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Expedição Científica à Serra da Estrela

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Expedição Científica à Serra da Estrela
Expedição Científica à Serra da Estrela
Francisco Martins Sarmento
Revista de Guimarães, n.º 100, 1990, pp. 299-339
EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA À SERRA DA ESTRELA EM 1881
SECÇÃO DE ARQUEOLOGIA
___________________
ADVERTÊNCIA
Como a redacção deste relatório fosse pautada pelos quesitos do
programa, distribuído aos membros da secção arqueológica para
nortearem os seus trabalhos, entendemos ser conveniente reproduzir
o programa na sua íntegra.
O seguinte:
I– ESTAÇÕES PRÉ-HISTÓRICAS
a) Carta topográfica delas. –Nomes que ainda hoje conservam,
quer genéricos, como Cividade, Castro ou Crasto, Castelo, etc., quer
especiais. –Nomes dos montes, ou outeiros, em que elas ficam.
Tradições populares que lhes digam respeito.
b) Examinar se entre elas há algumas diferenças características,
quanto à situação, sistema de fortificações, etc.
c) Se dos objectos nelas encontrados, por exemplo, fragmentos
de ânforas, de telhas com rebordo, etc., acusando uma influência
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romana, se pode inferir quais as anteriores à dominação romana, e
quais as que continuaram a subsistir depois dela;
d) Se dentro do seu recinto aparecem em penedos ou lages
gravuras características, como círculos, espirais, grupos de covinhas
(fossetes), etc., que devem ser copiadas escrupulosamente.
e) Adquirir ou pelo menos tirar cópia das pedras ornamentadas,
inscrições, estátuas, baixos relevos, que existam nas ditas estações,
ou lhes possam ter pertencido, bem como das que se encontrem em
qualquer outra localidade da área que se explora.
f) Averiguar, sendo possível, em que direcção a população
primitiva dos altos se estendeu para a planície, ou para o vale, e se ela
formou uma nova povoação em tempos já cristãos.
E, dado este caso:
g) Estudar atentamente a ornamentação das igrejas antigas, em
torno das quais aquelas povoações se constituíram, comparando-a
com o estilo das pedras ornamentadas pertencentes à povoação
primitiva ou de quaisquer outras estações antigas, ainda que situadas
em localidades distintas.
h) Examinar as fontes que se veja terem sido utilizadas pela
população dos altos, e explorar o terreno em que elas ficam, se
alguma indicação aconselhar tal exploração; recolher as tradições e
superstições de que elas forem objecto entre o povo.
i) Adquirir as armas de pedra, de bronze, objectos cerâmicos,
moedas que provierem dos monumentos deste parágrafo e dos do
parágrafo seguinte.
II- MONUMENTOS MEGALÍTICOS
a) Carta topográfica das antas, antelas (tumuli), menires,
cromeleques, penedos e lages com gravuras, sepulturas abertas em
rocha, etc.
b) Notar as diferenças que possa haver entre estes monumentos
e os das nossas outras províncias.
c) Estudá-los sob o ponto de vista da sua ligação com os
monumentos do parágrafo antecedente.
E, neste intuito:
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d) Examinar a sua posição em relação às povoações dos altos e
às estradas ou caminhos que partirem delas.
e) Se pelos objectos que nelas se encontrem, telha romana,
objectos de bronze, etc., se pode demonstrar a ligação que se procura.
f) O mesmo com respeito à identidade de gravuras insculpidas
nas pedras destes monumentos, ou nas lages e penedos que lhes
fiquem próximos, e as encontradas no interior das estações préhistóricas.
g) Verificar se há, ou não, incompatibilidade entre as antas e
antelas, e ainda se pelo conteúdo de umas e de outras se pode marcar
entre elas alguma diferença cronológica.
h) Se as antas foram, ou não, cobertas por mamoas, e, neste
caso, se há entre as mamoas das antas e das antelas outras
diferenças, além da das suas dimensões.
i) Se algumas mamoas foram coroadas de menires.
j) Indicar na carta topográfica dos monumentos deste parágrafo
os que ocupam os vales, as chãs dos montes e outeiros, ou as
gargantas dos mesmos, e os que ficam à beira de caminhos.
k) Tomar nota dos nomes populares destes monumentos e das
tradições que o povo lhes liga.
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As investigações a que procedemos, e as informações que
obtivemos dos práticos, autorizam-nos a estabelecer, até provas em
contrário, que no coração da Serra da Estrela não há antiguidades a
procurar.
As preocupações literárias, que fariam crer o mais inacessível dos
Hermínios habitado pelos nossos antepassados, os lusitanos, têm de
desvanecer-se perante a realidade dos factos. É possível, é provável,
que em ocasiões de grandes perigos, aquele labirinto de precipícios
acenasse com um refúgio seguro às populações dos arredores, que lhe
conhecessem os escaninhos; mas este refúgio era então um
esconderijo, um asilo temporário, que não podia guardar-nos vestígios
apreciáveis dos seus fugitivos ocupantes.
Lembremos sobretudo que a Serra propriamente dita se torna
inabitável uma grande parte do ano. A neve alastra tudo. Nos tempos
antigos sucedia certamente o mesmo. Ora, é evidente que em
paragens onde mora habitualmente o gelo, e portanto a fome, nenhum
povo viria assentar estabelecimentos fixos, os quais, diga-se de
passagem, se tivessem existido, haviam de deixar ruínas, que não
podiam escapar à vista sagaz dos pastores, como lhes não escapam os
sinais quase apagados das rochas (Vid. infra), tanto mais que essas
ruínas, em consequência mesmo da sua situação longe dos povoados,
forçosamente nos conservariam intactos os seus materiais.
Devia acontecer nas épocas passadas o mesmo que hoje
acontece. A Serra franqueava, durante alguns meses do ano, as suas
pastagens ao gado dos povos vizinhos; mas a gente, que vinha
pastorear nela, tinha noutra parte os seus domicílios, e nós não
podemos esperar que ela nos deixasse por estes ermos outras
memórias, se não as que nos deixam agora os seus descendentes e
sucessores, alguns marouços1, que os guiam nas veredas (sic), algum
tosco alicerce de curral provisório; isto é, nada, ou pouco mais de
nada.
1Montões de pedregulho. No Minho existe um monte elevado com o nome de Marouço.
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O certo é que no largo trajecto da Serra, que percorremos,
apenas encontramos com grandes probabilidades de um arcaísmo
legítimo os sinais gravados em dois penedos, perto da fonte do
Canariz2; mas também com toda a probabilidade estes sinais devem
ter sido obra dos antigos pastores, hipótese que se impõe como
consequência forçada das observações que ficam feitas.
Estas reflexões são reforçadas por um facto, à primeira vista de
pouco valor. Se para fins etnográficos se pergunta aos pastores por
bruxas, lobisomens, etc., eles respondem que disso não há na Serra,
mas lá para baixo, para a terra chã3, quer dizer, para sítios habitados
desde tempos imemoriais, onde, que não nos despovoados, criam
verdadeiras raízes as velhas legendas, precisando de uma população
que as alimente pela tradição de pais a filhos, e, em regra, de
monumentos de civilizações extintas, em que sejam localizadas, e a
bem dizer autenticadas.
