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Um estudo do feminino na Obra Jogos Infantis de Haroldo Maranhão.

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Um estudo do feminino na Obra Jogos Infantis de Haroldo Maranhão.
História, imagem e narrativas
No 21, outubro/novembro/2015 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Um estudo do feminino na Obra Jogos Infantis de Haroldo Maranhão.
Francisco Pereira Smith Júnior
Doutor em Desenvolvimento sustentável d Trópico úmido
NAEA, Professor Adjunto II UFPA [email protected]
RESUMO: O presente artigo analisa a maneira como o escritor paraense Haroldo Maranhão trata do feminino
em sua obra Jogos Infantis, com uma linguagem exercida com dinamismo e simplicidade, em que filtra os
acontecimentos da vida sexual de crianças e adolescentes em uma narrativa arrojada e punjante, de forma que
explica a sexualidade com senso de humor de forma peculiar.
ABSTRACT: This article analyzes the way Haroldo Maranhão writer comes to the female in his book Jogos
Infantis with a exerted language with dynamism and simplicity filters the events in the sexual life of children and
adolescents in bold narrative and punjante, so that explains the sexuality with a sense of humor with a peculiar
way.
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História, imagem e narrativas
No 21, outubro/novembro/2015 - ISSN 1808-9895 - http://www.historiaimagem.com.br
Introdução
O processo de educação social da mulher é resultado de estágios que deveriam ser a
explicação de muitas reações “machistas” que existem desde a infância, pois são resultado da
imposição de uma “cultura comportamental” à mulher, diferenciada da educação reservada ao
homem.
A mulher possui uma figura construída desde a mitologia e esse plano mítico revela a
presença de deusas e ninfas com alto grau de beleza e formosura, mas que eram movidas por
sentimentos que indicavam sua fragilidade, ou seja, choravam, apaixonavam-se, cometiam
adultério e mentiam, assim como as mulheres mortais. Entretanto deveriam representar a
perfeição da figura feminina e o que observamos na atualidade é a preservação de conceitos
que, muitas vezes, não correspondem ao avanço literário que existe a partir de novas visões
da crítica literária moderna.
Uma sociedade que utiliza os mais variados meios de comunicação possui o dever de
quebrar os modelos convencionais que a rege ou mostrar desejos e anseios que correspondam
aos que representa a mulher atual. Desde estabelecer uma postura feminina no trabalho, até a
forma de se portar em lugares públicos são formas de controle, assim como o reforço de uma
ideologia ultrapassada, são pontos que fazem da mulher um ser modelado socialmente, um
produto de um estereótipo social, que deverá ser a bela, a educada, a esposa exemplar e boa
mãe. No entanto, quando refere-se à sexualidade como tema a ser abordado em literatura,
percebe-se a exploração do aspecto psicológico das personagens femininas e essas marcas
culturais revelarão a máscara da mulher construída em sua condição e papéis sociais. As mais
variadas figuras femininas tomadas como demoníacas, adúlteras, lésbicas, prostitutas,
usurpadoras são as mais intrigantes e complexas formas de verossimilhança. Percebe-se,
então, que, na maioria dos casos, o sentimento de beleza será um dos principais pontos que a
personagem feminina será explorada.
Isto também serve para estabelecer sensações de conforto ao leitor. A mulher passa uma
imagem de coerência fixada pelo leitor sendo estabelecida pelo escritor, em que este terá
quase que “regras” para produzir a sua personagem. Encontramos em muitos textos esta
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exploração da imagem sexual da mulher como tipo de reforço da masculinidade e, em outros
casos, representa o seu próprio poder diante deste homem que poderá ser o dominado.
No lugar de dominador esta mulher com um libido exarcebado o manipula e poderá ser
manipulada, ou seja, os textos exploram a imagem feminina enquanto objeto do instinto
masculino ou , então, enquanto ser majestoso. Na verdade, sabemos que há vários pontos de
diferenciação entre os homens e as mulheres e podemos afirmar, que em sua maioria, são
frutos de um pensamento patriarcal, no qual se pretende colocar a mulher em uma posição de
inferioridade, principalmente quando o assunto é sexualidade.
