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Potenciais relacionados a eventos (ERP)

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Potenciais relacionados a eventos (ERP)
Ciências & Cognição 2008; Vol 13 (2): 03-13 <http://www.cienciasecognicao.org>
© Ciências & Cognição
Submetido em 19/05/2008 | Revisado em 25/07/2008 | Aceito em 28/07/2008 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line em 31 de julho de 2008
Artigo Científico
Potenciais relacionados a eventos (ERP) revelam o curso da
derivação sintática e a dinâmica da integração entre
micromódulos de cognição de linguagem
Event-related brain potentials (ERP) reveal the course of syntactic derivation and the
dynamics of integration among micromodules of language cognition
Aleria Cavalcante Lagea, b, , Miriam Lemlea, Aline da Rocha Gesualdic, Maurício
Cagyd, e e Antonio Fernando Catelli Infantosid
Programa de Pós-Graduação em Lingüística e bDepartamento de Lingüística, Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; cDepartamento de
Engenharia Elétrica, Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET) Celso Suckow da
Fonseca, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; dPrograma de Pós-Graduação em Engenharia
Biomédica, COPPE, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil; eCentro de Ciências
Médicas (CCM), Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
a
Resumo
Este é um estudo em Neurociência da Linguagem conduzido a partir do modelo teórico
Minimalismo, da Gramática Gerativa. Utilizando a técnica de extração de potenciais
relacionados a evento (ERPs), em experimento com 29 sujeitos normais, investigamos a
neurofisiologia da concatenação (merge) do sujeito e testamos a hipótese bottom-up da
derivação de sentença, que postula que primeiramente o verbo se concatenaria ao seu
complemento, e depois o composto verbo-complemento se concatenaria ao sujeito. Assim, a
ordem do curso da derivação, ou seja, das tarefas cognitivas na computação de linguagem,
seria diferente da ordem linear dos constituintes na sentença. Os resultados experimentais
ajudaram a entender sobre o curso da derivação sintática e a dinâmica da integração entre
micromódulos envolvendo cognição de linguagem. © Cien. Cogn. 2008; Vol. 13 (2): 03-13.
Palavras-chave: computação em linguagem humana; potenciais relacionados a
evento; neurociência da linguagem; cursos bottom-up e top-down da derivação
sintática; propriedade de animacidade; traço de gênero; sujeito.
Abstract
This is a Neuroscience of Language study conducted under the theoretical framework
Minimalism, of Generative Grammar (Chomsky, 1995, 1999). Using the extraction of eventrelated brain potentials (ERPs) technique, in an experiment with 29 normal subjects, we
investigated the neurophysiology of subject merge and tested the bottom-up hypothesis of the
sentence derivation, which postulates that first the verb would merge to its complement, and
then the complex verb-complement would merge with the subject. Thus, the order of the
derivation course, that is, of the cognitive tasks in the computation of language, would be
different from the linear order of the constituents in the sentence. The experimental results
have helped the understanding about the course of the syntactic derivation and the dynamics of
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Ciências & Cognição 2008; Vol 13 (2): 03-13 <http://www.cienciasecognicao.org>
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interaction among micromodules involving language cognition. © Cien. Cogn. 2008; Vol. 13
(2): 03-13.
Keywords: computation in human language; event-related brain-potentials;
neuroscience of Language; bottom-up and top-down syntactic derivation
course; animacy feature; gender feature; subject.
1. Introdução
Com a revolução trazida pela Gramática Gerativa (Chomsky, 1957), algumas
características muito especiais da linguagem passaram a ser conhecidas no mundo. Entre as
mais interessantes está a relação especial mantida entre o verbo e seus argumentos: o
argumento interno (objeto) e o argumento externo (sujeito). Por que argumento interno e
externo? Chomsky (1981, 1995, 1999) observou que o objeto direto mantinha uma relação
mais próxima com o verbo – daí argumento interno – do que com o sujeito, o argumento
externo. Observe os exemplos (1), (2) e (3):
(1) Maria cortou o bolo;
(2) Maria cortou o pé;
(3) *Maria cortou a lua.
