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o «amargo rio» da melancolia na poesia de Carlos de Oliveira

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o «amargo rio» da melancolia na poesia de Carlos de Oliveira
o «amargo
rio» da
melancolia
na poesia
de Carlos
de O liveira
•
NÃo PARECE DESPERTAR HOJE GRANDES DÚVIDAS
a importância da obra poética de Carlos de
Oliveira e o modo como nos seus textos se
faz sentir essa p eculiar forma de tristeza a
que os Antigos chamavam melancolia. A sua
escrita avulta, assim, entre as mais decisivas
do século
xx
português, não só pela inteli­
gente abordagem de uma dimensão social
enquadrada no neo - realismo, como tam­
bém por uma acentuada preocupação com a
linguagem e com a procura d a harmonia no
espaço interior do poema, de forma a que
cada uma das suas palavras adquira o peso
mais j usto em relação às outras, reforçando
o rigor, a coerência e a eficácia expressivas,
ao ponto de nada parecer estar a mais nos
seus versos. Esta atitude - que, segundo
Maria Alzira Seixo, «se dirigiu no sentido da
depuração da matéria verbal, de uma con ­
tenção d e expressão e d e um rigor no con tor­
no do verso» (Seixo, 1 9 8 0 , p. 2 0 1 ) - haveria
de influenciar a geração dos anos 60 e de
conferir à poesia de Carlos d e Oliveira uma
mistura de densidade e rarefacção absolu­
tamente singular na nossa contemporanei­
dade.
Procuremos, então, acompanhar o Tra ­
balho Poético do autor e comecemos por
sublinhar até que ponto nele se fazem sentir
as consequências de uma radical contradi­
Fe r n a n d o
P i n to
do A m a ra l
ção, de um conflito que radica bem fundo e
ultrapassa a clássica dialéctica neo-realista
do desespero transformado em esperança
ou vice-versa. Decerto que tal dialéctica está
presente em Carlos de Oliveira, mas atinge
aqui um grau e uma amplitude mais existen­
ciais - uso este adj ectivo na esteira de Edu­
ardo Lourenço, que o aplica ao poeta (Lou­
renço, 1 9 83, p. 1 43) -, uma intensidade
mais intimamente ligada à génese da pró­
pria escrita e à sua incessante busca de har­
monia:
Em lágrimas e rios se define
dar sentido à vida e sobretudo à luta de certos
a dialéctica da esperança:
homens por um mundo diferente» (Lourenço,
nas lágrimas que são .o espan to e o frio,
1983, p. 144) . Permanecendo a este nível
nos rios, a torrente que não cansa
interpretativo (operatório em Oliveira mas
também noutros autores da mesma tendên­
De contrários se faz toda a harmonia:
cia) , não é difícil arrolar textos que ilustram
e nasce nas crisálidas, nas casas,
quer essa esperança sentida como necessá­
entre o sonho e o preço da alegria,
ria
o desenho do voo antes das asas.
perca a esperança» (Oliveira, 1982, p. 61) --,
Assim meus versos noutros explicados,
poeta se encontra inserido, marcada p o r
-
«Por mais que nos doa a vida / n u nca se
quer a situação histórico-literária em que o
contradição, crisálida, bolO/;
uma espécie d e imperativo d o código n e o ­
me levassem à fonte donde corre
realista segundo o qual os escritores devia
a harmonia do canto libertado.
tentar fugir de quaisquer queixumes o u
(Oliveira, 1982,
p. 55)
melancolias. É claro que, como notou Eduar­
do Prado Coelho, «essa acusação só podia vir
Há nestes versos matéria suficiente para
Fotografia de arquivo do JORNAL OE LETRAS.
dos que pretendem ver em toda a poesia u m
alargar o âmbito das pulsões contraditórias
optimismo beato e estupidamente alheio à
em Carlos de Oliveira: por exemplo, e apesar
condição desamparada dos homens» (Coe­
da essencial correspondência entre as lágri­
lho, 1 972, p. 1 08) mas, ainda que p rimária,
mas e os rios graças ao mesmo elemento
ela é suficientemente importante p ara que
líquido, deparamos com uma ânsia de atingir
num célebre soneto Carlos de Oliveira lhe
a harmonia e a libertação através de um movi­
responda, sintetizando a p osição pessoal
mento ascencional (o voo, as asas, o sonho)
que assume nessa encruzilhada:
oposto a uma realidade terrrestre na qual as
palavras são, afinal, «contradição, crisálida,
Acusam-me de mágoa e desalento,
bolor»
como se toda a pena dos meus versos
-
três substantivos carregados de sen­
tido nesta poesia, sobretudo pelo valor de
não fosse carne vossa, homens dispersos,
metamO/fase insinuado no destino da crisáli­
e a minha dor a tua, pensamento.
