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BANDAS OU “FURIOSAS”: TRADIÇÃO, MEMÓRIA E A FORMAÇÃO

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BANDAS OU “FURIOSAS”: TRADIÇÃO, MEMÓRIA E A FORMAÇÃO
BANDAS OU “FURIOSAS”: TRADIÇÃO,
MEMÓRIA E A FORMAÇÃO DO MÚSICO
POPULAR EM GOIÂNIA – GO1
Maria Amélia Garcia de Alencar
Universidade Federal de Goiás
[email protected]
RESUMO: Este artigo analisa a tradição das bandas musicais no
Brasil e, em particular, no estado de Goiás. Diante da lei que determina a obrigatoriedade da educação musical nas escolas (Lei
nº 11.769, de 18 de agosto de 2008) discute as práticas que vêm
sendo desenvolvidas com bandas escolares em Goiânia, capital
do estado, sua importância para a formação do músico popular e
para a preservação desta memória entre a população da cidade.
Palavras-chave: bandas de música; Goiás; Lei nº 11.769
ABSTRACT: This article analyses the tradition of musical bands
in Brazil, in particular in the state of Goiás. Considering the law
that imposes music education in schools (Lei nº 11.769, August,
18, 2008) we discuss the practices with school bands in Goiânia,
capital of the state, as well as its importance in forming musicians
and preserving this memory among the population.
Keywords: music bands; Goiás; Law 11.769
1
Palestra apresentada no Seminário Música Popular em Contexto, realizado na UnB em 17 de
dezembro de 2009. Este texto é fruto de projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade
Federal de Goiás, com a participação da bolsista do PROLICEN/UFG Karyna Cândida de Azevedo.
Atualizado em outubro/novembro 2010.
Revista do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade de Brasília
Ano IV, v. 1, dezembro de 2010
Recebido em 15/11/2010 - Aprovado em 20/11/2010
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Contexto
ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. Bandas ou “furiosas”: tradição, memória e a formação
do músico popular em Goiânia - GO. Música em contexto, Brasília, n. 4, 2010, p. 43-56
As aulas devem colaborar para que jovens e crianças compreendam
a música como algo significativo na vida de pessoas e grupos, uma
forma de interpretação do mundo e de expressão de valores, um espelho que reflete sistemas e redes culturais e que, ao mesmo tempo,
funciona como janela para novas possibilidades de atuação na vida.
Keith Swanwick
Os debates em torno da obrigatoriedade da educação musical
nas escolas que resultaram na Lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008,
suscitaram a reflexão sobre o papel das bandas escolares, principal forma de iniciação musical para muitas crianças e adolescentes no Brasil.
1. O texto da lei
Em 2005, quando da criação da Câmara Setorial de Música, ligada
ao Ministério da Educação, um macro desafio foi explicitado: “Tornar a formação musical uma política de Estado – continuada e integrada – através
da criação e do desenvolvimento de Políticas Públicas Nacionais, rompendo com a exclusão cultural e trazendo a música para o centro da discussão
política.” Entre suas diretrizes destaca-se aquela que visa “Garantir o cumprimento da obrigatoriedade do ensino da música em toda a escola brasileira priorizando os profissionais da área de música.” (Relatório da Reunião
Inaugural – Câmara Setorial de Música – MEC).
