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CASINO HOTEL: MEMÓRIA SOCIAL, PATRIMÔNIO E TURISMO
CULTURAL NO BALNEÁRIO CASSINO – RS
CASINO HOTEL: SOCIAL MEMORY, HERITAGE AND
CULTURAL TOURISM AT THE RESORT CASINO- RS
Ma. Alessandra Buriol Farinha*1
Ma. Jerusa de Oliveira Michel**2
Resumo:
Este trabalho busca apresentar, sob a perspectiva da memória, um local que no passado
objetivava o lazer e hoje figura como um representativo patrimônio cultural do sul do estado,
o Casino Hotel. Esta edificação remanescente do século XIX foi inaugurada como
estabelecimento hoteleiro no ano de 1890, no Balneário Cassino, Rio Grande, RS. Oferecia
como atrativos principais os banhos de mar, considerados terapêuticos, e os jogos
característicos de cassinos. Nestas condições o Casino Hotel testemunhou festas e eventos de
pessoas pertencentes à elite econômica da região por vários anos, permanecendo presente na
avenida principal do balneário até a atualidade. O método utilizado foi baseado em
entrevistas orais e pesquisa em documentos históricos de acervos locais. Os resultados deste
estudo propõem reflexões sobre como a memória e o turismo cultural neste espaço podem
contribuir no processo de sua preservação.
Palavras-chave: Hotel Casino; Memória; Patrimônio.
Abstract:
This search aims to demonstrate, at the perspective of the memory, a place of recreation in
the past, and representative of the cultural heritage of the south of the state, the Casino Hotel.
This building remaining of the nineteenth century was inaugurated as hotel establishment in
1890, the Balneary Casino, Rio Grande, RS. Offered as the main attractions bathing,
considered therapeutic, and characteristic casino’s games. In those circumstances, the Casino
*Mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural pelo programa de pós-graduação em Memória Social e
Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas – UFPel; Doutoranda do programa de pósgraduação em Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas – UFPel; Email: [email protected];
**Mestra em Memória Social e Patrimônio Cultural pelo programa de pós-graduação em Memória Social
e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas – UFPel; Doutoranda do programa de pós-
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Hotel witnessed events and parties of persons in the high economic elite of the region for
several years, remaining present on the main avenue of the balneary into the present. The
method used was based on orality and research in historical documents in local collections.
The results of this study suggest reflections about how the memory and cultural tourism in
this space can contribute on the process of preservation of this place.
Key-Words: Hotel Casino; Memory; Heritage.
Introdução
A fundação do balneário Cassino, município de Rio Grande, Rio Grande do Sul, se
deu em 1890, sendo o primeiro balneário marítimo planificado do país, de acordo com Torres
(2007, p. 13). O balneário Cassino foi, em seu apogeu, um espaço de convivência social,
principalmente de pessoas de estratos mais elevados da sociedade, não só da cidade do Rio
Grande como também de várias regiões do estado. Um dos principais espaços de convivência
do balneário, de grande valor histórico, foi o Casino Hotel, que surgiu com o balneário.
Este trabalho tem como objetivo principal desenvolver reflexões sobre a
importância histórica do Casino Hotel, atual Hotel Atlântico Praia, não apenas como um
patrimônio edificado, mas para a memória social local, e desta forma incentivar sua
preservação, reinterpretação e consequente valorização.
A problemática que conduziu a este objeto de estudo resulta da carência de
conhecimento sobre a importância histórica deste local e de sua preservação, um reflexo que
está em sua excessiva exploração comercial e descaracterização. Neste estudo de caso é
possível atribuir à degradação do patrimônio uma relação direta com a atividade comercial e
turística, principalmente. Essas atividades são responsáveis por profundas alterações no
balneário como um todo, tanto no patrimônio edificado quanto no ambiental, pois não estão
obedecendo a nenhum critério de respeito ao patrimônio.
Para uma aproximação do objeto de pesquisa, a escrita do artigo inicia com
antecedentes históricos do Balneário Cassino e do Casino Hotel, para melhor compreensão
da relevância histórica do hotel no contexto de formação do Rio Grande do Sul.
graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural da Universidade Federal de Pelotas – UFPel; Email: [email protected]
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O referencial teórico do texto discorre brevemente sobre a memória, principalmente
sobre as memórias felizes (RICOEUR, 2007, p. 504), aquelas que sensibilizam por fazerem
parte de um contexto pessoal, de afeto, de identidade. Neste contexto, relacionamos com a
questão de que forma se constitui a memória, de individual para coletiva em Halbhwacs
(1976, 1990) e como são idealizados ou não os chamados lugares de memória (NORA,1984).
Em síntese, Candau (2011) caracteriza os lugares privilegiados, que são perenes no tempo
por estarem na memória, por serem, de alguma forma, especiais (CANDAU, 2011). E
finalizando, o texto reflete de que forma o patrimônio se constitui e ganha significado pela
memória e sensibilidade coletiva.
A última parte do artigo disserta sobre tempos passados através dos relatos dos
entrevistados, contextualizando com antigas fotografias, onde atividades do cotidiano do
hotel, festas, jogos e outros são descritos de forma a nos conduzir àqueles tempos. Encontrase também um breve histórico dos banhos terapêuticos e dos jogos de cassino no Brasil.
