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Verminosos 04 - Verminosos por Futebol

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Verminosos 04 - Verminosos por Futebol
16 <
>
Fortaleza-CE, DOMINGO, 23 de MARÇO de 2008
fotos: TALITA ROCHA
Gol!
[+] CENAS DE UM
Concepção gráfica e design: amauricio cortez
APAIXONADo
> TUDO AZULGRENÁ. Em sua casa,
no Montese, Patrício Rocha
quebra rapidamente a
desconfiança inicial dos
visitantes de que seja
mesmo torcedor do
Tiradentes. Ele coleciona
várias camisas do Tigre da
PM, fotos de equipes do
passado, reportagens e
uma revista promocional.
TORCEDOR
> FEITO
INESQUECÍVEL.
Patrício guarda com carinho
um quadro da equipe que
esteve em campo na goleada
de 10 a 0 sobre o Calouros do
Ar pelo Estadual de 1995. Ao
seu lado, o pai Marcelo Rocha,
ex-jogador e ex-supervisor
do clube, “responsável”
pela paixão do rapaz pelo
Tiradentes.
SOLITÁRIO
< TIRADENTES> A série Verminosos por Bola apresenta hoje Patrício Trajano Rocha, um raro
torcedor do Tiradentes, da 2ª Divisão Estadual. Apaixonado pelo Tigre da PM, ele conta como é torcer
por um time acostumado a sofrer derrotas para os grandes de Fortaleza e cuja torcida caberia num fusca
Jogo do Tiradentes, no estádio Presidente Vargas. Não
importa o adversário, sobra
espaço onde Patrício Trajano
Rocha pode sentar-se no setor reservado aos adeptos de
seu time de coração. Um dos
raros torcedores do clube, hoje esquecido na 2ª Divisão do
Campeonato Cearense, o rapaz de 25 anos acostumou-se a
ser voz solitária nas arquibancadas. Segundo ele, o maior
número de torcedores do time
que já viu numa partida foram
cinco. “Só aparecem uns gatos
pingados, mesmo em jogos em
casa”, conta Patrício. A desvantagem numérica lembra o
velho ditado da torcida que, de
tão pequena, cabe num fusca.
“Se aglomerar direitinho, caberia até numa moto”, brinca.
A paixão de Patrício pelo
Tiradentes, fundado por policiais militares em 1961, surgiu
por influência do pai, Marcelo
Rocha, jogador do clube por
sete anos e supervisor durante
outros 35. Mal andava, o garoto já vestia a camisa azul-grená do chamado Tigre da PM.
Levado pelo pai, ele entrou
em campo como mascote ao
lado da equipe pela primeira
vez aos quatro anos, num jogo
no PV. O ritual se repetiu em
quase todos as partidas até os
seus 15 anos, quando a idade
tornou-se incompatível com
a função. “Eu era uma espécie
de torcedor de luxo. Assistia
aos jogos, era amigo dos jogadores e ainda entrava em campo”, relembra.
Com os anos, porém, Patrício percebeu que eram constantes as derrotas do clube
para os grandes da Capital
cearense - Ceará, Fortaleza
e Ferroviário. “Como eu era
muito novo, não tinha noção
de que torcia para um time
mediano”, explica. No tempo
de colégio, a marcação dos colegas era cerrada. “Quando o
Tiradentes perdia, todo mundo tirava sarro. Às vezes dava
vontade de nem ir para a aula,
o jeito era entrar na sala bem
caladinho”, relata o rapaz, hoje administrador de empresas
e secretário da comissão de
arbitragem da Federação Cearense de Futebol (FCF).
Nas ruas, Patrício sempre
ouve risinhos de deboche
após dizer que torce para o
[ ] PARA
+
Tristeza com má fase da equipe
acervo pessoal
especial
verminosos por bola
2
Rafael Luis
da Redação
> MASCOTE
OFICIAL. Na infância,
Patrício Rocha entrou em
campo como mascote do
Tiradentes centenas de
vezes. Talismã do time, ele
viajava com a delegação,
ficava na concentração e era
tratado como um torcedor
de luxo. Na foto, de 1990,
ele tem oito anos e é o
garoto da esquerda.
> QUASE
CELEBRIDADE.
Na sede do Tiradentes, no
Antônio Bezerra, Patrício
Rocha é conhecido de todos.
Afinal, o torcedor aparece
em quase todas as fotos
de equipes do passado que
adornam as paredes do
clube. Quem não o conhece
pessoalmente, ao menos
já ouviu falar nele.
ENTENDER
Verminoso
Termo genuinamente cearense,
caracteriza pessoa apaixonada
ao extremo por algo. Em outras
regiões do País, tem o mesmo
significado de viciado, fissurado,
louco, maluco, doido, fanático,
doente, fominha ou tarado.
[ ] ACOMPANHE +
> ORGULHO DE
TORCEDOR. Uma
parada para foto na fachada
da sede do Tigre da PM.
