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História - Comvest

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História - Comvest
vestibular nacional
UNICAMP
2ª Fase
História
INTRODUÇÃO
Esta prova manteve o perfil e padrão das provas anteriores ao abordar temas consagrados da produção
historiográfica, trabalhar com fontes históricas, solicitar habilidades conceituais, tecer articulações
entre diferentes espaços e temporalidades, operar no campo da interdisciplinaridade, estabelecer
relações entre presente e passado e contemplar vasto leque de aspectos culturais, políticos e sociais.
No que se refere aos temas clássicos, a prova tratou, por exemplo, da cidade-estado na Grécia Antiga,
abordando problemas relativos à política, ao poder militar e às conexões entre economia e geografia.
Nesse mesmo sentido, a questão acerca do feudalismo também traz uma temática amplamente
tratada nos programas de ensino sobre a Idade Média, solicitando ainda a relação entre processos
históricos distintos. A prova explorou, em várias questões, a habilidade do candidato na leitura dos
enunciados das questões, como foi o caso da questão 23, a qual tratou de diferentes interpretações a
respeito do significado do trabalho em temporalidades também diversas. A capacidade de lidar com
tempos e espaços distintos, buscando articulá-los histórica e conceitualmente, foi também requerida
na questão que abordou o continente africano e suas relações com o colonialismo e o imperialismo.
No terreno conceitual, a questão 16, por exemplo, exigia a diferenciação entre liberalismo e socialdemocracia, conceitos políticos muito atuais. A interdisciplinaridade foi contemplada na questão sobre
meio ambiente, fazendo interface com a Biologia no item sobre o Protocolo de Kyoto. Este mesmo
objetivo de estabelecer articulação com outras áreas de conhecimento se expressou na questão
18, relacionando a literatura com a Guerra do Paraguai e a história da escravidão. A capacidade
de comparação aparece de forma bastante evidente na questão 22, voltada à história dos partidos
políticos no Brasil republicano, exigindo o estabelecimento do contraste entre a Primeira República e
a ditadura militar após 1964. De grande atualidade foi a questão sobre novas tecnologias (internet,
nanotecnologia e biotecnologia) e as implicações éticas de sua utilização.
13. A característica mais notável da Grécia antiga, a razão profunda de todas as suas grandezas e
de todas as suas fraquezas, é ter sido repartida numa infinidade de cidades que formavam um número correspondente de Estados. As condições geográficas da Grécia contribuíram fortemente para
dar-lhe sua feição histórica. Recortada pelo embate entre a montanha e o mar, há uma fragmentação
física e política das diferentes sociedades. (Adaptado de Gustave Glotz, A cidade grega. São Paulo: Difel, 1980, p. 1.)
a) Segundo o texto, qual a organização política mais relevante da Grécia antiga? Indique suas principais características.
b) Relacione a economia da Grécia antiga com as condições geográficas indicadas no texto.
Resposta Esperada
a) (3 pontos)
Segundo o texto, a organização política mais relevante da Grécia antiga era a cidade-estado (polis).
Caracterizava-se por ser uma unidade territorial e política autônoma, o que resultava na fragmentação
do poder político e militar da região.
b) (2 pontos)
O candidato deve estabelecer relação entre os elementos geográficos mencionados no texto (o mar e
a montanha) e a atividade econômica do mundo grego da Antigüidade. Cabe indicar a importância
do relevo montanhoso, de solo pouco fértil, para as práticas de pastoreio e plantação de oliveiras,
por exemplo. A atividade comercial, sobretudo marítima, era a mais importante da economia grega e
propiciava a expansão do mundo grego, com o estabelecimento de colônias, por exemplo.
Exemplo Acima da Média
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Esta questão abordou um tema clássico do ensino de história antiga, a cidade-estado grega. O
texto fornecido no enunciado era de fácil entendimento. Entretanto, na primeira parte da questão
pode-se notar uma certa dificuldade por parte daqueles candidatos que apenas repetiam a citação
do enunciado, mas não conseguiam, a partir dela, chegar ao conceito de cidade-estado ou polis.
Neste caso, o erro mais comum foi nomear a “cidade” como organização política mais relevante
da Grécia, o que não atendia a especificidade da questão. Houve ainda casos em que o candidato
ignorou completamente o enunciado, respondendo “democracia”, o que é uma informação bastante
difundida a respeito da cidade-estado grega, mas não atendia a nenhuma das solicitações da questão.
Neste sentido, esta primeira parte da questão avaliava principalmente a habilidade do candidato na
leitura e no entendimento do texto.
No segundo item, que trabalhava um tema menos comum no ensino de história antiga, o candidato
deveria demonstrar domínio de informações mais qualificadas, relacionando os elementos geográficos
mencionados no texto às atividades econômicas desenvolvidas na Grécia. Este item permitiu perceber
que aqueles candidatos que não sabiam a resposta tentavam deduzir o que pudesse estar relacionado
à montanha e ao mar. Neste caso, um erro comum foi associar o mar à pesca e a montanha à defesa
militar.
Prova comentada • Segunda Fase
História
O desempenho dos candidatos nesta questão refletiu o nível de dificuldade tradicionalmente
encontrado em questões de história antiga. Entretanto, apesar de ser muito baixa a freqüência de
notas 5, a média da questão não foi das mais inferiores, ficando em 2, o que revela haver, por parte
dos vestibulandos, um nível de conhecimento básico sobre o tema, servindo as notas 4 e 5 para
distinguir aqueles que realmente dispunham de um conhecimento diferenciado.
14.
No contexto das invasões bárbaras do século X, os bispos da província de Reims registraram:
“Só há cidades despovoadas, mosteiros em ruínas ou incendiados, campos reduzidos ao abandono.
Por toda parte, os homens são semelhantes aos peixes do mar que se devoram uns aos outros.”
