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uma análise da sociedade de risco sob o aspecto da
UMA ANÁLISE DA SOCIEDADE DE RISCO SOB O ASPECTO DA
PROTEÇÃO DAS ÁGUAS SUBTERRÂNEAS
Natacha John1
Fernanda Favarini Odorissi2
3
Rene Keller
Resumo
Este trabalho apresenta como tema central o estudo da proteção das águas subterrâneas frente à sociedade
de risco. Assim, tem-se como objetivo demonstrar como o processo de modernização contribuiu para o
surgimento da chamada sociedade de risco e os perigos que ela apresenta na contaminação das águas
subterrâneas. Desse modo, utilizando o método indutivo de pesquisa pela natureza do estudo
desenvolvido, por se adequar aos objetivos propostos e valendo-se da pesquisa bibliográfica como fonte
para a formação argumentativa, constatou-se ser necessária a mudança nos padrões de comportamento
adotados atualmente, tendo em vista a gama de interesses e conflitos que estão envolvidos na questão da
contaminação das águas subterrâneas e também para prevenção dos riscos que oferecem para sociedade.
Palavras-chave: Sociedade de risco. Águas subterrâneas. Legislação ambiental.
INTRODUÇÃO
A humanidade se desenvolve em um ritmo muito acelerado, onde a visão
estritamente econômica a respeito do crescimento de nossa sociedade faz com que os
riscos decorrentes deste desenvolvimento sejam, muitas vezes, esquecidos.
Desde uma operação individual, até as ações em massa, todos os acontecimentos
presentes na sociedade pós-moderna acarretam em conseqüências globais e, junto a elas,
a possibilidade de danos não previstos. São ameaças que incidirão, principalmente, no
1
Mestranda em Direito (UCS), área de concentração em Direito Ambiental e Sociedade, na linha de
pesquisa Direito Ambiental e Novos Direitos. Graduada pelo Centro Universitário Franciscano –
UNIFRA. Advogada. Integrante do grupo de pesquisa Alfabetização Ecológica, Cultura e Jurisdição: uma
incursão pelas teorias da decisão (UCS). Email: [email protected]
2
Advogada, mestranda em Direito pela Universidade de Caxias do Sul – UCS, especialista em Direito
Público pela Escola da Magistratura Federal – ESMAFE. Graduada em Direito pela Faculdade de Direito
de Santa Maria – FADISMA.
3
Mestrando em Direito na Universidade de Caxias do Sul (UCS) e bolsista CAPES, área de concentração
em Direito Ambiental e Sociedade. Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul (PUCRS). Email: [email protected]
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meio ambiente que nos cerca e, por consequência, contra a própria existência do homem
na Terra.
Assim, se torna fundamental a análise entre a relação do desenvolvimento da
sociedade, expansão tecnológica os perigos por ela oferecidos, bem como os riscos que
esta sociedade contemporânea oferece ao meio ambiente, mais especificamente em
relação à questão das águas subterrâneas Diante deste preocupante panorama, insurge
um debate sobre o atual comportamento de risco da sociedade e as ameaças ambientais
dele decorrente.
1 A Sociedade de Risco contemporânea
O desenvolvimento da sociedade industrial acabou gerando um cenário
de grandes transformações econômicas, políticas e sociais impulsionando o avanço da
ciência e da tecnologia. Todo o desenvolvimento que se consolidou através do
capitalismo, trouxe consigo diversos problemas sociais que perduram até hoje, assim,
tornou-se imperioso a busca por mecanismos capazes de frear ou mesmo minorar as
ameaças e os riscos produzidos pela intervenção humana na natureza, barrando também
o consumo excessivo de bens e a destruição do ambiente natural no qual estamos
inseridos.
A sociedade de risco é caracterizada pela riqueza industrial que acaba
gerando pelo seu desenvolvimento, assim como pelos riscos decorrentes deste avanço,
que muitas vezes somente são percebidos a médio e longo prazo pela coletividade.Em
importante afirmação, BECK (1998, p. 12) refere que a principal característica da
sociedade de risco não está na diferença de classes sociais, mas sim na diferença de
riscos, que são na verdade bastante “democráticos”.
