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13 O conceito de alucinação em Merleau

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13 O conceito de alucinação em Merleau
ARTIGOS
ano V, n. 2, jun/ 2 0 02
Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 2, 13-27
O conceito de alucinação em
Merleau-Ponty: aspectos clínicos e
psicopatológicos*
Érico Bruno Viana Campos e Nelson Ernesto Coelho Jr.
O artigo propõe-se a discutir o conceito de alucinação nos campos
psicoterápico e psicopatológico a partir das considerações do fenomenólogo
francês Maurice Merleau-Ponty sobre a percepção. Faz-se uma revisão crítica
das concepções clássicas de alucinação fundamentadas em epistemologias
objetivistas e a contextualização do fenômeno alucinatório no âmbito de uma
ontologia existencial. A alucinação funda-se no solo primordial de experiência
pré-reflexiva do corpo fenomenal e é caracterizada por: (1) diferenciação
intrínseca da alucinação em relação à percepção; (2) expressão do corpo
próprio; (3) despersonalização. As implicações dessa nova perspectiva do
fenômeno alucinatório são discutidas nos níveis ontológico, ético e
epistemológico, bem como sob o ponto de vista da psicoterapia e da
psicopatologia. Nesse último aspecto considera-se o lugar da alucinação em
relação ao sonho, ao delírio e à ilusão, bem como a diferenciação entre
normalidade e patologia a partir de uma abordagem fenomenológicoexistencial em psicologia.
Palavras-chave: Alucinação, corpo fenomenal, temporalidade, fenomenologia,
psicopatologia
* O artigo é resultado da pesquisa de iniciação científica “O conceito de alucinação em MerleauPonty e suas implicações para a clínica psicológica” financiada pela Fapesp (processo 99/104272) e orientada pelo Prof. Dr. Nelson Ernesto Coelho Júnior. Esse texto é uma versão expandida
de uma comunicação apresentada na mesa-redonda sobre Fenomenologia do VIII Simpósio
Internacional de Iniciação Científica da Universidade de São Paulo (SIICUSP), em novembro de
2000.
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O presente texto visa considerar e discutir o conceito de alucinação nos
campos psicopatológico e psicoterápico a partir das contribuições teóricas da
análise fenomenológica do ato perceptivo empregada pelo filósofo francês
Maurice Merleau-Ponty em sua clássica obra Fenomenologia da Percepção.
Essa articulação é buscada para a fundamentação da alucinação em bases
fenomenológico-existenciais no âmbito da técnica psicoterápica, bem como para
uma discussão das limitações de suas noções clássicas no âmbito ontológico e
epistemológico.
É sabido que Merleau-Ponty faz a sua análise da percepção a partir da
interface com a ciência psicológica e psiquiátrica de sua época. A discussão com
esses saberes é feita com o interesse de buscar uma fundamentação do
conhecimento a partir do referencial fenomenológico. Sua teorização, portanto,
se encontra no campo da epistemologia. É contra a epistemologia objetivista,
com a sua dupla face empírico-idealista, e na mais pura investigação
fenomenológica, ou seja, na tentativa de articular e superar esse impasse, que
o filósofo desenvolve o seu trabalho. Merleau-Ponty vai fundamentar sua
original perspectiva fenomenológica no campo de uma ontologia da existência,
trazendo a metafísica do nível transcendental para a própria experiência
perceptiva do homem. A descrição do fenômeno perceptivo aponta para uma
vida de consciência fundamentada no horizonte da experiência corporal préreflexiva. Experiência essa que é constitutivamente ambígua, delimitando uma
apreciação não-causal da dinâmica da vida de consciência. Apresenta-se,
portanto, a necessidade de desenvolvimento de uma categoria explicativa nãodeterminista em oposição à causa, um constructo empírico, e à razão,
constructo idealista. Essa categoria é denominada pelo filósofo de motivo e diz
respeito a uma análise do sentido. Os sentidos são significações múltiplas que
emergem enquanto motivos, ou seja, são validados posteriormente enquanto
condições de uma atitude. Não são, portanto, explicações deterministas e
unidirecionais, mas a expressão compreensiva de uma situação. A elaboração
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do motivo enquanto categoria de entendimento é fruto do esforço do filósofo em
transcender as dicotomias objetivantes na compreensão da experiência humana.
Merleau-Ponty vai identificar o motivo já na própria experiência perceptiva,
fundamento de toda possibilidade de conhecimento e solo da existência pré-reflexiva:
Ter a experiência de uma estrutura não é recebê-la em si passivamente: é vivêla, retomá-la, assumi-la, reencontrar seu sentido imanente. (...) Convergência e grandeza
aparente não são nem signos nem causas da profundidade: elas estão presentes na
experiência da profundidade assim como o motivo, mesmo quando não está articulado
e posto à parte, está presente na decisão. (...) O motivo é um antecedente que só age
por seu sentido, e é preciso acrescentar que é a decisão que afirma esse sentido como
válido e que lhe dá sua força e sua eficácia. Motivo e decisão são dois elementos de
uma situação: o primeiro é a situação enquanto fato, o segundo a situação assumida.
Assim, um luto motiva minha viagem porque ele é uma situação em que minha presença
é requerida, seja para reconfortar uma família aflita, seja para prestar ao morto as “últimas
homenagens”, e, decidindo fazer esta viagem, eu valido esse motivo que se propõe e
assumo essa situação. Portanto, a relação entre o motivante e o motivado é recíproca.
