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nos tempos que só se faltava cuspir à francesa: um
ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.
NOS TEMPOS QUE SÓ SE FALTAVA CUSPIR À FRANCESA: UM REFLEXO DA
MODERNIZAÇÃO URBANA NOS COSTUMES DA POPULAÇÃO RECIFENSE
ENTRE AS DÉCADAS DE 1850 E 1860
Sandro Vasconcelos da Silva 
Resumo: O século XIX foi um período repleto de transformações nos vários campos da sociedade ocidental, muitas delas foram responsáveis por mudanças nos costumes de muitos grupos que agora viviam atraídos pelo o ideal de civilização. A cidade do Recife não foi indiferente a esses acontecimentos, sendo uma urbe cosmopolita e de grande relevância políticoeconômica, possuía uma classe dominante que buscava acompanhar os passos de cidades como Londres e Paris. Como resultado dessa busca, mudanças passaram a ser praticadas tanto
na estrutura citadina como nos hábitos das camadas sociais mais elevadas, impondo aos demais extratos sociais um novo estilo de vida. O objetivo do presente trabalho é discorrer como
tais alterações influenciaram, através da multiplicidade das novas formas e funções do espaço
urbano recifense, os costumes dos mais variados segmentos da população no início da segunda metade dos oitocentos.
Palavras-chave: Recife, costumes, cotidiano e funções urbanas.
Résumé: La dix-neuvième siècle a été une période pleine de changements dans les divers
domaines de la société occidentale-tion, beaucoup d'entre eux sont responsables de changements dans les habitudes de nombreux groupes qui vivent des groupes attirés par l'idéal de
civilisation. La ville de Recife n'a pas été indife de près à ces événements, d'être une ville
cosmopolite et un grand nombre de politiques et économiques, a demandé une classe dirigeante que de suivre la procédure de co-mo villes de Londres et de Paris. À la suite de cette
constatation, les changements ont commencé à être pratiquée aussi bien dans la structure et
dans les habitudes de la ville sociale plus élevée, exigeant plus de-extraits d'un nouveau mode
de vie. L'objectif de ce document est d'examiner comment ces changements influencés par la
multiplicité de nouvelles formes et les fonctions de l'espace urbain de Recife, les coutumes de
plusieurs segments de la population au début du second semestre de huit cents.
Mots-clés: Recife, coutumes, vie quotidienne et les fonctions urbaines.
O presente artigo pretende discorrer a respeito de como algumas transformações urbanas, pensadas dentro de um contexto de modernização, acabaram por influenciar costumes nas
variadas classes que viviam ou transitavam pelo Recife entre os decênios de 1850 e 1860.
O século XIX pode ser considerado como o período de estabelecimento das ciências,
momento em que a idéia de civilização passa a ser defendida mediante os avanços materiais e
as facilidades por eles proporcionadas. A Europa, graças ao desenvolvimento econômico,
político, social e cultural, desencadeado a partir da Revolução Industrial inglesa no século

Mestrando do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Rural de Pernambuco e bolsista da FACEPE.
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ANPUH – XXV SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – Fortaleza, 2009.
XVIII, vai se tornar o exemplo máximo de civilidade. Seus costumes, pensamentos e produtos
vão rapidamente influenciar a vida ocidental. Ainda com referência aos oitocentos, lembremos que Pernambuco ainda tinha sua economia movida por braços escravos – o que representava uma verdadeira contradição às idéias de evolução social. Mesmo assim, um novo modelo
social começou a ser estabelecido no Recife, o qual foi batizado por Gilberto Freyre como a
“segunda reeuropeização”.(FREYRE, 2004:151).
Tais transformações dos espaços públicos e de convivência representavam para a classe dominante da época, uma concretização do desejo de ser civilizado buscando, à sua maneira, equiparar o Recife às cidades mais desenvolvidas do mundo. Homens como Francisco do
Rego Barros 1 , educado e acostumado com as belezas e facilidades do mundo europeu, assim
como José Mamede Alves Ferreira 2 , também familiarizado com o ambiente europeu, foram
alguns entre tantos que trabalharam pela concretização desse ideal.
