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Discussões sobre as mudanças climáticas globais

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Discussões sobre as mudanças climáticas globais
Francisco Ronnieplex de Moura Cruz
Professor substituto do Departamento de Geografia, CERES/Caicó/UFRN
[email protected]
Letícia Andrade da Silva
Graduanda do Departamento de Geografia, CERES/Caicó/UFRN
[email protected]
Elisiene de Macêdo Pereira
Graduanda do Departamento de Geografia, CERES/Caicó/UFRN
[email protected]
Rebecca Luna Lucena
Professora da UFRN e doutoranda da UNB
[email protected]
Discussões sobre as mudanças
climáticas globais:
os alarmistas, os céticos e os
modelos de previsão do clima
Resumo
Este ensaio traz à tona questões intrigantes e dúvidas que permeiam as pesquisas
voltadas às mudanças climáticas globais, enfatizando as discordâncias existentes
entre as distintas correntes de cientistas e os prognósticos elaborados pelos modelos
de previsão do clima. Para tanto, tomou-se por base as teorias propagadas por
alarmistas e céticos, bem como o prognóstico do Painel Intergovernamental sobre
as Mudanças Climáticas (IPCC) de 2007. O ensaio se baseou na análise de livros,
relatórios técnicos e artigos científicos, além da interpretação dos gráficos contidos
nos mesmos. Os resultados mostraram que sempre houve variação na temperatura
da atmosfera, mesmo antes do surgimento do homem e em níveis bem mais
elevados do que os atuais. Contudo, alarmistas e céticos concordam que a Terra
passou por um aquecimento de cerca de 0,6ºC no século XX, havendo divergência
no que diz respeito às causas desse aquecimento, suas consequências, e se ele
ainda está ocorrendo. Entretanto, um aspecto que põe em xeque a confiabilidade
de ambas as correntes diz respeito ao problema da previsão, pois são muitos os
fatores e elementos envolvidos na complexidade do sistema climático, tornando,
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assim, previsões climáticas exatas praticamente impossíveis, e deixando o debate,
até o momento, no campo das suposições.
Palavras-chave: mudanças climáticas globais, aquecimento global, alarmistas e
céticos, modelos de previsão do clima.
Abstract
DISCUSSIONS ABOUT GLOBAL CLIMATE CHANGES: THE ALARMISTS, THE SKEPTICS
AND CLIMATE FORECAST MODELS
This paper aims to discuss difficult questions and doubts about researches regarding
global climate change, showing discordances about what different scientific groups
and the forecasts elaborated by forecasting climate models. Therefore, we take for
basis the theories formulated by the two scientific groups: the alarmists and skeptics,
and the prognostic showed by the Intergovernmental Panel of Climate Change
(IPCC), 2007. This work was based in a research of books, technical documents
and scientific papers, and the interpretation of graphs and data within these works.
The results showed that oscillating temperatures always existed in the Earth’s
atmosphere before human existence and the oscillation was larger than today.
However, alarmists and skeptics believe that the earth atmosphere’s temperature
elevated by approximated 0.6º C in the XX century, but there is a big divergence
about the causes that rise and the consequences. Finally, an issue that questions the
reliability of both groups, concerns the problem of forecast mainly because there
are many factors and elements involved in the complexity of climate system thus
making accurate climate predictions virtually impossible and leaving the debate so
far, in the field of assumptions.
Key-words: Global climate change, global heat, alarmists and skeptics, forecast
models.
1. Introdução
O clima e os eventos do tempo interferem nas mais variadas atividades humanas e na segurança do próprio ser humano (MOLION, 2012). O
conhecimento da sociedade acerca das trocas de influências entre o clima
e as atividades humanas toma novos matizes no momento histórico presente, no qual é realidade o aumento da população global e da degradação
ambiental (MENDONÇA, 2010).
A partir das últimas décadas do século XX e adentrando pelo século
XXI, temas como mudanças climáticas e aquecimento global têm domina-
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do não só a mídia de massa, mas também provocado grandes embates no
mundo científico. Partindo desse pressuposto, este ensaio busca apontar
as principais dúvidas e incertezas que permeiam as questões voltadas às
mudanças climáticas globais, enfatizando as discordâncias existentes entre
as principais correntes de cientistas do clima e entre os diversos prognósticos elaborados, expondo os pontos mais imprecisos sobre as mudanças
climáticas e suas consequências sobre a superfície da Terra.
