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Debate Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 6

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Debate Germinal: Marxismo e Educação em Debate, Salvador, v. 6
Debate
AS CARATERÍSTICAS DO CAPITALISMO E DO ESTADO EM PORTUGAL: A PASSAGEM
DE GRUPOS ECONÓMICOS E FINANCEIROS DOMINADOS PELO CAPITAL
PORTUGUÊS A GRUPOS DOMINADOS PELO CAPITAL MULTINACIONAL, E DE UM
ESTADO PROTETOR A UM ESTADO SUBSERVIENTE1
LAS CARACTERÍSTICAS DEL CAPITALISMO Y DEL ESTADO EN PORTUGAL: EL PASO
DE LOS GRUPOS ECONÓMICOS Y FINANCIEROS DOMINADOS POR EL CAPITAL
PORTUGUÉS PARA GRUPOS DOMINADOS POR EL CAPITAL MULTINACIONAL, Y DE
UN ESTADO PROTECTOR PARA UN ESTADO SUBORDINADO
CHARACTERISTICS OF CAPITALISM AND OF STATE IN PORTUGAL: PASSAGE OF
ECONOMIC AND FINANCIAL GROUPS DOMINATED BY THE PORTUGUESE
CAPITAL FOR GROUPS DOMINATED BY MULTINATIONAL CAPITAL, AND OF A
PROTECTOR STATE FOR A SUBSERVIENT STATE
Eugénio Rosa2
Resumo: O artigo analisa as características do capitalismo na formação social portuguesa, considerando
os grupos econômicos em Portugal antes e depois do 25 de Abril. Detalhando as características destes
grupos econômicos, o autor conclui que os principais acionistas da maioria dos grupos econômicos e
financeiros que operam em Portugal, são grupos transnacionais, alguns empresas pertencentes a Estados
estrangeiros e outros grandes grupos econômicos e financeiros operando à escala global. Nestas
condições, o papel do Estado, face à fragilidade perante estes grupos, é de simples serventuário e executor
de políticas ditadas diretamente por esses grupos ou, indiretamente, por organismos internacionais que
representam e defendem os seus interesses, como são o FMI, a Comissão Europeia, o Banco Mundial,
mesmo a OCDE, etc. Defende que perante a globalização crescente e o aumento das ameaças de todo o
tipo, precisa-se em Portugal de um Estado forte que defenda a soberania nacional, capaz de promover o
crescimento e o desenvolvimento sustentado do país, e que defenda os portugueses das ameaças e ataques
constantes a uma vida com um mínimo de dignidade humana.
Palavras-Chave: Portugal; formação social; grupos econômicos; Estado.
Resumen: El artículo analiza las características del capitalismo en la formación social portuguesa,
teniendo en cuenta los grupos económicos en Portugal, antes y después del 25 de abril. Detallar las
características de estos grupos económicos, el autor llega a la conclusión de que los principales accionistas
de la mayoría de los grupos económicos y financieros que operan en Portugal, son los grupos
transnacionales, algunas empresas pertenecientes a los Estados extranjeros y otros grupos económicos y
financieros importantes que operan a escala mundial. De acuerdo con ello, el papel del Estado, dada la
fragilidad hacia estos grupos es albacea políticas simples y serventuário dictadas por estos grupos directa o
indirectamente, de las organizaciones internacionales que representan y defienden sus intereses, al igual
que el FMI, la Comisión Europea, el Banco Mundial, incluso la OCDE, etc. Sostiene que, dada la
creciente globalización y el aumento de las amenazas de todo tipo, ya sea en Portugal necesita un Estado
fuerte para defender la soberanía nacional, capaz de promover el crecimiento y el desarrollo sostenido del
país, y para defender las amenazas portuguesas y los constantes ataques a la vida con un mínimo de
dignidad humana.
Palabras clave: Portugal; capacitación social; grupos económicos; Estado.
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Abstract: The paper analyzes the capitalism characteristics in the Portuguese social formation, considering
economic groups in Portugal before and after of April 25. Detailing the characteristics of these economic
groups, the author concludes that the principal shareholders of most economic and financial groups
operating in Portugal, are transnational groups, some companies belonging to foreign States and other
large economic and financial groups operating on a global scale. Accordingly, the State role, given the
fragility towards these groups, is of simple server and executor of policies dictated by these groups directly
or, indirectly by international organizations that represent and defend their interests, like the IMF, the
Commission European, the World Bank, even the OECD, etc. Argues that given the growing
globalization and increased threats of all kinds, one needs in Portugal is a strong State that defend the
national sovereignty, able of promote the growth and sustained development of the country, and to
defend the Portuguese of threats and constant attacks to a life with a minimum of human dignity.