Nosso interesse a respeito do tema foi despertado diante da leitura de um artigo escrito
por Mário Sette 3 , no qual mostrava como as usualidades parisienses entusiasmaram as mais
variadas pessoas. Esse contato - entre culturas tão distintas - era feito diariamente em diversos
lugares ao longo do espaço citadino, uma vez que a cidade, com seu importante porto, recebia
vários visitantes, tornando-se ponto de convergência de muitas pessoas, grande número delas
recém chegados da Europa, trazendo consigo os novos hábitos classificados como “civilizados”. A frase “só se faltava cuspir à francesa”, era um ditado muito popular entre final do século XIX e começo do século XX e referia-se justamente a esse tempo onde cada postura ou
moda que surgia, originária do velho mundo, passava rapidamente a ser reproduzida, sinalizando uma transformação dos “brutos brasileiros” em “modernos cidadãos do mundo”; aceno
de um tempo nos quais os modos antigos, classificados como selvagens por muitos, vieram a
sucumbir mediante a mania de afrancesar tudo, numa busca pelo refinamento dos costumes.
Contudo devemos ressaltar dois pontos importantes: primeiramente, não pensemos que só a
pátria de Victor Hugo estabeleceu-se como modelo de nação civilizada e moderna; a Inglater-
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Presidente da província de Pernambuco, ficando no cargo de 1837 a 1844. Nesse período, decidido a
modernizar e higienizar a capital pernambucana, operou transformações materiais e culturais importantes para
a província. A vida da cidade ganhou em animação e teve um progresso até então nunca visto. Francisco do
Rego Barros mandou buscar engenheiros franceses de renome, incentivou as artes e as ciências, levando o
Recife ao conceito das grandes cidades modernas da época.
2
Engenheiro pernambucano, formado em Paris, esteve à frente das principais construções ocorridas na cidade
durante o período que estudamos (Ginásio Pernambucano, Hospital Pedro II, Cemitério de Santo Amaro, entre outros). Exerceu o cargo de diretor da Repartição das Obras Públicas entre os anos de 1850 a 1856.
3
Cronista pernambucano, nascido em 1886, no Recife, dedicou sua vida literária a narração dos usos e costumes,
autor de inúmeros livros a esse respeito como Maxambombas e Maracatus, Arruar, Palanquim dourado e
Anquinhas e Bernardas. Neste último, encontramos o artigo intitulado Pianos que nos inspirou a pesquisa. Cf.
SETTE, 1987: 186-189.
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ra também contribuiu para certas mudanças e “polimento” nos hábitos sociais. Entretanto,
nossa inquirição se fixará no primeiro desses influxos – que, aparentemente - teve uma maior
abrangência. Em segundo lugar, tal busca e mudança das rotinas não devem ser compreendidas como uma aceitação uniforme de todas as camadas sociais que transitavam pelo Recife a
esse tempo, cada uma ao seu tempo e maneira aderiu ou não a esse processo; e mais importante que isso, não havia uma simples mimetização, tais praxes em muitos casos sofriam uma
ressignificação 4 .
Tendo isso em mente, prossigamos observando que a capital pernambucana chegou à
metade do século XIX como uma cidade cosmopolita e de grande relevância no cenário político-econômico brasileiro. Apesar disso, a localidade apresentava um crescimento rápido e
desordenado, sobretudo a partir da década de 1830. Sua dinâmica urbana atraía pessoas, tanto
de outras localidades regionais, como de diferentes nacionalidades, pelos mais diversos motivos: para se conhecer a cidade, para se viver nela, para se esconder, para realizar alguma atividade, sobretudo comercial. No entanto, mesmo exercendo esse poder de atração, os problemas administrativos e estruturais encontrados eram diversos 5 . Isso se contrapunha ao ideal de
civilidade que se almejava alcançar, conferindo ao Recife a má fama de “atrasado” e violento;
sendo assim, para alcançar o objetivo tão almejado, havia uma necessidade imperativa do refinamento estrutural e dos costumes. Redirecionar a um grande contingente de pessoas, muitas vezes alheias a essas transformações, ou ainda que não se importavam com elas, para o
caminho da “ordem” e do “progresso” sinalizava que muito trabalho haveria de ser feito.