Assim sendo, ao analisar os dados bibliográficos inerentes ao assunto,
pretendemos elucidar as principais dúvidas e contradições que permeiam
o tema das mudanças climáticas e os modelos de previsão do clima, estes últimos publicados no Painel Intergovernamental para as Mudanças
Climáticas (IPCC, 2007). Nesse sentido propõe-se mostrar as principais
ideias das duas linhas de cientistas, a cética, contrária ao aquecimento
antrópico, e a alarmista, que atribui o aquecimento global à ação antrópica, ambas com teses totalmente divergentes e com argumentos bastante
convincentes para assim defenderem com muito afinco seus prognósticos,
como será exposto mais adiante.
Para alcançar os objetivos propostos, utilizou-se de pesquisa bibliográfica. Este tipo de pesquisa busca explicar um ou mais problemas com
base em contribuições teóricas publicadas em documentos como livros,
periódicos, revistas, relatórios, etc. (TRALDI; DIAS, 2006). Nesta pesquisa
nos utilizamos de livros, leitura de artigos e leitura do IV Relatório do IPCC
- Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática/ONU - Organização
das Nações Unidas, de 2007 (IPCC, 2007), todos abordando temas relativos
às mudanças climáticas e seus prognósticos. Concomitante à leitura do
material bibliográfico, foi realizada a análise e a interpretação dos gráficos
contidos nestes documentos, gráficos estes que trazem números principalmente relativos aos parâmetros temperatura e CO2. Os resultados aqui
expostos foram baseados em estudos científicos, optando-se pela supressão
de manchetes de jornais e revistas não científicas, por serem incontáveis
e por muitas vezes não se comprometerem com o rigor científico.
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2. Breve resumo sobre a atmosfera da Terra e sua evolução
A análise do material bibliográfico consultado nos mostra que a Terra,
desde sua formação, passou por mudanças drásticas em sua superfície e
sua atmosfera. No início da formação do planeta a atmosfera era espessa
e rica em CO2, proveniente das erupções vulcânicas e colisões cósmicas
(OLIVEIRA et al., 2001). Bilhões de anos foram necessários para que a
atmosfera terrestre evoluísse para o que é hoje. Os componentes atmosféricos e sua temperatura variaram e continuam em processo dinâmico de
evolução junto ao planeta Terra. Sempre ocorreu variação na temperatura
da superfície da Terra e consequentemente da atmosfera terrestre, mesmo antes do surgimento do homem, e existem evidências de que estas
temperaturas estiveram em níveis bem mais elevados do que os atuais
(KANDEL, 2007).
As mudanças dentro da atmosfera podem ser inteiramente provocadas tanto dentro do sistema Terra-atmosfera, como também por fatores
extraterrestres, e é importante fazer uma distinção entre variação do
tempo atmosférico e variações climáticas, pois, só se pode considerar uma
mudança climática sobre determinada área, se ocorrerem flutuações climáticas por um longo período de tempo. Uma mudança no clima significa
uma mudança na circulação geral da atmosfera, pois dessa última o clima
depende em última análise (AYOADE, 1996).
A atmosfera da Terra é composta, em sua maior parte, por um conjunto de gases. Os mais abundantes são o nitrogênio (78,1%) e o oxigênio
(20,9%), mas também há o argônio com 0,0934% e o dióxido de carbono
com 0,033%, além de 0,003% de outros gases (OLIVEIRA et al., 2001).
Também participam como componentes atmosféricos materiais particulados em suspensão, como poeira, fuligem, o pólen das plantas e demais
impurezas que são lançadas na baixa atmosfera pela ação dos ventos.
