histories2 , o processo cultural subjacente aos encontros dos tempos
modernos vem sendo pensado numa perspectiva mais dialógica e a partir da ideia de
circulação e produção de saberes.
1 Pierre Verger. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX. Tradução de Tasso Gadzanis. Salvador, Ed. Currupio,
2002. Charles Boxer. O império marítimo português (1415-1825). Tradução Anna Olga de
Barros Barreto. São Paulo, Cia. das Letras, 2002. A. J. R. Russell Wood. Um mundo em movimento: os portugueses na África, Ásia e América (1415-1808). Tradução Vanda Anastácio.
Lisboa, Difel, 1998.
2 Serge Gruzinski. Les quatre parties du monde. Histoire d'une mondalisation. Paris, Les Éditions de La Martiniere, 2004; Serge Gruzinski, Les mondes mêlés de la Monarchie Catholique et autres connected histories', Annales HSS, janvier-février 2001, no I, p. 85-117. Sanjay
Subrahmannyam, Connected Histories: Notes towards a Reconfiguration of Early Modem
Eurasia, in: Modem Asian Studies, voI. 31, Issue 3, The Eurasian Context of the Early Modem History of Mainland South East Asia, 1400-1800,1997, p. 735-62.
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Para a revisão historiográfica aludida, alguns enfoques foram relativamente
deixados de lado. A nova escala exigiu um distanciamento de olhares exclusivamente nacionalistas e excessivamente eurocêntricos e uma aproximação progressiva aos
conceitos de trocas culturais, apropriações e reapropriações, aportes de diferentes
origens, na direção muitas vezes, e em última instância, de uma experiência coletiva
historicamente configurada. Essa ótica vem ganhando força, por exemplo, quando são
observadas as maneiras pelas quais os navegadores e comerciantes portugueses se posicionaram diante das estratégias e dos circuitos de mercadores africanos ou asiáticos,
intrometendo-se em rotas e modalidades préexistentes, na África3 , mas principalmente no Índico, dominado pelas comunidades islamizadas da costa oriental africana e
do subcontinente indiano 4 • Quando, diante da carência de produtos metropolitanos
e urgidos por determinadas circunstâncias, investigaram e se valeram de sucedâneos
informados pela farmacopeia indígenaS - processo do qual, Garcia Orta (1501-1568),
médico de Martim Afonso de Souza, estabelecido em Goa, seja talvez uma das expressões mais bem acabada, ao propor os meios e os métodos de sobrevivência dos
portugueses nos trópicos 6 • Ou mesmo ainda quando justificaram e instrumentaliza3 Isabel de Castro Henriques, L Atlantique de la Modernité: le part de l' Afrique. In: Le Portugal et l' Atlantique. Lisboa; Paris, Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, XLII,
2001; J. B. Bal10ng-Wen-Newuda. A instalação de fortalezas na costa africana. Os casos de
Arguin e da Mina. Comércio e contatos culturais. In: L. Albuquerque Corg.). Portugal no
mundo, volume lI. Lisboa, Publicações Alfa, si d.
4 Luís Filipe F. R. Thomaz. Os portugueses e as rotas das especiarias. In, De Ceuta a Timor.
Lisboa: Difel, 1994, p.169-243; segundo o autor, no Índico, ao contrário do Atlântico, "era conhecida a existência de interesses comerciais já estabelecidos. Os portugueses não contavam
pois com o vazio econômico e político de 'mares nunca dantes navegados: p. 212. Ressalta-se
o exagero da ideia de vazio econômico e político, considerando notadamente o comércio
caravaneiro e de cabotagem que envoviam os reinos do litoral atlântico da África.
S Alfredo Margarido. Plantas e conhecimento do mundo nos séculos XV e XVI. Lisboa, Alfa,
1990. Isabel de Castro Henriques. Plantes importée et économie de plantation dans le Golfe
de Guinée (XV-XVII). Universidade Paris I, 1974.
6 Charles Boxer, Two Pioneers of Tropical Medicine: Garcia d'Orta and Nicolau Monardes.
London, The Hispanic and Luso-Brazilian Councils, 1963. Garcia d'Orta. Colóquios dos
simples e drogas e causas medicinais das Índias (1563). Edição organizada pelo Conde de
Ficalho. Lisboa, Academia Real das Ciências, Imprensa Nacional, 1891. Sobre as concepções médicas e terapêuticas, em suas várias versões, na Índia do século XVI e entre elas a do
cristão novo, o físico Garcia Orta, ver: Inês G. Zupanov. Drugs, Health, Bodies and Soul in
the Tropics: Medicinal Experiments in 16th Century Portuguese India. The Indian Economic
and Social History Review, 39,1,2002.
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ram o comércio atlântico de escravos a partir de instituições e de usos e costumes das
sociedades locais?
Além disso, essa mesma perspectiva ampliada e dinâmica condiciona uma
outra maneira de perceber os agentes europeus que participaram da formação do
mundo atlântico, determinando tanto a iniciativa coletiva - financeira, tecnológica
e cartográfica - para os diversos empreendimentos ultramarinos, como a ideia de
lastros, de conhecimentos pragmáticos que foram sendo transmitidos de uma geração
a outra, entre diferentes nacionalidades e agentes que participaram do movimento
de expansão e de formação das novas sociedades. Incluindo-se aqui o conhecimento
acumulado pelo mundo árabe, expresso, entre outros, na destreza de seus pilotos na
navegação por entre as monções.
No processo histórico visto dessa maneira, as fontes históricas têm sido necessariamente reavaliadas. Em particular a literatura de viagem que acompanhou o movimento de expansão e as diferentes fases de ocupação nas terras ultramarinas foi
profundamente rediscutida, sem perder sua importância. Num seminário sobre as
fontes europeias para a história da África pré-colonial, realizado em Berlim em 1987,
os organizadores Beatrix Heintze e Adam Jones reafirmam a necessidade de uma crítica histórica apurada exatamente para que tais narrativas sejam avaliadas para além
7 Catarina Madeira Santos. Entre deux droits, les Lumieres em Angola. Annales. Histoire,
Sciences Sociales, Paris, 4, 2005, p. 817-48. Roquinaldo Ferreira, "Ilhas crioulas"; o significado plural da mestiçagem cultural na África Atlântica. Revista de História, São Paulo,
n°. 155,2007. Revista de História, Dossiê África & América (org. Maria Cristina C. Wissenbach), 155, l°, 2006, p. 17-41. É importante atentar, de antemão, que esta perspectiva
de interpretação distancia-se da preconizada pelo lusotropicalismo de Gilberto Freyre que
enaltece, na mestiçagem e na adaptação aos trópicos, a plasticidade dos portugueses e sua
capacidade de se fundirem, numa dimensão histórica, destituída de tensão e, sobretudo,
relacionada a um possível caráter sublimado deste povo nas aventuras do ultramar. Como
afirma, em contraposição, Ines Zupanov, analisando os missionários na Índia: "If Portuguese merchants, royal officials, and ecclesiastics adapted rapidly (if at all) to the difficult
climate and learned how to deaI with the overpowering cultures surrounding them in Asia,
partly by adapting to and partly by fencing themselves off from them, it was because they
had no choice and simply managed to c~ntrol their weakness, rather than because of the
plasticity and compositeness of their character". Ines G. Zupanov. Missionary Tropics: the
Catholic Frontier oflndia, 16th - 17th centuries. Ann Harbor, University of Michigan, 2005,
p. 19-20. Ver também: John Monteiro, Mestiçagem e mitografia no Brasil e na Índia Portuguesa. In: Tupis, tapuais e historiadores - estudos de História Indígena e do Indigenismo.