Agora, se seguimos o caminho apontado pelos pastores, e
dirigimos as nossas buscas para as cercanias da Serra, a começar
pelos outeiros e cabeços que ligam com as planícies e vales, a
esterilidade transforma-se em abundância. Em todas as localidades,
aonde nos levaram informações, cuja exactidão verificávamos,
colhíamos novas informações, sempre interessantes; e esta boa
fortuna, que é possível, mas não é provável que fosse devida ao acaso
e não continuasse a acompanhar-nos, deixou-nos a impressão de que
para explorar com proveito, não dizemos toda a área marcada pela
Sociedade de Geografia, mas somente aquela que tínhamos tenção de
percorrer, desde S. Romão, a sul de Seia, até à Covilhã, dando volta
por Folgozinho e Guarda, ser-nos-ia indispensável um prazo
incomparavelmente mais longo que aquele que nos foi dado.
Infelizmente, o tempo, de que podemos dispor, foi pouco e esse
2A forma destes sinais é
. O que nos inculca a antiguidade destas gravuras é a
sua analogia tal qual com outra, que se encontra numa fonte das faldas do monte de
S. Romão (Citânia) e o parentesco visível das tradições de ambas as fontes: na de
Briteiros há um «sino de oiro»dos mouros; na do Canariz existe «grande haver de
mouros». A gravura da fonte da Briteiros é
e consideramo-la antiga, porque a
encontramos na Citânia associada a um suástica.
3Há excepções, mas raras e muito incertas. Assim, a lenda relativa à Lagoa Escura é
localizada aqui e em sítio muito distante. O caso de um sujeito raptado por uma bruxa
na nave de Santo António tem todos os visos de exótico.
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mesmo mal aproveitado, em razão da dificuldade e principalmente da
morosidade dos meios de transporte, de modo que só podemos entrever a riqueza arqueológica desta região, e fazer um reconhecimento
muito ligeiro de uma pequena parte dos seus monumentos.
Impossível nos é, por isso, satisfazer plenamente às exigências
do nosso programa.
Não obstante, seguiremos neste relatório a ordem dos seus
quesitos, declarando francamente a causa por que alguns deles foram
prejudicados.
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I
ESTAÇÕES PRÉ-HISTÓRICAS
a) Só encontramos estações pré-históricas do tipo da Citânia e de
Sabroso, a que nos referiremos por vezes, visto serem já conhecidas e
em parte exploradas.
As que examinamos são: Castro de S. Romão (freguesia do
mesmo nome), Cabeço do Castro (Torrozelo), Tintinolho (Guarda).
Entram com toda a probabilidade na mesma categoria: Cristelo, a
sul de Seia, notável só pelo nome; Castro de Paranhos; Castro de
Alfátema (freguesia de Passos); ruínas em Folgozinho e arredores,
como Cabeço de El-Rei e Castelo Reigoso; Castro de Valhelhas; ruínas
da Senhora da Serra ou da Penha (defronte da Covilhã); Cabeço de
Argemela, pertencente parte ao Fundão, parte à Covilhã; Castro (?)
dos Três Povos; ruínas da Serra da Senhora da Povoa; Castro em Pero
Viseu; ruínas da Serra do Sobral.
Cremos firmemente que esta lista seria largamente ampliada por
um explorador, que pudesse percorrer com vagar o itinerário, que já
dissemos ter tido tenção de percorrer4.
4Para prova: de uma nota que nos deu o sr. Luís de Matos, de Tortozendo,
resumimos, pela ordem em que as recebemos, as seguintes informações: «No limite
de Unhais, no alto de Aboaça, assento de muralha; por cima, às vistas de Verdelhas,
outro, mas maior; em Verdelhas, outro; às vistas da Aldeia de Matos dizem que há
mais dois, chamados por algunsa castelos dos Patoetas, por outros castelos
Redadeiros; na Aldeia de Souto outro, e aí um arco, como o de Bobadela, chamado
Arco de S.João. No concelho do Fundão, no limite de Lavacolhos, assento de muralha
no Cabeço Gomes; às vistas do Casal da Serra, freguesia anexa a s.Vicente da Beira,
grande muralha demolida. Por cima do limite dos Três Povos muralha no Cabeço de
Escarrigo. No concelho de Penamacor, no sítio chamado Tabeiró, houve uma grande
cidade, a que dão o nome de Serebeca. No concelho de Belmonte, ao pé do Zêzere,
grande cidade. No concelho da Guarda, limite de Videmonte, no fundo da Serra de
Bois, grande muralha.»
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Como se vê, o nome mais trivial é o de Castro (sempre com
metátese); o de Castelo aparece algumas vezes; o de Cristelo uma só.
Nenhuns outros nomes genéricos chegaram ao nosso conhecimento, o
que não prova que os não haja, pois que, repetimos, as nossas
explorações foram muito incompletas.
Se os nomes especiais, como Alfátema, Reigoso, Tintinolho,
Argemela, etc. pertencem às povoações destruídas, se aos montes em
que elas assentam, não o podemos averiguar, e menos ainda o valor
arqueológico que podem ter tais nomes.
Nenhuma tradição colhemos acerca destas povoações arruinadas.
Apenas do Castro de Alfátema conta a legenda ter sido destruído (sic)
por uma invasão de gafanhotos e de formigas5. De resto, como nas
nossas outras províncias, os monumentos antigos são aqui atribuídos
aos mouros.
b) Não notamos diferenças consideráveis entre as estações que
visitamos. Como o dissemos já, todas elas têm o tipo das ruínas
exploradas no Minho, quanto à sua posição, sistema de fortificações,
etc.
Assim, o Castro de S. Romão ocupa um cerro de abruptos
declives, principalmente pelo norte, poente e nascente. A ribeira da
Caniça e o Alva cingem-no em parte, aumentando ainda as condições
da defesa. As duas correntes confluem ao norte do cerro, tomando a
resultante o nome de rio Alva. Aos leitos muito fragosos destas ribeiras
fica sobranceira a cumeada em 150 metros proximamente.
Geologicamente é muito notável o cerro, porque ali se ligam as
formações graníticas, a grande massa da Serra da Estrela, e a dos
xistos; a parte mais elevada e toda a escarpa do norte sobre a junção
dos rios é granítica, íngreme em extremo.
São perfeitamente visíveis os vestígios das fortificações; a grande
distância mesmo a forma do cerro e a grande linha bem distinta da
muralha exterior, uns 60 metros abaixo da cumeada, chamam logo a
atenção. As muralhas são muito distintas do lado do sul, e formadas
quase inteiramente de blocos de xisto; a superior, no cabeço granítico,
é de blocos de granito e formava um pequeno recinto. A trincheira é
um terrapleno de 200 metros de comprimento, chamado na localidade
Carreira dos Cavalos. A muralha exterior, no seu lado do sul, ainda se
5A lenda de uma cidade destruída por gafanhotos repete-se noutras ruínas próximas
de Pinhel.
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reconhece perfeitamente, tanto que só se pode penetrar no recinto
fortificado pela antiga entrada, uma rampa bem definida, como se vê
na estampa I6. Na cumeada há uma grande aglomeração caótica de
grandes blocos de granito, que mais parecem da natureza que da arte;
em alguns casos, porém, as pedras estão dispostas de modo tal, que
parecem que as aproveitaram, deslocando-as com intenção para
formar abrigos; nenhum caso, todavia, em que se possa afirmar
construção, edifício determinado. Principalmente no recinto mais
vasto,
entre
a
segunda
e
terceira
muralha,
deparam-se
frequentemente fragmentos de cerâmica e de telhões com rebordo.
