...

Sobre modalizadores de frase epistémicos e evidenciais

by user

on
Category: Documents
3

views

Report

Comments

Transcript

Sobre modalizadores de frase epistémicos e evidenciais
Sobre alguns modalizadores de frase epistémicos e evidenciais
Rui Marques
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Centro de Linguística da Universidade de Lisboa 1
Abstract
This paper analyses the semantics of six modal operators of Portuguese. I will argue
against the traditional assumption that such operators are meant to express the degree of
belief on the part of the speaker, by underlining several problems posed by this assumption. I will contend that the main function of the modal operators under analysis is to
indicate the kind and amount of information on which the assertion of the proposition is
based. This proposal is shown to avoid the problems of the degree-of-belief hypothesis.
Keywords: Modal operators, epistemic modality, evidentiality, modal base, sentence
adverbs
Palavras-chave: operadores modais, modalidade epistémica, evidencialidade, base
modal, advérbios de frase
1.
Introdução
Embora entre diferentes autores possa existir alguma variação no que respeita à
acepção do termo “modalidade” e aos tipos de modalidade existentes, é consensual que
palavras como possivelmente ou certamente são operadores modais associados à modalidade epistémica (como observado, por exemplo, em Oliveira (1993)). É sobre algumas
palavras desse tipo que este artigo se debruça. O objectivo é tentar perceber o que, de
um ponto de vista semântico, unifica e distingue entre si as seguintes seis expressões do
português 2:
(1)
eventualmente; possivelmente; certamente; presumivelmente; supostamente; alegadamente
Textos Selecionados, XXVII Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa,
APL, 2012, pp. 398-415, ISBN 978-989-97440-1-1.
1
2
Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia
(FCT) no âmbito do projecto «PEst-OE/LIN/UI0214/2011».
Ao longo do texto, usarei a designação tradicional “advérbios de frase” na referência a estas palavras.
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Trata-se de operadores modais que expressam incerteza 3, isto é, operadores que têm
uma proposição no seu escopo e indicam algum grau de incerteza de que essa proposição seja verdadeira. De facto, como observado por diversos autores (cf., e.g., SimonVandenbergen & Aijmer (2007)), mesmo no que respeita a operadores como certamente, que se pode pensar expressarem um valor de certeza, a sua presença indica algum
grau de dúvida (ou incerteza). Assim, a frase (2a) expressa uma crença mais fraca do
que a frase (2b):
(2)
a. Vai certamente chover.
b. Vai chover.
A lista de palavras indicada em (1) contempla apenas alguns destes operadores
modais. Isto é, há vários advérbios de frase (além de sintagmas preposicionais como
com certeza, por certo e outros) que expressam igualmente incerteza e não são indicados em (1). Há fundamentalmente duas razões para, neste trabalho, se ter em conta apenas os seis operadores em (1). A primeira é que alguns advérbios de frase de valor epistémico envolvem no seu significado parâmetros que não parecem ser relevantes na descrição do significado das expressões em (1). É o caso de advérbios como os seguintes:
(3)
obviamente; evidentemente; naturalmente; ...
Estes operadores modais distinguem-se dos de (1) em pelo menos dois aspectos. Em
primeiro lugar, indicam a crença absoluta na verdade da proposição que têm no seu
escopo, enquanto os operadores de (1) expressam algum grau de incerteza. Em segundo
lugar, como observado por Barbaresi (1987) 4, apud Simon-Vandenbergen & Aijmer (2007),
os operadores em (3) indicam que a crença na verdade da proposição sob seu escopo
resulta de um processo de inferência, igualmente passível de ser processado pelo interlocutor. Por outras palavras, advérbios de frase como os de (3) indicam que a verdade
da proposição relevante decorre de informação que se assume ser conhecida também
pelo interlocutor5. Pelo contrário, os advérbios de (1) não fazem apelo a um processo
inferencial passível de ser computado também pelo interlocutor. A segunda razão para
que este trabalho se centre apenas nos advérbios de (1) prende-se com o facto de, como
acima foi dito, se pretender compreender as diferenças de significado entre os vários
operadores considerados, pelo que é vantajoso considerar um número limitado de
3
Eventualmente pode ter um outro sentido, em que é equivalente a ocasionalmente. Neste trabalho, não
terei em conta essa acepção da palavra, antes considerarei apenas o seu sentido modal.
4
A autora usa os termos ‘epistemic modifiers’ para operadores como certainly e ‘inferability indicators’ para operadores como obviously.
5
É fácil imaginar contextos em que é adequado usar um advérbio como naturalmente ou obviamente
sem que a informação que sustenta a dedução seja previamente conhecida do interlocutor. Porém, nesses casos, parece existir um processo de acomodação da informação. Dito de outro modo, este tipo de
advérbios de frase desencadeia uma pressuposição, correspondente à informação que permite deduzir
a proposição que o advérbio tem no seu escopo.
399
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
expressões (sem prejuízo de trabalhos posteriores virem a incluir outros operadores
semelhantes). Em suma, mesmo que existam outros operadores modais em português
cujo significado seja semelhante aos que aqui são considerados, parece-me defensável
considerar que há algumas particularidades que distinguem o subgrupo aqui vai ser analisado.
2.
A classificação de advérbios de frase na gramática de Huddleston & Pullum
(2002) e na gramática de Bosque & Demonte (1999)
Apresentam-se nesta secção as classificações propostas na gramática do inglês de
Huddleston & Pullum (2002) e na gramática do espanhol de Bosque & Demonte (1999),
classificações estas que resumem o que tradicionalmente se considera a respeito dos
operadores tidos em conta neste trabalho e indicados em (1).
2.1. A classificação de advérbios de frase na gramática de Huddleston & Pullum
(2002)
Na gramática de Huddleston & Pullum (2002), é apresentada a classificação das
expressões que designam por “clause-oriented adjuncts”, indicada na tabela I:
clause-oriented adjuncts
i.