No ano seguinte, foi lançado um Manifesto assinado por membros
da sociedade civil que integraram o Grupo de Articulação Parlamentar
Pró-Música (GAP), apoiado por 86 entidades ligadas diferentes formas de
expressão musical de todo o país. Neste documento fica explicitado: “A
educação musical escolar não visa a formação do músico profissional,
mas o acesso à compreensão da diversidade de práticas e de manifestações musicais da nossa cultura bem como de culturas mais distantes”
(grifo nosso). A principal preocupação expressa no documento era, ao
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lado da garantia do ensino da música nas escolas de educação básica, a
reserva de espaço para professores com formação em música. Para tanto,
seria necessária uma mudança na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional – LDBEN – que previa apenas a obrigatoriedade do “ensino de
arte”, o que não atendia aos objetivos do Grupo. Uma audiência pública foi
agendada no Senado Federal para entrega do manifesto, o que ocorreu
no dia 22 de novembro de 2006. Um encontro com o Ministro da Educação Fernando Haddad e o Senador Cristóvão Buarque, no dia 08 de abril
de 2008, propiciou que as mobilizações em torno da lei tivessem projeção
nacional, na medida em que o evento contou com a presença de músicos,
compositores e cantores de renome2. No curto espaço de tempo de um ano
e meio, a lei nº 11.769 tramitou pelo Senado e Câmara Federal e foi sancionada pelo Presidente da República em 18 de agosto de 2008. No entanto, o
artigo que garantia que o ensino de música seria ministrado por professores
com formação específica na área foi vetado, frustrando em parte os objetivos do GAP e gerando interpretações divergentes. E ainda mais, a Lei garante
pelo art. 26 par. 6º que “A música deverá ser conteúdo obrigatório, mas não
exclusivo, do componente curricular”.
No entanto, conforme afirma o coordenador do GAP, “o desafio agora
é discutir nacionalmente qual é a educação musical que serve ao Brasil hoje”
(www.queroeducacaomusicalnaescola.com – acesso em 06/11/2008). Nosso
desafio é pensar a educação musical em Goiás a partir de nossas tradições
culturais e de nossa memória.
2. Bandas e fanfarras na tradição goiana
As bandas de música tiveram sua origem nas irmandades
cecilianas,3 no século XVIII. Organizadas nos moldes das corporações de
ofício medievais, as irmandades – ligadas às instituições religiosas –
2
3
O encontro, no gabinete do Ministro, foi marcado pela descontração, quando os artistas fizeram
uma “passagem do som” e foram acompanhados pelos políticos.
De Santa Cecília, protetora dos músicos.
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acolhiam os músicos e lhes garantiam trabalho e assistência social,
uma forma primitiva de mutualismo. Têm-se notícias também de que
fazendeiros organizaram escravos em conjuntos musicais, que tocavam para suas famílias e para as populações rurais, em cerimônias religiosas, como procissões e funerais, nos eventos oficiais e nas festividades populares (PINTO, 1997:241).4
Com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808, as bandas tiveram grande impulso, pela determinação do Príncipe Regente
de que cada regimento militar tivesse um corpo de músicos. As apresentações dessas bandas não se restringiram às atividades militares,
mas espalharam-se por diversos momentos de lazer e congraçamento
social, tocando nas festividades civis e religiosas, nos coretos das praças, acompanhando os corsos e bailes carnavalescos. Seu repertório
era variado, compreendendo todos os gêneros musicais em voga. A
organização das bandas militares, quanto aos instrumentos, serviu de
modelo para as bandas civis. 5 Associações de imigrantes também organizaram suas bandas, tais como os portugueses, espanhóis, alemães
e italianos, tocando música européia e brasileira. No Brasil, difundiram-se a tal ponto que qualquer cidade ou povoado contava com um coreto para apresentação de seus músicos aos domingos. Durante muito
tempo foram a única forma de acesso à música instrumental para grande parte da população. Alguns compositores que viveram sua infância
no interior do Brasil confirmam a importância da banda local para a sua
formação. É o caso de Roberto Corrêa, compositor hoje morando em
Brasília, mas que passou a infância e adolescência em Campina Verde,
Minas Gerais:
Assim, três casas abaixo da minha, tinha a agremiação, tinha um
salão onde a banda ensaiava e eu adorava a banda. E ficava... Acho
que foi, talvez, a minha primeira manifestação, assim, musical. Eu
ficava em cima de casa com aqueles canos de limpar esgoto e tal,
4
5
As bandas civis são muito pouco conhecidas no Brasil, principalmente nos períodos mais recuados.