Naquele tempo, as pessoas tinham a sensação de viver numa odiosa atmosfera de desordens e de
violência. O feudalismo medieval nasceu no seio de uma época conturbada. Em certa medida, nasceu
dessas mesmas perturbações. (Adaptado de Marc Bloch, A sociedade feudal. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 19.)
a) Estabeleça as relações entre as invasões bárbaras e o surgimento do feudalismo.
b) Identifique duas instituições romanas que contribuíram para a formação do feudalismo na Europa
medieval. Explique o significado de uma delas.
Resposta Esperada
a) (2 pontos)
Para estabelecer as relações entre as invasões bárbaras e o surgimento do feudalismo, o candidato
poderia partir das informações que lhe foram fornecidas pelo enunciado, e que relacionam o
surgimento do feudalismo à desordem e à violência da época, para chegar à explicação daquele
processo. Nesse sentido, poderia mencionar, por exemplo, o êxodo urbano e a ruralização da
sociedade, a descentralização e a fragmentação do poder político, o fortalecimento dos laços de
dependência pessoal ou a privatização da defesa militar como traços da sociedade feudal que se
relacionam com as invasões da Alta Idade Média.
b) (3 pontos)
Essa pergunta requer do candidato a percepção do feudalismo como um processo histórico, na
medida em que a questão enfatiza o que permanece do Império Romano na formação do sistema
feudal na Europa medieval. Dentre as instituições do período romano que contribuíram para a
formação do feudalismo, são exemplos: as vilas (grandes propriedades rurais auto-suficientes), o
colonato (sistema de trabalho que criava uma relação de dependência entre um trabalhador e um
senhor de terras), a Igreja (responsável pela preservação e transmissão de parte da cultura romana
aos novos reinos germânicos).
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Esta questão solicitava do candidato, por um lado, o estabelecimento de relações entre dois processos
históricos e, por outro, a identificação de um processo de longa duração entre dois períodos históricos
tradicionalmente apresentados separados. Este caráter transtemporal, exigindo do candidato um
raciocínio histórico, mais do que o domínio de informações, determinou o seu nível de dificuldade.
No primeiro item, as informações presentes no enunciado, relativas à desordem e à violência da época,
não constituíam uma resposta, mas permitiam ao candidato construir um raciocínio direcionado à
caracterização do surgimento do feudalismo como uma estratégia de proteção para as pessoas que
viviam em uma época conturbada. Nesse sentido, uma resposta comum, em sua formulação mais
simples, foi aquela em que o candidato mostrava ao menos perceber os dois lados da relação, quando
o senhor feudal oferecia proteção aos servos em troca do trabalho destes. O desenvolvimento deste
raciocínio, que passava pelo êxodo urbano, a descentralização do poder político e o fortalecimento
dos laços de dependência pessoal, estava presente nas respostas mais bem elaboradas, nas quais se
demonstrava a compreensão da idéia de processo.
Em seguida, no item b da questão, novamente cobrava-se do candidato a percepção de um processo
histórico, identificando na formação do feudalismo a permanência das instituições romanas. As
respostas a este item revelaram que a grande maioria dos vestibulandos tem memorizado o nome
de alguma instituição pertinente à questão, mas encontra dificuldade em explicar o seu sentido em
um processo histórico.
Prova comentada • Segunda Fase
História
15. A legitimidade dos reis lusitanos se confundia com o bem comum desde o século XIV, quando
vingou o princípio de que os reis não são proprietários de seus reinos, mas sim seus defensores, acrescentadores e administradores. O Novo Mundo parecia assistir à erosão do bem comum. A distância
que separava a América portuguesa da sede do reino tornou a colônia um lugar de desproteção. A
lonjura em relação ao “bafo do rei” facilitava a usurpação de direitos dos súditos pelas autoridades
consideradas venais e despóticas. (Adaptado de Luciano Figueiredo, “Narrativas das rebeliões: linguagem política e idéias radicais
na América portuguesa moderna”. Revista USP, 57. São Paulo: USP, mar-mai, 2003, p. 10-11.)
a) Segundo o texto, que mudança se observa no século XIV com relação à legitimidade do rei lusitano? Por que essa legitimidade esteve ameaçada na América portuguesa?
b) Na América portuguesa, houve várias revoltas de colonos. Cite uma delas e o que os revoltosos
defendiam?
Resposta Esperada
a) (2 pontos)
Para responder a esse item, o candidato deve recuperar os elementos da leitura do enunciado.
A primeira pergunta se refere à mudança ocorrida na percepção do papel do rei, que passa de
proprietário a administrador do reino; na segunda pergunta, a ameaça à legitimidade do rei relacionase à distância entre a sede do reino e a América portuguesa e ao sentimento de desproteção dos
súditos diante de autoridades que não representavam a defesa do bem comum.
b) (3 pontos)
Nesse item o candidato deveria nomear uma revolta de colonos ocorrida na América Portuguesa
e mencionar suas motivações, podendo citar, por exemplo, a revolta de Beckman, a guerra dos
Emboabas, a Guerra dos Mascates, a Inconfidência Mineira ou a Conjuração Baiana.
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Para responder a esta questão, o candidato deveria, primeiramente, demonstrar sua habilidade na
leitura do enunciado proposto, o que foi, no entanto, a maior dificuldade encontrada. Verificouse, principalmente, a dificuldade em perceber que o enunciado operava com duas temporalidades
distintas, referindo-se, num primeiro momento, ao reino português no século XIV e, em seguida, à
América Portuguesa, já em outro momento histórico. Houve, inclusive, respostas que pretendiam
corrigir o enunciado, supondo se tratar na verdade do século XVI, já que não havia América
Portuguesa no século XIV. Nesses casos, os candidatos foram prejudicados também por ignorarem
que, tradicionalmente, o vestibular da Unicamp não usa “pegadinhas”. Erros mais comuns que isso,
porém, foram os anacronismos, como a localização do absolutismo no século XIV, os quais revelam a
dificuldade dos candidatos em trabalhar a dimensão temporal do conteúdo apreendido.