Domain
ii.
Modality
iii. Evaluation
iv.
Speech act-related
v.
Connective
Politically, the country is always turbulent.
This is necessarily rather rare.
Fortunately, this did not happen.
Frankly, I’m just not interested.
Moreover, he didn’t even apologise.
Tabela I − “Clause-oriented adjuncts” em Huddleston & Pullum (2002)
Os autores consideram a existência de cinco classes de advérbios de frase, entre as quais
a dos advérbios associados à expressão da modalidade (classe ii, na tabela I). Esta classe
é subdividida em quarto grupos, com base em «[different] levels of strength, according
to the speaker’s commitment to the truth of the proposition, or to the actualization of the
situation, expressed by their complement» (Huddleston & Pullum (2002), p. 768).
strong
items
assuredly
indubitably
obviously
unarguably
apparently
certainly
ineluctably
patently
unavoidably
doubtless
clearly
inescapably
plainly
undeniably
evidently
definitely
manifestly
surely
undoubtedly
presumably
incontestably
necessarily
truly
unquestionably
seemingly
quasistrong
medium
arguably
likely
probably
Weak
conceivably
maybe
perhaps
possibly
Tabela II − Classes de “clause-oriented modal adjuncts” em Huddleston & Pullum (2002)
400
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Embora não seja contemplado na Tabela II, o advérbio correspondente a alegadamente
é tratado nesta gramática a par dos advérbios modais, sendo dada a indicação de que não
é considerado na tabela pelo facto de não indicar qualquer compromisso da parte do
enunciador com a verdade da proposição:
«[allegedly] absolves the speaker from responsibility for the residual proposition.
This one has the status of an allegation, and the speaker can’t say whether it is
true.» (Huddleston & Pullum (2002), pp. 768-769)
Como se pode observar, a classificação proposta por Huddleston & Pullum (2002) é
baseada no grau de compromisso do enunciador com a verdade da proposição. A escala
tem, num dos extremos, a ausência de compromisso − expressa por allegedly − e, no
outro, a expressão de um compromisso (quase) absoluto − expresso pelos ‘strong items’.
2.2. A classificação de advérbios de frase na gramática de Bosque & Demonte
(1999)
Na gramática do espanhol de Bosque & Demonte (1999), é apresentada a seguinte classificação de advérbios de frase:
i.
ii.
Adverbios de frequência
Adverbios nocionales
iii.
iv.
Adverbios evaluativos
Adverbios como tópicos
v.
Adverbios del modus
1) relacionados com moda- (e.g., seguramente, probablemente)
lidade
2) relacionados com actos (e.g., francamente)
de fala
Adverbios conjuntivos
(e.g., consequentemente, además)
Tabela III − Classes de advérbios de frase em Kovacci (1999)
vi.
(e.g., habitualmente, mensualmente)
(e.g., politicamente; politicamente, Canadá es un domínio britânico)
(e.g., lamentablemente, felizmente)
(e.g., personalmente; personalmente, yo prefiero los
perros).
A classe de advérbios relacionados com modalidade é subdividida em três classes:
A.
«Indicadores y reforzadores de actitud»
seguramente, probablemente, tal vez, posiblemente, dificilmente, quizá(s), acaso
B. «Restrictivos del valor de verdad de la aserción»
supuestamente, presuntamente, presumiblemente, aparentemente, virtualmente, prácticamente, verosímilmente
C. «Reforzadores del valor de verdad de la aserción»
indudablemente, indiscutiblemente, incuestionablemente, innegablemente, ciertamente,
verdaderamente, evidentemente, obviamente
Tabela IV − Classes de advérbios de frase relacionados com modalidade em Kovacci (1999)
401
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
Se bem que os termos ‘reforço’ e ‘restrição’ (do valor de verdade da asserção) possam
ser pouco felizes (já que valores de verdade não são conceitos graduáveis, isto é, reforçáveis ou restringíveis), a ideia subjacente a esta classificação parece ser a de que os
advérbios das classes B e C têm a função de reforçar ou mitigar um acto ilocutório. Ou
seja, a classificação de advérbios de frase modais apresentada nesta gramática é baseada
em dois parâmetros: a expressão de incerteza (classe A) e a restrição ou reforço da
asserção (classes B e C, respectivamente).
Assim sendo, a base para esta classificação de advérbios de frase não parece ser
muito diferente da que está presente em Huddleston & Pullum (2002). De facto, uma
vez que a asserção de uma proposição compromete o enunciador com a aceitação de que
a mesma é verdadeira, os advérbios das classes B e C terão a função de mitigar ou
reforçar, respectivamente, essa aceitação e, portanto, estarão também associados à
expressão da crença do enunciador na verdade da proposição, tal como os advérbios da
classe A. A diferença entre os advérbios das classes B e C, por um lado, e os da classe
A, por outro, reside no facto de os primeiros operarem ao nível ilocutório e os segundos
num nível ‘mais interno’ (nos termos de Hengeveld, 2004).
Em suma, quer a classificação proposta pela gramática do espanhol de Bosque &
Demonte (1999) quer a proposta pela gramática do inglês de Huddleston & Pullum
(2002) se baseiam na assunção de que os operadores modais se distinguem entre si pelo
grau de crença que veiculam. Naturalmente, esta assunção parece igualmente válida
para os advérbios do português listados em (1). Tendo isso em conta, considerarei na
secção seguinte uma classificação destes advérbios com base no grau de crença que
veiculam.
3.
