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práticas sexuais e o uso do preservativo entre mulheres com
PRÁTICAS SEXUAIS E O USO DO PRESERVATIVO
ENTRE MULHERES COM HIV/AIDS1
Isabel Cristina Alves Maliska*
Maria Itayra Coelho de Souza**
Denise Maria Guerreiro Vieira da Silva ***
RESUMO
Trata-se de parte de uma pesquisa descritivo-qualitativa, que teve como um dos objetivos discutir a feminização
da epidemia da aids e o seu reflexo nas práticas de cuidado em relação a essa doença, no que diz respeito às
práticas sexuais no âmbito de relacionamentos entre soropositivos e sorodiscordantes, a partir dos depoimentos
de mulheres soropositivas. A coleta de dados foi feita em um serviço de assistência especializada do programa
DST/HIV/Aids de um município da Grande Florianópolis/SC. Participaram do estudo sete mulheres, maiores de
18 anos. A coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas semi-estruturadas. Após a análise de conteúdo,
constituíram-se as seguintes categorias: “A vulnerabilidade antes da infecção do HIV” e “A vulnerabilidade após a
infecção do HIV”. Os resultados indicam que as mulheres acreditam estar protegidas pela relação estável. Após
a infecção, o preservativo foi requisitado para proteção contra contaminação pelo HIV ou outras doenças
sexualmente transmissíveis, e como método contraceptivo. Percebe-se a dificuldade de negociar este recurso de
cuidado junto a seus parceiros, mesmo se tratando de relações entre sorodiscordantes, evidenciando que as
mulheres continuam reféns de sua vulnerabilidade, mesmo após a infecção.
Palavras-chave:
Síndrome de Imunodeficiência Adquirida. Prevenção de doenças transmissíveis. Vulnerabilidade em saúde.
Sexualidade.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A epidemia da Aids tem manifestado sua
força entre indivíduos vulneráveis ao vírus,
principalmente os das classes sociais menos
favorecidas e as mulheres. Esta epidemia vem
acometendo os setores mais marginalizados da
sociedade, que vivem constantemente as mais
variadas formas de violência estrutural, devido à
pobreza, ao racismo, à desigualdade de gênero, à
opressão sexual e à exclusão social(1). O
resultado deste processo se configura no perfil
epidemiológico de HIV/Aids que se desenha
atualmente na sociedade brasileira: a crescente
feminização da epidemia, em que a razão entre
os sexos vem diminuindo sistematicamente,
passando de 15,1 homens por mulher, em 1986,
para 1,5 homens por mulher, em 2005. Além do
fenômeno da feminização, a epidemia de Aids
vem, progressivamente, se interiorizando e
atingindo as pessoas em situação de pobreza.
Tanto no Brasil quanto em outros países em
desenvolvimento, a pobreza tem sido apontada
como um dos contextos estruturais da
vulnerabilidade às DST/HIV/Aids(2).
O comportamento relacionado ao risco de
infecção do HIV vem sendo discutido desde o
início da epidemia, com esforços voltados para a
prevenção e controle do HIV/Aids. Este
processo passou por estágios sucessivos,
partindo da concepção de grupos de risco e
evoluindo para o conceito de comportamento de
risco, considerando apenas o contexto do
comportamento individual. Progressivamente, o
conceito de comportamento de risco foi se
ampliando, passando-se a considerar os fatores
políticos e econômicos que têm provocado a
disseminação da infecção pelo HIV. Neste
sentido, a idéia de risco individual e coletivo
evoluiu para uma concepção de vulnerabilidade
____________________
1
Trata-se de parte da Dissertação de Mestrado da autora principal intitulada “O itinerário terapêutico de indivíduos portadores de HIV/Aids”
sustentada no Programa de Pós-Graduação em Enfermagem/UFSC.
* Enfermeira Assistencial do Hospital Universitário (UFSC), Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem
(UFSC). Membro do Grupo de Estudos de História do Conhecimento de Enfermagem (GEHCE).
** Doutora em Enfermagem pela EEAN/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Prof. Associada I do Departamento de Enfermagem da
Universidade Federal de Santa Catarina.
*** Doutora em Enfermagem pela UFSC. Professora Associada da Universidade Federal de Santa Catarina.
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social, como conseqüência de um conjunto de
aspectos individuais, coletivos e contextuais que
resultam em uma maior susceptibilidade à
infecção e ao adoecimento, assim como a uma
maior ou menor disponibilidade de recursos de
todas as ordens para se proteger de ambos(3).
