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a abordagem de temas controversos no ensino de ciências
A ABORDAGEM DE TEMAS CONTROVERSOS NO ENSINO DE
CIÊNCIAS: ENFOQUES DAS PESQUISAS BRASILEIRAS NOS
ÚLTIMOS ANOS
THE APPROACH OF CONTROVERSIAL THEMES IN THE
TEACHING OF SCIENCES: APPROACHES OF BRAZILIAN
RESEARCH IN RECENT YEARS
Luis Gustavo D’Carlos Barbosa1
Maria Emília Caixeta de Castro Lima2
1
Universidade Federal de Minas Gerais / Faculdade de Educação, [email protected]
2
Universidade Federal de Minas Gerais / Faculdade de Educação, Departamento de Métodos
e Técnicas de Ensino, [email protected]
Resumo
Nos últimos anos, as investigações centradas em uma abordagem CTS – Ciência, Tecnologia
e Sociedade têm se multiplicado, em especial a utilização de temas controversos no ensino
básico e superior. Como objetivo central deste trabalho, buscamos mapear a recente produção
brasileira sobre tais temas em seus últimos quatro anos, evidenciando as principais questões
investigadas, a natureza da controvérsia se epistêmica ou não epistêmica e o tratamento dado
aos aspectos discursivos. Selecionamos 15 artigos publicados entre 2005 e 2008 em revistas
brasileiras qualis A ou B. Como resultados, encontramos trabalhos predominantemente
exploratórios em temáticas da biologia, cujo objetivo em geral deseja investigar a ponderação
de aspectos positivos/negativos no posicionamento dos educandos. O discurso embora seja
valorizado e reconhecido como dimensão constituinte da atividade científica e do ensino de
ciências, não subsidia análises das condições de enunciação, predominando a análise do
conteúdo dos enunciados nas pesquisas investigadas.
Palavras-Chaves: Abordagem CTS – temas controversos – problemas sócio científicos
Abstract
In recent years, the research focused on an approach STS – Science, Technology and society
have multiplied, in particular the use of controversial themes in basic education and higher.
As a main objective this work, we seek mapping the recent Brazilian production on these
matters in its last four years, showing the main issues investigated, the nature of the
controversy if epistemic or non epistemic, and the treatment given to aspects discursive. We
selected 15 articles published between 2005 and 2008 in Brazilian journals qualis A or B. As
a result, we work in thematic exploratory predominantly of biology, whose goal in general
wishes to investigate the weighting of positive/negative aspects in the positioning of learners.
The discourse although valued and recognized as dimension constituent of scientific activity
and the teaching of sciences, not subsidizes analyzes of the conditions of enunciation,
predominantly analysis of the content of those listed in the studies investigated.
Key-words: Approach STS – controversial themes – socioscientific problems
INTRODUÇÃO
Nas últimas duas décadas, circula-se nas discussões acadêmicas entre professores e
pesquisadores a necessidade de desenvolver currículos problematizados a partir das
complexas relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade - CTS. Seqüências de ensino
contextualizadas a partir de artefatos tecnológicos, questões ambientais, ambientes virtuais ou
dos chamados problemas sócio científicos, são objetos freqüentes de investigação e avaliação
de suas implicações no ensino e na aprendizagem. Incluir tais problemas no currículo
significa nas palavras de SADLER E FOWLER (2006), situar problemas do mundo real como
plataformas para a exploração do aprendiz de conteúdos tradicionais através da realidade
social, imersa na prática científica. Há um consenso entre entidades de vários países, AAAS 1
nos EUA, Royal Society na Inglaterra e MEC no Brasil, de que a habilidade de tomar
decisões mediante problemas pessoais e sociais com forte componente científico-tecnológico
constitui um dos fundamentos para a formação do sujeito contemporâneo. Os parâmetros
curriculares nacionais preconizam a necessidade de desenvolver a “competência de emissão
de juízos de valor” (CNE,1998).
