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SEXUALIDADE HUMANA E ORGASMO SEXUAL Maria Edvania de
_____Psicologia &m foco
Vol. 2 (1). Jan./jun 2009
SEXUALIDADE HUMANA E ORGASMO SEXUAL
Maria Edvania de Oliveira Fagundes1
RESUMO: As reflexões deste artigo foram baseadas em pesquisas bibliográficas sobre o orgasmo,
na perspectiva de W. Reich e outros autores com relevante conhecimento sobre a sexualidade
humana e as contribuições para a saúde do indivíduo, as quais buscaram identificar a função do
orgasmo sexual, falando um pouco sobre como o processo civilizador pode bloquear a capacidade
de sentir orgasmo. Foi constatado que as pessoas que tiveram padrões educacionais muito rígidos
são mais vulneráveis a problemas na área sexual, em especial as mulheres. Verificou-se também
que o orgasmo tem a função de liberar a energia sexual represada no corpo, favorecendo a
preservação da saúde psíquica do indivíduo. O percurso sobre a literatura pesquisada possibilitou
verificar que o orgasmo é fonte de vida e bem estar.
Palavras-chave: Orgasmo Sexual. Saúde. Processo Civilizador.
HUMAN SEXUALITY AND SEXUAL ORGASM
ABSTRACT: The reflections of this article were based on research literature on the orgasm, in
view of W. Reich and other authors with relevant knowledge about human sexuality and
contributions to the individual health, which sought to identify the function of sexual orgasm,
talking a little bit about how the civilizing process can block the ability to experience orgasm. It was
found that people who had very strict educational standards are most vulnerable to sexual problems
in the sexual life, especially women. There was also checked that orgasm has a function to release
the sexual energy dammed in the body, favoring the preservation of the individual mental health.
The route on the literature has found that the orgasm is the source of life and well being.
Key words: Orgasm Sexual. Health. Civilizing Process.
1
Psicóloga Formada pela Faculdade Pio Décimo, em 2008. E-mail: [email protected]
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INTRODUÇÃO
Este estudo discorre sobre a
sexualidade humana e a função do orgasmo,
traçando uma relação sobre o impacto à
saúde, buscando identificar a influência, ou os
benefícios, do orgasmo na qualidade de vida.
Além disso, interessa apontar se há ou não
alterações no comportamento humano a partir
da satisfação ou insatisfação sexual, ou seja,
se a vida sexual do indivíduo reflete algum
tipo alteração no comportamento. Para tanto,
é fundamental que se discuta com alguns
estudiosos da área da sexualidade humana a
fim de dar a este estudo um caráter genuíno.
Igualmente, julga-se fundamental pontuar
algumas considerações históricas sobre a
sexualidade humana. A respeito dessas
considerações, poder-se-ia formar uma
discussão desde a Pré-História, não faltariam
questões pontuais e interessantes a tratar, mas
para não se alongar, busca-se avançar um
pouco mais no tempo.
Assim se dizer que os séculos
XVIII e XIX foram férteis nas discussões dos
assuntos ligados ao sexo, antes restrito à
Igreja (SEIXAS, 1998). Isso pode ter dado
fôlego às discussões da sexualidade humana
ao longo das ultimas décadas, mas, como
postulou Reich (1986), a neurose adquirida
pelo sujeito durante o processo civilizador,
base da educação e formação do caráter não
contribuiu na mesma velocidade.
O processo civilizador, o qual,
seguindo a leitura de Norbert Elias (1994), se
pode definir como um fenômeno de
desenvolvimento cultural, de mudanças dos
modos de convivência e existência dos
humanos. Esse movimento envolve o
processo de formação da personalidade dos
indivíduos, que está implicada a consciência e
autocontrole desses indivíduos. A educação
oferecida na sociedade constitui uma
mudança de conduta e sentimentos onde se
pode atribuir certo recalque gradual de alguns
instintos, devido a essa educação passada pelo
estado.
Discutir sobre questões ligadas a
sexualidade humana, precisamente sobre o
orgasmo sexual, é uma curiosidade e também
uma preocupação mobilizada a partir da
leitura dos trabalhos de W. Reich sobre a
função do orgasmo. Pois este cientista chegou
a afirmar que uma vida sexual insatisfatória
pode ser a causa de muitas doenças e, por
outro lado, a literatura tem mostrado que
muitas pessoas, além de não ter boa qualidade
nas relações sexuais, não chegam até o
orgasmo, elemento sublime da relação sexual,
segundo Reich.