Atualmente constata-se que se vivencia uma fase de grandes avanços
tecnológicos e desdobramentos do conhecimento, mas ao mesmo tempo percebe-se que
adentramos ao mundo das incertezas.GIDDENS (1997, p. 75) contrariando as idéias dos
filósofos iluministas e dos pensamentos da modernidade, onde se buscava alcançar a
paz e a segurança para todos, hoje vivenciamos uma situação de exposição a riscos
constantes, inclusive os de caráter sócio-ambiental, ou seja, são ameaças que incidirão,
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principalmente, no meio ambiente que nos cerca e, por consequência, contra a própria
existência do homem na Terra.
Ulrich Beck, ao fazer uma abordagem percussora do conceito de
sociedade
de
risco
(Risikogesellschaft),
acaba
delineando
uma
comparação
necessariamente existente entre a crise ecológica e o atual processo de globalização, as
descobertas tecnológicas, o sujeito cada vez mais particularizado e as políticas
econômicas capitalistas que permeiam nosso meio.
Ainda neste sentindo, BECK (2004, p. 36) ainda explica que os riscos
não se esgotam em efeitos e danos já ocorridos. Neles, exprime-se um componente
futuro e este se baseia em parte na extensão futura dos danos atualmente previsíveis e
em parte numa perda geral de confiança ou num suposto “amplificador do risco”.
Riscos tem que ver com antecipação, com destruições que não ocorreram ainda, todavia,
que são iminentes, e que já são reais hoje. Os riscos mostram um futuro que necessita
ser evitado. Os riscos ainda mostram-se simultaneamente reais e irreais. Assim, de um
lado, muitas ameaças e destruições já são reais, como rios poluídos, destruição florestal,
entre outros. De outro lado, a verdadeira força social do argumento do risco mora nas
ameaças projetadas no futuro. Desse modo, o núcleo da consciência do risco não reside
no presente, mas sim no futuro. Na sociedade de risco, portanto, o passado deixa de ter
força determinante em relação ao presente.
O autor supra, vai mais longe ao mencionar que devemos nos tornar
ativos hoje para evitar e atenuar, problemas ou crises do amanhã ou do depois do
amanhã, para tomar precauções em relação a eles. Refere que no debate com o futuro
nós temos que lidar com uma “variável projetada”, uma “causa projetada” da atuação
(pessoal e política) presente, cuja importância e significado crescem em proporção
direta à sua incalculabilidade e ao seu teor de ameaça e que concebemos para definir e
organizar a nossa atuação presente. (2004, p. 40)
Segundo BECK (2004), isto pressupõe que os riscos sejam bemsucedidos num processo de reconhecimento social. Riscos são inicialmente bens de
rejeição. Assim, as situações de ameaça precisam romper o privilégio da tabuização que
as cerca e “nascer cientificamente”. Isto ocorre sob a forma de um “efeito colateral
latente” que admite e legitima a realidade da ameaça, ou seja, equivale a uma espécie de
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licença, a um destino natural civilizatório, que ao mesmo tempo reconhece, distribui
seletivamente e justifica efeitos a serem evitados.
Na verdade, trata-se de um momento histórico posterior à modernidade
industrial, agora denominada sociedade reflexiva, onde não mais se podem prever as
ameaças concomitantes ao desenvolvimento do homem.(BECK, 1998, p. 201) De tal
modo que a utilização dos recursos naturais excede a capacidade de regeneração ou
substituição por outras fontes alternativas. Além disso, a forma como vem ocorrendo o
desenvolvimento tecnológico acaba provocando grandes problemas ambientais, pois a
grande produção e o consumo
exagerado causam um crescente esgotamento das
fontes naturais. Neste seguimento, importante salientar conforme expressou
JONAS(2006, p.67):
a promessa da tecnologia moderna se converteu em ameaça, ou esta se
associou àquela de forma indissolúvel.[...] Concebida para a felicidade
humana, a submissão da natureza, na sobremedida de seu sucesso,que agora
se estende à própria natureza do homem, conduziu ao maior desafio já posto
ao ser humano pela sua própria ação.
Assim, acabamos por originar os denominados passivos ambientais, sendo a
poluição das águas subterrâneas, um dos resultados do modelo produtivo deste
desenvolvimento adotado pela sociedade, colocando em risco a saúde de toda
coletividade.
