...

A pureza e os vícios da linguagem biomédica

by user

on
Category: Documents
1

views

Report

Comments

Transcript

A pureza e os vícios da linguagem biomédica
Acta Pediatr. Port., 1997; N.° 5; Vol. 28: 469-72
EDUCAÇÃO MÉDICA PEDIÁTRICA
A pureza e os vícios da linguagem biomédica
JOÃO M. VIDEIRA-AMARAL
Clínica Pediátrica Universitária — Serviço 1 — Hospital D. Estefânia
Faculdade de Ciências Médicas / Universidade Nova de Lisboa
Resumo
Este artigo, dedicado aos internos de Pediatria que têm colaborado com o autor, aborda alguns aspectos formais da linguagem
biomédica. Passam-se em revista alguns exemplos de estrangeirismos, de neologismos e doutra terminologia considerada menos
correcta e discute-se o problema polémico daqueles vícios da linguagem. Chama-se igualmente a atenção para a utilidade da consulta
de prontuários e de dicionários actualizados para esclarecimento de eventuais dúvidas surgidas na elaboração de um texto científico
o qual deverá obedecer às regras do acordo ortográfico.
Palavras-chave: Terminologia biomédica, vícios da linguagem, artigo científico.
Abstract
This paper is dedicated to the author's associates, residents in Pediatrics, and describes some formal aspects concerned with
biomedical language. Some examples of foreign expressions, neologisms and mistaken words are given and discussion on this
controversial issue is carried out. The author emphasizes the advantage for seeking information on promptuaries and dictionaries in
order to elucidate incertitudes taking in account that the scientific manuscript should be in agreement with the orthographic guidelines.
Key-words: Biomedical terminology, language defects, scientific paper.
Considera-se que a linguagem é pura ou vernácula
quando o seu léxico e construções sintácticas são genuinamente nacionais e autorizados pelos que bem falam ou
escrevem desde os grandes mestres até à chamada linguagem popular (1).
Todas as línguas vivas, incluindo o português, sofrem alterações ao longo do tempo, quer a nível fónico,
quer a nível semântico, quer a nível sintáctico. Tais alterações são explicadas em parte pela importação de vocábulos doutras línguas que hoje legitimamente fazem
parte do nosso património linguístico (2) .
Modernamente, no âmbito da linguagem biomédica e
de outras áreas técnico-científicas e artísticas tem sido
bem notória a influência do inglês, do francês e do
castelhano. Com efeito, tal influência tem-se concretizado, ao longo do tempo, no aparecimento de determinados
vícios como os estrangeirismos, os neologismos, a gíria
e o calão (3).
Entregue para publicação em 20/09/97.
Aceite para publicação em 07/10/97.
O estrangeirismo (tomando o nome do país donde foi
importado — por exemplo francesismo ou galicismo,
anglicismo, espanholismo, etc.) corresponde ao uso de
palavras ou construções frásicas próprias das línguas estrangeiras que se consideram desnecessárias dentro do
português. O neologismo consiste no uso injustificado e
imoderado de vocábulos criados de novo; não havendo
outros vocábulos que preencham exactamente o seu significado para as substituírem, representam, dum modo geral, o enriquecimento da língua. A gíria diz respeito à linguagem própria de determinadas camadas sociais ou profissionais e o calão, no sentido mais amplo do termo, à
linguagem baixa e grosseira (2. 41.
Na minha qualidade de responsável pela formação
pré- e pós-graduada, interessado na preservação da língua portuguesa (etimologicamente apalavra filólogo significa "amor à palavra") (5) e de leitor atento da Acta Pediátrica Portuguesa assim como de outras revistas e documentos na área biomédica em língua portuguesa, entendo que alguns daqueles vícios, com particular destaque para os estrangeirismos e neologismos, são empregues sem justificação aparente, não figurando nos melhores dicionários ou prontuários da língua portuguesa"' 5' 6'7).
470
Educação Médica Pediátrica — A pureza e os vícios da linguagem biomédica
O objectivo deste escrito é analisar alguns exemplos
