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TIC e as discussões sobre sexualidade na escola

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TIC e as discussões sobre sexualidade na escola
TIC e as discussões sobre sexualidade na escola:
o subsídio da tecnologia na ampliação dos debates
Katiana Souza SANTOS 1
Rarielle Rodrigues LIMA2
João Batista BOTTENTUIT JUNIOR3
Resumo
A utilização das TIC na educação, especialmente no aperfeiçoamento dos professores
tem modificado as percepções de ensino-aprendizagem e possibilitado o debate de
temáticas pouco discutidas no ambiente escolar, como a sexualidade. Temos como
objetivo apresentar algumas considerações sobre as modificações da concepção de
ensino-aprendizagem, o avanço das TIC, a sexualidade na escola e os parâmetros
curriculares, além da interlocução da tecnologia e as discussões sobre sexualidade. Para
conseguirmos alcançar nosso propósito utilizaremos as contribuições de Lévy (1999),
Almeida (2009), Louro (1999), Quirino (2013) entre outros para a construção dos
argumentos. Desse modo, podemos estabelecer que o apoio das TIC nas argumentações
sobre sexualidade através de curso de aperfeiçoamento a distância ou projetos da web
tem contribuindo para a construção e multiplicação dos conhecimentos teóricos sobre a
sexualidade subsidiando a formação dos professores da rede de ensino.
Palavras-chave: TIC. Sexualidade. Educação.
Abstract
The use of ICT in education, especially in the development of teachers has changed the
teaching and learning perceptions and enabled the thematic debate barely discussed in
the school environment , such as sexuality . Aims to present some thoughts on the
changes of the teaching-learning design, the advancement of ICT , sexuality at school
and curriculum guidelines in addition to the dialogue of technology and sexuality
discussions. To be able to achieve our purpose we will use the contributions of Lévy
(1999 ), Almeida (2009 ), Blonde (1999), Quirino (2013 ) among others for the
1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado Interdisciplinar) PGCULT/UFMA. E-mail: [email protected]
2
Mestranda Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (Mestrado Interdisciplinar) PGCULT/UFMA. E-mail: [email protected]
3
Doutor em Educação pela Universidade do Minho. Professor do Programa de Pós-Graduação em
Cultura e Sociedade (Mestrado Interdisciplinar) - PGCULT/UFMA. Email: [email protected]
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construction of arguments. Thus , we can establish that the support of ICT in arguments
about sexuality through ongoing improvement of the distance or web projects have
contributed to the construction and multiplication of theoretical knowledge about
sexuality subsidizing the training of teachers in the school system.
Keywords: ICT. Sexuality. Education.
Introdução
As tecnologias da informação e comunicação têm nos possibilitado avanços no
quesito educacional, principalmente com o uso da internet. O ambiente virtual é
utilizado para discussões e produção do conhecimento em diferentes áreas com
profissionais de diversas localidades geográficas. Nesse contexto interrelacional que as
tecnologias na comunicação e informação, ou simplesmente TIC, nos possibilita, as
discussões sobre temas como a sexualidade no ambiente escolar ganharam um novo
fôlego e foram capazes de ampliar o espaço de troca e de construção de conhecimento
através das interações dos diversos participantes da rede.
O alcance das discussões, as informações produzidas, os compartilhamentos de
experiências e materiais favorecem a desmistificação de “tabus” dentro do ambiente
escolar. Silva (2006, p. 11) comenta que em “uma sociedade rica em informação a
escola já não embarga o monopólio do conhecimento” e por isso deve está apta a
possibilitar e aceitar novas construções.
As TIC proporcionaram modificações quanto à aquisição e elaboração do
conhecimento, o contato com diversas pessoas de culturas diferentes tem potencializado
a diminuição de fronteiras sociais e facilitado o debate em diferentes pontos de vista.
O surgimento de grupos de estudos, sites de aperfeiçoamento, blogs que
discutem a temática estão pulverizados na rede, o que não se restringe às contribuições
brasileiras. O intercâmbio de construções teóricas sobre a sexualidade na escola tem
catalisado o debate e a visibilidade, além de pressionar politicamente por intervenções
visando o respeito à diversidade.