Ora, tal é exatamente a relação que existe entre a experiência da convergência, ou da
grandeza aparente, e a experiência da profundidade. Elas não fazem, a título de
“causas”, a organização em profundidade aparecer miraculosamente, mas tacitamente
elas a motivam enquanto já incluem em seu sentido e enquanto já são, uma e outra,
uma certa maneira de olhar à distância. (Merleau-Ponty, 1994, p. 348-9)
Uma vez situada e resumida em grandes linhas a proposta de Merleau-Ponty,
pode-se agora apresentar e analisar a conceituação de alucinação no campo do saber
psicológico e psiquiátrico a partir de suas bases epistemológicas. Tanto a psicologia
clássica quanto a psiquiatria utilizam-se de um referencial objetivo na validação da
percepção, ou seja, a noção costumeira de que a alucinação é uma percepção sem
objeto. Tomando como ilustração Pierón, a alucinação seria definida como uma:
Perturbação psicossensorial correspondente à projeção de fenômenos subjetivos
no campo objetivo, caracterizados por:
1o) qualidade sensorial do fenômeno;
2o) espacialidade;
3o) crença errônea na existência do estímulo sensorial. (Pierón, 1996, p. 20)
É com esses critérios objetivos que se pode identificar a alucinação e suas
variações.1 A alucinação é determinada por uma razão endógena e é verificada por
um critério empírico. Nota-se, portanto, a epistemologia objetivista por trás dessas
1. Como, por exemplo, a alucinose, na qual falta a crença errônea na existência do estímulo sensorial,
e a pseudo-alucinação, na qual há a ausência de projeção no espaço da percepção.
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conceituações. Essa visão está alinhada com o interesse de previsão e controle da
psicologia acadêmica clássica e da psiquiatria organicista. Contudo, esse referencial
é bastante limitado no que diz respeito ao interesse compreensivo e estético 2
característico de teorizações nascidas no campo da clínica. Não é por acaso que o
entendimento da alucinação sofre uma revisão justamente naquela teoria que inaugura
o campo do atendimento psicoterápico, a psicanálise.
A revolução copernicana instaurada pela psicanálise freudiana não só trouxe
sérios impasses a uma filosofia da consciência, mas também aos critérios de
diferenciação entre objetividade e subjetividade. As articulações entre a realidade e
fantasia, expressas, entre outros, pelo conceito de realidade psíquica são campos de
pesquisa extremamente produtivos na psicanálise contemporânea. Não cabe aqui
retomar essa trama de conceitos em profundidade, muito menos articulá-la
exaustivamente às questões que aparecem na prática clínica. O fato é que várias
correntes da psicanálise contemporânea pesquisam referenciais teóricos e articulações
que dêem conta desse campo intersubjetivo que se configura em um atendimento
psicoterápico.3
A teorização metapsicológica de Freud trata da questão da alucinação desde os
estudos sobre a histeria, no início da psicanálise. O referencial que se instaura desde
então, sendo sistematizado no “Projeto para uma psicologia científica” e retomado
no capítulo VII de A interpretação dos sonhos, é o da satisfação alucinatória do
desejo, baseado nas noções de vivência de satisfação e prova de realidade. De forma
resumida e esquemática, trata-se da revivência de uma situação prazerosa por meio
de um investimento pulsional regressivo do sistema Perc.-Cs., burlando a prova de
realidade. Esse modelo serviu para a compreensão das alucinações conversivas das
histéricas, para o mecanismo onírico e para as alucinações positivas em geral. O
mecanismo da alucinação, portanto, confunde-se com a própria natureza do aparelho
psíquico: a busca de vivência de satisfação. Com os desenvolvimentos e
reformulações metapsicológicos instaurados a partir da noção de narcisismo, um
segundo modelo de alucinação se configura na teorização freudiana. Trata-se do
modelo da recusa da realidade, trabalhado em textos como “O fetichismo” e “A
negação”. Nesse caso, uma percepção angustiante – cujo protótipo é a descoberta
da castração da mãe – não é reconhecida enquanto percepto. Dá-se, então, a recusa
ou denegação (verleugnung). Nessa situação o Ego cede ao desejo do Id em
detrimento da realidade. É, pois, o protótipo da alucinação negativa.
2. A diferenciação entre diferentes interesses éticos que permeiam os pressupostos ontológicos e
epistemológicos dos variados campos teóricos do saber psicológico é uma articulação de
Figueiredo, 1995.
3. Cf., por exemplo, a proposta de realidade clínica feita por Coelho Júnior, 1995.
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O campo inaugurado por essas conceituações de alucinação, aliado ao método
interpretativo da psicanálise, possibilitou uma análise do sentido desses fenômenos
no contexto da história pessoal de um ser desejante. A percepção sem objeto, antes
encarada como uma falha e um erro, torna-se alvo de uma investigação das vicissitudes
da pulsão e um meio de compreensão da vida simbólica. Vê-se, portanto, o potencial
heurístico desse modelo no campo da psicoterapia e a revolução dessa teorização em
relação à visão clássica. Contudo, se isso é verdade no âmbito da prática clínica, o
mesmo não se pode dizer no âmbito epistemológico da metapsicologia freudiana.