da, mas também pelo carácter involuntário,
surdo, sub-reptício ou clandestino que define
[ . . .]
o lento mas inexorável crescimento do bolor
Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
sobre todas as coisas, do modo mais pobre e
[. . . ]
imperceptível: «Os versos / que te digam / a
pobreza que somos / o bolor / nas paredes / deste
Entretanto, deixai que não me cale:
quarto deserto» (id., p. 78) .
até que o muro fenda, a treva estale,
Regressemos, porém, à faceta contradi­
seja a tristeza o vinho da vingança.
tória mais neo -realista e recordemos a for­
1 03
mulação de Eduardo Lourenço, para quem
A minha voz de morte é a voz da luta:
tal aspecto p assa pela «contradição entre
se quem confia a própria dor prescruta,
uma "tristeza" na qual a subjectividade tem
maior glória tem em ter esperança.
parte e uma obrigação de esperança capaz de
(Oliveira, 1982,
pp. 20-2 1 ) .
Ao procurarem, de certo modo, justificar
madrugada as últimas palavras deste livro: e
pelo sofrimento colectivo a insistência na tris­
tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se
teza individual - que chega a ser tomada como
'
«vingança» -, estes versos ajudam a explicar a
reconstrói e continua» (idem, p. 72) .
atitude socialmente empenhada do poeta e
via, que este não é o pathos preponderante em
Qualquer leitura atenta verificará, toda­
contribuem para o integrar numa problemáti­
Carlos de Oliveira, parecendo sempre, de
ca neo-realista que surge, aliás, em moldes
algum modo, o resultado de um esforço raci­
naturalmente disfóricos ao longo da sua obra,
onal e consciente do sujeito para combater o
tanto nas referências à miséria económica dos
seu instintivo e frequente pendor para se
«Trago notícias da fome / que
entregar à melancolia. Não que se trate de
corre nos campos tristes: / soltou-se a fúria do
uma tristeza estéril ou umbilicalmente volta­
vento / e tu, persistes. / (. . . ) / Foi-se a noitefoi-se o
da sobre os meandros da sua vida, já que está
camponeses
-
dia, /fugiu a cor às estrelas: / e, estrela nos cam­
embebida por um sentido universal da dor
pos tristes, / só tu, miséria nos velas» (id., p. 14)
terrestre. Como observou Gastão Cruz, «Car­
como no sentimento humano de cO/npaixão
los de Oliveira vê o planeta como uma exten­
(etimologicamente compadecer-se é sofrer com
são do sofrimento humano» (Cruz, 1 989, p. 85)
alguém, ao escutar o eco de uma dor colectiva
e daí, talvez, o clima trágico de que fala Eduar­
-
chorada pelo povo: «oiço sem querer o meu povo
do Lourenço a propósito da sua poesia, bem
choraI'» (id., p. 2 1 ) ; «Olhos do povo que cismais
mais complexa do que poderia ser sugerido
chorando, / olhos turvos de outrora, / chegai-vos
por uma interpretação segundo o código neo­
ao calor que irá secando / o coração - da chuva
-realista habitual. Para mergulhar (e este aqui
que em nós chora» (id. p. 12). Neste contexto,
é um verbo adequado na densidade desse
mais uma vez a mágoa do sujeito se legitima,
porquanto não passa do simples reflexo de Uma
clima, gostaria de citar na íntegra um poema
aparentemente legível segundo a dialéctica
desgraça nacional: «Nunca ofogo dosfáscios nos
desespero/ esperança, mas carregado de uma
cegou / e esta própria tristeza não é minha: / fi­
ambiguidade capaz de sabotar qualquer con­
la das lágrimas que Portugal chorou / parafazer
clusão mais linear ou reconfortante:
maior a luz que se avizinha» (id., p. 3 1 ) .