O Cabeço do Castro (Torrozelo) tem no essencial o mesmo
carácter que o Castro de S. Romão, salvo que é de mais pequenas
dimensões, e fica numa colina muito mais baixa. Toda a pedra das
ruínas tem sido completamente saqueada. Ainda assim é bem visível a
linha por onde corria a muralha na coroa do cabeço. Fragmentos de
cerâmica grosseira, fragmentos de telha com rebordo, encontram-se
facilmente à superfície do solo, e, segundo nos afirmaram, quando por
6 Explicação da estampa:
a Muralha bem visível, horizontal a princípio, depois descendo para o sul.
b Muralha bem visível, ligava com d, a acção das águas ravinou o outeiro,
arrastando os blocos.
c Bem visível, grande acumulação de grandes blocos de granito, muito
deslocados.
d Forma uma espécie de plataforma, e chamam-lhe, no sítio, Carreira dos
Cavalos.
e Grande acumulação de grandes blocos de granito; alguns parecem deslocados
para formar abrigos.
f Rampa de entrada bem visível.
A vertente norte e ambos os declives sobre as ribeiras muito abruptos.
O do sul muito suave.
Na vertente norte uma pequena gruta natural, a casa da moura.
Fragmentos de cerâmica grosseira, variada junto da muralha b e no declive para
a.
Em e, sob um bloco muito saliente, fragmentos de cerâmica negra, e fragmentos
de telhas, vasos e um tijolo romano.
Lendas de tesouros, haveres. Um sítio estava mexido recentemente, e o guia
disse que provavelmente fora alguém que ali demandara haveres. Todavia não consta
que ali se tenha descoberto algum objecto notável.
A muralha denuncia-se a distância. Os muros a e b são em blocos de xisto; a vertente
norte é granítica, mas a meridional é de xisto.
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ali se arranca alguma árvore, a terra vem sempre misturada com
muito carvão.
Tintinolho não tem diferenças notáveis dos Castros já descritos;
mas a pequena escavação que aí foi feita pelo sr. Bravo, engenheiro
do distrito da Guarda, na qual, além de outros objectos, foi recolhida
uma moeda de D. João I, mostra que as povoações deste tipo podiam
muito bem ter prolongado a sua existência até épocas relativamente
modernas7. Tintinolho fica a noroeste e a 7 quilómetros da Guarda. Do
lado do norte são evidentes os vestígios de três ordens de muralhas
(vide est. II, fig. 2), e no planalto vestígios de construções antigas.
Todo o sítio é ermo agora; a parte mais elevada, pelo escarpado e
fragoso, não é cultivada. Na baixa, a 2 quilómetros, fica a povoação de
Cavadonde (ou Cavadondes nos documentos antigos), e no sopé do
pico encontram-se duas quintas, uma das quais é conhecida pela
denominação de Tintinilho ou da Fome. Fora da terceira muralha, a
noroeste, estende-se uma ampla chapada, que parece artificial,
comparada com a orografia local; em toda ela, são vulgares
fragmentos de cerâmica, telha com rebordo, etc. No fundo da vertente
corre o Mondego.
Das outras ruínas, que somente conhecemos por informações,
diremos que, se estas informações são exactas (e não há razão para
acreditar que o não sejam), o exame delas e principalmente uma
escavação bem dirigida deve fornecer à nossa arqueologia subsídios da
máxima importância. Mencionaremos com especialidade Folgozinho
com a sua rua feita pelos Galhardos (diabos), os braceletes de ouro e
os machados de bronze ali encontrados, as suas «letras gregas» (sic)
nas Fragas do Avento; a serra da Senhora da Serra com os seus
punhais de cobre e «letras gregas»; o grande cabeço de Argemela com
as suas três ordens de muralhas; a serra do Sobral e imediações com
os seus inumeráveis sinais gravados em rocha, pegadas, etc.
c) Nas três estações, que examinámos, a influência é
francamente acusada pela presença de telhas com rebordo; mas a
origem pré-romana de todas elas parece-nos incontestável, atenta a
sua analogia com Sabroso, onde não aparece o mínimo vestígio de
influência romana, o que torna estas últimas ruínas, se não estamos
7E não é para admirar. A povoação do Freixo, no concelho de Marco de Canavezes,
ocupa a coroa de um monte, que mostra ainda vestígios muito claros de um Castro,
não menos importante que o de Tintinolho.
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enganados, o protótipo de uma povoação puramente lusitana, pela
qual todas as outras devem ser aferidas.
d) Dentro do recinto das estações, que vimos, não encontrámos,
insculpidos em penedos ou lages, círculos concêntricos, espirais8,
covinhas (fossettes), vulgares nas ruínas do Minho.
Devemos porém advertir que nos faltou tempo para um exame
minucioso, e os que estão familiarizados com esta ordem de
investigações sabem que dificuldades há em descobrir tais sinais, que
os agentes atmosféricos têm muitas vezes quase obliterado e alguns
dos quais só se tornam visíveis, quando a luz os fere de um certo
modo.
A sua existência é tanto mais provável, que não faltam noutras
partes desta região gravuras em rocha, como se induz do que já fica
dito e como se verá mais circunstanciadamente em seguida.
e) Não tivemos notícias de pedras ornamentadas, nem de baixos
relevos, pertencentes aos monumentos de que tratamos ou a outros
da mesma época. Quanto a estátuas, falaram-nos de uma cabeça
aparecida em Bobadela, hoje no instituto de Coimbra; uma perna
achada em Girabolhos, e três cabeças de argamassa (sic) encontradas
na Serra do Sobral. Excepto porém o fragmento da estátua de
Bobadela, tudo o mais está perdido, segundo inferimos.
De inscrições há a mencionar as de Bobadela, que vão adiante
copiadas (vide est. III, fig. 3 a 7), a notícia das «letras gregas»
existentes, como já dissemos, nas Fragas do Avento e na Serra da
Senhora da Serra, e além disso no Chão Cimeiro (Ribeira de Unhais) e
noutras partes. Observaremos que a comunicação desta notícia das
letras gregas nos foi feita por um homem do povo e não é raro ver dar
ao povo o nome de «letreiro» a qualquer gravura em rocha.
Debalde nos esforçámos por alcançar cópia destas inscrições ou
destas gravuras.
f e g) Pelos motivos atrás repetidos, não nos foi possível colher os
dados que desejavamos, para o esclarecimento destes dois quesitos.
Não repugna acreditar, antes pelo contrário, que , por exemplo, as
actuais povoações de S. Romão e de Torrozelo sejam os
representantes das povoações arruinadas dos Castros, que lhes ficam
próximos; mas a comparação do estilo ornamental, usado nestes
8A única espiral que encontrámos é de Bobadela (vide est. IV, fig. 8), mas não
gravada em rocha.
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Castros ou em quaisquer estações da mesma idade, com o das igrejas
antigas, comparação, que poderia reforçar de um modo positivo as
probabilidades da sua filiação9, falta, tanto, porque, já o dissemos,
nenhumas pedras ornamentadas descobrimos nas nossas indagações,
como por não acharmos nas igrejas, que visitámos, analogias frisantes
com a ornamentação em uso noutras estações pré-históricas do nosso
país.
Apressemo-nos porém a acrescentar que na maioria das
localidades as igrejas antigas estão substituídas por edificações de
ontem e os seus materiais foram provavelmente atirados, como é
costume, para os alicerces ou para o interior das construções
modernas.