Retomando os modelos anteriormente expostos, percebe-se facilmente a tentativa de
explicação causal e energética na forma de um modelo dinâmico universal de um
aparelho psíquico e de um desenvolvimento psicossexual que, a partir da reconstrução
a posteriori de uma história de vida, chegue à etiologia dos sintomas e do quadro
psicopatológico. Se na clínica a interpretação, a configuração de sentidos e a
atualização constante de potenciais simbólicos imperam, na teoria há uma descrição
de cunho cientificista, nos moldes da epistemologia objetivista que o campo prático
destituía. Essa crítica à ambigüidade da psicanálise freudiana no nível epistemológico
e ético foi desenvolvida com relação ao campo da teoria psicanalítica desde, pelo
menos, Politzer (1998). É no âmbito da fundamentação epistemológica e ontológica
que dê conta dos sentidos que emergem na situação clínica sem recorrer a modelos
objetivantes que a fenomenologia de Merleau-Ponty se mostra uma fonte
enriquecedora. A articulação aqui buscada se dá pela via da alucinação, enquanto
fenômeno privilegiado para o entendimento das relações entre subjetividade,
intersubjetividade e objetividade, bem como para o entendimento das concepções de
normalidade e de patologia.
Para entender o fenômeno alucinatório em Merleau-Ponty, é necessário retomar
brevemente sua concepção do ato perceptivo, fundamentada na noção de
intencionalidade do corpo fenomenal. A descrição fenomenológica da percepção
realizada pelo filósofo mostra que a consciência reflexiva é precedida e significada
por um ser primordial antepredicativo e inacabado. Essa camada do ser é imanente
à existência, porém incognoscível pois é a própria condição para o conhecimento.
O ser é potencialidade de um horizonte de experiências possíveis. Horizonte esse
configurado pelo campo de experiências perceptivas de um corpo fenomenal. Essa
é a tese fundamental de Merleau-Ponty.
A percepção é uma experiência motivada e pré-pessoal, descrita por MerleauPonty como comunhão ou coexistência. Não é o sujeito que cria o mundo ou o objeto
que se inscreve no ser. Eu e mundo, sujeito e objeto, atualizam-se e articulam-se em
um campo de experiências para além da perspectiva dicotômica. Daí o termo
comunhão ou coexistência: ser e mundo estão mutuamente implicados em uma
dinâmica de reconhecimento e reencontro, determinada não por um ou por outro, mas
pelos dois em sua relação. Tem-se, portanto, um imbricamento entre sujeito e objeto
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aquém da diferenciação clássica que se instaura no campo da consciência reflexiva.
O ser é, antes de tudo, um ser-no-mundo, e não pode ser pensado fora dessa
configuração. Toda essa argumentação é derivada de um conceito-chave na
fenomenologia: a intencionalidade. Merleau-Ponty retoma esse conceito para analisar
a dinâmica do ato perceptivo, passando de uma consciência intencional para uma
intencionalidade sensorial. A sensação é intencional e, como tal, transcende o corpo
psicofísico. A percepção é sempre a percepção de algo, e nesse ato tem-se não só
o sujeito, mas também um objeto intencional. O mundo se revela ao ser, reencontrao na dinâmica do ato perceptivo: o corpo é uma potência que nasce em conjunto com
um meio e se sincroniza com ele. A intencionalidade operante do ato perceptivo
caracteriza-se por sua parcialidade e inacabamento, pois a percepção redescobre o
seu objeto intencional em uma das perspectivas possíveis, ou seja, a percepção sempre
se dá a partir de um lugar concreto. Mais ainda, caracteriza-se por um duplo
movimento de prospecção e retrospecção, isto é, o ato perceptivo avança em direção
a algo para além de si, mas encontra um objeto já dado e sempre ali. Em suma, a
intencionalidade do ato perceptivo resulta na configuração de um campo: a sensação
se abre em uma certa perspectiva de mundo, inaugurando-o e sendo por ele
inaugurada. Para além do ponto de vista há um horizonte de percepções ao qual se
pode ter acesso por uma espécie de contato primordial no qual a potência de sentir
pode reencontrar o objeto sensível. Tem-se aí a base da crítica do pensamento de
sobrevôo e o germe da instauração de uma esfera imanente da experiência que garanta
a possibilidade de conhecimento.
A intencionalidade do ato perceptivo revela a configuração de um campo de
perspectivas que se intercalam e se interpenetram, garantindo o reconhecimento do
mundo. Porém, é preciso que essas perspectivas se organizem a partir de uma
determinada abertura aos fenômenos e que essa mantenha uma certa solidez. O lugar
onde se desenvolve a experiência pré-reflexiva do ato perceptivo nada mais é do que
o próprio corpo, entendido como um corpo fenomenal. Trata-se da noção de esquema
corporal, porém entendida no seu aspecto existencial. É a sinergia de nossos sentidos
e sua capacidade de transposição sensorial que garantem a possibilidade de síntese
desse corpo em uma potência gestual que seja a expressão da intencionalidade
operante. Nosso corpo fenomenal tem essa capacidade não-tética de transitar pelos
diversos níveis espaciais, tal como transpomos automaticamente uma melodia de um
tom para outro sem conhecer as regras musicais. A intencionalidade do ato
perceptivo, expressa através do corpo fenomenal, configura o nosso meio existencial.