Em termos metodológicos, foram realizadas pesquisas em acervos de documentos
escritos e fotográficos da cidade de Rio Grande, pesquisa documental na Casa de Cultura e
no Museu Histórico da cidade. Além disso, foram selecionados quatro depoentes, escolhidos
por terem relação com o hotel: um ex-proprietário, dois ex-gerentes e um ex-recepcionista.
Os motivos principais para a estada de famílias no hotel eram os banhos
terapêuticos, mas também eram atrativos os jogos de cassino e festas, dentre outros eventos
que sucediam no estabelecimento. Este foi um importante período para a história da hotelaria
em nível mundial.
Conhecendo o objeto: O Casino Hotel
A cidade de Rio Grande, primeira do estado foi o primeiro referencial urbanístico
luso-brasileiro nas terras meridionais do Brasil (TORRES, 2001, p. 65). Suas atividades
econômicas, comércio e exportação se desenvolveram em meados de 1850, acarretando
progresso social e cultural no município. Nesta época, na zona urbana, foram construídos
vários casarões e sobrados. O progresso do município assemelhava-se ao da província
naquele momento. Tal situação fez com que surgisse a malha ferroviária do Rio Grande do
Sul, ligando várias cidades e colaborando com relações comerciais.
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No final do século XIX, acompanhando as características de crescimento e
desenvolvimento de Rio Grande, foi feita a concessão para o uso de uma área paralela à costa
do mar para a construção de uma estação balnear, ou estação de banhos. Em abril de 1884 foi
instalada a Companhia Carris Urbanos do Rio Grande, sob a gerência de Antônio Cândido de
Siqueira. Esta empresa tinha a concessão de condução sobre trilhos, de passageiros e outros
itens como materiais de construção e gêneros alimentícios.
Segundo Barcellos (2000), a escolha do local para a construção da estação balnear e
da linha férrea deveria ser realizada de acordo com os interesses do Rio Grande do Sul, e
também de Santa Catarina e Uruguai. Nove praias foram relacionadas nos estudos
preliminares a execução do projeto: a praia por detrás do farol Atalaia, no pontal da barra; a
praia que se localiza atrás de São José do Norte; a de Cidreira, a de Tramandaí, Chuí, a praia
de Fora, na ilha de Santa Catarina, as de Pocitos e Ramyrez, em Montevidéu e a praia da
Mangueira em Rio Grande.
Antônio Cândido de Siqueira recebeu a aprovação de seu prospecto para a
construção da linha que levava ao local onde é hoje o Balneário Cassino no mês de março de
1886. De acordo com Torres (2007), ele foi o idealizador principal da estação de banhos e
por esta causa o Balneário Cassino foi denominado primeiramente de “Vila Siqueira”.
Segundo este autor, esta nomenclatura foi utilizada após o termino construção da linha férrea.
Antônio Siqueira e os investidores do projeto de construção da estação balnear sabiam que
seria inviável a instalação de uma via férrea ligando a cidade ao litoral se não houvesse, em
anexo ao projeto, a proposta de um local que se adequasse ao pouso de visitantes que fosse
construído no local. As condições de infraestrutura para receber os banhistas exigiram a
construção de um confortável hotel para hospedagem e prestação de serviços.
O projeto de Antônio Siqueira, portanto, objetivava a construção de uma estação de
banhos de mar naquela região, destacando as numerosas vantagens e interesses para a
província. O projeto foi inspirado, de acordo com Barcellos (2000), nos balneários franceses
de Dieppe, Deauville e Biarritz, precursores dos banhos de mar com finalidade medicinal.
Dentre as vantagens para a província, o projeto de Antônio Siqueira citava a economia de
gastos em procura por outras praias de veraneio e os benefícios do banho de água salgada
para a saúde. De acordo com o historiador francês Alain Corbin, citado por Barcellos (2000),
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o costume dos banhos de mar na Europa teve início no século XVII e se firmou nos séculos
XVIII e XIX.
Foi em meados da segunda metade do século XVIII que o hábito dos banhos de mar
foi associado a uma concepção medicinal no Brasil. Esta ideologia colocava os banhos de
água salgada no receituário para uma série de doenças, tornando as praias espaços utilizados
principalmente pelas elites, que buscavam a cura de enfermidades. As estações balneárias e
os banhos terapêuticos significavam modernidade e desenvolvimento.
A existência de um estabelecimento hoteleiro para fins de receber os visitantes
banhistas e a instalação de uma linha telefônica no local eram algumas das vantagens citadas
em documentos que divulgavam o balneário e o hotel (Barcellos, 2000). O projeto afirmava
que o hotel em questão seria confortável, espaçoso suficiente para ser subdividido em 120
aposentos, ligados de forma a poder ser ocupados por quartos anexos, conforme o número de
pessoas que o hóspede pretendia acomodar. O mesmo seria construído e subdividido no
mesmo estilo do Mercado de Porto Alegre, com uma peça de 5 metros por 5 com frente ao
exterior e outra peça igual com frente para a área interior, com quatro portões. O material
para a construção deveria ser alvenaria e ferro. De acordo com Barcellos (2000), tal estrutura
era inexistente em qualquer praia do sul do país neste momento.
Criadas as condições necessárias, o balneário do Cassino foi inaugurado
oficialmente com a abertura definitiva do tráfego ferroviário em 20 de
janeiro de 1890 e entregue ao público em 26 de janeiro deste mesmo ano.