Um outro grave problema se antecedia a todos esses, a falta de espaço. A cidade nascera espremida entre o mar e os rios e isso levou a uma produção efetiva do solo, como é comum nas cidades em expansão e em processo de modernização onde havia demanda por novos espaços, criando-os no intuito de atender às necessidades da população crescente. Utilizando-se da dragagem dos leitos dos rios, aterramentos, etc. para ganhar esse espaço que lhe
foi negado pela natureza, a cidade teve um expressivo aumento expressivo crescimento urbano – expansão horizontal - vindo a provocar mais problemas, sobretudo nos períodos de chuva
quando grande parte das freguesias ficava alagada. Esses transtornos decorreram muito frequentemente ao longo dos oitocentos. Todavia para que o desenvolvimento civilizacional se
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Um fato curioso aconteceu na Bahia com Maximiliano d’Áustria, aspirante à imperador do México. Ao visitar
Salvador em meados de 1860, fora convidado a um baile, chegando lá os convidados são chamados para valsa, mas segundo anotações posteriores em seu diário, ele afirmava que os soteropolitanos da época haviam se
apropriado do ritmo da valsa alemã – de compasso moderado – porém, os movimentos estavam de acordo
com suas interpretações do que fosse tal coreografia, tanto que quando quis dançar com uma dama ao estilo
da valsa vienense, foi taxado de indecente. Cf. ELLMERICH, 1987: 122.
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A sujeira encontrada em logradouros públicos foi por muito tempo um dos principais problemas da cidade; ruas
e passagens sem o devido calçamento, construções irregulares e insalubres, falta de saneamento, etc.
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cumprisse, era imperativa a reconstrução de uma nova cidade, limpa, funcional e que oferecesse as mesmas facilidades modernas encontradas na Europa.
Para entendermos a distribuição espacial dessa época, observemos como era constituída as freguesias principais. Comecemos pela de São Frei Pedro Gonçalves 6 , localidade inicial que deu origem ao Recife, porta de entrada da província, zona portuária, cheia de ruas
estreitas e sobrados altos, o centro financeiro da cidade, com seu mercado de algodão, bancos,
Praça e Associação Comercial, armazéns de açúcar e lojas de produtos importados da Europa,
sem contar as inúmeras tavernas e prostíbulos. Atravessando a ponte do Recife adentraríamos
em Santo Antonio, local que abrigava o Palácio da Presidência, o Teatro de Santa Isabel, a
Casa da Ópera, a Câmara Municipal, a Casa de Detenção, várias igrejas e conventos, com ruas
largas e não calçadas (ao contrário da região portuária onde apenas uma de suas ruas não era
calçada); casas na maioria térreas constituíam o conjunto em torno dos principais pátios das
igrejas, algumas outras possuíam um pavimento superior. Nesses casos, na parte térrea funcionavam armazéns, lojas, tavernas, oficinas, cocheiras etc. Indo na direção sul chegaríamos
em São José 7 , mal ordenada espacialmente, onde, segundo crônicas da época, reinava a falta
de higiene por suas ruas estreitas e sinuosas, onde transitavam os mais variados tipos de pessoas, local muito procurado por aqueles recém chegados à cidade e que não tinham onde morar ou dinheiro para pagar os caros aluguéis de Santo Antonio ou das demais freguesias. Retornando a Santo Antonio e tomando a Rua Nova chegaríamos à Ponte da Boa Vista e, ao
atravessá-la chegaríamos à freguesia mesmo nome, Boa Vista, com suas ruas calçadas inconstantes, casas de um único pavimento e de quintais amplos, farta em vegetação e quase
que exclusivamente residencial, ao contrário das outras freguesias.