É dessa forma que o filósofo define a espacialidade. Sentido, espacialidade e esquema
corporal convergem para o princípio ontológico do ser-no-mundo. A espacialidade
é imanente, é um estar com as coisas e com os outros por meio desse diálogo
antepredicativo que é a percepção.
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O ser-no-mundo, contudo, não é definido apenas pela espacialidade. Ele é,
também, temporal. Merleau-Ponty derivará a temporalidade da dinâmica da
intencionalidade. Como foi visto, o ato perceptivo é prospectivo e retrospectivo. Ele
traz em si o passado e o futuro, como horizontes de um presente sempre retomado.
Mais ainda, a temporalidade é a própria síntese perceptiva, ou seja, a articulação entre
as várias perspectivas que se abrem para a consciência perceptiva é uma dinâmica
temporal. Porém, como foi visto, é essa síntese perceptiva, nomeada por MerleauPonty de uma síntese de transição, a responsável pela configuração do espaço.
Portanto, a espacialidade é tributária da temporalidade. A temporalidade é o aspecto
mais característico da existência, tese que é fundamental em diversas teorias de
inspiração fenomenológico-existencial, como em Heidegger e Minkowski, por
exemplo. No caso de Merleau-Ponty, podemos resumir sua descrição dizendo que
espaço, tempo e causalidade são todas funções e desdobramentos de uma função
primordial da existência: a intencionalidade de nosso corpo fenomenal. Esse campo
fundante do conhecimento é a função existencial do arco intencional, que se confunde
com o próprio campo perceptivo e sua dinâmica.
Uma vez abordados os conceitos estruturantes de uma teoria de percepção em
Merleau-Ponty e suas relações existenciais e epistemológicas, pode-se agora descrever
o fenômeno alucinatório a partir dessa concepção. A primeira afirmação de MerleauPonty que diz respeito ao fenômeno alucinatório opõe-se radicalmente aos preceitos
clássicos do realismo ingênuo: a diferença entre percepção objetiva e alucinação é
intrínseca ao ato perceptivo. Ou seja, o alucinado tem noção da irrealidade de sua
alucinação. Ele a diferencia da percepção normal pela sua solidez e pelo seu sentido.
O alucinado não acredita na realidade de sua alucinação, tanto que normalmente as
contestações objetivas de suas percepções não o incomodam. Da mesma forma, a
alucinação não é sentida como um fato objetivo, tão nítido quanto a realidade. Um
testemunho que ilustra muito bem esses aspectos é o de Renée, paciente de Madame
Séchehaye no livro Memórias de uma Esquizofrênica. Nele se percebe o quanto a
alucinação é sentida como uma distorção na configuração existencial do espaço e
sentida com terrível angústia. Mais ainda, revela como a alucinação, mesmo destituída
de uma espessura intersubjetiva, se mostra distinta de uma percepção objetiva. Ou
seja, a alucinação é uma expressão existencial da configuração de mundo do paciente.
Mostrar a experiência da loucura e a vivência alucinatória a partir do ponto ambíguo
em que eu e mundo se estranham e se confundem é o mérito desse relato:
Localizei-o à minha direita. Mas não o via nem o ouvia. No entanto respondialhe, enfurecia-me com o que dizia. (...) Ora, com toda sinceridade, não via ninguém, não
ouvia voz nenhuma. Mas tampouco era o vazio nem o silêncio. Havia considerável
diferença entre essa parte do quarto e as outras. Aquele canto à direita possuía vida,
personalidade. Havia alguém muito real ali, ao mesmo tempo que ali estava vazio.
(Séchehaye, 1950, p. 89)
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Dizer, porém, que o alucinado diferencia a alucinação da percepção não significa
que ela seja tomada como uma falsidade, mas apenas que os critérios objetivos são
insuficientes para descrevê-la em profundidade. Se a alucinação não tem uma
validação objetiva, no sentido de ser apenas uma percepção falha, ela tem um valor
existencial. É um fenômeno expressivo da existência, como qualquer gesto
intencional, e, como tal, é provida de sentido. Ela é expressão da condição existencial
do ser-no-mundo. Condição essa que se configura como um estreitamento do espaço
vivido. Em outras palavras, a capacidade de habitar o mundo e transitar entre suas
perspectivas encontra-se prejudicada. O homem, em vez de reencontrar o mundo em
sua espacialidade, habita um espaço de paisagem. Espacialidade mórbida essa que é
paradoxalmente rígida e tênue: perspectivas privilegiadas tomam o lugar do trânsito
temporal, conformando uma paisagem artificial, porém sufocante. Com o
espessamento de certos temas existenciais – o enrijecimento dos sentidos – há uma
paralisia no intercâmbio comunicativo do ser-no-mundo, destituindo-o de sua
potencialidade criativa. O espaço se estreita, é transbordado por uma temática
existencial que imobiliza a existência. Como se pode ver, a potência perceptiva se
efetiva de forma desarticulada na alucinação. A comunicação intersensorial e
intersubjetiva encontra-se prejudicada pela distensão do arco intencional. Como o arco
intencional nada mais é do que o corpo fenomenal em sua intencionalidade, o
fenômeno alucinatório é, antes de tudo, uma alucinação do corpo próprio. Em outras
palavras, toda alucinação se dá na e pela expressão do corpo fenomenal. O
entendimento da alucinação enquanto expressividade do corpo fenomenal e, portanto,
não como um fenômeno puramente simbólico ou representacional é o segundo ponto
fundamental da concepção de alucinação no pensamento de Merleau-Ponty.
