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Samuel teria sido evocado por uma bruxa?

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Samuel teria sido evocado por uma bruxa?
Samuel teria sido evocado por uma bruxa?
“Não precisamos de grades para viver em uma prisão.
Muitas vezes nossos corpos estão livres, mas nossas
mentes não”. (Lisbete Faria)
Lemos o artigo que leva o título de “Samuel teria sido evocado por uma bruxa?”, da série
apologética, editora ICP, p. 74 e publicado no site CACP, correspondente ao link no mesmo site
(http://www.cacp.org.br/samuel-teria-sido-evocado-por-uma-bruxa/) Diante de nosso direito
inafiançável de resposta, analisaremos o que é exposto e daremos a nossa contra-argumentação.
Neste texto, o ICP, em parceria com o CACP, tenta perpassar a ideia de que Samuel, após
o seu desencarne, não se manifestara a Saul através da necromante de En-Dor, conforme
registrado no Tanah em 1Samuel 28. Para manter esta posição, eles elaboraram cerca de seis
pontos que contradizem a afirmativa de que fora um espírito maligno que se manifestou e não o
espírito de Samuel. O que iremos defender é justamente o fato de que foi Samuel que se
manifestou, de acordo com o Tanah (Bíblia Hebraica) e o parecer do historiador Flávio Josefo
(37/38 d.C. - 100 d.C) que inclusive nos direcionará a concordar que realmente foi Samuel que
aparecera na consulta de Saul a necromante de En-Dor.
Em linhas gerais, o fato de negar a aparição do espírito de Samuel a Saul, registrado em
1Sm 28, colide frontalmente com inerrância das Escrituras, tão defendida por fundamentalistas
que tentam desacreditar em tal evento. Em resposta ao título deste texto, iremos verificar nos
dicionários o significado do termo usado pelo ICP, em parceria com o CACP, para abalizarmos as
definições e compará-las com a bíblia hebraica, o Tanah que é a fonte mais próxima dos originais,
a fim de testificarmos se logo de início a crítica procede. Vejamos:
Houaiss:
Feiticeira: bruxa
Bruxa: mulher que tem fama de se utilizar de supostas forças sobrenaturais para causar
malefícios, perscrutar o futuro e fazer sortilégios; feiticeira.
Pitonisa: na Grécia antiga, sacerdotisa do deus Apolo; na Antiguidade, mulher que possuía
o dom da profecia.
Necromante: praticante da necromancia; neciomante, nigromante (ETIM gr.
nekrómantis,eós 'adivinho que prediz o futuro evocando os mortos').
Aurélio:
Feiticeira: mulher que faz feitiços; bruxa, carocha, estrige, magia, mágica.
Bruxa: mulher que faz bruxarias; feiticeira, maga, mágica;
Bruxaria: ação maléfica atribuída a bruxos ou magos; magia negra; acontecimento que, à
falta de explicação, se atribui supersticiosamente a artes diabólicas ou a espíritos
sobrenaturais.
Pitonisa: na Antiguidade, adivinho que previsa o futuro; mago, nigromante. 2
Necromante: pessoa que pratica a necromancia.
Necromancia: adivinhação pela invocação dos espíritos.
Dicionário Barsa:
Bruxaria, Feitiçaria: Real ou suposto poder sobrenatural, conseguido pela venda da alma
de uma pessoa ao demônio ou por algum outro comércio com os espíritos maus.
1
Estritamente falando a feitiçaria é sempre praticada com más intenções; com ou sem
eficácia, é um ato contra a religião e um pecado contra a justiça e a caridade. A Igreja não
nega que seja possível este comércio com o demônio, mas o condena, mas isto não
impediu que no século XVII se opusesse, em nome da justiça, a perseguições injustas ou
fanáticas contra pessoas acusadas de feitiçaria. (p. 41).
Feiticeiro, Encantador: Pessoa que invoca a ajuda do demônio para fazer maravilhas. Os
encantadores atribuem mais poder ao demônio do que a Deus, e desta maneira
indiretamente negam a Santidade, Onipotência e Sabedoria de Deus. Assim não se permitia
aos israelitas consultá-los (Lev 19,31; Dt 18,10). Por isso os feiticeiros deviam ser
condenados à morte (Ex 22,18). (p. 104).
Como pudemos perceber, o crítico tenta imiscuir os malefícios trazidos por uma bruxa,
aliado ao texto de 1Sm 28, traçando um paralelo entre a bruxaria e o espiritismo, mas sem
sucesso, pois o texto refere-se a necromante (1Sm 28,7) e não bruxa, sendo que as práticas
espíritas não estão relacionadas a necromancia e muito menos com bruxaria. Um ponto
interessante que iremos comentar é o fato da terminologia usada pelo autor da crítica depor contra
ele mesmo, pois como poderia Saul buscar uma bruxa para que viesse a lhe fazer mal, ou até
mesmo a outrem, se na realidade ele queria mesmo era consultar o profeta Samuel, diante do seu
medo dos filisteus? Vejamos ainda o real significado de necromante
Dicionário Bíblico Universal:
NECROMANCIA: Meio de adivinhação interrogando um morto. Babilônios, egípcios,
gregos a praticavam. Heliodoro, autor grego do III ou do século IV d. C., relata uma cena
semelhante àquela descrita em 1Sm (Etíope 6,14). O Deuteronômio atribui aos habitantes
da Palestina "a interrogação dos espíritos ou a evocação dos mortos" (18,11). Os israelitas
também se entregaram a essas práticas, mas logo são condenadas, particularmente por
Saul (1Sm 28,3b). Mas, forçado pela necessidade, o rei manda evocar a sombra de
Samuel (28,7-25): patético, o relato constitui uma das mais impressionantes páginas da
Bíblia. Mais tarde, Isaías atesta uma prática bastante difundida (Is 8,19): parece que ele
ouviu "uma voz como a de um fantasma que vem da terra" (29,4). Manassés favoreceu a
prática da necromancia (2Rs 21,6), mas Josias a eliminou quando fez sua reforma (2Rs
23,24). Então o Deuteronômio considera a necromancia e as outras práticas
divinatórias como "abominação" diante de Deus, e como o motivo da destruição das
nações, efetuada pelo Senhor em favor de Israel (18,12). O Levítico considera a
necromancia como ocasião de impureza e condena os necromantes à morte por
apedrejamento (19,31; 20,27). (MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 556, grifo nosso).
Dicionário Prático – Vozes
Necromancia: Ou evocação dos mortos, é uma prática que supõe a possibilidade de entrar
em contato com os mortos e de esses poderem comunicar mensagens do além, e até de
aconselhar os vivos em problemas difíceis. A prática era conhecida da Mesopotâmia, no
Egito e em Canaã. Apesar da proibição (cf. Lv 19,31 e nota), Saul recorreu à
necromancia (cf. 1Sm 28,7-10) e foi por isso punido (1Cr 10,13). (Bíblia Sagrada – Vozes,
p. 1531, grifo nosso).
Diante disso, percebemos que a prática da necromancia está aliada a sortilégios e
adivinhações e não a se fazer mal a outrem. De uma forma ou de outra, Kardec já vivia essas
comparações ao seu tempo. Vejamos:
Médiuns e feiticeiros
V. — Desde que a mediunidade não é mais que um meio de entrar em relação com as
potências ocultas, médiuns e feiticeiros são mais ou menos a mesma coisa.
Allan Kardec — Em todos os tempos houve médiuns naturais e inconscientes que, pelo
simples fato de produzirem fenômenos insólitos e incompreendidos, foram
qualificados de feiticeiros e acusados de pactuarem com o diabo; foi o mesmo que se
deu com a maioria dos sábios que dispunham de conhecimentos acima do vulgar. A
ignorância exagerou seu poder e, muitas vezes, eles mesmos abusaram da
2
credulidade pública, explorando-a; daí a justa reprovação que os feriu. Basta-nos
comparar o poder atribuído aos feiticeiros com a faculdade dos verdadeiros médiuns,
para conhecermos a diferença, mas a maioria dos críticos não se quer dar a esse
trabalho. Longe de fazer reviver a feitiçaria, o Espiritismo a aniquila, despojando-a do
seu pretenso poder sobrenatural, de suas fórmulas, engrimanços, amuletos e talismãs, e
reduzindo a seu justo valor os fenômenos possíveis, sem sair das leis naturais. A
semelhança que certas pessoas pretendem estabelecer, provém do erro em que
estão, julgando que os Espíritos estão às ordens dos médiuns; repugna à sua razão
crer que um indivíduo qualquer possa, à vontade, fazer comparecer o Espírito de tal ou tal
personagem, mais ou menos ilustre; nisto eles estão perfeitamente com a verdade, e, se
antes de apedrejarem o Espiritismo, se tivessem dado ao trabalho de estudá-lo,
veriam que ele diz positivamente que os Espíritos não estão sujeitos aos caprichos de
ninguém, que ninguém pode, à vontade, constrangê-los a responder ao seu chamado; do
que se conclui que os médiuns não são feiticeiros. (KARDEC, 2001c, p. 103-104, grifo
nosso).
Com isso, separando os conceitos que não devem ser misturados, Kardec já aponta, e
com muita propriedade, que a mediunidade não está ligada a feitiçaria como muitas traduções
errôneas de bíblias que contêm este neologismo criado por Kardec em 1857, bem como muitas
opiniões infundadas que tentam passar que ambas são a mesma coisa. Passemos porquanto ao
texto de fato que iremos analisar.
O CASO DE SAUL E A FEITICEIRA DE ENDOR (1 SAMUEL 28)
Razões que provam que houve fraude ou manifestação demoníaca no caso da consulta ao
suposto espírito de Samuel:
1. Saul perdera a graça de Deus (1 Sm 15.23), daí Deus não lhe responder mais (1 Sm
28.6). Havia três maneiras de Deus comunicar-se com os homens naquela ocasião:
por sonhos – revelação pessoal (Jó 33.15-17);
por Urim e Tumim – revelação sacerdotal (Êx 28.30);
por profetas – revelação inspiracional (Hb 1).
Neste primeiro ponto assinalado pelo ICP, em parceria com o CACP, é abordada a forma
de como ocorriam às manifestações do plano espiritual com o físico através dos profetas, onde se
tentou colocar um parâmetro que fora dele, deveria ser a manifestação de um espírito enganador.