Essa era, grosso-modo, a estrutura citadina encontrada por todos que residiam ou circulavam no Recife oitocentista. Tal disposição não condizia com as normas de edificação
vigentes que agora possuíam todo um arcabouço médico-higienista, determinando formas
adaptadas às condições higiênicas mais salubres. No que diz respeito exatamente sobre a influência do espaço sobre os costumes, encontramos um artigo no Diário de Pernambuco, datado de 28 de agosto de 1855, onde o senhor Joaquim D’Aquino Fonseca 8 , traz uma relação
detalhada de sugestões para melhoria da cidade. Seu texto é carregado de certa preocupação
6
Localizada no final do istmo que vinha de Olinda, sítio de origem da cidade, conhecido hoje como bairro do
Recife Antigo.
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Foi especialmente na região da freguesia de Santo Antonio e parte de São José que Francisco do Rego Barros
promoveu uma reestruturação urbanística e arquitetônica maciça, com ajuda de engenheiros franceses do porte de Louis Léger Vauthier e José Alves Mamede, dando à cidade uma aparência parisiense.
8
Presidente da Comissão de Higiene Pública.
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na urgência de mudanças estruturais e habituais, para conservação de uma qualidade de vida
melhor, como observado nas cidades européias.
Em seu artigo Joaquim Fonseca, pontua mudanças e adequações imprescindíveis à saúde dos citadinos sempre referendando-se nos modelos europeus. Ressalta a importância de
uma boa ventilação e incidência dos raios solares, para dissipação dos miasmas 9 , tão prejudiciais à saúde. Fonte de bem-estar, a higiene pessoal, como forma de evitar doenças ganha força nos discursos médicos incentivando sua prática. A água, nesse período, mais que nunca é
fonte de vida, deveria ser tratada em suas mananciais – e não mais em casa, “a quatro panos” 10 , como era hábito. Recomendava-se vários banhos para manter-se limpo, uma mudança
significativa em um comportamento enraizado numa cultura européia de resistência ao mesmo, por se acreditar que a excessividade levaria ao desgaste da pele. Fundamentado em estudos médicos, Joaquim, aconselhava que todas as casas tivessem “quartos acomodados para
banho” (MELLO, 1855: 807-808), ou caso contrário, que se promovesse a construção de locais onde as populações de pouco poder aquisitivo pudessem, por um preço módico, ter direito manter sua higiene, “como se sucede nas melhores cidades da Europa” (MELLO,
1855:808). Flávio Guerra, nos apresenta notícias a esse respeito ao nos mostrar a seguinte
notícia estampada nos principais jornais recifenses em 16 de janeiro de 1861:
“Banhos econômicos, na Casa de Banhos do Pátio do Carmo, além dos banhos já
conhecidos, se fornecerá doravante os seguintes populares: Frio – 320 réis; morno
400 réis; cartão para 7 banhos mornos 2$500 e para 7 banhos frios 2$0000; 30 banhos consecutivos frios ou mornos, 5$000.” (GUERRA, 1972:30).
A instalação de um espaço dedicado a contribuir com a higiene e saúde das pessoas – a
casa de banhos – personificou uma das tentativas de mudar os hábitos daqueles que viviam no
Recife nessa época.