Bandas de pífanos, zabumbas e cabaçal, são exemplos arcaicos ainda existentes no Nordeste.
Sobre as bandas militares, ver Tinhorão, 1998,177-191.
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tocando trompete junto com a banda. Escondidinho...era muito tímido. Adorava essa banda.6
E Hamilton Carneiro, de Goiânia, profissional ligado à televisão e
à publicidade, mas que também faz letra de música, sobre sua infância
em Urutaí, interior goiano:
E eu me lembro que numa festa de Nossa Senhora da Abadia eu tava
em casa, não era muito distante da igreja, eu escutei lá na barraquinha a banda de música tocando. Me arrumei e tal, tomei banho,
penteei o cabelo e corri para lá. Eu devia ter sete anos nessa época...
Prá ver a banda. Aquele orgulho do interior, você estufa o peito pra
ver a banda, pra assistir, e vai já naquela...parece que até a movimentação é meio marcial, né?...7
Considerada “música urbana”, os estudiosos não fazem qualquer
referência a influências mútuas entre as bandas e as formas musicais
existentes no interior do país. Mas, se considerarmos que a população
rural vinha aos centros urbanos para as festas religiosas e populares,
pode-se pensar numa influência das bandas nas “orquestras do sertão”.
Sobre o tema, escreveu Ângelo Dias (Revista da UFG, dez. 2006):
Nos dias de hoje, as bandas de música estão quase que invariavelmente ligadas a eventos cívicos. Engalanados em seu fardamento
reluzente, músicos militares executam os hinos pátrios e alguns dobrados para animar o público, antes que as autoridades presentes
assumam o comando da solenidade. Ou então, nos desfiles e paradas, o ritmar das fanfarras de escolas públicas mantém disciplinados os estudantes que marcham pelas ruas da cidade. Pelo país
afora, existem, sim, algumas bandas sinfônicas profissionais – poucas, mas de significativa atuação cultural – mantidas pelo Estado
ou pela iniciativa privada, e que se dedicam quase exclusivamente
a um repertório de concerto mais sério e elaborado, com músicos
6
7
Entrevista concedida a esta pesquisadora em Brasília, em 22/08/2002.
Entrevista concedida a esta pesquisadora em Goiânia, em 25/06/2002.
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altamente preparados. Mas, a grande maioria das bandas ainda é
constituída pelas militares e escolares, e todas são importantes
núcleos de iniciação musical da juventude (grifo nosso).
Em seu livro Música em Goiás, Belkiss S. Carneiro de Mendonça afirma que a primeira banda, das muitas que existiram na cidade de
Goiás, foi a Banda Phil’harmonica, criada em 1870. A Banda de Música da
Guarda Nacional surgiu na mesma cidade em 1880. A mais famosa delas foi a Banda do Batalhão 20, que chegou a tomar parte na Guerra do
Paraguai, animando as tropas na fronteira do Mato Grosso e se apresentou também na missa celebrada pela passagem do século XIX para o XX.
A Banda da Polícia Militar foi criada, segundo aquela autora, em 1893, tendo como diretor Joaquim Santana Marques (MENDONÇA, 1981:82-83).8
Já na cidade de Pirenópolis, a mesma autora indica a criação da
primeira banda de música em 1830, por iniciativa do Comendador Joaquim Alves de Oliveira, goiano que impressionou o francês Auguste
de Saint’Hilaire – quando de sua passagem pela cidade em 1819 – por
seu empreendedorismo. A Banda Euterpe, criada em 1868, era regida
por Antônio da Costa Nascimento, o “Tonico do Padre”, que deixou um
extenso legado musical. Depois de sua morte, em 1903, a Euterpe foi
dirigida pelo Major Silvino Odorico de Siqueira, cujos filhos participavam
da banda. Após sua morte, em 1961, a Banda Euterpe não teve continuidade (MENDONÇA, 1981:113-128).