Antes, porém, precisaremos colocar todo o registro do fato baseado na bíblia hebraica, ou mais
comumente conhecida como o Tanah. Vejamos:
1Sm 28: 1 Naqueles dias, os filisteus juntaram seus acampamentos e formaram um exército
para lutar contra Israel, e Ahish disse a David: ‘Saiba que sairás comigo à batalha, tu e teus
homens!’ 2 E David disse a Ahish: ‘Assim saberás o que o teu servo há de fazer’ – e Ahish
disse a David: ‘Por isso te farei meu guarda-costas, para sempre’. 3 E Samuel havia
morrido, e todo o Israel o havia pranteado e sepultado em Ramá, na sua cidade; e Saul
havia expulso da terra os necromantes e os adivinhadores ideonitas. 4 E os filisteus se
juntaram, vieram e acompanharam em Shunem, e Saul reuniu todo Israel e acamparam em
Guilbôa. 5 E Saul viu o acampamento dos filisteus e temeu, e seu coração estremeceu
muito. 6 E Saul consultou ao Eterno, porém o Eterno não lhe respondeu nem por
sonhos, nem pelos Urim, nem pelos profetas. 7 E Saul disse aos seus criados: ‘Buscaime uma necromante, para que eu vá a ela e a consulte – e seus criados lhe disseram:
‘Eis que há uma necromante em En-Dor.’ 8 Então Saul se disfarçou e, vestindo outras
roupas, foi junto com um dos homens, e vieram a mulher de noite, e ele disse: ‘Rogo-te que
me adivinhes pela necromancia e me faças subir aquele eu te disser.’ 9 E a mulher lhe
3
disse: ‘Tu bem sabes o que Saul fez e como exterminou da terra os necromantes e os
adivinhadores ideonitas; por que então me amarras um laço à minha vida, para causar a
minha morte?’ 10 E Saul lhe jurou pelo Eterno, dizendo: ‘Assim como o Eterno vive, juro que
nenhuma punição te sobrevirá por isso!’ 11 – e a mulher disse: ‘A quem farei subir para ti?’ –
e ele disse: ‘Faz-me subir Samuel.’ 12 E a mulher viu a Samuel e gritou em voz alta, e a
mulher falou a Saul e disse: ‘Por que me enganaste? Tu és Saul!’ 13 – e o rei lhe disse:
‘Não temas! Mas o que foi que viste? – e a mulher disse a Saul: Vi anjos de Deus
subindo da terra.’ 14 E ele lhe disse: ‘Qual a sua aparência?’ – e ela disse: ‘Está subindo
um homem velho, e está envolto num manto’ – e Saul soube que era Samuel, e
inclinou-se com o rosto em terra e se prostrou. 15 E Samuel disse a Saul: ‘Por que me
importunaste, fazendo-me subir?’ – e Saul disse: ‘Estou muito angustiado por que os
filisteus estão fazendo guerra contra mim, e Deus Se desviou de mim, e não me respondeu
mais, nem pelos profetas nem por sonhos. Por isso te chamei, para me fazeres saber o que
devo fazer.’ 16 E Samuel disse: ‘E por que me perguntas? O Eterno se desviou de ti e
Se tornou teu inimigo, 17 e o Eterno te fez conforme falou através de mim, pois o
Eterno rasgou o reino da tua mão e o deu ao teu próximo, a David, 18 porquanto não
deste à voz do Eterno e não executasse o furor de Sua ira contra Amalec; por isso o Eterno
te fez assim hoje. 19 E o Eterno entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus,
e amanhã tu e teus filhos estarão comigo; também o acampamento de Israel o Eterno
entregará na mão dos filisteus.’ 20 Imediatamente Saul caiu estendido na terra, e estava
com muito medo por causa das palavras de Samuel, e também não havia nele força, porque
não tinha comido pão durante todo o dia e toda a noite. 21 E a mulher veio a Saul, e viu que
estava muito apavorado, e ela lhe disse: ‘Eis que a tua criada deu ouvidos à tua voz, pus a
minha vida em risco e ouvi as palavras que me disseste. 22 Agora, rogo-te, ouve também a
voz da tua criada, e porei diante de ti uma fatia de pão e comerás; assim farás força quando
seguires em teu caminho.’ 23 Mas ele recusou e disse: ‘Não comerei.’ – então seus criados
insistiram – e a mulher também – e ele acabou dando ouvidos à voz deles, levantou-se do
chão e sentou-se na cama. 24 E a mulher tinha em casa um bezerro cevado, e apressouse e o degolou; e tomou farinha, a amassou e assou pães não fermentados, 25 e
trouxe diante de Saul e de seus criados, e eles comeram. E levantaram-se e partiram
naquela mesma noite. (TANAH, p. 300-301, grifo nosso).
Após citarmos na íntegra o evento da aparição do espírito de Samuel a Saul, com base na
bíblia hebraica, entendemos alguns pontos da defesa da aparição do espírito de Samuel que
iremos comentar mais adiante. Antes, porém, iremos nos deter na contestação ao primeiro ponto
aventado pelo ICP, em parceria com o CACP, em desabonar o evento. Vemos que Saul perdeu a
presença do Eterno em sua vida (1Sm 15,23). Certifiquemos esta afirmativa:
1Sm 15,1-2: E Samuel disse a Saul: ‘O Eterno me enviou para ungir-te por rei sobre o seu
povo, sobre Israel. E agora houve as palavras do Eterno: Assim disse o Eterno dos
Exércitos: “Recordei-Me do que fez Amalec a Israel, e como se opôs a ele no caminho,
quando subia do Egito. Vai agora e fere a Amalec, e destrói totalmente tudo o que tiver,
sem piedade. E matarás desde o homem até mulher, desde crianças até as que
mamam (no peito), desde os bois até as ovelhas, desde camelo até jumentos”,’
(TANAH, p. 285, grifo nosso).
Portanto, Saul reuniu um enorme exército, contando 200.000 homens e destruíram os
amalekitas, mas pouparam o rei Amalec e seu gado (1Sm 15,9), faltando, portanto de cumprir o
que o Eterno determinara. Não iremos julgar o teor da profecia se dirigida ao extermínio de um
povo, mas sobressalta aos nossos olhos o Eterno determinar a morte de inocentes em uma
batalha. Vejamos o que recaiu sobre Saul, através do profeta Samuel:
4
1Sm 15,22-23: E Samuel disse: ‘Porventura o Eterno Se deleita mais com ofertas de
elevação e sacrifícios do que com que se ouça a voz do Eterno? Eis que obedecer (é
melhor) do que sacrificar, e atender (é melhor) do que a gordura dos carneiros!
Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a teimosia, como iniquidade de idolatria!
Porquanto tu rejeitaste a palavra do Eterno, Ele te rejeitou como rei.’ (TANAH, p. 286, grifo
nosso).
Fizemos a questão de citar o versículo anterior, a fim de perceber o que o contexto está
tentando nos revelar, como motivo de Saul ter perdido a unção do Eterno, pois como pudemos
perceber, Saul não ouvira o que o Eterno havia determinado que ele fizesse, sendo, inclusive,
considerado mais importante do que as ofertas e sacrifícios. E o que o Eterno pedira a Saul que o
fizesse através de Samuel? Vamos voltar um pouco antes à passagem sugerida. Vejamos:
1Sm 15,17-21: E Samuel disse: ‘Mesmo se aos teus próprios olhos te aches pequeno, és o
cabeça das tribos de Israel, e o Eterno te ungiu para ser rei sobre Israel, e o Eterno te
enviou em um caminho e disse: ‘Vai e destrói totalmente os pecadores, os amalekitas,
e guerreia contra eles, até que os aniquiles. Por que não deste ouvidos à voz do
Eterno, mas te lançastes ao despojo e fizeste o que era mau aos olhos do Eterno? E
Saul disse a Samuel: Ora, mas dei ouvidos à voz do Eterno e fui no caminho pelo qual o
Eterno me enviou, e trouxe a Agag, o rei de Amalec, e os amalekitas destruí (totalmente).
Mas o povo tomou do despojo ovelhas e bois, o melhor do interditado, para oferecer
sacrifícios ao Eterno, teu Deus, em Guilgal.’ (TANAH, p. 286, grifo nosso).
Após verificarmos, entendemos agora o motivo pelo qual o rei Saul não esteve mais sobre
a unção do Eterno, ele não havia cumprido o que era para se fazer, ou seja, a destruição completa
dos amalekitas , porém, o rei Amalec foi poupado Amalec e o povo tomou os despojos da guerra,
o que para o Eterno, também, não era para ser realizado. Vejamos agora o que o profeta Samuel
disse ao rei Saul, arrependido.
1Sm 15,24-26: E Saul disse a Samuel: ‘Pequei, porque transgredi o mandamento do Eterno
e as tuas palavras, porque temi ao povo e dei ouvidos à sua voz. Agora, te rogo, perdoa-me
o meu pecado e volta comigo, para que me curve ao Eterno.’ E Samuel disse a Saul: ‘Não
voltarei contigo, porque rejeitaste a palavra do Eterno, e o Eterno te rejeitou, para que
não sejas rei sobre Israel.’ (TANAH, p. 286, grifo nosso).
Diante destes fatos narrados, entendemos que Saul perdera a unção do Eterno para seu
reinado e não respondera a Saul, quando se viu prestes a enfrentar os filisteus em batalha. (1Sm
28,5-6).
Esclarecido este ponto, vemos que as formas de se obter a comunicação direta com o
Eterno se daria por meio de sonhos, urim e por profetas, mas o Eterno não respondia a Saul na
iminência da batalha contra os filisteus, devido aos fatos já narrados. Dessa forma, iremos
explanar sobre a manifestação através de urim. Vejamos, conforme o Dicionário Bíblico Universal:
Urim e Tumim
Palavras de sentido incerto: designam uma técnica divinatória que consiste em tirar a
sorte várias vezes, usando duas pedrinhas ou bastõezinhos ou algum objeto semelhante.
