...

A VIRALIZAÇÃO DAS NOTÍCIAS SOBRE CELEBRIDADES EM

by user

on
Category: Documents
2

views

Report

Comments

Transcript

A VIRALIZAÇÃO DAS NOTÍCIAS SOBRE CELEBRIDADES EM
A VIRALIZAÇÃO DAS NOTÍCIAS SOBRE CELEBRIDADES EM REDES SOCIAIS
E A INTERAÇÃO PARA CONSTRUÇÃO DA NOVA NOTÍCIA: o caso Anitta1
Juliana dos Santos Ferreira Costa2
Beatriz Braga Bezerra3
Resumo: A notícia é o produto jornalístico por excelência. Com os sites de redes sociais na
internet, a interação pode permitir ao usuário do site de rede social a repercussão de um tema,
através da viralização. Com o usuário da rede social levado à condição de emissor de opinião
e/ou informação, o alcance de sua opinião é convertido em uma nova notícia nos veículos de
comunicação. Dito isso, o trabalho analisa o caso da cantora Anitta, suja repercussão no
Twitter motivou novas notícias.
Palavras-chave: Viralização; Rede social; Celebridade; Notícia.
Abstract: The news is the journalistic product par excellence. With social networking sites on
the internet, the interaction may allow the user of the social networking site the impact of a
theme through viralization. With the user of the social network led to the condition of opinion
and / or sender information, the scope of his opinion is converted into a new story in the
media. That said, the paper examines the case of the singer Anitta, dirty repercussions on
Twitter prompted new news.
Keywords: Viralization; Social network; Celebrities; News.
1. Introdução
O jornalismo está ligado a uma dinâmica própria de funcionamento e continuidade e
está marcado por uma série de fatores constituintes: a pauta, a linha editorial, as fontes, a
apuração, entre outros, formam o fio condutor do que resultará no produto buscado: a notícia
que contém a informação. Na atualidade, alguns desses pressupostos jornalísticos vêm sendo
reconfigurados em função da evolução tecnológica e da crescente participação dos
Trabalho apresentado no Seminário Temático “Redes de Produção e Circulação do Conteúdo Audiovisual”,
durante a I Jornada Internacional GEMInIS, realizada entre os dias 13 e 15 de maio de 2014, na Universidade
Federal de São Carlos.
2
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (2007) e Especialista em Gestão da
Comunicação Empresarial pela Faculdade Frassinetti do Recife (2011). Jornalista do Instituto Federal de
Pernambuco desde 2010. E-mail: [email protected]
3
Graduada em Publicidade pela Universidade Católica de Pernambuco (2008), Especialista em Gestão da
Comunicação Empresarial pela Faculdade Frassinetti do Recife (2011) e Mestre em Comunicação pela
Universidade Federal de Pernambuco (2014). Professora da Graduação em Publicidade e Propaganda e do curso
de Tecnologia em Marketing da Universidade do Vale do Ipojuca (UNIFAVIP).
E-mail:
[email protected]
1
espectadores na construção das pautas jornalísticas seja por demanda, por criação de notícia
ou servindo como fonte de informação.
Diante dessa reconfiguração da cadeia produtiva de notícias e das adaptações no que
diz respeito aos conteúdos das pautas, bem como a motivação para ocuparem tal destaque,
cabe aqui uma breve investigação sobre o cenário atual de produção e emissão de mensagens;
uma rápida abordagem sobre a apropriação do aparato tecnológico, que contribui para a
multiplicação de informações; e uma análise o surgimento de novas notícias, sobre a
repercussão que as notícias sobre celebridades alcançaram nas redes sociais.
2. Jornalismo: Breve Explanação
Conforme Clóvis Rossi (2007), jornalismo é, antes de tudo, uma batalha cujo alvo a
ser conquistado são mentes e corações. Leitores, ouvintes, telespectadores: todos buscam
informação; acompanham o desenvolvimento (ou acontecimento) de fatos cuja característica
primordial é a possível influência, direta ou indireta, na vida daqueles indivíduos. As pessoas
buscam informações em diferentes meios de comunicação, por diferentes razões. E é a fim de
atender a demanda por informações que o exercício da atividade jornalística está marcado por
uma série de fatores constituintes: a pauta, a linha editorial, as fontes, a apuração, entre
outros, formando o fio condutor do trabalho que irá resultar no produto buscado: a notícia, a
reportagem, contendo a informação.
