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Vivenciar e Perceber o Lugar - Congresso Ibero

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Vivenciar e Perceber o Lugar - Congresso Ibero
>>Atas CIAIQ2015
>>Investigação Qualitativa em Educação//Investigación Cualitativa en Educación//Volume 2
Vivenciar e Perceber o Lugar
Estudo da percepção ambiental de escolares da rede municipal de ensino da cidade de
Anápolis, Goiás, Brasil
Experience and Perceive the Place
A study of the environmental perception of scholars of the municipal network of education of
the city of Anápolis, Goiás, Brazil
Marisa Moreira Barros
Josana de Castro Peixoto
Curso de Pedagogia, Centro Universitário de Anápolis
Anápolis, Goiás, Brasil
[email protected]
Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Tecnologia e
Meio Ambiente, - Centro Universitário de Anápolis,
Anápolis, Goiás, Brasil
[email protected]
Giovana Galvão Tavares
Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Tecnologia e
Meio Ambiente, Curso de Graduação em Odontologia e
Graduação em Medicina, Centro Universitário de Anápolis,
Anápolis, Goiás, Brasil
[email protected]
Sandro Dutra e Silva
Programa de Pós-Graduação Territórios e Expressões
Culturais do Cerrado, Universidade Estadual de Goiás,
Anápolis, Goiás, Brasil.
[email protected]
Resumo — Este trabalho objetiva analisar as influências do lugar
na percepção ambiental dos alunos do 5º ano de duas escolas
municipais da cidade de Anápolis, do Estado de Goiás, Brasil. O
instrumento de análise foram desenhos confeccionados pelos
escolares. Os elementos dos desenhos foram tabulados em
categorias positivas/negativas e analisados na forma de pesquisa
qualitativa, interpretativa, com uma abordagem humanística da
geografia, tendo a fenomenologia como filosofia subjacente.
Optou-se, também pelo método de análise da percepção
ambiental baseando-se fundamentalmente na junção de duas
abordagens: observação e escuta, durante a atividade e, depois,
na roda de conversa. A pesquisa sobre percepção ambiental pode
funcionar como um diagnóstico da relação de uma comunidade
com o meio, avaliando o nível de valoração desta para com o
lugar em que vive.
I.
INTRODUÇÃO
Este artigo é parte da dissertação de mestrado intitulada “Lugar
e Percepção Ambiental: estudo da vivência da comunidade das
escolas municipais Ayrton Senna da Silva e Moacyr Romeu
Costa, Anápolis/GO” defendida no Programa de PósGraduação em Sociedade, Tecnologia e Meio Ambiente –
Centro Universitário de Anápolis (Unievangélica).
Ele tem por objetivo apresentar a influência do lugar na
percepção ambiental de escolares. Posto isto, apresenta os
conceitos de percepção ambiental, topofilia e lugar como
norteadores do entendimento do objeto investigado e da
metodologia proposta, além das conclusões do estudo.
II.
Palavras Chave – Lugar, Topofilia, Desenho.
PERCEPÇÃO AMBIENTAL, TOPOFILIA E LUGAR
Percepção ambiental consiste no processo mental de
interação do indivíduo com o ambiente, em que atuam
simultaneamente mecanismos perceptivos propriamente ditos
(os cinco sentidos) e mecanismos cognitivos (compreendidos
por valores, conhecimentos prévios, humores, motivações).
Isso implica dizer que o significado e a importância atribuídos
às coisas percebidas variam de pessoa para pessoa, segundo a
sua experiência no espaço do cotidiano, relacionando-se de
forma intrínseca à vivência de um dado lugar [1]. Sendo assim,
a percepção é discutida como um processo complexo que inclui
a relação do ser humano com diversos fatores, como o lugar
habitado, sua história de vida, os laços topofílicos nela
construída e aspectos do imaginário [2].
O estudo da percepção, das atitudes e dos valores do meio
ambiente é extraordinariamente complexo, pois uma pessoa é
um organismo biológico, um ser social e um indivíduo único;
percepção, atitude e valor refletem os três níveis do ser [3]. Os
Abstract — This study aims to analyze the influences of the place
in the environmental awareness of 5th grade students from two
municipals schools in the city of Anápolis, of the state of Goiás,
Brasil. The devices used for analyses were graphics created by
the scholars themselves. The elements of the graphics were
drawn-up in charts, categorized in positives/negatives and
analyzed in the form of a qualitative, interpretive research, with
a humanistic approach of geography, having a subjacent
philosophy as a phenomenology. The method also chosen for the
analyses of environmental awareness was fundamentally based
on the joining of two approaches: Observation and listening,
during an activity, and after a discussion circle. Research on
environmental awareness can function as a diagnosis of the
relationship between the community and environment,
evaluating this level of value with the place in which one lives.