Os argumentos internos em (1) e (2), respectivamente o bolo e o pé, são bons
complementos para o verbo cortar porque ambos, apesar dos seus diferentes significados,
podem passar pela mesma mudança de estado prevista pelo verbo: alguma coisa que pode ir
do estado de intacto a cortado (França, 2006). Contrastivamente, (3) é incongruente, porque o
argumento interno intencionado, a lua, não pode passar pelo mesmo tipo de mudança de
estado.
Agora vamos no deter no argumento externo, Maria, que é o mesmo em (1) e (2). Em
termos semânticos, em (1) Maria é claramente o agente da ação, aquele que a desempenhou.
Mas um contraste radical acontece. Observe que em (2) o argumento externo não é um agente.
O sujeito tem que ser interpretado como aquele que sofreu a ação, isto é, o paciente.
A conseqüência imediata destas observações é que para as sentenças (1) e (2) serem
interpretadas apropriadamente, as concatenações (merges) que ocorreram têm que ter seguido
o curso bottom-up (de baixo para cima), da direita para a esquerda, de dentro para fora, ou
seja, na ordem contrária à dos constituintes na sentença. Primeiro, o verbo é concatenado ao
argumento interno, gerando uma leitura específica; então, o argumento externo é concatenado
ao composto verbal, isto é, verbo + argumento interno.
A interpretação do argumento externo, na segunda concatenação, seja como agente ou
paciente, dependerá da interpretação implementada na primeira concatenação. Em todas as
línguas neolatinas – ou línguas românicas: português, italiano, francês, espanhol, catalão,
romeno, sardo e provençal – e em muitas outras, inclusive inglês, a ordem canônica dos
constituintes na sentença é SVO (Sujeito–Verbo–Objeto). Isto significa que a ordem do input
para ouvintes ou leitores será primeiro o sujeito, depois o verbo e por último o objeto, mas, de
alguma forma, para propósitos de interpretação semântica, a sentença terá que ser derivada no
cérebro considerando primeiro o objeto.
Desde o início da Gramática Gerativa, nos anos 50, estas têm sido algumas conclusões
lógicas alcançadas por lingüistas desta área (Chomsky, 1957, 1981, 1995, 1999; e seus
inúmeros seguidores, como Poeppel, Marantz, França), baseadas na introspecção e na
observação bem de perto do output de um grande número de línguas, de diferentes famílias
lingüísticas. Por 30 anos, a falta de protocolos não invasivos para a observação de cognição
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de linguagem gerou barreiras intransponíveis para a investigação de linguagem saudável no
cerébro.
Entretanto, nos anos 80, esta situação finalmente se modificou com estudos
neurolingüísticos utilizando a técnica de extração de ERP – potencial relacionado a evento
(Kutas, Hillyard, 1980, 1984). Através do método não invasivo de aquisição de sinais
elétricos por meio de eletroencefalógrafo, tais estudos trouxeram evidência neurofisiológica
de fenômenos lingüísticos.
Estes anos de investigação lingüística com extração de ERP reuniram para a área
algum conhecimento sólido sobre respostas eletrocorticais em relação à computação
lingüística. Um tema muito estudado foi o impacto da tentativa de interpretação de argumento
interno incongruente em relação à seleção semântica do verbo, sendo este impacto
relacionado a um potencial elétrico negativo de amplitude elevada e com uma latência de
400 ms após o trigger (palavra-alvo). Este ERP veio a ser conhecido como N400 e foi
associado a sentenças como (4), nas quais a seleção verbal não podia ser derivada por causa
da semântica do argumento interno, que não atendia aos requisitos do verbo.
(4) *Maria comeu sandália.
Mais tarde, nos anos 90, o N400 foi melhor compreendido, e foi associado a qualquer
concatenação regular de verbo + complemento. Porém, um esforço mais intenso para
concatenar ao verbo um objeto incongruente gerava um N400 de amplitude mais alta. Muitos
estudos têm mostrado dados robustos quanto a ERPs de amplitude mais acentuada serem
causados por um esforço computacional aumentado ao concatenar verbo a um argumento
interno não selecionado pelo verbo (Kutas e Hillyard, 1980, 1984; Osterhout e Holcomb,
1995; Friederici, 1999; Hickok e Poeppel, 2000; França, 2002; Lage, 2005).