Classificação baseada na expressão de graus de crença
Partindo da hipótese, que parece natural, de que os advérbios listados em (1) têm
em comum a expressão de um compromisso por parte do enunciador para com a verdade da proposição e se distinguem entre si por veicularem diferentes graus de crença na
proposição que modalizam, podem-se considerar três – ou eventualmente quatro – subclasses de advérbios. Na primeira, em que se incluem as palavras eventualmente e possivelmente, expressa-se um grau de crença fraco; na segunda, constituída por presumivelmente, expressa-se um grau de crença comparativamente mais forte; na terceira, de
que faz parte o advérbio certamente, expressa-se um grau de certeza ainda maior. Quanto ao advérbio supostamente, frases como (4) parecem indicar que expressa também um
grau de crença forte:
(4)
«E é por isso que não tenho (...) a intenção de desarmar, agora que a eleição está consumada e que, supostamente, começa uma nova era.»
(CetemPúblico, 8039, sublinhado meu)
402
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Quanto ao advérbio alegadamente, que, sendo um advérbio reportativo, não compromete o enunciador com a crença na verdade da proposição, pode discutivelmente configurar uma quarta subclasse. Expressa um grau de crença (da parte do enunciador) inferior
ao expresso pelos operadores eventualmente e possivelmente, na medida em que não dá
qualquer indicação sobre a crença do enunciador na verdade da proposição que modaliza.
Grau de crença do enunciador:
Operador modal:
Não expresso
alegadamente
Fraco
eventualmente, possivelmente
Médio
presumivelmente
Forte
supostamente, certamente
Tabela V − Classes de advérbios de frase com base no grau de crença
Na minha opinião, esta classificação, baseada exclusivamente no grau de crença do
enunciador na verdade da proposição modalizada, não parece a mais interessante do
ponto de vista linguístico. Claramente, a função do advérbio alegadamente não é
expressar ausência de crença da parte do enunciador, mas antes indicar que este está
meramente a reportar a crença de outrem, independentemente de a partilhar ou não (uma
informação que alegadamente não veicula). Por outras palavras, se bem que o advérbio
alegadamente tenha em comum com advérbios como possivelmente, certamente e
outros a expressão de um grau de crença na proposição sob o seu escopo, distingue-se
destes pelo facto de essa crença não dizer respeito ao enunciador, mas a outrem. Assim,
parece mais interessante postular uma divisão entre advérbios epistémicos, associados à
expressão de um grau de crença, e advérbios reportativos, como indicado na tabela VI:
Advérbios
Epistémicos
Fracos
eventualmente, possivelmente
Médios
presumivelmente 6
Fortes
certamente, supostamente
Advérbios Reportativos
alegadamente
Tabela VI − Advérbios epistémicos e reportativos
6
A força (do grau de crença) associada a advérbios como presumivelmente e supostamente pode ser
objecto de discussão. A minha intuição é que presumivelmente indica menos segurança da parte do
enunciador em atribuir um valor de verdade à proposição modalizada do que o advérbio supostamente. Com efeito, quer use um quer use o outro advérbio, o enunciador pode continuar o discurso indicando que acredita na verdade da proposição modalizada, como se verifica em (i), tal como o pode
continuar indicando que não acredita, como se verifica em (ii):
(i) Supostamente / presumivelmente, ao domingo a biblioteca está fechada. Não percebo porque é que
queres lá ir hoje (domingo)!
(ii) Supostamente / presumivelmente, ao domingo a biblioteca está fechada. No entanto, parece que hoje
(domingo) está aberta!
Porém, de acordo com a minha intuição, ao usar o advérbio supostamente, em (i), o enunciador indica
que acredita que a biblioteca está fechada ao domingo e em (ii) indica que não acredita nessa proposição, ao passo que, ao usar presumivelmente, o enunciador indica menos certeza de que a proposição
modalizada seja verdadeira, em (i), ou falsa, em (ii).
403
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
À primeira vista, esta classificação, que espelha a divisão entre modalidade epistémica e evidencialidade, parece razoável. No entanto, podem-se-lhe apontar vários problemas.
O primeiro, que é de relevância discutível, diz respeito ao número de subclasses de
advérbios epistémicos. Parece evidente que quer o advérbio eventualmente quer o
advérbio possivelmente expressam um grau de crença fraco. No entanto, o contraste
entre (5a) e (5b) sugere que possivelmente expressa um grau de crença mais forte do que
eventualmente. De facto, quer a frase (5a) quer a frase (5b) indicam que talvez o Roteiro
seja autonomizado, mas (5b) indica que essa autonomização é uma possibilidade mais
remota (comparativamente a (5a)):
(5)
a. «O jornal fica mais arrumado e possivelmente o Roteiro irá ser autonomizado para que as pessoas o possam guardar durante a semana.»
(CetemPúblico, 11997, meu sublinhado)
b. O jornal fica mais arrumado e eventualmente o Roteiro irá ser autonomizado para que as pessoas o possam guardar durante a semana.
Além disso, o advérbio possivelmente pode ser associado a palavras como muito, passando a expressar-se um grau de crença mais forte, não sendo possível reforçar o grau
de crença expresso por eventualmente, como mostra o contraste entre (6a) e (6b):
(6)
a. Muito possivelmente, o contrato vai ser assinado na próxima semana.
b. *Muito eventualmente, ...
Ainda assim, não é inquestionável que o advérbio eventualmente expresse um grau de
crença mais fraco do que possivelmente. Em casos como (7a) e (7b), não parece evidente que uma das frases expresse uma crença mais forte do que a outra:
(7)
a. Possivelmente, a Ana até já está em casa.
b. Eventualmente, a Ana até já está em casa.
O segundo problema para a classificação proposta diz respeito à divisão entre
advérbios epistémicos e reportativos. A questão é que, se, por um lado, alegadamente é
reportativo e eventualmente, possivelmente e certamente são epistémicos (i.e., indicam
um grau de crença da parte do enunciador na verdade da proposição que modalizam),
por outro lado, os advérbios supostamente e presumivelmente podem ter ambas as leituras, a de advérbio reportativo ou a de advérbio epistémico. É o que mostram os seguintes dados:
(8)
a. «Afinal de contas, o dia dos namorados é supostamente uma data especial.»
