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ARTIGO OBJETIVOS DOS PAIS EM RELAÇÁO A PRÁTICA DO
ARTIGO
OBJETIVOS DOS PAIS EM RELAÇÁO A PRÁTICA DO FUTEBOL
NA INICIAÇÁO~
Fabrício Moreira Filgueira*
1
RESUMO
Em virtude da crescente participação de crianças envolvidas na
prática do futebol, da proliferaçãodas escolas especializadas, da busca
por medalhas e títulos, da competição no ambiente das escolas e de
uma filosofia imediatista, a criança, no esporte, tem sido submetida a
um alto nível de cobranças e exigências em relação ao seu
desempenho de modo geral. No tocante a prática esportiva da iniciação
no futebol, a intenção deste estudo foi identificar os objetivos dos pais
e responsáveis em relação ao fato de a criança frequentar uma escola
de futebol. Através de uma pesquisa experimental, coletaram-se as
informações por meio de uma questão formulada no questionário da
ficha de matrícula de uma escola oficial de futebol em Ribeirão Preto.
Os dados foram coletados de um grupo de 145 crianças, do sexo
masculino, na faixa etária de 5 a 13 anos. Constatou-se que o objetivo
de ser um jogador de futebol foi a opção da maioria dos pais e
responsáveis no ato da matrícula da criança na escola. Simplesmente
aprender e aprimorar o futebol teve grande preferência dos pais. Os
resultados mostraram que os aspectos diretamente relacionados as
questões técnicas e a formação de atletas tiveram maior relevância
do que aqueles voltados pa
ir
a recreação e lazer, a saúde e o social.
Palavras-chave: criança, futebol, iniciação.
Introdução
De acordo com Becker e Teloken (2000), algumas centenas de
milhões de crianças estão envolvidas na prática de uma modalidade
esportiva em todo o mundo.
A prática de uma atividade física, quando bem conduzida, pode
contribuir não só para o desenvolvimento de capacidades físicas e
I
Pós-graduação "Lato Sensu" em Futebol - UFV.
Apresentado no 3Tongresso Científico Latino-Americano de Educação Física - UNIMEP.
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motoras, mas também para socialização das crianças, uma vez que,
durante as aulas, elas poderão interagir com outras crianças e adultos
(BECKER JR. e TELEKON, 2000; MACHADO e PRESOTO, 1997).
No entanto, quando falamos em esporte, não podemos deixar de falar
em competições; entendemos que ambas estão inseridas em um
mesmo contexto.
O futebol é um fenômeno cultural e esportivo cuja prática tem
crescido rapidamente, envolvendo um número sigriificativo de
participantes desde a infância ao adulto. As crianças encaram seus
jogadores favoritos como heróis.
Stemme (1981) explica o fenômeno futebol: "Futebol é hoje o
esporte dominante no mundo, praticado por quase todas as culturas,
povos e sociedades."
Num país como o Brasil, em que um Único esporte merece a
esmagadora atenção da mídia, é complicado mostrar as crianças que,
muitas vezes, a escolha pelo futebol é muito mais uma questão cultural
do que de gosto pessoal. E até mesmo os pais são influenciados por
isso. Muitos pais fanáticos por futebol têm dificuldades em permitir que
seus filhos optem por outro caminho.
De acordo com Brandão (2000), a dinâmica do jogo de futebol
exige que o atleta lide com uma série de situações que podem provocar
reações de estresse. Se pensarmos na estrutura psicológica da criança,
concluímos que esta é vulnerável a situações inerentes ao ambiente
esportivo e competitivo.
Cratty (1983) afirma que raramente o impacto da luta competitiva
nos jovens participantes é neutro, seja em seus corpos ou
personalidades.