Como excepção, apontaremos a igreja velha de Tourães, cujas
ruínas têm sido respeitadas até certo ponto, e apontamo-la
propositadamente, porque aí, em quase todas as aduelas do arco da
porta principal aparece gravada a figura igual a outra que se vê numa
lage, perto de uma casa da Citânia. Este caso isolado pouco vale, é
certo; mas não pode também ser absolutamente desprezado10,
mesmo que seja marca de pedreiro a figura em questão.
Se porém esta ordem de subsídios é mais que insuficiente para o
objecto que nos ocupa –o estudo de transição das povoações dos altos
para as planícies e da sua ligação com as povoações actuais– em
compensação, o exame de Bodadela parece-nos de uma importância
excepcional sob este ponto de vista. Muito provavelmente a povoação
primitiva, como a de Torrozelo e outras, teve o seu assento num
cabeço. Com efeito, a sudoeste e perto da vila, vê-se o monte do
9Não se tenha como mera fantasia o subsídio que indicámos aqui para esclarecimento
desta questão. Na antiga igreja matriz de Valença do Minho, entre outros ornatos,
figura um suástica idêntico aos da Citânia. Suásticas e espirais, encontrou-as um
membro desta secção na capela de Balsemão, perto de Lamego. A ornamentação
curvilínea de alguns arcos-cruzeiros de antiquíssimas igrejas, como a de S. Miguel do
Castelo (Guimarães), faz lembrar o estilo ornamental de Sabroso, da Citânia e da
Cividade (Âncora). Que entre nós existiu uma arte pré-romana parece indubitável,
estudando aquelas estações; e que algumas reminiscências dela, pelo menos,
atravessassem a época romana nada tem de admirável. E em todo o caso esta opinião
não é tão original, que não tenha sido sustentada, com relação à França, por alguns
sábios daquele país.
10Diremos ainda que a espiral, servindo de ornato como em Bobadela, se encontra na
Citânia na padieira de uma porta, por baixo da inscrição: Coroneri | Camali | Domus.
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Rocio, em cuja vertente oriental se encontram, segundo informações
fidedignas, restos de construções, fragmentos de barro, etc. A
povoação moderna, que fica num convale, apresenta o aspecto de uma
vila genuinamente portuguesa e mais genuinamente beirã, que se
obstinou em viver sobre as ruínas de uma cidade luso-romana, sem
saber muito bem o que havia de fazer dos escombros, que entulhavam
o terreno, onde erguia os seus edifícios. Uma quantidade inumerável
de fustes de colunas, de capitéis (sem ornato digno de nota), de bases
e algumas outras relíquias, que se acham luxuosas, depois da visita
dos rudes Castros, estão por ali acomodados a trouxe mouxe, em
casas
de
deplorável
aparência,
em
posições
grandemente
disparatadas.
Mas esta mistura da cidade morta com a povoação viva, à
primeira vista extravagante, acaba por influir certo respeito e impõe a
crença, um pouco sentimental, é verdade, de que nem os séculos nem
as revoluções políticas lograram até hoje exterminar destes sítios uma
comunidade, que, há centenas de anos, os escolheu para pátria. Seja
como for, a cidade, a que chamamos luso-romana, à falta de melhor
denominação, foi sem dúvida construída num lugar aberto contra o uso
corrente das povoações anteriores, que procuravam as eminências,
abrigando-se atrás de sólidas muralhas, e é o documento positivo de
um período social, novo para a Lusitânia, o da «pacificação», para
empregarmos a linguagem dos conquistadores romanos.
A sua destruição, quer devida às hordas germânicas, quer às dos
árabes, acabou apenas com os edifícios: uma nova povoação renasceu
das ruínas da povoação antiga, pelas mesmas razões, parece, por que,
séculos antes, a povoação do alto do monte descera para a planície,
que lhe ficava mais perto -o amor ao berço natal.
Se pois não estamos em erro, neste pequeno recanto da Beira a
civilização pré-romana, romana e pós-romana deixam perceber os elos
do seu encadeamento com uma nitidez relativa, que não é fácil
encontrar noutra parte, e este facto julgamo-lo de suma importância,
tanto absolutamente, como por dar uma consistência real a induções,
que o exame localidades tornava até hoje pouco menos de arbitrárias.
h) O culto das águas, e nomeadamente das fontes, parece ter
sido vulgar entre os nossos antepassados. Sem falar nos deuses
Bormânico, Tameobrigo, etc., diremos que na encosta do monte da
Saia (concelho de Barcelos), em cujo cimo existem ruínas iguais às
que temos descrito, foi descoberto há poucos anos um monumento,
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que sem dúvida nenhuma era consagrado a alguma divindade, que
tinha relação com águas11. A água que alimentava o tanque do
santuário tem ainda hoje virtudes miraculosas. Conforme a tradição, a
nascente principal rebentou da pegada (daqui o nome de Pegarinho,
Fonte do Pegarinho, segundo a mesma tradição) da jumenta de Nossa
Senhora, quando fugia para o Egipto, exemplo frisante, no nosso
entender, da persistência das antigas lendas pagãs sob uma forma
cristianizada.
Nas faldas de Sabroso houve um monumento idêntico ao da Saia.
Próximo do castelo de Vermoim, outra estação de origem pré-romana,
há probabilidades de ter existido outro.
Nas nossas investigações nada encontrámos, que nos fizesse
suspeitar da existência de tais monumentos, e por isso nenhumas
escavações fizemos para esclarecer este ponto tão interessante, quão
obscuro das nossas antiguidades. Não nos cansaremos porém de
repetir que o reconhecimento dos arredores da serra da Estrela exige
muito tempo e muita minuciosidade. Uma exploração nestas condições
deve dar resultados importantes, porque "Fontes de Mouros" e fontes
notáveis pelos tesouros, que contêm (na voz do povo), e outras, que
já os contiveram na realidade, se as informações são verdadeiras, não
faltam por ali, o que é um excelente indício. A fonte de Torrozelo é dos
mouros e há lá riquezas ocultas, diz a lenda. A fonte dos Namorados
nos Três-Povos é dos mouros. Na fonte da Pena Lisa têm aparecido
barras de oiro. Em Santiago, defronte de Seia, na «fonte Mourinha»,
tem sido vista a própria moura a lavar oiro. Quando é surpreendida
por algum observador, faz-lhe uma momice e desaparece sob a forma
de flocos de lã.
i) Apenas pudemos adquirir e entregámos fragmentos de
cerâmica e de vidro de pouca importância, encontrados em Tintinolho
e no Castro de S. Romão, uma moeda de D. João I, achada nas
escavações de Tintinolho, dois machados de bronze encontrados em
Azevo, (vide est. IV, fig. 9 e 10) cada qual da sua forma, oferecidos
pelo sr. Santos, 107 moedas romanas, encontradas na aldeia do Bispo
e oferecidas pelo sr. António Ferreira dos Santos, da Guarda.
11Hoje quase inteiramente destruído. Duas pedras que lhe pertenciam, onde estão
esculturadas duas figuras humanas e a cabeça de um animal, escaparam ao
vandalismo, e são hoje propriedade de um dos membros desta secção.
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É aqui lugar próprio de mencionar os objectos, que se diz
haverem sido achados nas localidades, de que nos temos ocupado. No
lugar de Nogueira, sobre Seia, onde aparecem vestígios antigos e que
pode muito bem ter sido a primeira sede da povoação daqueles sítios,
encontrou-se uma chapa de oiro com a letra M (informação do sr.