Além da chamada revolução da prensa gráfica, o surgimento dos jornais – no século
XVII – trouxe como consequência irremediável a explosão de informações apontando para a
necessidade de novos métodos de administração de conteúdos (BRIGGS & BURKE, 2006)
numa espécie de prévia do que a contemporaneidade testemunha quando considera o advento
do jornalismo especializado, da Internet e das chamadas redes sociais digitais, por exemplo.
A influência na chamada opinião pública, desde as origens da atividade jornalística,
sempre figurou como uma preocupação de primeira necessidade, a fim de atender o chamado
interesse público. Para Joseph Pulitzer (2009), não seria exagero dizer que a imprensa é a
única força portadora da correção pública: para o autor, apenas a imprensa faria do seu
próprio interesse o interesse público, de modo que seria objetivo do jornalismo servir ao
público transmitindo conhecimentos para fortalecer o exercício da cidadania. “Agora, as
massas estão preparadas. Elas conhecem seus problemas e seu poder” (PULITZER, 2009, p.
54), afirma ainda o autor.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros aponta para a importância da soberania
do interesse público sobre quaisquer outros tipos de interesse. Segundo o Código, os
jornalistas não podem impedir o acesso do público à informação e os conteúdos devem prezar
pela veracidade dos fatos, sendo a censura um delito contra a sociedade. Por pressuposto
profissional, a liberdade de imprensa implica em responsabilidade perante a sociedade
(Federação Nacional dos Jornalistas, 2007)4.
Mas a discussão de temas de interesse público seria também possibilitada pelo
conhecimento dos fatos e assuntos tratados através da mídia (com especial enfoque na
imprensa), num recorte da esfera pública - que permite tanto a crítica ao Estado quanto a
tomada autônoma de decisões do cidadão (REESE-SCHÄFER, 2010). O cenário atual, no
entanto, nos mostra também a mudança do princípio básico norteador da esfera pública, numa
necessária releitura crítica em que o contexto no qual a sociedade e a mídia estão inseridas é
considerado determinante.
A comercialização da mídia altera seu caráter profundamente: o que antes
era um fórum exemplar de debate crítico-racional torna-se mais um domínio
de consumo cultural, e a esfera pública burguesa esvazia-se num mundo
fictício de imagens e opiniões (THOMPSON, 2011, p. 109).
3. Internet: a Terra das Possibilidades
Na contemporaneidade, o contexto no qual a sociedade e a mídia estão, mergulhadas
no advento de novas tecnologias aliadas aos diferentes modelos de comunicação e
disseminação das mensagens, fez surgir aquela que é considerada também mais uma
possibilidade de debate público: a Internet. Através das Plataformas Comunicativas
Multimidiáticas Ciberespaciais (caracterizadas por competências comunicativas que
favorecem o processo de construção da opinião com o mínimo de interferências), conforme
Castells (2011), a Internet se estabelece como o meio de comunicação interativo universal via
4
Disponível em: http://www.fenaj.org.br/federacao/cometica/codigo_de_etica_dos_ jornalistas_brasileiros.pdf.
Acesso em: 25/03/2011
computador da chamada Era da Informação, capaz de transformar para sempre e
irremediavelmente nossa cultura.
Assim, a Internet se mostra como um ambiente no qual a instantaneidade de conexão
dos usuários e a possibilidade destes produzirem e acessarem conteúdos de acordo com sua
vontade faz do usuário não apenas influenciado, mas também influenciador do meio
(BRITTES, 2007). A revolução tecnológica presenciada na contemporaneidade permite ao
indivíduo maior disponibilização das informações e do conhecimento.
Conforme nos diz Castells (2006), a Internet permite descentralizar os meios de
comunicação de massa, mostrando-se cada vez mais como um espaço social amplo e
diversificado. Permitindo não apenas o conhecimento, mas também a interação, ela se mostra
como um meio através do qual o alcance comunicativo do indivíduo tem potencial para
maiores proporções: qualquer um pode, com computador e acesso à internet, conferir as
informações que desejar e/ou deixar suas impressões, bem como orientar ou repassar tais
orientações aos seus pares e/ou aos profissionais de mídia. Trata-se do que Castells (2006)
apontou como a capacidade de mudar o fluxo de informação a partir da capacidade autônoma
de comunicação, reforçada mediante tecnologias digitais de comunicação.