Na atualidade o “machismo”, apesar de um pouco combatido pelas novas posições da
mulher, detentora de uma parte do espaço literário em defesa de uma imagem moderna, tenta
resistir a uma frente literária que procura mostrar a imagem de uma mulher arrojada, dinâmica
e consciente de seu espaço, principalmente em assuntos polêmicos que tenham uma estreita
relação com a sexualidade.
O feminino na obra Jogos Infantis de Haroldo Maranhão
Os contos de Jogos Infantis, de Haroldo Maranhão, exploram a figura feminina algumas
vezes como objeto ou como sujeito da sexualidade e dos desejos. No primeiro conto,
“Cortininha de Filó”, a personagem Bela, é a prima do narrador que dá inicio à vida sexual do
primo. No entanto, apesar de também ser iniciante no sexo, apresenta um certo controle sob a
situação, pois até o momento em que a narrativa se desenvolve aos olhos do leitor, a
penetração do pênis na vagina de Bela, é quando ocorre o rompimento do hímen. Não há
anteriormente a ideia alguma de que a personagem seria virgem, em função de suas ações e
suas atitudes mostrarem a audácia de uma fogosa mulher.
Nós estávamos colados, braços, coxas e pernas, de alto a baixo, parece que eu estava com uma
febre de quarenta graus ou mais. Me sentia ótimo, ela podia olhar o teto o resto da vida e aí eu
fechei os olhos e flutuava leve-leve, não sentia nada por baixo de mim, é como se estivesse
voando, fora da cama, como se por baixo não houvesse coisa sólida, só ar. Foi quando a Bela
virou-se para mim e começou a passar as unhas pela barriga me causando uma friagem e umas
cócegas e pegou desta vez com uma delicadeza que até me espantou, o meu negócio inchadíssimo,
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parecendo que tinha sido picado por um enxame de cabas. Ela olhava para ele de muito perto,
virava e revirava o cartuchinho de carne, um picolé quente, qúe não derretia. Percebi indecisão na
Bela. E então falou a única palavra naquela noite, uma palavra só, palavra de três letras, que eu
morro e não esqueço essa palavra:
Vem!”
Ora, a Bela tinha cada uma! “Vem.” Ir aonde se eu estava ali? Ela falou “vem” muito, muito
delicadamente, me puxou e eu tudo deixava, deixei, fui deixando, a Bela pelo visto sabia muito
bem o que estava querendo. “Vem.” Ela me guiou que eu não sabia nem a décima parte da missa,
às vezes se .impacientava com a minha santa burrice e para a Bela deve ter sido um trabalho dos
seiscentos, mas ela insistia e insistia, acabou me botando de bruços por cima dela. Aí abriu as
pernas e eu fiquei feito um bobo naquele espação sem saber o que fazer. A Bela fez tudo, tudo, e
gemia como se doesse e devia doer. (MARANHÃO, 1986, p. 8-9)
Ao ler o comentário crítico de Margaret Anne Clarke, da Universidade Federal do Rio
de Janeiro, que se dedicou em parte à obra de Julia Kristeva a respeito da imagem feminina na
literatura, com o título de “Para além do simbólico”. Segundo Clarke (1999) Julia Kristeva
realiza um estudo com base na obra de Freud, que valoriza a escrita feminina por talvez
entender a consciência e o que se passa no universo feminino, permitindo que se abra um
novo caminho literário na constução dos elementos da narrativa, pois uma nova facção de
escritoras permitiria uma desconstrução patriarcal que ainda persiste em sobreviver no
universo literário. Para Kristeva a teoria do sujeito em processo e da cora nos permite
examinar a escritura das mulheres a partir duma perspectiva anti-essencialista e antihumanista. Se aplicarmos esta teoria à questão de gênero e da diferença sexual, temos, então,
uma visão feminista duma sociedade dentro da qual o sujeito humano seria livre para
exprimir-se livremente, além e fora das oposições binárias, como eu/outro, sujeito/objeto,
homem/mulher, que são apenas manifestações de códigos sociais restritos que reprimem a
poesia e a criatividade. A tarefa da escritura feminina, portanto não deve ser a adoção dos
códigos lingüísticos do poder patriarcal. Porém, as escritoras não devem evitar os encontros
com o simbólico, mas, em vez disso, construir textos e poesias que resistem às regras e às
regularidades da linguagem convencional, recuperando e afirmando todo o potencial poético
sem limites que fica na cora, fonte da todos os nossos desejos e impulsos mais profundos.