O efeito estufa que ocorre na atmosfera da Terra é um fenômeno natural, cuja ocorrência remete à origem da atmosfera e decorre da interação
dos componentes da troposfera (primeira camada a partir da superfície
terrestre) com a energia emitida pela superfície terrestre, a partir da interação da superfície com a energia oriunda do Sol. Esse fenômeno é um dos
principais responsáveis pelo aquecimento do ar e, consequentemente, por
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manter a temperatura da Terra em níveis adequados à existência da vida
como a conhecemos (TOLENTINO, 1995; TORRES, 2011). A ação desses
gases consiste dos mesmos bloquearem a perda da radiação terrestre para o
espaço (por absorção do calor, por exemplo), mantendo-a assim na troposfera e provocando seu aquecimento (MENDONÇA; DANNI-OLIVEIRA, 2007).
O IV relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas (IPCC AR4 2007) afirma que é bem provável que
a elevação da temperatura média global, verificada nos últimos 50 anos,
tenha sido causada pelo acréscimo da concentração de gases estufa, provocado pelo aumento das atividades antrópicas nos dias contemporâneos.
“Essas mudanças têm afetado o clima, o ciclo hidrológico e os eventos
extremos, com impactos na disponibilidade dos recursos hídricos em
âmbito global e regional” (MARENGO et al., 2011 p. 11). Esta afirmativa
do IPCC ganhou grande atenção mundial e este relatório de 2007 foi o
motor principal de muitos trabalhos científicos que vêm sendo publicados
atualmente no intuito de se descobrir o quanto as atividades humanas
podem modificar a dinâmica climática da Terra, através do incremento
de gases estufa na atmosfera.
3. As mudanças climáticas globais: os alarmistas, os céticos, o
CO2 e a temperatura do ar
Atualmente, existem duas linhas ou correntes científicas de autores
que tratam das questões referentes às mudanças climáticas globais: a
alarmista e a cética, também denominada negacionista. Porém, tanto a
alarmista quanto a cética, concordam que a Terra passou por um aquecimento de cerca de 0,6ºC no século XX, havendo, no entanto, uma grande
divergência entre os cientistas no que diz respeito à causa desse aquecimento, suas consequências, e se ele ainda está ocorrendo.
Os alarmistas afirmam que esse aquecimento global, principal motor
das mudanças climáticas globais, tão propagado nos meios de comunicação, é consequência do aumento do CO2 na atmosfera provocado pela ação
antrópica e que ele ainda está ocorrendo e irá aumentar nos próximos
anos (IPCC, 2007; MARENGO et al., 2011). Já os céticos afirmam que
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o aquecimento atual é um fenômeno natural, que ele já cessou e que,
pelo contrário, a Terra está passando na atualidade por um processo de
resfriamento (MARUYAMA, 2008; MOLION, 2008; ALEXANDER, 2010).
Para alguns autores, o dióxido de carbono (CO2) é o principal responsável pelo efeito estufa, pois ele é um gás que retém o calor na baixa atmosfera. O pai dessa teoria é o químico suíço Svante A. Arrhenius (1859-1927),
porém a teoria mais importante relacionada ao tema foi elaborada pelo
cientista inglês Nicholas J. Shackleton (1937-2006) (MARUYAMA, 2008).
Vale lembrar que existem outros gases como o vapor de água, o metano,
a amônia, o óxido nitroso, o ozônio e o clorofluorcarboneto, que também
contribuem para a intensificação do efeito estufa. Além desses gases,
existe ainda o material particulado em suspensão no ar que contribui de
modo relevante para o processo do efeito estufa. Todos esses componentes
atuam como uma barreira, impedindo que a energia secundária irradiada
pela Terra, em forma de onda longa, seja dissipada para o espaço sideral
(VEIGA, 2008).
O dióxido de carbono (CO2) está presente na atmosfera da Terra desde
sua formação, mas tem variado ao longo das eras geológicas. Ainda que alguns autores afirmem que essas variações do CO2 e da temperatura da Terra
na atualidade estejam ocorrendo principalmente devido ao incremento da
queima de combustíveis fósseis como petróleo, gás e carvão, promovido
através da industrialização e do aumento da frota de veículos, assim como
em virtude do desmatamento e da queimada de florestas (MENDONÇA;
DANNI-OLIVEIRA, 2007), outros observam que variações semelhantes
ou até maiores já ocorreram em períodos passados, quando não existia
nenhuma manipulação desses combustíveis fósseis pela ação humana.