Seguindo o caminho aberto pela consideração da alucinação enquanto
manifestação corpórea, Merleau-Ponty conclui que ela se trata de uma conduta do
corpo fenomenal despersonalizada e apreendida na forma de uma experiência exterior:
o gesto próprio é tomado como de outrem. A alucinação da potência perceptiva
rompe com a dinâmica da comunhão pré-reflexiva e possibilita a projeção da conduta
no mundo externo ou no outro. O termo projeção ganha aqui uma conotação
completamente diferente de sua acepção objetivista, ou mesmo metapsicológica. Não
se trata de um conteúdo interno projetado para fora, mas de uma configuração
existencial na qual a própria objetividade se perde pela falência do contato
intersubjetivo. É preciso aqui lembrar que a abordagem fenomenológico-existencial
redimensiona também a relação entre interno e externo, de forma que a linguagem
ou a imagem é tomada como gesto expressivo no contexto de um campo
intersubjetivo. A descrição psicanalítica clássica criticada por Merleau-Ponty é a da
projeção de um componente condenável do ego para um outro e com isso obtendo
a redução de um conflito psíquico. Mas Merleau-Ponty não vai se ater aos aspectos
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psíquicos e individuais da alucinação, mas sim à função da linguagem enquanto forma
de intersubjetividade. Não há um representante que é delegado de um sujeito para
outro, mas uma falha de contato na qual a antecipação pré-reflexiva do outro está
suplantada pela temática privada. Ser e mundo são indissociáveis e qualquer oscilação
nas condutas existenciais tem reflexo no espaço e no outro. Uma passagem mostra
claramente a interpretação fenomenológico-existencial de Merleau-Ponty ao se
apropriar da descrição psicanalítica dos fenômenos projetivos:
Assim, eu e outro não somos duas substâncias distintas uma da outra. O outro
é quem lhe libera de minha própria ambivalência: somos, ele e eu, duas variáveis de um
mesmo sistema. Por um mecanismo de projeção eu lhe atribuo qualidades que na
realidade são minhas e, inversamente, por introjeção, considero como próprias,
qualidades que são suas. (...) A função da linguagem é só um caso particular da relação
geral do eu com o outro, que é a relação entre duas consciências das quais cada uma
se projeta na outra. (Merleau-Ponty, 1990a, p. 65)
Para o filósofo, esse mecanismo levado ao extremo conduziria à alucinação. O
alucinado anteciparia de tal forma a fala do outro que chegaria a adotar diante de suas
próprias falas uma atitude receptiva. Assim, é no campo da linguagem enquanto
particularidade da relação intersubjetiva e enquanto forma expressiva que a alucinação
verbal precisa ser entendida. A fala é um sistema comunicativo e a alucinação não é
uma relação entre sujeito e objeto, mas uma relação de ser: “... existo pela linguagem
em relação ao outro” (Merleau-Ponty, 1990a, p. 66). Assim, é toda uma dinâmica
existencial que se expressa nessa conduta despersonalizada emblemática que é a
alucinação. Não há sujeito ou objeto, mas campo intersubjetivo; não há representação
ou significado, mas expressão de sentido. Não há nada por trás ou para além do
manifesto. Seu sentido não remete a uma outra natureza, apenas explicita uma forma
de ser. O sentido existencial da alucinação é como os movimentos de ascensão e
queda descritos por Binswanger: todo o ser se move com o fenômeno. Vê-se,
portanto, o quanto a teorização da alucinação proposta por Merleau-Ponty se afasta
das concepções clássicas, revelando uma compreensão do sentido desse fenômeno
a partir de uma ontologia da existência.4
4. É interessante notar que a contribuição de Merleau-Ponty ao movimento da psiquiatria existencial
não se deu na forma de uma teorização que inspirasse a reflexão sobre a clínica, como no caso
de Bergson para Minkowski e Heidegger para Binswanger. Merleau-Ponty desenvolve o seu
trabalho no seio desse movimento, utilizando-se das observações desses psiquiatras existenciais
para refletir de uma forma mais geral sobre o campo existencial da percepção e da patologia,
levantando aspectos para a fundamentação de uma filosofia da concretude, da ambigüidade e da
expressão. Dentre os conceitos da psiquiatria existencial retomados por Merleau-Ponty, destacamse as noções de tempo vivido, direção de sentido, atitude psicoterapêutica, estreitamento de espaço
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A partir do que já foi colocado e desenvolvido, pode-se afirmar que a
conceituação do fenômeno alucinatório no pensamento de Merleau-Ponty está
perfeitamente alinhada com a essência do enfoque da psiquiatria existencial da sua
época. Em resumo, pode-se dizer que a alucinação diz respeito a uma desarticulação
da comunhão intersubjetiva pela fixação em uma única perspectiva, criando um
espaço de paisagem que será reconhecido como uma manifestação exterior por
intermédio de uma conduta despersonalizada do corpo fenomenal. Essa “percepção”,
contudo, carece de espessura, pois a objetividade é garantida pelo intercalamento das
perspectivas temporais. Sua estrutura, portanto, é intrinsecamente distinta da
percepção dita normal, o que de maneira alguma esvanece o seu sentido. A alucinação
é a expressão existencial de uma fixação da dinâmica temporal.