Campinas, 2001. Tese de Livre-docência, Unicamp.
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de seu caráter eurocêntrico e atingidas em suas inflexões e características próprias. 8
Reafirmam a necessidade de que tais autores sejam percebidos em sua heterogeneidade e determinadas, sobretudo, maneiras diferenciadas de se vincular aos negócios
do ultramar. Também africanista, Isabel de Castro Henriques vai mais além e chama a atenção aos textos produzidos por autores que ela denomina como sendo os
angolistas,9 militares profundamente comprometidos com o poder e a administração
portuguesa em Luanda, como o cronista setecentista das guerras angolanas, Antonio
Cadornega; outros como o brasileiro Elias da Silva Corrêa, estabelecido em Angola
no século XVIII; expedicionários como os pombeiros escravos da feira de Kassange,
o mestiço Pedro João Batista e seu companheiro Anastácio Francisco, na viagem pioneira da costa à contra-costa, feita nos anos de 1840; finalmente, colonos estrangeiros
instalados, nos finais do século XIX, de maneira enraizada nos sertões de Angola,
como por exemplo, o húngaro Lázslo Magyar e o luso-brasileiro Rodrigues Graça.
Em outras palavras, na reavaliação metodológica, embora as narrativas continuem passíveis de crítica, tal como qualquer outro tipo de fonte, os "viajantes" começam a ganhar historicidade e contornos definidos, relacionados ora à época, ora aos
contextos específicos que confluem em suas obras. São distintos em sua natureza e
nas formas de se relacionarem com as sociedades locais, são diferentes as visões do
missionário, do mercadpr e do soldado, flexionadas por seus intentos, pelo tempo de
permanência e pelo envolvimento com as populações locais.
Conforme ainda os estudiosos desta produção, os relatos de viagem compreendidos entre os séculos XVI e XVIII, ligados à expansão e à dinâmica histórica do Atlântico nesta época, possuem características que lhes são próprias e que os distinguem dos
que foram produzidos em outros períodos. Em decorrência do pragmatismo destas
obras, do caráter essencialmente utilitarista, do plágio e da autoria coletiva formam,
por assim dizer, conjuntos de informações que vão sendo apropriadas e transmitidas
por gerações diferentes de viajantes. Para ilustrar essa ideia, simplificando, é possível
afirmar que as crônicas portuguesas do século XV e XVI reaparecem nos textos de
autores holandeses do século XVII e estes por sua vez, inspiram as narrativas inglesas
e francesas do século XVIII. Evidenciando aquilo que Luis Felipe de Alencastro tão
8 Beatrix Heintze; Adam Jones. Introduction. In: European Sources for Sub-Saharian Africa before
1900 - Uses and Abuses. Número especial de Paideuma, 33, 1987. Numa perspectiva critica
similar sobre a fonte relatos de viagens: José da Silva Horta. A representação do africano na
literatura de viagens, do Senegal à Serra Leoa (1455-1508). Mare Liberum, 2, 1991 , 209-338.
9 Isabel de Castro Henriques. Presenças Angolanas nos documentos escritos portugueses.
In: Os pilares da diferença: relações Portugal-África, séculos xv-xx. Lisboa: Caleidoscópio,
2004, p. 61-89..
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bem sintetiza, "cruzando os mares, missionários, militares, mercadores e funcionários régios trocavam informações sobre os ares e os azares da empreitada colonial no
Atlântico Supo':
Assim, tendo como pressuposto tais considerações, o intuito desta comunicação
é discorrer sobre a temática geral dos encontros culturais e da transmissão e apontar
aspectos do processo de trocas que acompanhou o movimento de estabelecimento
dos europeus no ultramar, sobretudo nas áreas compreendidas no flanco atlântico da
expansão. Tomando como referência algumas narrativas e especificamente questões
relacionadas às doenças e à adaptação dos homens brancos aos climas tropicais, a
ideia geral que gostaria de enfatizar é a de lastros, da formação de redes de propagação
de conhecimentos que se tornaram marca do universo atlântico luso-afro-americano.
E que implicaram, em diferentes níveis, o reconhecimento de competências.
***
A divulgação de informações relacionadas às viagens marítimas e às descobertas aparece já nos primórdios destes movimentos, como um dos principais intentos
das grandes coleções de viagens editadas desde os meados do século XVI por editores
italianos (entre outros, Gian Battiste Ramusio, 1559), ingleses (como Richard Hak1uyt,
1587 e Samuel Purchas, 1625) e flamengos (De Bry, 1590 e van Linschoten, 1596)11.
Reafirmando a ideia de que nem sempre os centros produtores de conhecimento eram
os centros de difusão, grande parte dessas coleções envolveu a compilação de relatos
feitos por pilotos ou agentes a serviço das coroas ibéricas, em suas viagens à América,
ao Oriente e à África. Só para mencionar algumas, encontram-se aí reproduzidas as
narrativas de Alvise de Cadamosto, Leão Africano, Cabeça de Vaca, Tomé Pires, Vasco
da Gama, Vespuccio, Pigafetta, Fernão Cardim. Na suposição de algumas delas terem
sido roubadas por corsários ingleses e franceses, segundo Numa Bloc, a iniciativa edi10 Luiz Felipe de Alencastro. O trato dos viventes - formação do Brasil no Atlântico Sul. São
Paulo, Cia. das Letras, 2000, p. 259.
11 Tais coleções eram formadas por vários volumes nos quais estavam incluídos roteiros portugueses e espanhóis sobre a África, a Ásia e a América, mantidos até então em segredo.
Para o século XVIII, menciona-se ainda a coleção de Thomas Astley, publicada em Londres
entre os anos de 1745-1747, A New General Collection of Voyages and Travels. Referindose especificamente às obras de Linschoten e de Hakluyt, afirma Numa Broc seu caráter de
obras militantes, espécie de bíblia para colonos e navegantes na época de expansão holandesa e inglesa. Numa Broc. La geographie de la Renaissance (1420-1620). Paris, Les Éditions
du c.T.H.S., 1986, p. 41.