Voltando às recomendações de Joaquim Fonseca, temos uma explanação sobre a altura
das casas a serem construídas, elas deveriam obedecer a um padrão, facilitando tanto ventilação em seu interior, fornecendo um ambiente mais salubre para seus moradores, da mesma
forma que não prejudicasse a rua e a dispersão dos atemorizantes miasmas. Fortalecendo essas recomendações os demais higienistas sugeriam a construção das avenidas e ruas na direção onde sopravam os ventos, para uma melhor circulação. O calçamento, outra recomendação, não seria apenas uma questão de comodidade, pois este ajudaria na salubridade, facili-
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Emanação infecta, pútrida, proveniente de animais ou plantas em decomposição. Apontado pelos médicos e
higienistas da época como a origem de todas as doenças que afligiam a humanidade.
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Antiga forma de coar as águas usadas para cozinhar e beber, vindas de poços ou dos rios.
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tando aos pedestres percorrer as ruas e avenidas com mais segurança e conforto, além de facilitar o escoamento das águas da chuva, impedindo empoçamentos e subseqüentes doenças.
Citando os cuidados com a rua, lembramos o quanto a iluminação pública serviu para a mudança de hábitos. O novo serviço, instalado a 06 de março de 1859 11 , proporcionava não apenas um embelezamento das ruas, mas também certa segurança, permitindo uma permanência
maior fora de casa, mesmo nas chamadas “horas indevidas” 12 . Especulamos que com essa
novidade os espaços contemplados passaram a ter múltiplas funções dentro da dinâmica urbana, os salões de festa, teatros, etc. Muitos logradouros que durante o dia eram preenchidos
pelas atividades comerciais, passaram, durante a noite, a ser um local apropriado para boemia
e a prostituição, tendo auxílio da iluminação para prolongar mais a estadia à rua. Temos aqui
um exemplo de funcionalidades distintas dos espaços, de acordo com os turnos. Contudo, isso
não significa dizer que todos tinham livre acesso às ruas, a polícia tinha como meta manter a
paz e a ordem e para isso, homens e mulheres de cor ou mestiços, encrenqueiros, bêbados,
livres, libertos e cativos, etc. eram constante alvo das prisões durante a noite, “por se fazerem
suspeitos.” 13 .
É importante percebermos que tais mudanças ora apresentadas, não vão ser implementadas de maneira homogênea, alcançando a todos. A freguesia de São José, embora gêmea a
Santo Antonio, não sofrerá tantas intervenções, deixada à parte, como que a marginalizar sua
população.
No tocante à diversão, foi nesse período que surgiram alguns locais e edifícios para esse fim. Existia desde a década de 1840, um passeio público, assim como no Rio de Janeiro,
construído pelo engenheiro francês Julio Boyer, a mando de Francisco do Rego Barros; era
um prolongamento da Rua da Praia, passando pelo Pátio do Colégio e indo em direção à Ponte do Recife 14 . Tal trecho era chamado de Cais do Boyer, mas foi em começo da década de
1850 que passou a ser popularizado apenas como Passeio Público, local reservado onde as
famílias abastadas íam caminhar ao fim da tarde, tal como se fazia nos parques parisienses. O
espaço oferecia uma fileira de assentos de madeira, arborizado com palmeiras imperiais e
gameleiras. Durante os domingos passou a ser um dos locais mais procurados pelas famílias
para excursionar, pois ao logo de toda sua extensão bandas musicais executavam as mais vari11
O primeiro local a receber o novo sistema de iluminação a gás carbônico, substituindo os lampiões alimentados a óleo de peixe ou de azeite de carrapateira, foi a Rua Nova, na freguesia de Santo Antonio; subsequentemente foi a vez da freguesia de São Frei Pedro Gonçalves e no final do mesmo ano as primeiras ruas da Boa
Vista.
12
Horário após as 19 horas, considerado pelas autoridades policiais impróprio para transitar as ruas
13
Termo muito utilizado nas ocorrências policiais da época.
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Hoje Ponte Maurício de Nassau que liga os bairros do Recife Antigo ao de Santo Antonio.