Diante dessa problemática, os cientistas que trabalharam e redigiram
o IPCC 2007 são bastante enfáticos ao afirmarem que a concentração de
dióxido de carbono, de gás metano e de óxido nitroso na atmosfera global
tem crescido significativamente em virtude das atividades antrópicas desde
o ano de 1750 e que, em consequência disso, a temperatura terrestre está
aumentando e provocando mudanças climáticas de nível global (IPCC,
2007).
Porém, o relatório do IPCC não consegue explicar com nitidez, ou
pelo menos de forma convincente, pautado na teoria do CO2, dois pontos:
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por que entre 1925 e 1946 houve um aumento na temperatura média do
Planeta de 0,4°C, que corresponde a 70% do aquecimento dos dias atuais,
e por que houve depois disso um decréscimo de temperatura, entre 1947
e 1976 (LINO, 2011). Vale lembrar que esse último foi o período do pós-guerra e que foi a partir desse momento que começou a haver um maior
desenvolvimento tecnológico e consequentemente uma maior emissão de
CO2 na atmosfera, como afirma Molion (2008).
A grande lacuna que separa as duas linhas de cientistas está pautada
no fato de os dois grupos terem ideias muito distintas com relação às
origens do aumento da temperatura da atmosfera terrestre: enquanto
os alarmistas afirmam que o aquecimento pelo qual passou e/ou passa
o planeta Terra no século XX e início do século XXI é causado pelo incremento do dióxido de carbono na atmosfera, provocado, segundo eles,
pela ação antrópica (IPCC, 2007), os céticos têm outra visão bem mais
complexa do tema, pois, para eles, os seres humanos têm muito pouca ou
nenhuma influência no aquecimento global (ALEXANDER, 2010). Assim,
os céticos abrem um leque com vários fatores que podem ter provocado
ou estar provocando esse aquecimento, que, como dito anteriormente, é
um aquecimento inferior a outros ocorridos em períodos passados, muito
antes da revolução industrial que iniciou a grande demanda por energia
e uso de combustíveis fósseis. Para os céticos, não se pode deixar de lado
a complexidade que envolve o clima da Terra e nos prender a uma única
teoria explicativa, no mínimo contestável, que é a teoria do CO2.
De acordo com Kandel (2007), Maruyama (2008), Molion (2008),
Aragão (2009) e Molion (2011), os principais fatores que influenciam nas
mudanças climáticas são, sem ordem de importância:
• a intensidade da atividade solar, que quanto mais intensa mais contribuirá para que haja um aquecimento no globo;
• o campo geomagnético e os raios cósmicos, pois guardam uma relação, e, quando o primeiro se intensifica, os segundos se enfraquecem, favorecendo o aumento das temperaturas terrestres;
• as erupções vulcânicas, que, com suas nuvens de poeira, fazem a
temperatura média do planeta diminuir. Uma prova real deste fato
foi a explosão do vulcão Pinatubo nas Filipinas em 1991, que provo-
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cou o arrefecimento da temperatura em todo o mundo nos dois anos
seguintes à explosão;
• a órbita terrestre que, de acordo com a teoria de Milankovitch, exerce grande influência no clima da Terra, pois a distância entre a Terra
e o Sol varia em virtude da força gravitacional exercida por Júpiter e
Saturno. Quando essa distância é menor, a Terra recebe mais energia e se aquece, quando é maior, ocorre o efeito contrário.
Diante das causas já relatadas para a ocorrência de variações de
temperatura e mudanças no clima da Terra, fica claro que o incremento
de gases do efeito estufa advindos das atividades humanas não pode ser
considerado a única e principal causa do reaquecimento que se registrou
nos últimos anos. A figura 1 mostra o comportamento da temperatura e
dos níveis de CO2 terrestres registrados nos últimos 400.000 anos por meio
da análise de cilindros de gelo.
Figura 1
TEMPERATURA DO AR E NÍVEIS DE CO2 NOS ÚLTIMOS 420 MIL ANOS (VOSTOK, ANTÁRTICA)
Fonte: Petit et al., 1999 apud Molion, 2011.