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torial dos séculos XVI e XVII, por meio de uma apropriação quase que indébita, retiraram-nas do esquecimento a que possivelmente estariam relegadas nos intentos das
Coroas 12 • Os objetivos dos grandes editores eram claramente programáticos e pragmáticos: destinavam-se a atiçar a curiosidade e também a ganância de seus governos,
levando-os às aventuras coloniais instruídas por tais roteiros. Buscavam, para tanto, a
experiência, ou melhor dizendo, a competência ibérica desenvolvida já em quase um
século da expansão.
No caso dos holandeses, Jean-Hugues Linschoten (ou Linschot) - o primeiro holandês a realizar a travessia entre Lisboa e Goa e permanecer vários anos nos
domínios lusos - esta aproximação à experiência dos portugueses é física também
pois prenuncia a ação voraz da Companhia das Índias Orientais e Ocidentais sobre
os territórios lusos do ultramar. Além de colecionar roteiros de pilotos espanhóis e
portugueses sobre a navegação das Índias (Duarte Lopes, Pierre Martyr, Oviedo e
J. de Lery), realiza uma espécie de périplo pelos territórios portugueses do Índico e
do Oriente, chegando aChina e às Molucas, passando no retorno pela África e pelo
Brasil 13 • Da mesma forma que outros holandeses vieram depois dele, relata em detalhes, nos finais do século XVI, a aprendizagem que retirou desta observação: descreve
as cidades portuguesas, sobretudo Goa, o modo de vida dos portugueses aí estabelecidos (inclusive as doenças de que padeciam e as instituições hospitalares que os
abrigavam), o relacionamento com os povos, e dedica longos trechos ao comércio das
especiarias e sobretudo ao das drogas medicinais usadas por médicos, boticários e
curandeiros nativos, em sua enorme variedade que vai dos produtos importados vindos da China e da Pérsia - o maná, o ruibarbo e a pedra de bezoar - às ervas utilizadas
pelos tupinambás 14 •
Uma vez que dependeu da mobilização de agentes, intermediários e informantes, essa apropriação de conhecimentos não se limita aos ricos territórios do Oriente;
dirige-se também às costas da África Ocidental, atingindo personagens históricos relacionados a uma história menos formal da presença ibérica no ultramar. Ou melhor,
menos institucional no sentido de que ainda não se encontram claramente implantadas as estruturas administrativas coloniais, do império no século XVI.
12 Numa Broc, La geographie de la Renaissance (1420-1620), p. 45.
13
Jean Hugues Linschot. Histoire de la Navigation de {...} hollandois: aux Indes Orientales
contenant diverses descriptions des lieux jusques 4 present decouverts par les portuguais...
Amsterdam, Chez Evert Cloppenbourg, Marchand Libraire, 1638.
14 Jean Hugues Linschot, Description de l'Amerique & des parties d'icelle ... especialmente
p.43-52.
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Desde esta época, foram as coletividades de populações mestiças, luso-africanas,
as que forneceram as informações e o vínculo necessário às sociedades locais, em função dos laços, comerciais e de parentesco que mantém com estas por meio de uniões
inter-raciais 1s • Originários dos chamados lançados, estabelecidos em diferentes pontos da costa da Alta Guiné, entre Casamansa e Serra Leoa, e também em determinadas
áreas da Costa do Ouro, a princípio estes agrupamentos combinam a feição misógina
da expansão com a utilidade dos excluídos do reino l6 • No caso da Senegâmbia e dos
rios da Guiné, eram provenientes de degredados, de cabo-verdianos migrados em
direção ao continente, ou de simples aventureiros, em grande parte judeus e cristãos
novos perseguidos pela Inquisição e que estendiam suas relações aos portugueses exilados nos Países Baixos, bem como às comunidades sefarditas das Américas l 7 • Vistos
com desconfiança pelas autoridades metropolitanas, considerados à margem da lei,
dos monopólios e dos contratos, logo se transformariam nos principais intermediários entre os mercadores atlânticos e as redes comerciais da região l8 graças ao domí15 Sobre as populações mestiças da Guiné, no geral, ver: Philip Havik, Comerciantes e concubinas: sócios estratégicos no comércio atlântico na costa da Guiné. In: A dimensão atlântica
da África. Anais da II Reunião Internacional de História de África (Rio de Janeiro, 1996).
São Paulo, CEA/USP, SDG-Marinha; Capes, 1997, 161-179. Philip Havik. Silences and
Soundbytes. The gendered dynamics of trade and brokerage in pre-colonial Guinea Bissau
region. Münster, LIT Verlag, 2004. Jean Boulegue. Les luso-africaines de Sénegambie, XVI
- XIX siecles. Lisboa, IICT/CRA, 1989. George Brooks, Euroafricains in Western Africa:
commerce, social status, gender and religious observance from the sixteenth to the eighteenth
century. Athens, Ohio University Press; James Currey, 2003.
16 Charles Boxer. Race Relations in the Portuguese Colonial Empire. Oxford, 1963; Idem. Mary
and Misogyny: Women in Iberian Expansion Overseas, 1415-1815. London, Duckworth,
1975.
17 Antonio de Almeida Mendes. Le role de l'Inquisition en Guinée - vicissitudes des présences juivres sur la Petite Cote (XV-XVII siecles). In: F. Bettencourt; Philp Havik. Inquisição
em África. Colóquio realizado no Centro Cultural Gulbenkian, Paris. Revista Lusófona de
Ciência das Religiões, ano IlI, 5/6, p. 21-173. Afirma o autor a condição distinta e singular
dos judeus estabelecidos na Petite Côte, na Senegâmbia: "organisés em communauté, ils
s'appuyaient sur des liens forts avec les communautés sérades installées aux Pays-Bas ert
dans les possessions américaines", p. 154. Sobre o assunto também: Peter Mark; José da
Silva Horta. Two Early Seventeenth-Century Sephardic Communities on Senegal 's Petite
Cote. History in Africa, 31, 2004, 231-256.
18 O caráter marginal dos lançados é contestado pela historiografia mais atual. Entre outros:
Maria João Soares. Para uma compreensão dos lançados nos rios da Guiné. Studia. Lisboa,
56-57,2000,p.147-222.
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nio que mantinham do comércio da noz-de-cola, atividade sobre a qual a Coroa, posteriormente, guardaria segredo: "fruta como castanhas e que he o principal dinheiro
porque se vende muyto e tem estes reis muita amizade com os Portugueses no trato",
como diziam as crônicas da época.