De acordo com o pensamento
deste autor muitas dessas pessoas adoecem
devido à má qualidade das relações sexuais,
que os impossibilitam de terem uma vida
amorosa natural a qual seria importante para
livrá-los das neuroses de caráter e da peste
emocional, que reflete negativamente no fator
emocional dos indivíduos.
A “peste
emocional” foi denominada por Reich como
uma espécie de doença que ataca a capacidade
do indivíduo amar. Isto é, ataca a função
emocional assim como uma doença ataca o
sistema imunológico, comprometendo a
capacidade de satisfação sexual do indivíduo.
A
fim
de
responder
as
inquietações sobre este assunto, buscou-se na
literatura o arcabouço teórico já tratado por
alguns estudiosos sobre essa peculiaridade da
vida sexual do individuo, considerando a obra
de Reich como pedestal epistemológico, ou
seja, tomado como a base do conhecimento
científico que sustenta e discute outras teorias.
Por isso, após as primeiras considerações
gerais, é primazia discorrer sobre as idéias
desse autor. E, para tanto, discutir-se-á sobre
a temática no período histórico dos séculos
mais recentes.
IDADE
MODERNA
CONTEMPORÂNEA
E
SEXUALIDADE NA IDADE MODERNA
Na Idade Moderna, durante os
Séculos XV a XVIII, houve um período
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denominado democratização de idéias, em
que as pessoas poderiam discutir suas
concepções, inclusive sobre sexo com outras
pessoas, uma forma de livre expressão do
pensamento e, nesse período, falar sobre sexo
e sexualidade era uma questão muito comum.
Essa democratização de assuntos relativos ao
sexo teve destaque na Europa e França. Nos
Estados Unidos, diferentemente, houve uma
perseguição às mulheres devido a uma
ideologia religiosa (SEIXAS, 1998). Essa
perseguição se deu pelos puritanos.
O puritanismo designava uma
concepção da fé cristã desenvolvida na
Inglaterra por protestantes radicais após a
reforma protestante. Os adeptos dessa seita
religiosa eram bastante rígidos nos costumes,
sobretudo quanto ao comportamento sexual,
por isso tentavam evitar a difusão de assuntos
relativos ao sexo (PANIZA, 2007).
Essa forma de estancar o discurso
sobre o sexo, pelos puritanos, por exemplo,
pode ser entendida como uma via de
repressão social e adoecimento, porque a
repressão é um fenômeno que causa as
neuroses que impede a liberação das energias
vitais. Para Seixas a Idade Moderna foi uma
época de extensão dos costumes medievais
recatados, mas que a reforma protestante
possibilitou tornar alguns deles menos rígidos
como o divórcio, por exemplo.
A repressão social praticada por
alguns e vivenciada por outros, nesse período,
demonstra que o tratamento dado à questão
sexual provocou uma conturbação na forma
de perceber a intimidade sexual nas relações
e, a primeira vista, esse modelo
experimentado parece distante da perspectiva
ideal do ponto de vista profilático à vida
sexual do indivíduo e de acordo com o
postulado na literatura, pois que se perdurou,
ainda, por outras épocas até a atualidade.
SEXUALIDADE
CONTEMPORÂNEA
NA
IDADE
Ainda na Idade Contemporânea, a
partir do Séc. XVIII pontuou Seixas (1998), o
modelo de repressão continua sendo mantido
sem muitas novidades, sem haver um
deslocamento progressivo sobre o discurso
sexual e sua importância para a saúde. A
relação entre o homem e a mulher ainda se dá
pela dominação de um sobre o outro, ou seja,
do homem sobre a mulher.
Depois da abolição de 1988, disse
Seixas, a mulher brasileira teve sua
sexualidade reprimida por força do estado que
buscava exaltar a sexualidade conjugal,
visando não transmitir doenças sexuais e
contaminar o feto, por ocasião da gravidez,
pois assim acreditavam que era possível. Em
seguida tenta-se estimular a vida sexual dando
uma conotação de obrigatoriedade cível do
gozo individual, não porque era importante
para a vida, mas por receio de a mulher,
através da automasturbação, provocar dano ao
feto. Fatos assim dão demonstração de que
existe um controle social através do corpo,
sobretudo do corpo feminino e reforça a
repressão sexual já propalada em outrora a
exemplo da Idade Média.