Outro ERP também conhecido pela pesquisa neurolingüística é o P600 ou SPS,
syntactic positive shift (troca positiva sintática – no sentido de mudança de polaridade).
Trata-se de um potencial de polaridade positiva que emerge aproximadamente aos 500 ms
depois do trigger e pode ainda durar cerca de 300 ms. O P600 é associado à computação
sintática (Kaan et al., 2000) e normalmente tem uma amplitude mais acentuada em se tratando
de violação sintática, isto é, de esforço sintático ao tentar reintegrar o elemento que sofreu
violação (Neville et al., 1991; Osterhout e Holcomb, 1992; Hagoort et al., 1993; Osterhout et
al., 1994). A violação sintática pode dizer respeito a fenômenos diferentes, como
concordância verbal – por exemplo, Ele dormi (Wassenaar et al., 2004).
Nosso estudo está voltado para a concatenação do sujeito, ainda pouco estudada em
termos neurofisiológicos. Manipulamos a congruência semântica do sujeito para podermos
observar os fenômenos eletrocorticais que supostamente acontecem na janela temporal
subsequente àquela da concatenação verbo-complemento.
1.1. Questões e predições do estudo
A Teoria Lingüística (Chomsky, 1995, 1999) assume que o curso da derivação
sintática é bottom-up. Logo, sendo a ordem canônica do português S-V-O (sujeito-verboobjeto), a derivação não pode, logicamente, seguir a ordem linear dos constituintes. Em
Lage (2005), que trata de uma série de experimentos com extração de ERP, realizamos um
estudo que investigou o curso da derivação sintática, em particular com manipulação da
propriedade de animacidade do nome com função gramatical de sujeito, isto é, do traço
intrínsico de gênero [± animado] deste nome. Os resultados apontaram para a confirmação da
hipótese bottom-up.1
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Agora, em uma nova versão deste experimento, testamos novamente o curso bottomup da derivação, também manipulando a congruência semântica do sujeito através do seu
traço [± animado], porém desta vez considerando o trigger no verbo e uma janela temporal de
2000 ms a contar da palavra-alvo. Assim, poderíamos investigar os fenômenos lingüísticos a
contar da computação do verbo, indo até a interpretação da frase como um todo, verificando
se procederia o curso bottom-up da derivação e mais detalhes sobre a computação do sujeito e
a sua concatenação
Para isso, empregamos sentenças em português do Brasil como (5), com sujeito
semanticamente congruente, e (6), com sujeito semanticamente incongruente:
(5) O menino chutou a bola
(6) *A cadeira chutou a bola
Tendo em vista uma sentença incongruente do tipo (6), em que um item lexical com
traço [– animado] enquanto agente do verbo (chutar) não é semanticamente plausível, a
predição era de que a tentativa de integração semântica deste sujeito incongruente, logo após a
sua concatenação ao composto verbo-complemento, requereria um esforço cognitivo maior,
que seria marcado por um efeito eletrocortical mais intenso em forma de ERP de amplitude
acentuada, e este ERP surgiria depois do ERP (N400) correspondente à concatenação verboobjeto.
2. Metodologia2
O experimento neurolingüístico
Recrutamos somente sujeitos normais: 29 graduandos da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, entre eles 15 homens. Durante a apresentação dos estímulos lingüísticos, os sinais
eletrocorticais dos sujeitos experimentais eram adquiridos por meio de um programa
computacional especial, desenvolvido no Matlab – do MathWorks, Inc., e um
eletroencefalógrafo digital, onde foram conectados os cabos dos eletrodos. Os eletrodos foram
posicionados no escalpo do sujeito obedecendo ao Sistema Internacional 10-20. Os sinais
foram adquiridos de 20 derivações: PF1, PF2, Fz, F3, F4, F7, F8, Cz, C3, C4, Pz, P3, P4, T3,
T4, T5, T6, Oz, O1, O2, além do aterramento e dois pontos de referência nos mastóides.