Outro ponto de discórdia entre céticos e alarmistas diz respeito à
relação entre o aumento do CO2 e o aumento da temperatura, pois enquanto os alarmistas são veementes em afirmar que o aumento do CO2 é
a causa do aumento da temperatura, os céticos afirmam que o primeiro
é apenas uma consequência do segundo, ou seja, primeiro a temperatura
aumenta, para só depois haver uma elevação dos níveis de CO2 (MOLION,
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2011). Aqui, os céticos citam como exemplo, para comprovar sua teoria,
uma garrafa de refrigerante, pois se a agitarmos bem antes de abri-la ela
soltará mais gás do que se fizermos esse procedimento sem agitá-la. Esse
gás que escapa da garrafa de refrigerante nada mais é do que o dióxido
de carbono (MARUYAMA, 2008). Assim sendo, existem muitas dúvidas e
divergências entre alarmistas e céticos no tocante ao aumento das temperaturas na Terra e sua relação com os níveis de CO2 na atmosfera, emitido
pelas atividades humanas.
4. As pesquisas científicas atuais sobre o aquecimento climático
global
Ainda há outro confronto ideológico entre os cientistas no tocante às
previsões futuras, pois enquanto o IPCC afirma que haverá um aumento
progressivo das temperaturas absolutas e médias até o ano 2100 (IPCC,
2007), cientistas contrários a essa ideia contestam essa afirmação dizendo
que a natureza reage com o efeito de amortecimento de choque, que
consiste num poderoso mecanismo de defesa: esse sistema atuaria como
autorregulador do clima na Terra, não permitindo, assim, que houvesse
um descontrole generalizado na temperatura, o que provocaria sem dúvida
uma catástrofe planetária de proporções gigantescas (MARUYAMA, 2008).
Estudos recentes sobre o comportamento das temperaturas em várias
regiões do globo mostram resultados discordantes e, muitas vezes, não representativos, com relação ao aquecimento global e principalmente às mudanças climáticas globais. De fato, grande parte dos artigos mais recentes
publicados em revistas internacionais, que tratam de temas relacionados
à climatologia e às mudanças climáticas globais, apresentam dados sobre
tendências de mudanças, como aumento de temperatura e variação no
volume e na torrencialidade das chuvas, mas muitos deles trazem séries
históricas não muito longas, quase nunca superiores ao período de um
século, tempo este muito curto para afirmar uma “mudança” climática.
Zhang e Wu (2011), usando o teste de Mann-Kendall para o desenvolvimento regional observado com relação aos extremos de precipitação,
mostraram que existem tendências significativamente decrescentes de
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chuvas extremas no Nordeste e Norte da China, e tendências crescentes
em Jianghuai e no Sul da China, mas que as tendências crescentes não
são estatisticamente significativas. Fonseca e García (2012), utilizando-se
principalmente das variáveis meteorológicas (temperatura e precipitação)
para analisar várias estações meteorológicas, localizadas na ilha de Cuba,
com dados climatológicos registrados entre o período de 1971 a 2009,
constataram que a tendência da temperatura mínima média aumentou
com significância estatística em todas as estações selecionadas, mas que
a tendência da temperatura máxima média não apresentou o mesmo
comportamento em todas as regiões estudadas, havendo uma tendência
decrescente nas estações de Camagüey Caibarién. Marengo et al. (2013),
em estudo realizado sobre a variabilidade climática na Amazônia, mostraram que eventos de secas e inundações fazem parte do clima natural da
região, e que a variabilidade climática nessa região já ocorreu no passado
e continuará no futuro.
Vários estudos no mundo apontam mudanças em diversas variáveis
meteorológicas (principalmente com relação à temperatura e à precipitação), mas, por tratarem de séries temporais não muito longas, torna-se
muito arriscado falar de “mudança climática”, quando em muitos trabalhos
os “ciclos climáticos” sequer são mencionados.
5. Prognósticos para o futuro do clima da Terra: será que
podemos confiar 100% nos modelos de previsão?