O advento das novas tecnologias, aliado aos diferentes modelos de comunicação e
disseminação das mensagens, fez da Internet um campo fértil para o surgimento de espaços
propícios, inclusive, ao debate público. A abordagem de temas relacionados ao interesse
coletivo de uma maneira geral (administração pública, mobilizações e modificações políticas,
entre outros) passa pela publicização, na qual os conceitos de público e privado apontam para
a prática regida de acordo com a oposição entre publicidade e privacidade (THOMPSON,
2011). Neste cenário, as redes sociais surgem como um novo meio através do qual os
cidadãos também tomam conhecimento de fatos, buscam informações e/ou externam
posicionamentos, num processo que pode abordar temas diversos.
Diversos
veículos
jornalísticos
expandiram
seus
braços
na
Internet.
O
acompanhamento da informação através de sites e portais de notícias já faz parte do cotidiano
de um número crescente de pessoas, que por sua vez encontram nas chamadas redes sociais da
Internet uma maneira de expressar suas opiniões. Com o uso abundante destas nos meios
profissionais e de entretenimento, não é difícil lembrar da repercussão alcançada por temas
contemplados pelos Trending Topics
5
do Twitter ou das quantidades registradas de
compartilhamentos6 no Facebook – dados que todos os dias (ou em tempo consideravelmente
inferior) sofrem alteração.
4. Novidades das Redes Sociais: Interação, Impressão, Informação
Conforme Raquel Recuero (2010) explica, as redes sociais são um conjunto formado
por dois elementos: os atores e as conexões, ou seja, as pessoas, instituições ou grupos (os
indivíduos envolvidos na rede), de um lado, e suas respectivas conexões, de outro. Na
atualidade, uma característica marcante dos atores nas redes é a necessidade de visibilidade,
que por sua vez reforça a possibilidade de interação. Por isso, os chamados sites de redes
sociais possuem uma grande diferença se comparados a outras formas de comunicação que
não as mediadas por computador: o modo como permitem aos seus usuários a visibilidade e a
articulação de suas redes sociais, bem como a manutenção dos laços sociais estabelecidos no
espaço off-line (RECUERO, 2010).
Um mesmo ator social pode utilizar, para diferentes objetivos, diferentes sites de
redes sociais, nos quais poderá construir valores diferentes. Os usuários, percebidos,
identificados e capazes de interação, têm também a consciência da impressão que pretendem
causar e que podem construir. O que eles publicam/divulgam é, dessa maneira, reflexo da
percepção do valor que podem gerar. Os sites de redes sociais amplificam a expressão na rede
social, bem como a conectividade estabelecida entre os grupos sociais.
Aliando-se à apropriação social das ferramentas de comunicação da internet na
dinâmica das redes sociais, torna-se possível otimizar possibilidades de produção de
conteúdo, pulverização da informação e interação no processo comunicativo. Com o amplo
alcance às redes sociais, a produção e disseminação de conteúdos por qualquer ator inserido
neste ambiente tornou-o um novo espaço comunicativo ao qual o público tem acesso, no qual
os fluxos de informação são direcionados para a publicização de informações diretamente
associada ao efeito de exposição e/ou confronto de declarações, dados e opiniões, bem como a
reação ao que for exposto no mesmo ambiente.
5
Sequência de assuntos mais comentados no Twitter.
No Facebook, ao compartilhar qualquer conteúdo (próprio ou de outra pessoa), uma pessoa permite que aqueles
que estão ligados a ela vejam o conteúdo compartilhado.
6
Como resultado do advento dos sites de redes sociais e a consequente descoberta de
seu potencial na comunicação, tornou-se cada vez mais comum a criação de perfis de
organizações em redes sociais com o intuito de aproximá-las dos usuários, abrindo um canal
de contato direto e através do qual o indivíduo possa acompanhar informações e interagir. É
importante perceber que não se trata meramente da disponibilização de dados, a informação
pura e simples, mas sim de um processo mais amplo cujo alcance pode possibilitar reações
por parte dos usuários dos sites de redes sociais diante de algum tema. Os processos
dinâmicos que constituem as redes sociais conseguem “burlar” a mera exposição de conteúdo
e deixa ao alcance dos usuários uma maior proximidade com a exposição de considerações
individuais e coletivas – podendo, inclusive, causar a convergência de posicionamentos e
ações numa esfera exterior à comunicação mediada por computador, no seio da sociedade.
Segundo pesquisa realizada pela PR Newswire em 20127, o Twitter foi considerado
como a rede social que mais ajuda no trabalho por 73,4% dos jornalistas brasileiros e 79,7%
dos profissionais entrevistados admitiram usar as redes sociais para entrar em contato com as
fontes. Em 20148, pesquisa da ComScore apontou o Facebook e o Twitter como estando em
primeiro e terceiros lugares, respectivamente, entras as redes sociais mais acessadas no Brasil.
