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Maria da Fonte, Emboscada e Patuleia

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Maria da Fonte, Emboscada e Patuleia
Luís Mouzinho de Albuquerque
1846
Maria da Fonte, Emboscada e
Patuleia
1846
Há uma conspiração permanente contra as
instituições actuais, contra a ordem
estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas
conspirações,... a revolução do Minho é uma
revolução diferente de todas as outras, que até
hoje têm aparecido, porque todas as outras
revoluções têm tido por bandeira um princípio
político, mais ou menos, mas esta revolução é
feita por homens de saco ao ombro, e de foice
roçadora na mão, para destruir fazendas,
assassinar, incendiar a propriedade, roubar os
habitantes das terras que percorrem, e lançar
fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os
arquivos!. Que é levada a cabo sem chefe pela
mais ínfima classe da sociedade, havendo um
bando de duas mil e quatrocentas, a três mil
pessoas armadas, com foices roçadoras,
alavancas, chuços, espingardas, com tudo
quanto eles podem apanhar, impondo-se tomar
medidas enérgicas e fortes, a fim de a espada
da lei cair sobre as suas cabeças
(António Bernardo da Costa Cabral em 20 de
Abril, num discurso proferido na Câmara dos
Deputados).
●No ano da morte de Silvestre Pinheiro Ferreira, quando Garrett publica Viagens na
Minha Terra, obra escrita três anos antes, Alexandre Herculano (1810-1877) lança o I
Vol. da História de Portugal, obra dedicada ao príncipe D. Pedro, e o visconde de
Santarém edita em Paris o Corpo Diplomático Português. O companheiro de Manuel
Fernandes Tomás, José Maria Xavier Araújo (1786-1860), antigo membro do Sinédrio,
publica Revelações e Memórias, destacando-se também Simão José da Luz Soriano
(1802-1891), com História do Cerco do Porto, 2 vols., 1846-1849. Por seu lado, Alves
Martins tenta fundar no Porto um núcleo católico-liberal em torno dos jornais O
Nacional e A Esperança. Vive-se um mau ano agrícola, com grande seca e praga nas
batatas, o que leva a um aumento de preços e à consequente insatisfação dos povos.
Entretanto, João Maria Ferreira do Amaral toma posse como governador de Macau (21
de Abril). Na Grã Bretanha o governo tory de Robert Peel vai revogar as cor laws, o
que leva à dissidência da ala proteccionista de Benjamin Disraelli e surge um novo
papa, Pio IX..
●Pelo centro excêntrico! Luís Mouzinho de
Albuquerque proclama-se excêntrico a todas
as parcialidades, a todas as exclusões, a
todas as intolerâncias, mas concêntrico com
a nação, defendendo que a nação seja
governada para a nação e pela nação. Quer
ser governada no interesse de todos, e não
no interesse de alguns; quer ser governada
pela influência colectiva de todos, e não pela
influência exclusiva de uma parcialidade;
que o concurso de todas as virtudes, de todos
os talentos, de todas as probidades para
presidir aos seus destinos, sem distinção de
cores, sem exclusões partidárias.
●Assume a bandeira nacional, que seja
excêntrica a todas as paixões, a todos os
ódios, a todas as vinganças, em nome do
desejo do povo que não aspira à governança,
1846
mas sim à felicidade. A opinião que
representa quer o governo representativo,
não em nome, mas em realidade. Quer um
regime, verdadeiro e sincero; quer ser
governada com justiça, com verdade e com
amor; porque mal dos povos que não são
governados com amor, mal das nações que
são regidas sem sinceridade.
●Porque a força oprime temporariamente as
nações, e as nações têm a faculdade de
renascer pela reacção contra a força; mas
da gangrena moral ninguém ressurge, não é
essa gangrena uma das fermentações
tumultuosas que transformam uns produtos
em outros; é a fermentação pútrida, que
destrói radicalmente o ser orgânico, que
desagrega, que dispersa os átomos
componentes (23 de Janeiro).
●Contrato dos tabacos – Arrematado por
doze anos o contrato de tabaco, sabão e
pólvora a José Eugénio de Almeida (n.
1812).