Dentro de tão ampla gama de contextos e perspectivas da abordagem CTS, alguns
problemas sócio científicos são denominados temas controversos, temas polêmicos ou até
mesmo temas contemporâneos. Embora problemas sócios científicos sejam tratados como
necessariamente controversos por diversos autores (KOST, 2006; SADLER & FOWLER,
2006; KOLST et Al, 2006), acreditamos que nem todo problema que se entrelaça em
dimensões sociais e científicas é controvertido publicamente, como por exemplo, a
necessidade de preservação dos mananciais de água ou a inadequação de lixões enterrados
gozam de considerável consenso. Já problemas sócios científicos de natureza controversa
suscitam necessariamente “nos diferentes atores sociais envolvidos, posicionamentos
políticos, sensibilidades éticas e estéticas diversificadas ou diferentes maneiras de interpretar
uma dada realidade” (SILVA & CARVALHO, 2007). Esta diversidade de posições é o que
marca problemas de natureza complexa e não redutível apenas à investigação empírica da
Ciência, mas permeado por valores e dilemas de várias naturezas. Como exemplo pode-se
citar a terapia gênica 2 , o uso da radiação em alimentos e nas comunicações, a opção pela
geração de tecnologia nuclear.
A própria definição de controvérsia é controvertida. Pode-se associá-la apenas à
dimensão interna da produção científica como “uma disputa conduzida publicamente e
mantida persistentemente, sobre um assunto de opinião considerado significativo por um
número de cientistas praticantes” (NARASIMHAN, 2001). O próprio autor reconhece a
existência de “fatores não epistêmicos” ou “externos” à produção científica, mas enfatiza
“fatores epistêmicos”, como por exemplo, a ascensão e rejeição de teorias, mudanças
metodológicas ou o status conferido ao pesquisador. Corremos o risco ao adotar esta definição
de controvérsia, de defini-la essencialmente por “insuficiência momentânea” do
1
American Association for the Advancement of Science
2
Por terapia gênica se entende a transferência de material genético com o propósito de prevenir ou
curar uma enfermidade qualquer. No caso de enfermidades genéticas, nas quais um gene está
defeituoso ou ausente, a terapia gênica consiste em transferir a versão funcional do gene para o
organismo portador da doença, de modo a reparar o defeito.
2
conhecimento científico, na crença de que no futuro, munidos de teorias e dados empíricos
“mais completos”, ela se dissolverá. Outros autores já tomam a controvérsia a partir de
problemas locais como a polêmica em uma cidade norueguesa envolvendo a transposição das
redes elétricas aéreas para sistemas subterrâneos sob o dilema do alto custo público versus
risco incerto de aumento na incidência de leucemia em crianças que vivem próximo às redes,
conforme relatado por Kolst (2006) ou a recente polêmica da transposição do Rio São
Franscisco por Zuin & Freitas (2007). Nestes casos, torna-se difícil delimitar se a controvérsia
científica, reconhecida pelas discordâncias dentro da comunidade de pares, é sucedida ou
precedida pela controvérsia política ou social, originada na sociedade fora dos espaços de
produção do conhecimento.
Interessa-nos aprofundar neste universo das controvérsias, não delimitando a priori um
enquadramento da definição, mas abordando a palavra-conceito em sua natureza polissêmica
e incorporando em nossos estudos preliminares sinônimos recorrentes. Prevalece nas
pesquisas o tratamento de fatores epistêmicos ou não epistêmicos dentro das controvérsias?
Desejamos mapear as produções brasileiras que envolvem temas controversos, suas principais
questões investigadas, problemas encontrados, aprendizagens oportunizadas, conhecimentos
consolidados, referencial teórico-metodológico que dá suporte às análises, etc. De forma
especial, nos interessa compreender como aspectos relativos ao discurso são tratados em tais
produções?