Desse modo, apresentamos como objetivo desse artigo pontuar algumas
considerações sobre as modificações da concepção de ensino-aprendizagem, o avanço
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das TIC, a sexualidade na escola e os parâmetros curriculares, além da interlocução da
tecnologia e as discussões sobre sexualidade. Para conseguirmos alcançar nosso
propósito utilizaremos as contribuições de Lévy (1999), Almeida (2009), Louro (1999),
Quirino (2013) entre outros para a construção dos argumentos.
Nosso trabalho se justifica por proporcionar novas possibilidades de interlocução
com as TIC e os estudos sobre sexualidade na escola, apresentando alguns autores à
discussão e despertando o interesse para possíveis contribuições empíricas na área de
tecnologia e sexualidade na escola.
As modificações tecnológicas: educação e cibercultura
O ensino-aprendizagem na atualidade requer diariamente inovações que
acompanhem as mudanças sociais, tecnológicas, culturais e históricas da sociedade. A
escola, como espaço sagrado deste processo, tem sido chamada a adequar e rever suas
metodologias, rompendo com vieses tradicionalistas que observavam o limite restrito da
sala de aula como espaço infinito e absoluto da aquisição de conhecimento. A própria
noção de aquisição de conhecimento é questionada, tendo como substituto os conceitos
ampliados de construção de conhecimento por meio do processo de ensinoaprendizagem.
As versões mais tradicionalistas sobre a aprendizagem apresentam concepções
deste processo como de mão única, onde um sujeito é detentor do saber e o outro que
compõe a relação fica numa atitude de passividade, aguardando serem depositados
conteúdos que formarão seu cabedal intelectual. Estes tipos de abordagens são descritos
por aprendizagem repetitiva, definida como
Aprendizagem repetitiva se produz quando os conteúdos das tarefas
são arbitrários (pares associados, números, etc), quando o aluno carece
dos conhecimentos necessários para que os conteúdos resultem
significativos, ou se adota uma atitude de assimilá-los ao pé da letra e
de modo arbitrário (MADRUGA,1990, p. 83).
Esta perspectiva de se pensar o processo de ensino limita muito a elaboração de
novas ideias, formas de pensamento e propostas inovadoras, visto que sua característica
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conteudista e memorista é pautada no mecanismo da repetição. Na realidade atual, esta
construção do conhecimento requer visões mais ampliadas e dinâmicas. Assim, o
conceito de aprendizagem significativa, trabalhada por diversos teóricos da sociologia
da educação e da pedagogia, nos parece mais adequado ao contexto contemporâneo,
pois possibilita a exploração de novas técnicas e metodologias.
A aprendizagem significativa se distingue por duas características, a
primeira é que seu conteúdo pode relacionar-se de um modo
substantivo, não arbitrário, ao pé da letra, com conhecimentos prévios
do aluno, e em segundo é que este há de adotar uma atitude favorável
para tal tarefa dotando de significado próprio os conteúdos que
assimila. (MADRUGA, 1990, p.83).
Desta forma a aprendizagem significativa possibilita uma relação direta entre
ensino, aprendizagem, conhecimento, realidade e cotidiano. O aluno é incitado a
construir a partir de experiências e conhecimentos já elaborados previamente, utilizando
de elementos presentes na realidade, observando-os do ponto de vista daquilo que eles
têm a contribuir, não partindo de uma hierarquização dos saberes e técnicas.
Observamos que há uma necessidade entre os teóricos da educação em discutir
como o indivíduo atual, permeado por tecnologia, com acesso à informação e exposto a
múltiplos estímulos que constrói o saber. Não é possível engessar este novo sujeito em
métodos que não permitem ou incentivam a criatividade, a construção, a reflexão
contínua e coletiva.
Lévy (1999) nos apresenta na obra Cibercultura um debate acerca das
possibilidades e dos limites destes novos elementos da construção do saber. Destaca que
as tecnologias são o “veneno” e o “remédio” da cibercultura, defendendo que a relação
sociedade/tecnologia é de condicionamento e não de subordinação ou determinação.