Um tema que põe em xeque a confiabilidade da teoria do aquecimento
global e das mudanças climáticas diz respeito ao problema da previsão
dos modelos de projeção do clima, conforme exposto por Miranda (2009,
p. 16): “Não sendo capazes de prever, com alguma precisão, o estado da
atmosfera daqui a um mês, será que podemos saber alguma coisa sobre o
clima no próximo século ou no próximo milênio?”.
E continua:
A evolução futura do estado da atmosfera depende não só das equações que
regem o seu comportamento, mas também das condições fronteira. Estas são de
dois tipos: condições iniciais, definindo o estado tridimensional da atmosfera num
dado instante, e condições nos limites espaciais, definindo a interação futura entre
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a atmosfera e o exterior. Uma previsão meteorológica, a poucos dias de distância,
depende inicialmente das condições iniciais e uma previsão climática depende
mais fortemente das condições nos limites espaciais ou dos forçamentos externos
(MIRANDA, 2009, p. 316).
De acordo com Tomasoni (2011), o sistema climático global é essencialmente um sistema não linear, ligado a fatores intrínsecos e extrínsecos
à própria atmosfera da Terra. Tal afirmativa reforça a posição de tantos
outros autores que enfatizam a “complexidade” do funcionamento do sistema superfície-atmosfera e as dificuldades de previsão do clima no longo
prazo. A questão dos modelos de previsão também é colocada pelo autor,
uma vez que existem dificuldades na reprodução das interações oceânico-atmosféricas bem como na reprodução do ciclo hidrológico (TOMASONI,
2011).
Colocando pontos tão delicados para não dizer imprevisíveis em
questão, Miranda (2009) afirma ainda que:
As simulações climáticas utilizam a tecnologia desenvolvida para a previsão do
tempo, baseada em modelos numéricos tridimensionais da atmosfera: os modelos
de circulação global (...) A utilização dos modelos numéricos para simular o clima
futuro exige o conhecimento dos forçamentos externos que vão condicionar o clima
(...) alguns desses forçamentos têm uma evolução bem conhecida, tal é o caso dos
ciclos de Milankovitch (...) Em compensação, temos um grande desconhecimento
sobre a evolução da generalidade de outros mecanismos. Pondo de parte o problema dos impactos cósmicos, que pela sua própria natureza, está provavelmente
para além de qualquer capacidade preditiva (MIRANDA, 2009, p. 317).
Portanto, podemos concluir que os dois grupos de cientistas não
podem afirmar com alto grau de precisão ou mesmo com exatidão se o
que eles defendem irá mesmo acontecer, pois, como vimos, são muitos
os fatores envolvidos na complexidade do clima da Terra, tornando assim
previsões precisas ou exatas praticamente impossíveis.
Ainda no campo das previsões, os modelos de projeção do clima possuem grande dificuldade em reproduzir o ciclo hidrográfico, e os mesmos
diferem entre si, como consta no próprio relatório do IPCC, documento
base para a argumentação da corrente alarmista do aquecimento global.
A figura 2 expõe os diferentes prognósticos para a temperatura do ar
em superfície, publicados pelo IPCC (2007). Os painéis direito e central
mostram as projeções multi-modelos de circulação geral Atmosfera-Oceano
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para os cenários SRES B1 (topo), A1B (meio) e A2 (base) durante as décadas
de 2029-2099 (direita). O painel esquerdo mostra as incertezas correspondentes, bem como as probabilidades relativas do aquecimento global médio
a partir de vários estudos AOGCM e EMIC diferentes, para os mesmos
períodos. Alguns estudos apresentam resultados apenas para um subgrupo
de cenários SRES, ou para várias versões de modelos (IPCC, 2007).
Figura 2
PROGNÓSTICO DA TEMPERATURA DO AR SEGUNDO DIFERENTES MODELOS DE PREVISÃO DO
CLIMA DIVULGADOS PELO IV PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Fonte: IPCC, 2007.
Estas previsões divulgadas pelo IPCC levam em consideração os próximos cem anos, período este muito curto em se tratando do clima da Terra.
Além disso, percebe-se no painel esquerdo da figura 2 que, na medida em
que se aumenta o período de projeção, a probabilidade de acerto diminui.