Keywords - Environmental Awareness, Place, Topophilia
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seres humanos estão biologicamente bem equipados para
registrar uma grande variedade de estímulos ambientais. A
maioria das pessoas durante suas vidas fazem pouco uso de
seus poderes perceptivos. A cultura e o meio ambiente
determinam em grande parte quais sentidos são privilegiados.
A palavra “topofilia” é um neologismo, útil quando pode ser
definida em sentido amplo, incluindo todos os laços afetivos
dos seres humanos com o meio ambiente material. Esses
diferem profundamente em intensidade, sutileza e modo de
expressão. A resposta ao meio ambiente pode ser basicamente
estética: em seguida, pode variar do efêmero prazer que se tem
de uma vista, até a sensação de beleza, igualmente fugaz, mas
muito mais intensa, que é subitamente revelada. A resposta
pode se tátil; o deleite ao sentir o ar, água, terra. Mais
permanentes e mais difíceis de expressar são os sentimentos
que temos para com um lugar, por ser o lar, o locus de
reminiscências e o meio de ganhar a vida [3]. O meio
ambiente pode não ser a causa direta da topofilia, mas oferece
o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá
forma às nossas alegrias e ideais. Os estímulos sensoriais são
potencialmente infinitos: aquilo em que decidimos prestar
atenção (valorizar ou amar) é um acidente do temperamento
individual, do propósito e das forças culturais que atuam em
determinada época [3].
Cada pessoa tem uma relação com o lugar que o cerca, e o
percebe de maneira diferente, de forma única e singular. Essas
diferenças se devem a percepção que cada um construiu,
desenvolvida por sua memória afetiva e estimulada por seus
sentidos em relação ao meio, em relação à sociedade, à
vizinhança, à estética do lugar, condições físicas, à família, à
escola, ao bairro, ao trabalho, à natureza e aos próprios
homens, fazendo com que o lugar experimentado apresente
diferentes significados e provoque diferentes reflexões e
sensações [3].
III.
Após selecionados os bairros e as escolas, foi realizada uma
pesquisa de campo que permitiu caracterizá-los.
A terceira etapa constou do primeiro contato com os alunos no
qual foi esclarecido o objetivo da pesquisa e qual seria a forma
de participação deles nela.
A quarta etapa da pesquisa consistiu na confecção dos
desenhos. Esses foram realizados sob a supervisão da
pesquisadora, duas acadêmicas do curso de Pedagogia do
Centro Universitário de Anápolis e a professora da turma.
Esses foram coletados no mês de outubro e novembro de
2013. A população do estudo foi composta pelos discentes do
5º ano das escolas selecionadas. Essa escolha permitiu
comparar qual a percepção ambiental dos alunos dos dois
bairros.
Os alunos foram convidados a fazer um desenho do bairro em
que moram, portanto foram excluídas da pesquisa as crianças
que não moravam no bairro.
Além dos desenhos, registramos as suas explicações ou
descrições, mas isso não era obrigatório, só transcrevíamos as
falas espontâneas das crianças.
Os dados descritivos sobre as atividades realizadas pelos 159
alunos do 5º ano do Ensino Fundamental primeira fase, que
participaram
desta
investigação,
foram
estudados,
classificados em categorias, quantificados, comentados,
analisados, explicados e relacionados ao referencial teórico
consultado.
Cada criança se expressou por meio de um desenho, foram
coletados 125 desenhos. No Bairro CHFMC desenharam 50
meninos e 30 meninas. E no Novo Paraíso desenharam 25
meninos e 20 meninas.
Os desenhos foram feitos na própria sala de aula dos alunos.
Foi pedido ao aluno que desenhasse em uma folha de papel a
representação do lugar em que mora. Foi um exercício feito
mentalmente, com base na memória, na subjetividade.
Pretendeu-se que ele relembrasse o observado nos lugares
onde passava.
Durante a atividade a pesquisadora registrou as falas e ações
dos alunos em um diário de campo. E depois de
confeccionados os desenhos, foram feitas rodas de conversa,
momento em que os desenhos foram discutidos.
A observação indireta e a escuta posicionaram a pesquisadora
em uma escala importante, na medida em que ela, através
destas abordagens pôde inferir variáveis referentes à
identidade, às características individuais e do grupo, ou às
experiências [4].
Ao término de cada atividade desenvolvida com o desenho
pelas turmas, o relato de cada criança, sobre sua produção foi
ouvido, registrado e, posteriormente, os aspectos narrativos e
visuais presentes nos desenhos foram comparados. A análise
foi realizada entre as cinco turmas de alunos no mês de
outubro e novembro de 2013.