A segunda parte da questão passava da leitura e do entendimento do texto ao trabalho com a
informação. Entretanto, em vez de pedir ao candidato as informações sobre um fato específico,
esperava-se que ele mobilizasse, a partir do conjunto de conhecimentos adquiridos em sua vida escolar,
aquelas informações pertinentes a um tema – as revoltas de colonos – nomeando e caracterizando
uma delas. Nesse caso, foi possível observar, por um lado, que os nomes aprendidos muitas vezes
não têm significado para os alunos, que não conseguem distinguir as características e motivações de
vários eventos citados; por outro lado, notou-se, mais uma vez, a confusão temporal, por parte dos
vestibulandos, entre as revoltas de colonos ou as do período regencial.
16. Todos os legisladores do século XVIII concordavam que o Estado britânico existia para preservar
a propriedade e, incidentalmente, as vidas e liberdades dos proprietários. (Adaptado de E.P. Thompson, Senhores
e Caçadores: a origem da lei negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p. 21.)
a) A partir da afirmação de E. P. Thompson, caracterize o pensamento político presente no Estado
britânico do século XVIII.
b) Identifique duas características dos Estados europeus do pós-segunda guerra mundial que os
diferenciava do Estado britânico, descrito por E.P. Thompson.
Resposta Esperada
a) (3 pontos)
O candidato deve perceber que o pensamento político presente no Estado britânico no século XVIII é
o liberalismo, indicando suas características principais.
b) (2 pontos)
O candidato precisa explicar que, após a Segunda Guerra, o Estado deveria controlar a economia,
direcionando-a para a reconstrução dos países destruídos pela guerra. Outro aspecto que o candidato
poderia mencionar é a implantação do chamado Estado de Bem Estar Social.
Prova comentada • Segunda Fase
História
Exemplo Acima da Média
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Esta questão requeria do candidato o exercício de diferentes habilidades, avaliando desde a sua
capacidade para a leitura, compreensão e contextualização histórica, até a extrapolação do enunciado,
através da comparação entre diferentes períodos, e a relação com seu conhecimento do mundo
contemporâneo, uma vez que o núcleo da resposta se encontrava na diferenciação entre liberalismo
e social-democracia, dois conceitos políticos da maior atualidade.
Dessa maneira, não se exigia apenas o domínio de conteúdos programáticos do ensino médio, mas o
estabelecimento de uma relação entre eles, a comparação e a identificação de diferenças. Este grau
de complexidade refletiu-se no desempenho dos candidatos, fazendo desta questão a mais difícil da
prova e revelando uma dificuldade generalizada entre os candidatos.
Prova comentada • Segunda Fase
História
Na primeira parte da questão, verificou-se que, apesar de o enunciado ser relativamente simples,
os candidatos tiveram dificuldade em abstrair, a partir das informações fornecidas, o conceito de
liberalismo. Neste caso, ocorreram respostas que fugiam totalmente à expectativa da questão,
como “absolutismo”, “feudalismo”, ou “intervenção do Estado na economia”. Por conseqüência,
a segunda parte da questão viu-se também comprometida por essa dificuldade de conceituação,
levando a respostas que invertiam o raciocínio proposto, identificando, em vez do Estado de bemestar social, o “liberalismo”, “neoliberalismo” ou a “não-intervenção do Estado na economia”. Essa
confusão foi responsável pelo alto índice de notas zero e pela média baixa (nota 1,0) dessa questão.
17. O texto abaixo se refere à guerra entre a Inglaterra e a França no contexto da Revolução Francesa no final do século XVIII:
A cada navio que os canhões inimigos punham fora de combate, os governos da Inglaterra e
da França procuravam desesperadamente mais dois mil carvalhos que pudessem substituí-lo.
Para abastecer a marinha francesa, desmataram-se cadeias montanhosas inteiras, que nunca
foram reflorestadas. Ao mesmo tempo, seus concorrentes ingleses transportavam madeira
das florestas canadenses. (Adaptado de Simon Schama, Paisagem e Memória. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p.
188.)
a) Por que a Revolução Francesa levou a uma guerra entre a França e outros países europeus?
b) Que relação o texto estabelece entre essa guerra e o desmatamento das florestas do hemisfério
norte?
c) Como a questão ambiental foi tratada no protocolo de Kyoto, que entrou em vigor em 2005?
Resposta Esperada
a) (2 pontos)
A pergunta solicita as motivações da guerra entre França e Inglaterra em fins do século XVIII. O
candidato poderia abordar a questão da expansão dos princípios políticos da Revolução Francesa e a
reação a favor da manutenção das monarquias de Antigo Regime na Europa.
b) (1 ponto)
O candidato deve mostrar sua capacidade de leitura e compreensão do enunciado, esclarecendo que
tal guerra consumiu madeiras e florestas em larga escala para a construção naval militar.
c) (2 pontos)
Essa pergunta traz o problema ambiental para a atualidade e centra-se no Protocolo de Kyoto, que
tenta, justamente, instituir um programa de cooperação internacional, já assinado por vários países.
Esse programa visa a proteger o meio ambiente com metas para a emissão de gases poluentes
e contempla a diferenciação entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quanto à sua
participação na emissão de poluentes.
Prova comentada • Segunda Fase
História
Exemplo Acima da Média
Exemplo Abaixo da Média
Prova comentada • Segunda Fase
10
História
Comentários
A questão lida com diferentes temporalidades. De um lado, trata de um assunto clássico, a Revolução
Francesa e seus desdobramentos internacionais no final do século XVIII. De outro, relaciona este
tema com problemas atinentes ao meio ambiente no século XIX e na atualidade, sem perder de vista
também sua dimensão internacional. A questão foi elaborada ainda com o propósito deliberado
de estabelecer um corte interdisciplinar, nomeadamente com a Biologia. O candidato foi chamado,
então, a responder perguntas do campo da história política e militar, ao mesmo tempo em que
precisava demonstrar conhecimento de assuntos atuais que não fazem parte propriamente do
conteúdo consagrado de História.