Keywords: Portugal; training social; economic groups; State.
O estudo dos grupos económicos em Portugal antes e depois do 25 de Abril, permite ficar a
conhecer não só as suas diferenças, que são importantes, mas também as caraterísticas do capitalismo
português num e no outro período, bem como do Estado.
Se analisarmos a economia portuguesa anterior ao 25 de Abril, rapidamente concluímos que era
dominada por 8 grupos económicos de maior dimensão – CUF; Champalimaud; Banco Português do
Atlântico; Banco Nacional Ultramarino; Banco Borges e Irmão; Banco Fonsecas e Irmão; Espírito Santo;
Banco Pinto de Magalhães – a que se juntavam outros oito grupos de menor dimensão, a saber: Banco
Intercontinental Português (BIP) (Jorge Brito); Banco da Agricultura; Sociedade Anónima de
Combustíveis e Óleos Refinados (Sacor); Sociedade Central de Cervejas; Conde da Caria; Sociedade
Nacional de Petróleos (SONAP); Entreposto; e o grupo ITT.
A primeira característica importante destes grupos que dominavam a economia e a sociedade
portuguesa antes do 25 de Abril era a de serem grupos ou industriais-financeiros, como o grupo CUF e o
grupo Champalimaud, pois eram grupos que se constituíram com base em grandes empresas industriais
alargando-se depois ao setor financeiro com a criação de bancos e seguradoras, ou então eram grupos
financeiros-industriais como o Banco Privado Atlântico (BPA), Banco Nacional Ultramarinho (BNU) que,
tendo como cabeça bancos, depois se alargaram à industria; portanto, grupos com características diferentes dos
grupos económicos e financeiros atuais.
A segunda caraterística importante dos grupos económicos e financeiros existentes até ao 25 de
Abril, que também os diferenciava dos grupos atuais, era o facto de que eles eram, na sua esmagadora
maioria, de capital nacional, muitas deles tendo como base famílias, e não se abriram ao capital exterior. E isto
apesar de algumas poucas excepções. É por esta razão que muitos deles se encontravam descapitalizados,
situação que se tornou clara mais tarde. É evidente que pelo facto da maioria deles ser exclusivamente de capital
nacional facilitou depois a sua nacionalização.
Como consequência das caraterísticas do grupos económico e financeiros que dominavam a
economia portuguesa no período anterior ao 25 de Abril, o Estado, embora apoiando-se e defendendo os
seus interesses, era essencialmente um Estado protetor dos grupos económicos e deste tipo de capitalismo atrasado e
nacionalista, que utilizava a violência contra os trabalhadores e os povos da colónias, tendo sido por isso designado, com
propriedade, por Estado terrorista. São exemplos deste Estado protetor a lei do condicionamento industrial, a
reserva do mercado colonial para estes grupos, não só como fonte barata de matérias primas, mas também
como mercado para escoar os seus produtos muitos deles de deficiente qualidade; a que se juntava a
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proibição e a repressão violenta dos sindicatos e partidos políticos com o objetivo de garantir mão-deobra barata e dócil, sujeita a uma elevada exploração.
A revolução de Abril e fundamentalmente as nacionalizações dos principais grupos alterou
profundamente esta realidade, sendo eliminada assim base económica do fascismo.
Num curto período de tempo (Março de 1975 - julho de 1976), por decisão do Conselho da
Revolução e do III Governo Provisório de Vasco Gonçalves, foram nacionalizados, com forte apoio
popular, os principais bancos, companhias de seguros, empresas de energia (produção, distribuição de gás
e eletricidade), de transportes (ferroviário, rodoviário, aéreo, marítimo), construção e reparação naval,
siderurgia, papel e pasta de papel, cimento, vidro, petroquímica, cervejeira, etc., ou seja, as empresas
estratégicas controladas pelos grupos económicos, que constituíam a base económica do fascismo em
Portugal, e com elas foi constituído o chamado “grupo Estado”.