Os elementos dos desenhos livres foram tabulados em
categorias, de modo a permitir uma melhor visualização dos
aspectos que compõem o imaginário das crianças. Por meio
dessa técnica se organizaram as percepções em categorias de
análise, as quais permitiram estabelecer uma associação
CAMINHO TRILHADO
Essa pesquisa de abordagem metodológica qualitativa de
cunho interpretativo teve a coleta de dados realizada por meio
do seguinte instrumento: desenho. O tema que os norteou foi:
“Desenhe o bairro (lugar) em que você mora”. Nesse estudo,
primeiramente foi realizado um levantamento bibliográfico. A
segunda etapa consistiu na escolha dos bairros e escolas a
serem pesquisados. Esses foram selecionados após estudo
minucioso dos bairros da cidade de Anápolis- GO, visando à
seleção de dois lugares com condições socioeconômicas
semelhantes, porém com estruturas físicas distintas. Os bairros
que preencheram os requisitos foram o Conjunto Habitacional
Filostro Machado Carneiro (CHFMC) e o Bairro Novo
Paraíso.
Em cada um destes bairros foi selecionada uma escola
municipal a ser pesquisada, tendo como critério de seleção a
estrutura física das escolas. No CHFMC a escola escolhida foi
a Escola Municipal Ayrton Senna da Silva por possuir uma
boa estrutura, já no Bairro Novo Paraíso, a única escola
existente era a Escola Municipal Moacir Romeu Costa, com
estrutura física de qualidade inferior.
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sistemática dessas com as relações entre os agentes e dos
agentes com o meio ambiente local.
As categorias de análise foram: positivas e negativas,
selecionadas seguindo a metodologia de análise de conteúdo
na qual “[...] um conjunto de técnicas de análise das
comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e
objetivos de descrição do conteúdo das mensagens” [5].
Já o antagonismo entre as categorias foi baseado em Tuan,
pois de acordo com o autor, a mente humana está adaptada
para organizar os fenômenos não só em segmentos, mas em
pares opostos como vida-morte, macho-fêmea, terra-água,
alto-baixo, essas antinomias da experiência biológica e social
são transpostas para a envolvente realidade física [3].
Na pesquisa, consideramos como categorias positivas: lugares
de lazer, escolas, parques, igrejas, estabelecimentos comerciais
e crianças brincando, aquilo que não demostra degradação
social. Como categorias negativas: ruas com buracos, usuários
de drogas, natureza depredada, pichadores, fumantes, cenas
relacionadas ao medo e que demonstrassem degradação social.
Para o agrupamento de algumas categorias positivas,
consideradas pela pesquisadora como destaque, teve como
fundamento os direitos sociais da Constituição da República
Federativa do Brasil, de outubro de 1988, que traz em seu
artigo 6º Art. que “São direitos sociais a educação, a saúde, a
alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a
previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a
assistência
aos
desamparados,
na
forma
desta
Constituição (Redação dada pela Emenda Constitucional nº
64, de 2010)”, e no artigo 5º inciso VI diz que “é inviolável a
liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre
exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a
proteção aos locais de culto e a suas liturgias”, agrupamos em
pranchas os desenhos que continham escolas (educação),
postos de saúde (saúde), casas (moradia), parques,
quadras/campo de futebol, lan house, academia, sorveteria,
praças (lazer), e igrejas (livre exercício dos cultos religiosos) a
fim de analisá-los e correlacioná-los.
Entendemos assim que as categorias, ao serem analisadas,
possibilitaram ressaltar aspectos relevantes da configuração
urbana distinta entre os bairros, assim como se eles
perceberam o lugar em sua totalidade. Posteriormente, os
temas foram comparados entre os bairros.
Para entender essa percepção, o lugar em que vivemos
influencia na maneira de sentir, ver e ser [6] propusemos
pesquisar dois lugares distintos no município de Anápolis,
através de alunos de duas escolas inseridas uma no bairro
Novo Paraíso e outra no CHFMC. Escolhidos pela distinção
entre eles, pois o primeiro é considerado uma área subnormal
e o segundo considerado, outrora, como marginalizado, hoje é
um lugar com recursos de lazer, educação, saneamento e
segurança para os alunos.
Esses lugares foram representados pelos alunos por meio de
desenhos, que historicamente vêm sendo utilizados pelo
homem para representar determinadas situações do cotidiano.
As crianças utilizaram desenhos como forma de representação.
Comparar esses dois lugares por meio dos desenhos dos
alunos possibilitou verificar a representação que eles têm do
lugar em que moram, e se esse, estando estruturado
fisicamente, influencia de maneira diferenciada na percepção
ambiental.
Escolhemos trabalhar com desenhos, porque além de serem
uma percepção e representação gráfica, possuem um encanto
próprio e é normalmente uma atividade prazerosa para os
alunos.
IV.
RESULTADO
Analisamos os desenhos dos alunos sobre a presença da
percepção ambiental e a categorizamos como positiva ou
negativa. Para análise, agrupamos os desenhos de acordo com
os temas e discutimos as categorias de acordo com
embasamentos teóricos de Tuan (1980) e Derdick (2010).
Alguns dos desenhos categorizados como negativos da Escola
Ayrton Senna Silva, retratam o uso de drogas lícitas e ilícitas,
a violência, degradação do patrimônio público, a presença de
pichadores, gangues e traficantes como percepção negativa.