Tracionado por locomotivas a vapor o trem trouxe conforto, rapidez e
segurança na viagem da cidade ao balneário. De início a CIA. contava com
duas locomotivas: uma grande chamada de “Andorinha” e outra pequena
denominada de “Formiga”, mais tarde foi comprada outra máquina que
tinha a denominação de “Borboleta.” (BARCELLOS, 2000, p. 05)
Durante a construção da estrada de ferro, várias companhias sucederam-se em seu
poder, dentre elas, a Viação Rio-Grandense (1891), a Southern Brazilian Rio Grande do Sul
(1900). Esta ultima fora desapropriada em 1905 passando para a Auxiliare Compagnie des
Chemins de Fer du Brazil. Em 1909 a Viação Rio-Grandense, que já havia terminado a
concessão da via férrea, vende a totalidade da Vila e todos seus pertences em leilão ao
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Coronel Augusto Leivas Otero, e este em 1923 à Companhia Balnear Atlântica. Em 1927,
com a estrada, surge a primeira frota de ônibus.
Além da estação de trem, a edificação de um hotel de grandes dimensões
para a época, foram os referenciais desencadeadores de um processo de
ocupação populacional e urbano voltado à utilização medicinal dos banhos
de mar pela população da metade sul do estado do Rio Grande do Sul
(TORRES, 2007 p. 67).
De acordo com Briz (1990, p. 4), na Europa, para um local ser reconhecido como
uma estação balnear deveria haver, essencialmente: local para as pessoas banhar-se
(hidroterapia), um cassino, um grandioso hotel, para acomodar grande número de pessoas em
caso de eventos, dentre outros serviços, para comodidade do banhista. No projeto já
mencionado, coloca-se que o Casino Hotel deveria acompanhar as características de
desenvolvimento e opulência do período, assim como o requinte exigido, seguindo o modelo
europeu. A Figura 01 é uma fotografia da parte lateral do antigo hotel. Não foi encontrada
datação referente à mesma.
Figura 01 – Antiga lateral do Casino Hotel
Fonte: Casa de Cultura de Rio Grande.
O Casino Hotel, inaugurado na mesma data do balneário, de acordo com artigo
publicado no jornal Diário do Rio Grande em 28 de janeiro de 1890, estava inacabado na
ocasião de sua abertura, contando com apenas quatorze quartos concluídos, com assoalhos e
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sem janelas. A construção do Casino Hotel foi finalizada em 1898, oito anos após sua
inauguração.
Neste mesmo ano de 1890, a Companhia Estrada de Ferro Rio Grande - Costa do
Mar, sucessora da Companhia Bonds Suburbanos da Mangueira, publicou um informativo
sobre o balneário oferecendo as seguintes comodidades à beira mar:
“100 camarotes para homens de 1ª classe, 100 camarotes para mulheres de
1ª classe, 20 camarotes para homens de 2ª classe, 20 camarotes para
mulheres de 2ª classe, 50 barracas sobre rodas, um restaurante à lá carte,
leitaria, rouparia e cocheira” (BARCELLOS, 2000 p. 11).
O informativo citado por este autor chamava-se “O Guia dos Banhistas”, e salientava
que as instalações do hotel seriam suficientes para atender à cerca de 500 banhistas ao
mesmo tempo e que eram as melhores do Brasil e do Rio da Prata. Foram encontrados
também no Guia dos Banhistas dados como a composição da sala de festas, onde havia dois
pianos, sendo um para a dança e o outro especial para os concertos instrumentais e vocais.
No salão de jogos eram oferecidos jogos como bilhar, damas, dominó, xadrez, mesas para
cartas, sala para leituras e sala para fumantes, passatempo próprio para o gênero masculino.
Todas as instalações para hóspedes seriam circundadas por varandas cobertas. Estas
mediriam dois metros de largura, todas lajeadas (PEREIRA, 2004, p. 26).
Segundo Barcellos (2000) a Companhia Viação Rio-Grandense, então administradora
do balneário, garantia o policiamento diurno, noturno e a iluminação exterior nos arredores
do hotel. O transporte da frente do hotel até a praia era realizado por um bonde de tração
animal ao preço de 50 réis para os adultos e 25 réis para as crianças. O serviço funcionava
das 4 horas da tarde às 10 horas noite.
Em outro documento desta época, uma correspondência da Companhia Viação RioGrandense, endereçado ao Coronel Augusto Leivas e datado de 04 de outubro de 1898,
afirmava que eram ofertados 136 quartos, grandes salões de concertos, baile, bilhar, e tiro ao
alvo, ciclismo, atletismo e corridas de cavalo, 200 camarotes ao longo da praia e 36 barracas
para banhistas. A Figura 02 mostra algumas das mencionadas barracas no século XX, que
possivelmente se pareciam com as mencionadas pelo documento.
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Figura 02 – Barracas à beira mar.
Fonte: www.riograndeemfotos.fot.br.
Com relação a estas barracas, coloca-se que o documento oferecia pessoal
especializado para atendimento de banhistas na localidade das mesmas, à beira mar. Além
destas vantagens, o hotel oferecia “Salle a Manger”3 com pessoal habilitado para a Cuisine4
de “primeira ordem” nas dependências do hotel. A fotografia seguinte mostra o antigo salão
de refeições do hotel.