Ainda num quadro de contornos neo-rea­
listas podem compreender-se alguns (relativa­
mente raros) fragmentos que transmitem a fé
num futuro melhor sob todos os aspectos,
como quando se escreve que «Cantar é empur­
rar o tempo ao encontro das cidades futuras»
(id., p. 55), quando o sujeito adquire a primei­
ra pessoa do plural para afirmar a crença nas
virtualidades científicas do modelo marxista
-
«medimos o futuro em anos-luz / dando à
Can ta na noite, o sentimento da terra,
ou. morreste, flor estranha?
Há tanto já que chove e nós sem lenha,
sem paz e sem guerra.
Há tanto. E eu sei lá bem
se ainda persistes,
minha incólume esperança.
Vão-me doendo os olhos já de serem tristes.
Vão-me doendo,
esperança a validez da ciência» (id., p. 75) - ou
que mos turva de sombra o desespero.
ainda quando acaba por exibir, no texto final
E escrevendo à luz débil me pergunto
de Terra de Harmonia, uma serena confiança
se é a morte ou a manhã que espero.
na renovada alegria de viver a vida: «Escrevo na
(Oliveira, 1982,
p. 13)
1 04
Um texto como este mostra-nos até que
que engrossam com a sua água. Disso nos fala
por uma incerteza quanto ao seu desabrochar
futuro, que corresponderia à transformação
um texto em prosa intitulado «O Fundo das
Águas» - «E desta angústia vou tecendo as
da noite (com que inicia o poema) na manhã
palavras, desta água salgada e doce como as
com que termina. Tal metamorfose permane­
lágrimas e o sangue» (id., p. 7 1 ) - e ainda
ce, contudo, num plano meramente hipotéti­
outros poemas como «Lágrima» (cf. id., p. 79)
co, sob a ameaça da morte, que paira, aliás,
ou o conhecido «Soneto da Chuva», em que a
sobre todo o amargo lirismo de Oliveira.
E é num belo soneto de Canta ta (quase
uma arte poética) que esta poesia, franca­
mente impregnada por uma surda tristeza
existencial, se reconhece prisioneira do sofri­
mento e incapaz de dar «a leve têmpera do
vento» ao duro mineral de que são feitas as
suas palavras:
De acordo com a nota dos editores, esta edição
da Caminho, de 1992, «responde a um desejo
de Carlos de Oliveira: reúne num único volume
os textos que o Autor reconhecia como
constituindo a sua obra.».
nível da paisagem, a chuva, ou os rios e mares
ponto a «incólwne esperança» está minada
dor é algo que se bebe e em que a própria defi­
nição da poesia surge sob a forma fluida de
um caudaloso rio de lágrimas:
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito é já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
Rudes e breves, as palavras pesam
és tu, poesia, meu amargo rio.
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
(id., p. 7 1 )
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras de fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.
(id., p.SO, destaque meu).
Espreitemos, então, para essa «mina obs­
cura e insondável» e reparemos num traço dis­
tintivo deste poeta - refiro-me à consistência
material adquirida pela emoção a que geral­
O B RAS
DE
CARLOS DE OLIVEIRA
TRABALHO POÉTICO
O APRE�OIZ DE FEITICEIRO
C\SA �.\ DVNA
PEQUENOS BURGUESES
UM.\ ABElHA �A CmA
FISISTERRA
I : H l u l B I B LI O G R A F I A ,
D I SC O G I H I A t l C O N O G I H I\
DI [ S O U E
CAltOS OE OLIVEIRA
mente se chama tristeza, manifestada, acima
de tudo, pela frequência e pela pregnância das
imagens relacionadas com um campo semân­
tico ao qual pertencem diversos emblemas do
estado líquido, como por exemplo, ao nível
1 05
humano, o sangue, o choro, as lágrimas, e, ao
CAM Itt-iO
Penetrando um pouco mais na referida
[. . .]
«mina obscura», dir-se-ia que, sob a égide de
cavalgo devassando as fontes da vida
uma clara oposição entre o alto e o baixo, entre
donde goteja um leite amargo e turvo.
a elevação e as profundezas - <<Ao alto, impre­
[. . .]
visíveis tempestades I e um difícil limite a con­
Coisas sem forma rastejando
ceber; I debaixo grutas e profundidades I estru­
nas estalactites de chama
turas a criar e a apodrecer» Cid., p. 34) -, a poe­
como larvas ou baba
sia de Carlos de Oliveira não hesita em descer
[. .]