Um dos objetos trazia a primeira letra do alfabeto, o alef, inicial de urim, e o outro, a última
letra, o tau (cf. Ez 9,4), inicial de tumim? Pode-se imaginar isso. O modo como funcionava
aparece em 1Sm 14,41-42, corrigido segundo o grego: “Saul disse: 'Se a culpa esta em
mim... o senhor... faça dar urim; se a culpa está em Israel, que dê tumim!' Saul... foi
designado. Saul disse: 'Lançai a sorte sobre mim e meu filho Jônatas!', e a sorte caiu em
Jônatas”. Trata-se portanto de uma resposta por sim ou não, que vai progredindo por
5
precisões sucessivas (cf. 1Sm 23,9-12). A operação poderia durar muito tempo (1Sm
14,18-19, corrigido segundo o grego). Acontecia às vezes que o oráculo se recusava a
responder (1Sm 14,37; 28,6). Sem dúvida, quando não saía nada ou quando os dois
resultados saíam ao mesmo tempo. A manipulação das sortes era confiada ao
sacerdote Eleazar (Nm 27,21) ou à tribo de Levi (Dt 33,8). Depois do reinado de Davi só
se encontra uma menção (Esd 2,63 = Ne 7,65). (MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 813814, grifo nosso).
Pelo Dicionário Bíblico (On-line), temos:
Urim e Tumim
Luzes e perfeições. Como há muita dúvida com respeito a estes nomes, será bom examinar
as referências das Escrituras sobre o assunto: ‘Também porás no peitoral do juízo o Urim e
o Tumim, para que estejam sobre o coração de Arão, quando entrar perante o Senhor’ (Êx
28.30 - cf. Lv 8.8). Há, aqui, uma alusão a pequenos objetos, em conexão com a
interpretação da vontade de Deus por meio do sumo sacerdote, estando essas coisas
encerradas numa dobra do peitoral. Parece que se trata de pedras, usadas como sortes, ou
talvez de uma única pedra com duas faces sobre as quais estivessem gravadas os termos
Urim e Tumim. Na ‘Bênção de Moisés’ (Dt 33.8) o privilégio de possuir o ‘Tumim e o Urim’ é
recebido da tribo de Levi. Em outras passagens há expressas referências a Urim e a
Tumim como meios de adivinhação. Na divina designação de Josué, para sucessor de
Moisés, se lê: ‘Apresentar-se-á perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele consultará,
segundo o juízo do Urim, perante o Senhor’ (Nm 27:21). o que levou Saul a consultar a
feiticeira de En-Dor foi o seguinte: quando Saul consultou o Senhor, o Senhor ‘não lhe
respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas’ (1Sm 28.6). Nos dias de
Esdras e Neemias o método tinha caído em desuso - e por isso Zorobabel adiou a sua
decisão com respeito ao direito de certas famílias ao sacerdócio, ‘até que se levantasse um
sacerdote com Urim e Tumim’ (Ed 2.63 - Ne 7.65). Pode dizer-se, com alguma
probabilidade, que o mesmo método de adivinhação deve ter sido empregado em alguns
casos em que o Urim e o Tumim não são expressamente mencionados (*veja g. Js 7.14 a
18 - Jz 20.28 - 1Sm 10.20 a 24 - 2 Sm 2.1 - 5.19, 23). Eram, desse modo, o Urim e o
Tumim o meio de apelar pela sorte para a vontade ou conhecimento de Deus, nos
casos que envolviam duas alternativas, sendo isso naturalmente uma prerrogativa dos
sacerdotes. (Site Bíblia Online [1], 2010, grifo nosso).
Como podemos perceber, a resposta que Saul tanto aguardava por sonhos, urim e por
profeta não veio, mediante os fatos já narrados. Não podemos deixar de salientar que o meio por
urim e tumim era uma espécie de sorte diante de resposta positiva ou não, após essas duas
pedras (ou dados) serem jogados pelo sacerdote. É justamente o que Saul queria saber, ou seja,
se iria vencer a batalha contra os filisteus, ou não. Passemos agora adiante, pois este primeiro
ponto não desabona a aparição do espírito de Samuel a Saul, já que o que Samuel havia dito
após a sua morte (1Sm 28,17) foi justamente o que já tinha sido revelado enquanto vivo (1Sm
16,28). O fato de o Eterno não ter respondido a Saul pelos meios convencionais, mesmo que um
deles seja por meio da sorte, não desabonaria o desespero de Saul querer consultar a Samuel
ainda que por meio de uma necromante. Vejamos a comparação das profecias de Samuel ainda
vivo e de seu espírito. Samuel em vida:
1Sm 15,27-29: E quando Samuel se virou para ir embora, ele (Saul) agarrou a borda de sua
capa, que se rasgou. E Samuel lhe disse: ‘O Eterno rasgou de ti hoje o reino de Israel e
o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu! E também (Aquele que é) a força de Israel
não mente nem Se arrepende, porquanto não é um homem para que se arrependa.’
(TANAH, p. 286, grifo nosso).
Se observarmos esta narrativa, é a mesma profecia proferida por Samuel ao ser
consultado por Saul (1Sm 28,16-18). Tanto em vida, como após a sua morte, Samuel havia dito a
mesma coisa. Até o presente momento, não há a inferência de que Samuel havia dito uma
profecia que não se cumpriria. Seria mais prudente aos que se arvoram em defender que não era
______________________________
[1] http://www.bibliaonline.net/scripts/dicionario.cgi?procurar=urim%20e%20tumim&exata=on&link=bol&lang=BR
6
Samuel que falara após a sua morte e sim um demônio, tanto quando vivo como após a sua
morte, não se dão conta de que para que se configurasse uma falsa profecia, seria dito a Saul que
permaneceria como rei de Israel e venceria a batalha contra os filisteus, o que os fatos
comprovam não ser a verdade (1Sm 28,19).
2. Não se pode entender que Samuel, enquanto vivo, homem santo, depois de morto
pudesse prestar-se a obedecer à pitonisa – mulher abominável – para a prática proibida por
Deus (Êx 22.18; Lv 20.27; Dt 18.9-12; Is 8.19-20; 47.13, 14);
Neste segundo ponto da argumentação do ICP, em parceria com o CACP, percebemos
que há aí uma desinformação diante do contexto, pois percebemos que Samuel, sendo profeta,
mesmo que morto (1Sm 28,3), foi quem Saul se dirigiu, ainda que disfarçado (1Sm 28,8), diante
da necromante de En-dor (1Sm 28,11), a fim de conseguir o parecer de Samuel diante da batalha
contra os filisteus. O desespero e a angustia era dele e não da necromante (1Sm 28,15), portanto
não há obediência de Samuel a necromante. Ainda assim, mesmo a prática da necromancia dos
ideonitas sendo algo que Saul expulsou diante dos Israelitas (1Sm 28,3), o próprio Saul recorreu a
este meio de consulta para confabular com o profeta Samuel e para nossa surpresa, mesmo com
o desespero de Saul, mediante a derrota iminente para os filisteus, houve compaixão da
necromante para com ele (1Sm 28,22), oferecendo-lhe o que tinha de melhor para alimentá-lo e
reconfortar a sua angústia (1Sm 28,24-25). Como poderia ser abominável isso, se ela foi
caridosa? É o que iremos entrar em maiores detalhes quando nos dispusermos a concluir a nossa
análise em comparação ao que o historiador Flávio Josefo no seu relato sobre este evento. A
prática era proibida, tanto que revelava a pena de morte para quem a praticasse. Vejamos as
referências usadas pelos críticos:
Ex 22,17-18: Feiticeira (ou feiticeiro) não deixarás viver. Todo aquele que tiver coito com um
animal será morto. (TANAH, p. 82).
Lv 20,27: E homem ou mulher que fizerem magia ou feitiçaria serão mortos; apedrejá-losão; seu sangue recairá sobre eles! (TANAH, p. 124).
Dt 18,9-12: Quando tu fores à terra que o Eterno, teu Deus, te dá, não aprenderás a fazer
segundo as abominações daquelas nações. Não se achará entre ti quem faça passar seu
filho ou sua filha pelo fogo, nem agoureiro, nem astrólogo, nem adivinho, nem feiticeiro, nem
encantador de animais, nem necromante ou Ideonita, nem quem consulte os mortos, porque
é abominável ao Eterno todo aquele que faz estas coisas, e por causa dessas abominações,
o Eterno, teu Deus, os desterra diante de ti. (TANAH, p. 198).
Is 8,19-20: Se te disserem: ‘Busca resposta entre os magos e os adivinhos que resfolegam
e se esganiçam’, responde: Não deveria qualquer povo buscar resposta com seu próprio
Deus? Deveríamos perguntar aos mortos sobre os vivos? Em busca de instruções e
testemunhos? Eles lhes falarão segundo seu mundo de trevas, onde não penetra luz.
(TANAH, p. 403).
Is 47,13-14: Perdida estás, ainda que envolta por conselhos. Que venham os astrólogos, os
adivinhos, os que apresentam prognósticos, e te salvem do que vai acontecer. Eles serão
como palha. O fogo os queimará. Não conseguirão livrar nem a si mesmos do poder das
chamas. Deles não restará sequer um carvão para aquecer ou um fogo junto ao qual se
possa alguém sentar. (TANAH, p. 435).
Após a citação dessas referências, temos somente a corrigir de Ex 22,18 que é sobre o
verso anterior em nossa bíblia hebraica (verso 17). Temos que toda a determinação ocorrida no
livro do Êxodo se dá devido à nova terra que os hebreus iriam herdar, para que não se
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contaminem com a necromancia dos povos que ali se encontravam [2]. Já em Levítico é dada aos
levitas, que eram os sacerdotes descendentes da tribo de Levi e com isso havia uma enorme
precaução de Moisés que não viessem praticar a necromancia, as predições de como deveriam
ocorrer os rituais judaicos para com o Eterno [3]. Em relação ao Deuteronômio, entendemos que é
a passagem mais utilizada para se combater o espiritismo, como se as práticas da necromancia
estivessem em pé de igualdade com as práticas sérias que se passam nos grupos de estudos
espíritas. Este livro do Deuteronômio tem por finalidade a repetição da lei, baseados em discursos
de Moisés na peregrinação dos israelitas pelo deserto, rumo à terra prometida [4]. Em Isaías (765
a.C. – 681 a.C), temos uma repetição da determinação da Torá, no que tange ao contato com os
assírios que certamente praticavam a necromancia [5]. Ademais, recorreremos à codificação para
atestarmos se Samuel veio por imposição da pitonisa. Vejamos:
8. O Espírito evocado vem voluntariamente ou é forçado a isso?
“Ele obedece à vontade de Deus, ou seja, à lei geral que rege o universo; porém, forçado
não é a palavra certa, pois julga se é útil vir: é aí que exerce o livre-arbítrio. O Espírito
superior sempre vem quando chamado com um objetivo útil; recusa-se a ir apenas aos
ambientes de pessoas pouco sérias e que tratam o assunto como brincadeira.”