Figura 03 – Interior do Salão de refeições do hotel ao fundo o de jogos.
Fonte: Museu Histórico da cidade do Rio Grande. Postal – 1908.
3
Sala de jantar em francês. Fonte: RAMOS, F. J. Silva Dicionário de Francês – Português. São Paulo.
LEP, 1961.
4
Cozinha em francês. Fonte: RAMOS, F. J. Silva Dicionário de Francês – Português. São Paulo. LEP, 1961.
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Para fins de comunicação, o Casino Hotel também contava com telefone e telégrafo,
além de serviço postal. Com relação à higiene, Torres (2007) salienta que o local naquela
época possuía serviços de limpeza e esgoto comparáveis a cidades desenvolvidas. Um algibe
localizado no jardim do hotel e de uso exclusivo do mesmo garantia o suprimento de água
para o estabelecimento e casas mais próximas.
Um lugar de memória, patrimônio e sensibilidade
A memória alimenta o sentimento de nossa continuidade (CANDAU, 2009, p. 46). De
acordo com Ricoeur (2007, p. 108), é à memória que está vinculado o sentido de orientação
na passagem do tempo, do passado para o futuro, seguindo o tempo da mudança, mas
também do futuro para o passado, da expectativa à lembrança, através do presente vivo.
Conforme visto, a inauguração do balneário, do Casino Hotel instigam memórias
sociais específicas, ambientadas em um espaço-tempo destinado ao ócio, ao cuidado com a
saúde, contato com família, com amigos, festas, jogos, lazer, prazer. Ricoeur (2007, p. 502),
afirma que o aspecto fundamental de toda a fenomenologia da memória é a ideia de memória
feliz. O autor considera o reconhecimento como “o pequeno milagre da memória”. O
reconhecimento acontece cada vez que trazemos reminiscências do passado para o presente
de um acontecimento rememorado, um estado de coisas novamente promovido à recognição.
“Todo o fazer-memória resume-se assim, no reconhecimento” (RICOEUR, 2007, p. 502).
Assim se desenvolve a dialética do ligar-desligar ao longo das linhas da
atribuição da lembrança a sujeitos múltiplos de memória: memória feliz,
memória apaziguada, memória reconciliada, tais seriam as figuras da
felicidade que nossa memória deseja para nós mesmos e para nossos
próximos (RICOEUR, 2007, p. 504).
Através do estudo do objeto, o antigo Casino Hotel, foi percebido que as memórias
do lugar fazem parte de um reconhecimento, um conjunto de memórias coletivas que
transitam e se identificam entre si. Na maior parte das vezes são memórias nostálgicas,
pessoalmente boas, “memórias felizes”, de encontro, celebração, música, lazer, passeios,
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festas, amizade, família, dentre outros aspectos que podem ser relacionados ao uso do
espaço, o Hotel, o Balneário.
A memória se concentra em lugares, considerados lugares privilegiados, que se
constituem como referências perenes percebidas como um desafio ao tempo (CANDAU,
2011, p. 156). O Balneário cassino e o antigo Casino Hotel representam esses lugares, esses
espaços de afecção e reminiscências. Sobre a noção de espaço, pode-se citar Sayad (2000, p.
12), que afirma que qualquer espaço é, por definição, um espaço nostálgico, um lugar aberto
para todas as nostalgias, carregado de afetividade:
Se existe uma nostalgia agarrada ao espaço, e se este é no fundo de si
mesmo um lugar de nostalgia, como se experimenta em todos os
deslocamentos, é por que se trata de um espaço vivo, concreto, qualitativa,
emocional e até mesmo apaixonadamente distinto (SAYAD, 2000, p.12).
As memórias dos depoentes são singularidades que demonstram o valor aferido aos
lugares como patrimônios culturais, atribuindo-lhes significados distintivos e que dão
coerência ao contexto. Estas singularidades dão forma à memória coletiva do lugar, e
reinterpretam os bens culturais.
De acordo com Halbwachs (1990), a memória coletiva é formada por várias
memórias individuais. A pesquisa do autor, que enfoca a sociedade, o homem social, as
questões éticas, relaciona-se com o estudo de caso do Casino Hotel pela representatividade e
diferentes usos na sociedade, desde sua inauguração. A partir do estudo sociológico da vida
cotidiana, a memória coletiva significa a interpretação compreensiva da realidade, uma
analise causal da memória. Halbwachs (1990) coloca que o depoimento não tem sentido se
não em relação ao grupo de que faz parte o depoente, que somos o que lembramos.
A Memória Coletiva pressupõe um acontecimento real vivido em comum.
Halbwachs (1990) enfatiza que nada seríamos se não fizéssemos parte de uma comunidade
afetiva. De acordo com ele, a memória individual existe, mas está enraizada dentro dos
quadros diversos que a coletividade coloca. As lembranças se formam a partir das molduras
sociais, se formam a partir de meu trabalho, minha família, minha comunidade, meu meio
social (Halbwachs, 1976). Portanto, não é o passado que sobrevive, mas a reconstrução que
se faz dele. Sobre a questão ética, o autor resume no “sonho da realidade”, no qual não
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podemos pensar em nada, não podemos pensar em nós mesmos, mas pelos outros e para os
outros. Um homem que lembra sozinho daquilo que os outros não lembram é como alguém
que vê o que os outros não veem.