.
ao abismo de si mesma, fazendo-o sem a reli­
como aranhas do susto
giosa tensão de um Régio, mas desco brindo ao
na minha alma de lama.
longo desse caminho o fascínio e o terror de
[. . .]
um panorama submerso e infestado por uma
Esse segredo de fogo inviolado,
sombria e luxuriante fauna e flora repleta de
esse fragor apenas, que não se pode olhal;
imagens informes ou viscosas, próximas desse
essa dor sem alívio
lodo indefinido onde cresce o plâncton das
que seca as lágrimas antes de as criaI:
mais ínfimas vidas - musgos, líquenes, fun­
(id., pp. 42/45)
gos, vermes, fetos, algas, etc. - imersas num
magma larvar e placentário que exprime,
Poder-se-á objectar que tudo isto parece
como sublinhou Eduardo Lourenço, « obsessão
ter pouco a ver com a melancolia. Nada mais
pelo orgânico abortado» (Lourenço, 1 983, p.
1 76) , e se concretiza em inúmeros poemas alu­
falso, visto que em Carlos de Oliveira a
sivos a «lagos esverdeados», a « vermes que apo­
arrastarem o sujeito para um passado diluí­
dimensão elegíaca e a pulsão nostálgica, ao
drecem» (cf. Oliveira, 1982, p. 7) ou ao « mundo
do no tempo e ao fazerem arder com um
das verdes águas e dos pântanos» (id., p. 39) ,
peculiar perfume a <<lenha I da melancolia»
atingindo o resultado alegoricamente mais
Cid. , p. 83) , obrigam a essa estranha descida
estruturado em «Descida aos Infernos», de que
iniciática e abismal rumo ao desconhecido
citarei apenas alguns excertos:
de si mesmo, atravessando um plasma psi­
canaliticamente associável ao inconsciente e
Desço
à escuridão de uma noite habitada por figu­
pelo cascalho interno da terra,
ras oníricas. Ao definir o tempo como «lama
onde o esqueleto da vida
de sangue» (id., p. 69) ou ao afirmar, na aber­
se petrifica protestando.
tura de «A Noite Inquieta»: « deixai que escre­
[. . .]
va pela noite den tro.·1 sou um pouco de dia
Toldam- me os olhos gigantes de placenta
anoitecidol mas sou convosco a treva flores­
génios abortados no parto destas fumas
cendo» (id. , p. 3 1 ) , o sujeito está a mergulhar
onde não chega n unca, ó coisas diurnas,
nessa água sempre misteriosa cujo caudal se
a vossa luz piedosa.
alimenta da « ch u va da lembrança» (id., p. 8 6)
e vai escorrendo à medida que o fluxo da
Desço
memória se deixa impregnar por esse reino
para o centro da terra,
de penumbras, cujo regresso se torna por
atravessando o sono inicial
vezes tão penoso que leva o eu a desejar o
dos fetos líquidos dos lagos.
esquecimento:
1 06
Já escuro e denso o rio da memória
sentimento passional de novo claramente
flui e me entristece,
visível à superfície do rosto mais amado, aí
se acaso lembro que chorei
desencadeando uma desesperada fusão amo­
o que nem, lágrimas merece.
rosa mercê da qual as próprias lágrimas cho­
[ . . .]
radas pelo eu e pelo tu se confundem:
Foge, inim,iga sombra, volve
à sombra antiga de que vens rumorejando:
Arde no lar o fogo antigo
e lá, pátria do esquecimento,
o amor irreparável
seja olvidado o que me fores lembrando.
e de súbito surge-me o teu rosto
(id.,
p. 36)
D este modo, a melancolia inscreve-se
neste discurso lírico em diversos planos: por
um lado, como resíduo da memória turva e
impura de um tempo que passou e já não
volta, sendo nessa «dor do tempo que se perde»
entre chamas e pranto, vulnerável:
como se os sonhos outra vez morressem
no lume da lembrança
e fosse dos teus olhos sem esperança
que as minhas lágrimas corressem .
(id., p . 70)
(id., p. 30) que mais tragicamente sentimos
Noutros momentos igual e dolorosamen­
todo o lodoso peso de uma alma procurando
te líricos, tais recordações surgem ligadas a
em vão a limpidez pura e cristalina dos dias
lugares concretos, que se deixam extravasar
engolidos pela voragem - repare-se, a este
propósito, no poema «Água» e na angústia dos
em textos de recorte tradicional como a «Ele­
gia de Coimbra» - «correm, as lágrimas ao
seus versos breves e contidos, quase a fazer
rio,/ a esse vale das dores passadas, / mas dw­
lembrar Nemésio:
ram as paredes e as almas / outras dores que
não foram perdoadas» (id. , p. 20) - ou a
A água pura dos poços
comovida «Elegia da Ereira», colocada slÜb
que a alma teve
uma epígrafe de Afonso Duarte, encarado
leva já lodo à superfície:
como o mestre do poeta:
e o escuro tempo da velhice
e nós tão moços.