Esta preocupação em estabelecer articulação entre diferentes áreas de investigação revelou-se
bastante positiva na medida em que se coloca em sintonia com os recentes desafios transdisciplinares
que indicam a necessidade de um diálogo crescente entre distintos temas e conteúdos programáticos
do Ensino Médio. Não por acaso, o item sobre o Protocolo de Kyoto foi o mais bem pontuado pelos
candidatos, com baixíssimo índice de respostas em branco.
De um modo geral, a questão teve um índice relativamente alto de acertos, sendo uma das que
mais apresentou notas 4 e 5, aproximando-se bastante dos resultados obtidos na questão 24, a qual
também lidava com temas atuais e que extrapolavam os conteúdos da área de História. Entretanto,
não foram poucos os candidatos que, ao responderem o item b, deixaram de atentar para o fato
de que bastava a leitura atenta do enunciado, podendo até mesmo reproduzi-lo parcialmente.
Assim, muitos escreveram, por exemplo, que os desmatamentos estavam relacionados ao consumo
industrial de matéria-prima no contexto da Revolução Industrial. Em número mais reduzido, mas
não inteiramente desprezível, algumas provas incorreram em anacronismos quando os candidatos
relacionaram o Protocolo de Kyoto com o problema do desmatamento presente no item b.
18. Em 1910, o crítico literário Sílvio Romero escreveu sobre a década de 1870. Em sua perspectiva,
alguns acontecimentos teriam feito surgir uma nova geração de intelectuais brasileiros engajados
no que ele considerava como pensamento moderno. Para o autor, a Guerra do Paraguai mostrara
os defeitos de nossa “organização militar e o acanhado de nossos progressos sociais, desvendando
repugnantemente a chaga da escravidão”. (Adaptado de Ronaldo Vainfas (dir.), Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2002, p. 309.)
a) Cite uma característica da geração de intelectuais de 1870.
b) Explique de que maneira a Guerra do Paraguai “desvendava a chaga da escravidão”.
c) Indique duas formas de engajamento dos intelectuais abolicionistas.
Resposta Esperada
a) (1 ponto)
Essa pergunta entrecruza estudos literários e históricos, pois menciona a atuação da geração de
intelectuais de 1870 no Brasil, pautada pelo conhecimento do darwinismo, pela opção pelo realismo
e naturalismo e pela participação em uma série de discussões políticas, entre as quais estão o tema
da República e o da Abolição da Escravidão.
b) (2 pontos)
O candidato deveria perceber que a Guerra do Paraguai “desvendava a chaga da escravidão” na
medida em que evidenciava a presença de negros (ex-escravos) no exército, podendo apontar as
repercussões desse fato na campanha abolicionista.
c) (2 pontos)
Essa geração dedicou-se à campanha abolicionista de diversas formas. Por exemplo: com escritos em
jornais, com romances que relatam as mazelas da escravidão, com piqueniques e récitas teatrais para
angariar fundos destinados à compra de alforrias e a auxiliar quilombos, pela atuação parlamentar.
Prova comentada • Segunda Fase
11
História
Exemplo Acima da Média
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
A questão também estabelece interface com o conteúdo de outra área de conhecimento, a
Literatura, relacionando-a com a política, a Guerra do Paraguai e a escravidão no final do Império. Do
candidato esperava-se conhecimento específico sobre o tema, o que se evidencia no item a, no qual
a resposta exigia algum domínio conceitual no campo da Literatura (realismo e naturalismo), embora
pudesse responder com base em repertório da própria História, bastando apontar, por exemplo, o
cientificismo e o abolicionismo como características da ação e do pensamento de intelectuais da
chamada “Geração de 1870”. As respostas mais freqüentes foram aquelas que apontaram mais
conhecimento de História do que de Literatura, haja vista a maior incidência de provas com respostas
sobre abolicionismo e republicanismo.
A questão demandava ainda a capacidade do candidato de estabelecer relações sobre temas e
acontecimentos que se articulam em um mesmo processo e contexto históricos, tal como aparece
na pergunta acerca do impacto da Guerra do Paraguai no problema da escravidão. Como era de
Prova comentada • Segunda Fase
12
História
se esperar, este item b revelou-se bastante difícil para os candidatos. A maioria das provas obteve
apenas um ponto, sobretudo quando as respostas afirmavam que os escravos participaram da Guerra
a fim de se tornarem libertos.
Houve também pouca pontuação máxima no item c. Cabe esclarecer neste caso que, de fato, o
texto da questão não fornecia uma resposta que pudesse ser elaborada a partir da interpretação ou
leitura atenta do enunciado. Entretanto, o leitor poderia perceber que a pergunta presente no item
c ajudava na resposta do item a, pois, ao mencionar que os intelectuais eram abolicionistas, revelava
uma característica da Geração de 1870, ou seja, o engajamento político.
Podemos concluir que, por um lado, esta questão apresentou visível dificuldade para os estudantes,
com alta incidência de notas zero e um. Por outro, permitiu distinguir aqueles que demonstraram
domínio do conteúdo, representando 10% dos candidatos que alcançaram notas 4 e 5.
19.