Desta forma, o poder económico e político dos grandes grupos económicos e financeiros foi
liquidado em Portugal. Seguidamente teve lugar a reconfiguração e recomposição do “grupo Estado”
através de absorção e fusão de empresas. E é importante recordar todo este processo e seus resultados
porque são precisamente as grandes empresas assim criadas que, ao serem reprivatizadas, constituem a
origem da maioria dos principais grupos económicos que atualmente dominam a economia e a sociedade
portuguesa. Repetindo, a absorção e a fusão de empresas resultantes desse processo de recomposição do
“Grupo Estado”, levou à criação de grandes empresas que, quando privatizadas, foram a base da maioria
dos grupos económicos que atualmente dominam a economia e a sociedade portuguesa.
Assim, a Energias de Portugal (EDP) resultou da fusão da Companhia Portuguesa de Eletricidade,
da Companhia Hidroelétrica do Norte de Portugal (CHENOP), da Companhia Elétrica das Beiras, da
Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERGE), etc.; a PORTUGAL TELECOM resultou da
fusão da Telecom Portugal, da Empresa Pública Telefones de Lisboa e Porto (TLP), da Teledifusora de
Portugal (TDP) e da Marconi; a Petróleos de Portugal (PETROGAL) resultou da fusão da Sacor, Petrosul,
Sonap, e Cidla; a Cimentos de Portugal (CIMPOR) resultou da fusão da Companhia Industrial de Cimento do
Sul (Cisul), Cinorte, Cimentos de Leiria, Cimentos do Tejo, da Sagres, Cibra, Companhia de Cravões e
Cimento do cabo Mondego; a Empresa Produtora de Pasta e Papel (PORTUCEL) resultou da fusão da
Companhia Portuguesa de Celulose, Sociedade Industrial de Celulose (Socel), Empresa de Celulose do
Tejo (Celtejo), Celulose do Norte (Celnorte), Celulose do Guadiana; a TABAQUEIRA absorveu a
Empresa Industrial de Tabacos (INTAR); a IMPERIO absorveu as Companhias de Seguros Tagus e
Douro; a RODOVIÁRIA NACIONAL resultou da fusão de todas as empresas de transportes de
passageiros nacionalizadas (Claras, Cândido Belo, Transul, Boa Viagem, etc.); a União Cervejeira (UNICER)
resultou da fusão da Companhia União Fabril Portuense (CUFP), Companhia Portuguesa de Cervejas
(Copeja) e Imperial; a Central de Cervejas (CENTRALCER) da fusão da Sociedade de Cervejas e da
Cervejas de Portugal (Cergal); etc., etc.. A nível da banca comercial também se verificaram absorções
importantes que reduziram o número dos bancos existentes aumentando a sua dimensão, processo que
continuou dando origem aos principais grupos financeiros atuais. Portanto, foram as empresas assim
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constituídas neste período que, aquando da sua privatização, deram origem a muitos dos grupos
económicos e financeiros atuais.
A análise da estrutura atual da economia portuguesa mostra que os principais setores
estratégicos são dominados, não por monopólios, mas sim por oligopólios. Portanto, caraterizar a situação
como “capitalismo monopolista de Estado” não corresponde com rigor, a nosso ver, à situação atual. De
acordo com a investigação que realizamos (dados 2010-2012), cujos resultados foram publicado no livro
“Os Grupos económicos e o desenvolvimento em Portugal no contexto da globalização”) concluímos o
seguinte:
• 83,9% do mercado bancário, 73,6% do mercado segurador, 75% do mercado dos fundos de
pensões, 88% dos fundos de investimento mobiliário, 45% dos fundos imobiliários e 64% dos
ativos das empresas de gestão de património são controlados pelos cinco principais grupos
financeiros (Caixa Geral de Depósitos (CGD), Banco Espírito Santo (BES), Banco Comercial
Português (BCP), Banco Português de Investimento (BPI) e Santander-Totta);
• 88% do segmento de mercado do telefone fixo é controlado por 3 grupos económicos; 100% do
segmento de mercado do telefone móvel é controlado por 3 grupos económicos; 2 grupos
controlam 80% do segmento de acesso à Internet e 88% do serviço de TV;
• Um grupo, agora já privatizado (antes do Estado) – os Correios de Portugal (CTT) – controla
36% do correio expresso e 94% do correio não expresso;
• Dois grupos económicos controlam 79% da produção de eletricidade em Portugal; um grupo
controla 52% da distribuição de eletricidade; e 3 grupos controlam 92% da comercialização da
eletricidade;
• Dois grupos económicos controlam 100% do mercado do gás, e 3 grupos controlam entre 60% e
70% do mercado dos combustíveis;
• Dois grupos económicos controlam 100% do mercado do cimento em Portugal;
• Dois grupos económicos controlam entre 82% e 91% do mercado da pasta do papel e do papel
em Portugal;
Que 7 grupos económicos controlam 72% da distribuição alimentar e não alimentar em Portugal;
•
• Em média cerca de 57% dos segmentos de mercado da produção de produtos alimentares e não
alimentares de grande consumo são controlados, cada um deles, por 3 ou menos grupos
económicos, sendo dos 111 grupos dominantes em 18 segmentos de mercado apenas 22, ou seja,
20% portugueses;
•
Três grupos económicos controlem 70% da saúde privada em Portugal;
• Quatro grupos de media controlem 99% do mercado da comunicação social;
• Que um grupo económico controla 57% da exportação de cortiça.