Foram os luso-africanos (muitos deles referidos nominalmente) os informantes
de André Almada, escritor cabo-verdiano dos finais do século XVI que possuía interesses mercantis direcionados a esta região e que seguia os passos destes intermediários quando inventariava as possibilidades econômicas da Alta Guiné 19 • Colocados
lado a lado, a compreensão da figura de Almada e a dos lançados é esclarecedora. Ambos mestiços que apesar de não se distinguirem fisicamente dos habitantes da região,
continuavam a se afirmarem portugueses: o primeiro, por sua origem cabo-verdiana
e pela condição de mercador, os segundos por serem cristãos (ou cristãos-novos), por
falarem a língua portuguesa junto a um dialeto crioulo, mas também pelo fato de
pertencerem a clãs de mercadores que se dedicavam ao trato à longa distância 20, da
mesma forma que seus parceiros africanos, os diulas, ou julas, comerciantes ambulantes e provenientes da diáspora mande. Esses últimos, 'c hamados também de bixirins,
eram os mesmos marabutos com os quais Almada e os demais cronistas da época
mantinham frequente comunicação.
Os mesmos luso-africanos foram também hospedeiros e objeto da ação catequética dos jesuítas quando, nos finais do século XVI, estes missionários promoveram
incursões pelo litoral da Guiné, com o intuito de reconduzir seus conterrâneos novamente ao grêmio da Igreja - expatriados entregues aos modos de vida local, segundo
os mesmos jesuítas21 • Mas foram também, e principalmente, seus aliados quando os
padres avaliavam as possibilidades tanto da conversão das chefias africanas locais,
quanto da tomada de posse definitiva de áreas em Serra Leoa, projeto pretendido em
nome da Coroa Ibérica - áreas de terras altas que apresentavam ótimas condições
19 André Álvares de Almada. Tratado breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde (1594). In:
Antonio Brásio. Monumenta Missionária Africana, voI. 3, 329-378. José da Silva Horta.
Evidence for a Luso-African Identity in "Portuguese" Accounts on Guinea of Cabo Verde
(16th - 17th Centuries). History in Africa, 27,2000,99-130.
20 Peter Mark. The evolution of Portuguese Identity: Luso-Africains on the Upper Guinea
Coast from 16th to 19th century. Journal of African History, 40,1999,173-91; Peter Mark.
Portuguese Stile and Luso-african Identity. Bloomington, Indiana University Press, 2002.
21 Philip Havik. Missionários e moradores na costa da Guiné: os padres da Companhia de Jesus
e os tangomaos no princípio do século XVII. Studia, CEHCAIIICT, 5617, 2000, 223-62.
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para o estabelecimento de engenhos, segundo a correspondência do padre Baltazar
Barreira, no comando da expediçã0 22•
Neste processo de estabelecimento de cadeias de intermediários, e em decorrência, de redes de transmissão de informações e de conhecimentos, é necessário sublinhar
a atuação da Companhia de Jesus, instituição essencial na ampliação dos saberes desta
época e que agia por meio de um moderno sistema que tinha como base os colégios,
ligados a Roma e, numa escala policêntrica, às missões espalhadas pelos vários continentes 23 • A historiografia vem deslindando as particularidades das ações jesuíticas nos
diferentes pontos do Império, e entre eles, a disposição em manter relacionamentos
distintos com as populações locais. No que tange as relações interculturais, a produção
epistolar inaciana, inventário de usos e costumes, reaparece em seu sentido etnográfico, uma vez que os missionários buscaram construir a aparelhagem do encontro e da
catequese, na forma do entendimento das línguas, na difusão da escrita, na descrição
dos usos e dos costumes, postura que, por vezes, extrapola-se a uma imersão nas sociedades extraeuropeias24 •
****
Voltando às narrativas, desde os cronistas e navegadores portugueses do século Xv, um dos traços característicos dos relatos de viagem que vimos tratando é a
qualidade que apresentam em acompanhar historicamente o processo de estabelecimento dos europeus na região, bem como em informar as maneiras pelas quais se
concretizava, em última instância, a inserção das sociedades da África subsaariana no
mundo atlântico. Com isso, nas narrativas feitas por holandeses, franceses e ingleses, a
referência à história pregressa e aos pioneiros portugueses é quase sempre obrigatória,
considerando o simples fato de que a observação de sua experiência poderia indicar
as formas de conduzir os negócios africanos. De um lado, as instruções em como
negociar com os mercadores locais e fazer os tratados com as autoridades africanas; e
22 Pe. Balthazar Barreira. Descrição da Costa da Guiné começando ao Cabo Verde até a Serra
Leoa (01-08-1606). In: Antonio Brásio, Monumenta Missionária Africana, vol IV, 2'. Serie,
159-173.
23 Antonella Romano. Les colleges jesuitiques, lieux de sociabilité scientifique 1540/1640.
Bulletin de la Société de Histoire Moderne et Contemporaine, 3-4,1997,6-20.
24 José Eisenberg. As missões jesuíticas e o pensamento político moderno. Encontros culturais,
aventuras teóricas. São Paulo; Belo Horizonte, Humanitas; Ed. UFMG, 2000, 46-58; Ines
G. Zupanov. Missionary Tropics: the Catholic Frontier of Índia, 16th - 17th centuries, introdução.
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de outro, em como escolher as melhores peças escravas e como transportá-las, diminuindo ao máximo as perdas e riscos consideráveis da travessia.
Observações atentas às experiências dos portugueses na África presidiam as
narrativas feitas nos séculos posteriores. Aparecem, sobretudo nas descrições de Jean
Barbot que segue os caminhos dos cronistas holandeses, acrescentando-as às suas próprias vivências como capitão dos navios negreiros da Royal African Company2s. Também seu sobrinho, numa viagem feita ao rio Congo e à Cabinda em 1700, informa-se
sobre as particularidades de tais regiões a partir dos relatos portugueses, mesclando
ou quase confundindo descrições geográficas com usos e costumes dos habitantes da
região:
Several Portuguese relations of voyage from Brazil to Congo and Ango la, observe, that the people inhabiting the western African shores, from
thirty degrees south latitude, to Cape Negro [...] are cannibals, and that
there are many fine large harbors, formed by nature, and capable of receiving two or three thousand ships each of them. lhe Portuguese call those
Africans Papagentes ... 26
Desta forma, mesmo que os portugueses tenham se tornado relativa e progressivamente ausentes no comércio em determinadas áreas do litoral da África, vencidos
pela concorrência com os negociantes de outras nacionalidades, sua experiência e sua
habilidade foram destacadas de forma recorrente na documentação. Em sua viagem a
Serra Leoa, nos finais do século XVIII, o tenente inglês John Matthews refere-se a uma
presença que, para ele, já se tornara residual:
lhe Portuguese were the original discoverers of the whole coast of Africa, and most of the trading places still retain the name given them by the
first adventurers; the also formed many considerable settlements, vestiges of which are still remaining not more remarkable for the durability
25 No prefácio a uma nova edição de parte das obras de Jean Barbot, seus comentadores ob-
servam a inspiração de trechos de suas descrições retiradas das obras de Olfert Dapper e
Nicolas Villault (em "As fontes de Barbot") P. E. H. Hair, Adam Jones e Robin Law. Barbot
on Guinea - The Writings of Jean Barbot on West Africa 1678-1712. London, The Hakluyt
Society, 1992, p. XIX.