O primeiro aspecto a ser relevado é referente aos "clubes e
associações"; que vêm manipulando as crianças em função de
competições, a fim de divulgar o nome dos clubes, mostrar o seu poder,
satisfazer a vontade de alguns dirigentes esportivos e, principalmente,
a ascensão e satisfação (vaidade) profissional de técriicos, professores
de educação física e pais. Esses fatos levam aos seguintes
questionamentos: Quão saudável é a participação de crianças em
corripetições esportivas? Será que os pais não querem formar jogadores
de futebol muito precocemente?
De acordo com De Rose Jr. (1995), a competição é algo natural,
necessário e importante como meio no processo de desenvolvimento
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humano. Para outros autores, a competição é um evento coercitivo,
pois o sucesso competitivo vem a custa de alguém (SIDMAN, 1995).
Há ainda aqueles que afirmam que a competição não é boa ou ruim.
Os efeitos que terá dependerão de como essa situação é tratada
(BECKER JR. e TELOKEN, 2000).
Vários aspectos do esporte poderiam ser levantados para que
pudéssemos discutir seus efeitos sobre o comportamentodas crianças.
Neste estudo pretendemos discutir a participação dos pais - mais
especificamente sobre os objetivos dos pais -como agentes envolvidos
diretamente com a criança no futebol.
Segundo Freire (2003), não se aprende futebol só para virar
profissional. Pelo contrário, raros são os que se tornaram profissionais
depois de algum tempo de aprendizagem.
Identificar os objetivos dos pais na iniciação esportiva é
importante, uma vez que estes têm grande relevância na escolha da
modalidade e seus efeitos sobre o comportamento da criança, pois
estão submetendo-a a altos níveis de cobranças e exigências em
relação ao seu desempenho.
Segundo Araújo (1985), troféus, desfiles, valorização exagerada
da vitória por um lado e, por outro, sensação de derrota e fracasso são
extremamente perigosos para as crianças, que ainda não possuem
personalidade formada, equilíbrio da agressividade, resistência as
frustrações e estabilidade emotiva.
As cobranças podem ser internas e externas. As primeiras
dizem respeito a cobrança do próprio indivíduo sobre o seu desempenho
(autocobrança), e as cobranças externas são as dos pais, dos
professores e da torcida.
Analisar a participação dos pais também é importante, porque,
quando se trata de esporte na infância, verifica-se que a torcida é
composta em sua maioria por pais. Além disso, pesquisas mostram
que, quanto mais jovem e menos experiente o atleta, maior será o efeito
da torcida sobre seu comportamento (LORD e KOZAR, 1989).
De acordo com Weinberg e Could (1999), a pressão por parte
dos pais e treinadores é um dos motivos citados por crianças e jovens
para explicar a interrupção da prática de uma modalidade esportiva.
A propósito, segundo Silva e Souza (2002), ter uma experiência
mais positiva com o esporte é importante, visto que a prática de uma
atividade física bem conduzida propicia uma melhora da condição física
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e motora, bem como da auto-imagem e a autoconfiança, contribuindo
para uma vida mais saudável. Ainda, crianças com uma experiência
mais positiva com o esporte têm maior probabilidade de apresentar
melhor rendimento.
Segundo Nahas (1980), o ideal seria a existência de muitos
vencedores e poucos perdedores (especialmente entre crianças).
A iniciação esportiva deve proporcionar a criança o maior número
de vivências motoras possíveis, desenvolvendo uma convivência
saudável em seu meio físico e social.
Fundamentação Teórica
Hoje no Brasil existem cada vez mais campeonatos realizados
por federações; os clubes realizam campeonatos internos e, ainda,
campeonatos interclubes. Realmente, as competições esportivas para
crianças parecem atingir cada dia mais um lugar de destaque,
principalmente nos veículos de comunicação (jornais, revistas etc.),
que por sua vez não têm deixado de divulgar e incentivar tais
competições para crianças.
De acordo com Becker (2003), a cada temporada que se inicia,
um número enorme de crianças aparece para aprender algum esporte
e, talvez, chegar a ser um atleta de alto nível. Elas são submetidas a
uma autêntica peneira, que vai eliminando a grande maioria, para se
conseguir um grupo de qualidade.