António Saraiva da Costa, a quem devemos valiosos serviços). Em
Torrozelo, num batatal, apareceu um «botão de prata, maior que um
pinto, com um leão, um caçador e uma lebre na carreira». É possuidor
deste objecto um herdeiro de Francisco Augusto, de Torrozelo,
segundo conta a nossa informadora, a sr. Ana de Lemos, estalajadeira,
que, para nos fazer a vontade, lho foi pedir duas vezes, encontrando-o
sempre a dormir, valha a verdade. No Castro de Alfátema achou-se
uma «bengala de prata com cadeia do mesmo metal», vendida a
Ribeiro Saraiva, de Passos (informação do sr. António Saraiva da
Costa, de Seia). Em Folgozinho, perto das Fragas do Avento, um
carvoeiro, há poucos anos, ao arrancar uns raizeiros, descobriu cinco
braceletes de oiro, o mais grosso dos quais foi vendido por £ 50. Há
coisa de um ano apareceram mais dois iguais, mas em localidade
muito distante12 (informação do sr. António Ferreira dos Santos, da
Guarda). No Castro dos Três Povos foram encontradas moedas de oiro
(informador o sr. José Luís de Matos, do Tortozendo). Em Gibraltar,
perto de Teixoso, apareceram num rego de água «11 tigelões e 15
tigelas de prata» e não longe umas «argolas de oiro encadeadas» (do
mesmo informador). Na fonte da Pena Lisa encontrou-se uma «barra
de oiro que pesava libras 60» (idem). Próximo do Castelo Reigoso
encontrada uma «meada de arame de ouro, de que os pastores
fizeram colchetes para as suas capas» (de vários informadores, entre
eles um amigo do sr. António Ferreira dos Santos).
Omitimos os achados de oiro em pó e de pedras preciosas.
Rebatendo o que possa haver de exagerado em algumas destas
afirmativas, o certo é que alguns destes achados são perfeitamente
autênticos. Um dos membros da secção arqueológica possui dois dos
braceletes encontrados em Folgozinho (vide est. V, fig. 11 e 12), um
dos quais custou £24 e é fora de dúvida que dois outros, vendidos
pouco antes a um ourives do Porto, eram duas vezes mais pesados. Do
12Em Pena-Lobo.
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15
mesmo modo o arame de oiro, de que os pastores fizeram colchetes,
ignorando o seu valor, é um facto incontestável.
Mencionaremos ainda, por ter importância como legenda, o «altar
de oiro e a bezerra de oiro», que estão debaixo do altar da igreja de S.
Romão, perto do Castro do mesmo nome.
O achado de armas de bronze nesta parte da Beira não é raro, e
dantes parece ter sido vulgaríssimo. Informações de boa fonte dizemnos que uma quantidade inumerável de machados de bronze tem
desaparecido no cadinho dos fundidores.
Ocupámo-nos há pouco de Bobadela, como de uma povoação
imensamente importante para o estudo da transição da civilização préromana para a romana, e desta para a dos séculos subsequentes; mas
este estudo só poderia ser feito com aproveitamento, se uma
exploração metódica e minuciosa arrancasse debaixo daquele solo os
segredos, que lá devem estar soterrados. As relíquias hoje à vista
fazem desejar ardentemente a extracção de muitas outras, que é lícito
supor escondidas à profundidade de poucos palmos.
O monumento mais bem conservado é o arco romano (vide est.
VI, fig. 13), defronte da igreja, mas em direcção cruzada com ela. A
duzentos passos para o poente vêem-se restos de um segundo arco,
igual ao primeiro, e de um ao outro corria uma calçada coeva deles,
que seguia depois em direcções divergentes e mal determinadas, e
que, segundo informações que nos repetiram com insistência, existe
ainda excelentemente conservada, quatro palmos abaixo da calçada
actual. Por qualquer quintal, por qualquer alpendre, encontram-se
fustes e fustes de colunas de diferentes dimensões, capitéis de
colunas, bases de colunas, e o observador, passado algum tempo,
começa a sentir certa impaciência por querer ver alguma coisa mais
que destroços de colunatas, alguma curiosidade mais que ninguém lhe
mostra, quando aliás debaixo dos seus pés hão-de existir dúzias delas,
como lho inculca o aspecto geral da povoação em ruínas e o título,
embora imodesto, de «splendíssima», de que ela se jactava.
Mas nada. Tem de contentar-se com ver à beira de uma rua um
pedaço de cimento romano; com saber que frequentes vezes
aparecem por ali moedas, que ninguém guarda, moinhos de mão e
objectos de pouca importância. Perto da casa do Ervedal, indo à busca
de inscrições, que lhe dizem haver lá, encontra por acaso, a aflorar do
solo, uma pedra cilíndrica com uma espiral gravada no seu topo
aparente (vide est. III, fig. 3 a 7), e três sepulturas em rocha, duas na
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16
Pedra da Estrela, a pouca distância da povoação, a terceira um pouco
mais longe.
É com verdadeiro pesar que não podemos dar mais notícias
destas curiosas ruínas; mas os seus grandes segredos estão à espera
de um explorador que vá desentranhá-los do solo.
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17
II
MONUMENTOS MEGALÍTICOS
Dos monumentos respectivos a esta parte do programa temos só
a mencionar: antas, sepulturas abertas em rocha e penedos com
gravuras (mas vide in fine parágrafo Antinhas).
a) Antas – As antas, que examinámos, encontram-se em
Paranhos e nomeadamente, uma no lugar do Fontão, uma no lugar da
Coutada, uma em Valdeivão, uma em Candimens, duas no Chaveiral.
Todas elas estão arruinadas, excepto a primeira. Há-as, segundo nos
asseveraram, no Seixo, em maior quantidade que em Paranhos; em
Vila Verde (Tourães); em Nelas; em Canas de Senhorim; em Sabreda;
na Carrapichana; no Carrapito; em Aljão; no Carvalhal de Gouveias, já
para o lado de Pinhel. Vimos as duas últimas.
Sepulturas em rocha: uma em Nogueira, sobre Seia; uma em
Torrozelo, no Penedo de Bom Nome; uma no lugar da Aboca, e uma no
de Soitinho, não longe ambos os lugares de Oliveira do Hospital;
quatro em S. Paio de Gramanços; três perto de Bobadela; quatro em
Paranhos; algumas em Girabolhos; muitas junto do Castelo Reigoso;
duas no Jarmelo, defronte da igreja de Santa Maria. Não falámos nas
de Trancoso, Moreira de Rei, etc.
Penedos com gravuras: Fonte do Canariz; no Sabugueiro; em
Santa Eulália, a sul de Seia, defronte da capela de S. Bartolomeu; em
Nogueira, sobre Seia; em Gramaça; na serra das Águas de Ceira; no
Chão Cimeiro (Ribeira de Unhais); na serra do Sobral.