de vocábulos ou expressões que são utilizados em documentos escritos da área biomédica não abedecendo,
segundo os linguistas, aos critérios de terminologia correcta.
EXEMPLOS:
1) Emprego de estrangeirismos (entre aspas), na quase
totalidade, anglicismos:
"abstract" em vez de resumo, sumário
"air leak" em vez de ar ectópico ou fuga de ar
"bilan" em vez de balanço (galicismo)
"border line" em vez de limite ou no limite / fronteira
"dead line" em vez de data limite
"feed back" em vez de retroacção / retroactivo
"fitness" em vez de adaptação / aptidão ou forma
física
"hood" em vez de campânula (para administração
de oxigénio)
"journal club" (pronúncia - klab como no inglês)
em vez de clube de leitura, termo que os brasileiros adoptaram
"management" em vez de manejo, conduta, actuação
"meeting" em vez de reunião, encontro
"performance" em vez de desempenho
"poster" em vez de cartaz
"score" em vez de índice, pontuação
"screening" em vez de rastreio / detecção
"slide" em vez de diapositivo
"timing" em vez de tempo, data certa / adequada
"tourn over" em vez de renovação / ciclo
"wheezing" em vez de sibilância / pieira
"workshop" em vez de seminário / grupo de trabalho
A este propósito, não resisto à tentação de referir
aqui uma frase escrita num cartaz anunciando um congresso: "Deadline para submissão de abstracts"
2) Emprego de neologismos (referidos entre aspas)
não mencionados nos dicionários e prontuários de língua
portuguesa.
Considerámos arbitrariamente dois grupos:
2.1 — neologismos "de imitação" (porque existe o
vocábulo em português) traduzidos ou adaptados doutra
língua; poderão ser considerados erros gráficos tendo em
conta o desrespeito pelas regras expressas nos acordos
ortográficos actualizados (8. 9):
"aerosol" em vez de aerossol (em inglês ou castelhano:
aerosol)
"aporte" (do francês: apport em vez de suprimento ou
provisão)
"braqueal" em vez de braquial (em castelhano: braqueal)
"craneano" em vez de craniano (em castelhano: braqueal)
"cesareana" em vez de cesariana (em castelhano:
cesarea)
"citoquina ou citokina" em vez de citocina (pela mesma razão que em vez de kinema, palavra grega,
se diz cinema ou em vez de kinética ou quinética se
diz cinética)
"deprivação" em vez de privação (em inglês: deprivation)
"despistagem ou despiste" em vez de rastreio ou detecção (em francês: dépistage)
"femural" em vez de femoral (em latim: femorale;
em inglês: femoral; o substantivo é fémur)
"imunohematologia" em vez de imuno-hematologia
(em inglês e castelhano sem hífen); em português o
h no meio de um vocábulo existe somente seguido
das letras c-ch,n-nh e 1-lh.
"placentária" em vez de placentar (em castelhano:
placentaria); aliás, pela mesma razão que em castelhano se escreve parlamentario e dinossáurio e em
português se deve escrever respectivamente parlamentar e dinossauro
"plaquetária" em vez de plaquetar (idem)
"randomizado" em vez de aleatório/de tipo aleatório
(em inglês: randomized)
"recurrente" em vez de recorrente (imitação do inglês
e castelhano); aliás, a palavra simples em português
é corrente e não "currente"
"refluxivo" em vez de refluente (imitação do inglês)
"rehidratação" em vez de reidratação (imitação do
inglês e castelhano) — tratando-se duma palavra composta, haveria que preceder o h por um hífen pelas
razões apontadas atrás; mas tal como aconteceu com
a palavra desidratação em que houve queda do h, a
grafia correcta é, de facto, a referida: reidratação
"secretado" em vez de segregado (imitação do inglês:
secreted)
"o síndroma ou o síndrome" em vez de a síndroma/
/síndrome; como alternativa poderá empregar-se o
vocábulo síndromo no "sexo" masculino
"sumarizar" em vez de sumariar (imitação do inglês
to summarize)
"tabagismo" em vez de tabaquismo (imitação do
francês)
"toráxico" em vez de torácico (imitação do castelhano
e inglês)
2.2 — neologismos que resultam de modificação de
vocábulos da nossa língua; eis alguns exemplos:
"absolutizar"
"antecipatório"
Educação Médica Pediátrica — A pureza e os vícios da linguagem biomédica