Observamos que do total de 80 desenhos feitos pelos alunos
dessa escola, 17 (21,25%) alunos perceberam o bairro de
forma negativa.
Ainda nesse contexto, se o desenho é um sistema de
representação, o qual envolve tanto a produção como a
interpretação de imagens formadas por símbolos, utilizados
para expressar ideias, sensações, fantasias e sentimentos, eles
descrevem uma percepção negativa do bairro, pois nos
depoimentos verbais disseram não se sentirem confortáveis em
tais situações, aflorando nos mesmos o sentimento de medo e
insegurança em relação ao bairro em que moram[7].
O uso de drogas é um fato bastante antigo na história da
humanidade e constitui um grave problema de saúde pública,
com sérias consequências pessoais e sociais no futuro dos
jovens e de toda a sociedade. A adolescência é um momento
especial na vida do indivíduo. Nessa etapa, o jovem não aceita
muitas orientações, pois está testando a possibilidade de ser
adulto, de ter poder e controle sobre si mesmo. É um momento
de diferenciação em que "naturalmente" afasta-se da família e
adere ao seu grupo de iguais. Se esse grupo estiver usando
drogas, o pressiona a usar também [8]
Ao entrar em contato com as drogas nessa fase de maior
vulnerabilidade, expõe-se também a muitos riscos. O encontro
do adolescente com a droga é um fenômeno muito mais
frequente do que se pensa e, por sua complexidade, difícil de
ser abordado [9].
Os desenhos mostram que os alunos, apesar de terem apenas
9 a 11 anos, já vivenciam esta situação, correndo o risco de
achar tudo isso normal, comum e banal, por vivenciarem cenas
de adolescentes, crianças e adultos se drogando.
Na roda de conversa, foi dito pelos pesquisados que alguns já
foram abordados por viciados na frente da escola, inclusive,
quando estão brincando na quadra e chega um grupo de
“noiados”, eles têm que ir embora, caso contrário, perdem a
bola e correm o risco de apanhar.
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Portanto, os alunos percebem o lugar em que moram, ao
retratarem imagens cotidianas e usuais do bairro, mostram que
não superestimam ou idealizam o ambiente em que vivem,
pois as imagens dos desenhos evidenciam as relações de
experiências vividas no dia a dia dos alunos, as representações
simbólicas destas imagens representam a falta de afetividade
com o bairro em que moram, os desenhos são construídos pela
imaginação, sentimentos, lembranças, e representações
simbólicas na construção da percepção negativa [3].
Observou-se que de um total de 45 alunos que desenharam no
Bairro Novo Paraíso apenas 03 (6,66%) perceberam-no de
forma negativa o lugar.
A percepção negativa é caracterizada quando os alunos veem
o ambiente muito sujo, enfatizam o lixo jogado nas ruas,
percebem as ações ocasionadas pela ação antrópica com danos
irreversíveis aos lugares, às paisagens, aos espaços vividos, às
porções significativas da natureza, buracos, depredação dos
bens públicos e particulares (pichação, quebradeira),
insegurança ao transitar pelas vias como o medo de assaltos,
traficantes, usuários de entorpecentes, estupradores e bêbados.
Cabe ressaltar que a geografia fornece necessariamente o
conteúdo do sentimento topofílico, se em um bairro não há
lazer, nem ponto de ônibus, as ruas são cheias de buraco e sem
calçadas, não tem parques, nem escolas com piscinas e
quadras, significa que a geografia daquele lugar não
proporciona uma atitude positiva em relação a ele, pois o
ambiente, para a maioria das pessoas em que nele vivem é um
fato irredutível às necessidades individuais [3]. E isso não foi
observado ao se analisar os desenhos do bairro Novo Paraíso
Os desenhos foram analisados com percepção positiva do
lugar, sendo subdivididos em categorias de acordo com alguns
dos direitos constitucionais: educação, saúde, moradia, lazer e
direito à religião.
Consideramos como representantes do direito à educação as
imagens das escolas feitas por 09 (20%) alunos do Novo
Paraíso e 20 (25%) do CHFMC. A Escola Municipal Ayrton
Senna da Silva, situada no CHFMC, na cidade de AnápolisGO, é uma escola que funciona em tempo integral, alguns
alunos desenharam-na de forma destacada e, na roda de
conversa, disseram ser um dos lugares de que mais gostavam,
na instituição é servido o almoço, lanche e os alunos praticam
atividades extracurriculares como tênis, natação, vôlei,
futebol, ballet, jogo de xadrez, há m um reflexo positivo na
visão dos alunos, existem momentos de lazer e descontração,
além do aprendizado.
Visto tratar-se de um lugar de lazer e divertimento, além de
instituição educativa. Essas percepções e preferências
ambientais, evidentemente, são fatores essenciais na aquisição
do caráter de um bairro em relação à sua cidade, dos valores
de mercado alcançados pelos imóveis, do seu prestígio social,
sua fama ou “imagem” junto à população negativa ou positiva.