Portanto, a concentração em Portugal, e o domínio dos setores estratégicos pelos grupos
económicos é extremamente elevado, mesmo superior à verificada em muitos países europeus. Basta dizer
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que já em 2010, os cinco maiores bancos a operar no nosso país controlavam mais de 70% do crédito
concedido, enquanto a média na União Europeia era inferior a 50%.
Uma caraterística que diferencia os grupos económicos e financeiros atuais dos existentes até ao
25 de Abril é a sua “especialização”. Contrariamente ao que se verificava anteriormente em que os principais
grupos económicos eram essencialmente industriais-financeiros ou financeiros-industriais, os atuais são
essencialmente grupos financeiros ou grupos industriais, ou de serviços; por outras palavras verifica-se
uma especialização o que contribui para aumentar o seu controlo no segmento de mercado onde operam.
E apesar das participações cruzadas que existem entre vários deles aquela caraterística continua a ser
dominante.
Em resumo, os principais setores da atividade económica, muito deles estratégicos para o
crescimento económico e para o desenvolvimento do país são controlados por oligopólios, e não por
monopólios O poder de mercado desses grupos económicos e financeiros em Portugal que dominam os
principais setores estratégicos é muito grande e, consequentemente, o poder para condicionar o
crescimento económico e o desenvolvimento do país e o próprio Estado, e a sua política, por parte dos
grupos económicos e financeiros, é enorme.
Um outro aspeto importante que carateriza os grupos económicos e financeiros atuais é uma
elevada centralização do capital, o que significa que um número muito restrito de acionistas, com participações
qualificadas (participações que representam pelo menos 2% do capital do grupo), controlam esses grupos
económicos, concentrando nas suas mãos um grande poder, o qual resulta também de uma elevada
alavancagem (com os ativos que possuem controlam ativos 16 vezes superiores).
Segundo dados divulgados pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), em
relação às empresas cotadas na bolsa, que incluem a maioria dos grupos económicos e financeiros a operar
no país, em média apenas 2,8 acionistas controlavam 59,8% do capital de cada uma dessas empresas. Na
investigação que realizamos abrangendo 39 grupos económicos e financeiros concluímos que as
participações qualificadas, que representam entre 33% a 100% do capital, as quais controlam de facto o
grupo económicos, eram detidas, em média, apenas por 3,7 acionistas. Portanto, a concentração da
produção, traduzida em poder de mercado, está associada a uma elevada centralização do capital, traduzida
no facto de um reduzido número de acionistas controlarem de facto os grupos económicos e financeiros
que operam no país.
Este poder é ainda reforçado pelas participações cruzadas entre os diversos grupos económicos
e financeiros (identificamos 56) assim como as participações cruzadas entre grupos económicos e financeiros
(pessoas coletivas) e pessoas singulares (identificamos 119 participações pertencentes aos “25 mais ricos”).
Existe uma outra caraterística importante que não só diferencia os grupos económicos e
financeiros atuais dos que existiam antes do 25 de Abril, mas também define, a nosso ver, as novas
caraterísticas do capitalismo português e do próprio Estado. E essa caraterística é a composição da estrutura
acionista atual dos principais grupos económicos e financeiros que operam no nosso país. Ela é constituída
fundamentalmente por grandes grupos económicos e financeiros estrangeiros, alguns deles empresas
estatais (ex. China, Dubai, Oman, Noruega), e outros fazendo parte do grupo das 1318 grupos
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transnacionais que controlam 60% da economia mundial. As empresas públicas após a sua privatização
caíram imediatamente ou pouco depois sob o controlo de grupos económicos estrangeiros ou
transnacionais.