"estadiamento"
"iniciático"
"parcelarização"
"remediativo"
"referenciar"
"vivenciar"
3) Emprego de vocábulos compostos com ou sem
hífen integrando os prefixos intra, extra, ante, anti, argui,
semi, auto, neo, proto, pseudo, contra, infra, supra, ultra,
hiper, inter, super, circum, pré, pós, etc.
Em revistas de prestígio nacionais, assiste-se, com
efeito, a uma certa anarquia de critérios quanto à colocação ou não de hífen a seguir aos referidos prefixos, correntes em linguagem biomédica; de facto há regras muito
bem definidas a este respeito (2-4. 6' 9).
Eis alguns exemplos de vícios ou ànomalias referidos
entre aspas:
a) "intrahepático" em vez de intra-hepático
"intra-venoso em vez de intravenoso, em que não
é seguida a regra que diz:" ...o traço de união usa-se com o prefixo "intra" quando o segundo elemento do vocábulo começa por vogal, h, r, ou s
b) "antisarampo" em vez de anti-sarampo
"anti-poliomielite" em vez de antipoliomielite, em
que não é seguida a regra que diz:" o traço de
união usa-se com os prefixos "anti", "argui" e
"semi" quando o segundo elemento é autónomo e
começa por i, h, r, ou s
c) "prétermo" em vez de pré-termo
"póstermo" em vez de pós-termo; segundo o novo
acordo ortográfico (9) é dispensado o hífen nalguns vocábulos em que o prefixo termina em vogal
e o segundo elemento começa por r ou s, consoantes estas que passam a ser dobradas — microssistema, antirreligioso, etc.
A este propósito, o leitor poderá ficar mais esclarecido consultando as obras referidas na bibliografia.
Discussão
Este artigo é dedicado essencialmente aos jovens
médicos colaboradores que iniciam os primeiros passos
na elaboração de textos científicos e a quem tenho dado
apoio no âmbito do internato complementar de Pediatria
do Hospital de Dona Estefânia. De modo sucinto foram
apontados exemplos de alguns dos chamados vícios da
linguagem biomédica. A maioria de tais anomalias é
explicável, não só pela influência de livros e revistas
médicos escritos noutras línguas por onde todos estudamos no dia-a-dia — com particular ênfase para os de lín-
471
gua inglesa —, mas também pelo impacte dos meios de
comunicação social; com efeito, uns e outros predispõem
à assimilação de estrangeirismos e à tendência para o
emprego de neologismos e de grafia menos correcta.
Embora seja questionável a abordagem duma temática
do foro da linguística por um médico-pediatra, também é
certo que são os médicos quem, "navegando nas águas"
da linguagem biomédica, têm a verdadeira vivência das
questões levantadas; por outro lado escasseiam dados
publicados por peritos em linguística relativamente às
mesmas questões. Nesta perspectiva, foi minha intenção,
tão somente "por amor à palavra" e sem pretensões de
"perito-filólogo" '51, sugerir a todos aqueles que se propõem elaborar um artigo científico em língua portuguesa,
a consulta de prontuários ou de dicionários actualizados
para esclarecimento de eventuais dúvidas.
Uma vez que, como foi afirmado, a língua não é
um sistema fechado, pois continuamente recebe a assimila (1-4), de facto, são hoje empregues vocábulos e
expressões que há uns anos eram considerados estrangeirismos ou neologismos (como golo, futebol, etapa, etc.).
Aliás na última edição de um prontuário (" escreve-se
que há necessidade de oficializar alguns neologismos e
que, neste campo, o país onde maior número de pessoas
fala o português — o Brasil — leva-nos a dianteira, pois já
oficializou alguns como estafe (do inglês "staff"), estresse
(do inglês "stress"), estoque (do inglês "stock") não reconhecidos pelos especialistas portugueses. De referir, a
propósito, que alguns especialistas consideram censurável a manutenção da grafia igual à da língua original nos
neologismos adoptados (3).
É, por isso, natural que, dentro de alguns anos, certos
vocábulos a que aludi já tenham sido oficializados; trata-se, com efeito, de um assunto polémico e alguns autores
que têm pugnado pelo conceito de norma e de correcção
idiomática consideram que a oficialização indiscriminada