(CetemPúblico, 29604, sublinhado meu)
404
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
(9)
b. «Antes, próximo de Coimbra, a GNR deteve três jovens que supostamente
molestaram sexualmente diversas jovens.»
(CetemPúblico, 152910, sublinhado meu)
a. «Ao contrário de Lula, o ministro sabia, presumivelmente, que a ofensa
seria publicada.»
(CetemPúblico, 646487, sublinhado meu)
b. «Segundo a polícia os dois indivíduos encontravam-se no interior onde,
presumivelmente, se preparavam para furtar.»
(CetemPúblico, 724458, sublinhado meu)
As frases (8a) e (9a) dão a informação de que o enunciador acredita, até certo ponto, na verdade da proposição modalizada, pelo que, com base nessas frases, os advérbios
supostamente e presumivelmente podem ser classificados como epistémicos, expressando um grau de crença do enunciador. No entanto, em (8b) e em (9b), os mesmos operadores podiam ser substituídos por alegadamente, sem aparente alteração do significado,
pelo que, com base nessas frases, supostamente e presumivelmente podem ser classificados como advérbios reportativos. Além disso, em casos como (10), abaixo, não é
fácil determinar se o advérbio tem um sentido (preferencialmente) reportativo ou epistémico, isto é, se o enunciador está a expressar um grau de crença próprio ou a reportar
as crenças de outrem:
(10)
«Os quatro camiões (...) deixaram ontem o porto de Setúbal, presumivelmente com destino ao país vizinho.»
(CetemPúblico, 223939, sublinhado meu)
O terceiro problema para a classificação da tabela VI resulta da possibilidade de os
advérbios epistémicos coocorrerem com outros operadores de modalidade epistémica.
Se a função destes advérbios é a de indicarem um grau de crença do enunciador na verdade proposição modalizada, seria de esperar que fosse impossível um advérbio de
crença fraca, como possivelmente, coocorrer com um outro operador modal (e.g. um
verbo modal) que expresse crença forte na mesma proposição ou um advérbio de crença
forte, como certamente, coocorrer com um operador modal de crença fraca. No entanto,
o corpus CetemPúblico contém atestações das quatro combinações possíveis de advérbios epistémicos e verbos modais:
Advérbio epistémico forte + verbo modal forte:
(11)
405
«Os verdadeiros factores de virulência do vírus dos macacos devem certamente residir numa região do património genético do SIV ainda por descobrir, escrevem os cientistas na Science.»
(CetemPúblico, 861668, sublinhado meu)
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
Advérbio epistémico fraco + verbo modal fraco:
(12) a. «Assim, num primeiro passo para uma discussão que desde já se adivinha
longa, será criada uma entidade jurídica, que possivelmente poderá basearse numa sociedade anónima com fins lucrativos, que, acompanhada por
um organismo de controlo, irá representar os produtores dos ovos moles de
Aveiro em todo o país.»
(CetemPúblico, 231873, sublinhado meu) 7
b. «A direcção do parque reconhece também a existência de três zonas de
lixeiras de curtumes abandonadas na freguesia de Pedrógão, onde eventualmente poderá haver um despejo pontual, e outras duas na zona do Vale
das Serras do Meio e junto à Boca do Carreiro (estas fora do parque), que
estão efectivamente activas.»
(CetemPúblico, 597758, sublinhado meu)
Advérbio epistémico forte + verbo modal fraco:
(13)
«Carneiro de Almeida, pelo lugar que ocupa de tamanha proximidade ao
poder, poderá certamente pôr em prática uma verdadeira campanha de
evangelização junto não só do secretário de Estado, como de todos os seus
colegas do Palácio da Ajuda.» (CetemPúblico, 1360621, sublinhado meu)
Advérbio epistémico fraco + verbo modal forte:
(14) a. «Contudo, a Al parece pouco receptiva a estas reivindicações devendo,
possivelmente, adoptar a proposta da divisão do organismo em dois departamentos distintos.»
(CetemPúblico, 46737, sublinhado meu)
b. «A Guiné-Bissau, que foi a primeira das antigas colónias portuguesas a
proclamar a sua independência, desde o desencadear das lutas contra o
regime de Salazar (e, depois, de Marcelo Caetano), só no fim deste ano
deverá ter eventualmente as suas eleições, pois que o PAIGC está a
demonstrar um grande apego ao poder e não facilita muito o processo de
democratização.»
(CetemPúblico, 1157291, sublinhado meu)
Antes de mais, importa observar que em todos estes exemplos o verbo modal pode
ter interpretação epistémica. Aliás, essa parece ser a leitura preferencial (se não mesmo
a única possível) do verbo modal dever em (14a). Neste excerto, claramente, o enunciador está a descrever uma situação que lhe é exterior e sobre a qual não tem controlo,
expressando a sua crença sobre o que irá acontecer. Noutras frases, o verbo modal pode
ter leitura não epistémica, mas também pode ter a interpretação epistémica. Por exemplo, a frase (13) pode ter a leitura em que o enunciador expressa uma previsão, tendo o
7
Exemplos como este, que envolvem dois operadores modais de sentido (pelo menos aparentemente)
equivalente são considerados por J. Peres e T. Móia (1995), que discutem o seu estatuto de gramaticalidade marginal.