Quanto aos meios de prevenção contra Aids,
observamos que o preservativo tem sido
apontado como um dos principais meios de
prevenção, tanto para a infecção do HIV quanto
de outras doenças sexualmente transmissíveis(4).
Diversos estudos tratam do uso do preservativo
enquanto prática de prevenção à Aids,
ressaltando a vulnerabilidade das mulheres e seu
baixo poder de negociação com seus parceiros,
predominando muitas vezes o ponto de vista
masculino em relação a esta prática(2, 5-9). No
entanto, apesar de a vulnerabilidade feminina ser
objeto de inúmeros estudos, poucos são
dedicados à vida sexual e reprodutiva de
mulheres portadoras de HIV/Aids. Neste sentido,
é necessário considerar que as relações de
gênero e de poder, as condições de vida, assim
como
o
contexto
sociocultural
que
proporcionaram
maior
vulnerabilidade,
culminando na contaminação pelo vírus HIV,
continuam a existir após a infecção, havendo
necessidade de uma contínua discussão sobre
aspectos relacionados à sexualidade entre estes
indivíduos(6, 7, 10).
É com esta preocupação que trazemos neste
estudo algumas reflexões sobre as práticas
sexuais de indivíduos portadores de HIV/Aids.
Este artigo é parte dos resultados da dissertação
de mestrado que trata do itinerário terapêutico de
indivíduos portadores de HIV/Aids(11), a qual
utilizou o referencial de Sistemas de Cuidados à
Saúde de Kleinman(12) para reflexão e análise dos
dados. Este referencial considera que os
indivíduos buscam desenvolver práticas de
cuidado à saúde ancoradas no saber familiar,
popular e profissional (este último relacionado à
biomedicina), sendo a cultura o pano de fundo
destas práticas. Partindo de algumas questões
que se destacaram no estudo citado, o artigo tem
o objetivo de discutir a feminização da epidemia
como resultado de uma vulnerabilidade social e
o seu reflexo nas práticas sexuais e na adoção do
uso do preservativo masculino, no âmbito de
relacionamentos
entre
soropositivos
e
sorodiscordantes, a partir dos depoimentos de
Maliska ICA, Souza MIC, Silva DMGV
mulheres soropositivas.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa descritivoqualitativa. O contexto em que ocorreu a coleta
de dados foi o serviço de assistência
especializada do programa DST/HIV/Aids de
um município da Grande Florianópolis - SC.
Este estudo contou com treze participantes, entre
os quais seis homens e sete mulheres maiores de
18 anos vinculados a este serviço ambulatorial,
que haviam descoberto o diagnóstico de HIV
pelo menos dois anos atrás e estavam fazendo
uso dos anti-retrovirais e aceitaram participar
deste estudo. O período de coleta de dados foi
entre outubro de 2004 e junho de 2005.
Neste artigo, analisaremos apenas os
depoimentos das sete mulheres que participaram
do estudo, a fim de retratar suas concepções em
relação ao uso do preservativo masculino
enquanto prática de cuidado, bem como o modo
como vem ocorrendo esta prática no âmbito de
seus relacionamentos.
As sete mulheres participantes do estudo são
moradoras do município em que este foi
realizado e têm entre 22 e 40 anos de idade, com
idade média de 33 anos. Quatro delas possuem
escolaridade em nível de 1º grau e três de 2º
grau. Quanto à atividade profissional
desenvolvida pelas participantes, citamos: agente
de serviços gerais, professora, recicladora de
papel, diarista, agente comunitária de saúde, do
lar e atendente, com uma renda média familiar
de dois salários-mínimos. Quanto à religião,
cinco se identificaram como católicas, uma
como evangélica e uma como kardecista.
Todas afirmaram ter contraído o vírus HIV
através de relações heterossexuais, com tempo
de contaminação oscilando entre dois e treze
anos e tempo médio de 6,1 anos de
contaminação. Das mulheres participantes, seis
mantinham relações heterossexuais estáveis e
uma encontrava-se separada, sendo que duas
mulheres contraíram o vírus HIV de seus
companheiros atuais e as demais de
relacionamentos
anteriores.
Das
(seis)
participantes que possuíam companheiros no
momento da entrevista, quatro eram de relações
sorodiscordantes e duas de relações com
companheiros soropositivos. Todas possuíam
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Práticas sexuais e o uso do preservativo entre mulheres com HIV/Aids
filhos, oscilando entre dois e cinco filhos, com a
média de 2,3 filhos para cada mulher. Apenas
um dos filhos era soropositivo para o HIV.