Parte do cotidiano de indivíduos em diversas partes do mundo, as chamadas redes
sociais (que vem sendo absorvidas pelas redações jornalísticas como mais um canal de
comunicação) são “sites na internet construídos para permitir a criação colaborativa de
conteúdo, a interação social e o compartilhamento de informações em diversos formatos”
(TELLES, 2010, p. 19). São diversos os veículos de comunicação que possuem perfis nas
redes. Neste contexto, os laços sociais (produto das conexões em uma rede social) são usados
pelos atores envolvidos no processo para construção de valores.
Os atores são conscientes das impressões que desejam criar e dos valores e
impressões que podem ser construídos nas redes sociais mediadas pelo
computador. Por conta disso, é possível que as informações que escolham
divulgar e publicar sejam diretamente influenciadas pela percepção de valor
que poderão gerar (RECUERO, 2010, p. 118).
7
Disponível em http://blogprnewswire.com/2012/08/06/twitter-e-a-rede-social-preferida-dos-jornalistas-nobrasil-e-no-mexico-aponta-pesquisa-da-pr-newswire/. Acesso em 22/12/2013.
8
Disponível em http://www.dinaweb.com.br/pesquisa-214-quais-sao-redes-sociais-mais-acessadas-brasil/.
Acesso em 20/07/2014.
5. Viralização: Possibilidade Contemporânea
Atualmente não há mais linhas que delimitem o que é uma mídia e o que é outra.
Lúcia Santaella (2007) defende a distinção de seis tipos de culturas da comunicação: oral,
escrita, impressa, massiva, midiática e digital. Entretanto, ela afirma que todas as formas de
cultura coexistem, convivem e sincronizam-se, resultando numa trama cultural híbrida e
hipercomplexa. E o leitor se encontra imerso nessa cultura.
Os internautas de hoje estão cada vez mais informados e críticos em relação aos
conteúdos que recebem. Desenvolvem uma nova postura diante das mensagens
comunicacionais e, principalmente, publicitárias. Mostram-se reativos, conectados aos pares e
dispostos a compartilhar suas experiências particulares com desconhecidos no ambiente
virtual em defesa ou para denúncia de uma marca. Esses indivíduos se tornam também aptos a
produzirem seus próprios textos, vídeos e fotos. Empoderam-se do discurso de outros e
recriam, transformam e mais, disseminam essas informações em questão de segundos.
Essa configuração de interação que se estabelece altera o cenário comunicacional dos
grandes veículos de informação que dominavam a emissão de notícias. O internauta hoje
registra acontecimentos do cotidiano e os divulga, filma e fotografa sem pedir licença e, em
muitos casos, adquire credibilidade semelhante aos veículos de comunicação instituídos no
ambiente digital. São os chamados prossumers, termo cunhado por Alvin Toffler (1980) que
se aplica à nova atuação dos internautas: indivíduos capazes não só de consumir, mas de
produzir conteúdo. Como diz Eugenia Barichello (2010) “as imagens de emissor e receptor
borram-se em função da livre participação de todos com produção e difusão de conteúdos
próprios” (BARICHELLO, 2010, p.33).
O cenário digital permite “pela primeira vez, a comunicação de muitos para muitos
em tempo escolhido e a uma escala global” (CASTELLS, 2004, p. 16). A comunicação passa,
portanto, do modelo verticalizado onde os grandes conglomerados midiáticos dominavam a
produção de conteúdo para um esquema horizontal, onde as informações são emitidas por
vários polos, descentralizando e desmassificando as informações.
A desmassificação dos meios de comunicação de massa desmassifica
igualmente as nossas mentes. Hoje, em vez de massas de pessoas recebendo
todas as mensagens, grupos desmassificados menores recebem e enviam
grandes quantidades de suas próprias imagens de uns para os outros
(TOFFLER, 1980, p.171).
Com essa desmassificação dos meios de comunicação de massa, cresce o número de
informações personalizadas. Os prossumers registram, compartilham, comentam e discutem
sobre pontos de vista do mundo que eles mesmos produziram. Os meios de comunicação, por
sua vez, filtram essas informações e dão destaque aos conteúdos mais acessados, utilizando
fontes distintas para divulgação de informação. O processo se inverte. Se antes os indivíduos
recorriam aos meios de comunicação de massa para conseguirem informações, hoje, os meios
recorrem aos conteúdos dos indivíduos para criarem suas pautas.