●Pelas leis fundamentais! O comum dos
homens, se conduz melhor pelos seus
hábitos, que pelo juízo, pelo que a regra
vulgar da política, e recebida em todas as
Nações, e em todos os séculos, que as Leis
fundamentais , e Políticas (dos) Estados, se
não devem alterar, sem uma absoluta
necessidade, que he só quando elas são
contrárias à recta razão, e opostas ao bem
público; e que neste caso único, ainda a
alteração, e mudança se deve operar muito
lenta, e imperceptivelmente aos homens,
porque a antiguidade de qualquer
estabelecimento, e Leis, sempre foi tido por
coisa Santa e venerável. E isto porque os
costumes dos Povos necessitam do socorro
das Leis para serem mantidos; e as Leis tem
precisão dos costumes dos Povos, para
serem observadas. Palavras de Cândido
Figueiredo e Lima (1782-1851), lente
saneado
e
conspirador
miguelista,
defendendo o modelo constitucional
britânico.
●Maria da Fonte. A sublevação antisituacionista terá começado em Santo André
de Frades, concelho da Póvoa do Lanhoso,
em 19 de Março, com a populaça a revoltarse contra o governo dos Cabrais por causa da
Junta de Saúde e das bilhetas. Prendem-se
algumas mulheres e logo ajuntamentos vão
soltá-las, arrombando as cadeias, protestando
contra o despotismo dos administradores e
empregados e enfrentando os soldados, que
se apresentam como a mão longa da capital.
A populaça assalta as repartições queimando
os papéis das finanças, com muita gente
armada de roçadora. Depressa se propaga ao
Minho, sob a liderança de padres como
Casimiro José Vieira, João do Cano, Manuel
das Agras e José da Laje. A própria cidade de
Braga chega a estar ameaçada pelos
populares dos arredores e até há um ataque a
Guimarães (14 de Abril).
●Todo um povo em massa – – A
contribuição de repartição, e o imposto
sobre os mortos foi o rastilho...o cálice das
amarguras estava cheio, e a bolsa dos povos
inteiramente vazia... era todo um povo em
massa, todas as Cidades, Vilas e Aldeias de
um reino a exprimirem o mesmo pensamento
com a mesma energia e pela mesma forma.
Foi um facto grandioso e virgem (palavras
do miguelista João de Lemos, em 18 de
Março de 1847, em carta a D. Miguel).
●As fogueiras da revolta – Pedi um palito
de fogo, que apareceu de pronto e aceso,
disse alto que eram aqueles os papéis da
nossa desgraça, cheguei-lhes o fogo e
mandei-o chegar também a todos os papéis
que estão no chão, porque entendi que já se
lhes não podia valer. Com isto ficou o povo
mui contente, a olhar para mim com agrado,
por ver que eu estava do seu partido, por ser
padre, o único dessa classe que ali aparece,
e por andar mais limpo do que os que estão
presentes. Começou logo o povo a respeitar-
1846
me e a sacudir-me a gola de veludo da capa
as cinzas dos papéis que vinham pelo ar, e
nela me caíam (Padre Casimiro). E eis o
guerrilheiro a achar-se metido na revolução
sem o procurar nem querer, sem nada saber
de guerra e até sem nada saber de política,
nem dela me importar em tempo algum,
apesar de considerar-se realista, ou
legitimista, que pugnava pela Religião
Católica, acreditando num plano da
Providência, porque vejo marchar todo o
povo unânime e com o mesmo entusiasmo
para um ponto, sem ser chamado por
alguém, fez-se chefe, sem autorização
alguma, mas recebendo-a do mesmo povo,
porque, para vencer seria necessário que a
força de todos os indivíduos se tornasse
numa só pela união, e que isto só se
conseguiria pela obediência a um chefe, e
que eu, comprometido como me achava, me
ofereci para o comando geral; mas que a
minha autorização só do povo me podia
provir, para eu poder castigar com penas
severas os delinquentes e os desobedientes.
●Uma revolução diferente – Em discurso
na Câmara dos Deputados, António Bernardo
da Costa Cabral, depois de reconhecer que há
uma conspiração permanente contra as
instituições actuais, contra a ordem
estabelecida, e mãos ocultas que manejam
estas conspirações, reconhece que a
revolução do Minho é uma revolução
diferente de todas as outras, que até hoje têm
aparecido, porque todas as outras
revoluções têm tido por bandeira um
princípio político, mais ou menos, mas esta
revolução é feita por homens de saco ao
ombro, e de foice roçadora na mão, para
destruir fazendas, assassinar, incendiar a
propriedade, roubar os habitantes das terras
que percorrem, e lançar fogo aos cartórios,
reduzindo a cinzas os arquivos!. Que é
levada a cabo sem chefe pela mais ínfima
classe da sociedade, havendo um bando de
duas mil e quatrocentas, a três mil pessoas
armadas, com fouces roçadoras, alavancas,
chuços, espingardas, com tudo quanto eles
podem apanhar, impondo-se tomar medidas
enérgicas e fortes, para a espada da lei cair
sobre as suas cabeças (20 de Abril).