Expondo a construção histórica da técnica no seio social, mas isolando qualquer
interpretação que encaminhe para análises pautadas no determinismo.
[...] o uso crescente das tecnologias digitais e das redes de
comunicação interativa acompanha e amplifica uma profunda mutação
na relação com o saber. Ao prolongar determinadas capacidades
cognitivas humanas (memória, imaginação, percepção), as tecnologias
intelectuais com suporte digital redefinem seu alcance. E algumas
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vezes até mesmo sua natureza. As novas possibilidades de criação
coletiva distribuída, aprendizagem cooperativa e colaboração em rede
oferecida pelo ciberespaço colocam novamente em questão o
funcionamento das instituições e os modos habituais de divisão do
trabalho, tanto na empresa como nas escolas (LÉVY, 1999, p. 98).
O ciberespaço seria um dos elementos que comporiam a infraestrutura técnica
do virtual, compreendido numa acepção filosófica como “aquilo que existe apenas em
potência e não em ato” (LÉVY, 1999, p. 47). Quando discute o virtual na
contemporaneidade o autor conceitua que “é virtual toda entidade „desterritorializada‟,
capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais
determinados, sem, contudo, estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular”
(LÉVY, 1999, p. 47).
As
tecnologias
intelectuais
favorecem
o
acesso
à
informação
e,
consequentemente, permite novas formas de construir o conhecimento. Portanto, o
ciberespaço pode ser compreendido na análise feita pelo sociólogo acima citado como
um ambiente de mediação, na qual os envolvidos se beneficiam pelas novas
perspectivas epistemológicas da construção do saber coletivo.
O novo sujeito requer cada vez mais dinamismo no seu processo de educação,
por isso pesquisadores se lançam em busca de metodologias inovadoras, que
acompanhem os novos modelos de construção de conhecimento e visam inserir-se na
frenética mutação por qual passa a sociedade.
Entretanto, tais mudanças não são exclusividade do século XIX, embora
tenham se desenvolvido em parte neste contexto mais atual. Observamos que as
tecnologias veem marcando a vida do indivíduo há muitos séculos, tendo por parâmetro
de análise a realidade de cada momento histórico. Desta forma a invenção da escrita nas
sociedades da Antiguidade, tanto no contexto ocidental, quanto oriental foram um
marco para àquelas civilizações. O livro marca outro período importante da construção
do conhecimento, visto ser um elemento fundamental na difusão do conhecimento na
história da humanidade, embora restrito a determinados grupos. No tocante à tecnologia
empregada na produção intelectual e física do livro podemos identificá-lo como
essencial, naquele contexto, para a difusão da informação. Posteriormente são
desenvolvidas muitas outras técnicas em vários campos da vida dos indivíduos, tendo
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seu ápice no processo conhecido por Revolução Industrial, no século XVIII no
continente europeu.
Hobsbawm (1969) afirma que as condições para a operacionalização da
Revolução Industrial já eram presentes na Grã-Bretanha no século XVIII e esta foi a
justificativa para que o país tomasse o pioneirismo do processo. O historiador ressalta
que outras nações tinham as mesmas condições sócio-históricas para o desenvolvimento
de tecnologias, mas nenhuma como no contexto inglês, bem como naquele país havia
maiores elementos favoráveis ao desenvolvimento de mercados consumidores, nos
limites nacionais e em outras localidades que dependiam economicamente e
politicamente da potência mundial.
O Estado mais bem-sucedido da Europa no século XVIII, a GrãBretanha, devia plenamente o seu poderio ao progresso econômico, e
por volta da década de 1780 todos os governos continentais com
qualquer pretensão a uma política racional estavam consequentemente
fomentando o crescimento econômico, e especialmente o
desenvolvimento industrial, embora com sucesso muito variável.
(HOBSBAWN, 2010, p. 22).