Conforme refere GIDDENS (1991, p. 25) estamos vivendo um momento de
desorientação que a sociedade não consegue conviver com certas situações e acaba
ocorrendo uma falta de controle. De acordo com BECK (1998, p. 210), estamos vivendo
uma rescisão da sociedade industrial clássica, com o declínio de suas instituições,
presenciando o surgimento de uma sociedade complexa, marcada predominantemente
pelos riscos, incertezas e constantes transformações, dominando os sentimentos de
dúvida e insegurança quanto aos próximos passos da humanidade.
Diante das considerações referidas, emerge questionamentos acerca do modelo
de desenvolvimento adotado, pois apesar dos grandes avanços tecnológicos, existe o
adensamento dos problemas sócio-ambientais em uma grande dimensão, expondo a
sociedade a riscos e perigos constantes.Neste panorama de falta de apreço dos limites
naturais do planeta em prol ao crescimento econômico, insere-se a importância da
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gestão dos recursos naturais e quais suas implicações no manejo dos riscos que os
ameaçam.
2 A crise da água e a proteção das águas subterrâneas
A água possui um valor suntuoso, além de ser imprescindível à vida humana,
também é importante para o desenvolvimento econômico, consistindo fator
determinante nos ciclos da natureza para garantir a manutenção dos ecossistemas.
Segundo NOGUEIRA (1997, p. 147) os padrões internacionais, podemos
considerar que a água é insuficiente quando a quantidade disponível, anual, é menos de
1000 metros cúbicos de água por habitante. Entretanto, tal situação somente é
visualizada em lugares como o Oriente Médio e o norte da África, sendo que nos
demais lugares a ”falta da água“, ocorre devido a sua qualidade e o seu modelo de
utilização.
BORSOI (1997,p.147) O Brasil apresenta um grande potencial hídrico, contudo
sua distribuição é de forma muito desigual. Ao passo que a região Norte apresenta 70%,
a região Centro-Oeste apresenta 15%, região Sul e Sudeste 12% e a região Nordeste
apresenta somente 3%.Ainda, em relação à distribuição hídrica no Brasil, profissionais
especializados na área, garantem que mesmo nas áreas menos favorecidas, conseguem
satisfazer suas necessidades básicas, conforme POMPEU:
“O exame dos textos legais mais representativos revela cuidar-se, no Brasil,
não apenas do aspecto repressivo da poluição, mas da institucionalização de
esquemas administrativos e financeiros, capazes de assegurar resultados
razoáveis e permanentes, dirigidos ao planejamento da evolução industrial
brasileira. A permanente utilização das leis, bem como as alterações
introduzidas no campo institucional, permitem acreditar que, mesmo em
relação às áreas críticas de poluição, já delimitadas e objeto de medidas
especificas, o Brasil está em condições de controlar, de modo satisfatório, a
poluição das águas. Deve ser salientada, no entanto, a necessidade de maior
coordenação entre vários órgãos que atuam na área, pois como foi visto,
quase todos têm atribuições e, no confronto entre elas, é sempre o controle da
poluição que costuma ser postergada”.( POMPEU, 1977. p. 438-439)
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Em verdade, da abundância de água doce disponível na Terra, uma parcela
muito pequena se encontra na forma de rios e lagos, sendo que o restante é na forma de
águas subterrâneas. Estima-se que o percentual de água disponível na superfície é de
1,2% e o restante, cerca de 98% apresenta-se na forma subterrânea. GRAF (2003, p.
62) anota que em muitos países as águas subterrâneas representam a única forma de
abastecimento, como é caso da Arábia Saudita, Dinamarca e Malta. Em países como
Bélgica, França, Hungria, Itália, Suíça entre outros cerca de 70% do abastecimento
ocorre através das águas subterrâneas.
Ao que refere à utilização das águas subterrâneas, observa-se ser claramente
mais proveitoso para o homem uma vez que é de melhor qualidade e obtida com um
valor inferior ao da água tratada. O aumento da poluição e o imperativo de
implementação de saneamento básico, fazem com que os custos para tornar a água
adequada para o consumo, sejam cada vez mais elevados. Assim, muitas pessoas têm
investido em perfuração de poços artesianos domésticos.