Analisamos os objetivos dos pais/responsáveis em relação ao
fato de a criança a frequentar uma escola de futebol. Nesse sentido,
tentaremos analisar os objetivos, que se referem as expectativas dos
pais/responsáveis em relação aos treinamentos impostos a criança
vinculada como aluno d a escola, identificando atitudes e
comportamentos dos pais/responsáveis pelas crianças.
Para Gervis (1995), alguns pais deveriam ser conscientizados de que
a grande maioria dos jovens que praticam esporte nunca serão
campeões ou atletas olímpicos, mesmo que eles (pais) e os treinadores
desejem isso.
Muitos pais deveriam ser avisados de que o papel do esporte na
infância não é somente técnico, visando a formação de atleta; pelo
contrário, a formação humana e capacitação da criança é função do
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esporte na infância. É importante nesse momento despertar a
importância do futebol como atividade física baseada em uma
metodologia participativa.
Este estudo visou identificar os objetivos dos paislresponsáveis
pelas crianças que se iniciam no futebol; analisar os objetivos, como
aspectos negativos elou positivos; conhecer a influência das pessoas
significativas no relacionamentocom a criança no futebol; proporcionar
informações sobre a influência dos pais/responsáveis na prática do
futebol na infância; e propor metodologias adequadas aos objetivos
dos paislresponsáveis em relação a prática das crianças futebolistas.
Delimitações
Este trabalho de pesquisa está restrito a análise experimental
de um grupo de pais e responsáveis de quatro categorias de uma escola
de futebol de Ribeirão Preto, em que a realidade esportiva na modalidade
é excessivamente competitiva e as crianças estão expostas a variáveis
fontes de estressores que operam sobre o desempenho esportivo.
Acredita-se também que os pais/responsáveis estudados já
proporcionaram as crianças alguma experiência na prática esportiva
do futebol, uma vez que participam de atividades escolares, recreativas
ou competições desse nível desde os primeiros anos de vida.
Objetivos
De acordo com Chaves (1985), as crianças, muitas vezes, ao
se lançarem em busca da atividade esportiva, vão com a idéia errônea
de cedo se tornarem campeões - idéia esta estimulada pelos
companheiros, pais, professores e treinadores.
Diante disso, buscou-se enfatizar a situação dos paisl
responsáveis na iniciação do futebol, uma vez que essa gera uma série
de exigências e cobranças sobre o desempenho da criança no ambiente
esportivo.
Objetivou-se também identificar os objetivos dos paisl
responsáveis em relação ao fato de a criança frequentar uma escola
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de futebol, na faixa etária de 5 a 13 anos, nas chamadas categorias
Chupetinha, Fraldinha, Dentinho e Dente de Leite. Acreditamos que
este estudo possa vir a contribuir, esclarecer e até mesmo propor
discussões sobre a participação dos pais na iniciação do futebol.
Revisão Bibliográfica
Este estudo teve como base uma revisão bibliográfica, pois,
apesar da importância do assunto, são poucos os estudos que
investigam a participação dos pais, como agentes envolvidos
diretamente com o ambiente esportivo na infância. Por essa razão, a
bibliografia foi retirada também de periódicos publicados por autores
renomados nessa área. É de suma importância que pessoas que atuam
nessa área realizem pesquisas, a fim de fornecerem maiores subsídios
e conhecimentos científicos em relação a participação dos pais na
iniciação esportiva, uma vez que a prática esportiva deve respeitar o
crescimento, o desenvolvimento e a maturidade da criança, atendendo
as suas necessidades, não as dos pais, técnicos, dirigentes ou outros
interesses alheios aos dos agentes principais: as crianças.