Desta forma, na realidade, nunca estamos sós, pois as ideias e ensinamentos que
adquirimos durante a vida nos são transmitidos por outras pessoas, direta ou indiretamente.
Os saberes não nos abandonam, foram transmitidos por outros, então a importância do
“outro” em nossas vidas. Quando não temos testemunhas de nossa memória sentimo-nos
incapazes de reconstruí-la.
Seguindo esta lógica, com o passar dos anos, memória coletiva, identidade,
costumes, usos, podem se dissipar, por não haver os meios de transmissão da memória
(NORA, 1984). Pode-se chamar de diluição dos meios de memória. Nora (1984) chama de
lugares de memória os locais que têm função de símbolos, criados para que a memória ali
esteja e possa ser cultuada. Este pode ser idealizado ou não, conforme a circunstância. Para
que um lugar seja chamado de lugar de memória, deve estar permeado por significados,
afecções de um determinado coletivo. Nos depoimentos, tanto o Casino Hotel quanto o
balneário e seus equipamentos naturais e urbanos foram rememorados e descritos com
carinho.
É o que configura o principal ideal de um patrimônio cultural: a afecção pela
existência, o reconhecimento social do significado, a vontade de que este permaneça vivo.
Esta é a sensibilidade que deriva das discussões sobre o patrimônio: a afecção ou não nele
encontrada, de quem parte esta afecção, este interesse, esta vontade, ou não, de que ele exista
e seja legitimado. A palavra patrimônio é ligada a estruturas familiares, econômicas e
jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo (CHOAY, 2006, p. 11).
O patrimônio designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade, constituído pela
acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado
comum. O patrimônio ocorre quando agregamos a Cultura (“Cult”, de cultivo e “ura”, de
ação), intermitente processo de aprendizagem ao Patrimônio (Heritage, Herança, algo de
valor).
Memórias de banhos, jogos, serenatas e antigos verões
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Dentre os atrativos que justificaram a importância da inauguração do balneário
destacam-se os banhos de água salgada. Este fora objetivo de grande parte dos primeiros
hóspedes do hotel. Briz (1990, p. 04) salienta que em toda a Europa, no final do século XIX
surgiram novas estações de banhos e que estabelecimentos hoteleiros inseridos nestas eram
chamados de estâncias de cura. Ao fazer referência sobre banhos, Torres (2007) cita o
Regulamento Geral da estação Balnear Vila Sequeira. Este documento do ano de 1891
determina normas que deveriam ser respeitadas pelos clientes no interior do hotel e na beira
da praia. Sobre os banhos de mar o Sr. Edson Costa coloca:
[...] o banho fazia sucesso e todo mundo fala que era depois de março
quando tinha bastante iodo na água, por isso o movimento ia até chegar o
frio. Não eram todos que iam na água, mais as mulheres. Diziam que tinha
gente especial do hotel para cuidar das crianças enquanto as mães iam para
o banho e também de noite para os adultos jogarem, tudo do hotel mesmo
(Sr. Edson Costa, ex-gerente do hotel).
[...] como os hóspedes a maioria eram velhinhos, eles ficaram bem meus
amigos sabe, ligavam até para a minha casa ... eles contavam quando dava
tempo na recepção, dos banhos que era diversão mas eram medicinais
também ... os pais e tios e padrinhos levavam para o hotel para tomar
banho de mar ... acho que com a poluição, por causa disso ninguém mais
falou muito que banho de mar fazia bem [...] (Sr. João Carlos dos Santos
Gonçalves, ex - recepcionista do hotel).
As normas e costumes naquela época eram comuns ao hotel e ao balneário. Torres
(2007) afirma que tanto nas dependências do hotel quanto na praia o uso de calções e de
camisetas era regra para homens e que homens e mulheres deveriam posicionar-se em lados
opostos. Dentre eles se localizava as famílias. Parafraseando o Regulamento Geral da estação
Balnear Vila Sequeira, tal procedimento “garantia a decência e os bons costumes”. Segundo
este autor, na praia a salva-vidas das mulheres era do gênero feminino. O Sr. Edson também
nos coloca em entrevista sobre a relação direta dos serviços prestados pelo hotel para garantir
conforto aos veranistas à beira mar:
Tinha uma barraca de palha mais ou menos ali onde é o barracão hoje,
sabe, ali se guardavam no verão os objetos que os banhistas usavam na
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praia, tudo com nome identificando com placas de madeira. Era dividido
em box, um para cada família, para eles ter tudo o que precisavam toda a
temporada. Daí vinha a carruagem do hotel e trazia as pessoas só. Alguém
ia até o barracão antes, um funcionário do hotel mesmo, pegava tudo
daquela família e levava para a praia. Colocavam na praia mesmo a placa
com o nome da família ... quem fazia tudo isso era os coxeiros do hotel, já
sabiam tudo até o lugar que eles gostavam de ficar. A entrada dos coxeiros
com as carruagens era ali onde é a recepção do hotel hoje (Sr. Edson Costa,
ex-gerente do hotel).
O Regulamento Geral da estação Balnear citado por Torres (2007) coloca que o hotel
disponibilizava inclusive homens habilitados e equipados para atenderem a casos de
afogamento. Outra informação é que na praia havia pessoal fiscalizando o cumprimento das
regras.
