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A AMIZADE VERDADEIRA Flávio Alcinei Corrêa

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A AMIZADE VERDADEIRA Flávio Alcinei Corrêa
Home Índice
A SINCERA AMIZADE ENTRE
NOEMI E RUTE
Flávio Alcinei Corrêa
Aluno do Curso de Filosofia - Mackenzie
Para que possamos discorrer sobre o tema acima, serão usados dois textos a seguir: o
ensaio escrito por Montaigne “Da amizade” no capítulo XXVIII, e o outro, Ética à
Nicômaco no capítulo 8, escrito por Aristóteles, assim como também como fonte
primária o texto bíblico que está no livro de Rute, (cap.1 vers16 -17), falando sobre a
amizade e companheirismo de duas mulheres que mudaram a história de uma nação.
Noemi, que no original hebraico significa (suavidade, doçura), e Rute, que no original
hebraico significa (bela companheira).
Antes de começar a falar sobre os textos acima, gostaríamos primeiramente de
argumentar sobre o verdadeiro relacionamento: o verdadeiro relacionamento significa
ser levado à verdade, à transparência, à segurança e à felicidade. A verdade não anda
de mãos dadas com a mentira, é oposta: a mentira logo se conhece, pois como diz o
ditado têm as pernas curtas, já o que é verdadeiro permanece para sempre.
Diante desses fatos, a maior dádiva que uma amizade verdadeira pode nos oferecer é
fazer com que o amigo se sinta amado, seguro e feliz. No entanto, só é possível
oferecê-la à medida que nós mesmos a temos, quando nos convencemos que somos
amados. Elementos que são, antes de tudo, qualidades interiores que permitem a
proximidade:
expressão divertida de uma realidade muito maior. Amizades nunca
podem ser exigidas, planejadas ou organizadas.
Revista Pandora Brasil Nº 29 Abril de 2011 - ISSN 2175-3318 - "Sobre a amizade"
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Para tanto, nos valemos de Aristóteles em Ética a Nicômaco. No livro VIII, ele trata da
amizade e do amor, onde o mesmo diz que a amizade é uma virtude fundamental,
necessária para a vida. É por meio dela que o homem pode se salvar e buscar a
felicidade. Homens bons são amigos.
Entendemos que em Ética a Nicômaco, o
requisito essencial para a amizade era a consciência. Porém, ela só era possível se
duas pessoas gostassem das mesmas coisas. A amizade perfeita era a que existia
entre pessoas semelhantes na virtude. A reciprocidade de caráter e objetivos levavam
a amizade a ser perene e eterna. Sua principal exigência se resumia em tempo e
intimidade.
Já Montaigne afirma,
“È verdade que a amizade assinala o mais alto ponto de perfeição na
sociedade. Em geral sentimentos a que damos o nome de amizade, nascidos da
satisfação de nossos prazeres, das vantagens que usufruímos, ou de associações
formadas em vista de interesse público ou privados, são menos belos, menos
generosos, e participam tanto menos de amizade, a qual tem outras causas, visa
outros fins”. (Montaigne, 1994,pág. 91).
Para Montaigne, as amizades impostas pela lei e pelas obrigações naturais impediam
que a vontade se exercesse livremente, pois a amizade e a afeição dependem tão
somente do livre arbítrio de cada um.
Diante destas considerações sobre a amizade, podemos também elencar a fala de
Rute para Noemi: “Não me instes para que te deixe e me afaste de ti; porque, aonde
quer que tu fores, irei eu e , onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu; o teu
povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.(Rute -1-16)
E ainda: “Onde quer que morreres, morrerei eu e ali serei sepultada; me faça assim o
Senhor e outro tanto, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti”. (Rute 1 16 -17).
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É através deste livro da bíblia sagrada que queremos discorrer acerca da vida de duas
mulheres que demonstraram um verdadeiro amor e um elo de amizade eterno que
mudou não somente suas vidas, mas toda uma geração. O livro de Rute foi escrito a
fim de mostrar como, através de uma amizade altruísta e do devido cumprimento da lei
de Deus, uma jovem mulher moabita, virtuosa e consagrada, veio a ser a bisavó do rei
Davi de Israel.