Observamos na fala de um dos alunos o apreço pelo bairro e
pela escola: “O meu bairro é muito legal e eu passeio nele todo
dia vou para a escola onde tem professores muito legais”, essa
colocação mostra a percepção positiva do aluno em relação ao
lugar. A valorização da escola pode ser associada ao conceito
de educação integral, que vai além dos aspectos da
racionalidade ou cognição, pois valoriza também às artes, à
estética, à música, significa desenvolver as dimensões afetivas,
as artísticas, as espirituais, os valores, a saúde, o corpo.
Nos desenhos do Bairro Novo Paraíso, os alunos retratam
além da escola, a quadra ao lado, conforme a realidade
observada, mostrando uma percepção positiva com os
elementos que representam lazer, educação e religião, além de
desenhos com sol, nuvens, pássaros, borboletas e árvore,
reprodução de uma cena em equilíbrio.
Representando à saúde temos os desenhos do posto de saúde,
feito por apenas um aluno do CHFMC, e nenhum da Escola
Moacyr Romeu Costa. Embora os postos de saúde sejam de
suma importância para a comunidade, as crianças do estudo
não mencionaram-no com destaque, o mais importante para
eles foram os locais de diversão, talvez por saberem que ir ao
médico representa tristeza, agulhada, remédios amargos,
privação de brincadeiras, ou por não entenderem ainda como a
saúde é essencial.
Considerando a moradia, temos as imagens que retratam as
casas essas foram representadas por 27 (60%) dos alunos do
bairro Novo Paraíso e 28 (35%) do CHFMC, em números
percentuais, esse elemento foi representado o dobro de vezes
pelos alunos do Novo Paraíso.
Os desenhos feitos pelos alunos do Bairro Novo Paraíso
representam as casas do bairro coloridas, em ruas retas, com
flores na porta, não representando a realidade observada, os
alunos não percebem a realidade do lugar em que moram ou o
idealizam. Na roda de conversa, foi perguntado o motivo de
não as fazerem semelhantes às observadas no bairro, com
declives e ruas estreitas e não souberam responder, embora
dissessem que sabiam desenhar ruas iguais a do lugar. Há uma
pequena interação destas crianças com a natureza,
indiretamente representada pelas flores, sol e árvores.
Algumas figuras feitas pelos alunos do CHFM são cópia da
realidade em sua estrutura física. Os desenhos retratam casas,
sendo essas coloridas e estruturadas, representando em sua
maioria a realidade observada, mostrando que os alunos que as
desenharam percebem o ambiente, porém têm uma percepção
restrita.
As figuras das ruas e as casas desenhadas pelos alunos
demonstram que “A rua onde se mora é a parte da experiência
íntima de cada um e o lar é um lugar jamais esquecido” [10].
Muitos alunos desenharam uma casa e na roda de conversa
relataram tratar-se de sua própria residência.
Como lazer, consideramos os desenhos que representam
quadra poliesportiva, sorveteria, lanchonete, lan house,
fliperama, parque, academia e pizzaria. No bairro Novo
Paraíso 29 (64,4%) alunos representaram estabelecimentos de
lazer e 22 (27,5%) no CHFMC. Representados em maior
número no bairro Novo Paraíso.
No CHFMC, a maioria da comunidade é de baixa renda e,
provavelmente, encontra nestes lugares uma das poucas
possibilidades de lazer e sociabilidade, não correndo o risco de
haver uma valorização unilateral das atividades de lazer usada
como fuga, fonte de alienação ou, simplesmente, consumo dos
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lazeres de massa e contemporâneos. Mesmo sendo pequenos,
são lugares privilegiados para a vivência dos meninos e
meninas do bairro e contribuem para mudanças de ordem
moral e cultural, às vezes, são percebidos de forma negativa,
outra de forma positiva.
Já no bairro Novo Paraíso, há uma supervalorização da
sorveteria como estabelecimento de lazer, essa foi
representada em 15 (33,3%) dos desenhos. Aparece
desenhada, na maioria das vezes, sozinha, mostrando a
importância dela para o aluno. Isso se deve ao fato de todos os
dias o aluno visualizá-la, porque situa-se em frente à escola,
portanto, os discentes a vê diariamente. A sorveteria
desenhada é da mãe de uma das alunas do 5º ano.
Uma das alunas desenha o interior da sorveteria, com mesas e
cadeiras, o que demonstra o Realismo Intelectual em que os
objetos são transparentes [11]. É o estágio que vai dos quatro
anos aos doze, e interessa particularmente à nossa pesquisa,
pois os alunos do 5º ano possuem idade entre 9 e 11. É neste
período que a criança desenha do objeto não aquilo que vê,
mas aquilo que sabe. Há dois processos: o plano deitado (os
objetos não são representados em perspectiva, mas deitados
em torno de um ponto ou um eixo central, as árvores de cada
lado da rua, a descontinuidade, os desenhos ficam soltos no ar,
sem apoio de nenhuma linha no chão, a planificação, a
mudança do ponto de vista e a casa ou comércio é desenhada
ao mesmo tempo do lado de dentro e de fora, como se tudo
fosse transparente. Muitos desenhos dos alunos pesquisados
apresentam estas características.