406
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
verbo modal poder interpretação epistémica. É certo que o verbo pode, na mesma frase,
ter também uma outra leitura, não epistémica, expressando a frase a informação de que
Carneiro de Almeida poderá ter condições que lhe permitam pôr em prática a referida
campanha de evangelização. Nesta leitura, o verbo modal estará associado à modalidade
externa ao participante, na classificação de van der Auwera & Plungian (1998) e de Oliveira (2003). O mesmo se pode dizer, mutatis mutandis, a respeito de (14b). O verbo
modal dever pode ter leitura não epistémica (que pode ser de modalidade externa ao
participante, se a interpretação for a de que só no final do ano estarão reunidas as condições que permitam o processo eleitoral, ou de modalidade deôntica, se a realização de
eleições no final do ano decorrer de alguma norma legal), mas também pode ter leitura
epistémica, expressando a frase uma previsão da parte do enunciador sobre quando
terão lugar as eleições na Guiné-Bissau.
Também no que respeita aos exemplos (11) e (12), o verbo modal pode ter leitura
epistémica. Casos como estes, em que um verbo modal forte coocorre com um advérbio
como certamente ou em que um verbo modal fraco coocorre com um advérbio como
possivelmente, podem ser vistos como casos de harmonia modal, como proposto, por
exemplo, por Oliveira (1993) e Huddleston & Pullum (2002). Seriam, portanto, casos
em que o advérbio modal, expressando o mesmo grau de crença que o verbo modal com
que coocorre, é dispensável, já que não traz qualquer informação nova.
No entanto, dados como os de (13) e (14) são problemáticos para a hipótese de que
advérbios como certamente ou possivelmente expressam um grau de crença da parte do
enunciador na proposição que modalizam. De acordo com essa hipótese, seria de esperar que esses advérbios não pudessem coocorrer com um verbo modal com que não fossem harmónicos, ou que, em exemplos como (13) e (14), o verbo modal não pudesse ter
a interpretação epistémica. Por outras palavras, o facto de, em (13), o verbo modal
poder coocorrer com o advérbio certamente e poder ter a leitura epistémica é problemático para a hipótese de que este advérbio expressa um grau de crença forte, tal como o é
o facto de, em (14), o verbo modal dever coocorrer com os advérbios eventualmente ou
possivelmente e poder ter a leitura epistémica. Isto porque, se certamente expressa uma
crença forte, em (13), veicula-se, relativamente à mesma proposição, uma crença forte,
via advérbio, e uma (incompatível) crença fraca, via verbo modal poder; igualmente, se
eventualmente e possivelmente expressam uma crença fraca, em (14a) e (14b), veiculase, relativamente à mesma proposição, uma crença fraca, via advérbios epistémicos, e
uma (incompatível) crença forte, via verbo modal dever,
Em suma, a hipótese de que os advérbios eventualmente, possivelmente e certamente têm a função principal de expressar um grau de crença do enunciador na verdade da
proposição que modalizam leva a prever que os mesmos não possam coocorrer com
outros operadores modais que expressem um grau de crença diferente. No entanto,
exemplos como os de (13) e (14) não só são construções gramaticais como os verbos
407
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
modais que nelas ocorrem podem ter interpretação epistémica, não podendo esses casos
ser considerados como manifestações de harmonia modal.
A conclusão que me parece razoável extrair dos factos apresentados é que advérbios como possivelmente ou certamente não são – na essência – operadores que expressam um grau de crença na verdade da proposição sobre que têm escopo.
4.
A hipótese da base modal e força modal
Curiosamente, os advérbios modais eventualmente, possivelmente e certamente, se
bem que possam coocorrer com os verbos modais poder e dever, com interpretação
epistémica, não podem coocorrer com o verbo modal mais forte (cf., e.g., Oliveira
(1993, 2003)), ter de, com interpretação epistémica. De facto, em exemplos como os
que se seguem, o verbo modal ter de pode expressar modalidade deôntica (cf. (15a)) ou
modalidade externa ao participante (cf. (15b)), mas não tem leitura epistémica:
(15) a. eventualmente / possivelmente / certamente, a Ana tem de chegar a casa
antes das 23.00h
b. se a Ana quiser chegar a horas, eventualmente / possivelmente / certamente tem de apanhar um táxi
Observe-se que o bloqueio da leitura epistémica do verbo modal ter de nestas frases
resulta da presença do advérbio, já que se este for omitido a interpretação epistémica do
verbo modal passa a ser natural.
Isoladamente, exemplos como (15) são consentâneos com a hipótese de que os
advérbios eventualmente, possivelmente e certamente expressam um grau de crença na
proposição que modalizam: uma vez que qualquer destes advérbios expressa um grau de
crença menor do que o que é expresso pelo verbo modal ter de, a coocorrência de um
destes advérbios com o verbo modal ter de expressaria uma contradição no caso de o
verbo ter leitura epistémica (assinalar-se-ia simultaneamente a certeza e a dúvida na
verdade da proposição modalizada). No entanto, como se viu na secção anterior, são
problemáticos para essa hipótese exemplos como (13) e (14), com os verbos modais
poder e dever.
Uma descrição do valor modal dos advérbios em consideração que tenha em conta
apenas o grau de crença que veiculam dificilmente poderá dar conta dos problemas
apontados.
No entanto, a literatura sobre verbos modais tem acentuado a observação de que os
operadores modais epistémicos expressam uma dedução que decorre de um conjunto de
informação (cf., e.g., Kratzer (1991) ou Rocci (2000)) − a base modal. Simplificadamente, uma frase com o verbo modal poder, na interpretação epistémica, indica que a
proposição modalizada é compatível com o que o enunciador sabe e o verbo modal ter
de indica que a proposição modalizada decorre desse conhecimento. Este conhecimento
408
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
pode ser (total ou parcialmente) expresso, como nos exemplos (16a-c) ou não o ser,
como em (16d):
(16) a.
b.
c.
d.
O culpado é o Paulo ou a Ana. A Ana não é. Portanto, tem de ser o Paulo.
Tendo em conta que a Ana está inocente, o culpado tem de ser o Paulo.