26
James Barbot e John Casseneuve, A Voyage to Congo-River... In: Jean Barbot. A Description of the Coasts of the North and South-Guinea. London, 1732.
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of the materiais with which they are constructed, than the excellence of
the situations which no doubt were then, and still are, the best that could
possibly be fixed upon for trade; but the only settlements they now have
on the coast of Africa are Loanga St. Paul's and Bassou, [sic] and a small
fort at Whydah; from the former, which is their principal settlement, they
send a great number of slaves to the Brasils27 •
Além da presença física simbolizada pelas velhas fortalezas e pela presença de
populações que se dizem portuguesas e professam a religião católica, os resíduos de
que fala Matthew podem ser encontrados em outros detalhes dos relatos setecentistas:
nas menções ao uso do português ou de um português corrompido como língua franca da costa28 ; nas palavras também portuguesas que diferentes grupos de africanos
incorporaram na denominação de suas estruturas políticas - os cabaceiras ou cabeceiras (segundo Archibald Dalzel, em 1793, um nome português atribuído ao head man,
grande comerciante tributário do reF 9 ) e os alcaides 30, na hierarquia de mando do
reino do Daomé; as palavres, palaver ou simplesmente palavras, assembleias de chefias
africanas na regi~o da Alta Guinei. E também, em muitos dos relatos, na presença recorrente dos termos fetiche,fetichisma, às vezes grafado como fittish 32 , como categoria
cognitiva referida aos deuses e à classificação das crenças e dos rituais das sociedades
africanas. 33 Além é claro, da nomenclatura de rios, portos, cidades, cabos etc.
Sobretudo entre os séculos XVI e XVII, na perspectiva dos viajantes ingleses,
franceses e holandeses, a competência dos portugueses relacionava-se também à busca de conselhos e métodos capazes de instruir a sobrevivência do homem branco no
clima tropical. Da ideia geográfica vinda dos tempos clássicos, da inviabilidade de vida
27 John Matthews, A Voyage to the River Sierra-Leone, on the Coast ofAfrica. London, Printed
for B. White and Son, 1788, p. 138.
28 Entre outros: Nicholas Villault. Relation des Costes d'Afrique, p. 53: profusão de línguas
que falam os comerciantes africanos e luso-africanos; p. 109: todos falam um português
corrompido.
29 Archibald Dalzel, The History of Dahomy na Inland Kingdom of Africa. London, Spilsbury
& Son, 1793, p. V
30 Villault: "alcaide" ou "alcair", p. 49; "fetiches'; p. 257; Barbot, "crenças fetiches'; p. 27l.
31 Matthews, "palaver, ar actions in their courts of law", p. 67.
32 Guillaume Smith, Nouveau Voyage de Guinée, contenant une description exacte des coutumes.... Paris, Chez Durand & Pissot, 1751, p. 50 e 64.
33 Vários textos traduzem as divindades como fetiches. Entre eles, Villault, p. 257.
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LEILA MEZAN ALGRANTI E ANA PAULA TORRES MEGIANI (ORGS.)
humana nas áreas tórridas 34 • herdou-se a imagem da costa da África e em particular
do Golfo da Guiné, como a "tumba do homem branco': associada à ideia dos ares corruptos dos trópicos e de sua ação sobre os humores hostis, de acordo com os postulados hipocráticos-galênicos 35 • Crença difundida entre os europeus que se aventuravam
nas viagens ultramarinas, acreditava-se que um clima malsão, vapores corrompidos,
excesso de umidade, zonas ribeirinhas e pantanosas infestadas de insetos, pestilentas
e mortíferas, produziam uma série de doenças e febres letais, além de propensões à
luxuria, à ingestão de bebidas e a hábitos pouco salutares. Nessa somatória, provocavam, em última instância, altos índices de mortalidade entre a população branca,
inviabilizando os estabelecimentos europeus na África 36 • Segundo informações da
época, no geral a mortalidade poderia atingir 60% dos brancos europeus, logo no
primeiro ano de exposição ao clima3? De acordo com Jean-Baptiste Labat, expressando as preocupações de André Brüe, diretor geral da Companhia do Senegal, nos seis
primeiros anos do estabelecimento dos franceses nas margens do rio Gâmbia, haviam
sido perdidos 57 entre os 180 que lá serviam 38 • Foram também os ares pestilentos de
São Tomé, segundo Olfert Dapper, retomado na versão de Jean Barbot, a causa das
perdas incontáveis das tropas de ocupação comandadas pelo almirante holandês Johl,
inviabilizando a manutenção do domínio sobre a ilha nas décadas de 1610 e 164039 •
Viajando por São Tomé e por Angola, pelas costas da Senegâmbia, os autores
dos séculos XVII e XVIII procuravam nas povoações portuguesas, indícios de possí34 Numa Broc, La Geographie de la Renaissance (1420-1620), p. 74.
35 "Quinea fatal to europeans" é o título de um dos subcapítulos da obra de Jean Barbot, no qual
discute a propriedade ou não desta assertiva: Jean Barbot, A Description of the Coasts of the
North and South-Guinea, p. 194. Gabriel Dellon. Nouvelle Relation d'un Voyage fait aux Indes
Orientales contenant... Amsterdam: Chez Paul Marret, Marchand Librairie, 1699, p. 285.
36 Numa obra dedicada a Colbert, o viajante francês Nicolas Villaut colocou-se contra esta assertiva, observando que foi a sua difusão que provocou o abandono dos empreendimentos
comerciais franceses na costa africana, pioneiros, no seu dizer, e existentes desde o século
XlV. Nicolas Villault, Sieur de Bellefond. Relations des Costes d'Afrique, appellées Guinée...
Paris: Chez Denys Thierry, 1669.
37 Cf os organizadores da obra de John Barbot, Barbot in Guinea - the writing of John Barbot
on WestAfrica (l678-1712),p.225.
38 Jean-Baptiste Labat. Nouvelles Relations de l'Afrique Occidentale, contenant... Paris, Chez
Guillaume Cavelier, 1728, p. 333.