Em carta de junho de 1889, o imigrante italiano Francesco Costantin comentou sua viagem
de navio de Gênova para o Brasil: “Não encontro palavras para descrever por inteiro o desconforto
do vapor. Sendo todos imigrantes gratuitos, nos tratavam pior do que porcos”. (Adaptado de Emilio Franzina,
Merica! Merica! Emigrazione e colonizzazione nelle lettere dei contadini veneti e friulani in America Latina, 1876-1902. Verona: Cierre Edizioni,
1994, p. 171.)
a) Explique o significado da expressão “imigrantes gratuitos” e o que motivou essa modalidade de
imigração.
b) No contexto da grande imigração, o que queria dizer “fazer a América”?
c) De que país veio o maior número de imigrantes para o Estado de São Paulo entre o final do século
XIX e o começo do século XX?
Resposta Esperada
a) (3 pontos)
Essa pergunta solicita o significado da expressão “imigrantes gratuitos”. O candidato deve explicar
que esses imigrantes vieram para o Brasil para trabalhar na lavoura, no contexto da substituição
do trabalho escravo pelo livre, com as passagens subsidiadas pelo governo paulista, por meio
da Sociedade Promotora da Imigração, entidade criada em 1886 e administrada pelos próprios
fazendeiros. A principal motivação para essa política era suprir a lavoura de mão-de-obra.
b) (1 ponto)
“Fazer a América” expressava o desejo desses imigrantes de obter recursos e prosperar.
c) (1 ponto)
A questão solicita a identificação do país de origem da maior parte dos imigrantes que se dirigiram
a São Paulo: a Itália.
Prova comentada • Segunda Fase
13
História
Exemplo Acima da Média
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
A questão aborda o tema clássico da imigração para o estado de São Paulo entre o final do século XIX
e início do XX. O candidato deveria mobilizar seu repertório de informações sobre o assunto e operar
com determinadas definições e expressões, tais como “imigração subsidiada” e “fazer a América”.
Apesar de tratar-se de um assunto consagrado do ensino sobre a História do Brasil na passagem do
período imperial para o republicano, pouquíssimos candidatos alcançaram a pontuação máxima. A
grande maioria nada sabia sobre a imigração subsidiada pelo governo paulista ou a confundia com
outras estratégias destinadas à atração de trabalhadores imigrantes para as lavouras do estado. Os
equívocos mais comuns eram os que associavam a expressão “imigrantes gratuitos” com imigração
Prova comentada • Segunda Fase
14
História
“por conta própria” ou financiada pelos próprios fazendeiros. Foi freqüente ainda a associação
daquela modalidade de política imigrantista com os fatores mais gerais da imigração, como as crises
econômicas e o desemprego crônico nos países de origem dos trabalhadores imigrantes. Assim,
foram relativamente poucos os que consideraram os aspectos específicos que envolviam a destinação
de recursos públicos para trazer ao país mão-de-obra estrangeira com o objetivo de substituir a
imigração financiada com recursos privados.
Foi supreendente a quantidade relativamente elevada de candidatos que desconheciam completamente
a expressão “Fazer a América”, associando-a, por exemplo, a campanhas de branqueamento da
sociedade, políticas de povoamento e desejo dos imigrantes de construírem material e culturalmente
uma “nova Nação”, sem que fossem mencionados os anseios pessoais de ascensão social.
Já o item c contou com elevada pontuação e, por isso, foi responsável pelo baixo índice de provas
com nota zero, “compensando” as poucas provas com notas 4 e 5.
20. O pan-africanismo, surgido no final do século XIX, foi fundamental para a tomada de consci-
ência das elites culturais africanas em relação às questões econômicas, sociais, políticas e culturais do
continente. A idéia de nação continental, que surgiu como sinônimo de solidariedade da raça negra,
apresentava ao mundo o que significa ser africano, incluindo dois legados: o resgate da África pelos
africanos e a idéia de pátria comum de todos os negros em solo africano, com supostos valores comuns para se pensar estruturas políticas autônomas. (Adaptado de Leila Leite Hernandez, A África na sala de aula: visita à
História Contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005, p. 157.)
a) Por que a recriação de valores comuns foi útil ao pan-africanismo?
b) A ocupação do continente africano pelos europeus se relaciona a dois processos históricos:
o colonialismo do século XVI e o imperialismo do século XIX. Cite duas características de cada um
desses processos que os diferenciem.
Resposta Esperada
a) (2 pontos)
A questão refere-se ao pan-africanismo como resposta à Conferência de Berlim, que realizou a
partilha do continente africano pelas nações européias, no século XIX. Esse item aborda os supostos
valores comuns utilizados pelo pan-africanismo, como os sugeridos pelo enunciado: a idéia de nação
continental e de pátria comum; a unidade entre os diferentes povos, superando as diferenças e
reivindicando a autonomia para os africanos.
b) (3 pontos)
O candidato deve caracterizar dois processos distintos: o colonialismo do século XVI e o imperialismo
do século XIX. Quanto ao primeiro poderia falar, entre outros aspectos, da liderança espanhola e
portuguesa, da escravidão e do estabelecimento das rotas comerciais em direção ao Oriente e da
fundação de colônias na costa africana. Quanto ao imperialismo do século XIX, deveria tratar da
liderança de britânicos e franceses, do discurso da superioridade européia e da busca de novas áreas
de exploração de matérias-primas e de mercados consumidores.
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
15
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Esta questão aborda o continente africano em suas relações com o colonialismo e o imperialismo
entre os século XVI e XX, exigindo conhecimentos de História Moderna e Contemporânea. A prova
operava novamente com diferentes temporalidades, mas requeria também habilidades adicionais
e mais complexas, como construir relações de ordem comparativa entre dois longos processos
históricos. A questão também verificava a capacidade de leitura e interpretação de texto, conforme
solicitava a pergunta sobre o pan-africanismo. Cabe ressaltar que a prova de História remete mais
uma vez à recente inserção dos estudos sobre a África no ensino brasileiro.