O pensamento de Foucault (1984)
e Seixas (1998) aflui na mesma direção
quando se referem à proliferação de discursos
sobre sexo durante o século XVIII. Para eles o
próprio poder incitou essa disseminação de
discursos, através de instituições como a
família, Igreja, escola e comunidade médica.
Foucault alegou que essas instituições não
visavam proibir ou reduzir a prática sexual,
mas, sim, o controle do indivíduo e da
população. Todavia isso leva a crer que,
apesar de se haver alguns canais de discussão
sobre o sexo, a forma de tratar do assunto não
foi suficientemente pensada para fortalecer a
intimidade sexual das pessoas e prevenir a
repressão.
Mesmo assim, ao dizer sobre a
incitação do poder, Foucault não nega que o
sexo tenha sido reprimido. Em dizer que
durante o século XVIII e, principalmente, no
século XIX houve uma dispersão dos
discursos pontuais sobre o sexo, antes
restritos à Igreja, sinalizou que tal discussão
tomou forma diversificada seja na psiquiatria,
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justiça penal, demografia ou política, que
passaram a preocupar-se com a questão
sexual.
Discorrido sobre o processo
histórico da sexualidade humana, ainda que
de maneira bem sintética, parece sobrar
razões para o discurso de W. Reich sobre a
temática inicial e seus desdobramentos. O
foco, todavia, deve convergir em torno da
sexualidade e do orgasmo sexual como
fenômeno vital e, nesse sentido, Reich buscou
provar e houve uma grande repercussão à
sociedade da época.
REICH E A QUESTÃO DO ORGASMO
Primeiramente cabe definir o que
seja o orgasmo. Ximenes (2000) o definiu
como o mais alto grau de excitação dos
sentidos no ato sexual. Portanto, o prazer
físico mais intenso que um ser humano pode
experimentar. Reich amplia esse conceito
para o de potência orgástica, que significa a
possibilidade
de
entrega
na
vida,
caracterizando uma estrutura de vida saudável
do indivíduo. Com sua teoria sobre o orgasmo
sexual Reich decididamente buscou quebrar
as barreiras do tabu sexual através de seus
estudos, provocando inquietação em algumas
instâncias como, por exemplo, na esfera
médica e religiosa. Há quase um século
quando Reich começou seus trabalhos sobre a
educação sexual e neurose o assunto causava
espanto à sociedade da época, sobretudo, ao
recorte social dominante que vigiava
incessantemente as condutas sexuais, fossem
nas famílias, na Igreja ou escolas. Apesar de
ter sido muito criticado pela sua ‘ousadia’ em
tratar de um assunto notadamente censurado,
sua teoria sobre o orgasmo é aceita até os dias
atuais, além de ser referência para muitos
outros estudos sobre sexualidade humana
(LOWEN, 1988).
Para Reich (1986) o orgasmo está
relacionado à neurose, cuja maior fonte de
formação é a repressão social e cultural dos
instintos naturais e da sexualidade durante as
três primeiras fases do desenvolvimento da
vida: infância, puberdade e idade adulta. Para
ele a plenitude orgástica está condicionada à
dissolução das couraças, formada durante
processo civilizador. Bueno (2001) concorda
que muitos problemas na sexualidade humana
têm sua nascente no processo civilizador nas
instâncias sociais as quais o indivíduo se
insere como política, cultura, religião e
educação, por exemplo. Ele também
mencionou que isso tudo tem grande
implicação negativa na saúde no que se refere
a distúrbios psicossomáticos.
Retomando a questão das
couraças Reich as descreveu como a soma das
forças defensivas repressoras, que são
organizadas na estrutura do ego. Essas forças
são uma tensão que bloqueia a passagem do
fluxo energético e biológico, deixando, assim,
o corpo tenso, envelhecido e doente. Esse
processo ocorre devido às proibições, medos e
também pela educação sexual repressora
passada pelos pais, escolas e religião,
instalando-se, assim, as neuroses como
conseqüência desse modelo de educação. Até
aqui o que Reich faz é uma leitura crítica do
modelo de educação e formação do caráter do
individuo durante a vida, por meio de suas
investigações.