de neologismos e estrangeirismos corresponde a uma
colonização e distorção cultural, tanto mais grave quanto
não vem preencher eventuais vazios, já que a nossa língua é das mais ricas e complexas (2. 10).
Alguns dos vocábulos exemplificados atrás poderão
ser considerados pelo menos puristas como fazendo parte
da chamada "giria", conferindo-lhes, eventualmente, certa
legitimidade. Alguns autores chamam, no entanto, a atenção para o facto de não se dever confundir gíria com
linguagem técnica 13).
Não houve o intuito de abordar neste trabalho o chamado "calão". Em linguagem biomédica será calão, por
exemplo, dizer ou escrever ..."o doente fez... uma amigdalite ou uma anemia... ou um RX... ou uma laringoscopia
ou o doente está espapaçado, etc. Tais expressões poderão ser legítimas em comunicação de corredor de hospital, mas ilegítimas em comunicações orais de reuniões
científicas ou em textos de revistas científicas (3. 4' 1°).
472
Educação Médica Pediátrica — A pureza e os vícios da linguagem biomédica
Um dos prontuários ortográficos recentemente publicados fala na necessidade de criar uma comissão de estudo lusófona para tratar não só da grafia, mas também
da oficialização de neologismos a distribuir aos técnicos
das ciências ou profissões em causa, aos escritores, aos
locutores da rádio e da televisão (1). No mesmo prontuário
insere-se já uma lista de neologismos e estrangeirismos
oficializados recentemente no âmbito do desporto e da
gestão e organização. Seria interessante que a próxima
edição incluísse um capítulo referente à terminologia
biomédica.
A Acta Pediátrica Portuguesa (APP), órgão oficial da
Sociedade Portuguesa de Pediatria, constituindo uma fonte
importante de formação e de informação de muitos pré-pediatras, pediatras e uma referência imprescindível para
outros clínicos e profissionais de saúde tem, quanto a
mim, uma enorme responsabilidade neste aspecto formal
da terminologia biomédica. Irei mesmo ao ponto de fazer
duas sugestões que poderiam ter repercussões muito positivas: 1) integrar um perito na área de linguística no
conselho de leitura da APP — procedimento comum em
revistas internacionais de prestígio — cuja tarefa essencial
seria sugerir a correcção ou substituição de vocábulos
que não fazem parte do nosso léxico; 2) a inclusão no
regulamento de "Publicações de artigos/Indicações aos
Autores" duma cláusula de obrigatoriedade de obediência
do manuscrito ao acordo ortográfico, com especificação
da obra adoptada pela APP, e com chamada especial de
atenção para a problemática dos neologismos, dos estrangeirismos e das palavras compostas.
É meu entendimento que, deste modo, se poderiam
cumprir com mais rigor os objectivos da APP nesta nova
era de renovação, contribuindo para ampliar a sua função
pedagógica e o seu prestígio, em defesa da nossa língua.
BIBLIOGRAFIA
1. Parreira M, Pinto JMC: Prontuário Ortográfico Moderno. Lisboa,
Edições Asa, 1997.
2. Cunha C, Lindley-Cintra LF: Nova Gramática do Português Contemporâneo. Lisboa, Edições João Sá da Costa, 1994.
3. Borregana AR Gramática Universal — Língua Portuguesa. Lisboa, Texto
Editora, 1994.
4. Pinto JMC, Parreira M, Lopes MCV: Gramática do Português Moderno.
Lisboa, Plátano Editora, 1994.
5. Machado JP: Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa,
Livros Horizonte, 1977.
6. Machado JP: Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa, Círculo
de Leitores, 1991.
7. Séguier J, Lello E: Dicionário Prático Ilustrado. Porto, Lello & Irmão-Editores, 1996.
8. Silvas-Filho D: Prontuário-Erros Corrigidos de Português. Lisboa, Texto
Editora, 1994.
9. Adragão JV, Estrela E, Graça-Moura V: Novo Acordo Ortográfico —
Afinal o que vai mudar? Lisboa, Texto Editora, 1997.
10. Estrela E: Dúvidas do Falar Português — Consultório da Língua
Portuguesa. Lisboa, Editorial Notícias, 1983.
Correspondência: João M. Videira-Amaral
Clínica Pediátrica Universitária (FCM/UNL)
Serviço 1 — Hospital D. Estefânia
Rua D. Estefânia
1150 Lisboa
Fax (particular): 01-458 18 72
Fly UP