Trabalhamos com estímulos do português do Brasil, sendo 40 como a sentença (5) e
outros 40 como a (6). A tarefa do sujeito experimental era julgar a plausibilidade semântica
das sentenças, pressionando um botão de um joystick para as sentenças congruentes e outro
botão do joystick para as incongruentes.
Cada palavra aparecia na tela do monitor do sujeito por exatamente 200 ms. O trigger
era sempre posicionado no verbo. E usamos uma janela temporal de 2000 ms, isto é,
processamos os sinais adquiridos durante 2000 ms desde o deflagração do trigger.
Durante a estimulação lingüística, o programa de apresentação de estímulos
(Presentation – do Neurobehavioral Systems, Inc.) mandava pulsos (ondas irregulares criadas
por computador) para o programa de aquisição de sinais3, informando o instante exato da
apresentação de cada palavra.
Depois de adquirirmos os sinais digitais, eles passaram pela etapa de processamento
de sinais, para a extração de ERP (event-related brain potentials – potenciais relacionados a
evento). Através das técnicas de filtragem e grand-average (grande média), os sinais são
tratados matematicamente. E grand-average é a onda resultante considerando todos os
sujeitos experimentais.
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O tratamento estatístico também foi realizado, para que os resultados pudessem ser
validados. O Running t-Test (Hagoort et al., 2004a, 2004b) foi aplicado no sinal diferencial,
em cada instante no tempo nos traçados de EEG e considerando todos os sujeitos. Os
resultados que serão aqui apresentados foram atestados estatisticamente.4
3. Resultados e discussão
Em experimentos com extração de ERP, a latência das ondas é referenciada ao instante
da apresentação da palavra-alvo. E a sua amplitude, que retrata a intensidade da atividade
cortical, é a medida dos esforços para a integração sintática ou semântica (Kutas e Hillyard,
1980, 1984; Osterhout e Holcomb, 1995; Friederici, 1999; Hickok e Poeppel, 2000; França,
2002).
Na figura 1, vemos os gráficos plotados a partir das principais derivações para um
estudo lingüístico: Cz, C3, C4, Pz, P3 e P4. O traçado de EEG de linha grossa em cada um
dos gráficos se refere ao output elétrico associado à computação de sentenças congruentes,
como (5); o de linha fina, à computação de sentenças incongruentes, como (6). A ordenada
representa a linha do tempo, ou a latência da onda, e cada ponto na ordenada se refere a
200 ms. A abscissa representa a voltagem (em microvolt) ou a amplitude da onda.
Figura 1 – Grand-averages dos potenciais relacionados a eventos (ERPs) das principais
derivações. Linha grossa, o menino chutou a bola; linha fina, a cadeira chutou a bola. Em
cada gráfico: a ordenada representa a linha do tempo (ms); a abscissa representa a voltagem
(μv) dos registros.
A figura 2 apresenta o gráfico em tamanho maior da derivação Cz, que servirá como
modelo para análise mais detalhada, especialmente dos trechos delimitados pelos retângulos
numerados.5
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Figura 2 – Grand-averages dos potenciais relacionados a eventos (ERPs) extraídos de Cz.
Retângulos numerados (1-5) representam detalhes explicados no texto. No gráfico a ordenada
representa a linha do tempo (ms) e a abscissa representa a voltagem (μv) dos registros.