O hotel concentrava em suas dependências a elite riograndina e de cidades do interior.
Aos sábados à tarde um ônibus saía da cidade de Pelotas e trazia ao hotel passageiros atraídos
pelos jogos de cassino. Este transporte retornava a Pelotas no domingo à noite. Alguns
depoimentos5 nos colocam que as pessoas jogavam roleta em salão requintado, os
cavalheiros obrigatoriamente vestidos de smocking e as damas de vestido longo. Aos
residentes no local, uma carruagem era utilizada para translado dos jogadores de suas
residências até o hotel, e seu condutor vestia-se com traje de veludo, cartola e luvas, mesmo
no verão. Outro depoimento confirma o pouso de um avião certa vez, trazendo jogadores ao
casino. O público era considerado seleto e as somas em dinheiro, segundo relatos, eram
incalculáveis. O depoimento que segue é do Sr. Edson Costa, morador da praia do Cassino.
Ele foi gerente do hotel entre os anos 1980 e 1990, acompanhando mudanças estruturais
significativas neste prédio histórico.
No ano que entrei era um galpão, um armazém, mas eu sei que antes, que a
minha mãe me contava, era lugar só de madame e gente de dinheiro, eles
jogavam tudo que tinham, rolava muito dinheiro que a gente nem sabe que
existe. Por causa do hotel que começou o balneário, as pessoas vinham
para jogar e só isso. Quando tinha o trem ninguém dizia “vamos para a
Vila Siqueira”, diziam “vamos para o casino jogar” e jogaram muito. Te
5
Encontrados em PEREIRA, Célia Maria. Memórias de um Balneário: Patrimônio edificado do Cassino. Rio
Grande. SALISGRAF, 2004.
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digo que jogaram até a reforma da ampliação do hotel ... eu sei que o jogo
parou, claro, por causa de guerra e outras coisas ... mas vai saber mesmo
até quando a roleta funcionou (Sr. Edson Costa, ex-gerente do hotel).
Não há documentação que comprove a prática o jogo de roleta no balneário ainda
no século XIX. Entretanto, de acordo com a pesquisa de Barcellos (2000), depoimentos
levam a crer na existência da roleta no Cassino na primeira década do século XX. Entrevistas
deste autor salientam que esta foi a primeira roleta do estado.
Eu sei que até 80 mais ou menos o jogo rolava solto no hotel, mesmo
proibido. Tinha roleta e tudo, pergunta pra quem quiser. Mas não era tão
fino com era antigamente. Quando parou a roleta no hotel eu nem sei, mas
ela não parou, só passou para uma casa noturna, um clube, não sei, mas
seguiu funcionando mesmo que não fosse no hotel, no Cassino mesmo ...
funcionou por que tinha gente pra gastar dinheiro, se não parava ... por isso
que o hotel tinha muito movimento, sempre tinha gente pra jogar e gastar
dinheiro em jogo, a gente sabe que é doença isso né ... Quando era perto de
1990 tinha possibilidade de voltar a ser permitido os jogos no Brasil, daí eu
me antecipei e fui atrás de coisas que provassem que o hotel foi o primeiro
hotel de balneário e de jogos do Brasil, ia ser um sucesso o ano inteiro
imagina (pergunta), mas não regularizaram (Sr. Edson Costa, ex-gerente do
hotel).
Pode-se perceber que a partir da necessidade de um local de pouso para banhistas
na estação balnear surgira uma outra atividade que tornara-se central, um local de jogos,
especificamente a roleta. O hotel, este local de jogos, de festas e roleta, denominado casino
hotel, foi de tanta representatividade para a história, que determinou a nomenclatura do
balneário. A origem dos cassinos no Brasil remonta ao império, época em que estes eram
frequentados pela nobreza, incluindo o Imperador Dom Pedro II. Locais que forneciam lazer
e entretenimento da elite, podemos citar o Parque Balneário Hotel, situado em São Paulo, na
cidade de Santos que, em meados de 1914, era o destino preferido de paulistanos e turistas de
dos mais diversos locais do pais e de fora dele também. No sul do pais, podemos citar o
Cassino Hotel, situado na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul.
Em 1917, com consolidação da democracia, os cassinos passaram a atuar na
clandestinidade, entretanto em 1920 o decreto no 3.987 permitiu temporariamente os jogos de
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azar em regiões balneárias termais e climáticas o que originou a criação de diversos hotéis
cassinos. Este foi um período de ouro para estabelecimentos deste tipo que floresciam com a
presença da elite cosmopolita, artistas e autoridades políticas. Esses hotéis não eram atrativos
apenas pelos jogos de azar, mas por apresentarem lazer nas mais diversas formas como
festas, apresentações artisticas nacionais e internacionais, boa comida entre outros.