A aceitação das participantes foi efetivada
com a leitura e assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido a fim de
garantir a observação dos princípios éticos, de
acordo com a Resolução 196/96 do Conselho
Nacional de Saúde(13). Este estudo foi submetido
à avaliação e aprovado pelo Comitê de Ética e
Pesquisa com Seres Humanos da Universidade
Federal de Santa Catarina, através do Parecer
Consubstanciado Nº 127/2005. Para a
preservação da identidade destas mulheres,
utilizamos pseudônimos. As entrevistas foram
realizadas nas dependências do próprio
ambulatório, utilizando-se um roteiro de
entrevista semi-estruturado. As entrevistas foram
gravadas em fitas cassete, com a autorização das
participantes, e posteriormente transcritas e
submetidas ao processo de análise, utilizando-se
o método de análise de conteúdo de Bardin(14).
Esta análise permitiu a constituição de duas
categorias finais: A vulnerabilidade antes da
infecção do HIV e a vulnerabilidade após a
infecção do HIV, que passamos a detalhar a
seguir.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A vulnerabilidade antes da infecção do HIV
Ao nos remetermos à vulnerabilidade dos
indivíduos que culmina na contaminação do
HIV, considerando neste contexto o universo
feminino, observamos valores tradicionais
embutidos nos depoimentos das participantes do
estudo, como a concepção inicial de uma
proteção que estaria estabelecida nos
relacionamentos estáveis, como podemos
perceber neste depoimento:
O médico falou que nós temos há uns oito anos, a
época que eu descobri foi em dois mil, né, então
ele diz que eu já tinha há uns quatro anos. Daí
mesmo que eu não me conformei, porque se fosse
de solteiro, mas depois de casado né, porque eu
casei virgem, assim eu casei com dezessete anos,
só conheci ele [...] Aí eu penso assim: “ainda o
desgraçado não cuidou da mulher que ele tinha
dentro de casa, né, em vez de ter cuidado então,
de ter usado com as outras na rua né, pra me
prevenir né”(Cláudia – casal soropositivo).
473
Quando nos remetemos ao momento anterior
da infecção do HIV entre estas mulheres,
observamos que nos relacionamentos amorosos,
tanto em relação ao namoro quanto ao
casamento, a utilização do preservativo não é
citada, possivelmente por causa da crença de que
um relacionamento estável possa conferir
proteção. Implicitamente, observamos que a
concepção de grupos de risco definidos ainda no
início da epidemia permanece presente, trazendo
a idéia da invulnerabilidade, uma vez que todas
eram mulheres vivendo relacionamentos
estáveis, portanto estavam fora dos chamados
“grupos de risco”. Em um estudo que teve como
propósito compreender a representação social
que mulheres casadas em situação de pobreza
possuíam acerca da Aids, ficou evidenciado que
elas percebiam o casamento como uma barreira
contra a Aids e as infecções sexuais
transmissíveis. Ao considerarem a possibilidade
de haver relacionamentos extraconjugais, elas
demonstraram esperar que o marido usasse o
preservativo com estas parcerias, visando
proteger suas esposas. Este fato foi inclusive
tratado com certa naturalidade, visto que estes
comportamentos sexuais são considerados como
naturais ao universo masculino, demonstrando a
vulnerabilidade destas mulheres ao HIV(9).
Os parceiros sexuais irão agir conforme os
modelos e regras de conduta orientadas por
estereótipos da sexualidade de cada época e de
cada cultura. Neste contexto, na América Latina
temos como importante característica, uma
cultura sexual marcada pela “cultura do
machismo”, que implica em estabelecer relações
de poder entre homens e mulheres, contrastando
o domínio da masculinidade versus a submissão
da feminilidade. Vivendo sob o domínio de uma
cultura machista, estas mulheres se sujeitam aos
desejos de seus parceiros, assumindo uma
posição de submissão no relacionamento a dois e
esperando como “recompensa” a proteção de seu
parceiro, ainda que este possua relacionamentos
extraconjugais. É desta forma que, ao se
perceber soropositivo, o indivíduo - neste
contexto, a mulher - se vê surpreendido por uma
notícia muitas vezes não esperada, por relacionar
a Aids ao que é socialmente desclassificado ou
moralmente marcado, papel que os indivíduos
rejeitam para si e atribuem normalmente ao
outro(15-17).