Lágrimas desprendidas
A água tormentosa
que a loucura escurece,
que a alma agora tem
lá vamos nós,
dum olhar terrestre
cai de meus olhos tristes:
lá somos, mestre,
ó tempo, ó tempo alegre,
aquelas sombras flutuando ao lum:
onde é que existes?
(idem, p, 26)
E no entanto a terra,
Por outro lado, é precisamente a inglória
chama ainda por nós.
esse magoado coração do espaço
busca desse tempo desaparecido que trans­
1 07
mite a alguns poemas uma intensa carga afec­
Que lhe diremos, mestre,
tiva, por vezes evocando reminiscências pes­
tão pobres e tão sós.
soais marcadas pelo repentino fulgor de um
(idem, pp. 68-69)
Por último, deve dizer- se que a p erti­
nência destas considerações a resp eito da
melancolia se motiva sobretudo na primei­
ra parte da obra poética de Carlos de Oli­
veira (até Sobre o Lado Esquerdo) , já que na
derradeira fase da sua poesia (digamos a
partir de Micropaisagem) a tendência para
a rasura da instância subjectiva inib e qual­
quer l eitura rastreadora de sentimentos
melancólicos nos moldes em que o s temos
visto até aqu i . Propondo, num e n s ai o
recente (d. Silvestre, 1994) , u m a interessan­
te interpretação da po esia dessa última fase
e articulando-a com o romance Finisterra,
Osvaldo M . Silvestre soube mostrar- nos até
que p o nto o isolamento laboratorial do
suj eito, ocupado a descrever e a analisar o
universo no seu n'lÍcro- rigor, implicando
uma « s uspensão da História» (cf. i d . , p.25)
e «transformando o m undo (as suas ruínas)
em paisagem» (id. p . 28 ) , confere a esta p o e ­
s i a a dimensão d e uma pastoral desertada
pelo p astor ordenador e a afasta do clássi­
co mo delo neo - realista. De acordo com a
leitura de Silvestre, «nas obras term inais de
Carlos de Oliveira assistimos ao finis terrae
do imaginário marxista, o que nos é dado
por uma textualidade a lheia já às conven­
ções da literatura neo - realista» (id. , p. 43) .
Curiosamente, e ainda segundo este crítico,
é à luz (ou à sombra) d esse fin is terrae que
a obra de Oliveira se relacio n a c o m a
BIOLlOGRAFIA
atmosfera de pós-mod ernidade que marca
Eduardo Prado COELHO , A Palavra Soure {1 Palavra, Porto, Portucalense
o nosso final de século e, p oderia acrescen­
tar- se, com o difuso e fragmentário p erfil
da sua melancolia
-
um perfil tão fugidio
e imperceptível como o do m usgo de que
nos fal a o último p o ema de Carlos de Oli­
veira e que, «em seu discurso esq u i vai de
água e indiferença» ( Oliveira, 1982, p. 190) ,
talvez nos dê «alguma ideia disto» (idem,
ibidem,) .
Carlos de Oliveira num retrato de Mário Dionísio,
incluído na edição da Caminho.
ed., 1 972.
Gastão Cnuz, (,Carlos de Oliveira: uma Poética da Brevidade no Contexto
do Neo-realisl11o» in AA.Vv., A p/za/a / um Século de Poesia - 1888/ 1988,
Lisboa, Assírio & Alvim, 1989.
Eduardo LoUIlENÇO, Sentido e forma da Poesia Neo-renJista, Lisboa, Pub.
Dom Quixote, 1983 (ed. org.1968).
Carlos de OUVEIRA, Trabalho Poético. Lisboa, Sá da Costa, 1982.
Maria Alzira SEIXO, «Carlos de Oliveira» , i n ru.Vv. , Portugal - Terra e o
Homem, Lisboa, Fund. Calouste Gulbenkian, 1 980.
Osvaldo �vl. SII.\'ESTRE, Slow klotiol1 - Carlos de Olilleira e n Pós-moderni­
dade, Coimbra/Braga, ed. Angellls NOVlIS, 1994.
1 08
Fly UP