Sabemos que hoje vivemos num interglacial, mas que nos próximos
milhares de anos a teoria dos ciclos de Milankovitch aponta para uma
nova era glacial. Também, dentro de uma perspectiva de curto prazo,
não se sabe ao certo se o aquecimento da temperatura da troposfera irá
gerar mais nuvens densas que irão impedir a entrada de radiação solar
na superfície e provocar um resfriamento global (CONTI, 2011). Ou seja,
mesmo se estiver ocorrendo um reaquecimento global, seja antrópico ou
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não, não se sabe com exatidão quais serão as consequências deste aumento
de temperatura no comportamento do ciclo hidrológico e se o mesmo
poderá desencadear um resfriamento devido ao acréscimo de nuvens.
Também há dúvidas se haverá aumento ou diminuição na quantidade de
neve precipitada nas regiões de média e alta latitudes devido ao suposto
aumento de temperatura global.
No relatório intitulado “Riscos das mudanças climáticas no Brasil”,
elaborado por uma equipe formada por cientistas brasileiros e ingleses, é
afirmado que os modelos climáticos são as ferramentas mais “confiáveis”
para se fazer projeções do clima futuro, uma vez que eles permitem que
se façam projeções não apenas de como a temperatura pode aumentar no
século XXI, mas também de como essas mudanças podem afetar o clima
no mundo todo (MARENGO et al., 2011). Contudo, este mesmo relatório
diz que “as projeções de chuvas para o futuro são mais complicadas, já que
existe uma certa divergência entre os modelos quanto aos padrões ou até
mesmo, em alguns lugares, quanto à tendência da mudança” (MARENGO
et al., 2011, p. 34).
De fato, corrobora-se com Oliveira (2010), quando este afirma que
o que se sabe é que a humanidade tem se envolvido cada vez mais nesta
temática e que inúmeros cientistas vêm trabalhando arduamente no sentido de descobrir os mecanismos climáticos que agem sobre a superfície e
sua interação processual com a mesma. Desse modo, buscam prever com
maior precisão o tempo e o clima, uma vez que a saúde dos seres vivos, a
qualidade de vida, os fenômenos sociais e econômicos, os costumes e culturas das populações são afetados direta e indiretamente pelas alterações
que ocorrem no tempo e no clima da Terra.
6. Considerações finais
Diante do exposto, conclui-se que a interação que a atmosfera da
Terra estabelece com a superfície do planeta e com fatores extraterrestres
ocorre de forma complexa, e que esta interação resulta em condições do
clima difíceis de prever no longo prazo. No entanto, esforços são feitos
diariamente no sentido de aprimorar estas previsões, recorrendo-se a
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modelos de reanálise climática, projeções oceanográficas e astrofísicas.
Outro ponto que merece destaque é o fato de o próprio relatório do IPCC
(documento que serve de base e como verdade única para os alarmistas)
trazer dúvidas sobre alguns aspectos relacionados aos modelos de previsão
e aos diferentes cenários projetados. Um dos pontos fracos dos argumentos
trazidos pelo IPCC inerentes à questão do aquecimento global está no fato
de que seus modelos climáticos estão repletos de hipóteses não testadas
(ALEXANDER, 2010).
Mesmo concordando que houve um aumento na temperatura média
do ar nos últimos anos, alarmistas e céticos divergem no que diz respeito
às causas desse aquecimento, suas consequências e se ele ainda está ocorrendo. Entretanto, um tema que põe em xeque a confiabilidade de ambas as
correntes diz respeito ao problema da previsão, pois são muitos os fatores
e elementos envolvidos na complexidade do sistema climático, tornando
assim previsões climáticas exatas praticamente impossíveis e deixando o
debate, até o momento, no campo das suposições. Neste sentido, deve-se
atentar para o fato de que o entendimento do comportamento atmosférico
e do clima não é de modo algum simples quanto parece ser, tal qual a mídia
de massa apresenta, que é difícil de predizer este comportamento e que
este grau de dificuldade aumenta conforme o aumento da escala temporal
da previsão (dias, anos, décadas, séculos).
Referências
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Gryphus, 2010.
ARAGÃO, M. J. História do clima. Rio de Janeiro: Editora Interciência, 2009.
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Recebido em: 11/10/2013
Aceito em: 21/01/2014
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