Como se pode ver nos gráficos presentes nas figuras 1 e 2, há diferenças de amplitude,
estatisticamente significativas, entre os ERPs apresentados em linha grossa e em linha fina,
desde os 200 ms após a estimulação do verbo. Considerando que aos 200 ms a única variável
experimental era a propriedade de animacidade do sujeito, genêro [+ animado], o menino, e
gênero [– animado], a cadeira, este traço é, logicamente, o candidato a ter causado os efeitos
eletrofisiológicos que vemos dentro do retângulo 1 na figura 2. O retângulo 1 está associado
ao acesso lexical do primeiro constituinte das sentenças, o nome que tem a função gramatical
de sujeito, e que não poderia ser integrado sintaticamente de imediato, pois não teria surgido
ainda uma outra palavra. Por que existe uma diferença de amplitude entre os ERPs deste
ponto, que é anterior à primeira concatenação? Nossa explicação para este fenômeno implica
em um pouco de heurística de linguagem. O fato de os sujeitos serem freqüentemente agentes,
e os agentes serem raramente inanimados, poderia justificar o sujeito inanimado ser associado
ao ERP de amplitude aumentada. Um nome inanimado preenchendo a posição sintática de
sujeito causaria um esforço cognitivo intenso, traduzido pela amplitude acentuada do ERP
correspondente. Outros estudos enfocando a extração de ERP a partir de estímulos
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manipulando o traço de animacidade precisam ser conduzidos como complemento deste, para
que se consolide esta interpretação.
Agora, vamos voltar nossa atenção para o retângulo 2, na figura 2. Se o curso da
derivação sintática fosse top-down, este deveria ser o momento em que o sujeito se
concatenaria ao verbo e se integraria a ele semanticamente. E como havia um efeito
provocado aos 200 ms pelo traço de animacidade do sujeito, este efeito certamente se
estenderia até esta suposta integração semântica, cerca de 400 ms após o verbo, aparecendo
em forma de um ERP de amplitude mais elevada, por conta do esforço cognitivo maior ao se
tentar integrar semanticamente um sujeito que não era apropriado ao verbo (a cadeira chutar).
Entretanto, os trechos dentro do retângulo 2 revelam ERPs perfeitamente sobrepostos
aos 400 ms. Esta é uma primeira indicação de que não acontece derivação top-down.
A despeito do acesso lexical ao sujeito, em torno dos 200 ms, incluindo o acesso ao traço de
animacidade, não parece existir qualquer integração semântica do sujeito com o verbo, a qual
seria subseqüente à concatenação sujeito-verbo. Desta forma, dentro do retângulo 2, parece
que há simplesmente o acesso lexical ao verbo, a interpretação da palavra per se.
No retângulo 3 da figura 2, posição típica do N400, que está associado à concatenação
verbo-objeto e à sua consecutiva integração semântica, encontramos a diferença clássica
congruente-incongruente refletida na diferença de amplitude das ondas. Mas a concatenação
verbo-objeto nas duas condições é do mesmo tipo e congruente (chutar a bola). Então por que
a diferença de amplitude? Acreditamos que a incongruência do sujeito produza um efeito por
toda a derivação. O acesso lexical ao nome que é sujeito acontece logo no início da derivação
da sentença (aos 200 ms), e os traços intrínsicos deste item lexical são estocados na memória
operacional e interagem mais tarde, na ocasião da integração semântica verbo-objeto, que se
segue à concatenação destes constituintes. Em se tratando de sujeito semanticamente
incongruente, há um efeito eletrocortical causado pela tentativa da integração semântica deste
constituinte, efeito este que se pode notar na amplitude do ERP associado aos estímulos
incongruentes, ERP exibido em linha fina, dentro do retângulo 3.
Identificamos um ERP de polaridade positiva no retângulo 4 da figura 2, sendo que ele
aparece também nas demais derivações, na figura 1. Sua polaridade e latência indicam que
possivelmente estaríamos lidando com o P600. Como se sabe, o P600 está associado à violação
sintática, e re-análise, incluindo a violação relativa à concordância verbal. O P600 também está
associado a outros fenômenos sintáticos sem violação.
Não manipulamos violação sintática nos estímulos. Portanto, se realmente se trata de
um P600, que fenômenos sintáticos (sem violação sintática) estariam gerando este efeito
eletrocortical? Achamos que este P600 poderia ser associado à concordância verbal normal.