Diversos são os exemplos de notícias geradas por internautas que tomam a frente dos
noticiários, e hoje já vemos o estímulo por parte dos veículos de comunicação à colaboração
na criação das pautas. De maneira menos formal, as redes sociais servem como um verdadeiro
mural de avisos, onde todos os usuários estão livres para expressar vontades, angústias e
desabafos. Além das postagens de cunho pessoal, muitos se utilizam desse espaço para gerar
conteúdo, divulgar trabalhos, buscar oportunidades ou para replicar mensagens enviadas por
outras pessoas. O ato de reenviar, disseminar, multiplicar ou compartilhar, apropriado pelo
usuário da rede social, embasa atualmente a estratégia do marketing viral.
A internet se aliou aos publicitários e aos jornalistas na luta pela atenção do
consumidor diante das possibilidades de entretenimento e informações personalizadas
(BARICHELO, 2010). E a estratégia do marketing viral parte justamente do princípio do
envolvimento, ou seja, se o internauta se envolve com o conteúdo e é realmente encantado,
ele irá disseminá-la.
A propaganda visava atingir o consumidor e motivá-lo à efetivação da compra. Hoje
isso não é o bastante. Busca-se conquistar o consumidor de tal forma que ele se torne um
defensor, um advogado e vendedor da marca, detalhando seus benefícios e atrelando sua
imagem à da empresa ou serviço. O marketing viral funciona, então, como suporte para esse
novo interesse da publicidade. Que, na verdade, não é tão novo assim, mas ganhou outra
roupagem: “em relação ao boca-a-boca, podemos afirmar que o marketing viral é o seu
correspondente no ciberespaço” (SILVA, 2008, p.95). Ou seja, o hábito de comentar em rodas
de amigos sobre determinadas marcas defendendo-as ou denegrindo-as, chamada propaganda
boca-a-boca, foi transposto para o ambiente digital na forma do marketing viral.
O conceito de marketing viral poderia ser sintetizado em um:
Modelo de comunicação com públicos da internet, que pressupõe que a
mensagem irá se disseminar por contágio de pessoas próximas ao público
inicialmente alcançado, num espiral de crescimento constante (SILVA,
2008, p.93).
E entende-se por contágio a difusão da informação como a ação de um vírus que se
espalha sem controle, daí a nomenclatura “viral”. Nelito Silva (2008) diferencia o marketing
viral do efeito viral: o primeiro trata das ações feitas propositalmente (geralmente
publicidades, mesmo que camufladas como entretenimento) para envolver o internauta e
motivar o compartilhamento; já o efeito viral é espontâneo e pode ocorrer até com vídeos
caseiros que, por alguma razão ou temática (comicidade, lição de moral, declaração de amor)
motivaram a disseminação rápida na internet.
Para que uma mensagem seja utilizada nessa prática de marketing visando atingir o
efeito viral ela deve conter entretenimento, humor e conteúdos relevantes ou curiosos com
informações úteis, motivando o internauta a compartilhá-la com os amigos. O envolvimento
fundamental para o sucesso do viral (BARICHELLO, 2010). E a mensagem deve indicar
ferramentas acessíveis para o compartilhamento, pois quanto mais fácil for o reenvio, maior a
oportunidade de aumentar a disseminação (ROSEN, 2001).
É importante, nas campanhas publicitárias e na disseminação de notícias, que o
conteúdo a ser viralizado seja distribuído em ambientes virtuais que favoreçam sua replicação.
Nas redes sociais os indivíduos se agrupam por interesses em comum, compartilham hábitos
de consumo e fazem das comunidades focos para possíveis anunciantes iniciarem campanhas.
Os nichos de consumidores ou potenciais consumidores, aglutinados em
torno de interesses comuns nas comunidades online, fornecem uma
“geografia” do ciberespaço favorável à disseminação da mensagem
publicitária, potencializando uma estratégia de marketing viral (SILVA,
2008, p. 97).
Os profissionais responsáveis pelo lançamento das mensagens devem observar a
existência de pessoas influentes na rede. Formadores de opinião, como Silva (2008) nomeia,
ou hubs, indivíduos conectores que servem de referência no universo digital como pontua
Toffler (1980). Essas pessoas são peças importantes para fazer as mensagens se multiplicarem
em grande escala na internet. Elas repassam o conteúdo a seus contatos, aos grupos que
pertencem e dão seu crédito ao que enviam, validando aquela informação como interessante.
