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Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John Mason

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Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John Mason
DOI: 10.5212/TerraPlural.v.7iEspecial.0002
Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John
Mason Clarke, em 1913
Remarks on the age of the fossils described by John Mason
Clarke, in 1913
Comentarios sobre la edad de los fósiles descritos por John
Mason Clarke, en 1913
Yngve Grahn
[email protected]
Stockholm University
Rodrigo Scalise Horodyski
[email protected]
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Elvio Pinto Bosetti
[email protected]
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Resumo: Fósseis de três localidades na sub-Bacia de Apucarana (Bacia do Paraná)
descritos por John Mason Clarke no seu trabalho de 1913 são comumente considerados
na literatura como de idade Emsiano (±407.3 ma a ±393.3 ma). No entanto, estes fósseis
constituem associações malvinocáfricas de idades entre Neopraguiano-Eoemsiano
(±410 ma a ±405 ma) em Jaguariaíva e Ponta Grossa (Vila Placidina) e Eifeliano (±390
ma) em Tibagi (Estância Recreio).
Palavras-chave: Invertebrados. Neopraguiano-Eoemsiano. Eifeliano. Formação Ponta
Grossa. Formação São Domingos.
Abstract: Fossils from three localities in the Apucarana Sub-basin (Paraná Basin)
investigated by Clarke in his 1913 paper have commonly been considered as Emsian
(±407.3 My to ±393.3 My) In this paper they are demonstrated to be a characteristic
Malvinokaffric fauna of a latest Pragian to early Emsian (±410 My to ±405 My ) age at
two localities (Ponta Grossa - Vila Placidia and Jaguariaíva), and Eifelian (±390 My) at
one locality (Tibagi - Estância Recreio).
Keywords: Invertebrates. Latest Pragian-early Emsian. Eifelian. Ponta Grossa
Formation. São Domingos Formation.
[email protected], Ponta Grossa, v.7, Número Especial, p. 17-24, jul./dez. 2013.
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Yngve Grahn; Rodrigo Scalise Horodyski; Elvio Pinto Bosetti
Resumen: Los fósiles de tres localidades en la Subcuenca de Apucarana (Cuenca
de Paraná) investigados por Clarke en su trabajo de 1913 han sido frecuentemente
considerados como de edad Emsiano (±407.3 ma a ±393.3 ma). En este trabajo
demostramos que se trata de una fauna Malvinokáfrica característica de edad Pragiano
más tardío a Emsiano temprano (±410 ma a ±405 ma) en dos de las localidades (Ponta
Grossa - Vila Placidia y Jaguariaíva), y Eifeliano (±390 ma) en la otra localidad (Tibagi
- Estáncia Recreio).
Palabras clave: Invertebrados. Pragiano más tardío-Emsiano temprano. Eifeliano.
Formación Ponta Grossa. Formación São Domingos.
Introdução
No ano de 1876 Luther Wagoner, explorador da Comissão Geológica do Império
do Brasil constituída pelo governo do Imperador D. Pedro II e coordenada pelo naturalista canadense Charles Friederich Hartt entre os anos de 1875 e 1877, coletou fósseis
nas cidades de Ponta Grossa e Tibagi na sub-Bacia de Apucarana (Bacia do Paraná, no
estado homônimo). Posteriormente, em 1877, o geólogo Orville Adelbert Derby, auxiliar
imediato de Hartt, visitou os afloramentos de Wagoner em Ponta Grossa para coleta de
dados adicionais.
A geologia do Devoniano da sub-Bacia de Apucarana foi descrita pela primeira
vez por Derby (1878), e segundo White (1908), Wagoner publicou uma nota sobre a geologia e a fisiografia do Paraná e de Santa Catarina também em 1878. Acredita-se que
nesta nota estejam referidas as localidades exatas da coleta, no entanto, este trabalho não
pôde ser consultado por Lange (1954) quando publicou seu criterioso histórico sobre as
pesquisas no Paraná e essa situação permanece até os dias de hoje.