Mas o que estaria ocasionando a diferença de amplitudes entre os supostos P600, provocada
por um esforço aumentado na tarefa cognitiva lingüística? Considerando que o único
elemento manipulado no nosso experimento foi a congruência semântica do sujeito, através
da propriedade de animacidade do item lexical, poderíamos supor que a concordância verbal
incluiria acessar a propriedade [± animado] do DP sujeito, além do traço de gênero
[± masculino] e do traço de número [± plural]. Assim poderíamos supor que a concordância
seria segmentada em micromódulos, um contendo propriedades conceptuais e outro contendo
traços formais. Para entender melhor estes resultados que parecem estar associados ao
conteúdo estrutural da concordância verbal, planejamos realizar outro experimento com
extração de ERP, desta vez sobre concordância verbal. Investigaremos quais propriedades
conceptuais e traços formais, distintos na derivação, estariam realmente envolvidos no
módulo de concordância.
Finalmente, ao observarmos o retângulo 5 presente na figura 2, verificamos uma
diferença de amplitudes notável entre os ERPs por volta dos 800 ms a contar do objeto, ou
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1200 ms depois do verbo. Considerando que nenhum outro elemento foi manipulado além do
sujeito, parece que somente neste ponto, onde acontece o que chamamos de N800,
encontramos pistas de integração sintática e seleção semântica do sujeito em relação ao
complexo verbo-complemento, logo após a concatenação e integração semântica do verbo
com seu complemento, o que confirmaria a hipótese bottom-up. Nunca é demais ressaltarmos
a enorme defasagem entre a ativação da representação fonológica do sujeito, aos 200 ms após
a sua estimulação, e a integração semântica deste sujeito ao composto verbo-complemento
(V’), aos 1400 ms após o mesmo ter sido estimulado.
4. Conclusão
De acordo com as respostas eletrocorticais estudadas, a partir de teste com extração de
ERP, a hipótese bottom-up do curso da derivação sintática parece ser bem apropriada.
Quanto à propriedade de animacidade, [± animado], do nome que tem a função
gramatical de sujeito, acreditamos que ela deva ser acessada não somente na computação do
nome (acesso lexical), mas também na computação do verbo, que precisa checar o nome
semanticamente, na computação da concordância verbal e na integração semântica do sujeito
ao composto verbo-complemento.
Tendemos a acreditar, portanto, que existiriam micromódulos no módulo de
Concordância, presente no módulo de cognição de linguagem, o que iria de encontro à tese de
que as computações lingüísticas deverão ser vistas de forma cada vez mais granular, atômica,
especialmente através das ferramentas de investigação da neuriociência da linguagem
(Poeppel, 2004; Marantz, 2005; Poeppel e Embick, 2005). Isto significaria dizer que um
micromódulo lidaria com propriedades conceptuais, como a de animacidade, [± animado], e o
outro com traços formais, o de gênero [± masculino] e o de número [± plural]. E estes
conteúdos seriam portanto acessados em diferentes momentos da derivação sintática. Para
aprofundarmos este estudo, realizaremos outro experimento com extração de ERP, tratando
especificamente do fenômeno de Concordância, e investigaremos línguas cuja propriedade de
animacidade se manifesta morfofonologicamente, dando pistas da confirmação,
reiteradamente, da teoria de Princípios e Parâmetros – P&P (Chomsky, 1981). A relação
propriedade semântica–concordância se constituiria em um Princípio Universal, e a sua
realização morfofonológica estaria presente na variação paramétrica deste princípio.
Agradecimentos
Agradecemos aos Professores David Poeppel, Howard Lasnik e Massimo PiattelliPalmarini pelas valiosas sugestões. Agradecemos à FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) pela bolsa de Pós-Doutorado da autora
Aleria Lage e por bolsas concedidas a ela para seus orientandos. Também agradecemos ao
CLIPSEN (Laboratório de Computações Lingüísticas: Psicolingüística e Neurofisiologia), do
Programa de Pós-Graduação em Lingüística da UFRJ e coordenado pela Professora Miriam
Lemle; e ao LAPIS (Laboratório de Processamento de Imagens e Sinais), do Programa de
Pós-Graduação em Engenharia Biomédica (COPPE, UFRJ) e coordenado pelo Professor
Antonio Fernando Catelli Infantosi.