●A primeira queda dos Cabrais – José
Bernardo é enviado para o Porto, com plenos
poderes para dominar as revoltas (21 de
Abril). Entretanto, em 7 de Maio, uma série
de deputados pede a demissão do governo.
Costa Cabral ainda começa por desdenhar da
movimentação, mas em 17 de Maio já o
governo é obrigado a apresentar a respectiva
demissão.
●Pés fresco e pata ao léu. O ódio ao novo
Estado é tal ordem que os revoltosos
começavam quase sempre incendiando as
delegações locais da fazenda, eliminando os
registos e supondo que assim deixariam de
pagar contribuições. Em breve este grupo de
pata ao léu passa a ter a colaboração e o
enquadramento dos pés frescos do
setembrismo, formando-se, por todo o reino,
juntas revolucionárias a partir dos gabinetes
locais da coalizão oposicionista. A primeira
surge em Vila Real, presidida pelo morgado
de Mateus. Estudantes de Coimbra deslocamse à Figueira da Foz e assaltam o forte de
Santa Catarina. Passos Manuel preside à junta
de Santarém. Em Braga é o visconde do
Valongo.
●Intervenção dos miguelistas – O
movimento das guerrilhas, a partir de Maio, é
politizado, quando vários miguelistas passam
a apoiar as juntas, com Francisco de Lemos
Ramalho Azevedo Coutinho em Coimbra,
Povoas na Guarda e Visconde da Azenha em
Guimarães. Entretanto, D. Miguel é aclamado
rei em Valpaços e Montalegre, nos dias 14 e
16 de Junho. Em Trás-os-Montes, os
miguelistas passam a ser comandados
militarmente por Bento Gonçalves de Moura
e Paulo Mauriti. Em Julho e Agosto, há
levantamentos do mesmo teor no Minho, sob
o comando de Francisco de Abreu Coutinho e
do irmão, José Maria Coutinho de Abreu,
principalmente na zona Norte. Na zona de
Braga destaca-se Aboim da Nóbrega. Há
também levantamentos na Beira Litoral, na
Beira Baixa e nos arredores de Lisboa.
●Setembristas contra miguelistas – O
governo de Palmela nomeia o conde das
Antas para enfrentar as revoltas miguelistas
em 24 de Agosto, mobilizando-se os
setembristas contra os miguelistas. Usam-se
também alguns padres liberais e criam-se
batalhões de forças populares, nomeadamente
os comandados pelo cónego Francisco de
Montalverne.
●Em Agosto de 1846, o Grande Oriente
Lusitano deixa de ser comandado por
António Bernardo da Costa Cabral,
assumindo as funções de grão-mestre de
1846
facto o visconde da Oliveira. Encíclica de Pio
IX, Qui Pluribus, critica as seitas secretas,
vomitadas do seio das trevas para ruína da
religião e dos Estados (9 de Novembro).
●Governo nº 19 (20 de Maio) Palmela (140
dias). Uma solução de compromisso, com um
gabinete que pretende assumir-se como um
triunvirato dos três duques (Palmela,
Saldanha e Terceira). Segundo José Miguel
Sardica, queria fazer navegação à bolina
entre as parcialidades anticabralistas.
●Numa primeira fase: presidente ocupa as
pastas do reino, dos negócios eclesiásticos e
justiça e da fazenda. Terceira na guerra e na
marinha e ultramar (até 26 de Maio).
Saldanha, que está em Viena, é nomeado
para os estrangeiros, pasta que, contudo, é
assumida por Terceira.
●Em 23 de Maio: Luís Mouzinho de
Albuquerque na marinha, no mesmo dia em
que a grave situação financeira obriga o
governo, contudo, a decretar o curso forçado
das notas de banco e a suspender os trabalhos
de obras públicas, lançando cerca de dez mil
pessoas no desemprego. Entretanto, na
província, as juntas governativas, quase todas
afectas aos setembristas continuam e as
guerrilhas miguelistas ainda não tinham sido
desarmadas.