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Maliska ICA, Souza MIC, Silva DMGV
A vulnerabilidade após a infecção do HIV
Após a contaminação, o uso do preservativo
passa a ser requisitado como uma prática de
cuidado pela equipe de saúde, seja para prevenir
a contaminação do parceiro ou a reinfecção com
cepas mais resistentes do vírus, no caso de
parceiro soropositivo, seja para prevenir outras
infecções sexualmente transmissíveis. Neste
estudo estamos discutindo especificamente o uso
do preservativo masculino, por ser o meio de
proteção disponibilizado em larga escala entre os
usuários deste serviço, ao qual todas as mulheres
e seus parceiros têm acesso e do qual relatam
possuir alguma experiência de uso. A seguir
observamos
depoimentos
que
apontam
dificuldades em se adotar o uso do preservativo,
tanto pela mulher quanto pelo próprio
companheiro. Nestes discursos a prática ou uso
do preservativo aparece de forma conflituosa,
confrontando o discurso biomédico com os
valores e crenças individuais, repercutindo em
uma posição de ambigüidade no contexto do
relacionamento conjugal:
Eu peço pra ele usar porque ele não é um marido
confiável, ele já andou com outras mulheres. Aí
ele diz “mas tu já és doente” e eu digo “eu não
sou doente querido, eu só tenho o vírus” de
repente tu podes pegar uma infecção, uma
gonorréia, qualquer coisa de uma lá fora e botar
em mim, aí pronto, aí complica todo o meu
quadro [...] Mas ele eu não sei, ele nunca foi em
médico, assim né, ele nunca conversou com
médico sobre essa coisa, então ele acha que isso aí
não tem nada a ver, que não pega. Que eu posso
passar pra ele, mas não ele passar pra mim nada.
Eu já convidei ele um monte de vezes pra vir
consultar comigo. Que eu queria que o doutor
explicasse tudo pra ele. Que é assim, não é só eu
que passo pra ele, mas ele pode passar pra mim.
Mas ele não vem (Adriana-soropositiva,
companheiro soronegativo).
Entre casais sorodiscordantes o uso do
preservativo em todas as relações sexuais é uma
condição necessária para evitar a transmissão
sexual do HIV, entretanto, pode-se perceber que
as concepções negativas e de resistência dos
homens ao uso do preservativo independem da
condição sorológica da parceria(10). Neste
contexto, observamos que a noção de risco, no
entendimento do companheiro, recai sobre a
mulher por ela ser soropositiva, o que faz com
que ele, mesmo se expondo a outras parcerias,
tenha a crença de que não transmitirá uma
infecção mais grave do que aquela que a parceira
já tem: o HIV. O fato de o companheiro ter se
submetido por duas vezes ao teste anti-HIV com
resultado negativo lhe confere uma sensação de
segurança de que não irá contrair a doença.
Segundo a literatura, o uso do preservativo acaba
não
sendo
valorizado
quando
casais
sorodiscordantes não usam preservativo por
longa data e quando fazem o teste e percebem
que não se infectaram, acreditando no mito que a
mulher não transmite o HIV para o homem(8).
Mesmo tratando-se de uma forma de cuidado
que envolve o companheiro, visando também à
proteção dele próprio, a mulher tem dificuldades
em realizar esta negociação, seja pela resistência
do companheiro em utilizar o preservativo, por
acreditar que não vai contrair a doença, seja até
mesmo como uma negação da presença do vírus,
como podemos observar a seguir:
Eu tenho vários cuidados, tanto comigo quanto
com a minha filha. O meu marido só que ele
assim, não posso falar muito dele, ele é consciente
que eu tenho o vírus, mas ele não quer usar
camisinha. Eu falo disso pra ele todo dia, eu quero
que ele faça o exame. Se um dia ele ficar doente a
família dele vai vim toda pra cima de mim. Mas
eu também não posso obrigar, trazer amarrado,
porque ele não quer vir. A família dele sabe, mas
assim, eles acreditam que nós usamos camisinha,
mas é mentira. E eu também não vou falar a
verdade. Mas eu morro de preocupação. Eu me
sinto bem, porque eu tomo o remédio e porque me
cuido. Só que a doutora fala que não é certo
deixar de usar camisinha. Mais eu fico pensando
de outro lado, que ele também pode ficar doente.