A primeira parte do item a recebeu respostas coerentes e bastante satisfatórias, apontando para a
questão da união entre os africanos, mas apenas uma pequena parcela relacionou-a com os problemas
relativos à soberania e autonomia dos diferentes estados do continente africano. A dificuldade em se
atingir a pontuação máxima, no entanto, deve-se justamente às habilidades mais complexas exigidas
no item b. Houve vários anacronismos na comparação entre colonialismo e imperialismo, além de
respostas muito evasivas e insuficientes, mas a questão, de um modo geral, discriminou aqueles
candidatos que demonstraram relativo domínio do tema em relação à maioria que oscilou entre as
notas zero e dois.
21. A roupa de Eva Perón foi um negócio de Estado para um regime que descobriu as formas
modernas da propaganda política. As publicações ilustradas do regime levaram adiante uma política
altamente visual, em que dezenas de fotografias diárias difundiam as imagens dos líderes. A escolha
dos vestidos de Eva não foi uma tarefa banal. Eva foi amada por sua obra e pela maneira como se
apresentava publicamente. (Adaptado de Beatriz Sarlo, A paixão e a exceção: Borges, Eva Perón, Montoneros. São Paulo: Companhia
das Letras; Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005, p. 78-79.)
a) Quais os significados da escolha dos vestidos de Eva Perón?
b) Caracterize o peronismo.
c) Qual a ação política de Eva Perón durante o governo de Juan Domingo Perón (1946-1955)?
Prova comentada • Segunda Fase
16
História
Resposta Esperada
a) (2 pontos)
O candidato deveria explorar as informações oferecidas pelo texto, como as estratégias da
propaganda política e a aproximação dos líderes do regime peronista com seus liderados, num
regime de massas.
b) (2 pontos)
Essa questão solicita características do peronismo, sendo fundamental sua localização espacial
(Argentina) e temporal (durante o governo de Perón), além da referência a práticas políticas marcadas
pela relação entre governo e movimentos de trabalhadores, que, por sua vez, obtiveram direitos
trabalhistas e, ao mesmo tempo, o controle de seus movimentos e associações, regulamentados
pelo Estado argentino. Entre outras características, o candidato poderia abordar a perseguição aos
setores oposicionistas, a repressão e o autoritarismo do período e as práticas populistas adotadas
pelo peronismo, além da redefinição do papel do Estado na economia argentina do período.
c) (1 ponto)
Este item enfoca o papel de Eva Perón, como primeira-dama e personagem central no peronismo,
por suas práticas consideradas assistencialistas e sua liderança carismática ao lado de Juan Domingo
Perón.
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
17
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
A questão trata de um dos períodos mais importantes da história Argentina do século XX, o regime
peronista e suas estratégias para conseguir o apoio popular. Para que o candidato alcançasse a
pontuação máxima nesta questão, era preciso que relacionasse, portanto, a propaganda política
voltada para as massas, com o esforço do governo argentino de tornar visível o regime peronista
por meio da divulgação da imagem de sua primeira dama, aproximando, assim, os governados de
seus líderes. Na maioria das vezes, contudo, as respostas (item a) limitaram-se a mencionar que a
escolha dos vestidos de Eva Peron era uma estratégia de propaganda política, tal qual aparecia no
enunciado.
Da mesma forma, foram consideradas fundamentais para a obtenção da nota máxima as informações
corretas quanto à localização espacial (Argentina) e temporal (durante o governo de Domingo Perón)
nas respostas.
A maior dificuldade da questão parece ter se dado no item c. Notou-se uma tendência a reproduzir
parte do enunciado como resposta, reiterando a idéia da propaganda política, sem que fosse
fornecida a informação desejada sobre o papel político de Eva Peron como primeira dama. Outro
equívoco bastante comum foi a referência a Eva Peron como inimiga do governo peronista, alguém
que denunciou a corrupção e as ilegalidades do regime para obter apoio popular e se eleger à
presidência da Argentina.
A questão apresentou, de forma geral, um alto grau de dificuldade para os candidatos, obtendo
o maior índice de notas zero da prova de história e grande concentração de notas um e dois.
Podemos concluir que esta foi uma questão que de fato discriminou os candidatos que possuíam
conhecimentos específicos sobre o processo histórico abordado na questão em relação aos que,
apesar de capazes de interpretar o enunciado, não ofereceram as informações específicas pedidas
sobre o período abordado.
22. No Brasil, os partidos foram, na República Velha, partidos republicanos regionais. Após 1945,
os partidos buscaram, sem grande sucesso, tornar-se nacionais, como ocorreu na década de 1930
com a Ação Integralista Brasileira, o primeiro partido nacional de massa. O processo de nacionalização dos partidos ocorre em pleno regime militar, com a polarização partidária. (Adaptado de Hélgio Trindade,
“Brasil em Perspectiva: conservadorismo liberal e democracia bloqueada”, em Carlos Guilherme Mota (org.), Viagem incompleta: a experiência
Brasileira (1500-2000): a grande transação. São Paulo: Ed. SENAC SP, 2000, p. 375.)
a) Segundo o texto, qual a diferença fundamental entre os partidos políticos da República Velha e os
do regime militar (1964-1985)?
b) Quais as características políticas da Ação Integralista Brasileira (AIB)?
c) Qual a importância do bipartidarismo (ARENA e MDB) para o regime militar?
Prova comentada • Segunda Fase
18
História
Resposta Esperada
a) (1 ponto)
Essa questão requer capacidade de interpretação a partir da leitura atenta do texto, cabendo ao
candidato comparar e contrastar diferentes períodos históricos. Assim, espera-se que responda
que os partidos políticos eram regionais durante a República Velha, enquanto tinham abrangência
nacional no regime militar.
b) (2 pontos)
O candidato precisa mobilizar informações no campo da história política brasileira, nomeadamente
sobre uma instituição autoritária e de inspiração fascista, que teve grande projeção nos anos 1930.