Outro lugar de lazer, que merece destaque na discussão, é o
parque público infantil. Esse aparece em 06 (7,5%) dos
desenhos dos alunos do CHFMC e nenhuma vez no outro
bairro da pesquisa, pois não há parques no bairro Novo
Paraíso. O parque é um dos primeiros espaços onde a criança
tem oportunidade de se relacionar com outras crianças e
adultos não integrantes de sua família, estimulando o contato
com a diversidade cultural, étnica e social e ajudando a
construir o sentido de cidadania. Além disso, propicia o
contato com a natureza e a variedade de materiais, cores,
texturas e relevos, promovendo o desenvolvimento motor,
cognitivo, sensorial e emocional, através da atividade do
brincar [12] [13] [14].
Em razão da importância que os espaços urbanos
desempenham no desenvolvimento físico, social e psicológico
do ser humano, a falta de acesso a esses espaços e sua não
utilização são apontadas como prejudiciais à saúde e
maturação infantil, sobretudo pela redução de mobilidade e
atividade física das crianças [15]. Assim, a falta de acesso a
tais espaços e a não utilização deles pelas crianças tornam-se
não apenas um problema social e espacial, mas também uma
questão de saúde física e psicológica.
O ambiente com poucas áreas de lazer, calçadas ou outros
atributos comunitários dificultam atividade física. Há a
associação da prática de atividade física com a estrutura
adequada do ambiente, a caminhada que é uma forma de
deslocamento exige segurança no trânsito e segurança geral,
em ambientes sem calçamento e ruas declinadas e sem
segurança, ausência de praças, como no Novo Paraíso, fica
inviável. Restando para os alunos as duas opções sorveteria da
Joyce e a quadra.
O espaço ao ar livre tem se mostrado importante para o
desenvolvimento infantil por oportunizar habilidades físicas,
sociais e afetivas. Mudanças sociais, econômicas e espaciais,
contudo, têm interferido no comportamento de uso de tais
espaços, podendo trazer prejuízos à saúde e ao
desenvolvimento das crianças.
A quadra de esportes mostrou ser o lugar preferido a ser
desenhado pelos alunos do Novo Paraíso, aparecendo em
11(24,4%) dos desenhos desse bairro e em 12(15%) do
CHFMC.
A quadra foi mencionada como o segundo lugar na preferência
dos alunos do bairro Novo Paraíso, às vezes a sorveteria
sozinha, mostrando a importância que ela possui, e em outras;
a quadra e a escola juntas, pois realmente eles ficam no
mesmo quarteirão.
Sabe-se que desenho ou imagens e palavra escrita ou verbal
devem se complementar na busca da compreensão, foi
perguntado porque tantos desenharam a sorveteria, e
responderam que o sorvete era muito gostoso e que ao final da
aula era o ponto de encontro entre eles. Daí a importância de
se considerar a interpretação da própria criança na construção
de seu desenho, pois os significados e os sentidos das
figurações são complementados pelas palavras.
O relevo da pertença, influência, existência de uma ligação
emocional e satisfação de necessidades no sentimento que
indivíduo tem face à sua comunidade [16]. Esse Sentido de
Comunidade permite a existência de um bem-estar individual,
por reduzir a probabilidade de isolamento, alienação, solidão,
e depressão. Deste modo, este sentido, por contribuir para uma
qualidade de vida subjetivamente percebida, encoraja um
maior sentido de identidade e maior autoconfiança, facilitando
as relações sociais e opondo-se ao anonimato e à solidão [17].
Sabe-se da importância desses lugares, pois desde que
nascemos, começamos a aprender as regras e os
procedimentos que devemos seguir na vida em sociedade. À
proporção que a criança cresce, passa a entender o mundo que
a cerca e vive, compreende que há certas regras, padrões e
comportamentos que a sociedade considera de valor. Uma
delas é ir à igreja. Uma das instituições sociais importantes ao
homem, pois é o lugar onde o ser humano procura respostas a
algumas indagações como: Quem sou eu? Por que a presença
da dor, do mal, da morte? O que há depois da vida? Nesse
lugar, que geralmente é respeitado e os indivíduos refletem
sobre a sua existência, a família espera conseguir um
comportamento ideal para todos os seus membros, como o que
ter, fazer e ser. As crianças que desenharam igrejas
selecionaram um símbolo que faz parte do seu mundo. A
percepção dos alunos que desenharam as igrejas é positiva e
também abstrata por estar ligada a religiosidade.