9. O Espírito evocado pode se recusar a vir ao chamado que lhe é feito?
“Perfeitamente, onde estaria o seu livre-arbítrio sem isso? Acreditais que todos os seres do
universo estão à vossa vontade? E vós mesmos? Acreditais-vos obrigados a responder a
todos os que vos chamam? Quando digo que pode se recusar, refiro-me à solicitação do
evocador, pois um Espírito inferior pode ser obrigado a vir em lugar de um Espírito superior.”
10. Há para o evocador um meio de obrigar um Espírito a vir contra sua vontade?
“Nenhum; se esse Espírito lhe é igual ou superior em moralidade – digo em moralidade, e
não em inteligência –, nesse caso, o evocador não tem sobre ele nenhuma autoridade; se
lhe é inferior, sim, poderá, se é para o seu bem, porque então outros Espíritos irão ajudá-lo”
(Veja a questão no 279). (KARDEC, A., p. 261-262)
Após o esclarecimento da obra “O Livro dos Médiuns”, passemos, porquanto, ao terceiro
ponto.
3. Não se pode conceber que Deus tenha proibido a feitiçaria e a consulta a mortos e depois
Ele próprio concordasse em permitir a feiticeira trazer, de fato, o espírito de Samuel (Tg
1.17);
Neste terceiro ponto, o simples fato de se proibir algo é, justamente, porque ele pode
acontecer. Porém, o que estava proibido por Moisés na Torá é a forma de como ocorriam e não a
manifestação para meios de instrução, assim como Jesus entabulou na transfiguração, onde
apareceram os espíritos gloriosos de Elias e Moisés na presença de Pedro, João e Tiago (Mc 9,213; Mt 17,1-13; Lc 9,28-36) no qual fazemos a questão de sugerir o texto “Na transfiguração, Elias
e Moisés falaram realmente com Jesus?”. Se fosse algo proibido, Jesus não teria tido a percepção
de mostrar-nos a diferença entre as manifestações sérias, e as que revelavam as adivinhações,
assim como era praticado pela necromancia. No entanto, examinemos a passagem de Tiago que
foi sugerida.
Tg 1,17: Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no
qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade.
Tenta-se, aqui com esta passagem, asseverar que Samuel deveria vir do alto e não de
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[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Axodo, acesso em 11.10.2013, às 13:00hs.
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Lev%C3%ADtico, acesso em 11.10.2013, às 13:05hs.
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Deuteron%C3%B4mio, acesso em 11.10.2013, às 13:10hs.
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Isa%C3%ADas, acesso em 11.10.2013, às 13:15hs.
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baixo, como que as coisas do Eterno vêm do alto e que Samuel não poderia vir de baixo, porém,
como este tema está no próximo tópico que iremos analisar, vamos porquanto ao próximo item e
analisar o fato em consonância a crença comum à época do fato ocorrido.
4. Em 1 Samuel 28.13, a mulher diz: Vejo deuses que sobem da terra. Quais eram? Só
podiam ser deuses do inferno (Ap 12.7; Mc 5.9; Lc 8.30). O diabo pode transfigurar-se em
anjo de luz (2 Co 11.13-14; 1 Sm 16.23);
Na passagem sugerida, a bíblia hebraica não está desta forma como sugerido no quarto
ponto pelo ICP, em parceria com o CACP. Vejamos:
1Sm 28,13: – e o rei lhe disse: ‘Não temas! Mas o que foi que viste? – e a mulher disse a
Saul: Vi anjos de Deus subindo da terra.’ (TANAH, p. 300, grifo nosso).
Como temos a tradução mais fiel aos originais, entendemos exatamente como o tradutor
do hebraico para o português, que nos remete a figura de “anjos de Deus subindo da terra”, tal
como o profeta Samuel. Algumas traduções nos trazem como deuses, mas a mais correta seria a
que estamos apresentando. Portanto, nem iremos analisar a passagens do Novo Testamento,
pois se trata de um jogo de interpretações destinadas a comparar deuses como se fosse o próprio
diabo, sendo que o próprio Jesus nos diz que “vós sois deuses” (Jo 10,34), asseverando a todo o
ser humano acima da média em seus atos em vida. Mas antes percebemos que Saul queria uma
necromante que fizesse subir a Samuel (1Sm 28,8). A mulher teve convicção de que era mesmo
Samuel quem fizera subir (1Sm 28,11 e 13). De fato. Samuel reclama porque Saul o incomodava
fazendo-o subir (1Sm 28,15). Por que então está relatado que Saul queria que fizesse Samuel
subir (1Sm 28,8)? Por que a necromante o fez subir? E porque Samuel se diz incomodado ao
subir? Simples a resposta, não é pelo fato de vir do inferno como sugere o ICP, em parceria com o
CACP, mas que os judeus àquela época acreditavam que o mundo dos mortos, ou o Sheól, tal
como está sendo relatada, era embaixo, nas profundezas da Terra, tal e qual os gregos supunham
existir o hades – o mundo dos mortos. Basta conferirem no nosso texto “O Inferno existe?” e as
citações abaixo:
Am 9,2 Ainda que cavem até o próprio Sheól (morada dos mortos), Minha mão ali os
alcançará; mesmo que escalem até o céu, dali hei de baixá-los.(TANAH, p. 583, grifo
nossos).
Pv 27,20 Assim como o Sheól e a destruição, nunca se saciam os olhos do ser humano.
(TANAH, p. 700, grifo nossos).
Ele sobe do Xeol, a morada subterrânea dos mortos (cf. Nm 16,33). No Xeol, morada
comum de todos os mortos, bons ou maus (cf. Nm 16,33+). (Bíblia de Jerusalém, em
relação aos vv. 12 e 19 de 1Sm 28, p. 428-429, grifo nosso).
Embora se tenham apresentado diversas derivações da palavra hebraica she'óhl, parece
que ela deriva do verbo hebraico [?????] (sha-ál), que significa “pedir” ou “solicitar”. Isto
indicaria que o Seol é o lugar (não uma condição) que pede ou exige todos sem
distinção, ao acolher os mortos da humanidade. (veja Gen 37:35 n e Is 7:11 n.)
Encontra-se no solo da terra e sempre é associado com os mortos, e refere-se claramente à
sepultura comum da humanidade, ao domínio da sepultura, ou à região terrestre (não
marítima) dos mortos. [...]
[...] Hades é o equivalente do Seol, e aplica-se à sepultura comum da humanidade (em
contraste com a palavra grega tá-fos, uma sepultura individual). A palavra latina
correspondente a Hades é in.fér.nus (às vezes ín.fe.rus). Ela significa “o que jaz por baixo; a
região inferior”, e se aplica bem ao domínio da sepultura. Ela é assim uma apta
aproximação dos termos grego e hebraico.
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Nas escrituras inspiradas, as palavras “Seol” e “Hades” são associadas com a morte e os
mortos, não com a vida e os vivos (Re 20;13) [...] (Traduções Novo Mundo das Escrituras
Sagradas, p. 1514, grifo nosso).
Sepultura. Heb., Sheol. Esta palavra é usada 65 vezes no A.T. Frequentemente significa a
sepultura onde o corpo é colocado após a morte (cf. Nm 16;30,33, Sl. 16,10). Pode também
referir-se ao lugar dos espíritos dos mortos, tanto dos justos (como aqui) quanto dos
ímpios (cf. Pv 9;18). (Bíblia Anotada - Mundo Cristão, p. 60, grifo nosso).
Nm 16,33. Sepulcro. Em hebraico sheol. Esta palavra designa as profundezas da terra onde
descem os mortos bons ou maus para uma vida de letargia. A doutrina da retribuição de
além-túmulo e a da ressurreição, preparada pela esperança dos salmistas (Sl 16,10s;
49,16), não aparecerão claramente senão no fim do A.T. (Bíblia Sagrada - Santuário, p. 203,
grifo nosso).
Sl 6,6: Habitação dos mortos: expressão frequente que traduz o vocábulo hebraico Cheol.
Os antigos hebreus não tinham, da vida futura, uma ideia tão clara como nós. Para eles, a
alma separada do corpo permanecia num lugar obscuro, de tristeza e esquecimento, em
que o destino dos bons era confundido com o dos maus. Donde a necessidade de uma
retribuição terrestre para os atos humanos. (Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 660, grifo
nosso).
O que nos chamou a atenção e que nos propusemos a analisar é a citação abaixo.
Vejamos:
1Sm 16,23: E quando o espírito de Deus estava sobre Saul, David tomava a harpa e a
tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio e se sentia bem, e o mau espírito se retirava
dele. (TANAH, p. 287).
Interessante que essa citação nos mostra que Saul possuía certa mediunidade e David, ao
tocar a harpa, fazia com que o espírito obsessor deixasse, a Saul, em paz. Que os leitores
possam conferir em suas bíblias do verso 14 até o 23 deste capítulo e verificar o que estamos
afirmando, sabendo que não foi somente este evento, mas também (1Sm 18,10-12) e (1Sm 19,810) asseguram que, por uma má influência espiritual, Saul perseguia e atentava contra a vida de
David. Após esclarecermos o item quatro, passemos, portanto ao próximo item em que nos é
sugestionado algo interessante. Vejamos:
5. Os mortos não se comunicam com os vivos (Lc 16.19-31; Hb 9.27; Mt 25.41-46);
Agora ficamos nos perguntado, como pode uma afirmativa dessas ter lógica quando se
proíbe algo que não pode acontecer? A lógica nos aponta ao sentido de compararmos este
argumento como que num cruzeiro, em alto-mar, ao nos deparamos com uma placa dizendo:
“Proibido estacionar carros e motos.” Como poderia haver tamanha incoerência diante de tudo o
que vemos argumentando. Iremos agora adentrar nas citações sugestionadas:
Lc 16,19-31: “Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete
todos os dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do
rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os
cachorros lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para
junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio aos tormentos,
o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. Então o rico gritou:
'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar
a língua, porque este fogo me atormenta'. Mas Abraão respondeu: 'Lembre-se, filho: você
recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora, porém, ele
encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós:
por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem os
daí poderiam atravessar até nós'. O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de
10
meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também
eles vindo para este lugar de tormento'. Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os
profetas: que os escutem!' O rico insistiu: 'Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles,
eles vão se converter'. Mas Abraão lhe disse: 'Se eles não escutam a Moisés e aos
profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos'".