Dados os indícios recolhidos, o culpado tem de ser o Paulo.
O culpado tem de ser o Paulo
Partindo desta evidência, vou considerar a hipótese de que a função dos advérbios
em análise não é a de expressarem o grau de crença numa proposição, mas a indicarem
a base modal. Mais concretamente, a hipótese é a de que estes advérbios indicam o tipo
de informação em que o enunciador se baseia para asserir a proposição e a quantidade
de informação de que dispõe que seja relevante para a asserção.
No que respeita ao primeiro parâmetro − o tipo de informação em que o enunciador
se baseia −, os advérbios considerados parecem distinguir-se entre si por indicarem ou
que o enunciador se baseia em informação de outrem (como será o caso de alegadamente) ou em informação que pode ser exclusivamente sua (como será o caso de certamente). No entanto, penso que o sistema é um pouco mais complexo, sendo relevante separar os advérbios considerados em quatro subclasses e não apenas em duas:
A.
alegadamente
B.
supostamente, presumivelmente
C.
certamente, possivelmente
D.
eventualmente
Tabela VII − Classes de advérbios de acordo com o parâmetro ‘tipo de informação’
O advérbio da subclasse A indica que o enunciador se baseia em informação de
outrem, não dando qualquer indicação sobre se o enunciador a partilha ou não.
Já os advérbios da subclasse B indicam que o enunciador se baseia em informação
alheia, que partilha ou pode partilhar. Trata-se de informação que se assume pertencer
ao conhecimento partilhado, como em (17a) e (17b), ou que é de outrem, mas que o
enunciador pode aceitar 8, como em (18a) e (18b):
8
É certo que o enunciador pode continuar o discurso com a indicação de que não acredita que a proposição modalizada com supostamente ou presumivelmente seja verdadeira. No entanto, essa informação
não é dada pelo significado destas palavras (a entoação poderá desempenhar um papel na indicação da
crença do enunciador). Tipicamente, se o discurso continuar com a expressão da crença do enunciador
de que a proposição é falsa, espera-se que o enunciador adicione informação que o leva a sustentar a
crença na falsidade da proposição e a interpretação mais natural será a de que, com base nessa nova
informação, qualquer pessoa conclua também que a proposição é falsa. Ou seja, ao modalizar a frase
com uma destas palavras, o enunciador dá a informação de que a atribuição de um valor de verdade à
proposição carece de informação adicional, com base na qual mesmo a fonte da informação poderá
chegar à mesma conclusão que o enunciador.
409
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
(17) a. «Ao contrário de Lula, o ministro sabia, presumivelmente, que a ofensa
seria publicada.»
(CetemPúblico, 646487)
b. «Afinal de contas, o dia dos namorados é supostamente uma data especial.»
(CetemPúblico, 29604)
(18) a. «Segundo a polícia os dois indivíduos encontravam-se no interior onde,
presumivelmente, se preparavam para furtar.»
(CetemPúblico, 724458)
b. «Antes, próximo de Coimbra, a GNR deteve três jovens que supostamente
molestaram sexualmente diversas jovens.»
(CetemPúblico,, 152910)
Pelo contrário, os advérbios da subclasse C indicam que o enunciador se baseia em
informação que pode ser exclusivamente sua. Veja-se que o diálogo em (19) é natural,
mas não o seria se, em vez do advérbio possivelmente, se usasse um advérbio como presumivelmente ou supostamente, que indicam que o enunciador se baseia em informação
(também) alheia:
(19) A: Possivelmente a Ana já está em casa. Já saiu há quase duas horas.
B: Tens a certeza? Ninguém sabia que ela tinha sequer saído.
Finalmente, o advérbio eventualmente indica que o enunciador não tem informação
que suporte que a proposição modalizada é verdadeira ou falsa e expressa uma mera
hipótese. É o que mostram exemplos como os seguintes:
(20)
(21)
«Se ficar satisfeito, continuarei eventualmente nesta área.»
(CetemPúblico, 560197)
«Caso a falsificação não tivesse sido descoberta, os técnicos afirmam que a
peça acabaria por provocar uma avaria e, eventualmente, um acidente grave (...)»
(CetemPúblico, 558070)
Nem a frase (20) nem (21) dão a informação de que o enunciador tem informação que
lhe permita sustentar a crença na verdade da proposição modalizada com eventualmente.
Em ambos os casos, é expressa a informação de que essa proposição é concebível, mas
a proposição é apresentada apenas como uma hipótese. Observe-se que a substituição de
eventualmente pelo operador possivelmente alteraria ligeiramente o significado: a proposição modalizada passaria a ser apresentada como descrevendo um estado de coisas
que o enunciador tem alguma evidência de que se venha a verificar.
Em suma, quer ao usar alegadamente quer ao usar eventualmente, o enunciador não
dá a informação de que ele próprio disponha de evidência que sustente a asserção que
faz, contrariamente ao que se verifica ou pode verificar com os restantes operadores
considerados. No entanto, alegadamente expressa a informação de que o enunciador se
baseia em informação de outrem, ao contrário de eventualmente. Quanto a supostamente, presumivelmente, possivelmente e certamente, estes operadores dão (no caso de pos410
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
sivelmente e certamente) ou podem dar (no caso de supostamente e presumivelmente) a
informação de que o enunciador dispõe de informação para sustentar a asserção. Supostamente e presumivelmente dão a informação de que essa informação não é exclusiva do
enunciador, embora possa ser partilhada por ele, enquanto possivelmente e certamente
dão a indicação de que essa informação pode ser pessoal.
Para além da indicação da fonte de informação em que o enunciador baseia a sua
asserção, outro parâmetro relevante na descrição do significado dos operadores modais
considerados diz respeito à quantidade de informação que indicam estar acessível ao
enunciador. Com base nesse parâmetro, podem-se distinguir entre si os operadores
modais da mesma subclasse.