39 Dapper e as razões nosológicas do fracasso da WIC em se manter nas áreas atlânticas; também Jean Barbot, A Description, p. 409-10, referindo-se aos fluxos de sangue e as cólicas que
mataram muitos holandeses que se apoderaram da ilha de São Tomé entre 1610 e 1641.
o IMPÉRIO POR ESCRITO
387
veis estratégias para garantir a sobrevivência europeia nestes climas. As avaliações de
Jean Barbot - mercador de La Rochelle, huguenote refugiado em Londres após o decreto de Nantes de 1685 - concentram-se em São Tomé, ocupada desde o século XV e
estrategicamente localizada sobre a Linha. Recupera a história da colonização da ilha
por judeus portugueses que, diante da opção entre a conversão e o exílio, foram levados inicialmente às costas da Guiné e depois transferidos à ilha, em 1485, em razão
dos ares pestilentos do continente. Ressalta também seus casamentos com mulheres
africanas ("negras vindas de Angolà') e à descendência mestiça como sendo a chave
para se entender a maior resistência aos trópicos 40 • Também em Labat, possivelmente
a partir das informações retiradas da leitura que fez de Dapper, encontra-se mais ou
menos explicitada uma estratégia que poderíamos classificar como sendo a de uma
aclimatação ou adaptação gradativa dos portugueses aos ares das regiões do Golfo:
um tempo de permanência na costa da Mina, depois um período sob o clima de Luanda e por fim, o estabelecimento mais ou menos definitivo em São Tomé 41•
Além disso, e por onde passam, os textos destes viajantes descrevem e acompanham doenças e procedimentos terapêuticos, utilizando, na maior parte das vezes,
e segundo seus comentaristas, informações de segunda mão. Parte significativa dos
roteiros dos holandeses, escritos entre os finais do século XVI e os finais do século
XVII, concentra-se no esforço de elencar e descrever as doenças ordinárias e pouco
conhecidas pelos europeus que grassavam nos territórios ultramarinos, bem como as
que atacavam indistintamente os homens do mar42 • Da travessia, as referências mais
comuns são feitas ao escorbuto: decorrente da má alimentação, de produtos e da água
corrompidos e da tristeza - o banzo - que tomava conta indistintamente de marinheiros e de africanos transportados. Em terra, e sobretudo nas proximidades da Linha,
proliferam febres (intermitentes e crônicas), disenterias e fluxos de sangue, doenças
venéreas e uma série de males referidos como os do bicho: o bicho do pé, os vermes da
Guiné e os "bitchos do cu", ou maculo, doença propriamente africana que, segundo os
observadores da época, era característica do tráfico e por ele trazida às Américas.
Doenças do mar e da terra, africanas, mas também asiáticas, para as quais se
busca terapêuticas particulares, raramente questionadas. O combate ao escorbuto de40 Jeán Barbot, A description ... , p. 404 e seguintes.
41 Jean-Baptiste Labat. Voyage du Chevalier des Marchias au Guinée, isles voisines et a Cayen ne... Paris, Chez Pierre Prault, 1730, 3° volume, p. 16.
42 Sobretudo o escorbuto, doença que atacava indistintamente marujos, oficiais e escravos
transportados. Entre outros relatos, o do médico Gabriel Dellon. Nouvelle Relation d'un
Voyage fait aux Indes Orientales contenannt... Amsterdam, Chez Paul Marret, Marchand
Librairie, 1699, p. 285.
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LEILA MEZAN ALGRANTI E ANA PAULA TORRES MEGIANI (ORGS .)
pende de água fresca e de uma nutrição mais variada, de vegetais e frutas que tanto os
franceses quanto os portugueses cultivam nos seus fortes em Uidah;43 produtos que
podem ser igualmente adquiridos nos centros de abastecimento dos negreiros, sobretudo em São Tomé e no Príncipe. 44 Os bichos ou os vermes da Guiné quando atacam
os membros, devem ser retirados suavemente (doucement, como dizem 45), sem que
se rompam, pois do contrário podem provocar danos mais graves conforme ensinam
os habitantes da terra. A erva indicada para o maculo, por sua vez, é conhecida por
eles como erva do bicho e faz parte da composição de sacatrapos junto a folhas de tabaco, sumo de limão e pólvora; terapêutica que deve ser ministrada antes das viagens
de retorno. Pois, repetidamente advertem, se são doenças desconhecidas dos físicos
europeus, serão mais facilmente diagnosticadas por cirurgiões embarcadiços em decorrência de sua larga prática.
Os conhecimentos médicos, farmacológicos e terapêuticos espalham-se pelo
Atlântico sob a forma de múltiplos suportes. Receituários e notícias sobre as doenças constituem matéria essencial das narrativas de viagem, uma vez que estas guardam um cariz eminentemente pragmático, como vimos. Mas se apresentam também
na forma de obras médicas que circulavam pela colônia, compêndios de medicina
prática e de medicina embarcadiça, instruções, avisos e manuais destinados àqueles
que se aventuram nos empreendimentos ultramarinos e dos quais as receitas eram
retiradas e copiadas. 46 Tal como observava nos finais do século XVIII, o naturalista
Alexandre Rodrigues Ferreira, ao se referir aos práticos que atendiam as populações, as maneiras pelas quais se convertiam em profissionais e as receitas que iam
sendo compiladas:
43 Paul Isert. Voyages em Guinée... Paris: Maradan, 1793, p. 149
44 Em suas narrativas, Jean Barbot assinala a fertilidade das ilhas de São Tomé e Príncipe e
o cultivo, nas mesmas, de gêneros para o abastecimento dos navios: laranja, limões, cocos,
cana de açúcar, arroz, mandioca e grãos europeus, capítulo XI, p. 399 e seguintes e sua condição como local de reabastecimento dos navios negreiros, sobretudo portugueses.
45 Nicolas Villault, p. 307. A mesma expressão (ou maneira de lidar com os vermes da Guiné)
aparece em Olfert Dapper, Description de Z'Afrique ... Amsterdam: Chez Wolfgang, Waesberge, Boom & van Someren, 1686, p. 294.
46 Entre outros: Luís Gomes Ferreira. Erário MineraZ em doze tratados (1 735). Junia Ferreira
Furtado (org.). Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Fundação João Pinheiro; Fundação Casa
Oswaldo Cruz, 2002. Para esta reedição e tratando especificamente dos manuais de medicina prática e sua importância na colônia, o prefácio de minha autoria: Maria Cristina Cortez Wissenbach. Gomes Ferreira e os simplices da terra. Experiências sociais dos cirurgiões
no Brasil colônia.
o IMPÉRIO POR ESCRITO
389
Vagam em suas mãos algumas receitas, que se tem tirado dos receituários
de Ferreira, Mirandella, e Mouravá, com estas e com as que têm ajuntado
e recebido de alguns cirurgiões, se caracterizam médicos, e como tais se
encarregam de toda e qualquer enfermidade. Ainda a mais vasta e mais
escolhida biblioteca cirúrgica que por aqui se tem espalhado, não compreende mais do que as obras dos citados Ferreira, Mirandella e Mouravá; as de Curvo, Santisse, Castellos Fortes, Madeiras de qualidade céltica,
a Âncora Medicinal de Pedro de Alvellos, o Diálogo Cirúrgico, do Lima
do Porto, Receituário Luzitano, e já hoje com muita raridade algum col.