Em conformidade com o texto as conclusões que chegamos é que, assim como Paulo
Neto em seu texto “Saul não consultou feiticeira nem bruxa coisa alguma!”, p. 43-44 assim nos
esclarece: “se o rico pediu a Abraão para mandar Lázaro avisar a seus irmãos, se acreditava na
comunicação com os mortos. Essa possibilidade poder-se-á ver também na resposta de Abraão,
que não contestou isso, apenas disse que seria muito difícil que dessem ouvidos aos mortos, uma
vez que não deram ouvidos nem aos vivos, aqueles que falavam em nome de Deus. Não
podemos deixar de registrar que é exatamente isso que está ocorrendo, em nossos dias, ou seja,
os mortos estão voltando para dar conselhos aos vivos e eles, ou pelo menos a maioria deles, não
dão ouvidos aos que se 'levantam da tumba' para ajudar os que estão na retaguarda. Devido a
explicações equivocadas não podemos deixar de falar que o ‘há um grande abismo entre nós’
está relacionado ao plano espiritual, onde o progresso de cada espírito os coloca em lugares
diferentes, e não, como se vê às vezes, um abismo entre o plano espiritual e o físico, como sendo
o motivo pelo qual os ‘mortos’ não podem se comunicar com os ‘vivos’”.
O que nos chama à atenção é a citação de Hebreus 9,27 que comumente se utiliza para
negar a reencarnação, sendo agora a citação utilizada pelo ICP, em parceria com o CACP, para
afirmar que não há nenhuma possibilidade de comunicação entre o plano físico e o espiritual, é
uma novidade! Este texto somente prega que o sacrifício de Jesus é único, tendo se oferecido
uma única vez (verso 28). Já a parábola dos bodes e das ovelhas, também nada tem a ver, pois é
um passo que específica que aqueles que não praticam a vontade do pai em levar alimento aos
necessitados, visitar aos doentes e encarcerados, de dar ao viajante abrigo, sendo tudo isso feito
a Jesus (Mt 25,41-46), merecerão castigo eterno, eterno enquanto dure, é claro, em nada
desabona a comunicação entre o plano espiritual, por aqueles que já partiram, com os ainda
vivos, ou encarnados. Passemos porquanto ao último item a ser analisado:
6. O resultado dessa consulta foi trágico para Saul (1 Cr 10.13). De acordo com
Deuteronômio 18.22, as profecias devem ser julgadas. Essas profecias do pseudo Samuel
não resistem ao exame, são ambíguas, imprecisas e infundadas:
Primeiramente, tenta-se aplicar que a razão da morte de Saul se deu pelo fato de sua
consulta com a necromante, ao citarem (1Cr 10,13). Porém, sabemos, como dissemos acima, de
que o motivo da morte de Saul foi justamente pelo não cumprimento da ordem dada pelo Eterno
através da profecia que Samuel proferiu ainda vivo (1Sm,15-37-29), tendo-a repetido depois de
sua morte (1Sm 28,16-18). Ademais, no cânon judaico, o livro de Crônicas é o último livro do
Tanah, como que alguém narrando os episódios contidos nos livros de Reis e Samuel, escritos
por um levita por volta de 430 a.C., com adições posteriores a 200 a.C., com o propósito de
resgatar os padrões de culto e adoração ao Eterno no período do cativeiro babilônico. O que
demonstra que Saul, que morreu por volta de 1010 a.C. dista da narrativa deste livro em até 580
anos [6]. Contudo, não deixaremos de uma análise dentro da bíblia hebraica, vejamos:
1Cr 10,13-14: Assim morreu Saul por causa da sua infidelidade para com o Eterno, porque
não tinha guardado a palavra do Eterno, e também porque buscou a necromante para o
consultar, e não buscou ao Eterno, pelo que o matou e transferiu o reinado a David bem
Ishai. (TANAH, p. 821, grifo nosso).
Fizemos a questão de citar até o verso posterior, tendo em vista que, diante do que já
__________________________________
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/I_Cr%C3%B4nicas, acesso em 11.10.2013, às 14:00hs.
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relatamos sobre o livro de Crônicas, nota-se que o levita ao transcrever os fatos ocorridos em
1Sm 28, percebe-se que ele faz uma complementação a morte de Saul dizendo se dar também
por não ter cumprido o que o Eterno o havia incumbido de realizar, que era o extermínio dos
amalekitas e o rei Amalec, fato este que não ocorreu, donde Samuel profetizou-lhe, tanto em vida
(1Sm 16,28), como em espírito, que seu reinado seria dado a outro, neste caso a David (1Sm
28,17).
Dessa forma, a morte de Saul não tem nada a ver com a sua consulta à necromante e sim
por outro motivo, do qual Samuel já havia predito que seu reinado seria dado a David e que
perderia a batalha contra os filisteus, por terem sido eles os instrumentos pelo qual o Eterno
realizou a profecia. O levita escriba do livro de Crônicas, na ânsia de restabelecer os padrões dos
cultos judaicos no cativeiro babilônico complementa a morte de Saul como adicional ao evento da
consulta a necromante, porém, cai em contradição com o que determinava a Lei, uma vez que por
ela quem seria punido com a morte era o necromante (Ex 22,17-18; Lv 20,27), não o consultante.
Vejamos a citação do livro de Deuteronômio que foi apresentada pelo ICP em parceria como o
CACP.
Dt 18,22: Quando falar o profeta em Nome do Eterno, e a coisa não se cumprir e não
suceder, esta é a coisa que o Eterno não falou; propositalmente a falou o profeta, não o
temerás. (TANAH, p. 198, grifo nosso).
Nesta passagem de Dt 18,22 é interessante, é como que um tiro que sai pela culatra, pois
ao citar o ICP, em parceria com o CACP, diz claramente que o que o Eterno falar e não se cumprir
através do profeta, certamente o profeta falou por si mesmo e não que satã falou como tenta
defender o ICP, em parceria com o CACP, no evento da profecia do espírito de Samuel. Vamos
adiante ao último ponto a ser discutido.
Neste último ponto abordado pelo ICP, em parceria com o CACP, vamos agora recorrer ao
historiador Flávio Josefo quanto ao evento em 1Sm 28, corroborando com tudo que já abordamos
em consonância com o Tanah, onde iremos traçar um paralelo aos eventos narrados em 1Sm 28,
bem como com o que Josefo documentou, abalizada de como é visto pelo judaísmo:
252. 1 Samuel 28. Nesse mesmo tempo, os filisteus resolveram fazer guerra aos israelitas.
O rei Aquis ordenou a reunião de todas as suas tropas na cidade de Suném e por isso
mandou dizer a Davi que lá se encontrasse também, com os seus seiscentos homens. Ele
respondeu que obedeceria com prazer, para testemunhar-lhe a sua gratidão pelos favores
de que lhe era devedor. O rei, por sua vez, prometeu-lhe que se fosse vitorioso
recompensaria os seus serviços com grandes honras e o faria comandante de sua guarda.
CAPÍTULO 15
Saul, vendo-se abandonado por Deus na guerra contra os Filisteus consulta por meio
de uma médium a sombra de Samuel, que lhe prediz derrota na batalha e a morte dele
e de seus filhos. Aqui, um dos reis dos Filisteus, leva com ele Davi para o combate, mas os
outros príncipes o obrigam a reenviá-lo a Ziclague. Davi descobre que os amalequitas
saquearam e incendiaram ziclague, persegue-os e os dizima. Saul perde a batalha.
Jônatas e dois outros de seus filhos são mortos e dois outros de seus filhos são
mortos, e ele Saul fica muito ferido. Obriga um escudeiro a matá-lo. Bela ação dos
habitantes Dejabes de Gileade para com os corpos desses príncipes.
253. Saul, informado de que os filisteus tinham avançado até Suném, marchou contra eles e
acampou em frente ao exército inimigo, próximo do monte de Gilboa. Percebendo, porém,
que eles eram incomparavelmente mais fortes, sentiu a coragem diminuir e rogou aos
profetas que consultassem a Deus para saber qual seria o resultado daquela guerra. Deus
não lhe respondeu, e esse silêncio duplicou-lhe o temor, pois se julgou abandonado por Ele.
12
O seu ânimo abateu-se e ele resolveu, nessa dificuldade, recorrer à magia. No entanto Saul
havia expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda espécie de gente que costuma
predizer o futuro, e assim, não sabendo onde buscá-los, mandou indagar de onde se
poderia encontrar a voltar às almas dos mortos, para interrogá-las e saber coisas futuras.
Um dos seus disse-lhe que uma mulher na cidade de En-Dor poderia satisfazer esses
desejos. Imediatamente e sem falar com quem quer que fosse, disfarçado e acompanhado
por duas pessoas somente, foi procurar a mulher, rogando-lhe que predissesse o que
estava para lhe acontecer e que para esse fim fizesse voltar à alma de um morto que ele
ia nomear. Ela respondeu que não podia fazê-lo porque o rei proibira, por um edito, que se
fizesse essa espécie de predição e rogou que, jamais tendo ela lhe feito mal, não lhe
armasse cilada para fazer acontecesse o que acontecesse, ele não o faria e que ela não
corria risco algum. Esse juramento tranquilizou-a, e ele pediu que fizesse vir à alma de
Samuel.
Como ela não sabia quem era Samuel obedeceu sem dificuldade. Quando, porém, a sua
presença se fez notar, algo de divino que ela percebeu surpreendeu-a e a perturbou.