No bairro Novo Paraíso existem poucas igrejas, em contraste
com o bairro Filostro Machado que há muitas e de várias
denominações. Talvez por isso foram desenhadas igrejas por
04 (8,88%) alunos do bairro Novo Paraíso e 08 (10%) do
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Filostro. Apesar de em números absolutos os alunos do
CHFMC representarem o dobro de vezes igrejas em seus
desenhos, proporcionalmente, representaram quase a mesma
quantidade.
Alguns alunos fizeram desenhos que não representam o lugar
na qual estão inseridos, talvez por não possuírem percepção
ambiental, retratando lugares que não condiziam com a
realidade observada do bairro.
Isso aconteceu em um desenho da escola do CHFMC, em que
aparece o bairro e uma floresta no mesmo plano, ao ser
questionada, a aluna respondeu apenas que “deu vontade de
desenhar isso”.
Na escola do bairro Novo Paraíso quatro alunos fizeram
desenhos sem percepção ambiental. Um retratou uma figura
com rio, árvores, bananeiras, araras. Às vezes, sem nenhuma
instrução específica nesse sentido, as crianças desenham uma
figura fantasiosa de como gostariam que fosse o seu ambiente
ou como ela o vê.
Em outra representação, aparece um ser humano destruindo a
natureza, cortando e colocando fogo nas árvores, além de um
rio com peixes mortos por estar poluído e, ao lado, uma
estrada movimentada. Este lugar não é real no bairro.
Posteriormente nos deparamos com um desenho com
edifícios, como se fosse um condomínio e no bairro não há
este tipo de moradia, portanto esses alunos e outros não têm
percepção do ambiente em que moram, idealizam um lugar
para viver.
Em outra figura temos um riacho com peixes, uma ponte,
pessoas circulando, uma figura similar a um parque da cidade.
Comparando as percepções ambientais dos alunos dos dois
bairros, observamos que no CHFMC houve 62 (77,5%)
desenhos com percepção positiva, 17 (21,25%) negativas,
1(1,25%) sem percepção do bairro. No bairro Novo Paraíso
houve 38 (84,4%) positivas, 3(6,7%) negativas e 4 (8,9%) não
possuem percepção ambiental do seu bairro.
Porém, não podemos deixar de dizer que a falta de ônibus,
praças, áreas de lazer, postos de saúde bem equipados, ruas
planas, arborização influenciam na percepção ambiental e na
afeição pelo lugar. Interessante os alunos do bairro Novo
Paraíso não demonstrarem a percepção negativa em seus
desenhos, pois nas falas conhecem muito bem seu ambiente,
dizendo haver muitos bêbados, violência, falta de segurança e
traficantes, ou seja, elas demonstram nos desenhos mais o
concreto do que o abstrato.
A criança não realiza cópias, mas se apropria de modelos,
assimilando-os e integrando-os às suas produções de forma
original [18].
A partir destas definições, pode-se perceber que o desenho da
criança se constitui numa atividade inteligente, sensível e
cultural, envolve diversas manifestações do comportamento
infantil – visuais, verbais, não verbais, caricaturais – e que
integra dois planos: o real e o imaginário.
Durante a confecção dos desenhos, os alunos foram trocando
experiências sobre o que estavam desenhando ou como o
faziam, para Iavelberg [19] o conhecimento forma-se na
interação da criança com o meio em que vive, abarcando
aspectos psicológicos, afetivos e de organização social e
cultural. A produção gráfica manifestada no desenho é a
consequência de algumas interações que ocorrem sob a
influência de fatos externos a elas.
Sendo assim, o ser humano passa a ser um agente interativo na
criação de seu contexto cultural, na medida em que também é
por este constituído. Então, a cultura torna-se parte da natureza
humana e passa a evoluir a partir das interações que vão sendo
estabelecidas entre os sujeitos participantes. Nota-se que os
alunos desenham mais ou menos os mesmos pontos do bairro,
neles constatamos, em sua grande maioria, as imagens de
casas, supermercados, conjunto habitacional, parque de
diversão, escola e quadra, alguns apresentam usuários de
drogas e outros não há pessoas, nos desenhos com seres
humanos, apenas dois não são violentos ou usuários de drogas.
Muito do que os alunos classificaram como problemas que
afligem o bairro, originam-se da percepção, avaliação e
opinião formada a respeito de determinados aspectos, sejam
eles sociais, econômicos ou físico-espaciais, pois as estruturas
cognitivas e de percepção ambiental assumem representação
externa, pelas imagens mostradas nos desenhos.
No final dos desenhos os alunos manifestaram o desejo de que
o bairro tivesse clube de graça, shopping, mais policiamento e
limpeza, os lugares de que eles mais gostavam eram a quadra,
a praça e o fliperama. Um disse que o bairro era ruim, outros
que não gostavam da maldade, vandalismo, cerveja, roubo,
droga, traficante, estuprador, havia muito movimento nas ruas
por ter bastantes motos e carros, um acha o parquinho muito
velho e lá não havia policiamento, contaram que em frente a
quadra e o colégio têm drogas, aonde iam havia “noiados” e
encenaram os traficantes e usuários de drogas mexendo no
celular, enquanto estavam parados nos locais do bairro.