O universo feminino aos poucos alcança seu apogeu. A força literária das personagens
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femininas em Jogos Infantis tenta apresentar uma figura significativa da mulher enquanto
reação à imagem da figura estereotipada de objeto na literatura, apesar da obra mostrar, em
quase todos seus contos, personagens femininas como estigma cristalizado da mulher objeto.
Esta personagem é a representante de um ciclo pequeno da obra que tenta demonstrar voz e
ação na trama. Referência que se faz à “Normélia” , personagem feminina de “Movimento no
Porão”, a governanta, uma mulher com dupla personalidade, pois durante o dia é a repressora
da casa, uma figura matriarcal para aqueles pequenos meninos que passavam as férias na casa
da avó.
A Normélia era escovadíssima, mas andava o dia todo de cara enfezada, tratava a gente com
brutalidades, exigia demais, reclamava, ralhando por qualquer besteirinha. Era superauroritária, a
rainha da Inglaterra de Algodoal e minha avó gostava, elogiava, queria que impusesse respeito.
Meus irmãos mijavam-se de medo, mas eu, hein! Eu não dava pé para as ranzinzices dela, de mau
humor, sempre para variar, que vivia dando rabanadas e até gritava com a gente, e a burra da
minha avó, conforme disse, foi quem lhe deu semelhante autoridade de gritar conosco e ela
abusava. (MARANHÃO, 1996, p. 26)
A velha não descia nunca para vigiar o porão, que ela metia a mão no fogo pela Normélia, quem
olhasse a Normélia tinha a impressão de ver uma freira, sendo dessas mulheres de se entregar o
governo de uma casa, como hoje nem se encontra mais. (MARANHÃO, 1996, p. 27).
No entanto essa imagem séria, santa, é quebrada pelo narrador, ao revelar uma mulher
que encontra na noite a razão para mudar sua postura e comportamento. Dá espaço na
narrativa para uma mulher quente, sedutora, sedenta de amor, seja com um homem mais
jovem ou mais velho, estabelecendo a quebra dos padrões existentes a respeito da sexualidade
feminina, na época em que são vividos os contos estudados. Logo desenha-se o psicológico
de uma mulher que apresenta “máscaras”, que são reveladas a partir de impulsos dos mais
variados, libertando-se só em alguns momentos, para depois recompor sua imagem mulher
pura e de respeito por suas atitudes; revela-se também, diante do leitor, a imagem do narrador
em primeira pessoa, como um sádico que, apesar de sofrer crueldades morais, aceita sua
condição de ser explorado sexualmente.
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Na manhã seguinte, era a mesmíssima mana, me dava até menos pão, cortava ao meio, dizia que
tinha pouco, que o queijo havia acabado, eu sabia que não havia acabado, mas quem é que tinha
coragem de contradizer a mandona? Derramava o café no pires, tenho certeza que de propósito, e
botava mais café do que leite, quando sempre gostei de mais leite e de pouquíssimo café.
(MARANHÃO, 1986, p. 29)
As personagens femininas da obra poderiam ser entendidas a partir do que afirmou
Antonio Candido, em seu texto A personagem do Romance:
Por isso quando toma um modelo na realidade, o autor sempre acrescenta a ele, no plano
psicológico, a sua incógnita pessoal, graças a qual procura revelar a incógnita da pessoa copiada.
Noutras palavras o autor é obrigado a construir uma explicação que não corresponde ao mistério
da pessoa viva, mas que é uma interpretação deste mistério; interpretação que elabora com a sua
capacidade de clarividência e com a onisciência do criador, soberanamente exercida. (CANDIDO,
2002, p. 65)
A personalidade não revelada é o mistério das personagens que nunca o escritor irá
declarar totalmente, pois pela própria natureza da personagem, que é a verossimilhança, estes
não poderão permitir sentimento de certeza ao leitor, já que são umas leituras do incerto, de
um homem real.