Ainda mais que a dos Castros, a lista destes monumentos e de
alguns outros indicados pelo programa deve ser considerável, se a
exploração destes sítios for feita com vagar e método. A anta do
Fontão, por exemplo, que foi causa da nossa visita a Paranhos, deu
lugar a que pudéssemos examinar mais cinco na área de pouco mais
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18
de 1 quilómetro e a colhermos informações sobre muitas outras em
freguesias circunvizinhas.
b) O desenho da anta do Fontão (est. VI, fig. 14 e 14-A), da do
Aljão (est. VII, fig. 15 e 15-A), e do Carvalhal de Gouveias (est. VIII,
fig. 16 e 16-A), dispensam-nos de miúdas descrições e deixam ver que
não há diferença importante entre estes monumentos e o geral dos
das nossas outras províncias.
Todos eles têm galeria.
A anta do Carvalhal de Gouveias fica entre esta localidade e a de
Pera de Moço, no sítio que tem o nome de Quinta da Estalagem.
Está no meio de um campo cultivado e serve, ora de cozinha, ora
de abrigo aos guardas do campo ou aos rapazes que pastoreiam gado.
O interior da câmara tem sido por vezes revolvido. A mesa tem 2,50
m; os suportes medem de altura 2 metros. É uma construção
pequena, mas sofrivelmente conservada.
A anta do Aljão é de maiores dimensões. Fica entre o quilómetro
28-29 (contando de Celorico para Coimbra), a 100 metros da estrada,
numa lombada natural, plantada de vinhedo. Faltam-lhe três suportes,
de que restam ainda assim troços importantes. Afora isso está bem
conservada. Altura dos suportes 2,50m; comprimento da mesa 3,20m.
A anta do Fontão está numa chã, a que dão o nome de Vale da
Igreja. A sua altura (referimo-nos sempre à parte descoberta dos
suportes, não podendo calcular ainda a parte soterrada) é de 2
metros; a mesa tem 2,80m no diâmetro do seu eixo, 3,05 no diâmetro
que cruza com ele.
Todas as outras antas que vimos estão arruinadas, repetimos.
Nenhuma delas tem gravuras. Apenas sobre a mesa da anta de
Fontão se vêem duas cruzes do seguinte feitio ; mas a circunstância de
ser a anta, desde tempos remotos, propriedade de dois quinhoeiros,
faz crer que estes sinais, como sucede noutras partes, não passam de
marcas divisórias. No entanto um dos co-proprietários, que estava
presente, nada soube dizer que pudesse confirmar ou invalidar esta
explicação.
A forma vulgar de todas as sepulturas abertas em rocha, de que
nos deram notícia, é, segundo podemos inferir da descrição que delas
nos fizeram, a mesma que a das quatro de Paranhos, todas iguais, e
de uma das quais damos o desenho (est. IX, fig. 17), bem como de
outra de Jarmelo (est. IX, fig. 18). Comprimento 1,80m, 0,54m na
maior largura, 0,46m na menor, 0,17m de raio no semicírculo, onde
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19
entrava a cabeça do cadáver, 0,23m de profundidade. Não tem
rebaixe, que indique ter sido coberta por tampa de lousa, e é possível
que o fosse por um lascão, como acontecia noutras partes13.
Os penedos, em que estão abertas as sepulturas de Paranhos,
pouco se elevam acima da superfície do solo.
No Minho, onde abundam sepulturas deste género, há maior
variedade de formas. Devemos, porém, advertir que vimos um número
pequeníssimo, em relação às que nos noticiaram, e pode bem suceder
que não sejam de todo exactas as informações quanto à sua
identidade com as de Paranhos.
De gravuras em penedos e lages somente examinámos as dos
penedos junto à Fonte do Canariz (vide nota nº 2). A gravura do
penedo de Nogueira (est. X, fig. 19) devemo-la ao sr. Saraiva, que a
desenhou de memória. No Sabugueiro há ainda uma gravura (est. X,
fig. 20), que nos foi traçada sem hesitação pelo nosso informador
(Manuel Lopes); mas pela descrição, que ele nos fez, a pedra, em que
ela se encontra, não pertence propriamente à categoria das rochas
esculturadas14.
Nenhuma destas gravuras, salvo a do Canariz, se assemelha às
que conhecemos; mas as «pegadas» e «ferraduras», que nos disseram
haver na serra das Águas de Ceira, e no limite da Coutada, e os
círculos concêntricos no sítio da Gramaça, etc., são vulgares, por
exemplo, no Minho, e dignos, principalmente os últimos, de um estudo
especial.
c,d,e,f) As relações de todos estes monumentos com os Castros
apenas as podíamos estudar em Paranhos, pois que visitámos esta
localidade e aí encontrámos a associação de uns e de outros. Com
efeito a nordeste das antas, que examinámos, foi-nos indicado um
Castro, que pelo nome em si, pela posição num alto e pela
13Nomeadamente em Refojos do Basto, no sítio chamado «As campas dos mouros»,
não longe das ruínas da Cividade. A tampa da sepultura, que, diga-se de passagem,
tem exactamente o mesmo feitio e quase as mesmas dimensões que as de Paranhos,
era pela sua parte superior uma grande pedra informe, e tão informe, que por muito
tempo se supôs que ela formava um só corpo com o penedo inferior, onde a sepultura
estava aberta. Foi descoberta por acaso.
14Chama-se «Pedra da Meda». Os sinais da pedra eram indicativos de um tesouro,
mencionados, tesouro e sinais, num «Roteiro» (tombo noutras partes). O tesouro
apareceu, por fim, mas foi empalmado por um espertalhão, etc.
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circunstância de ainda conservar vestígios de muralha e montões de
pedra solta, conforme nos asseveraram, não pode deixar de ser
idêntico aos outros, que descrevemos acima. Mas o tempo
indispensável à minuciosa investigação, que envolvem os quesitos
desta parte do programa, faltou-nos de modo, que tivemos de recorrer
à luz artificial, para não sairmos de Paranhos, sem vermos as suas
curiosidades mais importantes.
A impossibilidade, pois, de procurar caminhos de exclusiva
serventia dos Castros, ponto já de si muito escabroso, a falta de
explorações que pudessem fornecer objectos similares e a da
descoberta de gravuras que, pela sua identidade, ajudasse a
estabelecer a ligação que se pretendia apurar, inabilita-nos para
indicar uma solução qualquer ao problema que o programa formula, e
que, como se vê, é de uma importância suma, para ser tratado
ligeiramente.
g, h) Acima excluímos as antelas15 do número dos monumentos
que visitámos e fizemo-lo propositadamente. Aos monumentos de
Paranhos demos o nome de antas, declarando contudo que, à
excepção do do Fontão, todos os outros estão arruinados. Devemos
acreditar que o estão a tal ponto, que é quase impossível decidir se
realmente houve ali uma anta, se outra coisa, salvo num dos
monumentos do Chaveiral, onde um lascão enorme, já desmontado
dos seus suportes e tendo uma das suas extremidades obliquamente
enterrada no chão, oferece todas as probabilidades de haver sido a
mesa de uma anta. O que nos decidiu a dar a todos estes monumentos
o nome de antas foi o terem-nos sido todos eles, incluindo a anta
perfeita de Fontão, indicados como «casas dos mouros». Sem isso, ou
sem alguma escavação, ninguém poderá afirmar com consciência que
espécie de monumentos ali há. O que, porém, pode afirmar-se com
toda a certeza no de Cadimens, no do Chaveiral com grande lage, e no
de Valdeivão, é que ali há uma mamoa.