Metodologia
Método
Foram coletados dados através de uma pesquisa experimental,
por meio de questionário, em que se elaborou uma pergunta, visando
identificar e avaliar os objetivos dos pais/responsáveis em relação ao
fato de a criança frequentar uma escola de futebol. Os dados foram
coletados de um grupo de 145 crianças na faixa etária de 5 a 13 anos,
de uma escola de futebol de Ribeirão Preto: Escola Oficial do São Paulo
Futebol Clube. Procurou-seanalisar os dados e identificar as intenções
dos pais/responsáveis ao iniciarem as crianças no ambiente do futebol,
discutindo a prática futebolista de acordo com a intenção dos pais/
responsáveis, e, por fim, repensar metodologias e procedimentos para
tornar a prática do futebol mais adequada a criança nessa faixa etária.
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Amostra:
a) Sujeitos: 145 pais/responsáveis
b) Modalidade: futebol
c) Sexo: masculino
d) Escola: SPFCIRibeirão Preto
e) Faixa etária: 5 a 13 anos
f) Categorias: Chupetinha, Fraldinha, Dentinho e Dente de Leite
Quanto a composição da amostra, houve preocupação em se
obter uma representatividade na iniciação do futebol. Esta pesquisa foi
realizada com as chamadas categorias menores, na faixa etária de 5 a
13 anos, em relação ao número de pais/responsáveis entrevistados
na escola de futebol, totalizando 145 sujeitos (Quadro 1). Podemos
deduzir que as crianças se iniciam no futebol a partir dos 4 ou 5 anos
de idade. Cada vez mais a iniciação esportiva de crianças em um
determinada modalidade tem ocorrido nos primeiros anos de vida.
Quadro 1 - Número de pais/responsáveis avaliados, de acordo com
as respectivas categorias
CATEGORIAS DE FUTEBOL
CHUPETINHA (nascidos em 1998 e 1997)
F R A L D I N H A (nascidos em 1996 e 1995)
IDADE
PAIS
5, 6 e 7 anos
27
7, 8 e 9 anos
29
DENTINHO (nascidos em 1994 e 1993
9. 1 0 e 11 anos
45
DENTE DE LEITE (nascidos em 1992 e
11, 1 2 e 1 3 anos
44
1991)
T O T A L DE SUJEITOS
145
Fonte: Escola Oficial do SPFCfUnidade Ribeirão Preto, 2004.
A pergunta teve por objetivo direcionar a pesquisa para que os
pais/responsáveis pudessem apontar os seus possíveis objetivos para
participação da criança na prática do futebol. Também, de alguma
forma, a pergunta ajudará a compreender e destacar o entendimento
dos pais/responsáveis 'em relação a participação da criança no
processo de iniciação no futebol.
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Análise dos dados
A análise dos dados foi feita mediante percepção dos pais/
responsáveis em relação a situação da escola, com base nas
respostas, conforme amostra, através de um questionário contendo
uma pergunta objetiva, de modo a poder avaliar e facilitar a discussão
em função dos seguintes aspectos: expectativas dos pais/responsáveis;
fatores pessoais; aspectos da participação e competição; e
relacionamento com pessoas significativas.
Aplicação da questão
Aplicou-se a pergunta durante a inscrição da criança na escola
de futebol. A questão foi formulada na ficha de matrícula da escola e
feita diretamente aos paislresponsáveis (Anexo 1).
QUESTÃO: a) Qual o seu objetivo ao frequentar a Escola Oficial do
SPFC?
- simplesmente aprenderlaprimorar o futebol
- questões de saúde
- recreaçãollazer
- fazer novos amigos
- ser jogador de futebol
- outros:
Resultados e Discussão
É indiscutível a importância do esporte para a formação do
indivíduo, bem como o processo de transformação pelo qual a atividade
esportiva passou: da simples prática pelo lazer para o esporte
competitivo de alto nível, que movimenta e mobiliza grande número de
materiais, indivíduos, instalações e, principalmente, recursos
financeiros (SILVA e SOUZA, 2002).