As personagens Bela, de Cortininha de Filó, Tatá da narrativa Tatá, Normélia, de
Movimento no Porão, Narcisa de Rede de Quatro pés, Lenira de Mar de Coalhada, Zazá e sua
Mãe, dona Jorilda de Menina-Moça, dona Celuta de Viagem ao Curro, Elisa, de Palavras
Mágicas, Lastênia, de Violinista, Áurea, de Menino que faz Menino, e Arduína, de Bilhete,
representam aquilo que o fictício pode revelar a respeito dos mistérios da sexualidade,
questionando os desejos íntimos de personagens de uma sociedade que já está em processo de
caos, pelo fato de não saber rediscutir certos temas que são velados em uma posição
tradicional de valores .
A personagem Bela, de Cortininha de Filó, uma adolescente que impressiona o leitor
por sua imagem de pureza e inocência (máscara), em função de seu silêncio, revela-se como
uma moça inibida que fala pouco, mas se mostra uma perfeita iniciadora sexual de garotos.
Tatá é outra personagem de poucas falas, uma moça que é empregada em uma casa de
família, que, apesar de suas medidas avantajadas, é caracterizada como de sensual aparência,
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uma mulher pacata e correta, nada mais são que meios para esconder um caráter de luxúria e
libertinagem que a moça traz em si; esta personagem também encontra nas noites motivos
para se revelar uma mulher sedenta por sexo, que saciava suas vontades na prática de
iniciação sexual de dois irmãos. “Tatá era meio gorda, teria seus vinte e cinco anos”.
(Maranhão, 1986, p.11).
Normélia do conto Movimento no Porão era mulher de imagem séria, também de
poucas palavras, mas que esconde uma faceta de fogosa e sedutora. Narcisa (“Rede de Quatro
Pés”), uma professora, era pedante, cheia de “pavulagens” e vantagens, fazia questão de
mostrar a diferença existente entre todos e ela, mas em uma estada na casa do pequeno
narrador do conto “Rede de Quatro Pés”, revela ser calorosa e ardente por sexo”.
A Narcisa estava com toda a gana. ela mesmo levou a minha mão pro peito dela, que eu me fartei
de pegar e até fiz uma coisa que nunca tinha feito com ninguém, que foi mamar nela. Mamei na
Narcisa, meti o peitinho dela inteiro na boca, que ela estremecia toda, se debatia como um
peixinho dentro da rede, só que peixe é na rede de arrastão e ela tremia e tremia na minha rede. Ela
me pegava em todas as partes, que quem pensar que professora só segura em caneta está muito
enganado. (MARANHÃO, 1986, p. 34).
Uma curiosa personagem é Lenira, do conto Mar de Coalhada, pois retoma a temática
do sexo anal na obra, depois da leitura de “Cachorro Doido”, que além da temática da
homossexualidade, explora a discussão do sexo anal. Essa personagem é uma empregada
doméstica, virgem, que, ao contrario de Bela (“Cortinhinha de Filó”), tomava cuidado em se
manter nessa condição, apesar de ser uma mulher fogosa por sexo; Lenira epresenta a figura
da mulher consciente , que não se deixa levar por impulsos sexuais, mas, ao mesmo tempo,
permite ao leitor uma interpretação fundada no conceito de perversão, pois cria-se um dúbio
questionamento a respeito do comportamento da moça. Agiria assim para a preservação de
sua virgindade ou por pura perversão sexual da personagem?
Pela frente não, que eu sou moça. Por aí, por aí. Mete, é bom, tu vai gostar.” Bem, ai eu meti, mas
ela devia ter uma prática incrível, empinou-se todinha. (MARANHÃO, 1986, p. 39)
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Outra interessante personagem da obra Jogos Infantis foi recortada do conto MeninaMoça, uma simpática moça de família, chamada Zazá e a sua curiosa e “protetora” mãe, dona
Jorilda.