Pode ter alguma reação. Eu já tive os sintomas no
começo (Simone, companheiro soronegativo).
A negação do uso do preservativo pelo
companheiro, ao ser relatada por Simone,
aparece como algo irredutível. As práticas
sexuais tendem a ser percebidas como naturais
ou espontâneas. Esta concepção indica
dificuldades de mudar o comportamento de
forma
dissociada
das
experiências
compartilhadas. As percepções de risco e a
adoção de medidas preventivas não estão
limitadas ao acesso às informações e à decisão
individual, mas resultam de um processo
construído através da experiência social e da
visão de mundo destes sujeitos. O fato de uma
orientação ou prescrição invadir a privacidade do
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Práticas sexuais e o uso do preservativo entre mulheres com HIV/Aids
casal pode até mesmo levar a uma motivação
transgressora para não utilizar o preservativo. O
discurso de prevenção e a normalização do
comportamento chegam aos espaços mais
íntimos dos seres humanos, ditando normas e
orientando sobre como fazer sexo. No entanto,
entre quatro paredes, longe da dominação
biomédica, a transgressão destas normas torna-se
para muitos não só inevitável, mas também
desejável, como o resgate de uma autonomia e
da liberdade em escolher como viver sua própria
sexualidade. No domínio cultural de nossa
sociedade ocidental, acredita-se que tudo é
permitido se for feito por amor, sendo que a
transgressão da norma acaba sendo justificada
pelo desejo e pela impulsividade(17-18). Seja pela
transgressão seja pela negação da presença do
vírus, observamos no depoimento anterior a
dificuldade da mulher em negociar o uso do
preservativo, ainda que seja para a proteção do
próprio companheiro.
Outros depoimentos que seguem reforçam a
dificuldade de negociação do uso do
preservativo, levando algumas mulheres
participantes deste estudo a buscar outras
estratégias de “proteção”:
Na verdade a relação com meu marido anda meio
balançada, aí raramente temos relações, ele não
quer usar preservativo, por isso eu prefiro até não
fazer (Helena-casal soropositivo).
Na verdade ele se cuida menos do que eu. Ele
parece que não aceita muito o fato de ter que
transar com camisinha, então diminuíram muito as
relações, porque daí eu quero de um jeito, ele quer
de outro, eu penso em me cuidar, ele já é mais
relaxado. Eu tenho três filhos, Deus o livre em
pensar em ter outro! Só não fiz a laqueadura
porque não consegui, mas quero ver se consigo.
Então tem tudo isso (Carla, soropositiva, companheiro soronegativo).
A partir dos depoimentos, observamos que as
mulheres entrevistadas conhecem o discurso
sobre o uso do preservativo e manifestam seu
desejo de usá-lo, por motivos distintos. Quando
não há um consenso sobre o seu uso, algumas
das mulheres entrevistadas adotam estratégias
que não são verbalizadas, mas que acontecem na
prática cotidiana do casal, como a diminuição
das relações sexuais e o coito interrompido. Esta
parece ser uma forma que estas mulheres
encontram de não contrariar o parceiro e tentar
assegurar algum tipo de proteção na relação
475
sexual, para evitar a contaminação do parceiro,
uma gravidez indesejada, uma exposição a
outras doenças sexualmente transmissíveis ou
até mesmo a reinfecção pelo vírus HIV. Este fato
evidencia que, apesar de termos conquistado
importantes mudanças nos sistemas de
significados sexuais, especialmente entre as
classes média e alta, além das conquistas que o
movimento feminista tem alcançado nas últimas
décadas, entre as camadas menos favorecidas a
sexualidade ainda é submetida a modelos
tradicionais, em que o peso e o poder do
machismo continuam comandando as relações
sexuais. Desta forma, grande parte das mulheres
estão submetidas aos desejos dos seus parceiros,
não conseguindo colocar em prática atitudes de
proteção(5, 17).
A orientação quanto à utilização do
preservativo é algo que precisa ser amplamente
discutido nos serviços de saúde. Ao tratar deste
tema com os indivíduos, é preciso valorizar os
sentimentos, as dúvidas e as percepções sobre
este uso, e acima de tudo que esta discussão não
seja pautada por um tom normativo, mas que
sejam debatidas as possibilidades de realização
da sexualidade e discutida a vulnerabilidade das
mulheres perante seus parceiros, os quais devem
buscar junto com elas formas de resolução ou de
melhor manejo do tema(5).