No ano de 1888 o geólogo Luiz Felipe Gonzaga de Campos coletou fósseis em Jaguariaíva (PR) que foram correlacionados por Derby com o material devoniano coletado
anteriormente em Ponta Grossa (LANGE, 1954). Todos esses fósseis foram então enviados para John Mason Clarke, paleontólogo do Estado de Nova Iorque (New York State
Museum, Albany) para as devidas descrições. Em 1890, Clarke faz referências a alguns
trilobitas de Jaguariaíva, mas, apenas em 1913, o pesquisador publica a obra completa
(Fósseis Devonianos do estado do Paraná) que foi o trabalho pioneiro em estudos paleontológicos devonianos na sub-Bacia de Apucarana. A monografia trata dos fósseis coletados
em três localidades, quais sejam: Ponta Grossa, Tibagi e Jaguariaíva, todas consideradas
de idade relativa aos “primeiros estadios da Devoniana” pelo autor. Posteriormente a
isso, idades mais precisas dessas camadas foram definidas por Lange e Petri (1967) e
Grahn et al. (2013).
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Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John Mason Clarke, em 1913
Localidades de Clarke 1913
As localidades originais de Jaguariaíva e Tibagi são reconhecidas na atualidade
apenas por inferência às proximidades dos antigos centros urbanos desses municípios.
Em Ponta Grossa, os afloramentos localizavam-se a 5 km a sudoeste do centro da cidade
no ano de 1878, mas, devido à expansão urbana, estas áreas foram perdidas. No entanto,
por analogia, estas camadas sedimentares estão posicionadas estratigraficamente no trato de sistemas transgressivo da Formação Ponta Grossa sensu Grahn et al. (2013).
Seção Jaguariaíva (Figuras 1, 2A), 24° 14’ 49.92’’ S, 49° 43’ 18.70’’ W
Figura 1 - Mapa de localização dos fósseis investigados por Clarke na sub-Bacia de Apucarana.
Trata-se da Seção Tipo do Membro Jaguariaíva da Formação Ponta Grossa sensu
Lange e Petri (1967), e lectoestratótipo (agora considerado como neoestratótipo) da
Formação Ponta Grossa sensu Grahn et al. (2013). A seção de Jaguariaíva está exposta ao
longo da linha da Estrada de Ferro Central do Paraná Km 2.2 a Km 6.6 sentido JaguariaívaArapoti (altitude 860 a 960m). A fauna encontrada neste afloramento é representante do
contexto paleobiogeográfico do Domínio Malvinocáfrico (RICHTER e RICHTER, 1942).
Os palinomorfos (quitinozoários, acritarcos e miósporos) (Figura 3) indicam a idade
[email protected], Ponta Grossa, v.7, Número Especial, p. 17-24, jul./dez. 2013.
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Yngve Grahn; Rodrigo Scalise Horodyski; Elvio Pinto Bosetti
entre o Neopraguiano a Eoemsiano (Figura 4) da Zona PoW Su de esporos, e na transição
entre a zona de quitinozoários Ramochitina magnifica e Ancyrochitina pachycerata. Estes
palinomorfos são sumarizados e discutidos por Grahn et al. (2013).
Figure 2 - Fotos das localidades originais. A. Seção de Jaguariaíva. Arquivo UEPG . B. Estáncia Recreio.
Foto pessoal de Elvio P. Bosetti 2008. C. Ponta Grossa (Vila Placidina). Foto de Daniel Sedorko 2013.
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Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John Mason Clarke, em 1913
Estância Recreio (Figuras 1, 2B), 24º31’28’’S, 50º27’28’’W
Seção tipo do Membro Tibagi da Formação Ponta Grossa sensu Oppenhein (1936),
e unidade D3 de Lange e Petri (1967). Esta localidade não está mais acessível, mas localiza-se próximo ao arroio São Domingos de Baixo, cerca de 6,5 Km a oeste de Tibagi e a
cerca de 300m à direita da estrada de acesso ao bairro de São Domingos (Figura 1, 2B).
Essas camadas são empobrecidas em elementos malvinocáfricos, e obviamente, inclui
estratos não relacionados ao Membro Tibagi como originalmente definido por Oliveira
(1912). As litologias e a composição faunística sugerem que estão posicionados na parte
inferior/média da Formação São Domingos sensu Grahn et al. (2013). Palinomorfos não
são facilmente encontrados nessas camadas, devido à litologia inadequada (arenitos). As
rochas datam do início do Neoeifeliano (GRAHN et al., 2013) e estão posicionadas nas
Zonas Per de esporos e Alpenachitina eisenacki de quitinozoários (Figura 4).