Zazá namorava o narrador-personagem do conto. Era “séria”, “mulher para casar”,
calada, assim como seu pretendente, um rapaz que jamais fugiria do compromisso firmado
com a moça e seus pais, e o sexo era algo que ainda não havia ocorrido entre o casal; no
entanto, isto não os impedia das “práticas sexuais preliminares”, “um estágio sexual”, ou seja,
faziam tudo aquilo que não envolvesse penetração, eram apenas brincadeiras sexuais, e a mãe
de Zazá, uma senhora de aparência séria, mas de questionador caráter, era pega
constantemente pelo narrador cometendo atos de voyeurismo; dona Zorilda se excitava ao ver
os dois jovens se tocando e jamais cometeu nenhum ato de repressão com o casal e nem com
a própria filha.
Dona Jorilda vigiava o namoro, que vigiava, vigiava, e sabe lá se não se excitava vendo os dois
adolescentes se procurando adoidados, a Zazá manobrando a alavanquinha para cima e para baixo
e eu com o lenço pronto para evitar a molhação, que quando ela conseguia eu já estava tapando o
espirro, que era um senhor espirrão mais parecendo chafariz, que devia subir a um metro ou mais,
e que ensopava o lenço não ficando um pedaço seco. (MARANHÃO, 1986, p. 43).
O conto Viagem ao Curro é uma narrativa que apresenta a pretenciosa figura de dona
Celuta, uma conhecida da família do narrador, que, ao chegar à residencia deste para passar
uma noite, é flagrada pela mãe do menino em atos lascivos em sua rede. Logo pela manhã,
após uma terrível discussão com a mãe do garoto, dona Celuta marca um encontro em um
lugar suspeito, “um Curro”. Pede apenas que o garoto leve algum trocado, pois o lugar era de
prostituição. Ao chegarem ao local, a mulher e o garoto deleitam-se no ato sexual, fazendo
daquele dia o mais inesquecível da vida do inexperiente e polido garoto que sempre estava à
procura de saciar os seus impulsos e desejos sexuais tão intensos e perturbadores.
Não me chama de Dona Celuta, me chama de Celuta, de Celutinha, de meu amor. Me chama, e me
beija, passa a língua, passa, que tu vai ver que é bom, experimenta, anda.” Mas achei uma enorme
porcaria, eu hein?, aí ela passava a língua na minha pimba, me lambuzava todo de cuspo, passava
a língua no meu saquinho e um pouco na minha bunda, mas lá mesmo por onde se faz cocô, e me
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animava: Viu? Eu não tenho nojo de ti. Como é que tu tá com nojo de mim?” “Não é nojo, é que
eu nunca fiz, não sei direito, eu gosto é de meter, meter eu gosto, deixe, deixe, que eu meto, meter
eu meto.” Mas Dona Celuta não sei que diabo estava acontecendo com ela, que ela queria era
beijo, e lá. Beijar eu não beijava e não beijei, aí ela quase chorava. “Então passa o dedo primeiro
de leve, assim, como eu, faz, vem, vem, passa, passa o teu dedinho, passa a mão, esfrega mas não
de com força, que quando estiver bem no ponto tu vem, monta e mete todo.” Eu fiz como ela
mandou, e a Dona Celuta gemia mas gemia tão alto que eu comecei a ficar com medo, pensando
que ela estava tendo um ataque, aí a amiga dela bateu na porta e ralhou: “Celuuuuuuta!” Aí a Dona
Celuta botou o travesseiro na boca para abafar, ela mordia o travesseiro e gemia agora baixinho, e
eu montado na vaca velha. Quando acabamos, ela me perguntou pelo dinheiro. Eu tinha
conseguido aquelas notas amarrotadas, que ela desamarrotou e foi lá para dentro com a tal de
amiga, e depois nós saímos e pegamos de novo o bonde para o Jurunas. (MARANHÃO, 1986, p.
55-56)
A provável empregada doméstica, já que o narrador não define a profissão da
personagem e nem sua condição no contexto, é a intrigante figura que faz uso de “palavras
mágicas”, Elisa, mulher que, apesar de não se comunicar muito e possuir um jeito delicado,
inocente e um ar quase angelical, quando falava tinha o poder de excitar seu parceiro,
utilizando expressões nunca previstas para a boca de uma mulher com sua aparência.