Esta história de amizade se inicia quando Elimeleque parte de sua terra Judá e passa
a residir com sua família na terra de Moabe por conta da fome que assolava o seu
país. Porém, a terra de Moabe era estrangeira e os seus habitantes não adoravam ao
Deus de Israel. Elimeleque, casado com Noemi ao qual possuem dois filhos, Malom e
Quiliom, morre deixando assim sua esposa e seus dois filhos. Já adultos Malom e
Quiliom tomam para si mulheres moabitas, ao qual uma se chamava Orfa, e a outra
Rute e assim permaneceram na terra de Moabe por dez anos.
“E sucedeu que, nos dias em que os juízes julgavam, ouve uma fome na
terra; pelo que um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar nos campos de Moabe,
ele, e sua mulher, e seus dois filhos. E era o nome deste homem Elimeleque, e o nome
de sua mulher Noemi, e o nome de seus dois filhos Malom e Quiliom, efrateus, de
Belém de Judá; e vieram aos campos de Moabe e ficaram ali. E morreu Elimeleque,
marido de Noemi; e ficou ela com seus dois filhos, os quais tomaram para si mulheres
moabitas; e era o nome de uma Orfa, e o nome da outra, Rute; e ficaram ali quase dez
anos. (Rute.1.1-4)”.
O sofrimento continuou a flagelar a Rute, pois seus dois filhos também morrem em
Moabe, resultando assim em três viúvas. “E morreram também ambos, Malom e
Quiliom, ficando assim esta mulher desamparada de seus dois filhos e de seu marido”.
(Rute. 1- 5).
Quatro episódios vêm a seguir: No primeiro, Noemi e sua devotada nora moabita,
Rute, voltaram para Belém de Judá, já a sua outra nora, Orfa, decide ficar em Moabe e
voltar a sua parentela e voltar as suas antigas tradições.
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“Então, se levantou ela com suas duas noras e voltou dos campos de Moabe,
porquanto, na terra de Moabe, ouviu que o Senhor tinha visitado seu povo, dando-lhe
pão. Pelo que saiu do lugar onde estivera, e as suas duas noras, com ela. E, indo ela
caminhando, para voltarem para a terra de Judá, disse Noemi para as suas duas
noras: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o SENHOR use convosco de
benevolência, como vós usastes com os falecidos e comigo. O SENHOR vos dê que
acheis descanso cada um em casa de marido. E, beijando-as ela, levantaram a sua
voz, e choraram, e disseram-lhe: Certamente voltaremos contigo ao teu povo. Porém
Noemi disse: Tornai minhas filhas, porque iríeis comigo? Tenho eu ainda no meu
ventre mais filhos, para que vos fossem por maridos? Tornai filhas minhas, ide-vos
embora, que já mui velha sou para ter marido; ainda quando eu dissesse: Tenho
esperança, ou ainda que esta noite tivesse marido, e ainda tivesse filhos, esperá-lo-íeis
até que viessem a ser grandes? Deter-vos-íeis por eles, sem tomardes marido? Não,
filhas minhas, que mais amargo é a mim do que a vós mesmas; porquanto a mão do
SENHOR se descarregou contra mim. Então se levantaram a sua voz e tornaram a
chorar; e Orfa beijou a sua sogra; porém Rute se apegou a ela. Pelo que disse: Eis que
voltou a tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também a tua cunhada.
Disse, porém, Rute: não me instes para que te deixe e me afaste de ti; porque, aonde
quer que tu fores, irei eu e, onde quer que pousares à noite, ali pousarei eu; o teu povo
é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu ali e
serei sepultada; me faça assim o SENHOR e outro tanto, se outra coisa que não seja a
morte me separar de ti. Vendo ela, pois, que de todo estava resolvida para ir com ela,
deixou de lhe falar nisso. Assim, pois, foram-se ambas, até que chegaram em Belém,
toda a cidade se comoveu por causa delas e diziam: Não é esta Noemi? Porém ela
lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara (que no hebraico significa
amarga), porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Cheia parti, porém
vazia o SENHOR me fez tornar; porque, pois, me chamareis Noemi? Pois o SENHOR
testifica contra mim, e o Todo-Poderoso me tem afligido tanto. Assim Noemi voltou, e
com ela Rute, a moabita, sua nora, que voltava dos campos de Moabe; e chegaram a
Belém no princípio da sega das cevadas”. (Rute. cap1 vers. 6-22).