Após este momento de inovação tecnológica e avanço o mundo passa a
vivenciar novas formas de relações produtivas e, consequentemente, novas arranjos
sociais. Os séculos XIX e XX foram marcados por significativas mudanças, sendo uma
de extrema relevância a invenção de máquinas com maior capacidade de
armazenamento em memória, conhecidos na atualidade por computadores.
Há uma disputa acirrada pelo pioneirismo em relação ao computador,
salvaguardadas as devidas discussões, por questões de exposição metodológica
utilizaremos como referencial a década de 1930 com a invenção do projeto
“Massachussetts Institute of Tecnology” (MIT4) em 1931 por Vannevar Bush, com
tecnologia analógica e em 1937 foi desenvolvido o MARK I, por Howard Aiken,
considerado o primeiro computador eletromecânico. Nas décadas seguintes foram
inventadas outras tecnologias como o BINAC (1949), o EDVAC (1951) e o IAS (1952),
o CDC 1604 (1959), entre outros.
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Na década de 1980 este projeto chega ao Brasil, por intermédio da Unicamp, abrindo novas perspectivas
para a construção do conhecimento.
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A partir da década de 1930 alguns cientistas começaram a trabalhar
com dispositivos de cálculo com algum tipo de sistema de controle
automático. Já se dispunha da tecnologia necessária para se construir
aquela estrutura imaginada por Babbage. Surgiram os primeiros
computadores mecânicos e eletromecânicos e muitos projetos de
computadores eletrônicos feitos posteriormente sofreram muitas
influências dessas primeiras máquinas. (FONSECA FILHO, 2010,
101).
Com a difusão do sistema mundial de computadores, na segunda metade do
século XX, a comunicação e a construção de novas linguagens foram favorecidas,
permitindo ampliação do conhecimento.
Na segunda metade do século XX destacamos indícios de uso de tecnologias
digitais para aprimorar as técnicas educacionais. Cabe ressaltar que o conceito de
tecnologia educacional, não se restringe apenas às tecnologias digitais e cibernéticas,
conforme se convencionou discutir de forma mais usual.
A incorporação das Tecnologias Digitais pelo campo educativo pode
vir a propiciar processos de ensino/aprendizagem cada vez mais
interativos, interdependentes e plurais, de forma articulada com a
realidade dos sujeitos envolvidos, visto os instrumentais aí
disponibilizados: recursos de dados, voz, imagens, textos, animações,
links, etc. (FERREIRA; FRADE, 2010, p. 34).
Atualmente, percebemos a discussão sobre tecnologias educacionais voltada
para a área das tecnologias digitais, tal fato encontra grande justificativa na ascensão
que o conceito de “Tecnologias da Informação e da Comunicação” que permeia os
debates educacionais.
As tecnologias da informação e da comunicação se transformaram em
elementos constituintes (e até instituintes) das nossas formas de ver e
organizar o mundo. Aliás, as técnicas criadas pelos homens sempre
passaram a ser parte das suas visões de mundo. Isto não é novo. O que
há de novo e inédito com as tecnologias da informação e da
comunicação é a parceria cognitiva que elas estão começando a
exercer na relação que o aprendente estabelece com elas. [...] O papel
delas já não se limita à simples configuração e formatação, ou, se
quiserem, ao enquadramento de conjuntos complexos de informação.
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Elas participam ativamente do passo da informação para o
conhecimento. (ASSMAN, 2005, p.19).
Podemos afirmar que as TIC determinam um novo paradigma na construção do
conhecimento, visto a inserção de nova lógica e dinâmica para os processos. A inserção
de tecnologias digitais na área educacional é presente no contexto mundial desde o final
do século XX, com o uso dos computadores em processos de ensino-aprendizagem.
Entretanto é com o advento da internet que tais elementos são potencializados.