Tomando como base uma amostra constituída por 29 grupos que operam em Portugal, e
calculando médias, mas não esquecendo as incorreções que elas contêm, conclui-se que as participações
qualificadas representam, em média, 56% do capital total das empresas da amostra e que, em média, 64%
destas participações qualificadas já se encontram sob o controlo de grupos económicos e financeiros
estrangeiros. Pode-se afirmar com propriedade que muitos grupos económicos “portugueses”, só têm de
português apenas o nome. Esta é uma caraterística do capitalismo português atual e, a meu ver, do
capitalismo atual global, que não deve nem pode ser ignorada pelas consequências que têm sobre a
economia e a sociedade portuguesa, mas também na caraterização desta fase do capitalismo e do próprio
Estado.
Um aspeto importante da estrutura acionista da maioria dos grupos económicos e financeiros
dominantes é o seu caracter multinacional ou mesmo transnacional. Vários grupos, alguns transnacionais
coexistem na estrutura acionista da mesma empresa, controlando participações qualificadas em cada um
deles.
Uma análise mais fina, abrangendo os dois últimos anos, revela um aumento do controlo
estrangeiro sobre os principais grupos económicos a operar em Portugal. Entre os muitos exemplos que
se podiam utilizar selecionou-se dois: um grupo financeiro (o BES), e o outro um grupo não financeiro
(EDP). E os dados revelam o crescente domínio dos principais grupos económicos pelo capital
estrangeiro.
Em 2012, dos 6 acionistas que controlavam as participações qualificadas do BES, 4 eram
estrangeiros. Em 2013, as participações qualificadas do grupo BES eram controladas por 7 acionistas
sendo 6 estrangeiros. Em 2012, as participações qualificadas do BES controlavam 60,1% do capital do
grupo estando sob o controlo de grupos estrangeiros 32,7%, ou seja mais de metade; em 2013, o peso das
participações qualificadas aumentou para 64,9% estando sob o controlo de grupos estrangeiros 38,91%, o
que representa cerca de 60% do total de participações qualificadas.
Este controlo dos grupos económicos e financeiros a operar em setores estratégicos da
economia portuguesa por grupos grandes estrangeiros e transnacionais foi reforçado através da
privatização da Aeroportos de Portugal (ANA), dos CTT, das áreas de saúde e de seguros do grupo Caixa,
assim pela venda de outras participações que o Estado ainda detinha em empresas importantes (Rede
Elétrica Nacional (REN), EDP, CIMPOR, etc.), que caíram sob o controlo imediato estrangeiro, o que
agravou a fragilidade da economia e do Estado e a sua dependência.
Isto determina também que os objetivos tanto estratégicos como operacionais dos grupos a
operar no nosso país passaram-se a ser os dos grupos transnacionais que os controlam, não tendo nada a
ver com os do país e com as necessidades de desenvolvimento dos portugueses. Este é um aspeto
importante do capitalismo português e, a meu ver, das caraterísticas atuais do Estado, que não deverá ser
esquecido, pois ele condiciona fortemente o crescimento e o desenvolvimento em Portugal.
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Efetivamente, como consequência do grande poder dos grupos económicos e financeiros a
operar em Portugal, fruto também da integração de muitos deles em grandes grupos económicos
transnacionais, observa-se uma crescente fragilização e submissão do Estado aos grupos económicos.
Esta tendência de submissão (reparem que não falo de “fusão”) foi agravada, por um lado, pelo
elevado endividamento do Estado (a chamada divida soberana) e, por outro lado, pelo facto do Estado ter
ficado totalmente dependente no seu financiamento dos “mercados”, ou seja, dos grupos económicos e
financeiros que o constituem. E isto como consequência, no caso dos países da União Europeia, da perda
da soberania monetária que resultou da transferência desse poder para o Banco Central Europeu (BCE).
Esta dependência total do financiamento do Estado e, em particular do Estado português, dos
“mercados”, colocou o Estado de “cócaras” face aos grupos financeiros, deu-lhes um gigantesco poder
não só de exploração do Estado e, consequentemente, dos contribuintes através da imposição de juros
leoninos e da especulação sobre a divida pública, mas também um grande poder para condicionar e impor
políticas que servissem os seus interesses, de que é exemplo comprovativo o conhecido “Memorando da
troika” que foi sucessivamente alterado de acordo com os interesses e as exigências dos credores,
representados pela “troika”, que incluiu medidas aprovadas à margem da Assembleia da República, muitas
delas violando a própria Constituição da República, algumas delas depois declaradas inconstitucionais pelo
próprio Tribunal Constitucional.