Elisa era uma flor de delicada em tudo o que fazia, tinha os dedinhos de seda, parecia mais pele de
bebê roçando minha barriga, que eu sempre dormi de barriga pra cima e de pijama aberto. Quando
ela pressentia que eu estava acordado, mas acordado mesmo, baixinho dizia na minha orelha:
“Vamos foder?. (MARANHÃO, 1986, p. 58)
A personagem demonstra uma consciência de seus atos, tornando-se até superior na
narrativa,
pois cria para o leitor uma imagem de “mulher fatal”, decidida e resolvida,
características que são percebidas através da forma com que organiza seus gestos e suas falas
na construção do texto.
Em todos os momentos do conto procura deixar claro o que ela quer do narrador
personagem, chamado Saulo, assim como o elo que a une ao outro amante, o senhor Pardal,
homem de algumas posses. Elisa possui consciência das suas necessidades, mas não reprime
suas vontades, nem seus desejos nas situações criadas no texto; o que se percebe é um perfeito
domínio da personagem em toda a narrativa, fazendo de seus “amantes” meros fantoches nos
papéis de proporcionar-lhe todo tipo de satisfação, principalmente a sexual, que a sedutora
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personagem não despreza.
Tu gosta de fudê comigo, gosta?” “Muito. Muito. Adoro fudê contigo, Saulo. A tua bucetinha fica
louca-louca. Qué fudê, qué? Fode, fode, mete todo, empurra ele e fode, fode, mais, mais, fode,
fode. Esporra, esporra tudo, tudo na tua bucetinha.” Na véspera da viagem dela a gente não
dormiu. Criei coragem e perguntei: “Elisa, me diz a verdade, não mente, tá? A verdade. Se eu
mereço alguma coisa tu não mente, tá bem?” “Pergunta, meu coração. Juro. Não minto. Palavra!”
“Elisa: tu diz pra eu esporrar na minha bucetinha. É minha mesmo, minha?” “É, meu anjo. E tu
nem imagina como é! É todinha tua, seu bobão, todinha.” “Elisa, e o Dr. Pardal?” Ela riu, não
parava de rir, que eu pensei que ela caçoasse. “Meu homenzinho: é todinha mesmo, todinha tua.
Mesmo. De verdade. Essa pessoa que tu falou não tem a mínima importância, a mínima. Tu quer
saber de uma coisa? Com ele não consigo gozar, não há hipótese. Claro, ele nem desconfia, o
burrão. Tá pensando que é o maior dos machos. Eu tenho até pena, tu sabe? Só não chuto porque
eu preciso, só por isso. (MARANHÃO, 1986, p.59-60)
A personagem Lastênia, do conto A Violinista, é uma moça culta, pudica, primorosa e
cortês, revela-se mais uma das intrigantes e decididas protagonistas da obra Jogos Infantis.
Constrói-se esta personagem a partir de uma inversão de papéis, aparecendo em um
determinado momento da narrativa uma mulher ativa e decidida sexualmente, que, sem o
menor complexo de culpa, mantém relações sexuais com o vizinho de seu pai, uma criança.
A história se desenrola a partir da morte do pai de Lastênia, quando a vizinha,
compadecida com a dor da moça, não deixa que ela durma na casa do pai falecido e oferece
sua casa; porém, ao anoitecer, a jovem transforma-se em uma insaciável mulher à procura de
sexo e realiza o ato sexual com o sobrinho da generosa vizinha.
Na primeira noite elas duas devem ter conversado até às tantas, que a minha tia esse defeito tem,
fala pelos cotovelos, que nem vi quando a professora chegou, só quando já estava grudadíssima ao
sobrinho do coração da Tia Cota, que eu sentia nas costas o abração quente daquela carne.
Assustado me mexi mas ela mais que depressa me botou a mão na boca: “Psiu! Quietinho,
quietinho, minha flor.” São essas coisas que a gente não sabe explicar: aquele minha flor me
arrepiou a pele e desceu um frio danado pela espinha, e então ela me apertou como se eu fosse
fugir e eu queria tudo menos fugir. Na minha nuca eu sentia o bafo da respiração. Ela de surpresa
me virou e sapecou um beijo que eu quase sufoco, não podia respirar nem nada com a língua dela
se metendo e se mexendo na minha boca, por muito pouco aquele beijo não me mata.
(MARANHÃO, 1986, p. 62).