Voltou-se então para Saul e disse-lhe: "Não sois vós o rei Saul?" (Ela o soubera pela visão.)
Ele respondeu-lhe que sim, e ordenou-lhe que revelasse a causa da grande perturbação
que notava nela. Ela respondeu que via aproximar-se um homem que parecia todo
divino. Saul perguntou: "Que idade tem ele e como está vestido?" Ela respondeu: “Ele
parece alguém dentre os que a fazem cair numa falta que custaria a ela a própria
vida”. Saul jurou-lhe que, um velho muito duvidou de que era mesmo Samuel* e
prostrou-se diante dele até o chão.
A sombra perguntou-lhe por que o havia obrigado a voltar do outro mundo. Respondeu
Saul: "A necessidade me obrigou a isso, porque, tendo sido atacado por um exército muito
poderoso, me encontro abandonado, sem o auxílio de Deus, que nem pelos seus profetas
nem por outro modo me informa sobre o que está para acontecer. Assim, só me resta
recorrer a vós, que sempre me testemunhastes tanto afeto". Samuel, sabedor de que o
tempo da morte de Saul havia chegado, disse-lhe: "Sei que de fato Deus vos
abandonou e em vão desejais que Ele diga o que vos deve suceder. Mas, visto que o
quereis, sabei que Davi reinará e terminará venturosamente esta guerra e que, pelo
castigo de não terdes executado e vencido os amalequitas, o vosso exército amanhã
será desbaratado e perderá a coroa, a vida e os vossos filhos nessa batalha".
Essas palavras gelaram o coração de Saul, e ele desmaiou, tanto pela dor excessiva quanto
porque havia dois dias não se alimentava. A mulher rogou-lhe que tomasse algum alimento,
para restaurar as forças e poder voltar ao exército. Ele recusou-o, mas ela insistiu, dizendo
que não Ihe pedia outra recompensa por ter arriscado a vida para fazer o que ele desejava.
Por fim, não podendo mais resistir àquelas súplicas insistentes, Saul disse-lhe que
comeria alguma coisa. Logo ela matou um vitelo, que era tudo o que possuía,
preparou-o e o serviu a ele e aos seus. Saul voltou naquela mesma noite para o seu
exército.
Eu não poderia deixar de admirar a bondade dessa mulher, que, jamais tendo visto o
rei, em vez de se ressentir por ele a ter reduzido a tão grande pobreza, proibindo-a de
exercer a arte que era o seu meio de vida, teve tanta compaixão de sua infelicidade
que não se contentou em consolá-lo. Sabendo que ele morreria no dia seguinte, deu-lhe
tudo o que possuía sem pretender recompensa alguma e sem dele nada esperar. Nisso ela
é tanto mais louvável quanto os homens são naturalmente levados a fazer o bem somente
àqueles dos quais podem também recebê-lo. E assim, ela nos dá um belo exemplo de como
ajudar sem interesse os que têm necessidade de nosso auxílio, pois é uma generosidade
tão agradável a Deus que nada pode levá-lo a nos tratar mais favoravelmente.
13
Julgo oportuno acrescentar outra reflexão, que poderá ser útil a todos, particularmente aos
reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas constituídas em
dignidade e a todos os que, sob qualquer condição, têm a alma grande e nobre, a fim de
inflamá-los de tal modo à virtude que não haja penas nem tributações que não aceitem ou
perigos que não desprezem até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal,
chegando a dar a própria vida pelo bem da pátria. Vimos o que fez Saul, pois, ainda que
Samuel o tivesse avisado de que seria morto com os filhos na batalha, preferiu perder
a vida a praticar um ato indigno de um rei, como, para conservá-la, abandonar o
exército, o que seria o mesmo que entregá-lo nas mãos dos inimigos.
Assim, Saul não hesitou em expor-se com os filhos a uma morte certa, julgando que seria
melhor e muito mais satisfatório terminar com estes gloriosamente os seus dias, em pleno
combate pela salvação da pátria, e merecendo assim viver perenemente na memória da
posteridade do que sobreviver à própria infelicidade e, além de não ter mais uma posição,
ser pouco considerado pela opinião pública. Não poderia, pois, deixar de considerar esse
soberano, nesse ponto, como muito justo, sensato e generoso. E, se algum outro fez ou
fizer a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois, ainda que quem faça
guerra na esperança de obter a vitória mereça que os historiadores elogiem os seus feitos
grandiosos, parece-me que somente devem ser considerados provectos na coragem os
que, a exemplo de Saul, preferem a honra à própria vida, desprezando perigos certos e
inevitáveis.
Nada é mais comum que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e disso auferir
grandes vantagens, se houver sorte favorável. Mas nada poder prometer senão coisas
funestas, estar certo de que perderá a vida no combate e afrontar intrepidamente a morte é
o que se pode chamar o cúmulo da generosidade e da coragem. Foi isso o que
admiravelmente fez Saul. Ele deu exemplo a todos os que desejam eternizar a memória
pela glória das ações, mas principalmente aos reis, ao qual a nobreza dessa condição não
somente proíbe abandonar o cuidado dos súditos como os tornam dignos de censura se
nutrir por eles apenas uma medíocre afeição. Poderia eu falar ainda muito mais em
louvor de Saul, mas, para não ser demasiado longo, necessito retomar o fio de meu
discurso.
* "Então Saul não duvidou de que era mesmo Samuel". É possível que Flávio Josefo,
para fazer tal asserção, se tenha baseado em targuns (paráfrases do Antigo
Testamento usadas pelos rabinos). No entanto esse entendimento não pode ser aceito
porque contraria o ensino da Bíblia a respeito do assunto. (N do E) (JOSEFO, p. 284-288,
grifo nosso).
Pela nota acima, sabemos que Pe. Vicente Pedroso, tradutor desta obra, não aceita tal
afirmação de Flávio Josefo, o que é natural de se espera de um prelado), mas ficamos com o
historiador Judeu e seu esclarecimento.
Iremos traçar agora alguns pontos importantes a comentarmos sobre o evento, numa ótica
dada por um historiador judeu que narra o evento da aparição do espírito de Samuel, na ótica
judaica. Vamos a eles, com base a pesquisa de Paulo Neto, em seu texto “Saul não consultou
feiticeira nem bruxa coisa alguma!”, p. 23-41, em que fizemos um resumo desta análise em 17
pontos similares a pesquisa do Paulo Neto.
1º) Não houve mais o contato entre Saul e Samuel enquanto este ainda viveu. Vejamos a
afirmação:
1Sm 15,35: E Samuel nunca mais viu Saul, até o dia de sua morte, porque Samuel se
enlutou por Saul, e o Eterno se arrependeu de coroado Saul rei sobre Israel (TANAH, p.
286)
14
Nesta passagem da Bíblia Hebraica, o autor bíblico, certamente, está dizendo que Saul
não viu mais Samuel, enquanto este viveu, após ter degolado Agag em Guilgal; porém depois de
morto sim, uma vez que mais à frente irá relatar justamente o encontro dos dois personagens. Na
verdade houve um “cochilo” do autor, pois, pelo menos uma vez, passados 8 anos (Bíblia Shedd,
p. 410), Saul ainda viu Samuel antes de sua morte, conforme relatado em 1Sm 19,22-24 (TANAH,
p. 291).
2º) “consulta por meio de uma médium a sombra de Samuel”: Mediante a tradução do texto
de Josefo de necromante como médium, faltou ao tradutor, honestidade no trato de transcrição de
sua obra, pois o termo médium não fazia parte do conhecimento de Josefo ao escrever sua obra.
De fato, o que houve foi à busca de Saul a uma necromante, embora hoje saibamos que ela era
mesmo uma médium, mas nas traduções temos que nos prender ao conceito de época. O que
apresentamos do texto da bíblia hebraica comprova que o que estamos defendendo, ou seja, que
se trata de uma necromante.
Outro ponto que iremos comentar é quanto a expressão “sombra de Samuel”, à qual Saul foi se
consultar, o que de fato, a bem da verdade, também não procede, já que a bíblia hebraica aponta
como o próprio Samuel, após morto, que, entendemos ser o seu “espírito”, ou “alma”.
Também salientamos que foi, justamente, o fato de se tratar de uma consulta para predizer o
futuro, o motivo pelo qual Saul buscava a necromante e afirmamos que a Doutrina Espírita, em
seu movimento federativo, não coaduna com tais práticas.
3º) “rogou aos profetas que consultassem a Deus para saber qual seria o resultado dessa
guerra": Como já explanamos anteriormente, a consulta ao Eterno se dava em meios por sonho,
urim e por profeta. O que salientamos é o fato Saul, ao consultar ao Eterno pelos meios
convencionais, o Eterno não o respondeu (1Sm 28,6), porém, chamamos à atenção para o meio
de consulta através de urim e tumim, que se dava por meio da sorte visando a predição do futuro,
bem como, segundo nossas pesquisas “A sorte indica a vontade de Deus...” (Vozes, p. 305,
grifo nosso).
4º) “ele resolveu nessa dificuldade, recorrer à magia”: Neste ponto a tradução ainda está
aquém do que o texto original da Bíblia Hebraica, que nos concede como necromancia e não
magia. A publicação da CPAD, com tradução do Pe. Vicente Pedroso, consta “recorrer à magia”;
no texto original temos a necromancia. Estamos diante das traduções de conveniência, pois a
editora citada é de cunho protestante.
5º) "mas tinha expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda espécie de gente que
costuma predizer o futuro“: Esta tradução também é apontada no item anterior, em que se lê
“necromantes e adivinhos”, e não “magos e adivinhos”, como na tradução de História dos
Hebreus, publicação CPAD. E é importante ressaltar que, com relação às consultas, a
preocupação, conforme já o dissemos anteriormente e por inúmeras vezes, era quanto aos que
tinham por objetivo prever o futuro.