A questão permite que o candidato apresente respostas sobre as características institucionais da AIB,
como a militarização e o respeito à hierarquia, seus pressupostos ideológicos (defesa da nacionalidade,
anticomunismo, corporativismo etc.), os símbolos e a propaganda desse agrupamento político, tais
como o sigma e o grito de Anauê, entre outros aspectos.
c) (2 pontos)
Ainda no campo da história política brasileira recente, a questão requer que o candidato opere com
seu aporte de informações sobre o bipartidarismo durante o Regime Militar. Cabe ao candidato
mostrar que o bipartidarismo era uma estratégia para controlar a oposição, reduzir o leque de opções
partidárias e dar à ditadura uma aparência de democracia. O candidato podia contemplar esses
aspectos ao mostrar que havia a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), um partido que apoiava
o governo militar, e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que agregava os que exerciam
uma oposição, embora fosse uma oposição aceitável, consentida e, portanto, mais facilmente
controlada.
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
19
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Esta questão remetia à história política e aos diferentes processos que conformaram a elaboração de
partidos políticos no Brasil. A resposta do item a requeria do candidato capacidade de interpretação
do texto do enunciado, bem como que fizesse um exercício de comparar e contrastar diferentes
períodos históricos. A resposta correta estava discutida no próprio enunciado da questão, que
comentava o fato de os partidos políticos serem regionais durante a República Velha, enquanto
tinham abrangência nacional no regime militar. A maioria das respostas mostrou que os candidatos
leram atentamente o enunciado e não tiveram problemas em elaborar de forma correta a comparação
temporal entre os partidos políticos.
A questão exigia também conhecimentos específicos sobre a organização de inspiração fascista
denominada Ação Integralista Brasileira, que teve grande projeção nos anos 1930. Permitia respostas
tanto sobre as características institucionais da AIB, como a militarização e o respeito à hierarquia,
quanto aos seus pressupostos ideológicos, como a defesa da nacionalidade e o anticomunismo. As
informações sobre os símbolos e estratégias de propaganda política desse agrupamento político,
tais como o sigma e o grito de Anauê, também eram respostas válidas, embora tenham aparecido
raramente.
Os candidatos apresentaram dificuldades com conceitos como comunismo e fascismo, bem como
em relação ao entendimento das diferentes temporalidades no processo político que envolveu a
República Velha e a Ditadura Militar. Os erros mais comuns observados nas respostas deste item
giraram em torno de tratar a “Ação Integralista” como um plano político do governo Vargas. Muitos
afirmaram ainda que a AIB era um movimento “de esquerda”, “comunista”, associado a Carlos
Prestes. Esse foi o item b que apresentou o maior grau de dificuldade da questão, o que resultou na
baixa incidência de notas 5 em relação ao equilíbrio observado entre as notas 1, 2, 3 e 4.
A questão também cobrava conhecimentos sobre a história política brasileira recente e pedia uma
reflexão acerca da importância do bipartidarismo durante o Regime Militar. O candidato precisava
mostrar que o bipartidarismo era uma estratégia do governo militar para controlar a oposição e
reduzir o leque de opções partidárias, ao mesmo tempo em que dava à ditadura uma aparência
de democracia. Muitas respostas contemplaram esses aspectos ao mostrarem que havia a ARENA
(Aliança Renovadora Nacional), um partido que apoiava o governo militar, e o MDB (Movimento
Democrático Brasileiro), que agregava os que exerciam uma oposição, embora fosse uma oposição
aceitável, consentida e, portanto, mais facilmente controlada. Não foram poucas as respostas,
no entanto, que apontaram a tendência de tomar o bipartidarismo como o começo da abertura
democrática do regime militar que, ao permitir a oposição, teria entrado em franca decadência.
Prova comentada • Segunda Fase
20
História
23. Um dos mandamentos do século XIX, na Europa, era o evangelho do trabalho. Para os ideó-
logos da classe média, o ideal do trabalho implicava autodisciplina e sentido atento do dever. Até
mesmo os mais devotos ousavam modificar a palavra de Deus. As Escrituras haviam considerado o
trabalho como castigo severo imposto por Deus a Adão e Eva. Mas para os ideólogos burgueses,
o trabalho era prevenção contra o pecado mortal da preguiça. O evangelho do trabalho era quase
exclusivamente um ideal burguês. Em geral, os nobres não lhe davam valor. O desprezo aristocrático
pelo trabalho era um resquício feudal. (Adaptado de Peter Gay, O século de Schnitzler. São Paulo: Companhia das Letras, 2002,
p. 210-1, 214 e 217-8.)
a) Segundo o texto, como o trabalho era visto pela Bíblia, pela burguesia e pela aristocracia?
b) Como a burguesia buscou disciplinar os trabalhadores no contexto da Revolução Industrial?
Resposta Esperada
a) (3 pontos)
Essa questão requer capacidade de interpretação do texto, devendo o candidato apontar os
diferentes significados do trabalho para a Bíblia, a burguesia e a aristocracia, respectivamente. Assim,
na Bíblia, trabalho era sinônimo de castigo e sacrifício em razão dos pecados. Para a burguesia e
seus ideólogos, o trabalho era uma atividade positiva, que purificava a alma e distanciava homens
e mulheres do pecado da preguiça. A aristocracia nutria profundo desprezo pelo trabalho, visto
como atividade destinada exclusivamente às chamadas “ordens não privilegiadas” da sociedade
(burgueses, camponeses, artesãos etc.).
b) (2 pontos)
Espera-se que o candidato reconheça no trabalho fabril um dos principais mecanismos de
disciplinarização do trabalhador no contexto da Revolução Industrial. A disciplina podia ser obtida,
por exemplo, por meio de multas, horários fixos e a vigilância dos contramestres. O candidato
também pode se referir à ética protestante do trabalho.