Posto o conceito de alucinação e sua diferenciação em relação à estrutura da
percepção, convém ressaltar que a alucinação, o delírio e a ilusão são possíveis
porque a própria percepção traz o seu germe. Como foi visto, o campo pré-reflexivo
configurado pelo ato intencional de percepção é, por definição, ambíguo. A percepção
é um momento de um horizonte de potencialidades e sua realidade é dada por essa
crença primordial no mundo que as condutas corporais asseguram e reefetuam
constantemente. A existência, portanto, é ambígua. O real e o ilusório são
possibilidades do sujeito perceptivo. Toda a possibilidade de conhecimento está
assentada em uma ilusão fundante, expressa por meio da noção de fé perceptiva. Em
outras palavras, o que nos diz Merleau-Ponty é que o sentido da realidade se baseia
em uma capacidade criativa do ente enquanto um ser-no-mundo cujo lançamento na
trama intersubjetiva se dá por intermédio da corporeidade. Com isso, se percebe o
quanto a alucinação e a percepção expressam a estruturação de um solo comum: o
corpo fenomenal entendido como o lugar existencial do ser-no-mundo; seu ethos.5
vivido e corpo vivido, entre outras. Trata-se, portanto, de uma obra rica de articulações com a
psiquiatria existencial, fundamentando-a em reflexões sobre aspectos ontológicos, éticos e
epistemológicos.
5. Uma outra interlocução constante na obra de Merleau-Ponty é com a psicanálise, em sua vertente
freudiana. Em seus cursos na Sorbonne, discutiu também sobre as contribuições de Melaine Klein.
Contudo, aqui os leitores de Winnicott encontrarão uma certa familiaridade com o discurso do
filósofo: a ilusão como condição para a realização e o lugar da experiência corporal intersubjetiva
para o sentido de continuidade do ser. Apesar de Merleau-Ponty não haver conhecido o trabalho
de Winnicott, ambos partilham de um mesmo movimento de crítica da atitude metafísica – atitude
da qual a metapsicologia é um rebento – e afirmação do campo fenomenal. Nesse caso passa-se
para uma consideração ontológica e ética fundamentada na concretude. Na afirmação de que o
corpo é uma abertura para o mundo encontramos não só ressonâncias de uma filosofia merleaupontiana ou heideggeriana, mas também de uma psicanálise que procura superar a dualidade
interno e externo por meio da afirmação de um campo relacional cujo protótipo é a mãe e o bebê.
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A partir da contribuição teórica de Merleau-Ponty pode-se definir não só a
particularidade de sua conceituação do fenômeno alucinatório, mas também apresentar
a fundamentação ética, ontológica e epistemológica do enfoque fenomenológicoexistencial em psicopatologia. Enfoque esse que fundamenta várias mudanças de
concepção e atitude na prática clínica. A primeira implicação para a clínica psicológica
que se pode extrair dessa abordagem é o alargamento da noção de alucinação trazido
pela perspectiva fenomenológica. Como foi visto, a alucinação é uma conduta
expressiva, motivada por um movimento geral da existência que não pode ser
apreendido logicamente ou de forma representacional. A alucinação só pode ser
explicada em seu sentido existencial, tal como qualquer outra manifestação do
indivíduo, incluindo-se aí suas condutas patológicas. Assim, alucinação, sonho, delírio
e ilusão estão intimamente relacionados enquanto fenômenos expressivos da existência.
Sob a ótica da fenomenologia de Merleau-Ponty e longe dos determinantes objetivos
que os definem classicamente, alucinação e delírio devem ser entendidos na
ambigüidade intrínseca ao corpo e à temporalidade. São manifestações da estrutura
primordial da existência enquanto intencionalidade enrijecida. Cortando os fios
intencionais com o mundo e com a experiência intersubjetiva, o sujeito perde toda a
significação em seu gestos. Isso é verdade também para a fala: o sujeito transborda
todo o seu ser na atmosfera mórbida e faz da relação intersubjetiva uma relação de
si para si, projetando em um outro imaginário sua própria potência comunicativa
abstraída e desubstancializada. Despersonalizando-se, o sujeito alucina e a alucinação
é resultado da estrutura mórbida da existência. A compreensão da alucinação,
portanto, estende-se a um campo fundante da experiência. Dessa forma, a estrutura
e o sentido da alucinação remetem, invariavelmente, à temporalidade, à espacialidade,
à potência intencional, ao corpo e ao outro.
A perspectiva aberta pela instauração do primado de um campo pré-reflexivo
de experiência traz consigo a consideração de dois aspectos de suma importância na
prática clínica: a intersubjetividade e a alteridade. Esse problema é particularmente
visível na questão da alucinação. A alucinação revela toda a alteridade de uma
experiência que não é compartilhada de forma direta e não é assimilável a categorias
racionais. Tem-se, por um lado, a análise explicativa objetivante com todas as suas
limitações, e, por outro, o anúncio de uma postura relativista e puramente estética,
na qual a intervenção psicoterápica é mínima. O entendimento da alucinação em
Merleau-Ponty, entretanto, não se insere em nenhum desses extremos. A possibilidade
de comunicação não está impedida nessa perspectiva. Na verdade, ela é sempre
As articulações da fenomenologia existencial com a psicanálise winnicottiana são um campo
bastante atual de pesquisa e podem ser encontradas em, por exemplo, Loparic, J (1996) e FrayzePereira, J. (1996).