Justificamos nosso problema a partir da necessidade de educar o sujeito para um
tempo de insurgência das incertezas e seu posicionamento não provisório no horizonte das
relações. Este período denominado por Santos (2002) de transição paradigmática comporta
uma nova relação do sujeito com a Ciência, não mais a tratando como depositária de verdades
sólidas e lineares, mas como parte de uma complexa rede de fenômenos, onde a previsão
mecânica está desacreditada. O indeterminismo, nas palavras de Levy & Santo (2007), tornase mais aceitável e imperioso a cada dia que passa, embora não possa ser confundido com
imprevisibilidade, por tratar-se de uma previsibilidade alcançada pela probabilidade. Educar
sintonizado a esta mudança de perspectiva, significa necessariamente valorizar a dimensão
controvertida da Ciência, o valor da dúvida e do questionamento no interior dela. Silva &
Carvalho (2007) elucidam estas idéias:
Os temas controversos possibilitam afastarmo-nos dos conceitos de
harmonia, verdade absoluta, totalidade, determinismo, universo
mecânico e neutralidade, normalmente presentes no discurso
científico. Eles induzem ao pensamento crítico ao retomar os
questionamentos direcionados para a visão de mundo moderna e
suscitam o diálogo entre diferentes formas de saber. (p.7)
O que os autores denominam “visão de mundo moderna”, preferimos chamá-la pósmoderna ou contemporânea, a despeito do falta de consenso sobre a existência ou não da
mesma. Associamos a modernidade à racionalidade cartesiana e newtoniana, marcada pelo
determinismo e previsibilidade, o que se contrapõe ao panorama de incerteza apresentado.
Como justificativa acadêmica, situamos este trabalho dentro de uma investigação mais
ampla sobre os sentidos produzidos, valores e argumentos envolvidos na instauração de uma
controvérsia específica em sala de aula, sobre a relação entre efeito estufa e aquecimento
global, trabalho dos autores relativo a uma dissertação do mestrado. Torna-se especialmente
relevante, de acordo com a perspectiva teórica que vem se configurando para essa pesquisa,
analisar aspectos relativos ao discurso e ao contexto de produção das enunciações em sala de
aula frente às controversas. A relação das várias vozes: professora, alunos e textos demandam
3
mais que um olhar para estrutura, composição e categorização dos argumentos e valores
explicitados nas interações em classe, mas, sobretudo, identificar e analisar os modos como os
sujeitos participam desse debate , os ditos e os não ditos, as circunstâncias do dizer, e mais
além, como os ditos nos informa sobre os sujeitos que os enuncia.
A metodologia escolhida foi a investigação de artigos publicados nos principais
periódicos brasileiros durante os últimos quatro anos (2005 – 2008) com o objetivo de
responder às questões propostas acima. Acessamos o domínio on line dos periódicos
nacionais avaliados como qualis A ou B pela área 46 da CAPES – Ensino de Ciências e
Matemática. Foram pesquisados 25 sítios eletrônicos, nos quais foram localizados 16 artigos
de interesse em 7 publicações eletrônicas: Ciência e Ensino (Unicamp), Ensaio(UFMG),
Ciecultura (UFSCar), Ciência e Educação (UNESP), Investigações em Ensino de Ciências
(UFRGS), Química na Escola, Actascientiae (ULBRA). O critério de seleção do trabalho
exigia dois pontos fundamentais: declaração dos autores de que o tema pesquisado por eles
era constituído de natureza controvertida (ainda que dito em sinônimos); co-relacionamento
explícito entre tal tema pesquisado e o ensino de Ciências em qualquer nível. Decidimos
utilizar uma busca de acesso a cada periódico por vez, pois concluímos, por meio de uma
exploração inicial que não há consolidação da terminologia “temas controversos” ou
“problemas sócio científicos” como palavras-chaves imperativas. Registramos termos como
“temas sócio-políticos”, temas contemporâneos, “opiniões sobre tema polêmico”, entre
outros.