Exemplo Acima da Média
Prova comentada • Segunda Fase
21
História
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
Essa questão aborda um dos temas clássicos do ensino de história, a Revolução Industrial e o trabalho
nas fábricas e procurou medir, principalmente, a capacidade de leitura e entendimento de texto dos
candidatos. Dividida em 2 itens, a resposta do primeiro estava dada no enunciado, bastando que o
candidato o lesse atentamente para perceber os diferentes significados do trabalho para a Bíblia, a
burguesia e a aristocracia.
O item b, contudo, exigia do candidato conhecimentos específicos sobre o período e capacidade
de reconhecer no trabalho fabril um dos principais mecanismos de disciplinarização do trabalhador
no contexto da Revolução Industrial. Para obter os dois pontos da questão era preciso citar pelo
menos duas formas de se obter a disciplina fabril, por exemplo, por meio de multas, horários fixos e
vigilância dos contramestres. Algumas respostas também se referiram às questões religiosas como a
ética protestante do trabalho, a influência do calvinismo e da reforma.
Dadas as características das questões formuladas nos dois itens, o resultado foi uma avalanche de
notas 3, uma vez que houve grande acerto nas respostas do item a, enquanto que no item b verificouse uma dificuldade por parte dos candidatos de entender a idéia de disciplina. Na maioria das vezes
a disciplinarização foi confundida com a descrição das péssimas condições de trabalho dentro das
fábricas - o que acarretou uma pequena margem de acerto no item e, consequentemente, um índice
pouco expressivo de notas 4 e 5, assim como de notas 1 e 2.
24. Os anos 90 constituem a década em que o impacto das chamadas novas tecnologias sobre o
trabalho, a vida e a cultura se fez sentir de modo incontornável. Com a disseminação dos computadores e da Internet, com os avanços da biotecnologia e as promessas da nanotecnologia, ficava patente que as inovações tecnológicas não se encontravam apenas nos laboratórios, mas faziam parte
do cotidiano das massas urbanas. O acesso à tecnologia tornou-se tão vital que hoje a inclusão social
e a própria sobrevivência passam obrigatoriamente pela capacidade que as pessoas têm de se inserir
no mundo das máquinas e de acompanhar as ondas da evolução tecnológica. (Adaptado de Laymert Garcia dos
Santos, Politizar as novas tecnologias. O impacto sócio-técnico da informação digital e da genética. São Paulo: Editora 34, 2003, p. 9-10.)
a) Identifique três das novas tecnologias citadas no texto e aponte um uso para cada uma delas.
b) Explique uma questão ética presente nas discussões atuais sobre a biotecnologia.
Resposta Esperada
a) (3 pontos)
O candidato deveria identificar as novas tecnologias citadas (computador, Internet, nanotecnologia e
biotecnologia). Como parte de sua resposta, deveria apontar usos dessas tecnologias. Por exemplo: a
Internet, como meio de comunicação e acesso a informações de forma mais rápida; a biotecnologia,
usada na produção de plantas transgênicas e geneticamente modificadas, na indústria de alimentos
e farmacêutica; a nanotecnologia, que manipula materiais em escala muito reduzida, permitindo o
desenvolvimento de produtos industriais, o controle da qualidade ambiental e incrementando o uso
da robótica.
Prova comentada • Segunda Fase
22
História
b) (2 pontos)
Nessa questão o candidato deve apresentar dois pontos de vista sobre as implicações éticas da
biotecnologia, em questões como a produção de embriões humanos para transplantes. Essa
discussão, por exemplo, opõe os que consideram que esse procedimento é aceitável porque permite
salvar vidas e recuperar pessoas com lesões que as impedem de ter uma boa qualidade de vida, e os
que julgam que não se pode sacrificar os embriões, que, nesta ótica, são considerados seres humanos
vivos desde a fecundação.
Exemplo Acima da Média
Exemplo Abaixo da Média
Comentários
A questão 24 trabalhou na intersecção entre os conhecimentos das inovações tecnológicas atuais
e a interdisciplinaridade. No primeiro item, o candidato deveria identificar e apontar o uso de três
Prova comentada • Segunda Fase
23
História
das novas tecnologias citadas no enunciado da questão (computador, internet, nanotecnologia e
biotecnologia). Por exemplo: a internet, como meio de comunicação e acesso a informações de
forma mais rápida; a biotecnologia, usada na produção de plantas transgênicas e geneticamente
modificadas, na indústria de alimentos e farmacêutica; a nanotecnologia, que manipula materiais
em escala muito reduzida, permitindo o desenvolvimento de produtos industriais, o controle da
qualidade ambiental e incrementando o uso da robótica. O alto índice de acertos nesse item revelou
o pleno domínio dos candidatos sobre as questões ligadas ao desenvolvimento tecnológico atual e
sua aplicação no cotidiano.
No item b, o candidato deveria citar e explicar implicações éticas envolvidas no desenvolvimento
da biotecnologia, em questões como a produção de embriões humanos para transplantes ou de
produtos transgênicos. A pontuação máxima era alcançada com a exposição de dois pontos de vista
distintos sobre a mesma questão, como, por exemplo, opor os argumentos dos que consideram
válida a produção de embriões para a pesquisa científica (porque permite salvar vidas e recuperar
pessoas com lesões), e os que julgam que não se pode sacrificar os embriões (por serem considerados
seres humanos vivos desde a fecundação). A dificuldade da questão esteve presente justamente na
exposição de dois pontos de vista distintos. A tendência dos candidatos foi a de expor apenas um
lado da questão, normalmente o ponto de vista com o qual concordavam, não explicitando nas
respostas todo o debate.
De modo geral, no entanto, houve uma proporção alta de notas 4 e 5, mostrando que a questão
cumpriu o seu papel, dentro da prova de história, de ser um espaço no qual os candidatos pudessem
expressar seu domínio sobre conhecimentos gerais e o quanto estão informados sobre as principais
questões relacionadas às mudanças tecnológicas da atualidade.
Prova comentada • Segunda Fase
24
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