No entanto, segundo SILVA, (2003. p. 710)este cenário causa apreensão, haja
vista que existe o risco de contaminação dos aquíferos, pois o resultado da utilização em
grande proporção é desconhecido, sendo que não existe um controle ativo da
contaminação das águas superficiais. Deste modo, percebemos que devemos agir com
cautela, aplicando o princípio da precaução, consoante o qual “as pessoas e o seu meio
ambiente devem ter em seu favor o benefício da dúvida quando haja incerteza sobre se
uma dada ação os vai prejudicar”
Leciona FREITAS (2001, p. 56) que se por um lado as águas subterrâneas estão
mais protegidas da poluição que os corpos d’água superficiais, por outro lado depois de
poluídas, demoram milhares de anos para retornarem ao normal. Já no que se refere aos
rios e lagos em 15 ou 20 dias, se renovam.Visível, no caso em tela que se deve cada vez
mais investir em prevenção e proteção dos aquíferos, sendo imprescindível uma política
mundial da água, que vise o gerenciamento em conjunto de referido recurso ambiental.
Neste sentido expõe Viegas ao dizer que:
“Na esfera prática, uma das medidas a serem tomadas em relação à
problemática da água é adoção de uma política mundial da água, que importe
em um gerenciamento apropriado desse recurso ambiental. Tal medida vem
sendo realçada pela comunidade ligada ao assunto em diversos eventos. Com
efeito, a Terra constitui-se em uma grande porção de área separada
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politicamente em territórios independentes, mas interligados quando se trata
de questões envolvendo a degradação ambiental, que repercute sem respeitar
fronteiras. Assim, ocorre, por exemplo, quando um rio transpõe mais de um
Estado, a tal ponto que a poluição gerada mais próximo à sua nascente
alcançará a foz, que não raro se situa em país diverso daquele que causou a
degradação ambienta”(VIEGAS 2003, p. 59)
Além do mais, preconiza SILVA (2003, p. 153): “A proteção das águas
subterrâneas é uma questão estratégica. No Brasil, mais da metade de água de
abastecimento público provém de reservas subterrâneas” que o entendimento
majoritário no que diz respeito a águas subterrâneas é de servir como fonte reserva, ou
melhor, de recurso “alternativo”, que somente seria usada quando a água superficial não
estivesse mais acessível para consumo ou ainda nas regiões que desprovidas de água
acima do solo.
Importante consideração acerca das águas subterrâneas assevera no seguinte fato
REBOUÇAS (1997, p. 88):
“Ela é fonte fundamental de suprimento da umidade do solo que dá suporte
ao desenvolvimento da cobertura vegetal-natural ou cultivada. Além disso,
ela é fonte primordial de regularização dos fluxos dos rios durante os
períodos de estiagem, e de abastecimento em geral, à medida que é extraída
de forma adequada por meio de poços, fontes ou nascentes e outras formas de
captação.”
Por fim, também precisamos atentar para questão das águas subterrâneas, uma
vez que contamos com o mais vasto reservatório de água doce do mundo. O Aqüífero
Guarani, que se estende, além do Brasil, pelo Uruguai, Paraguai e Argentina.
3 A proteção das águas subterrâneas na sociedade de risco e a legislação ambiental
brasileira
Inúmeras são as causas que levaram a sociedade ao estágio atual de crise,
entretanto o homem não conseguiu tirar os ensinamentos suficientes, continuando a
atuar de forma irresponsável em relação à utilização dos recursos hídricos superficiais,
bem como na questão dos recursos hídricos subterrâneos. A gestão das águas
subterrâneas enfrenta o desafio de resguardar um bem oculto, envolvendo dois recursos
da natureza: água e solo, sendo que a dificuldade aumenta, uma vez que as águas
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subterrâneas dependem da ciência para revelar os perigos e ameaças, tais que não
podem ser observados pelos leigos.
Os riscos de dano ambiental podem ter diversas origens, podendo se asseverar
um caráter multidimensional, entretanto acaba causando uma dificuldade na
previsibilidade do risco. Na questão em tela, mais precisamente somente conseguimos
perceber o dano através de procedimentos técnicos. A relação de dependência com a
ciência para conseguir constatar se houve ou não algum tipo de dano, é umas das
principais dificuldades apresentadas, uma vez que o controle das águas subterrâneas é
pequeno e sua dinâmica ainda é muito pouco conhecida.
Outro fator BECK (1998, p. 68) relevante que merece ser destacado é a falta de
conhecimento e informação por parte da sociedade, o que acaba excluindo a população
sobre qualquer dinâmica em que se trata de águas subterrâneas.Cada sociedade mantém
“uma relação com riscos”, uma forma característica de enfrentá-los, que transparece em
um plano cultural. Essa relação de riscos muda conforme as épocas e os lugares.