No entanto, em 1946, a época de ouro dos cassinos chega a o fim quando o então
Presidente Eurico Gaspar Dutra, utilizando-se do Art. 180 da Constituição Federal de 1937,
reestabelece através do Decreto Lei 9.215 a proibição dos jogos de azar no Brasil que declara em
seu artigo terceiro que:
Ficam declaradas nulas e sem efeito tôdas as licenças, concessões ou
autorizações dadas pelas autoridades federais, estaduais ou municipais,
com fundamento nas leis ora, revogadas, ou que, de qualquer forma,
contenham autorização em contrário ao disposto no artigo 50 e seus
Parágrafos da Lei das Contravenções penais. (PRESIDÊNCIA DA
REPÚBLICA, 1946)
A partir deste momento os cassinos deixam de existir ou passam a existir na
ilegalidade, levando vários estabelecimentos ao declínio e posterior extinção. Sobre a roleta e
a proibição dos jogos no Casino Hotel o Sr. João Carlos dos Santos Gonçalves coloca: “o
jogo de roleta foi proibido se não me engano em 1964, mas continuou no hotel escondido ...
eu até conheço o cara que organizava os jogos, só essa parte no hotel”.
O Sr. João Carlos foi recepcionista do hotel de 1985 a 1999, e em sua ocupação, tinha
contato direto com os hóspedes. É o depoente que mais tempo trabalhou neste
estabelecimento e por isso escutou e conheceu histórias de descendentes de antigos hóspedes
por vários anos. Sobre a possibilidade de regularização de casas de jogos no Brasil o Sr. João
Carlos nos conta:
[...] a ideia da reforma no hotel, lá por 90 foi por causa que iam permitir os
jogos de novo no Brasil, isso foi muito comentado ... ele (o dono) queria
explorar essa parte. Já pensou que movimento ia dar (pergunta) ... o hotel
que há cem anos tinha sido casino abrir para jogos de novo? ... ia ser
movimento sempre, era isso que ele queria ... sabe, tinha jogos em umas
cidades do estado, em São Lourenço, na serra, mas o Atlântico ia ser o
melhor, o mais tradicional (Sr. João Carlos, ex-recepcionista do hotel).
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O Sr. João Carlos conta que os hóspedes mais antigos demonstravam carinho pelo
hotel, pela mobília, pela estrutura. Por isso havia a fidelização na hospedagem. O depoente
afirma que ouvia histórias de jogos. Os que exigiam espaço físico maior, como corridas de
cavalo, atletismo e outros, eram realizados na relva da Cancha. Este local, segundo Pereira
(2004), era cercado e arborizado. Havia espaço para hóspedes que desejassem competir ou
apreciar as competições e localizava-se aos fundos do hotel. Hoje este terreno pertence à
Prefeitura Municipal do Rio Grande e o evento que faz referência e realiza-se no local é a
Feira do Livro. Sobre este terreno o Sr. Edson Costa recorda:
Sabe aquele terreno atrás do hotel? Pois é, também era tudo do hotel. Lá
que se faziam os jogos, as corridas para as moças assistirem, era tipo
quadras de esporte, tinha também bocha e jogo do osso que falavam. Era
tipo que um lugar para recreação dos hóspedes além da praia e do casino
que o hotel oferecia ... naquele terreno, tu é nova pra saber, mas era a SAC,
o clube do Cassino, acho que em 63. Ninguém sabe esta história, mas
assim, o terreno era do hotel (Sr. Edson Costa, ex-gerente do hotel).
O divertimento no balneário não se limitava aos jogos do hotel. Eram comuns os
passeios na praia, as serenatas, os concertos musicais, os bailes. Segundo pesquisa de
Barcellos (2000), os rapazes faziam a serenata enquanto as moças ficavam espiando por
detrás da veneziana. No avarandado eram ofertadas aos rapazes garrafas de vinho do Porto,
bombons, passas de pêssego e outras comidas finas. Depois de comer, cantavam uma música
de agradecimento e iam embora.
Sobre as festas, em depoimentos de Pereira (2004), tem-se que moças dançavam com
seus pares sob supervisão de senhoras e estas permaneciam sentadas ao redor do salão
durante o baile. Todos os dias, no verão havia orquestras, espetáculos ou atrações artísticas.
Algumas das orquestras vinham do Rio de Janeiro para apresentar-se na temporada. A Figura
04 a seguir destaca o salão de festas do hotel.
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Figura 04 – Interior do Salão de festas do hotel.
Fonte: Museu Histórico da cidade do Rio Grande. Postal – 1908.
Em seu trabalho, a pesquisadora Célia Pereira coloca que após as festas, aconteciam
as serenatas. Conforme depoimentos, costumeiramente às 23h30 a orquestra tocava a música
Amanhã se Deus quiser6, e a partir disso as pessoas tinham meia hora para de deslocarem até
suas casas ou quartos. À Meia noite as luzes se apagavam e as serenatas começavam. O
policiamento local chegou a proibir este procedimento, alegando a perturbação de outras
pessoas, mas o costume persistiu.
Em grandes festas como carnaval e Ano Novo o salão de festas subdividia-se em sala
de baile, jantar e jogos. Não há relatos formais, mas de acordo com Pereira (2004), a copa,
dispensa e sala de refeições de terceira classe localizava-se em anexo, ao fundo do salão. A
passagem para os quartos era feita por um passadiço coberto por telhas de zinco sobre
colunas de ferro. Em entrevista, o Sr. Renato Albuquerque, ex-proprietário do hotel entre os
anos de 1975 e 1980, coloca que dando sequência ao que acontecia no início do século, as
festas eram tradicionais no hotel, com música ao vivo e “boa mesa”, nos anos setenta.