A sorodiscordância se remete ao lugar que o
parceiro soronegativo não ocupa nos serviços de
saúde. Normalmente, o único espaço existente
nos serviços de saúde que inclui o casal é o prénatal. Além desta situação, os serviços não são
estruturados para atender outras necessidades
que envolvem o casal, como a vivência da
sexualidade frente ao HIV. Quando os dois são
soropositivos, tratam-se com infectologistas
diferentes ou até com o mesmo infectologista,
porém separadamente. Neste contexto, o
tratamento é dado ao indivíduo, não ao casal. Se
um dos parceiros é soronegativo, este acaba não
tendo espaço na estrutura dos serviços de saúde.
Os casais sorodiscordantes apresentam aspectos
peculiares, que justificam um trabalho
diferenciado que requer maior visibilidade por
parte dos profissionais de saúde(19). A
sorodiscordância é um tema pouco abordado e
discutido e merecedor de melhor compreensão,
em vista da gama de desafios impostos para tais
casais, no tocante à manutenção da vida afetivoCienc Cuid Saude 2007 Out/Dez; 6(4):471-478
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Maliska ICA, Souza MIC, Silva DMGV
sexual e ao enfrentamento da prevenção sexual
do HIV. Para a abordagem desses aspectos, é
fundamental a sensibilização e capacitação dos
profissionais de saúde envolvidos, propiciando
espaços diferenciados de atendimento, que
incluam também o parceiro soronegativo,
visando à assistência integral e mais humanizada
aos portadores do HIV/Aids e às pessoas do seu
convívio, como sua parceria sexual e família.
Como profissionais, compete-nos somar esforços
no sentido de potencializar a capacidade natural
dos diversos atores e setores da sociedade na
conquista dos seus direitos sociais e o exercício
pleno da cidadania, autonomia, e redução de sua
vulnerabilidade(10-20). Neste sentido, faz-se
necessário buscarmos estratégias para acolher
estes casais e trabalhar este tema tão delicado, a
fim de investir em estratégias que produzam
maior simetria entre homens e mulheres, à
medida que cada um assuma a responsabilidade
pelo seu corpo, negociando a proteção em seus
relacionamentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao nos remetermos à vulnerabilidade das
mulheres antes da infecção pelo vírus HIV e à
descoberta do diagnóstico, observamos que a
concepção dos “grupos de risco” é prevalente,
levando pessoas que se percebem fora destes grupos
a se considerarem invulneráveis ao vírus e deixarem
de adotar práticas preventivas. As mulheres
mostraram sua vulnerabilidade por acreditarem estar
protegidas pela relação estável, o que confirma que
as campanhas preventivas têm limitações, por não
considerarem a realidade social.
Após a infecção, no entanto, o preservativo é
requisitado para proteção contra uma
contaminação por cepas mais resistentes do
parceiro, no caso das relações sorodiscordantes,
como meio de se proteger de outras infecções
sexualmente transmissíveis ou como método
contraceptivo, para evitar uma gravidez
indesejada. Esta prática de cuidado é marcada
por conflitos, pois envolve duas pessoas que
necessitam estar de acordo e dispostas a utilizar
o preservativo. É desta forma que podemos
afirmar que, neste estudo, o preservativo surgiu
muito mais como prática de descuidado do que
propriamente de cuidado.
Foi possível perceber, entre as mulheres
participantes, a dificuldade de negociar este
recurso de cuidado com seus parceiros, mesmo se
tratando de relações entre sorodiscordantes. Este
fato reforça que as mulheres continuam reféns de
sua vulnerabilidade, indicando a necessidade de
instrumentalizá-las para tentar reverter esta
situação mesmo após a infecção, visto que o
discurso normativo e politicamente correto
provoca pouco ou nenhum efeito sobre o indivíduo
quando despojado do contexto sociocultural em
que estas práticas acontecem. É necessário,
enquanto profissionais de saúde, termos a
compreensão de que a escolha da prática do
preservativo é uma decisão do indivíduo e de seu
companheiro, mas nem sempre este indivíduo tem
capacidade de negociação.