Nova Notícia: a Movimentação das Redes como Fontes sobre Celebridades
Informações sobre as chamadas celebridades – de qualquer área: artes,
entretenimento, política, esportes ou até mesmo um produto de outra circunstância, como é o
caso das chamadas celebridades instantâneas − são um alvo em potencial nessa configuração
atual de difusão de mensagens. As notícias sobre elas movimentam um mercado editorial
próprio.
Mesmo as transgressões em que se envolvem (já que estão sujeitas ao escândalo)
podem atrair a atenção do público. Douglas Kellner (2006) afirma que na sociedade atual,
entretenimento e espetáculo são incorporados ao universo dos negócios, da economia e da
política. Temos uma nova cultura do espetáculo, na qual sociedade e vida cotidiana estão
mergulhadas numa nova configuração que envolve, também, novas formas culturais, relações
sociais e tipos de experiências. Esther Hamburguer (2008) comenta que a noção de espetáculo
descrita por Guy Debord (1997), trabalhada inicialmente em 1967, se estabeleceu de forma
incontestável:
A noção de espetáculo tal como descrita por Debord se estabeleceu quase
como um dado, mas descritivo. Vivemos na sociedade do espetáculo, não há
como contestar. De maneira mais genérica, a noção busca dar conta da
dimensão cotidiana que a presença do jogo midiático impõe para as relações
sociais e políticas. A noção de sociedade do espetáculo é eficiente
(HAMBURGUER, 2008, p.14).
Dessa maneira, as notícias sobre as celebridades transformam suas vidas em um
verdadeiro show. As pessoas públicas estão sujeitas à espetacularização, mas sem a certeza de
que isso lhes trará efeitos exclusivamente positivos. Exemplo disso foi o vazamento de fotos
íntimas da atriz Carolina Dieckmann9 na Internet, ocorrido em maio de 2012. Com a ampla
cobertura do caso, a mídia também produziu matérias sobre dicas de segurança virtual
fornecidas por especialistas bem como acompanhando o desenrolar do processo envolvendo a
atriz, a polícia do Rio de Janeiro e os suspeitos. Tal evento pautou noticiários, portais online,
e foi o mais comentado no Twitter na tarde do dia 4 de maio − de acordo com o blog
“Bombou na Web”, que mapeia os conteúdos mais falados no Brasil na rede social.
9
Disponível
em
http://diversao.terra.com.br/gente/vazam-na-internet-fotos-intimas-de-carolinadieckmannb9880ce68385a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html. Acesso em 20/07/2013.
A absorção das redes sociais na dinâmica condutora do jornalismo tem se mostrado
como uma realidade cada vez mais presente em veículos jornalísticos. Wolf (2009) lembra
que, sob a perspectiva teórica do newsmaking, o jornalista, profissional imbuído de
atribuições cujo principal objetivo é proporcionar ao indivíduo a informação, está mergulhado
numa série de práticas de rotina profissional empregadas na produção da notícia. Desde a
escolha dos fatos passíveis de serem (ou não) noticiados, passando pela forma de realização
da cobertura informativa e as operações empregadas pelos aparatos de informação nesta
tarefa, o processo de produção das notícias é interativo e depende, além das rotinas
profissionais, das iniciativas do jornalista e de demandas da sociedade, entre outros fatores
(PENA, 2012). O fazer jornalístico, como já disse Ferrari (2010), está mudando e obrigando
às novas gerações de profissionais a se adaptarem às modificações necessárias impostas pela
convivência lado a lado com blogs, redes sociais e demais pontos nos quais os conteúdos são
disponibilizados e se misturam, muitas vezes até “furando” a mídia tradicional.
As redes sociais vêm sendo encaradas pelos profissionais da notícia não só como
canal de exercício de uma comunicação essencialmente interativa, mas também como uma
plataforma capaz de apontar possíveis pautas, sujeitas a critérios de noticiabilidade que podem
ser afetados (ou afetar) o tratamento dos chamados temas de interesse público.
Os estudos sobre o newsmaking tornaram esse ponto suficientemente claro e
incontrovertível: a rede de fontes que os aparatos de comunicação
estabilizam como instrumento essencial para o seu funcionamento reflete, de
um lado, a estrutura social e de poder existente e, de outro, organiza-se na
base das exigências colocadas pelos procedimentos de produção (WOLF,
2009, p. 235).