UNIVERSO DOS ARTIGOS PESQUISADOS
Para tornar a análise comparativa entre os artigos mais elucidativa e inferir possíveis
tendências, referenciamos cada um deles a um número associado à ordem temporal de
publicação, dos mais antigos aos mais recentes, conforme exposto no quadro abaixo:
Nº do
Título do artigo
artigo
1
Biologia e ética: um estudo sobre a
compreensão e atitudes de alunos do
ensino médio frente ao tema
genoma/DNA.
2
Controvérsias sóciocientíficas
e prática pedagógica de jovens
professores.
3
O potencial de assuntos controversos
para a educação em uma perspectiva
CTS.
4
Aspectos de ciência, educação
científica e cidadania em debate a
partir de uma situação sóciocientífica.
5
A natureza dos argumentos na
análise de temas controversos:
estudo de caso na formação de
pós-graduandos numa abordagem
CTS.
6
Temas contemporâneos no ensino de
Biologia do ensino médio.
Autor
ALVES, S.B.F.;
CALDEIRA, A.M.A.
REIS, P.; GALVÃO,
C.
Publicação
eletrônica
Ensaio:
Pesquisa em
Educação
em Ciências
Investigaçõe
s em Ens. de
Ciências
Ciecultura
Mês/
ano
Ago.
2005
Jun
2005
BAROLLI, E.;
FARIAS, R.O; LEVI,
E.
Pierson, A.; Freitas,
Ciecultura
D. de & Zuin, V. G.
Jul
2006
FREITAS, D.;
VILLANI, A.; ZUIN,
V.G.; REIS, P.R.;
OLIVEIRA, H.T.
Ciecultura
Fev
2006
OLIVEIRA, V.
L.B.;REZLER, M.A.
Actascientia
e.
Jan/
2006
Dez
2005
4
7
Discussões acerca do aquecimento
global: uma proposta CTS para
abordar esse tema controverso em
sala de aula.
A utilização de temas controversos:
estudo de caso na formação inicial
de licenciandos numa abordagem
CTSA.
FLOR VIEIRA, K. R. Ciência &
C. ; BAZZO, W. A.
Ensino
Nov
2007
ZUIN, V.G.;
FREITAS, D.
Ciência &
Ensino
Nov
2007
9
A Temática Ambiental e o Processo
Educativo: o ensino de Física a
partir de temas controversos.
SILVA, L. F. ;
CARVALHO, L. M.
Ciência &
Ensino
Nov
2007
10
Controvérsia científica,
comunicação pública da ciência e
museus no bojo do movimento CTS.
Ciência, poder e Aids: a polêmica
sobre a causa da Aids.
NAVAS, A. M. ;
CONTIER, D. ;
MARANDINO, M.
GONZAGA, V. ;
OLIVEIRA, E. K. B.
; BASTOS FILHO, J.
B.
RAMOS, Mariana
Brasil ; SILVA, H. C.
Ciência &
Ensino
Nov
2007
Ciência &
Ensino
Nov
2007
Ciência &
Ensino
Nov
2007
PEDRANCINI, V.D.
et al.
Ciência e
Educação
CARDOSO, A. A. ;
MACHADO, C. M.
D. ; PEREIRA, E. A.
TAKAHASHI, J. A. ;
MARTINS, P. F. F. ;
QUADROS, A. L.
Química
Nova na
Escola
Química
Nova na
Escola
JanAbr
2008
Mai/
2008
8
11
12
Para pensar as controvérsias
científicas em aulas de ciências.
13
Saber científico e conhecimento
espontâneo: opiniões de alunos do
ensino médio sobre transgênicos.
Biocombustível, o mito do
combustível limpo.
14
15
Questões tecnológicas permeando o
ensino de química: o caso dos
transgênicos.