●Em 26 de Maio: Luís Mouzinho de
Albuquerque passa para o reino (até 19 de
Julho); Saldanha na guerra, mas onde logo se
faz substituir por José Jorge Loureiro que
também passa a acumular a marinha; Conde
do Lavradio nos estrangeiros; Joaquim Filipe
de Soure na justiça. Terceira abandona o
gabinete. Palmela mantém-se na presidência
e na fazenda. Procura-se, assim, aprofundar o
meio-termo, pela união de cartistas e
setembristas moderados
●Em 19 de Julho: Palmela, mantendo-se na
presidência, abandona a fazenda e regressa
ao reino; saem Soure e Loureiro; Joaquim
António de Aguiar na justiça; Sá da Bandeira
na guerra; Luís Mouzinho de Albuquerque na
marinha; Júlio Gomes da Silva Sanches na
fazenda. Apesar da união conseguida entre
cartistas moderados como Palmela, Sabrosa e
Rodrigo da Fonseca, com setembristas
dispostos à conciliação, como Luís
Mouzinho de Albuquerque e Almeida
Garrett, como observa Oliveira Martins, a
liberdade reinará sobre o vazio das ideias,
com o absolutismo dos interesses.
●O diplomata contra a guerra – Conforme
observa Joaquim de Carvalho, a rainha
optava pelo estilo daquele que era mais
diplomata do que governante e que tentou
um parêntesis entre duas reacções, através
de uma política de equilíbrio e de discreta
transigência. Acontece que se manifestavam
então quatro correntes, diversas, senão
hostis…: a conservadora, procurando
manter com homens diferentes a estrutura
anterior; a da irritação contra o passado
próximo, desejando destruí-lo; a da
instauração de um regime novo; e,
finalmente, a da política sedativa e de errata,
para continuarmos a citar o mesmo
historiador. O novo governo pouco mais faz
do que emitir uma proclamação com a
promessa de encerramento das Cortes
cabralistas e de revogação das leis sobre a
saúde que proibia o enterramento dentro das
igrejas (26 de Novembro de 1845) e a
reforma tributária (1 de Julho de 1843): a
representação nacional será convocada
assim que a tranquilidade do país o permita;
pois só então pode esta representação ser
verdadeira, e tratar competentemente dos
negócios públicos. Entretanto, os cabralistas
zangam-se
com
Terceira
e
os
setembristas não ficam
satisfeitos e fazem
logo ameaças. Palmela
na noite do dia 21 de
Maio chega mesmo a
reunir-se
com
a
oposição parlamentar,
na qual se destaca o
conde de Antas, e
logo cede a algumas reivindicações desta,
nomeadamente a demissão do comandante da
guarda municipal de Lisboa, o cabralista D.
Carlos de Mascarenhas, o marquês de
Fronteira, promovendo também a imediata
revogação da lei sanitária e da lei da reforma
tributária. No dia 23 já é chamado para o
governo, para a pasta da marinha e ultramar
Luís Mouzinho de Albuquerque.
●O programa do miguelismo populista – O
novo governo é uma farsa e combinação das
seitas para tudo ficar como até ali, com a
mudança apenas de pessoas . Fala de
opressões injustas que têm feito ao povo,
tratando-o até agora como se fossem negros
e escravos. Pede à Rainha que nomeie para
1846
toda a parte homens da maior integridade e
desinteresse (... ) homens escolhidos à
vontade do povo; que se baixem os impostos;
nomeadamente a abolição das portagens; que
as magistraturas locais possam ser exercidas
gratuitamente; que aos deputados se lhes
façam os gastos da comida e transportes à
custa do povo, mas que não embolsem
dinheiro nenhum, para que depois não haja
nas eleições tanto suborno, e o povo atine
com a boa escolha. Propõe mesmo a
constituição de um exército popular: quer
também o povo...que nas guardas nacionais
entre todo o homem voluntariamente...e que
os oficiais sejam escolhidos por votação de
todos os militares da guarda nacional. E não
deixa de defender a instituição do sufrágio
universal: as eleições para toda a espécie de
justiça e autoridade sejam de todo populares
sem excepção de pessoa, a não ser as que
não lêem, nem escrevem, para evitar
enganos e despertar a instrução, porque só
assim se pode exprimir a vontade geral dos
povos, que é a verdadeira lei (Padre
Casimiro José Vieira, numa carta escrita a D.