O poder dos grupos económicos e financeiros a operar em Portugal é ainda aumentado pelo
conhecido fenómeno denominado “porta giratória” que se materializa através de membros dos conselhos de
administração dos grupos económicos que vão ocupar cargos importantes no governo (são exemplos no
governo atual, os de Passos Coelho que veio do grupo FOMINVEST, o de Pires Lima que veio do grupo
UNICER, e o de Paulo Macedo do grupo BCP), ou então de membros do governo que, quando
abandonam as suas funções, vão ocupar lugares importantes e bem remunerados quer nos conselhos de
administração de grupos económicos quer em cargos também bem remunerados em organismos
internacionais (servem de exemplo recentes, o de Durão Barroso presidente da Comissão Europeia,
Álvaro Santos Pereira que vai rumar para Paris para assumir a liderança do departamento da Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o de Vitor Gaspar contratado pelo Fundo
monetário Internacional (FMI)), parecendo funcionar como reconhecimento dos serviços prestados a
esses grupos ou organismos.
Portanto, esta fase do capitalismo, mesmo o português, carateriza-se por ser um capitalismo
cada vez mais global, em que os principais acionistas das maioria dos grupos económicos e financeiros que
operam em Portugal, são grupos transnacionais, alguns empresas pertencentes a Estados estrangeiros e
outros grandes grupos económicos e financeiros operando à escala global, em que o papel do Estado, face
à fragilidade perante estes grupos, é de simples serventuário e executor de políticas ditadas diretamente
por esses grupos ou, indiretamente, por organismos internacionais que representam e defendem os seus
interesses, como são o FMI, a Comissão Europeia, o Banco Mundial, mesmo a OCDE, etc. Este é a face
dupla que caracteriza e define o capitalismo na fase atual, um capitalismo global, controlado por grupos
transnacionais, a maioria deles com mais poder que muitos Estados nacionais, os quais se encontram
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numa posição de submissão, sendo simples serventuários de políticas que sirvam e defendam os interesses
desses grupos.
E temos assim, como consequência inevitável de tudo isto, em Portugal um Estado frágil,
dependente e submisso aos grupos económicos e financeiros quando, perante a globalização crescente e o
aumento das ameaças de todo o tipo, precisamos é de um Estado forte que defenda a soberania nacional,
capaz de promover o crescimento e o desenvolvimento sustentado do país, e que defenda os portugueses
das ameaças e ataques constantes a uma vida com um mínimo de dignidade humana. Mas isso é
incompatível com o domínio crescente dos grandes grupos económicos e financeiros que operam em
Portugal controlados, na sua esmagadora maioria, já por grupos estrangeiros e transnacionais. Readquirir
essa liberdade, e construir um Estado forte que defenda os interesses nacionais e ao serviço da maioria da
população pressupõe a liquidação daquele domínio, pela via de nacionalizações ou de uma regulamentação
e de uma supervisão muito diferentes, só possíveis se o Estado não estiver, como acontece atualmente,
total e exclusivamente submetido aos interesses dos grupos económicos e financeiros.
Mas para que essas mudanças sejam possíveis é indispensável um forte combate ideológico com
o objetivo de ganhar a maioria dos portugueses para a necessidade liquidar o domínio dos grupos
económicos sobre a economia e a sociedade portuguesa e sobre o Estado, pois só assim é que será
possível um crescimento económico equilibrado e sustentado e construir um país mais justo e igualitário,
o que pressupõe um forte combate ideológico para tornar isso claro para os portugueses, o que exige, a
meu ver, uma análise e num conhecimento concreto e profundo da economia e da sociedade portuguesa e
das caraterísticas e papel do Estado atual. A minha intervenção pretende apenas ser um pequeno
contributo com esse objetivo.
Referências:
ROSA, E. Os Grupos económicos e o desenvolvimento em Portugal no contexto da globalização. Lisboa: Editora Página
a Página, 2013.
Notas:
1
Esta intervenção tem como base uma investigação realizada durante 4 anos e publicada em livro: “Os Grupos económicos e o
desenvolvimento em Portugal no contexto da globalização” – Eugénio Rosa – Editora Página a Página. Intervenção realizada
no II Congresso Internacional Marx em Maio, realizado nos dias 08, 09 e 10 de maio na Faculdade de Letras, Universidade de
Lisboa, em Lisboa.
2
Economista. E-mail: [email protected]
Recebido em: 05/2014
Publicado em: 12/2014.
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