Ago/
2008
Para a análise dos trabalhos selecionados quatro questões inicialmente por nós
propostas foram orientadoras das leituras, quais sejam: 1) quais são as principais questões de
investigação; 2) a natureza da controversa do tema abordado, isso é, se de ela é de cunho mais
epistemológico ou de ordem, política, moral, estética ou ética; 3) se os discursos dos sujeitos
envolvidos nos debates foram analisados e, em caso afirmativo, o modo como se deu tal
análise, isto é, se foi feita análise de conteúdos ou dos sentidos do que foi dito sem que se
separasse o dito do modo como foi dito, no próprio fluxo das interações interlocutivas.
DADOS GERAIS SOBRE OS ARTIGOS PESQUISADOS
Dos quinze artigos publicados entre jan de 2005 e agosto de 2008, dez deles possuem
natureza empírica, sendo cinco artigos teóricos ou ensaios sobre a inserção de controvérsias
no ensino de Ciências.
Dentre os dez trabalhos empíricos, um equilíbrio aparente: quatro abordam o nível
superior em graduação e pós-graduação, enquanto cinco investigam temas controversos na
educação básica. Apenas um trabalho aborda controvérsias nos museus. Destas cinco
investigações, todas elas se dão em temáticas relacionadas ao ensino de Biologia. O número
5
menor de pesquisas em temáticas da Física (aparece em um dos artigos teóricos), e da
Química (em conjunto com a Biologia em um dos trabalhos sobre transgênicos), talvez possa
ser explicado pelos sentidos da palavra “controvérsia” que parecem estar mais fortemente
associados às questões éticas e dilemas relacionados à vida.
Na totalidade dos artigos pesquisados, a abordagem é qualitativa, embora alguns
trabalhos como os artigos nº 1, 13 e 15 sobre transgênicos utilizam uma quantificação
percentual para fundamentar a análise e em sua maior parte adotam uma perspectiva teórica
interpretativa.
A motivação social dos trabalhos, em geral se situa em significados comuns: promover
a educação para a cidadania, favorecer uma abordagem CTS, reformulação da formação de
professores ou ensinar aspectos da natureza da ciência.
PRINCIPAIS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO
Robert Yin (2005) em sua obra sobre “Estudo de caso, planejamento e métodos”, diferencia
problemas de investigação como explanatórios, mais associadas à relação de causa-efeito
(Como, Por que); exploratórias, associadas à exploração e “mapeamento” de determinado
fenômeno (O que, Quais, Quantos); e descritivas.
Observamos que a maioria das pesquisas recentes no Brasil (pelo menos dez) possui
cunho exploratório, sendo a estratégia de investigação escolhida diversificada: dois estudos de
caso, três experimentos e dez levantamentos. Segundo o próprio Yin, é e mais adequado, por
isso é esperado encontrarmos experimentos, isto é, situações com controle parcial ou total das
variáveis, como estratégia de resposta das questões explanatórias. Como exemplo, o artigo 1
em que Alves & Caldeira (2005) propõem uma seqüência didática, dentro da qual os alunos
são convidados a pensar em aspectos positivos e negativos das aplicações da engenharia
genética antes da seqüência e após a seqüência, momento em que são convidados a reavaliar
posições. O levantamento, estratégia dentro da qual não há controle de variáveis, pode ser
exemplificada pelo artigo 13, em que os autores Pedrancini et al (2008) investigam as
opiniões de uma amostra de alunos sobre transgênicos através de um questionário aberto. Por
fim, encontramos Estudos de caso, como o artigo 2 escrito por Reis & Galvão (2005). Nesta
pesquisa, o autor entrevistou e acompanhou um ciclo de aulas de 3 professores portugueses
com o intuito de relacionar as concepções sobre educação científica, em especial
controvérsias na educação, às trajetórias de vida, escolhas pessoais e `a prática pedagógica.