Ângelo Dias, no artigo referido atrás, afirma que muitas outras
cidades do interior goiano tiveram vida musical ativa, destacando Jaraguá, São José do Tocantins e Traíras, redutos da família Ribeiro de Freitas,
“que desde o século XVIII até o presente tem-se revelado uma das mais
notáveis forças motrizes no desenvolvimento sócio-cultural de nosso
estado” (DIAS, 2006). Nessa família, destacou-se o maestro Balthasar de
Freitas (1870-1936), regente e compositor, que fundou uma importante
banda civil em Jaraguá.9
8
9
Sobre outras bandas da cidade de Goiás, ver Mendonça, 1981, 83-89. Na mesma obra, encontramos
um Apêndice com depoimentos sobre bandas de música em diversos municípios goianos (366-385).
Sua obra constitui o Arquivo Balthasar de Freitas que foi catalogado, as partituras publicadas e os
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Com a transferência da capital do estado para Goiânia, os primeiros registros musicais datam de 1942, por ocasião do Batismo Cultural.
O musicólogo Luiz Heitor Corrêa de Azevedo esteve na cidade a fim de
registrar em gravações as manifestações do nosso folclore, como parte de um projeto de “arquivamento da música popular brasileira atual”,
atividade da cadeira de Folclore Nacional da Escola Nacional de Música, da Universidade do Brasil, onde funcionava o Centro de Pesquisas
Folclóricas. Outro grande musicólogo, Renato Almeida também esteve
em Goiânia na mesma ocasião e colaborou com os trabalhos. Ao lado
de gravações musicais, foram realizadas filmagens pelo Instituto do
Cinema Educativo e entrevistas (inquéritos) com alguns músicos (Relação dos Discos gravados no Estado de Goiás, junho de 1942). A partir do
que viram e ouviram em Goiás, os dois pesquisadores escreveram diversos artigos em periódicos nacionais. Entretanto, não fizeram referência
à existência de bandas, centrados que estavam na questão do folclore,
tido então como manifestação mais pura da musicalidade brasileira.
(AZEVEDO. Relação dos Discos Gravados no Estado de Goiás, 1950).
No entanto, observa-se que, entre as construções do núcleo inicial da nova capital – os edifícios públicos e os equipamentos urbanos
em torno da Praça Pedro Ludovico Teixeira (antiga Praça Cívica) -, existe
um coreto, referido como uma das mais elaboradas obras art-déco em
Goiânia (Coelho, 1997, 59). Tradicionalmente local de apresentação das
bandas nas cidades do interior, a nova capital contou, desde os seus
primeiros tempos, com esta construção. Entretanto, seus pioneiros não
guardaram uma memória sobre o uso do coreto ou mesmo sobre as
bandas existentes nos primeiros tempos da cidade que porventura ali
se apresentassem.
Resgatando a documentação sobre a Goiânia da época de sua
fundação, encontra-se uma única referência à apresentação da Banda
da Polícia Militar (transferida da antiga capital?) que tocou na alvorada
do dia 5 de julho de 1942, dentro das festividades do Batismo Cultural
CDs gravados pela Banda Sinfônica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Goiás, dirigida
pelo maestro Marshal Gaioso.
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de Goiânia. A Banda Militar percorreu as ruas da cidade tocando “sons
épicos e marciais” (Anais do Batismo Cultural de Goiânia, 1993). Entre
os relatos dos pioneiros, recolhidos por José Mendonça Teles (1986:
130), há uma referência ao evento: “No dia 5 de julho, o povo amanheceu feliz; despertou-o a Banda da Polícia Militar, enchendo a cidade
de som e entusiasmo”. Em trabalho sobre “mapas da memória”, Medeiros (2007:221) reproduz um mapa elaborado pela profa. Lena Castelo
Branco Ferreira de Freitas, onde o relógio da Avenida Goiás e o coreto
aparecem assinalados, porém descritos como “ponto de encontro para
passeios com amigos”.