O direito não poderia ficar impassível a questão dos problemas ambientais,
sendo um dos principais instrumentos para constituir a vida em sociedade e para tutela
das condições fundamentais e o seu livre desenvolvimento. FERREIRA (2004, p. 119)
analisa que as leis ambientais existentes, não conseguem controlar os riscos da
sociedade atual e consequentemente as que surgem posteriormente, espelham-se e
perpetuam, por querer ou involuntariamente em um sistema que já arruinado, propondo
uma falsa normalidade.
Atualmente vive-se uma conjuntura social que não se consegue mais
dimensionar os riscos ao qual estamos expostos, tanto na economia, política e
sociedade, pois cada vez mais se encontram fora do alcance das instituições
estabelecidas para o controle e supervisão. Nossa Constituição Federal, por sua vez,
concebeu o caráter de direito e dever fundamental de todos à preservação de um meio
ecologicamente equilibrado, importante referir SILVA:
“O que é importante – escrevemos de outra feita – é que se tenha a
consciência de que o direito à vida, como matriz de todos os demais direitos
fundamentais do Homem, é que há de orientar todas as formas de atuação no
campo da tutela do meio ambiente. Cumpre compreender que ele é um fator
preponderante, que há de estar acima de quaisquer outras considerações
como as de desenvolvimento, como as de respeito ao direito de propriedade,
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como as da iniciativa privada. Também estes são garantidos no texto
constitucional, mas, a toda evidência, não podem primar sobre o direito
fundamental à vida, que está em jogo quando se discute a tutela da qualidade
do meio ambiente. É que a tutela da qualidade do meio ambiente é
instrumental no sentido de que, através dela, o que se protege é um valor
maior: a qualidade de vida.” (SILVA, 2003. p. 70)
Assim, impõe tanto ao Poder Público como à coletividade o dever de preserválo e defendê-lo para as presentes e futuras gerações. Observa-se ainda ser o nosso
sistema jurídico ambiental constituído por vasta legislação protetiva do ambiente,
incluindo as águas.
No entanto, a explícita degradação que o homem vem causando à natureza e sua
inércia sobre a real existência de uma sociedade de risco demonstra que as normas
ambientais vigentes, embora modernas, carecem de real eficácia, tanto jurídica quanto
social. Em uma época em que as indetermináveis consequências da evolução
tecnológica e do desenvolvimento representam concretas ameaças à sociedade, tal
constatação toma graus assustadores e preocupantes, pois conforme PRIGOGINE
(1996, p. 14):“assistimos ao surgimento de uma ciência que não mais se limita a
situações simplificadas, idealizadas, mas nos põe diante da complexidade do mundo
real”
Mesmo assim, a legislação possui grande importância como mecanismo de
acesso ao recurso, como também o consumo e a repartição dos benefícios e custos.
Entretanto, vale ressaltar que de nada adianta uma edição desenfreada de leis
especificamente no caso em tela sobre águas subterrâneas, se sua eficácia ainda é muito
remota e distante.
Diante do cenário atual, o que se percebe é que a legislação sobre águas
subterrâneas seja ela federal estadual ou municipal se tornou muito pouco operacional,
cabendo à sociedade exigir o seu cumprimento, através dos mecanismos legais
existentes. No entanto, para que tais medidas sejam adotadas pela sociedade é
necessário à implementação de políticas públicas para garantir a sustentabilidade dos
aquíferos para estas e futuras gerações, assim como prescreve o artigo 225 da Carta
Maior. Ainda neste sentido, importante ressaltar a contribuição da Lei nº 9.433/97, que
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estabeleceu literalmente que “a água é um recurso natural limitado”. Ainda assim
GRAFF (2003, p. 52-53):
“em 08.01.1997 foi editada a Lei 9.433, que institui uma política nacional
especifica para os recursos hídricos, adotando novos paradigmas quanto aos
usos múltiplos das águas, à participação popular na gestão destes recursos e,
reconhecendo que se trata de um recurso finito, vulnerável e, dotado de valor
econômico”
Ao desenvolver políticas públicas neste contexto, ocorreria o reconhecimento da
limitação ecológica dos recursos naturais, bem como empecilho da exploração ruinosa
até sua finitude, como bem assevera SILVA (1997, p. 75):“Nossa legislação estava
moldada a uma visão inesgotabilidade dos recursos hídricos e tinha como preocupação
primordial o uso da água com finalidades de produção de energia”.