Como pesquisador estudioso,
Reich descobriu que os pontos vulneráveis
para instalação dessas couraças são os olhos,
boca, pescoço, tórax, diafragma, abdômen e
pélvis, respectivamente. Para livrar-se delas,
sinalizou, será necessária a efetiva quebra dos
sete seguimentos de armadura chamados por
ele de anéis, ou seja, uma espécie de energia
negativa que bloqueia a passagem da energia
positiva que circula em movimento vertical de
baixo para cima do corpo humano, nos sete
pontos já descritos, através de exercícios
atacando diretamente os músculos. Tais
exercícios variam desde beliscões, tapas, tosse
até as tentativas de vômitos, como meio para
mobilizar os segmentos encouraçados.
Antes disso, disse Reich, os
indivíduos não expressam suas emoções
biológicas mais primitivas: o gozo pleno. A
cura da neurose permite a evolução do
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orgasmo restrito aos genitais impedidos de
evoluir pelo corpo e que se dá, efetivamente,
pela potência orgástica. Isto é, “(...) a
capacidade de abandonar-se, livre de
quaisquer inibições, ao fluxo da energia
biológica; a capacidade de descarregar
completamente a excitação sexual reprimida,
por meio de involuntárias e agradáveis
convulsões do corpo” (REICH, 1986 p. 94).
O autor assinalou que a potência
orgástica garante o equilíbrio da energia e,
consequentemente, um estado de paz interior.
Dessa forma, para manter um grau satisfatório
de saúde psicológica e física é, pois,
imprescindível uma vida sexual saudável. De
acordo o pensamento de Reich a pessoa
orgasticamente impotente, experimenta um
esgotamento obscuro, desgosto, repulsa,
aborrecimento ou indiferença e que a insônia
é uma das características marcantes de
problemas relacionados à insatisfação sexual.
No contorno dos problemas psíquicos,
sobretudo na mulher, Reich disse que
A gravidade de todas as formas de
enfermidade
psíquica
está
diretamente relacionada com a
gravidade da perturbação genital.
As probabilidades de cura e o
sucesso da cura dependem
diretamente da possibilidade de
estabelecer a capacidade para a
satisfação genital plena [...] A
perturbação da capacidade de
experimentar satisfação genital,
de experimentar aquilo que é o
fato natural por excelência,
mostrou que era um sintoma
sempre presente nas mulheres e
raramente nos homens (REICH,
1986, p. 90).
OUTROS
OLHARES
SOBRE
SEXUALIDADE HUMANA
A
Além de Reich se encontrou, em
alguns
outros
teóricos,
importantes
compreensões sobre a dinâmica sexual dos
indivíduos. Dentre eles, destaca-se Osório
(2002) o qual propôs que o sexo é uma
importante fonte de prazer físico e bem-estar
psicológico, não apenas o sexo coital com fim
em si, e sim como elemento gerador da
energia vital. Este autor fez menção à energia
vital, já postulada por Reich, mas não
menciona o orgasmo como elemento
fundamental à liberação dessa energia vital
que fica represada, caso o orgasmo não
aconteça. Se assim, ao contrário do que Reich
descobriu, o indivíduo não pode gozar de boa
saúde psíquica, pois que fica preso à neurose
possibilitando o adoecimento.
Do mesmo modo Back (2005)
surgiu afirmando que, de acordo com o a
Organização Mundial de Saúde (OMS), a
atividade sexual de boa qualidade ou a
felicidade sexual é condição básica de
excelência na promoção da saúde humana. De
sorte que a ausência do prazer sexual pode
desencadear problemas como depressão, mau
humor, insônia e outros problemas. Para
completar disse, também, que a anorgasmia
pode comprometer a saúde do indivíduo. Essa
idéia de Back converge com o pensamento de
Reich sobre a condição de o individuo
garantir boa saúde psíquica e livrar-se das
doenças.
Back estimou que mais de 50%
das mulheres sofrem de anorgasmia. Para ele,
assim como para Reich, o sintoma
anorgásmico é mais presente na mulher do
que no homem. Nesse quesito as mulheres
sempre foram e ainda são mais difíceis de
atingir o orgasmo, pois, ao que parecem, as
zonas eróticas feminina são mais complexas e
difusas em relação aos homens, afirmou
Back. De todo modo, cabe saber o porquê
dessa nebulosidade em relação ao gênero.
Será que tem nascente biológica, psicológica
ou aparece devido ao processo civilizador e a
educação da mulher? Eis, então, uma nova
proposta de investigação.