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adas melodias. Esse novo hábito levou a parcela feminina que vivia em grande parte “enclausurada” em suas casas e sobrados a ter um contato maior com o mundo exterior, pois a saída,
mesmo que breve e vigiada serviria para flertar, apreciar e ser apreciada. Os escravos de ganho aproveitavam para vender seus produtos nesse local – quitutes, flores, etc., já que a assiduidade dos populares era constante.
Contudo, um dos marcos da ascensão cultural recifense estava nos convívios feitos no
hall do Teatro de Santa Isabel 15 . Não que a cidade não tivesse teatros anteriormente; poderíamos citar entre muitos que se perderam na obscuridade, o Apolo que ficava na rua de mesmo
nome na freguesia de São Frei Pedro Gonçalves, inaugurado na década de 1840, e o afamado
(ou seria difamado?) Capoeira, nome popular da Casa da Ópera, pequeno pardieiro, inaugurando na década anterior ao Apolo, e que ficava em frente ao convento dos franciscanos. É
muito interessante fazermos um contraponto entre o “Capoeira” e o Teatro de Santa Isabel.
Até a edificação deste, muitos freqüentavam o primeiro e embora em seu programa houvesse
peças ligeiras, dramas, dramalhões, trechos de ópera e até mesmo peças sacras, ele possuía
uma péssima fama por suas acomodações deficientes e sujas, a irregularidade das apresentações, assim como os horários das mesmas, mas talvez o mais agravante seria que próximo
dele ficava uma jerarquia de prostitutas, prontas para abordarem os senhores à saída dos espetáculos, verdadeira temeridade para as esposas e mães zelosas, sendo motivo de muitos protestos. Com o advento do novo teatro (Santa Isabel), devido ao excessivo movimento das famílias para assistirem as mais variadas companhias oriundas, muitas delas da Europa, o Capoeira entra em franca decadência, e as prostitutas, antes tão comuns àquela paisagem, passaram
a ser enxotadas de lá pela polícia, sob o argumento de não “ofenderem” as “famílias direitas" 16 .
O espaço entorno do novo teatro oferecia também uma nova dinâmica, cocheiros, doceiras, curiosos, etc. circulavam durante os período de espetáculo, ficando “no sereno”, buscando uma forma de pertencer a tudo aquilo, mesmo que indiretamente.
Os espaços internos de convívio veiculam para a segurança e conforto de seus lares os
refinamentos europeus, um dos principais responsáveis por isso foi o piano, instrumento que
começou a ser popularizado na cidade ainda na primeira metade dos oitocentos, permitia às
15
Aos 16 de maio de 1850, inaugura-se o Teatro de Santa Isabel, obra do engenheiro Vauthier, construído em
estilo neoclássico, representava o ápice da intelectualidade da opulência das classes dominantes recifenses,
teve como peça inaugural, “O pajem da Aljubarrota”.
16
É importante ressaltar a proximidade física entre esses dois prédios, onde o Capoeira ficava a quase trezentos
metros do Teatro de Santa Isabel, e nesse mesmo lugar, antes de sua construção havia uma vegetação arbustiva chamada Jurubebais, onde provavelmente servia de “alcova” improvisada para os serviços pessoais das
prostitutas.
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moças de família divertimento ao mesmo tempo que exibiam seus talentos como concertistas.
Trazia-se literalmente à baila coreografias européias (adaptadas ou reproduzidas à risca), entre
elas tínhamos as mais refinadas o pas de deux – um casal - o pas de quatre – dois casais; a
valsa e a quadrilha.