Segundo Pereira (2004), em 1941 o Departamento Estadual de Saúde começou a fazer
exigências regulamentares para hotéis de veraneio. Estas exigências fizeram com que fosse inviável a
adequação do Casino Hotel conforme as normas e este fechou suas portas alguns anos após.
De agosto de 1941 à dezembro de 1943 as forças militares do exército ocuparam as
dependências do hotel por causa da entrada do Brasil na Segunda Guerra. Segundo Pereira
6
Canção de Noel Rosa, início do século XX.
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(2004), o uso do Casino Hotel pelo exército foi o que ocasionou sua quase total destruição.
Tanto que, com a retirada dos soldados, a companhia responsável pelo hotel não pôde efetuar
a reparação necessária, solicitando à prefeitura municipal ajuda com a mão-de-obra. Esta
autora ainda coloca que a utilização do espaço entre os quartos e os salões do hotel aconteceu
décadas após a guerra. Alguns depoimentos estudados citam que isso ocorreu durante a
guerra, fazendo com que o local se transformasse em uma espécie de fortificação.
O uso público das dependências do hotel – tanto do prédio quanto do terreno aos
fundos, antes utilizado para competições e jogos - durante e após a segunda guerra mostra
seu valor ao coletivo com diferentes finalidades. Sobre este aspecto o Sr. Edson Costa relata:
O exercito usou o hotel em 1942 e 1943 por causa da guerra, para proteger
aqui o lugar. Era tudo aberto, daí fecharam para ficar tipo de uma proteção,
coisa assim. Fecharam na frente e atrás [...] mas com a guerra eles
destruíram, os soldados que ficaram lá, acabou com tudo. Roubaram tudo,
os móveis, as louças, roupas, daí fizeram os muros. Daí ficou meio que
sem dono, por que tinha o muro, então não era mais a continuação do hotel
o terreno. Daí construíram a SAC, um galpãozinho de madeira ... em 88
quando eu cheguei, tu não acredita mas a prefeitura queria abrir a rua de
novo, a que passava no meio do hotel, sabe, queria demolir as paredes e
abrir a rua para os carros como era antes, sabe. Daí o grupo fez a permuta e
deu o terreno em troca de não abrirem a rua. Por isso que tem a feira do
livro lá, agora é da prefeitura, mas antes era do hotel ... isso ninguém sabe
(Sr. Edson Costa, ex-gerente do hotel).
A representação histórica da estrutura predial do hotel durante a guerra é fator que
eleva o local em sua importância histórica. Este ponto pode ser considerado uma justificativa
para a elaboração deste trabalho. Neste referido período, o hotel deixa de ser ícone de lazer,
mas passa a valer por sua capacidade em acomodar grande número de pessoas e por assumir
papel de defesa nacional na guerra. Da mesma forma, a utilização da quadra de competições
do hotel (terreno localizado ao fundo) para sediar a primeira sede da Sociedade Amigos do
Cassino (SAC) agrega a importância do hotel para o coletivo do balneário. O histórico do
primeiro clube do balneário é atrelado assim ao histórico do hotel.
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Considerações Finais
Através da pesquisa é possível afirmar a importância do conhecimento dos bens
culturais para a preservação do patrimônio cultural, neste caso, o antigo Casino Hotel e
Balneário Cassino como de forma geral. De acordo com Georgen (2005) são muitas as
mudanças de paradigmas protagonizadas pelo século XX, enquanto a principal delas deveria
ser a nova ética, e um novo projeto educativo sensibilizador. Segundo este autor, o futuro
depende da consciência ética. O ser ético zela pelo seu próximo, protege os bens naturais,
materiais e imateriais. A Ética e o conhecimento são transmitidos, legados através da
educação.
Acredita-se que ao apreender conhecimento sobre o patrimônio local o indivíduo
passa a se identificar com este pela sua história, seu papel na sua cidade, no seu bairro, valor
cultural, econômico, dentre outros. Consequentemente o conhecimento gera maior
preservação do patrimônio cultural.
O objeto estudado, o antigo Casino Hotel está na história da criação do Balneário
Cassino. Se esta estrutura para pouso e prestação de serviços de lazer não seria viável a
instalação do balneário. É historicamente relevante, e além disso, conforme os depoimentos,
a memória dos antigos clientes e seus descendentes fazem a relação do lazer, atividades
lúdicas, banhos, festas e outros, nessa macro estrutura, indissociável, o hotel e a praia. São,
como Ricoeur (2007, p. 504) afirma, na maioria, memórias felizes, de lazer em família, de
descanso, diversão, bons e inesquecíveis momentos.
Além disso, o prédio do antigo hotel foi utilizado para abrigo militar durante a II
guerra mundial. Um uso diferente do inicialmente proposto, mas que coloca a estrutura do
antigo Casino Hotel em uma outra categoria, da mesma forma importante para a sociedade,
no sentido de contribuir para a logística de defesa nacional.
Hoje, um “elefante branco” na avenida principal do balneário, ainda é procurado
pelos veranistas, principalmente pela localização privilegiada. Conserva os traços originais
da época de sua inauguração, as árvores centenárias conservadas em seu interior, os tijolos
artesanais imensos com os quais foi construído ainda aparecem em alguns lugares nãovisíveis... mas, mesmo assim, o conhecimento de seus papeis na sociedade durante mais de
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um século de existência é imprescindível para que a comunidade possa intervir na sua
preservação.
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