Para não perder a piada, ele
provoca os grandes Ceará e
Fortaleza, cujas sedes são de
propriedade de associações
de torcedores. “O Tiradentes
é pequeno, mas pelo menos é
dono de sua sede”, alfineta.
A SÉRIE
A série, publicada aos domingos,
já destacou Carlôto Barbosa
(Ceará), dona Ivone (Ferroviário)
e Walber Nogueira (Fortaleza).
!
>> FALE COM A GENTE
Você conhece alguém tão apaixonado por
futebol quanto o Patrício Trajano Rocha?
Escreva para a gente que o torcedor
(ou torcedora) pode virar um personagem
da série Verminosos por Bola.
[email protected]
Patrício Rocha lamenta a
decadência que vive o Tigre da
PM. O clube disputou todas as
edições do Campeonato Cearense
entre 1969 e 2002, quando caiu
para a 2ª Divisão. A equipe ainda
voltou para a 1ª Divisão em 2005,
mas foi rebaixada novamente no
mesmo ano, sem perspectiva de
retorno para a elite estadual. “O
Tiradentes já foi o segundo time
do cearenses. Hoje, como só joga
dois meses por ano e sempre
fica entre os últimos, acabou
esquecido”, situa.
Uma contradição para um
clube que possui renda garantida
de R$ 34 mil todos os meses,
fruto da contribuição voluntária
de policiais militares no contracheque. “Más administrações
acabaram com o Tiradentes. O
time despencou quando passou
a acompanhar os grandes na
política de desvalorizar a pratada-casa e contratar jogadores de
outros estados”, avalia.
O time profissional já está
Tigre da PM, como O POVO
constatou durante a sessão de
fotos no Presidente Vargas. O
preconceito é tão latente que,
segundo ele, às vezes vira
compaixão. “Quem for torcedor do Tiradentes nem paga
ingresso, pois os bilheteiros
têm pena e deixam você entrar de graça”, revela.
Para aumentar a representatividade da torcida, o rapaz
já fez de tudo. Em alguns jogos, ele costuma levar amigos
torcedores de outros times,
para fazer número. Na busca
de outros adeptos do Tigre,
em outubro de 2006 ele criou
uma comunidade em homenagem ao clube no site de relacionamento Orkut. Até hoje
Patrício é o único integrante.
“É tão difícil encontrar um
torcedor do Tiradentes que,
quando isso ocorre, é como se
eu me olhasse no espelho”.
lembro até hoje da escalação”,
orgulha-se. O ano de 1992
também foi marcante, com
o título conquistado no tapetão e dividido com Fortaleza,
Ceará e Icasa. “Acompanhei o
julgamento pelo rádio. Como
nunca ganhávamos nada, comemorei como se fosse uma
vitória dentro de campo”.
Para seu azar, Patrício não
assistiu à maior vitória do Tiradentes em todos os tempos:
a goleada de 10 a 0 sobre o Calouros do Ar, pelo Estadual de
1995, no estádio Elzir Cabral.
Por achar que a partida não seria interessante, preferiu ficar
em casa. Acabou se arrependendo para sempre. “Essa foi
uma das maiores frustrações
na minha vida esportiva”.
Raras alegrias
As duas décadas de arquibancada de Patrício foram de
poucas alegrias. Mas quando
vieram, foram bastante festejadas. Para o torcedor, a campanha mais memorável foi
a do Campeonato Cearense
de 1988, quando o Tiradentes
conquistou um turno com vitória diante do Ferroviário e
sagrou-se vice-campeão estadual. “Aquele era um timaço,
> Pai de Patrício, Marcelo Rocha foi
lateral-direito do Tiradentes entre
1965 e 1972, quando encerrou a
carreira. A partir daí até o ano de
2007, foi supervisor do Tigre da PM.
parado há oito meses, desde
a eliminação na primeira fase
da 2ª Divisão de 2007. A última
partida foi a vitória de 3 a 2 sobre
o Caucaia, num PV às moscas.
“Naquele jogo, fomos ao estádio
meu pai e eu e mais dois amigos,
que levamos para reforçar a
torcida. Éramos apenas nós,
além de alguns familiares de
jogadores”, busca na memória.
Até Marcelo Rocha se
impressiona com a paixão do
filho pelo Tiradentes. “Mesmo
eu, que trabalhei no clube
durante quatro décadas,
nunca virei torcedor. Sempre
tive amor de funcionário”,
admite o ex-jogador,
torcedor do Ferroviário.
Apesar da má fase do
Tigre, Patrício promete
continuar fiel ao time,
independente da
divisão em que esteja.
“Nunca pensei em
desistir de torcer
pelo Tiradentes”. (RL)
> O avô materno de Patrício,
Vicente Trajano, foi volante do
Ferroviário nos anos 50 e depois
virou técnico. Treinador do
Tiradentes em parte do Estadual
de 1992, ele morreu em 1999.
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