E é a partir desta nova maneira de encarar as redes sociais, como uma possível fonte
de pautas, que surge a possibilidade de uma nova notícia - além daquela eventualmente já
veiculada. Nos sites de redes sociais, a interação entre os usuários é a responsável pela
repercussão que o tema vai ter. Temas viralizados, além de engrossarem os números de
compartilhamentos, citações ou curtidas, passam a ser encarados como um novo
acontecimento digno de ser noticiado: a repercussão que estes alcançam nas próprias redes
sociais (resultante da interação, que a alavancou no site da rede social em questão) originam
matérias. Enquanto os usuários das redes se empoderam do discurso de outros e recriam,
transformam e disseminam tais informações, as notícias também passam a focar no uso da
própria rede social. Prova disso é que, tanto em veículos impressos quanto eletrônicos,
quando tratam de algum tema de grande repercussão, deixam registrados comentários de
usuários de algumas destas redes sociais, numa espécie de “povo-fala” digital.
6. O Caso Anitta
Personalidade alçada à fama nacional depois de lançar a música “Show das
Poderosas”, a cantora Anitta foi uma das indicadas ao prêmio “Melhores do Ano”, transmitido
ao vivo para todo o Brasil pela Rede Globo de Televisão na noite de 16 de março de 2014. Na
ocasião, a artista se apresentou com um curativo no nariz, com a justificativa de que havia se
submetido a procedimentos de cirurgia estética.
Ainda na mesma noite, o nome de Anitta ficou entre os assuntos mais comentados no
Twitter: internautas passaram a utilizar hashtags para marcar comentários sobre o mesmo
assunto e, durante dias, os Trending Topics do Twitter tiveram posts sobre a aparência da
cantora entre os destaques do período. As hashtags #AnittaNarizDeCapivara e
#AnittaVocêNãoéBonitaVcÉRidícula chegaram rapidamente aos assuntos mais comentados,
com internautas opinando sobre o resultado final das cirurgias pelas quais a cantora havia
passado. Neste intervalo, sites e portais de notícias, bem como outros veículos de veículos de
comunicação, passaram a noticiar a repercussão que a aparência da cantora teve nas redes
sociais. São exemplos os casos abaixo:
QUADRO 1 – Repercussão do Caso Anitta em sites e portais de notícia
Veículo: Portal Terra
Título da matéria: Após plástica, Anitta vira piada no Twitter
Dia de publicação: 17/03/2014
Link:http://diversao.terra.com.br/gente/apos-plastica-anitta-vira-piada-no-twitter-nariz-de-capivarab9c4f9da
030d4410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.htm
Veículo: Veja (versão on line)
Título da matéria: Com novo nariz, Anitta é comparada a capivara no Twitter
Dia de publicação: 17/03/2014
Link: http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/com-novo-nariz-anitta-e-comparada-a-capivara-no-twitter
Veículo: E! On line
Título da matéria: Anitta faz plástica no nariz e recebe críticas na web
Dia de publicação: 17/03/2014
Link: br.eonline.com/2014/anitta-faz-plastica-no-nariz-e-recebe-criticas-na-web
Veículo: Caras (versão on line)
Título da Matéria: Anitta faz desabafo após críticas sobre cirurgia plástica
Dia de publicação: 17/03/2014
Link: http://caras.uol.com.br/musica/anitta-faz-desabafo-apos-criticas-sobre-cirurgia-plastica
Além das matérias veiculadas no mesmo dia ou no dia seguinte, o comportamento
dos usuários de redes sociais com relação a cantora continuou sendo tema de matérias
produzidas posteriormente. A repercussão que o comportamento dos usuários do Twitter10
alcançou naquela rede (sendo alçados aos Trending Topics) e os relatos de apelidos e
hashtags empregadas pelos usuários para se referirem à cantora seguiram sendo abordados em
matérias em diferentes veículos de comunicação.
Considerações Finais
A contemporaneidade testemunha uma produção jornalística voltada não apenas para
o interesse público, mas essencialmente para o “interesse do público” ao destacar notícias da
vida íntima das celebridades; a viralização de conteúdos da intimidade de personalidades da
mídia reflete adequadamente as características da cultura de uma Sociedade do Espetáculo
como propôs Debord (1997). A replicação destes conteúdos acaba por consolidar a atuação
dos prossumers que adicionam conteúdos personalizados nas redes, ampliando e enaltecendo
o indivíduo voyeur e por impulsionar o surgimento de uma demanda específica nos veículos
de comunicação diante dessas temáticas.