O Gráfico 1 mostra os resultados obtidos com esta pesquisa
para identificar quais os objetivos dos paislresponsáveis em relação
ao fato de a criança frequentar uma escola de futebol.
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Gráfico 1 Objetivos dos pais em relação ao fato de a criança
frequentar uma escola de futebol.
Observou-se que os objetivos dos paislresponsáveis, ao
matricularem as crianças em uma escola de futebol nas categorias de
iniciação (Chupetinha, Fraldinha, Dentiriho e Dente de Leite), são: 45,2%,
ser jogador de futebol; 23%, simplesmente aprenderlaprimorar o futebol;
15,8%, recreaçãollazer; 8,2%, questões de saúde; 5,5%, fazer novos
amigos; e 2%, outros itens (gostar de futebol) .
Nesta pesquisa podemos observar primeiro que ser jogador de
futebol é o objetivo de 45,2% dos pais. Não podemos negar que essa é
uma vontade também da criança. Não há nenhum problema na vontade
da criança em ser jogador de futebol, mas tornar essa vontade um
objetivo incontrolável de alguns pais passa a ser um problema da
iniciação esportiva.
Em segundo lugar, constatamos que fazer com que a criança
aprenda e aprimore o futebol é a meta de 23% dos pais. Observamos
que as questões técnicas, como ser jogador e aprimorar o futebol, são
os objetivos de mais da metade (68,2%) dos pais para as crianças na
faixa etária de 5 a 13 anos.
Em terceiro lugar, a pesquisa demonstrou que as questões
como lazer, saúde e social são da minoria dos pais (15,8%, lazer; 8,2%,
saúde; e 5,5%, social).
Muitas vezes os pais, ao buscarem uma prática esportiva para
as crianças, querem logo torná-las um campeão, participar de
campeonatos, obter bons resultados e um alto nível de desempenho.
Seus objetivos são buscar resultados a curto prazo, possuindo uma
filosofia imediatista. Querem desenvolvê-la tecnicamente o quanto
antes.
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De acordo com Cinagawa (1993), conforme o desenvolvimento
normal de um atleta, aos 12 anos de idade ele possui 15% de seu
desenvolvimento técriico.
Devemos pregar por outros objetivos que o esporte pode ensinar.
O trabalho de desenvolvimento técnico é a longo prazo; contudo, para
isso acontecer é preciso que a criança tenha primeiro prazer em jogar,
e, assim, de maneira adequada, ela irá aprender os fundamentos do
futebol.
Será que o objetivo maior do esporte é simplesmente técnico?
Será que esses pais não querem se revelar através da criança? Não
seria prematuro adotar uma postura com o objetivo de formar um
jogador de futebol nesse momento? Será que essa filosofia imediatista
está correta?
Em se tratando da iniciação no futebol, 68% dos pais/
responsáveis entrevistados têm seus valores e objetivos na formação
de atletas e no aperfeiçoamento técnico; ao contrário, a recreação e
lazer, as questões de saúde e a socialização são as metas de apenas
32% dos entrevistados.
Conclusões
De acordo com Cozac (2001), a cobrança e a pressão podem
não só estragar a relação da criança com o esporte, como minar a
confiança que ela tem nos pais.
Os pais, muitas vezes, na ânsia de ajudar, acabam por
atrapalhar o envolvimento da criança com o futebol. Fazem cobranças
e exigências incompatíveis com as capacidades físicas, psíquicas e
cognitivas da criança.
Para Barbanti (1992), a competitividade infantil pressiona demais
as crianças sob o ponto de vista .físico - psicologicamente, colocam o
comportamento dos adultos como maléficos quando enfatizam
demasiadamente as vitórias. Por serem cobradas somente no sentido
da vitória, quando perdem, as crianças se sentem frustradas e tristes.
Na verdade, a sociedade competitiva impõe objetivos que se
confundem, como a fantasia e anseios da criança e a intenção dos
pais. IVáo se deve deixar que as intenções dos pais, por melhor que
elas sejam, interfiram nas vontades próprias da criança.