A transferência da Faculdade de Direito de Olinda para o Recife (1853) foi um passo
decisivo para solidificação da cidade como irradiadora de cultura e civilização. Muitos dos
seus lentes
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haviam estudado em Paris e reproduziam orgulhosamente os conhecimentos
erigidos através das escolas jurídicas de direito. O prédio da faculdade servia como universo
de atuação dos intelectuais que se portavam à francesa, ou seja, elegantemente. Adentrando
nesse distinto e restrito universo, os calouros prontamente adquiriam os gostos pela moda
masculina francesa, com intenção de fazer valer a máxima de que “o hábito faz o monge”. Já
que mencionamos a moda, o espaço condizente à parcela feminina daqueles que viviam ou
conviviam na cidade se encontrava na Rua Nova, era lá que se estabeleciam as modistas, os
cabeleireiros, chapeleiros franceses. As lojas mais sofisticadas estavam dispostas lá, geralmente com nomes em bom francês: A la ville de Paris, Au Louvre, Au Paradis de Dames –
uma muito famosa até meados do século XX – Maison Chic, entre outras. Comércios nomeados pela língua nacional, remetiam, ao olhos das pessoas que buscavam refinamento, a uma
qualidade inferior de seus produtos.
Mas foi no final dessa década de outras mudanças iriam movimentar o Recife: a notícia da visita do imperador D. Pedro II. Em 23 de novembro de 1859, o líder do Império do
Brasil chega a solo Recifense, para recebê-lo a cidade se transforma:
A cidade do Recife procurou apresentar-se o mais bonita possível. Caiaram-se os edifícios públicos, endireitaram-se as ruas, aumentou-se a luz do gás, ergueram-se arcos, colunas, pavilhões, pirâmides. Bandeiras, festões, luminárias. Nesses motivos
ornamentais existiam frases patrióticas, sentenças de exaltação aos monarcas, alusões às glórias da dinastia. Uma alegria comunicativa e incalculável.”(SETTE, 1987:
114).
A cidade queria mostrar aos monarcas que havia aprendido as lições de civilização a
muito cortejadas por eles. A preparação foi intensa, como manual de boas maneiras foi criado
um periódico de nome: O monitor das famílias. Endereçado as famílias “nobres e respeitáveis”, ao mesmo tempo que descrevia as ações dessa classe, o jornal sugeria uma maior polidez no comportamento. Os primeiros seis números traziam informações sobre o imperador e
sua consorte, como lembrança de tão ilustre visita. Os demais números traziam informações
17
Mestres.
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detalhadas dos modos e costumes típicos da época, sugerindo formas adequadas de se portar,
trajar. Instruções sobre a paisagem e desenvolvimento da cidade, prédios e logradouros. Servia como guia de informações e manual de comportamento. Parece que o que foi visto por D.
Pedro agradou ao seus olhos acostumados com as inovações do Rio de Janeiro, mesmo reclamando da poeira das ruas próximas ao Palácio da Presidência da Província que não eram calçadas, as visitas ao Ginásio Pernambucano, ao Hospital que levava seu nome e outros locais
em “amplo desenvolvimento” não decepcionaram ao imperador.
Para encerrar nossa pequena explanação, observamos que a busca pela modernidade e
civilização – no meio dos oitocentos - estava muito atrelada às veleidades da classe dominante
da época, não queremos dizer com isso que a grande parte pobre da população não fosse afetada pelas mudanças, talvez isso ocorresse de uma forma mais diluída, muitas vezes não no
sentido de parecer um francês, mas sim de aparentar-se ou de ser como o “doutor de direito”
ou o “dono do armazém de açúcar”. Seria dessa forma uma reinterpretação dos desejos, um
reflexo captado através de outros olhos onde os anseios que moveram essas pessoas eram
múltiplos, seus parâmetros e referenciais, díspares. Nos parece claro que a popularização do
gosto pelo que vinha da França, não só mudava os gostos, mas as formas também, uma vez
que a cidade passou a ser adaptada para dar lugar a esse desejo, servindo de grande palco onde se encenavam uma trama grandiosa e utópica. De forma bilateral, as formas da cidade foram sendo adaptadas, transformadas dando um novo sentido à palavra cidade – local onde
residia o futuro, o progresso – e com isso os hábitos passaram a repercutir numa ajustamento
de teor local, resignificando palavras, gestos, modas, etc., criando de fato um novo mundo que
não era nem a França e nem o Brasil, era o Recife.
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