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Quando dei por mim, a minha Lastênia enfiava o meu pinto na boca, enfiou o pinto, os ovos,
tudinho, que sumiu e fazia rolar na boca, enrolava parece na língua, com as bochechas, que eu só
faltava gritar, aí era a minha vez de me retorcer todo, que eu não via nada-nada, era tudo escuro,
um frio incrível dentro de mim, eu cheguei a ter a sensação de que relâmpagos acendiam e
apagavam embaixo da minha pele. Quando espirrou meu leitinho, ela engoliu sem perder uma
gota, e sugava com tanta força para tirar o restinho, que nem molhou o lençol, pelo menos eu
penso. A Lastênia era um anjo de delicadeza e um domingo me levou para passear no Bosque.
Minha tia falou vocês tão vendo o que é educação dessa moça prendada e artista competente?
Olhem só o trabalho a que se dá, de levar o Lico para passear. (MARANHÃO, 1986, p. 64).
Áurea é o nome da encantadora mulher de trinta anos, persnagem do conto Menino que
faz Menino. É também empregada doméstica, como em grande parte dos contos desta obra. A
narrativa apresenta a saga de uma sedutora figura feminina que, ao deitar-se com o narradorpersonagem, um garoto inexperiente, insiste ser habilidoso em sexo, registra em sua memória
a marcante imagem da mulher sensual, símbolo de sensibilidade, da beleza e do erotismo. O
protagonista, diante de tanta formosura, não contém seus impulsos, vindo a ser marcado para
sempre pela inesquecível personagem feminina.
Quer dizer que tu já tem namorada?” “Nada disso. Namorada não, que eu não sou de perder
tempo, sabe? Não sou desses bobocas de passearem no Largo da Pólvora de mão dada, entendeste?
Gosto de ir logo ao fundo do fundão, dá pra entender?” “Ah, é? Muito bem. Quer dizer que tu já
conhece mulher?” “Várias. Perdi a conta. O que tu quer? Já sou homem. Olha, Áurea, eu vou te
contar um segredo, elas dizem que gostam, dizem que eu sou dos bons.” Áurea soltou uma
gargalhada: “Tu vai longe, menino.” “Menino, é? Menino que já faz menino tu acha que é menino.
(MARANHÃO, 1986, p. 72).
O conto Menino que faz Menino explora também o aspecto do esclarecimento sexual,
ou seja, a falta de informação existente nesta fase da vida sexual do homem, pois utiliza a
figura de um menino, um fanfarrão sexual, para demonstrar a ineficiência da conscientização
sexual existente na sociedade.
Montei nela com fome, era um polpa dura, me ajeitei como pude na rede, abri com os dedos
passagem no túnel no qual penetrei, mas mal entrei não consegui suportar o rojão leitoso que saiu
de mim entupindo o túnel, de modo que havia um mingauzão que vazou pelas bordas. Mas não
pude dormir: eu emprenhara a Áurea, metera nela meu esperma e um filho tinha porque tinha de
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nascer. Amanheci pensando na vergonha, na barrigona da Áurea, será que iriam me obrigar a casar
com a Áurea? (MARANHÃO, 1986, p. 73).
A última personagem a ser analisada é Arduína, uma mulher de imagem neutra, já que é
apenas protagonista de uma narrativa relatada em uma carta, escrita por um garoto de índole
suspeita, que culpa, Arduína por ter sido sua assediadora sexual; a personagem é descrita pelo
garoto como promíscua, degenerada, e este teria sido vítima dessa mulher que se dedica aos
prazeres sexuais. O conto O Bilhete vem mais uma vez reforçar a figura feminina neste
conjunto de quinze contos de Jogos Infantis, harmonizando um conjunto de mulheres nas
mais variadas narrativas que estão à frente de seu tempo e estabelecendo uma sustentação do
seu espaço, através de seus atos e comportamentos, espaço e tempo que se fortalecem através
de um discurso “arrojado” construído pelo narrador.
A questão da postura da mulher na literatura sempre foi algo que motivou muitos
pesquisadores a observar o perfil das personagens femininas e suas ações diante da questão da
sexualidade, esta também foi a idéia desenvolvida pela Professora Renilda Bastos, que analisa
a mulher como ser “atacante”, para fazer sua própria história, revelando um novo perfil da
mulher ficcional diante da mulher real, uma perfeita reformulação de valores e imagens. Vejase abaixo um trecho do texto As Mulheres de Jogos Infantis,” artigo publicado na revista de
graduação Asas da Palavra.