Contudo, apenas um plano de política pública isolado não obteria sucesso, para
tanto é necessário ações conjuntas e articuladas com outras políticas de
desenvolvimento atinente a economia, ao social, aos transportes, à habitação, ao
saneamento básico, à saúde entre outras.
Analisando o panorama atual se percebe que independentemente da forma como
vai ocorrer à participação da população nas questões atinentes aos recursos hídricos, ela
é fundamental. A questão da água era em regra geral resolvida pela administração
pública, que apenas tinha a preocupação em satisfazer as necessidades com um recurso
natural abundante e gratuito distribuído para todos de forma igualitária e com a mesma
qualidade.
Contudo, a situação atual se alterou, estamos diante de um recurso finito,
escasso em muitos locais e em se tratando de águas subterrâneas ainda existe os
conflitos relacionados à ocupação do solo. Desse modo, a participação social é muito
importante como forma de exercer a fiscalização e a cobrança do Poder Público.
Entretanto, para que esta fiscalização e pressão ocorram de forma adequada, de modo a
preservar o meio ambiente e principalmente as águas subterrâneas é necessário que a
população tenha conhecimento da necessidade de proteger esse recurso, assim como as
medidas necessárias para tal conscientização.
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Importante salientar que devem ser feitos esclarecimentos básicos, mas de
caráter essencial, como explicar o que é um aquífero, o que são áreas de
superexploração e contaminação, sendo fundamental para que a população possa atuar
na defesa do patrimônio ambiental. Ao contrário, o risco da população acabar
manipulada e optar por defender interesses aparentemente atrativos em curto prazo
ignorando os efeitos futuros são grandes. Por fim, de forma ilustrativa podemos citar
novamente o Aquífero Guarani, que embora de forma modesta, já ocorre a participação
popular, no processo de medidas efetivas de proteção. Contudo, representa ainda os
primeiros passos da participação da população no gerenciamento dos riscos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A sociedade de risco é caracterizada pela produção industrial de riqueza e
consequentemente pela produção social do risco. O avanço técnico e científico tão
enaltecido por muitos, somente apresenta suas consequências negativas em longo prazo
e infelizmente não são percebidos pela realidade atual.
Na modernidade o desenvolvimento não ocorre de forma simultânea com os
recursos naturais, ou seja, o crescimento frenético da sociedade não acompanha o
processo de regeneração ou substituição dos recursos naturais. Em que pese à questão
da água na sociedade de risco, percebe-se que sua utilização não pode mais ocorrer de
forma irracional, uma vez que já foi constatado a finitude deste recurso natural.A água é
a fonte da vida. Assim, importante mencionar que ter acesso à água potável em
quantidade satisfatória não é uma questão de opção, mas de obrigação básica,
apresentando-se como direito fundamental e elemento essencial para a dignidade
humana.
Refere o autor PETRELLA (2002, p. 24) que “podemos sobreviver sem internet,
sem petróleo, sem fundo de investimentos ou uma conta bancária. Mas – um argumento
banal, embora frequentemente esquecido - não nos é possível viver sem água”,
elucidando ainda que o petróleo pode ser substituído por carvão.Vale ressaltar que as
águas subterrâneas não podem ser utilizadas de maneira irresponsável, devido sua
estrita relação com as águas superficiais, tendo como conseqüência a poluição dos
aquíferos. Esse problema de ordem ambiental tem desafiado o Poder Público e até
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mesmo a sociedade na procura de soluções para utilização dos recursos naturais, de
modo a não gerar tantos riscos a coletividade.
A poluição das águas subterrâneas, assim como muitos outros problemas de
degradação ambiental, implica em riscos para própria humanidade e ao ambiente em
todas as suas formas de vida, nos fazendo repensar sobre o modelo de sociedade ao qual
fazemos parte.É necessário iniciarmos uma mudança, seja na economia, na política ou
na sociedade, entretanto esta mudança deve iniciar principalmente no comportamento
individual de cada cidadão e papel que desempenha dentro da coletividade. As
transformações são urgentes e bem vindas para resgatar o bem de valor mais valioso
que possuímos: a vida.
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