Maria II em 6 de Julho de 1846, depois de
lida ao povo para saber se o que nela se
dizia é a vontade de todos).
●Novo decreto eleitoral marca eleições para
11 de Outubro (27 de Julho), mas o diploma
acaba por não se aplicar.
●Um ministério nascido da tormenta –
Conforme observa Mouzinho da Silveira, os
cabrais fugiram para nãos serem
assassinados pela vingança geral; mas
foram aparecendo nos grupos do povo
homens moderados e proprietários sem cor
exclusiva em política, porque eram cartistas,
setembristas e miguelistas e mesmo o maior
número e mais salientes eram cartistas, e
moderavam a revolução, reduzindo-a à pura
resistência aos cabrais, mas sem invocar
novo sistema político e sem desacatar a
Rainha em alguma palavra... O ministério
nasceu da tormenta e não podia desde logo
nascer forte para comprimir as ambições
contrárias ao amor do justo; mas quando
aceitou o cargo fez um grande serviço à
humanidade e ao Trono; ele pôde em pouco
tempo remeter para os seus lares o povo
sublevado justamente, nem devia, nem podia,
conservá-lo armado, nem dirigido por mais
de um centro
●Governo nº 20 (desde 6 de Outubro)
Saldanha (987 dias, durante cerca de trinta
meses). Saldanha, regressado da embaixada
de Viena em 23 de Julho seguinte, logo se
passou para o cabralismo e, com o apoio do
Paço, promove o golpe de Estado da
emboscada, surgindo um novo governo
cabralista sem cabrais. Uma espécie de
pequena viradeira, onde, como observa José
da Silva Carvalho,
mudou o ministério,
foram restituídos aos
seus comandos os que
a revolução havia
tirado,
tudo
permaneceu
em
sossego,
nesse
período
dos
cinzentões
maçónicos, desses juízes e generais, quase
todos mindeleiros, mas que haviam
permanecido na segunda fila do processo
devorista, devorando, mas não governando.
●Presidente
acumula
a
guerra
e
interinamente os estrangeiros. Marcelino
Máximo de Azevedo e Melo, visconde da
Oliveira, no reino (até 28 de Abril de 1847) e
na fazenda, até 13 de Outubro de 1846. José
Jacinto Valente Farinho nos negócios
eclesiásticos e justiça (até 28 de Abril de
1847). D. Manuel de Portugal e Castro, na
marinha e ultramar (até 28 de Abril de 1847).
Visconde da Carreira nos estrangeiros, que
não assume as funções, sendo substituído
imediatamente por Saldanha (estava ministro
plenipotenciário em Paris).
●Um governo marcado por sucessivas
recomposições ministeriais que eram
verdadeiros balões de oxigénio com os quais
Saldanha procurava não já fortalecer-se no
poder, mas apenas conservá-lo até ao
momento de o poder transmitir ao Conde de
Tomar, dado que o chefe do governo se
mostrou sempre desejoso de conciliação, e ,
se
não
foi
perseguidor,
tornou-se
efectivamente incapaz.
●Em 13 de Outubro: Visconde de Algés,
José António Maria de Sousa Azevedo na
fazenda, até 20 de Fevereiro de 1847. O novo
ministro, segundo Silva Carvalho, até queria
darGoa a Inglaterra para que ela nos fizesse
um bom donativo de dinheiro
●Em 4 de Novembro: José António Maria de
Sousa Azevedo, Visconde de Algés na
1846
guerra, mantendo-se na fazenda. D. Manuel
de Portugal e Castro nos estrangeiros.
●Patuleia O Duque da Terceira, nomeado
delegado da Rainha no Norte, depois de
passar revista às tropas no Terreiro do Paço,
embarca com destino ao Porto (8 de
Outubro).
●As juntas nascidas durante a Maria da
Fonte começam a reorganizar-se e a revolta
alastra por todo o país, amotinando-se várias
localidades nas próprias vizinhanças de
Lisboa, como Sintra, Torres Vedras, Caldas
da Rainha e Alcobaça. Surgem guerrilhas por
todo lado. O governo e a banca juntos tentam
armar gente, mas só conseguem 3 000
homens sob o comando de D. Fernando.