Depoimentos relativos à segunda metade da década de 40 e ao
longo da seguinte, no entanto, fazem referência ao coreto como ponto
de reunião de amigos no fim da tarde e sobre apresentações da Banda
da Polícia Militar naquele espaço.10
Na Goiânia do século XXI, a tradição se mantém nas inúmeras
bandas que participam inclusive, de concursos e apresentações locais,
regionais e nacionais.11 Em 6 de agosto de 1993 foi fundada a Federação Goiana das Fanfarras e Bandas – FGFBandas – quando o presidente
da Ordem dos Músicos do Estado de Goiás afirmou:
As fanfarras e bandas representam o estágio um do ingresso, do
incentivo e da oportunidade de que todas as crianças e jovens carecem para viver o mundo da arte musical, e que é preciso não só
fundar a Federação, mas trabalhar duro para nela reunir bandas
marciais, musicais, fanfarras afim de que com a união e luta, a consolidação das categorias não sofra solução de continuidade. 12
10 Depoimentos de Francisco Magalhães e sua filha Lenir Magalhães, a esta pesquisadora, em
julho de 2009. O Sr. Francisco Magalhães transferiu-se para Goiânia em 1946, ano em que
nasceu sua filha.
11 No segundo semestre de 2006 foi realizado o I Concurso Aberto de Bandas e Fanfarras da
região Centro-Oeste, em Planaltina – DF, com a participação de bandas escolares de Goiânia.
Em concurso estadual de 2008, bandas escolares de Goiânia obtiveram as primeiras colocações
em aspectos técnicos e de apresentação (Banda Marcial ECOVAM – 1º lugar e banda do CPMG
– Hugo de Carvalho Ramos – 3º lugar). A Banda do Carlos Alberto de Deus, escola da Cidade
Jardim, em Goiânia, ficou em segundo lugar no Concurso Nacional de Bandas em 2008. No
mesmo ano, uma banda goiana foi tocar na Alemanha, com o apoio da Confederação Nacional
de Bandas.
12 Ata de Fundação da FGFBandas. Em 2008, 34 bandas estavam filiadas à Federação.
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Em artigo no jornal Tribuna do Planalto, de 13 de julho de 2006,
a jornalista Gabriella Luccianni escreveu sobre o assunto:
As fanfarras e bandas escolares contribuem para o desenvolvimento psíquico e social dos estudantes, favorecendo a interação entre
o grupo e a inclusão social de crianças e jovens carentes... Com a
participação de alunos, ex-alunos, professores, voluntários e da
comunidade, estas corporações atingem resultados extremamente
positivos. A formação musical auxilia no aprendizado das disciplinas curriculares, aumenta a auto-estima e significa a possibilidade
de inserção social para a maioria dos alunos.
No mesmo artigo, a coordenadora do Departamento de Artes
da Secretaria Estadual de Educação (SEE) do Distrito Federal refere-se
ao papel das bandas e fanfarras escolares. “Toda criança e adolescente
tem direito à alfabetização musical, que ajuda no desenvolvimento da
cognição. Os alunos que se envolvem com a música ocupam o tempo
com um objetivo maior e, muitos, fazem disso uma profissão”.
Assim é que algumas escolas públicas e mesmo particulares, em
Goiânia e por todo o estado de Goiás, possuem bandas musicais, além
de outras instituições, como a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros.