Nas décadas de 1980 e 1990 observamos no Brasil as primeiras experiências de
inserção mais sistematizada de tecnologias digitais na área educacional, com objetivo
claro de ampliar a capacitação de indivíduos para as mudanças mercadológicas que
aconteciam em nível mundial. Uma das pioneiras na difusão deste novo discurso acerca
das tecnologias foi a Universidade de Campinas – UNICAMP que divulgou e implantou
o projeto MIT em território nacional. O debate que envolvia o projeto é expandido,
sendo aceito pelos organismos governamentais de fomento à tecnologia e educação e
passa a ser incluído na agenda de prioridade do Ministério de Educação (MEC). Um dos
primeiros projetos de maior abrangência desenvolvidos no Brasil em torno da inclusão
digital para a educação foi o Programa Nacional de Informática na Educação –
PROINFO que buscava desenvolver projetos de “alfabetização tecnológica” nas escolas
brasileiras. O programa funcionava com a abertura de polos de informática nas escolas
públicas brasileiras, com facilitadores em cada unidade e desenvolvimento de encontros
que favorecessem a aprendizagem.
Almeida (2009) ressalta que um dos principais problemas da Inclusão digital
neste momento era a metodologia utilizada, ou melhor, a falta de metodologia. Observa
que as tecnologias neste momento são observadas como ferramentas, não levando em
consideração a diversidade cultural e realidades distintas de um país com dimensões
continental. Afirma ainda que inicialmente
[...] a concepção arquitetônica desses espaços, a forma como estes
surgiram na escola, quase sempre a partir de adequações e
sobreposições realizadas em espaços físicos já existentes para dar
lugar aos espaços denominados de “salas de informática”, onde os
computadores foram instalados em formato de U, ou enfileirados no
formato tradicional das salas de aula. Esses seriam os locais que
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deveriam configurar-se enquanto “teleportos” por onde deveriam
incorporar-se ao cotidiano escolar os “000001111110000000111119”
transportados pelos fachos de luz transmitidos por suportes óticodigitais em forma de fios de cobre e/ou em pares trançados, que
conectam a escola aos universos cognoscentes e extramuros,
concebidos nos espaços desterritorializados da imensidão digital que
constitui o ciberespaço. (ALMEIDA, 2009, p. 11).
Inicialmente, segundo o autor, o que mais bloqueou o avanço da efetivação das
tecnologias digitais no contexto educacional foi a metodologia quase inexistente.
Entretanto, observamos que tal realidade foi modificada significativamente nas últimas
duas décadas.
Desde a década de 1990 no Brasil percebeu-se a necessidade de uma ação mais
efetiva acerca da inserção de tecnologias digitais no contexto escolar. Percebeu-se que
parte da população brasileira não tinha acesso às inovações tecnológicas. Tal situação
implicou em mudanças de estratégias em nível governamental com o desenvolvimento
de políticas públicas destinada ao incentivo à inclusão digital.
O século XXI inseriu novas possibilidades para a inclusão de tecnologias da
informação e comunicação na área educacional, fruto de intensas mobilizações dos
defensores desta metodologia inovadora e pesquisas de grande fôlego neste campo do
conhecimento.
Atualmente as TIC têm ampliado seu campo de atuação. Diariamente
observamos novos aplicativos, nas ferramentas de busca e pesquisa, novos espaços
virtuais para discussão e construção do conhecimento. A humanidade observa e
participa destas mudanças, contribuindo na aquisição e formulação destas inovações.
Como afirma Lévy (1999) o que marca esse novo contexto é a interação entre os
indivíduos que usam, formulam e criticam as invenções modernas, dando margem para
novas criações, estabelecendo uma cadeia de desenvolvimento que não se exaure.
São diversificadas as possibilidades de explorar conteúdos, temas e propor
discussões utilizando as TIC, nos deteremos a seguir na análise entorno da educação e
sexualidade, tendo como base algumas pesquisas realizadas em plataformas e sites de
grupos de estudos sobre gênero, diversidade e sexualidade nas escolas.