As celebridades, ou pessoas públicas, caem no gosto da população que dá audiência e
alimenta programas e noticiários com informações sobre diversos aspectos da vida privada
dessas personalidades. Os consumidores atuais – produtores e receptores de conteúdo –
passam a comandar ainda mais as pautas jornalísticas tendo em vista o crescente número de
veículos que dá acesso à participação e colaboração dos espectadores na discussão e na
produção das notícias. As redes sociais são um veículo através do qual este comando tem a
possibilidade de ser exercido, sendo a interação entre os seus usuários encarada como um
critério de legitimidade e a repercussão ali alcançada pelos temas, um novo acontecimento
digno de ser noticiado.
Embora seja uma realidade recente, as redes sociais possibilitam interações
potencialmente interferentes no rumo da notícia (e no surgimento de uma nova notícia). Esta
nova notícia, no entanto, mostra-se nova enquanto envolta em critérios de noticiabilidade de
acordo com a percepção das proporções dos acontecimentos nas redes sociais, oriundas
10
Disponível em http://entretenimento.r7.com/pop/jovem/fotos/ela-merece-tudo-isso-anitta-e-a-pessoa-maisodiada-das-redes-sociais-e-sofre-bullying-todos-os-dias-25082014#!/foto/1. Acesso em 23/05/2014.
principalmente da interação. O jornalismo pautado por estas circunstâncias pode,
invariavelmente, produzir notícias a respeito do que se tornou notícia num movimento de
retroalimentação onde as estratégias de comunicação se tornam os efetivos pontos que
impulsionam a produção deste tipo de pauta.
Referências Bibliográficas
BARICHELO, Eugenia. O marketing viral como estratégia publicitária nas novas
ambiências midiáticas. Em Questão: Porto Alegre, 2012. v.16, n.1, p.29-44.
BRIGGS, Asa & BURKE, Peter. Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet. 2ª
Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
BRITTES, Juçara Gorski. A revitalização da esfera pública habermasiana pela
comunicação ciberespacial. Covilhã: Biblioteca On Line da Ciências da Comunicação, 2007.
Disponível em http: //www.bocc.ubi.pt/pag/brittes-jucara-revitalizacao-esfera-publica.pdf.
Acesso em 05/09/2011.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia Internet: reflexões sobre internet, negócios e sociedade.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
_____________. Inovação, liberdade e poder na era da informação. In: MORAES, Dênis de
(org.). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
_____________. A sociedade em rede. 6 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FERRARI, Pollyana. Jornalismo digital. 4ª ed. São Paulo: Contexto, 2010
HAMBURGUER, Esther. Violência e pobreza no cinema brasileiro recente: reflexões
sobre a ideia de espetáculo. CEBRAP, Novos Estudos, São Paulo, n.78, p. 113-128, jul, 2007.
KELLNER, Douglas. Cultura da mídia e triunfo do espetáculo. In: MORAES, Dênis de
(Org.). Sociedade midiatizada. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
PENA, Felipe. Teoria do jornalismo. 3ª Ed. São Paulo: Contexto, 2012.
PULITZER, Joseph. A escola de jornalismo: a opinião pública. Florianópolis: Insular, 2009.
REESE-SCHÄFER, Walter. Compreender Habermas. 3ª Ed. Petrópolis: Vozes, 2010.
RECUERO, Raquel. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2010.
ROSEN, Emanuel. Marketing boca a boca: como fazer com que os clientes falem de sua
empresa, seus produtos e serviços. São Paulo: Futura, 2001.
ROSSI, Clovis. O que é jornalismo. 10ª Ed. São Paulo: Brasiliense, 2007.
SANTAELLA, Lucia. Linguagens líquidas na era da mobilidade. São Paulo: Paulus, 2007.
SILVA, Nelito Falcão. Marketing viral: quando os internautas são a melhor propaganda.
2008. 171 f. Dissertação (Mestrado em Teorias e Tecnologias da Comunicação) –
Universidade de Brasília, Brasília, 2008.
TELLES, André. A revolução das mídias sociais. São Paulo: M. Books do Brasil Editora
Ltda, 2010.
THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. 12ª Ed.
Petrópolis: Vozes, 2011.
TOFFLER, Alvin. A terceira onda. Rio de Janeiro: Record, 1980.
WOLF, Mauro. Teorias das comunicações de massa. 4ª ed. São Paulo: Editora WMF
Martins Fontes, 2009.
Fly UP