Entretanto, as dificuldades de manutenção dessa atividade são enormes, dependendo quase sempre, da boa vontade e contribuições dos
próprios participantes e professores. Sobre o assunto, na reunião de
fundação da FGFBandas, o prof. Antônio Marques Bueno (Prof. Lanza)
salientou que “a Federação poderá representar mais apoio às esquecidas
Bandas, as quais sobrevivem apenas pela vontade abnegada de poucos
companheiros, instrutores e regentes que teimosamente têm resistido
ao descaso de muitas autoridades nos 15 anos passados e permitiram
o esfriamento das Bandas e fanfarras”. Em entrevista13, a atual presidente da FGFBandas, Lucienne Vinhal se queixa da falta de apoio oficial às
atividades das bandas do estado. E esta falta de apoio viria, segundo a
entrevistada, da ausência de profissionais especializados na área.14
13 Entrevista concedida a Karyna Cândida de Azevedo, em maio de 2009. Todas as citações de
Lucienne Vinhal são desta entrevista.
14 A presidente da FGFBandas está se referindo ao fato, já apontado pelo GAP, de que os concursos
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Sobre esta prática, tão importante na formação dos jovens e,
particularmente, do músico popular em Goiânia-GO, Lucienne Vinhal
afirma ainda que grande parte dos músicos de orquestra hoje, em Goiânia, são oriundos de bandas. As próprias bandas profissionais são formadas por músicos que se iniciaram na escola, particularmente os alunos carentes que, mais tarde, se profissionalizaram. Perguntados sobre
sua iniciação musical e a intenção de profissionalização, participantes
de bandas reafirmaram a importância dessa prática.15
No Brasil, o uso do ensino musical como elemento disciplinador
vem também de longa data. Villa-Lobos, assim como Mário de Andrade
e Fabiano Lozano, foram grandes incentivadores do canto orfeônico,
que viam como forma de disciplinar os escolares, além da possibilidade
de divulgação da música e do folclore nacionais. Para Villa, a identificação entre a vanguarda nacionalista e os pressupostos revolucionários
de 30 eram fatores de modernização da sociedade brasileira. Seu projeto para o canto orfeônico, baseado nos exemplos alemães, foi sendo
concretizado ao longo dos anos 30. Em 24 de outubro de 1932, aniversário da revolução, o maestro organizou, no estádio do Fluminense, no
Rio de Janeiro, um coral de 15.000 crianças, que apresentou canções
cívicas e folclóricas. Contier (1998:27-28) nos lembra:
A relação música nacionalista-Estado não pode ser caracterizada
conforme uma visão simplista que imagine o Estado interferindo diretamente no campo cultural, em face de interesses político-ideológicos que
o levariam até à tentativa de estruturação de um projeto hegemônico
nessa área. Na verdade, no caso da música, a prática política de alguns
intelectuais envolvidos sentimentalmente pela proposta de nacionalização da música brasileira voltou-se para o Estado como o único agente
capaz de interferir no seio da sociedade, sem nenhum interesse partidário ou de classe, tão-somente como unificador cultural da nação...
públicos para professor do ensino fundamental raramente contemplam os licenciados em música,
optando por professores de “educação artística”, sendo que a Universidade já especifica a formação
em cada uma das artes (visuais, música, teatro e dança).
15 Entrevistas concedidas a Karyna Cândida de Azevedo, em maio de 2009, por alunos participantes
da Banda ECOVAM.
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Assim, nos anos 30, vários intelectuais enviaram propostas ao
governo, como Villa-Lobos, que tentava levar avante seu projeto de
canto orfeônico. Vargas aprovou então a criação da Superintendência
de Educação Musical e Artística (SEMA), que passou a ser dirigida pelo
compositor. Órgãos semelhantes foram criados em diversos estados
brasileiros. Por decreto de 1932, o ensino de canto orfeônico tornou-se
obrigatório nas escolas municipais do Distrito Federal, estendendo-se
a orientação aos demais estados.
Este aspecto disciplinador do trabalho nas bandas se mantém nos
dias de hoje e é ressaltado pela Presidente da FGFBandas, Lucienne Vinhal:
O aluno tem que ter assim uma disciplina, ele tem que ter uma postura, porque você ficar no sol duas, três horas, com instrumento
pesado não é fácil. Você ficar de bota no sol, como é o caso das meninas, você fazer um monte de exercício no asfalto, que é o caso da
baliza, isso tudo exige do aluno muita dedicação, muita disciplina
[...] às vezes o aluno tem problema na escola, a primeira coisa que
eles fazem é mandar pra banda, porque se não tiver concerto, vai
ter na banda.