Podemos perceber a partir da formulação das questões em seu conteúdo e forma, e da
predominância de levantamentos exploratórios, um reflexo da recente produção de pesquisas
sobre temas controversos no nosso país. Um “tatear” desse universo permite-nos constatar
uma produção centrada em “o que (s)” e “quais”, diferentemente da produção norte-americana
e européia cuja formulação de pesquisas explanatórias parecem ser mais freqüentes (KOST,
2006; SADLER & FOWLER, 2006; KOLST et Al, 2006). Como exemplos das questões
brasileiras, citamos: de que modo as controvérsias são tratadas nos museus?; quais os
possíveis reflexos do discurso ambientalista na prática pedagógica?; quais as opiniões de
alunos do ensino médio sobre a manipulação genética?, etc.
A CONTROVERTIDA NATUREZA DA CONTROVÉRSIA
Dentre os artigos pesquisados, apenas três problematizam a natureza da controvérsia.
No artigo 9, Silva & Carvalho afirmam “que mesmo dentro de uma determinada comunidade
científica são produzidos diferentes discursos sobre a problemática ambiental” (p.1). Em
seguida, os autores discorrem sobre as ambigüidades do que eles chamam de “discurso
ambientalista”. Ramos & Silva percorrem as diferentes definições de controvérsia e seus
6
contrastes dentro da sociologia do conhecimento científico e tecnológico. Elucidam a mesma
diferenciação proposta por nós, a partir do trabalho de NARASIMHAN, para fatores
epistêmicos ou não epistêmicos integrantes dos problemas sócio-científicos. No artigo 11,
Gonzaga et al. aponta que significativa parte da divulgação científica não leva em conta a
complexidade do desenvolvimento externo e interno da ciência, enfatizando que o ensino de
ciências não pode se furtar de considerar a Ciência e Tecnologia enquanto fenômenos sociais.
(p.1)
Os demais doze trabalhos analisados tratam dos temas controversos a partir de
definição consensual e não problemática. Sete artigos, embora investiguem temas
controversos no ensino de ciências em alguma de suas dimensões, não se ocupam em definir o
que seja a natureza dos mesmos. Os demais cinco trabalhos, embora resguardem diferenças,
definem temas controversos como problemas que ultrapassam os limites do conhecimento
científico e técnico, implicando necessariamente em dimensões social, política, econômica e
ética em sua resolução. Barolli et.al (2006) afirmam que tais problemas devem “incomodar” o
educando, conflitando seus valores (p.4). Freitas et al. (2006) associam tais problemas à
problemas morais no domínio da ciência, definindo-os em função de sua utilidade: construção
de uma imagem mais humana e real do empreendimento científico, reformulação de opiniões
e crenças dos educandos (p.3). Vieira e Bazzo pontuam a não restrição a cientistas e
tecnólogos da competência de julgar decisões de natureza controversa, mas a necessidade de
que “saibamos posicionar frente às mesmas” (p.2)
Embora não seja explicitado nos discursos dos textos, podemos inferir pelas definições
elaboradas, que as controvérsias estão mais frequentemente associadas a fatores não
epistêmicos, predominantemente morais e éticos, na “ponte” entre produção científica e
aplicação social. Como evidência desta afirmação, dos quinze trabalhos pesquisados, apenas
três investiga embates no interior da Ciência (causas da Aids, causas do aquecimento global).
Os outros doze investigam os limites da aplicação da engenharia genética e da reprodução
humana assistida, o consumo/benefícios/ malefícios dos transgênicos, aspectos positivos e
negativos da transposição do rio São Franscisco, dilemas na construção de uma barragem em
Alqueva – Portugal, a utilização de energia nuclear na matriz energética brasileira e a
contaminação de lençóis freáticos na Califórnia (EUA).