Um recurso importante parece ser tentar
resgatar o companheiro na assistência em saúde,
buscando criar um espaço propício para esta
discussão. Ainda que a vulnerabilidade feminina
seja produto de um contexto histórico e
sociocultural, ancorado na cultura do machismo,
certamente temos que pensar estratégias de
enfrentamento seja no nível macro, com
políticas de saúde efetivas que visem de algum
modo a desconstruir esta concepção, com a
participação de vários setores da sociedade, seja
no nível do micro, que implica promover
discussões junto a homens e mulheres sobre
direitos sexuais, reprodutivos e práticas de
prevenção. O enfermeiro, como profissional que
assiste portadores do HIV/Aids, deve integrar
seu conhecimento num trabalho interdisciplinar
e assumir seu papel de educador, trazendo estas
discussões em diferentes momentos, tais como
no ato do aconselhamento, das consultas, em
grupos. É preciso desconstruir a posição de
vítima muitas vezes assumida pelas mulheres
por sua condição vulnerável, estimulando-as a
serem sujeitos de sua saúde, de seu corpo e de
sua sexualidade, independentemente de sua
condição de saúde e da fase que estejam
atravessando em sua vida.
SEXUAL PRACTICES AND THE USE OF CONDOM AMONG WOMEN WITH HIV/Aids
ABSTRACT
It is part of a descriptive-qualitative research that had as one of the objectives to discuss the incidence of women
Cienc Cuid Saude 2007 Out/Dez; 6(4):471-478
Práticas sexuais e o uso do preservativo entre mulheres com HIV/Aids
477
with Aids and its reflex in the care practices in relation to that disease, in what concerns the sexual practices in
the extent of relationships involving HIV-positives and HIV-negatives, using testimonies from HIV-positive women.
The data was collected in a Specialized Care Service of the STD/HIV/Aids Service in a county of the greater
Florianópolis city, Santa Catarina, Brazil. The participants were seven women, all over 18 years of age. The data
was collected through semi-structured interviews. After the content analysis, the following categories were
constituted: “Vulnerability before HIV infection” and “Vulnerability after HIV infection”. The results indicate that
women believe to be protected when they have a stable relationship. After the infection, condom is requested for
protection against HIV or other diseases sexually transmissible, and as a contraceptive method. One realizes the
difficulty in negotiating this care method with one’s partners, even in dealing with relationships among HIVnegatives, which evidences that women continue to be hostages of their own vulnerability, even after been
infected.
Keywords: Acquired Immunodeficiency Syndrome, communicable disease prevention; health vulnerability sexuality.
PRÁCTICAS SEXUALES Y EL USO DEL CONDÓN ENTRE MUJERES CON VIH/SIDA
RESUMEN
El presente artículo es parte de una investigación descriptiva cualitativa, a la cual tuvo como uno de sus
principales objetivos, discutir la feminización de la epidemia del SIDA y su reflejo en las prácticas de cuidado, en
lo que se refiere a las prácticas sexuales en el ámbito de las relaciones entre seropositivos y serodiscordantes, a
partir de las declaraciones de mujeres seropositivas. La recolección de los datos fue realizada en un Servicio de
Atención Especializado, del Programa ETS/VIH/SIDA de un municipio de la Gran Florianópolis/SC (Brasil). Siete
mujeres participaron del estudio, todas ellas mayores de 18 años. La recolección de los datos fue hecha a través
de entrevistas parcialmente estructuradas. Después de analizar el contenido, se establecieron las siguientes
categorías de análisis: La Vulnerabilidad antes de la infección por VIH y la Vulnerabilidad después de la infección
por VIH. Los resultados obtenidos indican que las mujeres creen estar protegidas al estar viviendo una relación
estable. Después de la infección, el preservativo es solicitado como un método de protección a la contaminación
por VIH, así como de otras enfermedades de transmisión sexual, o como un método anticoncepcional. En esta
investigación, se percibe la dificultad que tienen las mujeres de negociar este recurso de cuidado junto a sus
compañeros, mismo en relaciones entre serodiscordantes, demostrando con ello, que las mujeres continúan
rehenes de su vulnerabilidad aún después de la infección.
Palabras Clave:
Síndrome de Inmunodeficiencia Adquirida, prevención de enfermedades transmisibles, vulnerabilidad en
salud, sexualidad.
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TITULO DO ARTIGO ?????
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Endereço para correspondência: Isabel Cristina Alves Maliska. Rua:Trajano Margarida, 144 – apto203/ A. Trindade –
Florianópolis- SC. CEP: 88036-050:. E-mail: [email protected]
Recebido em: 20/11/2006
Aprovado em: 08/10/2007
Cienc Cuid Saude 2007 Out/Dez; 6(4):471-478
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