O professor Elivelton Praga dos Santos, graduado em Educação
musical, é professor-regente da banda ECOVAM.16 Afirma que desde
menino atua como músico em bandas, tendo feito parte da banda da
Escola Municipal Mônica de Castro, onde estudou, chegando a ser professor-regente da mesma. Para ele, o objetivo do ensino de música na
escola é possibilitar o acesso à cultura, de que a periferia de Goiânia é
carente. Segundo o professor, ainda, participar da banda confere certa
distinção ao aluno, o que impõe um comportamento diferenciado. No
entanto, o professor-regente expressa uma preocupação com a obrigatoriedade do ensino de música na escola, pois, para ele, a perda da
liberdade, da formação musical como opção, vai ser mais um desafio
16 O ECOVAM (Escola Centro de Orientação e Valorização do Adolescente e da Mulher) é uma escola
conveniada, em Aparecida de Goiânia – cidade do conglomerado urbano de Goiânia – que recebe
subsídios do exterior através de projetos que desenvolve (inclusive para sua banda marcial).
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para os professores (grifo nosso).17 Quanto ao tempo dedicado à música na sua prática, atualmente é todo voltado para os ensaios, não existindo aulas teóricas.
De acordo com a Lei 11.769, as redes de ensino têm até o ano de
2012 para se adaptar às novas exigências. Nesse sentido, os concursos
públicos realizados pelas Secretarias de Educação (Estadual e do município de Goiânia) prevêem vagas – ainda em pequeno número – para
a área de artes, que inclui a educação musical.18 Talvez mais expressivo
das preocupações com o tema, no estado de Goiás, seja a realização,
em Goiânia, no XIX Congresso Nacional da Associação Brasileira de
Educação Musical – ABEM – de 28 de setembro a 1 de outubro de 2010.
Organizado pela Universidade Federal de Goiás e realizado no espaço
desta, o tema do Congresso foi Políticas públicas em educação musical:
dimensões culturais, educacionais e formativas. Estima-se a participação
de cerca de 850 pessoas, com a apresentação de 284 comunicações e
18 pôsteres, todos relacionados a pesquisas na área. A conferência de
abertura esteve a cargo do professor inglês Keith Swanwick, autor de
diversas obras sobre o assunto.
3. Tradição e memória nas bandas goianienses
As complexas relações entre memória e história podem ajudar
a pensar o duplo processo de esquecimento-preservação das bandas musicais em Goiás e, em especial, na capital. Tradicionalmente,
historiadores utilizaram-se das reflexões do sociólogo M. Halbwachs
sobre a memória. Este autor indica que esta se compõe de fatos pertinentes, sendo que os insignificantes são relegados ao esquecimento.
E lembranças pertinentes são aquelas que respondem a pressões coletivas e às solicitações do presente, sendo ainda portadoras de significado. Para este autor, portanto, a memória individual é quase impossível.
A matéria da memória liga-se, num primeiro momento, aos grupos
sociais de que participamos. Por outro lado, a memória do grupo liga-se
17 Entrevista concedida a Karyna Cândida de Azevedo em maio de 2009.
18 Ver páginas da Secretaria Estadual de Educação e Municipal de Goiânia. Editais de concurso 2010.
Revista do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade de Brasília
Ano IV, v. ‑1, dezembro de 2010
ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. Bandas ou “furiosas”: tradição, memória e a formação
do músico popular em Goiânia - GO. Música em contexto, Brasília, n. 4, 2010, p. 43-56
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Contexto
à tradição, que constitui a memória coletiva da sociedade (HALBWACHS,
1990). Assim, para este autor, memória individual, memória coletiva e
história, não se confundem.