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garantida. A experiência intersubjetiva não está excluída do fenômeno alucinatório.
Os postulados ontológicos do pensamento do filósofo afirmam que não há ser isolado
do mundo e dos outros, uma vez que o ser-no-mundo é uma unidade inexpugnável.
O outro está sempre indicado no horizonte de perspectivas do indivíduo e na
capacidade de retomá-lo. Essa capacidade de comunhão, contudo, está em crise na
patologia. O fenômeno alucinatório está no espaço da paisagem e, portanto, não se
comunica completamente com o campo intersubjetivo. É a partir dessa configuração
inicial que a compreensão do fenômeno alucinatório deve partir e de onde a
possibilidade do encontro entre duas pessoas em um processo terapêutico se anuncia.
Colocada a possibilidade de uma configuração intersubjetiva que possibilite a
compreensão do fenômeno alucinatório na prática clínica, resta agora precisá-lo.
Trata-se de uma atitude que não se refere apenas à alucinação, mas à análise do
sentido em geral, uma vez que a alucinação é uma conduta expressiva como qualquer
manifestação humana. O que poderíamos chamar do encontro entre duas
subjetividades no contexto de um atendimento psicoterápico deve ser pensado como
reconhecimento e acolhimento dos atos expressivos em sua significação motivada
existencialmente, isto é, em seu sentido. Essa atitude requer um desprendimento dos
conteúdos representacionais e téticos da análise reflexiva, pela apreensão da
experiência do outro naquilo que ela desperta na experiência própria, compreendendo
uma pela outra. Dessa forma, a significação e o sentido são entendidos como
emergentes do campo constituído no encontro existencial.
Uma última implicação para a clínica psicológica pode ser derivada do estudo
da abordagem fenomenológica da alucinação efetuada por Merleau-Ponty. Trata-se
da revisão da diferenciação entre o normal e o patológico. Como foi visto, a
compreensão da experiência alucinatória só pode partir da situação em que se
encontram e se interpenetram, cada um na sua especificidade, o “normal” e o
“doente”. Há, portanto, uma gama de experiências que se comunicam mutuamente,
na qual tanto a experiência “normal” como a “patológica” expressam igualmente uma
condição existencial. Pelo que foi colocado com relação à experiência alucinatória,
pode-se dizer que a normalidade e a patologia são diferenciadas pelo grau de
capacidade em transitar temporalmente entre as diversas perspectivas e pelo poder
de se dissolver na objetividade. Objetividade essa que é garantida pelo respaldo
encontrado no mundo intersubjetivo. Na ótica da fenomenologia existencial de
Merleau-Ponty, a normalidade e a patologia na alucinação se confundem com a própria
comunicabilidade intercorpórea:
... o sujeito normal seria aquele que só aceitaria tornar-se verdadeiramente ele mesmo
em contato com o outro, aquele que reconheceria a qualidade enriquecedora da
discussão; o sujeito anormal seria aquele que recusaria essa dialética do eu, que se
obstinaria em só considerar a linguagem como uma espécie de lógica abstrata, que
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permanecendo, contudo, consciente dessa dualidade ver-se-ia impulsionado a reportar
a um outro imaginário um dos termos da contradição. (Merleau-Ponty, 1990a, p. 66)
O grau de “saúde” aqui colocado, definido pela potencialidade temporal, só pode
ser apreendido no seio de uma epistemologia compreensiva e qualitativa, na qual o
motivo comparece como categoria de entendimento e o sentido como meio de
expressão existencial. Tem-se, portanto, uma relativização dos conceitos de
normalidade e patologia em detrimento de uma acepção normativa e quantitativa, tal
como concebida por teorias psicológicas de cunho objetivante e com interesse de
previsão e controle.
A partir do tema privilegiado da alucinação, pôde-se perceber o alcance de uma
análise fenomenológica da percepção no campo da teorização e da prática clínicas,
revelando a importância da compreensão existencial do indivíduo que normalmente
se coloca como um “paciente em terapia”. O recurso ao referencial filosófico de
Merleau-Ponty fornece ao psicólogo subsídios ontológicos e epistemológicos para
repensar esse campo intersubjetivo que se configura na clínica, bem como o interesse
que se posiciona por trás das técnicas de abordagem do fenômeno alucinatório, em
particular, e “patológico”, em geral. É, portanto, no campo da fundamentação da
prática e na possibilidade de articulações com teorizações mais voltadas para a
concretude da experiência clínica que se revela toda a riqueza do pensamento de
Merleau-Ponty para o estudo das psicopatologias. Essas inúmeras considerações, aqui
indicadas de forma introdutória, articuladas, por um lado, a toda uma tradição
psiquiátrica existencial – em que se incluem Minkowski e Binswanger, entre outros
– e, por outro, a um desenvolvimento da psicanálise no sentido de uma valorização
do aspecto relacional – do qual Winnicott é uma figura importante –, são um rico
campo de estudos ainda em desenvolvimento.