15Chamamos antela ao que os arqueólogos chamam «tumulus» no sentido de
sepultura não dolménica, coberta por uma mamoa, fechada pelos seus quatro lados e
tampada com pedras de maior ou menor largura. Evitamos assim a confusão da
homonímia «tumulus» sepultura, e «tumulus» mamoa, e empregamos termos de
origem popular: mamoa, anta e antela, cada um dos quais exprime coisas
perfeitamente definidas.
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Deste último foi unicamente a mamoa, destacando-se a alguma
distância numa lombada sobre o azul do horizonte, que pudemos ver,
apontada ao dedo pelo nosso guia. A mamoa de Cadimens vimo-la de
perto; a do Chaveiral, já especificada atrás, vimo-la e medimo-la,
contando 22 passos de diâmetro, diâmetro quase invariável das
mamoas que cobrem as antas do litoral do Minho.
Daqui de duas uma, e isto traz-nos à resposta dos quesitos desta
parte do programa: ou todos os monumentos de Paranhos são antas,
dólmenes, e todas as antas desta localidade eram cobertas por
mamoas16, ou alguns eram antelas e a incompatibilidade entre as
antas e antelas não tem aqui lugar, como também o não tem no
Minho17.
Atendendo a que a grande lage do Chaveiral inculca mais um
dólmen que outra coisa, e que a mamoa é aqui perfeitamente distinta,
a primeira hipótese parece ser a mais aceitável.
Não obstante, bem que não encontrássemos nas nossas
excursões antela alguma bem definida, inclinamo-nos a crer que nesta
região, onde abundam as antas, também não hão de faltar antelas;
mas, pela desfortuna de as não encontrarmos, vê-se bem que não
podemos resolver nada neste particular, e ainda menos sobre as
diferenças das mamoas das antas e das antelas e sobre a sua questão
cronológica.
i) Todas as mamoas que vimos estão descoroadas, em
consequência das escavações nelas feitas com diversos fins. Se
tiveram ou não menires não é possível saber-se. A não ser-nos defeso
o campo das suposições, diríamos que nunca os tiveram, porque, além
de tudo, nunca os encontrámos em monumentos deste género, e
apenas por informações nos consta que os há para os lados de
Penafiel, facto que precisa de ser averiguado com todas as precauções.
16A anta do Fundão foi coberta primitivamente por uma mamoa? Neste ponto as
opiniões dos membros da secção dividem-se, e temos somente a expor os seguintes
factos: a anta não mostra hoje sinais de mamoa. Duas testemunhas presentes
afirmam que, ainda há poucos tempos, em torno dos suportes da anta o solo se
elevava coisa de ½ metro acima do nível actual. O nível do recinto interior é superior
cerca de um palmo ao do solo circunstante.
17Temos encontrado aí antas e antelas formando um grupo, por exemplo, em Vila
Chã, concelho de Barcelos.
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j) Não encontrámos monumento algum dos que nos ocupam em
garganta de monte, o que aliás não é raro no Minho, suposto que
sempre à beira de algum caminho, sendo de presumir que esta última
circunstância determinasse a sua posição e não a configuração do
terreno.
À beira de caminhos ficam: a anta do Fontão (caminho de
Paranhos a Nelas), a da Coutada (caminho do Seixo para Carvalhal) e
a de Valdeivão. Dos outros monumentos de Paranhos nada se pode
afirmar ou negar a este respeito, porque o terreno, em que hoje se
encontram, está cultivado agora, sendo mais que provável que
andasse a bravio na época em que foram construídos.
Exceptuando o da Coutada e o de Valdeivão, que ficam em
lombadas, todos os outros estão em pequenos convales.
Nada nos indicou que as sepulturas em rocha e os penedos com
gravuras ocupassem sítios intencionalmente determinados.
k) Em Paranhos, já o dissemos, as antas têm para o povo o nome
de «casas dos mouros». No Seixo parece ser também usual esta
denominação. A uma anta entre Rio Torto e Arcozelo chamam «Pedra
de Orca18» ou «Penedo dos Mouros», segundo nos disseram. Não
vimos que o nome de anta fosse conhecido; mas bem conhecidas são
as antas de Penalva, que, é bom notar-se, ficam, como as mencionadas,
na margem do rio Mondego.
Quanto a tradições ligadas a estes monumentos, em Canas de
Senhorim, segundo o sr. Pinho Leal, era costume queimarem-se os
dízimos sobre as antas desta localidade. Na anta de Carvalhal de
Gouveias, como nos assegura o sr. Luís Augusto Rebelo da Silva,
médico-cirúrgico em Pinhel, sucedia a mesma coisa, com a
particularidade de se tirar da direcção do fumo, conforme ele se
inclinava para a direita ou para a esquerda, o prognóstico sobre a
abundância ou carestia do ano19.
18Este mesmo nome é usado em outras localidades da Beira, como se vê no «Portugal
antigo e moderno», do sr. Pinho Leal. Do autor sabemos que um erro tipográfico
desfigurou o nome de Orca no artigo do seu dicionário, Canas de Senhorim.
19O agouro tirado da direcção do fumo, é conhecido em Basto. Aí, quando alguém
morre, queima-se-lhe a palha do enxergão. Se o fumo sobe direito para o ar, a alma
do defunto foi para o céu; se inclina para a esquerda, foi para o inferno; se para a
direita, para o purgatório. A mesma superstição existe na Ponte da Barca.
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Acerca das sepulturas em rocha não recolhemos tradição alguma.
O seu nome mais popular é o de «pias» (o mesmo no Minho), a ponta
de que o Casal de Pias, perto de Castelo Reigoso, não deve a sua
denominação senão às muitas sepulturas que lhe ficam próximas.
Como nas nossas outras províncias, as lendas populares
localizam-se de preferência em penedos, e contêm no essencial as
mesmas ideias míticas.
Vamos dar conta de algumas, para prova do nosso acerto.
No Sabugueiro (margem direita do rio Alva), que é o «limite dos
marouços», um pastor ia passando com o seu rebanho e o seu cão por
diante de um penedo, e, vendo sobre ele uns figos secos, ia a deitarlhes a mão, quando uma voz lhe gritou: «Schit! Schit! larga isso.» Não
obstante a voz abrandar de tom e continuar dizendo que lhe cederia os
figos, se o rapaz em troca lhe desse os safões (calções de peles usados
pelos pastores), o pastor largou a fugir, porque descobriu que quem
assim lhe falava era uma estranha criatura, meia mulher, meia cobra.
O narrador não deixava de comentar que, se o rapaz se deixasse
beijar pela mulher, esta quebraria o encanto.
A 2 quilómetros a sul de Torrozelo há o «Penedo do Jogo», assim
chamado, «porque costumam os mouros vir para ali jogar20». De vez
em quando aparece nele uma moura a acenar aos transeuntes para
que se aproximem; mas não consta que ninguém acedesse ao convite.
Não sucedeu o mesmo em Filhadosa, também vizinha de
Torrozelo. Aí, havia igualmente um penedo, onde costumava aparecer
um vulto «de barrete vermelho», que pedia aos passageiros, ou um
cabelo ou um fio de lã, prometendo-lhes muitas riquezas em troca.
Não sabia dizer o narrador se o fio de lã também havia de ser
vermelho (particularidade que não é alheia a esta lenda); mas sabe
que o mouro quebraria o encanto, se recebesse uma das coisas com o
proverbial beijo, segundo parece, pois que um tal que anuiu ao convite
do mouro, viu-o trepar por ele acima sob a figura de uma cobra, e,
apesar de prometer que não se assustaria com o que visse, quando
sentiu o encantado chegar-lhe ao pescoço, repeliu-o violentamente. O
vulto desapareceu, dizendo: «O que tu perdeste!»