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As discussões sobre a sexualidade na escola e a colaboração das TIC
As discussões sobre sexualidade e diversidade no cotidiano escolar tem sido
pauta constante na elaboração de planos de ensino. No entanto, sua efetivação não é
concretizada. Os parâmetros curriculares nacionais de 1998, em seu volume que trata
dos temas transversais – orientação sexual, apresentam que
a discussão sobre a inclusão da temática da sexualidade no currículo das
escolas de primeiro e segundo graus tem se intensificado a partir da
década de 70, por ser considerada importante na formação global do
indivíduo. Com diferentes enfoques e ênfases há registros de discussões
e de trabalhos em escolas desde a década de 20. A retomada
contemporânea dessa questão deu-se juntamente com os movimentos
sociais que se propunham, com a abertura política, a repensar sobre o
papel da escola e dos conteúdos por ela trabalhados. Mesmo assim não
foram muitas as iniciativas tanto na rede pública como na rede privada
de ensino. (BRASIL, 1998, p. 77).
A inclusão dos movimentos sociais, os questionamentos da sociedade
contemporânea, a multiplicidade de informações que adentram o ambiente escolar já
não permite que o posicionamento acerca da sexualidade seja velado ou permanecer no
não dito entre os discursos de professores e alunos.
De acordo com Quirino (2013, p. 11) em sua dissertação onde aborda a temática
sexualidade e educação, a “sexualidade possui um referencial teórico amplo, porém com
relação a discussões sobre os encaminhamentos metodológicos, ainda são poucos os
trabalhos”.
Partindo da concepção de que a escola se apresenta como ambiente socializador
primeiro do indivíduo, fora das relações de parentesco, a sexualidade deve ser
amplamente discutida e não hostilizada ou estereotipada nesse espaço relacional. Se
vamos discutir sobre sexualidade é preciso estabelecermos um ponto de referência de
conceituação, seja ele psicanalítico ou sociológico ou filosófico, mas não estritamente
biológico. Assim, a sexualidade pode ser entendida, de acordo com Guacira Lopes
Louro (1999, p. 06) como “uma invenção social, uma vez que se constitui,
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historicamente, a partir de múltiplos discursos sobre o sexo: discursos que regulam, que
normatizam, que instauram saberes, que produzem „verdades‟”.
Concebendo a sexualidade uma categoria socialmente construída nos amplia as
possibilidades de discussão sem que haja um engendramento dos conceitos. Assim,
Michel Foucault (1997, p. 100) argumenta que
não se deve conceber [a sexualidade] como uma espécie de dado da
natureza que o poder é tentado a pôr em xeque, ou como um domínio
obscuro que o saber tentaria, pouco a pouco, desvelar. A sexualidade é
o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não a uma
realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande
rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação
dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação do conhecimento, o
reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros,
segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder.
Tendo por base esses pressupostos sobre sexualidade e sua inserção como
categoria discursiva no ambiente escolar brasileiro, inicialmente por intermédio dos
PCN´s, é possível percebemos que as novas estratégias de efetivação da temática
encontram-se aliadas às Tecnologias da Comunicação e Informação na educação a
distância.
O Ministério da educação, por meio da Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC), apresentou como estratégia de
superação da lacuna entre a elaboração das diretrizes e sua efetivação na escola, o
programa de formação continuada em gênero e diversidade na escola como
aperfeiçoamento aos professores das escolas da rede de ensino público do país na
modalidade à distância. Desse modo, a visibilidade das discussões e o alcance real das
possíveis interferências no ambiente escolar, vinculadas a atividade discente está sendo
ampliada.
O acesso as discussões por meio da internet em fóruns, blogs, videoconferências,
ou simplesmente pela troca de e-mails ou rede social, está mais ramificado. O
compartilhamento de avanços e aquisições em relação a sexualidade na escola são
divulgadas praticamente em tempo real.
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O curso de aperfeiçoamento em gênero e diversidade na escola - GDE apresenta
como um dos módulos de discussão a sexualidade e orientação sexual, cujo livro de
acompanhamento está disponível no portal do professor, tem como objetivo abordar
Diferentes situações de preconceito e discriminação vivenciadas por
homens e mulheres em função de suas identidades de gênero e de suas
orientações sexuais. [...] a partir do cruzamento das categorias de
gênero e orientação sexual, de uma reflexão sobre os direitos relativos
à sexualidade e de um rápido panorama sobre as mobilizações e a
organização do movimento no Brasil de lésbicas, gays, bissexuais,
travestis, transexuais e transgêneros (LGBT) (BRASIL, 2009, p. 111).