Muitas são as leituras da realidade que a ficção sugere, e o caminho da sexualidade feminina foi o
escolhido neste trabalho, que não quer dar conta de tudo, mas que viu uma fuga dos modelos
pensados para as mulheres e isso está colocado no comportamento de muitas personagens. Quem
sabe, Haroldo Maranhão, ao construir a imagens fictícias de “Jogos”, quis dar uma alfinetada na
ditadura do discurso social que sempre colocou a mulher num plano inferior ao do homem,
principalmente no que se refere à sexualidade. Quem sabe? E aí, nesse caso, não estamos
confundindo narrador com autor, estamos falando daquela voz implícita do autor, presente nas
entrelinhas de alguns contos, “Movimento no Porão” é um exemplo.
A “Viagem” pode continuar porque os caminhos são múltiplos e a leitura de uma obra de ficção é
sempre ilimitada, algumas jamais se entregam por completo, no entanto, a imagem que fica desta
leitura é que as “mulheres” de Jogos Infatins sempre encontram um espaço para que seu desejo se
concretize e como “ser feliz por um triz”, seja na rede ou em alguma pequena cama dentrro de um
porão, seja no silêncio ou ao som de “palavras mágicas”, essas “mulheres” são o que, na realidade,
as mulheres eram impedidas de ser. (BASTOS, 2002, p. 61)
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Os antigos moldes de comportamento feminino, pertencente a uma sociedade arcáica,
não fazem mais parte do contexto da vida moderna, a mulher passa a fazer parte de uma
disputa de território de poder, seja ele social, político e até sexual. O modelo de sujeito frágil
e inferior e dissecada por um discurso que coloca a mulher como protagonista de suas
próprias histórias.
Considerações Finais
As inovações trazidas na linguagem da obra Jogos Infantis, assim como em outras
obras do escritor Haroldo Maranhão são confirmadas no discurso dinâmico e coloquial de
seus personagens, essa artimanha reforça o potencial do autor em saber conduzir uma escrita
que se aproxima da imagem de um cotidiano urbano e ao mesmo tempo familiar.
Em uma sociedade moderna, vê-se a era da valorização da mulher, não há mais a
mulher e o homem, mas várias mulheres e vários homens, com personalidades e
subjetividades diferentes; não há mais uma visão essencialista sobre os elementos de uma
sociedade inegavelmente dinâmica, os menores desejos, a dessacralização das questões
sexuais, a procura do prazer sem repressão, a aproximação do eu com o outro marcam o início
de uma sociedade emergente, consciente de novos papéis e opiniões, possibilitando à
literatura, dentre tantas outras funções, ser o instrumento de investigação para desvendar
conceitos retrógrados, que ainda persistem em resistir, cabendo-lhe reformular, reestruturar,
destruir e reconstruir a base de seu estudo, através do texto, do enredo, das personagem, pois
dessa forma, poderá continuar alimentando o compromisso crítico e reflexivo da literatura.
Referências
BASTOS. Renilda. In Revista Asas da palavras. Revista da Graduação em Letras, Belém:
Unama, v. 6 n.13, 2002.
CLARKE, Margaret Anne. Julia Kristeva: para além do simbólico. In Revista Mulheres e
Literatura – vol. 3, 1999.
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CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. 10. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002.
KRISTEVA, Julia. The Ethics of Linguistics I. In: Moi, Toril. Sexual/Textual Politics:
Feminist Literary Theory. London: Routledge, 1995.
MARANHÃO. Haroldo. Jogos infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. 79p.
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posfácio Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. O canibalismo amoroso. 4. ed. Rio de Janeiro: Rocco,
1993.
SEMINÁRIO NACIONAL MULHER E LITERATURA. Anais do 5º. Seminário Nacional
Mulher e Literatura. Natal, 1 a 3 de setembro de 1993. Natal: UFRN: Ed. Universitária, 1995.
SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo, Cortez, 1996.
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