Conforme a pesquisa do Paulo Neto no site Christian Classics Ethereal Library, este trecho tem o
seguinte teor: “tinha expulsado do país os adivinhos, e os necromantes, e todos quantos exerciam
artes semelhantes, excetuando-se os profetas” (grifo nosso). O mesmo Paulo Neto encerra
dizendo que: “Ora, para nós a exclusão dos profetas era pelo motivo deles fazerem exatamente o
que se estava querendo eliminar do meio dos hebreus, ou seja, adivinhação visando conhecer o
futuro, conforme o que consta em Dt 18,9-14. Aqui temos algo singular: os profetas podiam outras
pessoas não. Tanto isso é verdade que, antes de ir procurar a necromante, Saul, tentou conhecer
o futuro com um profeta, e como não obteve resposta, ai, sim, é que foi procurar a necromante de
En-dor”.
6º) "onde se poderia encontrar algum daqueles que fazem voltar as almas dos mortos para
interrogá-las e saber coisas futuras": Neste ponto, está revelado aqui que a intenção pela qual
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Saul foi buscar a necromante, era a de que queira consultá-la a respeito de um evento futuro, no
caso, sobre o que lhe aconteceria na guerra contra os filisteus. Com isso, verifica-se que era
crença da época de que as “almas dos mortos” voltam e, em virtude disso, elas podem ser
interrogadas.
7º) "o rei tinha absolutamente proibido, por um edito, que se servissem dessa espécie de
predição": Como já dissemos o que está claro que a proibição era para tudo o que levasse a
"essa espécie de predição", ou seja, conhecimento de fatos futuros.
8º) "ele [Saul] pediu que fizesse vir a alma de Samuel": O rei Saul pediu, à necromante de EnDor, para que pudesse consultar a alma de Samuel, para que ele predissesse o resultado da
batalha contra os filisteus, o que pelo relato da Bíblia Hebraica e de Flavio Josefo em questão,
entendemos que era possível do povo hebreu obter contato com aqueles que já haviam morrido,
especialmente em se tratando de profetas. O que foi julgado como condenável é forma de como
ocorriam por meio da necromancia.
9º) “como ela não sabia quem era Samuel, obedeceu sem dificuldade”: Este é um ponto
muito importante, tanto ele documentado na Bíblia Hebraica como no relato de Josefo que Samuel
não era conhecido pela necromante de En-Dor e por isso dificilmente ela iria forjar a comunicação
com um espírito que não conhecesse.
10º) "mas quando sua presença se fez notar, não sei o que de divino ela notou nele, que a
surpreendeu e perturbou": Temos neste relato o registro da presença de Samuel diante da
necromante de En-Dor; sua alma volta do Sheól atendendo ao pedido do rei Saul. A necromante
“chamou-o para fora do Sheól”. Com certeza, foi isso que ocorreu, pois, para o povo hebreu, até
certo momento de sua história, todos os mortos iam para o Sheól, que, em grego, corresponde ao
Hades, que era nada mais nada menos, que a sepultura comum. Portanto, para que um morto
voltasse, haveria, segundo a concepção judaica da época, de subir, conforme o narrado na Bíblia
Hebraica.
11º) Voltou-se para Saul e disse-lhe: “Não sois vós o rei Saul?” (Ela o soubera pela visão).
Neste relato de Josefo, em conformidade pela Bíblia Hebraica, fica claro que a mulher só
reconheceu o rei Saul devido ela ficar sabendo através da visão, ou seja, “porque Samuel a havia
informado quem ele era”.
12º) “Respondeu que via aproximar-se um homem, que parecia todo divino”: Josefo atesta
que o homem que se aproximava parecia todo divino em conformidade com a Bíblia Hebraica que
atesta o fato da necromante ver “anjos subindo”. Será que aqui os dogmáticos teriam razão
quando dizem que: “O próprio satanás se disfarça em anjo de luz” (2Cor 11,14)? Poderia até ser,
caso João não tivesse dito: “Quem pratica o mal, tem ódio da luz, e não se aproxima da luz, para
que suas ações não sejam desmascaradas”. (Jo 3,20). Em se tratando de anjo da de luz, vejamos
a resposta de Kardec ao padre, que lhe questionava sobre isso:
Padre. — O Evangelho ensina que o anjo das trevas, ou Satã, se transforma em anjo de luz
para seduzir os homens.
Allan Kardec — Satã, segundo o Espiritismo e a opinião de muitos filósofos cristãos,
não é um ser real; é a personificação do Mal, como Saturno era outrora a do Tempo. A
Igreja apega-se à letra dessa figura alegórica; é uma questão de opinião que eu não
discutirei. Admitamos, por um instante, que Satã seja um ser real; a Igreja, à força de
exagerar seu poder, tendo em vista intimidar, chega a um resultado totalmente contrário,
isto é, à destruição, não somente do medo, mas também da crença em tal personagem,
segundo o provérbio: Quem muito quer provar, nada prova.
Ela o representa como eminentemente fino, sagaz e ardiloso, mas, na questão do
Espiritismo, fá-lo desempenhar o papel de louco ou de tolo. Uma vez que seu fim é
alimentar de vítimas o inferno e arrebatar almas do poder de Deus, compreende-se que se
dirija àqueles que estão no bem para induzi-los ao mal, e, para tal fim, se veja obrigado a
transformar-se, segundo belíssima alegoria, em anjo de luz, isto é, que ele hipocritamente
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simule a virtude; mas, que deixe escapar aqueles que já estavam em suas redes, é o que
não se pode compreender. Os que não admitem Deus nem a alma, que desprezam a prece
e vivem mergulhados no vício, são dele, quanto é possível ser-se; nada mais lhe resta fazer
para sepultá-los no lamaçal; ora, excitá-los a voltar a Deus, a orar, a submeter-se à vontade
do Criador, animá-los a renunciar ao mal, mostrando-lhes a felicidade dos escolhidos e a
triste sorte que aguarda os maus, seria ato de um simplório, mais estúpido que o de dar
liberdade a aves que estejam numa gaiola, com o pensamento de apanhá-las de novo.
Há, pois, na doutrina da comunicação exclusiva dos demônios uma contradição que
fere todo homem sensato; nunca se persuadirá alguém que os Espíritos que reconduzem
a Deus aqueles que o renegavam, ao bem os que praticavam o mal; que consolam os
aflitos, dão força e coragem aos fracos; que, pela sublimidade de seus ensinos, elevam a
alma acima da vida material, sejam auxiliares de Satã, e que, por este motivo, se deva
interdizer-nos qualquer relação com o mundo invisível. (KARDEC, 2001c, p. 138-139, grifo
nosso).
Por outro lado, satã é uma figura de linguagem usada para se reportar ao rei da babilônia (Is
14,12) e ao rei de Tiro (Ez 28,12). Outro fato, porém, por que não é dito que foi o mesmo satã se
fez passar por Moisés e Elias, no episódio do Tabor (Mt 17,3), onde Jesus conversa com os dois
profetas? A resposta é simples, os textos contidos no Tanah falam da queda de reis e o evento do
Tabor estabelece o que realmente se trata de uma sessão espírita estabelecida por Jesus. E, por
derradeiro, em nenhum lugar da Bíblia consta que satã (caso existisse) aparecia fazendo-se
passar por algum morto evocado.
13º) Saul não duvidou de que era mesmo Samuel e prostrou-se diante dele até o chão" No
desfecho de nosso texto, iremos perceber que o ICP, em parceria com o CACP, diz que um
pseudo-Samuel aparecera no evento de 1Sm 28, quando, além de Josefo, a bíblia hebraica
afirma, taxativamente: "Então Saul viu que era Samuel" (1Sm 28,14). Quando é relatado que a
necromante relatou no evento documentado por Josefo: “ela disse que ele já era um homem
velho, e de um personagem glorioso, e tinha um manto sacerdotal. Então o rei descobriu por
estes sinais que era Samuel”. Com base neste relato, temos o motivo pelo qual Saul reconheceu
Samuel. Outro detalhe importante, é que a atitude de Saul em prostrar-se até o chão, diante do
espírito-Samuel, que acaba comprovando que, realmente, tinham os espíritos como anjos, de
acordo com o Tanah.
14º) “A sombra perguntou-lhe por que o havia obrigado a voltar do outro mundo”.
Novamente o tradutor Pe. Vicente usa o termo “sombra” ao invés de “alma”. O que não vemos
senão com uma nítida intenção de não caracterizar a comunicação com um morto. E aqui os que
dizem ser o pseudo-Samuel quem se comunicou, podem mudar de argumento, porquanto, esse
não vale mais. Um ponto interessante aqui é porque motivo Samuel não disse a Saul: “Não sei por
que me consultas se Deus proibiu consultar os mortos”, considerando que se ele era “um homem
de Deus” (1Sm 9,6-19), quando vivo, não poderia deixá-lo de ser depois de morto.
15º) "Eu não poderia a este propósito admirar assaz a bondade dessa mulher": A atitude da
necromante de En-Dor é assaz benigna diante de um rei apavorado com a notícia de sua
eminente derrota e morte diante dos filisteus. Enquanto o ICP, em parceria com o CACP, diminui a
necromante, já por outro lado, Josefo chega a elogiá-la diante de sua compaixão, como também a
Bíblia Hebraica o faz.
16º) "arte que lhe era o meio de vida": Infelizmente, é isso o que ocorre com muitos que
possuem o dom da mediunidade; alguns médiuns fascinados pelo dinheiro fazem de sua
mediunidade um meio de vida, esquecendo-se do “dai de graça o que de graça recebeste” (Mt
10,8). Este, pelo visto, era o meio de vida da necromante de En-Dor.
17º) "Eis como, segundo a profecia de Samuel, o rei Saul terminou sua vida": Neste ponto,
Josefo confirma que Samuel profetizou a morte de Saul, exatamente como foi dito na Bíblia
Hebraica, conforme já o dissemos. E dessa forma torna válida a aparição de Samuel a Saul, por
meio da necromante de En-dor.
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Após esclarecermos o comparativo da Bíblia Hebraica com o relato de Flávio Josefo nos
pontos que julgamos importantes, iremos agora adentar no encerramento de nossa argumentação
com base nos pontos que o ICP, em parceria com o CACP, julgou ser um pseudo-Samuel que se
comunicou e não o espírito de Samuel. Vejamos:
a) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus (1 Sm 28.19), mas se matou (1 Sm 31.4) e
veio parar nas mãos dos homens de Jabes Gileade (1 Sm 31.11-13);
b) tu e teus filhos estareis comigo (1 Sm 28.19); não morreram todos os filhos de Saul como
insinua essa profecia obscura. Ficaram vivos pelo menos três filhos de Saul – Is-Bosete (2
Sm 2.8-10); Armoni e Mefibosete (2 Sm 21.8). Apenas três morreram (1 Sm 31.6; 1 Cr
10.6).