●Setembristas legitimam o canalhismo –
Como observa Camilo Castelo Branco, se o
fermento azedo que fez levedar a revolução
de 1846, foram as assuadas das mulheres à
volta dos cadáveres exumados, o que seria
irrisório se não fosse bestialmente
repugnante, eis que o setembrismo resvalou
dos seus briosos princípios avançados,
porque estes ao preconizarem ... um tumulto
fanaticamente alarvejado como estimulante
de evolução progressista foi descaro que
transcende todos os maus costumes da
devassa Política. Arguiam a rainha e os seus
ministros predilectos de retrógrados,
escarneciam a religião nos prelos e nos
templos, e ao mesmo tempo insinuavam no
clero miguelista do Minho que acirrasse a
plebe boçal contra a lei ímpia que proibia as
inumações na terra das igrejas. Os de
Setembro, espíritos fortes e demolidores dos
preconceitos inveterados, desonraram-se
legitimando o canalhismo do motim popular
nos adros e o incêndio dos arquivos nas
regedorias e nas câmaras
●De novo a Guerra Civil – Começa a
sublevação no Porto (10 de Outubro).
Terceira, que tinha sido enviado à cidade, é,
de imediato, preso. Os revoltosos, designados
por Patuleias, pegam em armas. Conde das
Antas, vindo de Braga assume o comando
militar da sublevação (10 de Novembro).
Preside à Junta e tem José Passos (18001863) como vice-presidente. Circulam
manifestos: a revolução do Minho, a
revolução mais gloriosa da nação
Portuguesa foi traída pela Soberana. Outros
líderes da revolta são António Dias de
Oliveira e António Luís de Seabra, todos
maçons, sendo também marcante a Junta de
Coimbra, liderada por José Alexandre de
Campos.
Eia avante! Eia avante!
Eia avante! Não temer!
Pela santa liberdade,
Pelejar até morrer!
●Saldanha pede a intervenção das
potências da Quádrupla Aliança, alegando o
surgimento de uma revolta miguelista (13 de
Outubro). Espanhóis mandam logo um corpo
de intervenção para as fronteiras. Cabral é
embaixador em Madrid. Em Londres,
Palmerston diz não haver miguelistas e
impede a intervenção espanhola. Como
salienta Oliveira Martins, nós, em casa,
evidentemente não tínhamos força para nos
governarmos; e depois de doze anos de
liberdade, o Portugal novo achava-se, como
o antigo, dividido em duas fracções sem que
nenhuma tivesse poder bastante para
submeter a contrária.
●Ganhar o coração dos homens… A
máxima vulgar da política, e adoptada na
Arte de Reinar, pelos mais graves homens de
Estado, que é preciso ganhar o coração dos
homens, para se submeterem de vontade; e
que, quanto for possível, se devem conduzir
sem coacção pela boa ordem, e pela
esperança das recompensas (Cândido
Figueiredo e Lima).
●Conde das Antas parte do Porto, em
direcção ao Sul, com um exército patuleia,
onde participam cartistas, setembristas e
miguelistas (14 de Outubro).
●D. Maria II escreve à Rainha Vitória,
pedindo-lhe ajuda e criticando o marquês de
Loulé (30 de Outubro).
●Patuleias em Santarém – António César
Vasconcelos Correia, ao serviço da Patuleia,
já domina Santarém (11 de Março). Coluna
de Mouzinho de Albuquerque sai desta
cidade (11 de Outubro).
●Intervenção da hierarquia miguelista –
Só em Novembro de 1846 é que o Padre
Casimiro José Vieira passa a alinhar com a
hierarquia miguelista, que apenas aproveita a
chamada onda para tentar desencadear a
catarata. A guerrilha, já integrada na rede
que visava a restauração, tem extensões no
Poto (Padre Luís Sousa Couto), Viana do
Castelo (António Tavares), Trás-os-Montes
(Cândido Figueiredo e Lima) e Lisboa
(morgado de Vale de Perdizes). Macdonell
1846
começa a movimentação em 11 de
Novembro em Castelo de Paiva.
●Wylde, o mediador inglês, encontra-se com
o conde das Antas e Luís Mouzinho de
Albuquerque, como representantes do
exército patuleia, nos arredores de Santarém
(13 de Novembro).