Assim, possivelmente distingue-se de certamente por indicar que o enunciador dispõe de uma reduzida quantidade de informação que lhe permita sustentar a crença na
proposição que assere, enquanto certamente indica que o enunciador pode basear a sua
crença numa quantidade de informação superior. Ainda assim, mesmo no caso de certamente, não se pode dizer que essa informação seja suficiente para que o enunciador
possa expressar crença absoluta. Ou seja, uma frase com certamente expressa um grau
de incerteza superior ao que é expresso pela asserção de uma frase sem qualquer modalizador, o que, de acordo com a hipótese em análise, se deve à indicação que certamente
dá de que o enunciador tem bastante informação para sustentar a sua crença, mas não a
suficiente para ter a certeza absoluta. Por seu lado, possivelmente indica que o enunciador dispõe de informação reduzida para basear a sua crença, o que tem como consequência a expressão de um grau de crença mais reduzido. Por outras palavras, de acordo
com a hipótese em análise, operadores como possivelmente ou certamente indicam o
tipo e a quantidade de informação em que o enunciador se baseia para asserir a proposição. Naturalmente, se o enunciador, ao usar certamente, dá a indicação de que dispõe de
bastante informação que sustente a sua asserção, é normal inferir-se que tem um elevado
grau de crença na proposição asserida, enquanto o uso de possivelmente indica que o
enunciador se baseia em informação mais reduzida, pelo que o grau de crença veiculado
será menor. Ou seja, quanto mais evidência existir em favor de um dado estado de coisas, mais próximo se estará da certeza de que esse estado de coisas se verifica. Ora, se
possivelmente indica que existem menos evidências do que certamente, é normal que a
partir de uma frase com o segundo advérbio se infira que se está mais próximo da certeza do que a partir de uma frase com possivelmente.
Dito de outro modo, de acordo com a hipótese em consideração, o facto de os operadores modais em consideração estarem associados à expressão de diferentes graus de
crença decorre da quantidade de informação que indicam estar disponível ao enunciador, não sendo, no entanto, a função destes operadores a de indicarem directamente o
grau de crença do enunciador na proposição que têm no seu escopo.
Também os operadores presumivelmente e supostamente se distinguirão entre si
pelo parâmetro relativo à quantidade de informação, presumivelmente indicando menor
411
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
certeza de que a verdade da proposição seja sustentável do que supostamente. Embora a
diferença de significado entre supostamente e presumivelmente seja ténue, penso que a
segunda destas palavras indica que há menos informação para sustentar a crença do que
a primeira. Para clarificação desta afirmação, comecemos por considerar os casos em
que o enunciador se baseia em informação de uma fonte contextualmente identificada,
ou seja, casos em que estes operadores têm sentido reportativo. Suponho que nesses
casos, ao usar supostamente, o enunciador dá a indicação de que a sua fonte admite que
a proposição é verdadeira e tem evidência suficiente para sustentar um grau de crença
elevado (cf., e.g., (8), acima), ao passo que, ao usar presumivelmente, o enunciador
indica ou que a fonte reportada tem menos informação que sustente a crença ou que o
próprio enunciador não considera ter informação suficiente para partilhar a crença com
a fonte (cf., e.g., (9), acima). Consideremos agora os casos em que supostamente e presumivelmente não têm sentido reportativo, mas apontam para o conhecimento partilhado. Penso que ao usar supostamente, o enunciador dá a indicação de que se tinha a certeza de que a proposição modalizada era verdadeira e a continuação do discurso pode
ser feita no sentido de chamar a atenção para nova informação que leva a rever a certeza
anterior ou no sentido de manter essa crença. Pelo contrário, quando usa presumivelmente o enunciador pode estar a indicar que nova informação leva a rever a crença anterior, sendo menos expectável uma continuação do discurso no sentido de a manter. Por
outras palavras, presumivelmente apontará para a existência de uma menor quantidade
de informação que sustente a crença do que supostamente.
O quadro que se segue resume a proposta apresentada nesta secção:
Fonte da informação em que o enunciador se baseia para asserir a proposição:
Outrem
Outrem (+ Enunciador)
Enunciador
Nenhuma
alegadamente supostamente presumivelmente certamente possivelmente eventualmente
>
>9
Quantidade de informação de que o enunciador dispõe para asserir a proposição
5.
Sobre a coocorrência com verbos modais
Foi observado acima que os verbos modais poder e dever podem ter interpretação
epistémica quando coocorrem com um dos operadores modais em análise, o mesmo não
se verificando com o verbo modal ter de. Este facto é compatível com a análise destes
operadores aqui apresentada, em conjugação com a semântica dos verbos modais, como
se tentará agora mostrar.
A hipótese defendida neste trabalho é a de que os operadores modais em consideração apontam para a base modal, isto é, para a informação em se baseia a crença na pro9 Possivelmente indica uma menor quantidade de informação do que certamente e uma maior quantidade de informação do que eventualmente.
412
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
posição modalizada. Por seu lado, os verbos modais com interpretação epistémica indicam uma relação entre a proposição que têm no seu escopo e uma base modal. Esta
relação é diferente consoante o verbo modal. Por exemplo, poder indica que a proposição modalizada é compatível com a base modal e ter de indica que a verdade da proposição modalizada decorre da base modal. Por outras palavras, para cada base modal, há
um conjunto de possibilidades que são compatíveis com a mesma, o que pode ser definido como um conjunto de mundos possíveis acessíveis a partir dessa base modal (cf.,
por exemplo, Kratzer (1991), Portner (2009), entre outros). O verbo modal poder indica
que a proposição sob o seu escopo se inclui no conjunto destas possibilidades (formalmente, poder indica que no conjunto de mundos possíveis acessíveis a partir da base
modal, há pelo menos um em que a proposição sob o seu escopo se verifica); dever
indica, simplificadamente, que esse conjunto de mundos possíveis inclui mais mundos
em que a proposição sob o escopo de dever se verifica do que mundos em que não se
verifica, e ter de indica que a proposição sob o seu escopo se verifica em todos esses
mundos possíveis (isto é, a proposição introduzida por ter de é uma consequência da
base modal). Ora, como foi observado, todos os advérbios de frase considerados indicam que a base modal tem informação que não é suficiente para se ter a certeza de que a
proposição sob o seu escopo é verdadeira. Por essa razão, há incompatibilidade entre o
uso de um destes operadores modais e o verbo modal ter de com valor epistémico: este
indica que a base modal implica a verdade da proposição que introduz, mas os advérbios de frase considerados indicam que a base modal não tem informação suficiente
para essa implicação.