De Villares, Thesouro Appolineo, etc4 7 •
Os autores dos manuais mais conhecidos da literatura médica colonial são cirurgiões que, em suas longas estadias na América portuguesa, formulam suas instruções relativas às doenças singulares e apropriadas ao clima a um público carente
de informações ou mesmo de atendimento médico. Grande parte dos receituários
que circulam pelo Atlântico e pelo Índico - e que compõem talvez o resultado mais
expressivo das trocas que vimos contemplado, vem de práticos, "gens sans étude, sans
science & sans aucune lumiere de l' anatomie, qui n'ont pour tout connaissance, qu ' un
certain nombre de receptes que leurs peres leur on laissé par sucession..:: como escrevia o médico Gabriel Dellon em suas observações sobre os panditas, médicos gentios
das Índias48 • No entanto, numa outra versão talvez menos depreciativa, a aproximação
ao conhecimento etnobotânico nativo pode aparecer, nos primeiros tempos das relações interculturais entre europeus e não-europeus relacionadas à possibilidade de
sobrevivência e permanência nos trópicos. Segundo Ines Zupanov, ao interpretar a
obra quinhentista do cristão-novo Garcia Orta, impressa em Goa em 1563:
In his optimistic and unabashedly secular view, the problem and the
key to the solution lay in the body, that is, in adapting individual, male
Portuguese bodies to the tryning weather and to the pernicious geographic of the Torrid Zone. The way to do that was by collecting information and constituting a body of ethnobotanical knowledge concerning local, Asian material medica. The ingestion of mostly tropical
substances combined with selected indigenous medicaI practices tes47 Alexandre Rodrigues Ferreira. Diário de viagem philosófica pela capitania de S. José do Rio
Negro. RIHGB, Rio de Janeiro, voI. LI, 1888.
48
Gabriel Dellon. Nouvelle Relation d'un Voyage fait aux Indes Orientales contenannt... Amsterdam, Chez Paul Marret, Marchand Librairie, 1699, p. 294.
390
LEILA MEZAN ALGRANTI E ANA PAULA TORRES MEGIANI (ORGS.)
ted and approved by Orta himself was to infuse longevity and virility
into Portuguese corporeal constitution. For this crypto-Jew forced to
wear many masks to fend off the suspicion of Judaizing, the body was
endlessly adapted to the exterior environment, and no higher medicaI
or scientific authority was to be trusted than the senses and the experience [... ] Hence, without actually using the world, the method for
surviving in the tropics, or anywhere else, was adaptation to local air,
local plants, local customs, and locallanguages. This is, in fact, what the
Portuguese has already been doing, in fits and starts partially and unself-consciously in Asia and in Brazil49 •
Como se pode perceber em vários dos receituários que circulavam na América
portuguesa - como aqueles contidos no Erário Mineral de Luis Gomes Ferreira - esse
conhecimento estruturado a partir da experiência e da observação e cuja origem é de
difícil explicitação veiculava-se na colônia, e antes dela, nas rotas de comércio pelos homens envolvidos diretamente no tráfico e acabava por ser apropriado sobretudo pelos
cirurgiões que acompanhavam algumas das viagens marítimas e se fixavam em diferentes pontos dos domínios europeus, bem como por administradores e mercadores
especializados no comércio de escravos.
Assim por exemplo, no século XVIII, as indicações transcritas pelo padre Labat referentes ao tráfico haviam sido transmitidas a ele ora pelo Chevalier de Marchais, capitão de navios que realizavam a travessia entre diferentes portos africanos
e as colônias francesas das Antilhas, ora por André Brüe, administrador dos fortes
franceses do Senegal -lembrando, neste sentido, o detalhe relevante de que Labat
nunca, de fato, colocou os pés na África: "J'ay vu l'Afrique, mais je n'y ay jamais
49 Inês Zupanov, Missionary Tropics... p. 10-1. Com relação a esta aproximação ou plasticidade, Zupanov ressalta que, logo após a publicação dos Colóquios, e no sentido de conter
a "indigenização" dos portugueses na Índia e como um instrumento profilático, o Tribunal da Inquisição se implanta de maneira feroz em Goa (cerca de 16.100 processos),
aumentando os níveis de intolerância religiosa e cultural; o próprio Garcia Orta acabaria
por ser executado em 1580, não tanto por suas proposições médicas e flexibilidade diante
dos médicos nativos, mas pela suspeita de suas crenças religiosas. No entanto, demonstra
também que junto à Inquisição implantam-se medidas que interditam aos cristão-novos o
exercício da medicina, na Índia portuguesa. Sobre o assunto, Curar o corpo, sarar a alma:
a missão médica jesuítica na Índia do século XVI. Oriente (Revista Quadrimensal da Fundação Oriente), abril 2005. Disponível em: http://www.ineszupanov.com/publications/zupanov%200riente%202005.pdf. Acesso em agosto de 2008.
o IMPÉRIO POR ESCRITO
391
mis le piedso ': Nos finais do século XVIII, partes das instruções que Luis Antonio
de Oliveira Mendes formula foram apreendidas de um conhecimento geral que ele
observava tanto no "modo com que' os escravos curam na África os carbúnculos,
ou antrazes", como também na experiência que vinha dos proprietários de escravos:
"porque os senhores têm para si, que esta enfermidade deve seguir o seu curso,
saindo as Bexigas, enchendo e secando; e que se o escravo tiver de morrer, que assim virá a suceder; e se tiver de escapar, viverá"sl. Ou ainda dos conselhos a respeito
da doença banzo que lhe foram passados por um informante que o autor reputa
inquestionável:
Raimundo Jalama, sujeito de probidade, digno de toda crença, que conta oitenta anos de idade, e que por vezes navegara pela Ásia; homem muito pronto
e experimentado em cálculos, e projectos mercantis; e por dez anos, na cidade de S. Paulo de Luanda fora administrador do Contrato, e das Companhias
do Pará e Pernambuco: estava no exercício de comprar, e remeter ao Brasil,
para sortimento das ditas Companhias, um grande número de escravos em
todas as estações do ano. Ele me informou a respeito desta enfermidade, que
no tempo de sua administração, em um dos lotes comprados tivera certa
escrava, com uma filha de sete para oito anos...52
Termos e nomes de doenças em quimbundo que acabaram por ser incorporados aos vocabulários médicos brasileiros, talvez na sua versão popular: calombo,
caxumba, maculo e banzo, esta última, doença psicossomática provocada pelo tráfico
e pela escravidão: "um ressentimento entranhado", no dizer de Jacques Raimundo s3.
50 Jean-Baptiste Labat. Nouvelles Relations de I'Afrique Occidentale, contenant... Paris, Chez
Guillaume Cavelier, 1728, prefácio do volume 1.