20As etimologias populares são frequentes na Beira. Folgozinho, por exemplo, vem de
folgo (fôlego), porque um certo rei, subindo o monte, parou na meia encosta, onde
hoje é Folgozinho, «para tomar folgo».
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Como se vê, estas lendas em nada diferem das conhecidas
noutras partes.
A seguinte contém uma circunstância pouco vulgar e por isso a
mencionamos. Um rapaz de Travancinhos, hoje Travancinha (somos o
eco fiel do narrador), indo ao moinho, viu numas fragas próximas da
ponte de Jugaes (já sobre o Alva e Caniça reunidos) uma mulher muito
linda, que lhe prometeu grandes riquezas, se ele voltasse por ali e não
dissesse nada do que vira e ouvira. O rapaz não se teve, que não
contasse tudo à primeira pessoa que encontrou, e esta às justiças da
terra. Tirou-se logo uma devassa em forma e o processo foi guardado
por muito tempo numa casa de Santa Eulália, duvidando-se se ainda lá
existe hoje. Isto passou-se «antes dos franceses».
Neste ramo de arqueologia a colheita deve ser profusa e variada.
As tradições e lendas têm aqui um ar de vida notável. Há de tudo:
penedos cheios de tesouros, mas contra os quais é impotente qualquer
instrumento conhecido, que se põe necessariamente em estilhas
contra a dureza da rocha, como sucedeu num fragão próximo ao
«Penedo do Bom Nome» (Torrozelo); os Galhardos (diabos), fazendo
ruas, como em Folgozinho, e outras vezes pontes, como a Ponte Nova
entre Teixoso e Caria. Numa destas construções a "mãe do diabo"
ajuda à obra, acarretando pedras e fiando ao mesmo tempo numa
roca (o mesmo se conta noutras partes das mouras).
Noutra ordem de factos temos a benção, dentro da igreja, de bois
bravos, ainda não junguidos (sic), como em Sandomil; a posse
temporária dos baldios pelo primeiro ocupante, que na noite do Natal
ou de S. João os vai marcar com um rego, como em Valesim, etc., etc.
Antinhas. –Com o nome de antinhas são conhecidas, desde
Belmonte até Idanha a Velha, algumas construções, que não sabemos
classificar, por não podermos fazer delas uma perfeita ideia.
São antas? São antelas? Forcejamos inutilmente por apurar se
estas construções tinham um dos lados abertos. A resposta insistente
é que são uma espécie de poço.
Sendo antas, falta-lhes em todas a mesa.
Umas são redondas, outras quadrilongas. As redondas compõemse de sete e oito pedras, que têm de altura umas 3, outras 4 metros e
mais.
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Estão descobertas; mas é para notar que outro nome, com que
são designadas, é o de «madorras», que em muitas partes é sinónimo
de mamoa.
Algumas ocupam o cimo dos outeiros, como a do Torrão (Idanhaa-Velha), que fica no alto do «Cabeço dos Mouros», outras acham-se
em planícies.
Nomearam-nos, além da do Cabeço dos Mouros, uma de
Belmonte, perto do Zêzere; três na Ribeira da Meimôa; uma perto da
quinta do Ortigal; uma no Arundinho, perto de Unhais; três na ladeira
dos Vinte.
Têm sido encontradas dentro delas «cunhas que medem de
comprido 20 a 25 centímetros, e 8 a 10 de largo, e estas têm a cor
preta e parecem de pedra» (machadinhas sem dúvida). Demais disso,
aparecem também «costeletas, como de porco», mas dispersas, e têm
a cor de café escuro; são rijíssimas, e feridas com fuzil ferem lume
como se fossem pederneiras (facas de sílex, parece).
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VÁRIA
No monte Arroio, no ponto, onde a estrada de Seia entronca na
de Coimbra, apareceram, ao abrir a estrada, e 1 metro abaixo da
superfície do solo, várias sepulturas abertas no saibro de 2½ metros
sobre 1½, e dentro caveiras e ossos de esqueleto completo, que se
desfaziam em pó, mal eram expostas ao ar livre. Junto com os ossos
algum carvão21.
Quando no caminho de ferro da Beira se segue o pitoresco vale
do Mondego, avistam-se muitos grupos de casas vulgares, mas entre
estas, por vezes, mais ou menos isoladas, algumas de construção
especial, de aspecto mais pobre, rude e rudimentar. São quadradas ou
circulares, com tectos de colmo de forma cónica; as casas quadradas
mesmo têm o tecto de tal modo disposto, que segue a princípio as
faces do edifício, mas vai boleando sucessivamente, e a certa altura,
menos de metade, já a forma é perfeitamente cónica.
Há uma indústria muito curiosa dos pastores de alguns sítios dos
arredores da Guarda, especialmente do Jarmelo. Fabricam vários
objectos, quase sempre cruzes, com bocadinhos de madeira,
chanfrados, que travam de modo engenhoso. O elemento isolado é
.
São também notáveis as cucharras (colheres), fabricadas pelos
pastores da Serra da Estrela, de «pau do ar» (chifre), preto ou branco,
e com o seu cabo diversamente ornamentado.
Um cerro, que dá sobre a Nave de Santo António, tem o nome de
Espinhaço do Cão.
Loiva = noiva.
21 Informação do sr. António Saraiva, de Seia.
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Sirouco = neve miúda.
Na construção da Ponte Nova, entre Teixoso e Caria, os galhardos
(diabos) lidavam com toda a azáfama para acabar a obra, quando
cantou um galo. «Já cantou o galo, dizia um deles, vamo-nos». Foi o
galo pardo, observou outro. «Não, foi o galo preto romano, replicou o
primeiro».
E perderam a partida.
Na benção dos touros bravos em Sandomil o padre lê o
evangelho, pondo-o entre as pontas do animal.
Em S. Domingos, perto de Seia, para qualquer se livrar das
sessões, oferece ao santo uma telha. A promessa, porém, só vale
reunindo as duas condições: a telha há-de ser roubada e a uma pessoa
brava (de coragem). O mesmo costume existe no Alentejo, e é vulgar
no Minho.
Em Paranhos e outras partes: pinheiro esfolado indica sítio baldio,
mas já apropriado por um primeiro ocupante. Bandeira vermelha diz
que o proprietário matará qualquer animal, que entrar naqueles
terrenos. Bandeira branca diz que nas terras, onde ela se encontra, há
substâncias envenenadas.
Burro, picanço, zangarilho, são nomes que nos arredores de Seia
designam um engenho muito primitivo de tirar água, e que se
encontra igualmente em outras províncias nossas. É um pinheiro que
joga como uma balança, mas sempre desequilibrado, porque uma
pedra na extremidade oposta aquela em que está preso o balde é mais
pesada que este e que a água que ele pode conter, e ergue-o
naturalmente do fundo do poço, onde só há o trabalho de o mergulhar.
Jogos usados pelos rapazes de S. Tiago, defronte de Seia:
alfinetes, anel, bilharda, bola, botão, argolinha, burraca, burrinho,
cabra cega, castelos, cantos, chapas, dedais, fito, galinhas, inferno e
paraíso, laranjinha, malhão, pela, pião, papagaio, pitorra, rapa,
talinhos, truques, covinha, pares e nunes, jogo da rainha.
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