Mas não foi somente em Back que
se constatou expressivo número de pessoas
com problemas sexuais. Neiva (apud
ALMEIDA et al., 2005) já havia encontrado
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resultados semelhantes, sobre a vida sexual
das mulheres brasileiras, os quais Back pode
confirmar. Se para Neiva a sexualidade
humana é considerada uma das necessidades
básicas, assim, pois, considerou então se deve
vivenciá-la com qualidade. Mas de longe se
percebe que as pessoas hoje em dia, embora
estejam com mais maturidade em relação ao
sexo, continuam confusos sobre o seu papel.
Isso encontra sustentação em Lowen (1988)
quando sinalizou que, apesar de haver uma
vasta literatura sobre o sexo, não há técnicas
de esclarecimento para enfrentar a
infelicidade sexual. Fato que incorre em uma
pseudo-evolução da sexualidade que mais
parece um embuste insistindo os conflitos e as
ansiedades sexuais.
Menezes (2000) considerou o
desconhecimento do próprio corpo pelas
mulheres e pelos homens como sendo um dos
maiores problemas para o orgasmo. Não seria
prudente pensar que a mulher já se conheça
perfeitamente quanto às zonas de prazer
sexual, por ser na fase da adolescência a fase
em que os indivíduos, pelo processo natural,
começam as descobertas das zonas eróticas,
através da automanipulação? Daí emana outra
questão. Quem não conhece quem? Ou as
relações entre pares estão comprometidas
pelas relações sociais as quais fazem parte?
Essas questões parecem intrigantes, sobretudo
quando se nota que há foco sobre a pessoa do
sexo feminino como Veiga (2007) enfatizou.
Esta autora mira o foco na figura da mulher a
qual deve empreender curiosidade sobre o seu
corpo e passar a se conhecer mais. Muito
embora também se refira ao casal, alertando
que o diálogo focal deve fazer parte da
relação sexual, antes, debruça-se sobre a
mulher.
Questões
assim
permitem
entender que está faltando, sim, diálogo e
conhecimento por parte de cada um dos
parceiros, em relação ao outro, sobre as regras
do prazer. Pois que, se é verdade que cada
pessoa sabe das suas zonas de prazer, resta
apenas esse conhecimento pelo seu parceiro
ou parceira para uma efetiva relação sexual
eficaz. Disso tudo se pode concluir que para
se chegar ao orgasmo é preciso mesmo
desbravar um caminho alheio e o “orgasmo
neste sentido nada mais é do que a área mais
sensível das relações humanas que alguém
pode encontrar [...]” (BOADELLA, 1985 p.
27).
Reich diria, talvez, que um casal
com problemas sexuais estaria no processo de
encouraçamento, retendo energia vital e que
careceria de uma terapia corporal para
libertar-se da neurose sexual. Esse
pensamento seria o equivalente ao diálogo
entre o casal, proposto por Veiga. Então
Boadella (1985) veio reforçar o que fora dito
por Reich, dizendo que tão logo as pessoas
renunciavam à sua couraça, desenvolviam
potência
orgástica
e
mudavam
o
funcionamento
neurótico,
desenvolviam
capacidade de auto-regulação.
Foi Menezes quem afirmou que o
desconhecimento do corpo gera relevante
prejuízo na obtenção do orgasmo sexual,
primeiramente por causa dos paradigmas do
sexo e pelo alarde produzido pela mídia;
segundo porque, depois de décadas de
silêncio em vez de descortinarem o mito do
orgasmo, ele continua dissimulado como uma
sensação quase impossível de atingi-lo: perder
os sentidos, ver estrelas, ir aos ares dentre
outras denominações bizarras. Ao invés de
contribuir com a evolução, confunde-se mais.
Nesse sentido Veiga concorda com Menezes e
também sintetiza sua crítica à maneira de se
perceberem as sensações orgásticas.
Voltando a Menezes, este chamou
a atenção àqueles que controlam a ejaculação
- o orgasmo, para esperar a vez da parceira ou
para mostrar-se potente no desempenho
sexual, pois que o controle da ejaculação
prejudica a saúde, porque atrapalha a resposta
do organismo que se preparou durante todo o
processo
excitatório
produzindo
uma
explosão de substâncias que serão liberadas
no orgasmo. Este indivíduo controlador da
energia vital Lowen o chamou de sujeito
sofisticado, pelo fato de ele estar mais
preocupado com o seu desempenho sexual, no
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sentido de causar impressão a si e ao outro e a
elevação desse outro ao clímax sexual, mais
do que com sua própria subjetividade sexual.