51 Luis Antonio de Oliveira Mendes. Memória a respeito dos escravos e tráfico da escravatura
entre a costa d'África e o Brazil, apresentada à Real Academia das Ciências de Lisboa (1793) .
Porto, Publicações Escorpião, 1977, p. 80-81.
52 Luis Antonio de Oliveira Mendes. Memória a respeito dos escravos e tráfico da escravatura... p. 61 ; em outro trecho o autor retoma a experiência (mais significativa talvez) do
mesmo Jalama que, como Administrador do contrato de fornecimento de escravos, adota
uma série de medidas no sentido de diminuir as altas taxas de mortalidade do tráfico; idem
p.71-73.
53 Jacques Raimundo. O elemento afro-negro na língua portuguesa. Rio de Janeiro, Renascença Editora, 1933.
392
LEI LA MEZAN ALGRANTI E ANA PAULA TORRES MEGIANI (ORGS.)
Além dos manuais e dos receituários, um outro tipo de suporte ou forma a partir da qual o conhecimento endógeno é apropriado e difundido por entre as diversas
partes dos vários continentes interligados pela expansão, são as "listas" dos produtos vegetais e minerais categorizados e muitas vezes classificados por suas virtudes
medicinais. Verdadeiras farmacopeias, constituem inventários que resultam de longo
processo de observação dos "usos e costumes nativos", um saber que passa a ser incorporado e compilado, por exemplo, nos relatórios de funcionários coloniais. Entre
centenas deles, apresenta-se o rol que foi anotado possivelmente por José Francisco
Viera, em 1830, administrador dos redutos portugueses em Moçambique, intitulada
Relação das cascas e raízes medicinais que se produz no Distrito de Camineng e que os
pretos usam para diferentes curativos e plantas venenosas [e junto a ela, uma] Relação
dos instrumentos rústicos de ferro e pau que os pretos sabem fazer...
A raiz de Mafunda pelada, tomada a huma colher é boa para a esquinência e untando-se toda a parte atingida [...] A raiz de Donga, para inflamações no peito [...] A raiz de pao de Cobra para inchações e Rizipella
[pode ser também aplicada em clisteres] Mubango, para arpocas e febres;
Mubaffo para a asma... 54
Menções mais detalhadas aparecem também diretamente nos inventários realizados pelos viajantes naturalistas55, ou indiretamente, como um dos itens referentes aos
embargos dos navios negreiros realizados pelas autoridades inglesas que controlavam o
tráfico nos inícios do século XIX. Entre os objetos apreendidos do cargueiro Progresso, de
bandeira brasileira, proveniente de Moçambique e com cerca de 450 escravos a bordo, o
reverendo Pascoe Grenfell Hill anotava um rol de produtos, uma espécie de farmacopeia
negreira que misturava produtos da flora medicinal com composições metropolitanas:
The following is a nearly perfect list of the medicines provided for the
negroes, found on board of the Progresso when taken by the Cleopatra:
linseed (8 tbs) [linhaça]; marsh-mallow roots (6) [alteia]; Pearl Barney
(6) [cevadinha]; Camomile (6) [camomila]; Tamarind pulp (6) [polpa
de tamarindo]; Basilicum (6) [basílica]; Epson Slats (16) [sais de Ep54 Arquivo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB), Rio de Janeiro, Ordem DL
33,03, Coleção Vasconcellos Drumond.
55 Por exemplo, Auguste de Saint-Hilaire, Plantes usuelles des bresiliens. Paris, Grimbert Librairie, 1824.
o IMPÉRIO POR ESCRITO
393
som]; Gum Arabic (5) [goma arábica]; "Flor de Sabugueiro" (6) [idem];
Pommegranate rind (5) [casca de romã]; Mana (4) [idem]; Calumba (4)
[idem]; Ekectuario Ciühartico (4) [Catártico eletuário]; Cream ofTartar
(2) [Creme de tártaro]; Senna Leaves (2) [Folhas de Sena]; Ointment of
Cantharides (2) [Unguento de Cantáridas] etc56 •
Retomando as listas provenientes do saber popular, também se encontram anotações
sobre tais produtos publicados nos inícios do século XIX na imprensa Rio de JaneiroS7.
Voltando à época colonial, de todas as formas mencionadas, mas sobretudo em
seus receituários, no uso de produtos da terra e na assistência médica às populações
coloniais, também os jesuítas fizeram seu papel. No que tange a matéria médica, talvez a expressão máxima do diálogo entre tradições terapêuticas de diferentes procedências e a incorporação de produtos medicinais originários dos diferentes pontos
do império português seja a Coleção das Receitas Várias, famacopeia da Companhia
no Brasil que condensa a experiência dos inacianos adquirida no trato de colonos,
das populações nativas e dos escravosS8 • De autoria desconhecida, alguns estudiosos
consideram-na obra de feitura coletiva, outros, de um exímio irmão responsável pelo
sucesso da botica do Rio de Janeiro. Constitui, de fato, um grande compêndio no qual
se encontram reunidas receitas desenvolvidas nos vários colégios - Goa, Rio de Janeiro, Bahia, Luanda, Macau, Maranhão etc. -, acrescidas das que foram retiradas de
reconhecidos fármacos portugueses e das transportadas por cirurgiões vinculados diretamente ao comércio de escravos. Encontrava-se também aí revelada uma das receitas secretas mais prestigiadas do Novo e do Velho Mundo, a Triaga Brasílica, complexa
composição na qual se encontravam alguns artigos da flora medicinal brasileira - a
ipecacuanha, o jaborandi, a caroba, a caapeba etc. - indicada para diferentes tipos de
males: mordeduras de cobras, dores internas, lombrigas e humores corruptos, achaques da cabeça, pestes e doenças endêmicas, bexigas e sarampão, paralisias, epilepsias,
apoplexias e melancolia.
56 Pascoe Grenfell Hill, Fifty Days in Board a Slave- Vessel in the Mozambique Channel in April
and May, 1843. London, John Murray, 1844, p. 94; versão portuguesa em Grenfell Hill,
Cinquenta dias a bordo de um navio negreiro. Tradução Marisa Morrey. Rio de Janeiro, José
Olympio,2006.
57 Por exemplo, José Luiz de Godoy Torres. Matéria médica: mapa das plantas do Brasil, suas
virtudes e lugares em que florescem extraídos de ofícios de vários médicos e cirurgiões. O
Patriota, 4, agosto de 1814.
58 Fragmentos da farmacopeia jesuítica encontram-se transcritas em: Serafim Leite. Artes e
ofícios dos jesuítas no Brasil (1549-1760). Lisboa; Rio de Janeiro, Brotéria, 1953, p. 84-97.
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O império por escrito 1Leila Mezan Algranti, Ana Paula Torres Megiani, organizadores. - São Paulo: Alameda, 2009.
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