Uma historiografia francesa e anglo-saxã mais recente tem se
debruçado sobre a questão das relações entre história e memória e enfatiza a apropriação desta por aquela.19 Segundo estas correntes, História e memória quase que se identificam. Trata-se de uma memória ativada “visando, de alguma forma, ao controle do passado (e, portanto,
do presente)” (SEIXAS, 2004:42). Identifica-se uma memória voluntária,
com função política de controle do passado. Outras memórias, entretanto, lembra-nos esta autora, são involuntárias, espontâneas, afetivas,
aquelas que irrompem de maneira inesperada e que não se ligam ao
esforço intelectual de busca e captura do passado.
Nas memórias reconstruídas sobre a trajetória das bandas em
Goiás, observamos que essas se mantêm vivas para pessoas que moraram no interior e para as quais as bandas tiveram um significado afetivo, como apontam os depoimentos que transcrevemos acima. Já para
os pioneiros da cidade de Goiânia, as bandas inscrevem-se no esquecimento, pois quando se referem às práticas musicais da cidade naquele
período, rememoram os saraus, destacando-se o piano, instrumento que
certamente agregava status às práticas musicais. Bailes em palácios, nos
clubes e no Grande Hotel de Goiânia também são mencionados com freqüência nos depoimentos (TELES, 1981). Utilizando-se do instrumental
teórico esboçado atrás, pode-se pensar que, ao passarem a pertencer
a uma nova sociedade, que se projetava para o futuro como moderna
e promissora – a nova capital, Goiânia, – seus pioneiros, ao rememorar,
projetam essa imagem, abandonando práticas que se ligavam a outras
formas de sociabilidade.20
19 Sobre o tema ver Seixas, 2004.
20 Pode-se pensar que há uma limitação dos depoimentos dos chamados “pioneiros” de Goiânia: são
membros da elite local, aqui chegados para ocupar importantes cargos públicos, vindos da cidade
de Goiás ou mesmo de outros estados. A imagem que procuram construir da nova cidade, apesar
das dificuldades dos primeiros tempos, é a de uma metrópole moderna, promissora, que deixava
para trás os velhos hábitos da “velha capital”. Uma pesquisa mais abrangente, envolvendo outros
grupos sociais, talvez revele outras memórias.
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No entanto, a existência das bandas marciais em escolas ou em
instituições geralmente militares ou paramilitares continua forte em
Goiânia nos dias que correm. Este fato sugere que sua importância na
educação geral e seu caráter disciplinador tenham substituído a função
de lazer e fruição que exerciam anteriormente.
Sobre que o caráter educativo da música nas escolas, Aline Faria
Silveira (2007:2) escreveu que esta forma de arte é “entendida como elemento significativo na construção do conhecimento e no desenvolvimento humano como um todo”. Para esta autora, é a linguagem musical que
possibilita transformações no educando ao fazer aflorar emoções e permitir a sua exteriorização, através da quebra de barreiras, inibições ou medos.
É neste contexto que surge a necessidade de um trabalho musical
na educação regular, não como um ornamento do currículo, mas tomado como elemento que possibilite e desenvolva a expressão humana,
“favorecendo o desenvolvimento de suas [do educando] possibilidades
expressivas de modo a trazer auxílio em suas relações com o outro, com
o mundo e até consigo mesmas”. A autora chama a atenção para a necessidade de ser repensada a “função do fazer musical nas escolas regulares,
partindo de sua complexidade e de seu dinamismo...” (SILVEIRA, 2007:4).
O trabalho regular com esta forma de manifestação artística valoriza a
cultura local e possibilita, ao mesmo tempo, uma leitura do mundo mais
globalizada, através da compreensão de processos interculturais. Mas
não se deve esquecer, também, sua significação para a formação do músico popular, que talvez tenha na banda a única oportunidade de fazer
aflorar a aptidão, o gosto pela música.
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