A crítica de Lowen à sofisticação sexual é
considerá-la uma “barreira a maturidade
sexual” e segue afirmando que tal barreira
“[...] deve ser eliminada para que nossa
liberdade sexual possa chegar ao prazer e à
alegria de viver e de amar” (LOWEN, 1988,
p. 17).
Até aqui se fez algumas
considerações acerca da vida sexual do
indivíduo e como as conseqüências da
qualidade da relação sexual pode refletir nele
próprio, ou seja, na sua saúde. Nesse sentido
podemos verificar que o orgasmo tem a
função de liberar a energia sexual represada
no corpo, que dá origem aos vários tipos de
mecanismos neuróticos, favorecendo a
preservação da saúde psíquica do indivíduo,
em concordância à teoria Reichiana. Foi
possível verificar também que um dos
grandes benefícios do orgasmo sexual é o
restabelecimento do fluxo natural da
bioenergia e, de forma geral, podemos dizer
que a liberação da energia vital vai refletir
diretamente no comportamento do individuo,
pois que a satisfação sexual é a via régia da
energia vital, que não deve ser contida como
condição edificante à saúde do indivíduo, de
acordo a leitura dos autores referenciados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na literatura estudada, verificouse que o orgasmo reflete benefícios à saúde
do indivíduo. Para tanto é preciso que este
seja orgasticamente potente, isto é, tenha a
capacidade de expressar suas emoções
biológicas. O individuo orgasticamente
potente é aquele que experimenta o gozo
pleno, que está livre de inibições e abandonase a um nobre sentimento natural do qual
emana da excitação sexual.
Este estudo permitiu verificar que
não somente o orgasmo é importante para a
saúde do indivíduo, mas a troca de carícias e a
oportunidade de uma vivência de intimidade
física com outra pessoa, para a manutenção da
qualidade de vida. Concernente ao estudo das
couraças, realizado por Reich, possibilitou
perceber que como a mente o corpo reage às
trapaças da vida, inteligentemente, criando
mecanismos de defesa para se proteger e
manter-se em homeostase. Por isso ele forma
suas armaduras de defesa ao longo da vida, no
processo de formação social, em interação
com meio. As áreas de seleção de defesa do
corpo, foi constatado, comprometem os
sentimentos e as emoções, porque favorece
uma espécie de anestesiamento desses
sentimentos e emoções, no indivíduo. Esta é,
pois, mais uma questão que merece
elucidação: o que aconteceria com o corpo se
ele não se protegesse contra os “ataques” da
vida?
Nos meandros percorridos e
estudados sobre a temática deste trabalho,
vale ressaltar, não se encontrou nenhuma
teoria que contrariasse a teoria relacionada ao
orgasmo e neurose proposta por Reich. Dentre
o que foi visto, é razoável crer que este autor
chegou ao cerne da verdade, pois que muitos
se referem a ele ratificando seu trabalho haja
vista a falta de estudos mais aprofundados ou,
talvez, sem novas comprovações que possam
suplantar seus resultados. Convém mencionar,
todavia, que embora se tenha percebido um
esvaziamento de novos estudos voltados a
novas compreensões, é salutar uma leitura
atenta às observações feitas pelos estudiosos
sobre a sexualidade humana e relações
sexuais, no sentido de corroborar a saúde e a
qualidade de vida pessoal.
Enfim, saber que o orgasmo tem a
função de liberar a energia sexual represada
no corpo, favorecendo a preservação da saúde
psíquica e física, é salutar para que as
pessoas, sexualmente ativas, possam analisar
a qualidade das relações sexuais mantidas e
praticadas e, assim, identificar os meios de
lograrem os benefícios do gozo pleno. Tudo
que foi posto pode contribuir, positivamente,
na vida das pessoas na tentativa de ratificar o
que já fora dito de várias maneiras e mostrar
que o estudo científico possibilita conduzir os
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indivíduos a trilharem na via que lhe for
melhor. Ainda que se tenha embasado este
estudo em fontes críveis, importa dizer que
para
tornar
essas
conclusões
mais
significativas
é
preciso
ampliar
as
investigações, quanto ao tema estudado, por
se tratar de um assunto complexo, além de
que não é pretensão deste trabalho esgotar
outras diferentes possibilidades sobre a
dinâmica sexual entre indivíduos.
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(1988).
Psicologia &m foco, Aracaju, Faculdade Pio Décimo, v. 2, n. 1, jan./jun. 2009
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