No seguinte, temos a providência divina: Rute veio a conhecer Boaz, um parente rico
de Elimeleque. “E tinha Noemi um parente de seu marido, homem valente e poderoso,
da geração de Elimeleque; e era o seu nome Boaz”. (Rute. 2 -1). E assim, no terceiro
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episódio, seguindo as instruções de Noemi, Rute deu a entender a Boaz o seu
interesse na possibilidade de um casamento segundo a lei do parente-remidor.
Preferimos aqui, manter a própria narrativa bíblica:
“E disse-lhe Noemi, sua sogra: Minha filha, não hei de eu buscar descanso,
para que fiques bem? Ora, pois, não é Boaz, com cujas moças estiveste, de nossa
parentela? Eis que esta noite padejará a cevada na eira. Lava-te, pois, e unge-te, e
veste a tuas vestes, e desce à eira; porém não te dês a conhecer ao homem, até que
tenha acabado de comer e beber. E há de ser que, quando ele se deitar, notarás o
lugar em que ele se deitar; então, entra, e descobrir-lhe-ás os pés, e te deitarás, e ele
te farás saber o que deves fazer. E ela lhe disse: Tudo quanto me disseres farei.
Então, foi para a eira e fez conforme tudo quanto sua sogra lhe tinha ordenado”...“E
sucedeu que, pela meia-noite, o homem estremeceu e se voltou; eis que uma mulher
jazia aos seus pés. E disse ele: Quem és tu? E ela disse: Sou Rute, tua serva;
estende, pois, tua aba sobre a tua serva, porque tu és o remidor. E disse ele; bendita
sejas tu do SENHOR, minha filha; melhor fizeste esta tua última beneficência do que a
primeira, pois após nenhuns jovens foste, quer pobres quer ricos. Agora, pois, minha
filha, não temas; tudo quanto disseste te farei, pois toda a cidade do meu povo sabe
que és mulher virtuosa. Porém, agora, é muito verdade que sou remidor; mais ainda
outro remidor há é mais chegado do que eu. Fica-te aqui esta noite, e será que, pela
manhã, se ele te redimir, bem está, ele te redima; porém, se te não quiser redimir, vive
o SENHOR, que eu te redimirei; deita-te aqui até à manhã”. (Rute. 3 1-6 e 8-13).
Então, Boaz, na condição de parente-remidor, comprou as propriedades de
Noemi e casou-se com Rute, e tiveram um filho chamado Obede, ao qual veio a ser o
avô do rei Davi.
“E Boaz subiu a porta e assentou-se ali; eis que o remidor de que Boaz tinha
falado ia passando e disse-lhe: Ó fulano, desvia-te para cá e assenta-te aqui. E
desviou-se para ali e assentou-se. Então, tomou dez homens dos anciãos da cidade e
disse: Assenta-vos aqui. E assentaram-se. Aquela parte da terra que foi de Elimeleque,
nosso irmão, Noemi, que tornou da terra dos moabitas, a vendeu. E disse eu:
Manifestá-lo-ei em teus ouvidos, dizendo: Toma-a diante dos habitantes e diante dos
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anciãos do meu povo; se hás de redimir, redimi-a e, se não se houver de redimir,
declara-mo, para que eu saiba, pois outro não há se não tu, que a redima e eu depois
de ti. Então, disse ele: Eu a redimirei”... “Então, Boaz disse aos anciãos e a todo povo:
Sois, hoje, testemunhas de que tomei tudo quanto foi de Elimeleque, e de Quiliom, e
de Malom da mão de Noemi; e de que também tomo por mulher a Rute, a moabita,
que foi mulher de Malom, para suscitar o nome do falecido sobre a sua herdade, para
que o nome do falecido não seja desarraigado dentre os seus irmãos e da porta do seu
lugar; disto sois hoje testemunhas”... “Assim, tomou Boaz a Rute, e ela lhe foi por
mulher; e ele entrou a ela, e o SENHOR lhe deu conceição e ela teve um filho. Então,
as mulheres disseram a Noemi: Bendito seja o SENHOR, que não deixou, hoje, de te
dar remidor e seja o seu nome afamado em Israel. Ele será recriador da alma e
conservará a tua velhice, pois tua nora, que te ama o teve, e ela te é melhor do que
sete filhos. E Noemi tomou o filho, e o pós no seu regaço, e foi sua ama. E as vizinhas
lhe deram um nome, dizendo: A Noemi nasceu um filho. E chamaram o seu nome
Obede. Este é o pai de Jessé, pai de Davi”. (Rute.4 1-4, 9-10 e 13-17).