5. Referências bibliográficas
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Submetido em 19/05/2008 | Revisado em 25/07/2008 | Aceito em 28/07/2008 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line em 31 de julho de 2008
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Notas
(1) Esta primeira versão do experimento (Lage, 2005) foi apresentada na reunião Biolinguistic
Investigations, em Santo Domingo, República Dominicana, em 2007. Agradecemos ao
Professor Howard Lasnik e ao Professor David Poeppel, ambos da Universidade de Maryland,
pelas sugestões valiosas, inclusive por aquela que nos fez testar posicionando o trigger
400 ms antes, bem no momento da estimulação do verbo. Quando se trata de extração de
ERP, costuma-se colocar o trigger no argumento interno, que, sendo incongruente, 400 ms
depois gera uma negatividade, um N400, de grande amplitude. Mas para se verificar uma
possível ausência de concatenação do verbo ao sujeito, descartando-se a hipótese top-down do
curso da derivação, que coincidiria com a ordem dos constituintes na sentença, seria
necessário se investigarem as respostas eletrocorticais do instante que poderia corresponder ao
da suposta concatenação verbo-sujeito, se ela ocorresse, ou seja, 400 ms após o verbo.
(2) Para uma completa apreciação da metodologia empregada, cf. Lage (2005).
(3) O programa de aquisição de sinais foi desenvolvido pelo Laboratório de Processamento de
Imagens e Sinais (LAPIS), do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Biomédica –
COPPE, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
(4) O processamento de sinais e o tratamento estatístico dos resultados foram realizados pela
Professora Aline da Rocha Gesualdi, do Departamento de Engenharia Elétrica, do Centro
Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca, Rio de Janeiro (CEFET-RJ).
(5) No gráfico da figura 2, o conhecido N400 se encontra em torno de 800 ms (retângulo 3), e o
trecho aos 1200 ms, que aparece delimitado pelo retângulo 5, seria um N800.
- A.C. Lage possui graduação em Letras (UFRJ), Mestrado em Lingüística (UFRJ),
Doutorado em Lingüística (UFRJ) e realiza seu Pós-Doutoramento em Lingüística (Programa
de pós-Graduação em Linguística, UFRJ). Endereço para correspondência: Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, Departamento de Lingüística. Rua Horácio
Macedo, 2151, Cidade Universitária, Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, RJ 21941-590. E-mail
para correspondência: [email protected] M. Lemle possui graduação em Letras (UFRJ),
Mestrado em Lingüística (University of Pennsylvania, USA), Doutorado em Lingüística
(UFRJ) e Pós-Doutorado (MIT, USA). Atualmente é Professora Titular (UFRJ) e
Coordenadora do Laboratório CLIPSEN (Computações Lingüísticas: Psicolingüística e
Neurofisiologia; http://www.letras.ufrj.br/ clipsen). A.R. Gesualdi possui graduação em
Engenharia Elétrica (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ), Mestrado em
Engenharia Elétrica (UFRJ) e Doutorado em Engenharia Elétrica (UFRJ). Atualmente é
Professor Adjunto do CEFET Celso Suckow da Fonseca. M. Cagy possui graduação em
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Ciências & Cognição 2008; Vol 13 (2): 03-13 <http://www.cienciasecognicao.org>
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Submetido em 19/05/2008 | Revisado em 25/07/2008 | Aceito em 28/07/2008 | ISSN 1806-5821 – Publicado on line em 31 de julho de 2008
Engenharia Elétrica (UFRJ), Mestrado em Engenharia Biomédica (UFRJ) e Doutorado em
Engenharia Biomédica (UFRJ). Atualmente é Professor Adjunto (UFF). A.F.C. Infantosi é
graduado em Engenharia Eletrônica (Escola de Engenharia Mauá), Mestrado em Engenharia
Biomédica (UFRJ) e Doutorado em Engenharia Elétrica (Imperial College of Science
Technology Medicine University of London). Atualmente é Professor Titular (UFRJ) e
Coordenador do Laboratório de Processamento de Imagens e Sinais (LAPIS) do Programa de
Pós-Graduação em Engenharia Biomédica (COPPE, UFRJ).
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