●Sá da Bandeira é derrotado em Valpaços
pelas tropas do barão do Casal (16 de
Novembro) e quando regressa ao Porto, é
atacado pelas guerrilhas miguelistas de Mac
Donnel, na zona de Paiva (19 e 20 de
Novembro). José do Telhado, ou José
Teixeira da Silva (1816-1875), bandido da
região do Douro, apoia os setembristas, tendo
salvo a vida a Sá da Bandeira.
●No Alentejo, os patuleias são comandados
pelo general Celestino, futuro visconde de
Liceira, por Bonfim e pelo conde de Melo,
sendo agitados pelo guerrilheiro Galamba,
um farmacêutico. Já os governamentais são
comandados por Schwalbach.
●Saldanha vence os patuleias em Torres
Vedras, destroçando as forças do conde de
Bonfim (22 de Dezembro). Cerca de três
centenas de baixas entre os antigovernamentais.
●Morte
de
Luís
Mouzinho
de
Albuquerque, ferido gravemente no
combate de Torres Vedras (27 de
Dezembro).
●Tropas miguelistas, comandadas por
Macdonell, são dizimadas em Braga pelo
barão do Casal (20 de Dezembro), sendo
obrigadas a retirar para Vila Real, onde
chegam em 21 de Janeiro de 1847.
Macdonell encerrará a sua louca intervenção,
onde não faltaram intensos dias de libações,
com a morte, em 30 de Janeiro.
●O Espectro – Surge o jornal-panfleto
Espectro, dirigido por António Rodrigues
Sampaio em Dezembro. Distribui-se
clandestinamente e imprime-se em vários
lugares, nomeadamente numa fragata surta
no Tejo. Aí se fazem ferozes ataques à
família reinante: a realeza vilipendiada não é
somente inútil, é um mal. Porque uma rainha
que se declara seis meses coacta em cada
ano não é rainha. E o paço é a espelunca de
Caco, onde sempre se têm reunido os
conspiradores. A púrpura dos reis tem
servido para varrer a imundície dos palácios
e dos cortesãos mais abjectos.
●Camilo Castelo Branco na guerrilha –
Camilo, de família miguelista, depois de ter
participado nas guerrilhas deste teor, quando
era estudante de Coimbra, sendo mobilizado
pela coluna de Milhundres, que conquistou
Penafiel. Em Setembro de 1847 foi,
entretanto, agredido por um caceteiro do
governador cabralista de Vila Real, José
Cabral Teixeira de Morais, por não ter tirado
o chapéu a este. Interroga-se, entretanto:
Porventura, devo culto ao déspota, porque
vejo um cacete que pode espancar-me?. É
que o despotismo não tem direitos: - tem a
força bruta; e mal daquele que não pode
contrapor-lhe o ferro com o ferro, o cacete
com o cacete, e o sentimento brutal com a
degradação do raciocínio. Depois que o
vislumbre de humanidade se apagou no
coração, quebrados estão os vínculos
sociais, e rotos os aços de parentesco com os
outros homens: a sensibilidade torna-se
ferro - o semblante de horror; e de afronta
as vozes, o ar, as ideias, e o nome. Ninguém
há que não sinta a aspereza do despotismo,
ao roçar--se por esse cadáver despojado de
moralidade, de impressões dolorosa e de
consciência do bem; aí não há mais que
vitupérios, calúnias, e um fragmento do
mundo irracional, que nos ensina a conhecer
as galas da razão (Delitos da Mocidade,
1889).
.
1846
Agostinho, José (III): 185 ss.; Bonifácio, Maria de Fátima (2002): 43 ss.; Branco, Camilo
Castelo (Memórias...): 48; Brissos, José: 82 ss.; 214 ss.; Fronteira (VII): 6 ss, 14 ss.; Lavradio
(III): 199, 209, 210; Martins, J. P. De Oliveira (1881, II): 85, 159, 171, 179; Peres, Damião
/Carvalho, Joaquim (VII): 304, 305; Santos, António Ribeiro dos: 165, 168; Sá, Victor de (1969):
271 ss.; Sardica, José Miguel (2001): 53 ss.; Silva, Armando B. Malheiro da (1993): 85; Valente,
Vasco Pulido (1997): 49, 51, 127 ss.; Viana, António (José da Silva Carvalho..., II): 456; Vieira,
Padre Casimiro José: 76, 84, 167, 169
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