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IVa iniciação esportiva observam-se metodologias de
treinamentos diferenciadas, uma vez que, em se tratando de realidades
competitivas, busca-se uma melhorar alternativa e um melhor
entendimento do trabalho desenvolvido com a criança no esporte 3/4 no
caso específico do futebol, em virtude até mesmo do grande número
de adeptos em nosso país.
É necessário uma pesquisa na qual possamos avaliar a relação
dos pais/responsáveis com a criança no futebol, nos aspectos técnico,
físico e social, a fim de que assim possamos obter maiores para elaborar
mais estudos e melhorar o entendimento e as expectativas dos pais/
responsáveis em relação a criança na realização de suas atividades
esportivas, proporcionando a elas uma melhor qualidade de vida.
De acordo com Becker (1992), pais e treinadores devem se
aproximar mais no sentido de uma aliança, construindo um ambiente
positivo e harmônico, em que o jovem possa se sentir seguro e
apresentar o rendimento que permite o seu potencial psicofísico.
De modo amplo, cabe aos pais, professores/treinadores,
dirigentes esportivos e outros envolvidos com a iniciação no futebol
serem responsáveis pelo bem-estar da criança, tendo este como
objetivo competitivo, recreativo, social, nas questões de saúde, podendo
assim apoia-Ia a criança ou o grupo com o objetivo de que as ações do
ser humano possam ser aperfeiçoadas de acordo com a tarefa proposta,
melhorando as demandas situacionais, contribuindo para que ele
melhore sua habilidade e alcance suas metas e necessidades.
Para Hopper e Jeffries (1990), os pais e treinadores devem
centrar sua atenção no processo saudável de socialização que ocorre
no esporte e não no rendimento que seu filho pode alcançar.
Osório (1982) alerta para o fato de que se deve proporcionar a
criança as mais variadas experiências esportivas e deixar que ela
escolha, de acordo com suas aptidões e seus interesses, a modalidade
que deseje praticar; os pais devem ser alertados no sentido de evitar
exigências de performance demasiadamente difíceis, respeitando sua
individualidade biopsicossocial.
A maioria dos pais, ao buscar um esporte para as crianças,
possui a idéia errônea de torná-las atletas profissionais. A preocupação
dos pais tem sido a de aperfeiçoar cada vez mais a criança, sendo,
assim, mais uma forma de contribuir para que os professores que
trabalham nas escolas adotem uma metodologia de avaliação, sem
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levar em conta a estrutura física e emocional que cada uma delas possui
no momento em que vivencia esse processo.
Concluímos que os objetivos da maioria dos pais têm uma
perspectiva relacionada a formação de jogadores de futebol e ao
aperfeiçoamento técnico, contribuindo para a utilização de uma
metodologia direcionada para a especialização e o desenvolvimento
de estratégias precoces em treinos e jogos.
ABSTRACT
PARENT GOALS RELATED TO SOCCER INITIA-TION
Because of the increasing participation of children in soccer practice,
the proliferation of specialized schools, the search for medals and titles,
the competition inside schools, and an immediatist philosophy, children
have been submitted to a high leve1 exigences in relation to their general
performance in sports. The objective of this study was to identify the
objectives of parents regarding their children's attendance at soccer
schools. In an experimental research, information was obtained through
a question in the registrationquestionnaire of a soccer school in Ribeirão
Preto. Data were collected in a group of 145 male children, from 05 to
13 years of age. The goal of being a soccer player was the option of
most parents at school registration. Learn and improve soccer tecniques
was the greatest preference of parents. The results show that the
aspects directly related to technique and athlete formation were more
relevant than aspects directed toward recreation and leisure, health and
socialization.
Keywords: children, soccer, beginners.
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R. Min. Educ. Fís., Viçosa, v. 13, n. I, p. 96-110,2005
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