Já os verbos modais poder e dever não indicam que o conjunto de mundos possíveis
compatíveis com a base modal inclui apenas mundos em que a proposição sob o seu
escopo é verdadeira. Por outras palavras, a asserção de uma frase com um destes verbos
modais deixa em aberto a possibilidade de a proposição que introduzem ser falsa, o que
é compatível com a coocorrência com um dos advérbios de frase considerados, que
indicam que a base modal não tem informação suficiente para se ter a certeza da verdade da proposição sob o seu escopo.
6.
Conclusão
A hipótese de que os advérbios de frase considerados neste trabalho envolvem essencialmente o tipo e a quantidade de informação em que o enunciador se baseia para asserir a proposição não tem os problemas que foram verificados para a hipótese de que a
sua função é expressar um grau de crença do enunciador. O facto de o advérbio possivelmente poder expressar um grau de crença mais forte do que o advérbio eventualmente decorre de o primeiro indicar que o enunciador tem alguma evidência para asserir a
proposição, contrariamente ao que acontece com segundo. Os problemas de classificação dos advérbios supostamente e presumivelmente que foram observados na secção 3
413
SOBRE ALGUNS MODALIZADORES DE FRASE EPISTÉMICOS E EVIDENCIAIS
não surgem, porque esta hipótese não contempla uma divisão entre advérbios reportativos e advérbios epistémicos. Finalmente, a coocorrência dos advérbios em análise com
outros operadores de modalidade epistémica, nomeadamente verbos modais, também
não é problemática: no caso em que na mesma frase coocorrem um advérbio deste tipo e
um verbo modal epistémico, o verbo expressa um grau de crença relacionado com a
base modal 10 e o advérbio aponta para a informação em que o enunciador se baseia para
sustentar essa crença, ou seja, para a base modal; por outras palavras, embora tanto os
advérbios de frase como os verbos modais possam estar associados à modalidade epistémica, não são operadores do mesmo tipo − os verbos modais expressam um raciocínio
que envolve uma base modal, dando a indicação sobre qual é a relação (implicação,
compatibilidade,...) entre a base modal e a proposição que introduzem, e os advérbios de
frase considerados apontam para a base modal, dando indicação sobre qual é o tipo e a
quantidade de informação em que o enunciador baseia a sua asserção.
Previsivelmente, as considerações que aqui foram feitas a respeito dos seis advérbios de frase considerados são extensíveis a outros operadores semelhantes (quer advérbios, como seguramente ou claramente, quer sintagmas, como por certo ou com certeza) que não foram tidos em consideração neste trabalho, embora pareça evidente que,
pelo menos alguns destes, envolvem no seu significado outros parâmetros.
Referências
Barbaresi, Lavinia Merlini (1987) “Obviously” and “certainly”: Two different functions
in argumentative discourse. In Ferenc Kiefer (org.) Modality, 3-24. (Special issue of
Folia Linguistica XXI 1).
Bosque, Ignacio & Violeta Demonte (1999) Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Madrid: Espasa.
Hengeveld, Kees (2004) Illocution, Mood and Modality. In G. Booij, C. Lehmann and
J. Mugdan (orgs.) Morphology: An International Handbook on Inflection and WordFormation, Vol. 2. Berlin: Mouton de Gruyter.
Huddleston, Rodney & Geoffrey K. Pullum (2002) The Cambridge Grammar of the
English Language. Cambridge: Cambridge University Press.
Kovacci, Ofelia (1999) El adverbio. In Ignacio Bosque & Violeta Demonte (orgs.)
Gramática Descriptiva de la Lengua Española. Madrid: Espasa.
Kratzer, Angelika (1991) Modality. In A. von Stechow & D. Wunderlich (orgs.) Semantics. Berlin: de Gruyter, pp. 639-650.
Oliveira, Fátima (1993) Questões sobre modalidade em português Cadernos de Semântica, 15, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
10
i.e., no caso do verbo modal poder, introduz uma proposição que é (doxasticamente) compatível com
a base modal, e no caso do verbo modal dever introduz uma proposição que decorre da base modal.
414
XXVII ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE LINGUÍSTICA
Oliveira, Fátima (2003) Modalidade e modo. In M.ª Helena Mira Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, 5.ª ed. Lisboa: Caminho.
Peres, João Andrade & Telmo Móia (1995) Áreas Críticas da Língua Portuguesa. Lisboa: Caminho.
Portner, Paul (2009) Modality. Oxford: Oxford University Press.
Rocci, Andrea (2000) L’interprétation épistémique du futur en italien et en français: une
analyse procédurale. Cahiers de Linguistique française, 22. Genève: Université de
Genève, pp. 241-274.
Simon-Vandenbergen, Anne-Marie & Karin Aijmer (2007) The Semantic Field of Modal Certainty: A Corpus-Based Study of English Adverbs. Berlin: de Gruyter.
van der Auwera, Johan & V. A. Plungian (1998) ‘Modality’s semantic map’. Linguistic
Typology 2, pp. 79-124.
415
Fly UP