Figure 3 - Palinomorfos da seção de Jaguariaíva e Vila Ana Rita. A barra de escala representa 45 µm.
Todas as ilustrações (exceto J−L) são provenientes da seção de Jaguariaíva (para detalhes veja Grahn et al.
2013). Figuras A,B,D e H mostram acritarcos. Figuras C,E e J−L quitinozoários. Figuras F,G e I esporos.
A. Cordobesia uruguayensis (Martinez−Macchiavello) Pöthe de Baldis 1977. Nível de 51 m, S31/3. B.
Pterospermella reticulata Loeblich & Wicander 1976. Nível de 87.4 m, N41/4. C. Ramochitina cf. Ramochitina
magnifica (Lange 1967). Nível de 44 m, P30/1. D. Bimerga paulae Le Hérissé 2011. Nível de 81.2 m, O23c. E.
Ramochitina magnifica Lange 1967. Nível de 42.1 m, P13/3. F. Apiculiretusispora plicata (Allen) Streel 1967.
Nível de 82.5 m, P19c. G. Dictyotriletes richardsonii Steemans 1989. Nível de 57.2 m, P10/1. H. Estiastra
spinireticulata Oliveira & Burjack 1990. Nível de 57.8 m, O32/4. I. Knoxisporites riondae Cramer & Diez
1975. Nível 57.8 m, E27/4. J. Ancyrochitina bioconstricta (Lange 1949). Vila Ana Rita. K. Ancyrochitina
bioconstricta (Lange 1949). Vila Ana Rita. L. Ancyrochitina bioconstricta (Lange 1949). Vila Ana Rita.
[email protected], Ponta Grossa, v.7, Número Especial, p. 17-24, jul./dez. 2013.
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Ponta Grossa, Afloramento Vila Placidina (Figuras 1, 2C), 25° 10’ 39” S, 50° 15’ 91” W
Esta localidade agora está encoberta pela pavimentação urbana, porém foi
temporariamente exposta em 2013 (Figuras 1, 2C). A macrofauna presente está inserida na
Formação Ponta Grossa (sensu GRAHN et al., 2013) e apresenta as características descritas
por Clarke. No Afloramento Vila Ana Rita (25º04’17’’S, 50º09’59’’W), próximo ao local
supracitado, Lange (1949) descreve Ancyrochitina biconstricta (Cladochitina biconstricta),
espécie de quitinozoário (Figura 3 J-K-L) que ocorre durante o Emsiano (GRAHN,
2011). Os quitinozoários e os macrofósseis encontrados indicam idade Neo Praguiano
terminal a Eo Emsiano (PoW Su spore Zone e na transição entre a zona de quitinozoários
Ramochitina magnifica e Ancyrochitina pachycerata (Figura 4).
Figure 4 - Diagrama de localização dos fósseis. 1. Zona de esporo após Melo e Loboziak (2003). 2. Zona
de quitinozoários após Grahn et al. (2013). 3. Zona informal após Grahn et al. (2010).
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[email protected], Ponta Grossa, v.7, Número Especial, p. 17-24, jul./dez. 2013.
Observações sobre as idades dos fósseis descritos por John Mason Clarke, em 1913
Conclusões
As idades mais precisas dos fósseis descritos por Clarke (1913) foram aqui apresentadas. Os fósseis constituem associações Malvinocáfricas de idades entre Neopraguiano-Eoemsiano em Jaguariaíva e Ponta Grossa (Vila Placidina) e Eifeliano em Tibagi (Estância Recreio).
Agradecimentos
Yngve Grahn agradece ao Grupo PALAIOS pelas fotos e informações sobre os
fósseis e as localidades descritas por Clarke. Rodrigo S. Horodyski agradece ao Conselho Nacional de Tecnologia e Desenvolvimento Científico (CNPq) pela bolsa concedida
(141256/2010-9). Elvio Pinto Bosetti agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo financiamento dos projetos 401796/2010-8 e
479774/2011-0.
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Recebido em 07/10/2013
Aceito para publicação em 02/12/2013
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[email protected], Ponta Grossa, v.7, Número Especial, p. 17-24, jul./dez. 2013.
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