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“Foram amadores que construíram a arca de Noé, profissionais

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“Foram amadores que construíram a arca de Noé, profissionais
O TRABALHO EM SAÚDE MENTAL
(Helio Monteiro Júnior)
“Foram amadores que construíram a arca de Noé, profissionais
construíram o Titanic.”
Um olhar sobre o livro “clinica peripatética” de Antônio Lancetti leva-nos a
seguinte reflexão: será o trabalho da saúde mental profundamente dependente
da técnica? É uma questão de aplicação de conhecimento técnico?
A prática relatada no texto não aponta para isso, pelo contrário, as dificuldades
na formação da equipe (urgência de profissionais) faziam com que muitas
vezes esses profissionais sequer tivessem passado por uma experiência no
hospital, foram alocados aos CAPS ás vezes sem nenhuma experiência,
muitas das vezes não sabiam sequer por onde começar. Talvez esteja aí o
segredo, não tinham nenhuma formação viciosa, estavam virgens em termos
de prática, tiveram que se descobrir descobrindo uma prática.
“Durante os primeiros meses os profissionais da área psi ficavam sem função e
essa situação provocou um efeito analítico extraordinário.” (Antônio Lancetti,
2008)
Esses profissionais não tiveram que se desconstruir, não experimentaram o
adágio que diz: “o problema do mundo não está em fazer as pessoas
aprenderem coisas novas, mais sim em fazer com que elas se esqueçam
das velhas.”
Até porque a luta antimaniconial não é apenas uma questão de mudança de
paradigma, é como nos diz João em seu evangelho a respeito da nova atitude
dos cristãos: “metanóia, metanóia, é preciso metanóia.”
Metanóia é uma palavra grega que significa conversão (tanto espiritual como
intelectual), mudança de direção, mudança de mente, mudança de atitude,
temperamento e caráter.
Estes profissionais, nos fala o texto, se tornaram verdadeiros terapeutas,
destemidos, apaixonados e com uma verdadeira relação daimônica com sua
práxis profissional.
O texto nos fala que por ocasião da intervenção na Casa de Saúde Anchieta,
que uma das primeiras atitudes foi colocar o mapa da cidade de Santos numa
parede do hospício, abrigando os pacientes nas enfermarias segundo sua
região de moradia. Interessante, pois talvez intuitivamente aí estivesse
surgindo um conceito fundamental para os CAPS de hoje, o de territorialidade.
Um território não pode ser entendido apenas como uma limitação geográfica de
uma determinada área subentende também uma micro-cultura e uma micro
política que por sua vez podem ser importantes no processo de adoecimento.
Neste momento, penso que uma reflexão sobre o trabalho do agente
comunitário de saúde seja altamente estratégica, pois este tem fluxo livre sobre
o território, indo e vindo, vendo aquilo que os profissionais de saúde não
conseguem ver. Conduzidos pelos agentes comunitários de saúde os
trabalhadores de saúde mental podem ser colocados num campo existencial
onde as relações de afeto, de cooperação e produção de saúde mental se
exacerbam.
Tudo isso pode levar a um paradoxo, onde as práticas de saúde mental
ocorrem ao mesmo tempo, dentro e fora das unidades de saúde.
Na física quântica todas as vezes que buscamos a essência da matéria a
natureza nos responde com um paradoxo. Só um paradoxo pode nos dar conta
do que é essencial para física, talvez na saúde mental seja a mesma coisa.
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