Fonte: Série Apologética, Ed. ICP, Pg. 74, Edição de 2001.
De acordo com a pesquisa de Paulo Neto em seu texto “Saul não consultou feiticeira nem
bruxa coisa alguma!”, p. 40-41, Vamos resumir o que sua pesquisa pode nos oferecer de
ferramenta a analisar o ponto “a” e “b” argumentado pelo ICP, em parceria com o CACP. Vejamos:
1Sm 28,19: E o Eterno entregará também a Israel contigo na mão dos filisteus, e amanhã tu
e teus filhos estarão comigo; também o acampamento de Israel o Eterno entregará na mão
dos filisteus. (TANAH, p. 300)
1ª) Neste primeiro ponto, lemos que Saul, na visão do ICP, em parceria com o CACP, não
foi entregue nas mãos dos filisteus, tentando contrapor a profecia de Samuel a Saul (1Sm 28,19).
Contudo, na guerra contra os filisteus, tanto Saul como todo o seu exército, portanto, Israel inteiro
foi derrotado pelo exército inimigo, então, podemos dizer que foram entregues “na mão dos
filisteus”, conforme anunciado na profecia. Sobre a menção de que Saul veio parar nas mãos de
homens de Iavesh-Guilad (1Sm 31,11-13) conforme a Bíblia Hebraica informa que no verso 8
anterior citado pelo ICP, em parceria com o CACP, foram os filisteus que encontraram os corpos
de Saul e seus filhos “estirados nas montanhas de Gilbôa” (1Sm 31,8). O fato de Saul ter se
lançado sobre a espada de seu escudeiro (1Sm 31,4) não desabona o fato dele, Saul ter caído
nas mãos dos filisteus (1Sm 31,9), bem como seus filhos que também caíram nas mãos dos
filisteus (1Sm 31,2 e 8). Voltaremos mais adiante a este assunto.
2ª) Já neste ponto, será que “o amanhã” significa o dia seguinte, ou um dia no futuro? Eis o
primeiro problema que surge, já que a predição da morte de Saul fora dita por Samuel. Vemos na
sequência natural dos textos bíblicos pode-se mesmo pensar que o fato não aconteceu no dia
seguinte; inclusive, já vimos pessoas dizendo que isso aconteceu cinco e até dezoito dias depois;
entretanto, há que ajustá-los à ordem dos acontecimentos: 1Sm 28.2 continua em 29.1, indo até
30.31; 1Sm 28,4-25 continua em 31.1, conforme podemos confirmar na Bíblia Sagrada – Vozes,
onde explicam em notas de rodapé:
1ª) 28.2. A resposta é ambígua; o relato continua no c. 29. (p. 329).
2ª) 29.1. O c. 29 é a continuação de 28.2. (p. 330).
3ª) 30.1. O c. 30 forma a continuação do c. 29, sendo também uma espécie de relato
paralelo a 27,8-12. (p. 331).
4ª) 31.1. Depois dos parênteses de 1Sm 29-30 aqui continua o texto de 28,4s. (p. 332).
O passo 1Sm 31,1 é o que relata a morte de Saul e seus filhos, que se coloca na
sequência imediata à profecia de Samuel narrada no capítulo 28; portanto, cumpriu-se também
esta outra parte da profecia, pois Saul e filhos morreram em consequência da batalha e foram
para o "estarão comigo", ou seja, "na morte" (Bíblia Anotada – Mundo Cristão, p. 401) ou "no reino
dos mortos" (Bíblia Sagrada – Vozes, p. 320), quer dizer, para junto de Samuel. Lembremos
apenas que, para os hebreus, depois da morte todos iam para um mesmo lugar, se se quiser
tomar a expressão em outro sentido. Assim, podemos aceitar que "Esta verdadeira 'batalha de
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Waterloo' de Saul e seus filhos cumpriu a profecia de Samuel (28,19)”. (Bíblia Anotada – Mundo
Cristão, grifo nosso).
Além disso, pode-se ainda confirmar, pelo relato de Josefo, que a necromante ajudou a
Saul, mesmo “sabendo que ele morreria no dia seguinte". (JOSEFO, 2003, p. 284-288, grifo
nosso).
Porém há dois pontos que precisam de um maior esclarecimento:
1º) foi dito que os filhos de Saul morreriam e não morreram todos eles. Teria, nesse ponto,
falhado a profecia? Sim, realmente, alguns dos filhos de Saul não morreram na batalha; mas na
profecia também não foi dito expressamente que “todos” os filhos de Saul morreriam; entretanto,
não precisa ser nenhum gênio para entender que o autor estava falando daqueles que se
envolveriam na guerra e, nesse particular, todos os que lá estavam morreram. Mesmo assim, se
tomarmos da própria Bíblia, encontramos a afirmação, confirmando totalmente a profecia.
Vejamos:
1Cr 10,6: Assim morreram Saul e seus três filhos, e morreu toda a sua casa juntamente.
(TANAH, p. 821, grifo nosso)
Por que se afirmou que morreu a família inteira de Saul? Simples, porque de sua esposa
Ahinôam, ele teve, segundo 1Sm 14,49, além das filhas Merav e Mihal, os filhos Jônatas, Ishvi e
Malkishúa, enquanto, que em 1Sm 31,2, são citados: Jônatas, Avinadav e Malki-Shúa. Abstraindose da divergência de um dos nomes, a quantidade é a mesma. Por ser ela a primeira mulher de
Saul estes são os que formavam a sua família, aqueles que morreram junto com o pai.
Porém, Saul teve outros dois filhos - Armoni e Meribaal (ou Mefiboset) -, cuja mãe era uma
concubina do rei que era Ritspá (2Sm 3,7), filha de Aiá; assim, por serem filhos de outra mulher
que não a primeira, certamente, o autor bíblico, por costume social, não os considerou como da
família, fora o fato de que não há registro que eles também combateram contra os filisteus, junto
com o pai.
2º) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus, ele suicidou-se; Aqui se trata de
entendimento do texto, onde se diz apenas que seria entregue nas mãos, ou seja, que seria
derrotado; não que os filisteus matariam-no. Não obstante, o suicídio de Saul se deu exatamente
porque, vencido pelo inimigo, não queria cair vivo nas mãos dele, preferindo suicidar-se; é o que
consta em 1Sm 31,4, sobre o seu trágico fim. Por outro lado, ficamos sem poder precisar quem foi
realmente o responsável pela morte de Saul, pois temos três possíveis hipóteses: a) o próprio
Saul, que se atirou contra sua espada (1Sm 31,4); b) um amalekita, que o matou, a seu pedido
(2Sm 1,6-10); c) O Senhor, por sua infidelidade, o matou (1Cr 10,14). Esta é uma questão
imprecisa que não temos como assegurar como Saul realmente morrera.
Tomando-se apenas dos textos bíblicos, poderíamos até incluir mais outra opção, a de que
os filisteus teriam enforcado a ele e Jônatas (2Sm 21,12); no entanto, isso fica esclarecido em
Josefo, que afirmou que apenas penduraram os corpos de Saul e de seus filhos na forca
(JOSEFO, 2004, p. 284-288), certamente visando humilhá-los, uma vez que consideravam como
um maldito de Deus quem fosse suspenso numa árvore (Dt 21,23).
Concluímos que com base na Bíblia Hebraica, no relato de Flávio Josefo e em diversas
outras fontes, onde certificamos que Samuel realmente aparecera a Saul através da necromante
de En-Dor que não se trata de uma bruxa como o ICP, em parceria com o CACP, tentam, de
forma hercúlea, nos transmitir e sim apenas necromante com o é tratado nos textos originais do
Tanah. Para que a profecia de Samuel após a sua morte fosse uma farsa, certamente deveria ter
dado esperanças a Saul que venceria a batalha contra os filisteus e que sairia vitorioso dessa
batalha, o que os fatos apontam para justamente se cumprir o que Samuel havia dito ainda com
vida e após a sua morte, testificando que os fatos realmente aconteceram. Dizemos ainda que
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respeitamos o cânon judaico e não citamos a fonte do livro de Eclesiástico que assim assevera
que até nesta condição Samuel, em espírito, profetizou (Eclo 46,20).
Thiago Toscano Ferrari
Outubro / 2013
______________________
Referências bibliográficas:
Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 1989.
Bíblia de Jerusalém, nova edição. São Paulo: Paulus, 2002.
A Bíblia Anotada. s/ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
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KARDEC, A. O que é o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001c.
KARDEC, A. O Livro dos Médiuns, São Paulo: PETIT, 2004.
TANAH, Bíblia Hebraica, São Paulo: Editora e Livraria Sêfer, 2012.
MONLOUBOU L. e DU BUIT, F. M. Dicionário Bíblico Universal. Petrópolis – RJ: Vozes; Aparecida
– SP: Santuário, 1997.
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JOSEFO, Flavio, História dos Hebreus, Editora CPAD, 8ª Edição, Rio de Janeiro/RJ, 2004 (Versão
e-book - www.ebooksgospel.com.br)
Inernet:
Bíblia Católica, versão digital (http://www.bibliaonline.com.br/)
[1] http://www.bibliaonline.net/scripts/dicionario.cgi?procurar=urim%20e%20tumim&exata=on&link=bol&lang=BR
, acesso em 05.02.2010, às 08:52hs.
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Axodo, acesso em 11.10.2013, às 13:00hs.
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Lev%C3%ADtico, acesso em 11.10.2013, às 13:05hs.
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Deuteron%C3%B4mio, acesso em 11.10.2013, às 13:10hs.
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Isa%C3%ADas, acesso em 11.10.2013, às 13:15hs.
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/I_Cr%C3%B4nicas, acesso em 11.10.2013, às 14:00hs.
Textos sugeridos:
“A Comunicação com os mortos na Bíblia”, “Quem realmente é Satanás e quem são os
demônios?”, “A parábola do rico e Lázaro na visão espírita”, “Saul não consultou feiticeira nem
bruxa coisa alguma!” e “O Inferno existe?”.
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