Outro aluno demonstrou muito medo quando disse que na rua
da vó “só tem gente assim”, dois alunos disseram de que não
gostariam que houvesse tantos drogados, pois juntamente com
os ladrões “estragam” o bairro, um fez a comparação entre
Brasil e Japão dizendo que: “aqui não é liberado e todos usam
, enquanto no Japão é proibido e eles não ficam usando
assim”, outro disse que a escola é bonita, vários contaram
quando pediam pizza pelo telefone e diziam que o endereço
era do Filostro a pizzaria se recusava fazer a entrega, havia
muitos redemoinhos no bairro e não sabiam explicar o motivo
disso, os que desenharam uma casa dizia ser a casa dele e
tinha desenhado por gostar muito dela, dois outros alunos
queriam desenhar um cara fumando mas que não sabiam como
desenhá-lo.
Apesar de todos os problemas citados, os alunos não
gostariam de mudar do CFMC, apenas 12 (15%) do total de
80. Já no bairro Novo Paraíso 15(33,3%) queriam. Embora
percebam no bairro pontos positivos como lazer, educação e
comércio, percebem também pontos negativos como
traficantes, violência, dependentes químicos, insegurança e
medo. Os alunos do Filostro, talvez, pela estrutura física do
lugar, não manifestaram interesse em se mudarem e os do
Novo Paraíso gostariam de morar em outro lugar.
419
>>Atas CIAIQ2015
>>Investigação Qualitativa em Educação//Investigación Cualitativa en Educación//Volume 2
V.
CONCLUSÕES
local, seja de educação ambiental, cultura da paz, entre outros.
Acreditamos que o resultado do estudo possa evidenciar para o
poder público municipal as carências, dificuldades e
apreensões do local estudado possibilitando tomada de
decisões para implantação e consolidação de políticas
públicas.
Foi constatado por meio dos desenhos confeccionados pelos
alunos dos dois bairros e suas respectivas escolas que os
alunos do Bairro Filostro Machado percebem seu ambiente
tanto positivo quanto negativo, percebem a violência, a falta
de segurança, o comércio, as áreas de lazer, o lado bom e o
lado ruim, o concreto e o abstrato, influenciados pela
infraestrutura do bairro. Embora sabedores de tudo isso, têm
afeição pelo bairro e não gostariam de ter que mudar para
outro lugar.
Já os alunos do Novo Paraíso se restringiram em desenhar
poucos elementos do bairro, como por exemplo, a sorveteria
da Joyce, o Bar da Marina, a escola e a Bia presentes, embora
na roda de conversa, alegaram ter traficantes, bêbados e
usuários de drogas, não retrataram esta situação nas imagens.
A escola que no Filostro é bem estruturada fisicamente, foi
descrita como um dos lugares preferidos, enquanto a do
Moacyr Romeu, sem espaço físico e áreas para lazer, foi
percebida como elemento negativo.
Ao compararmos os desenhos e as falas dos alunos, vimos que
lugar influencia na percepção ambiental, quanto melhor mais
percebido, como também mais amado,
As crianças do Filostro não contradizem na fala as imagens
feitas nos desenhos e os do Novo Paraíso desenham uma coisa
e dizem outra sobre o bairro
As interpretações dos desenhos feitas devem ser consideradas
como relativas, pois estão sujeitas a influência de um grande
número de variáveis, como o contexto social da criança e
variáveis de ordem cognitiva, afetiva ou motora, que não
foram aqui identificadas.
A categoria que prevaleceu nos desenhos foi rua sendo citada
em 62 desenhos (49,6%) e as representações iconográficas de
estabelecimentos comerciais foram nomeadas de acordo com
as que existem no bairro, 21 lugares foram mencionados,
alguns como igrejas não foram nomeados e os desenhos da
casa ora eram identificadas como do aluno e, outras vezes,
como da comunidade.
A escola que foi desenhada foi a que os alunos frequentam,
embora haja outras no bairro, às vezes, o papel foi uma
prancha, onde eram colocados elementos com certo grau de
aleatoriedade, mas que existiam nos bairros.
Foram percebidos problemas ambientais como falta de
arborização, jardins e flores. Alguns sinalizaram as ruas com
placas de PARE e faixas desenhadas no asfalto, dois
pichadores foram mostrados pichando o ambiente. Há uma
diferença grande entre o número de meninas e de meninos nos
dois bairros, com maioria de meninos nas duas escolas
pesquisada.
A percepção dos alunos nos conduz a repensar as condições
sociais e ambientais dos bairros envolvidos na pesquisa,
especialmente no que se refere à violência, degradação
ambiental, uso e venda de drogas. Os desenhos demonstram o
medo das paisagens pesquisadas e evidenciam necessidades de
desenvolvimento de trabalhos educativos com a comunidade
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