Embora o livro comece com tremendo reveses, termina com um final sobremodo feliz,
para Noemi, Rute, Boaz e para a nação de Israel. Tudo isso traça um retrato realista
da vida, com seus contratempos, mas também mostra como a fidelidade de uma
amizade, ao qual nos referimos na decisão tomada por Rute (cap.116-17), pode mudar
a história de um povo e de uma nação.
Segundo Aristóteles,
“A amizade também parece manter unidos os Estados, e dir-se-ia que os legisladores
têm mais amor à amizade do que a justiça, pois aquilo a que visam acima de tudo é à
unanimidade, que têm pontos de semelhança com a amizade; e repelem o facciosismo
como se fosse o seu maior inimigo. E quando os homens são amigos não necessitam
de justiça, ao passo que os justos necessitam também da amizade; e considera que a
mais genuína forma de justiça é uma espécie de amizade”. (ARISTÓTELES, 1987,
P.139).
Sendo assim consideremos uma atitude louvável e virtuosa por parte de Noemi em
aceitar com que Rute voltasse para Belém de Judá com ela, e Boaz, em recebê-la
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como sua esposa, mesmo sendo estrangeira, visando que, no amor também existe o
maior vinculo de amizade; enquanto que, nesta relação de amor-amizade entre
homens e mulheres, não estaria à altura para Montaigne: “Nossa afeição pelas
mulheres, embora proveniente de nossa escolha, não poderia comparar-se à amizade
nem substituí-la”. (MONTAIGNE, 1984, 91). Para este, o amor difere da amizade, pois
o amor se esvai por ser desejo, quando chega à saciedade desse desejo, o amor se
extingue, mas a amizade, por ser algo de essência espiritual “a sua prática apura a
alma.” (MONTAIGNE, 1984,91).
Assim, a partir da narrativa bíblica do livro de Rute, podemos concluir que é possível
existir este vínculo de amizade entre duas pessoas que desejam o bem para a outra.
Pois o mesmo diz Aristóteles, “Uma
tal amizade é, como seria de esperar,
permanente, já que eles encontram um no outro todas as qualidades que os amigos
devem possuir. Com efeito, toda a amizade tem em vista o bem ou o prazer.
(ARISTÓTELES, 1987, 142). Em concordância com esta idéias, Montaigne descreve
que a amizade que ele manteve com La Boétie, ia além dos interesses, “Na amizade a
que me refiro, as almas entrosam – se e se confundem em uma única alma, tão unidas
uma à outra que não se distinguem não lhes percebendo sequer a linha de
demarcação. (MONTAIGNE, 1984, 92).
Noemi e Rute, amigas verdadeiras, não se separaram por conta da incrível dificuldade
que enfrentaram, não desistiram da companhia uma da outra; embora para Rute, até
fosse mais confortável abandonar a sogra. Isto nos permite ilustrar como a disposição
de caráter e de fidelidade, são indispensáveis para continuarmos a nossa vida. O
amigo verdadeiro é aquele que nos ampara, que não nos abandona, é aquele também
que nos dá um conselho, e ouvimos atentamente suas palavras, porque confiamos no
seu coração. Mas para tanto, para confiarmos em alguém, é também preciso que
passemos algum tempo juntos, porque este só se revela na permanência, na
freqüentação, independentemente das vicissitudes da vida.
BIBLIOGRAFIA
ARISTÓTELES. São Paulo, Ed. Abril Cultural. Col. Os Pensadores, 1987
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MONTAIGNE, de Michel. “Da Amizade”. São Paulo Ed. Abril Cultural. Col. Os
Pensadores,1984.
Bíblia de Estudo Pentecostal. Tradução de João Ferreira de Almeida. São
Paulo,
Sociedade Bíblica do Brasil, 1995
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