A proposta do curso é interessante, mas a participação no ambiente de
aprendizagem é regida por seletivo realizado pela universidade a qual estará vinculado o
que permite acesso mediante login e senha (Figura 01). Dessa forma, a participação é
restrita por turmas e em períodos específicos, o curso tem a duração de seis meses e
normalmente é realizado com parceira com as secretarias de educação municipal e
estadual.
Figura 01: Página de acesso ao ambiente de aprendizagem do curso de aperfeiçoamento
gênero e diversidade na escola - UFMA
Fonte: NEAD/UFMA, 2014 (disponível em: http://www.nead.ufma.br/acesso/)
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Outra possibilidade de participar das discussões e se aprimorar quanto às
questões de sexualidade é através do projeto Web Educação Sexual que é organizado
pelo Grupo de Estudos e Investigação em Sexualidade, Educação Sexual e TIC –
GEISEXT do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa em parceria com os
grupos de estudos no Brasil – EDUSEX da UDESC, GSEX da UNESP desde 2013
(Figura 02). O projeto, de acordo como está disponível no site, tem por objetivo
Organizar e formalizar uma rede de parceiros/as que estudam e
investigam questões relativas à sexualidade, educação sexual, relações
de gênero e diversidade sexual com o intuito de levar esses estudos e
investigações aos professores/as que estão atuando na escola e as
demais pessoas interessadas nessas questões. Utilizando-nos do
potencial das novas Tecnologias de Informação e Comunicação – TIC,
abrimos espaços de estudos e discussões (GEISEXT, 2014).
Figura 02: Página de acesso ao projeto Web Educação Sexual
Fonte: GEISEXT, 2014 (Disponível em http://www.webeducacaosexual.com/webinares/)
O projeto Web Educação Sexual permite a confecção de certificado de
participação de 12 horas, sendo que o participante deve assistir as webinares
(videoconferência de única via) que pode ser ao vivo (de acordo com a programação) ou
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gravadas, seguido do preenchimento de um questionário sobre o tema abordado. O
ponto chave do projeto é possibilidade de acompanhar as discussões anteriores através
das gravações e a participação é massificada pela gratuidade dos cursos.
Tanto o curso de aperfeiçoamento quanto as webinares do projeto Web
Educação Sexual são alternativas utilizáveis para a aquisição de conhecimento por parte
dos professores e comunidade escolar e acadêmica acerca das discussões sobre
sexualidade. Assim como também podemos destacar os blogs construídos por
professores para divulgação de material como os sites de eventos que discutem a
temática.
Considerações finais
As TIC, com todo o seu avanço e dinamização da prática de ensino e do
processo de ensino-aprendizagem, o uso da internet, a interatividade promovida pelo
ambiente virtual, que destacamos no decorrer do artigo, têm favorecido o
aprimoramento de professores para efetivação das políticas de inclusão da diversidade
sexual no currículo escolar.
A cibercultura e suas especificidades de construção de conhecimento têm sido
um espaço de liberdade de criação e de pronunciamento, o que talvez não fosse possível
em uma discussão presencial.
A facilitação da aquisição de conhecimento, a obtenção de materiais e a troca de
experiência dos diversos docentes em localidades diferentes concretizam a utilização
das TIC como meio facilitador de debates. Porém, nas possibilidades apresentadas como
estratégias possíveis, o acesso se restringe ao uso da internet para sua execução.
No entanto, partindo do ponto de vista que os conhecimentos construídos e
reconstruídos dentro dos cursos de aperfeiçoamento, seja o gênero e diversidade na
escola ou o projeto web educação sexual, são elaborados para serem aplicados no
cotidiano escolar, a multiplicação de informações e a modificação conceitual e
relacional dentro do estabelecimento não se limita à rede mundial de computadores - a
cada aplicação teórica adquirida, um novo ponto de vista entra em discussão.
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Referências
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