Referências
BINSWANGER, Ludwig. Being-in-the-world: collected papers of Ludwig Binswanger. London:
Souvenir Press, 1975.
COELHO JR., Nelson E. A força da realidade na clínica freudiana. São Paulo: Escuta, 1995.
F IGUEIREDO, Luís Claudio Mendonça. Matrizes do pensamento psicológico. 3. ed.
Petrópolis: Vozes, 1995.
FRAYZE-PEREIRA, João A. A questão da ilusão: Winnicott através de Merleau-Ponty. In:
CATAFESTA, I. F. M. (Org.). D. W. Winnicott na Universidade de São Paulo. São Paulo:
Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, 1996. p. 47-58.
FREUD, Sigmund. A negativa. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1970. v. XIX.
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____ Fetichismo. In: ESB, op. cit. v. XXI.
____ Projeto para uma psicologia científica. In: ESB, op. cit. v. I.
LOPARIC, Zeljko. Winnicott e o pensamento pós-metafísico. In: CATAFESTA, I. F. M. (Org.):
D. W. Winnicott na Universidade de São Paulo. São Paulo: Departamento de
Psicologia Clínica do IPUSP, 1996. p. 21-45.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
____ Merleau-Ponty na Sorbonne: resumo de cursos: 1949-1952: filosofia e linguagem.
Campinas: Papirus, 1990a. v. 1.
____ O primado da percepção e suas conseqüências filosóficas. Campinas: Papirus,
1990b.
MINKOWSKI, Eugène. Lived time: phenomenological and psychophatological studies.
Evanston: Northwestern University Press, 1970.
PIÉRON, Henri. Dicionário de psicologia. 10 ed. Rio de Janeiro: Globo, 1996.
P OLITZER, G. Crítica dos fundamentos da psicologia: a psicologia e a psicanálise.
Piracicaba: Editora UNIMEP, 1998.
SÉCHEHAYE, M. A. Memórias de uma esquizofrênica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1950.
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Resumos
El artículo se propone discutir el concepto de alucinación en los campos
psicoterápico y psicopatológico a partir de las consideraciones del fenomenólogo francés Maurice Merleau-Ponty sobre la percepción. Se hace una revisión crítica de las concepciones clásicas de alucinación fundamentadas en epistemologías objetivistas y la
contextualización del fenómeno alucinatorio en el ámbito de una ontología existencial.
La alucinación se funda en el suelo primordial de la experiencia prerreflexiva del cuerpo fenomenal y es caracterizada por: (1) diferenciación intrínseca de la alucinación en
relación a la percepción; (2) expresión del cuerpo propio; (3) despersonalización. Las
implicaciones de esa nueva perspectiva del fenómeno alucinatorio son discutidas en los
niveles ontológico, ético y epistemológico, bien como desde el punto de vista de la psicoterapia y de la psicopatología. En este último aspecto se considera el lugar de la alucinación en relación al sueño, al delirio y a la ilusión, bien como a la diferenciación
entre normalidad y patología a partir de un abordaje fenomenológico-existencial en
psicología.
Palabras claves: Alucinación, cuerpo fenomenal, temporalidad, fenomenología,
psicopatología
L ’article se propose de discuter le concept de l’hallucination dans les domaines
psychothérapique et psychopathologique à partir des considérations du
phénoménologue français Maurice Merleau-Ponty à propos de la perception. On y
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trouve une révision critique des conceptions classiques de l’hallucination fondées sur
les épistémologies objectivistes et le phénomène de l’hallucination y est situé dans le
cadre d’une ontologie existentielle. L’hallucination s’origine de la base primordiale de
l’expérience pré-reflexive du corps phénoménal et se caractérisée par: (1) différenciation
intrinsèque entre l’hallucination et la perception; (2) expression du corps propre; (3)
dépersonnalisation. Cette nouvelle perspective du phénomène de l’hallucination a des
implications discutées aux niveaux ontologique, éthique et épistémologique, ainsi que
à partir du point de vue de la psychothérapie et de la psychopathologie. À cet égard,
sera considéré la place de l’hallucination par rapport au rêve, au délire et à l’illusion,
ainsi que la différenciation entre normalité et pathologie dans une approche
phénoménologique-existentielle de la psychologie.
Mots clés: Hallucination, corps phénoménal, temporalité, phénoménologie,
psychopathologie
This article consists of a discussion on hallucinations related to the field of
psychotherapy and psychopathology based on considerations regarding perception
presented by the French phenomenologist Maurice Merleau-Ponty. A review of the
classical conception of hallucination is presented, placing this phenomenon in the
context of existential ontology. Hallucinations are grounded the phenomenal body’s prereflexive experience, and are characterized by: (1) the inner difference between
hallucination and perception; (2) the expression of one’s own body; and (3)
depersonalization. Consequences of this new perspective for hallucinatory phenomenon
are discussed on ontological, ethical and epistemological grounds, as well as from the
point of view of psychotherapy and psychopathology. On this latter point, the place of
hallucination in relation to dreams, delusions and illusions is considered, as well as the
difference between normality and pathology from the point of view of an existential
approach in psychology.
Key words: Hallucination, phenomenal body, temporality, phenomenology,
psychopathology
Versão inicial recebida em junho de 2001
Aprovado para publicação em março de 2002
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