O DISCURSO ANALISADO NOS TEMAS CONTROVERSOS
Em diversos trabalhos percebemos dizeres e termos que privilegiam a discursividade como
constituinte importante da ciência e do ensino da mesma em várias dimensões. Por exemplo,
Freitas et al.(2006) reconhece que a atividade científica é definida como uma atividade
discursiva por natureza. Barolli et al. e Pedrancini et al dialogam com o sócio-construtivismo
de Vygotsky, os primeiros ao afirmar que “assunto controverso é por natureza uma
abordagem social” o que seria compatível com as elaborações do autor russo acerca do
processo de aprendizagem. Os segundos ao buscar explicações na formação de conceitos
vygotskiana para a não correspondência entre a fartura de informações sobre transgênicos e a
inadequação do conhecimento básico expresso por alunos secundaristas. Silva e Carvalho
(2007) reconhecem que há vários discursos circulantes no interior da Ciência, tensionando seu
objetivo central em analisar o “discurso” ambientalista em seus “dissensos, controvérsias,
posicionamentos e perpectivas diferentes”. Por fim, Ramos & Silva (2007) fala da
necessidade dos discursos escolares trabalharem o sentido e significado da Ciência. Dentro de
uma síntese das contribuições de se ensinar por controvérsias científicas, este autor aponta a
aproximação dos educandos de outras formações discursivas, o que favorece a construção dos
seus próprios discursos.
7
Apesar de vasta citação à dimensão discursiva, e de reconhecimento por parte dos
autores Ramos & Silva de que “trata-se de uma perspectiva de pesquisa promissora e ainda
pouco desenvolvida, a que considera questões de discurso e linguagem na relação com a
perspectiva CTSA”, em nenhum dos artigos, realiza-se análises de interações discursivas. Não
se aborda aspectos de intencionalidade, vozes em diálogo, produção de sentidos, investigando
as condições de enunciação. No universo dos trabalhos empíricos, quase a totalidade focaliza
o enunciado, optando pela orientação metodológica da análise de conteúdo, seja pela
contagem em freqüências percentuais, como as opiniões dos alunos sobre a engenharia
genética no artigo 1, seja por categorização de argumentos, tal qual àqueles expressos por
alunos pós-graduandos sobre o problema sócio-científico da instalação de uma hidrelétrica de
Alqueva em Portugal no artigo 5.
CONCLUSÕES
A abordagem de temas controversos na educação, embora recente, tem ocupado lugar
de interesse e destaque nas publicações brasileiras e internacionais. O presente artigo
objetivou mapear as produções brasileiras dos últimos quatro anos, suas principais questões
de investigação, suas relações com a controvérsia e definição epistemológica adotada, suas
relações com aspectos do discurso e formas de analisa-lo.
Encontramos predominantemente trabalhos empíricos (2/3 do total), de abordagens
qualitativas e focalizadas na educação básica e educação superior. Em vasta predominância,
as controvérsias são ambientadas em contextos da biologia, o que sugere a adoção de
controvérsias não-epistêmicas, geralmente estruturadas pela antítese benefício/malefício da
aplicação do conhecimento científico em questão na esfera social. Apenas três trabalhos
investigam controvérsias epistêmicas, minoria que reflete a pouco freqüente problematização
de controvertidos sentidos para a própria terminologia “controversa”. Aspectos discursivos,
embora amplamente citados como estruturantes da Ciência e da educação científica, não
balizam as análises realizadas, que unanimemente centram-se na análise dos conteúdos dos
enunciados.
Como implicações, constatamos a necessidade de investigar os sentidos atribuídos ao
discurso e às terminologias como “formação discursiva”, “produção de sentidos”, etc. dentro
de publicações das pesquisas em ensino de ciências, fato que pode evidenciar melhor as
causas da aparente não correspondência entre a construção do discurso e as opções
metodológicas assumidas pelos autores. Outro desdobramento é a necessidade de uma
investigação mais ampla na produção internacional, para assim, situar a produção brasileira
em suas tendências e caminhos de forma mais sóbria e enraizada no diálogo com o que se
produz na comunidade global.
REFERÊNCIAS
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8
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