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A Linguística Aplicada no Brasil e as pesquisas em língua espanhola

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A Linguística Aplicada no Brasil e as pesquisas em língua espanhola
A LINGUÍSTICA APLICADA NO BRASIL E AS PESQUISAS EM LÍNGUA
ESPANHOLA
Doris Cristina Vicente da Silva Matos
Orientadora: Profa Dra Márcia Paraquett
RESUMO
Este artigo tem como objetivo discutir as mudanças paradigmáticas da Linguística Aplicada a
partir da década de 1990, relacionando-as ao ensino/aprendizagem de línguas na
contemporaneidade e sua importância para o avanço das pesquisas nesta área no Brasil. Será
abordado também, o lugar das investigações relacionadas à língua espanhola no cenário
mundial e nacional, finalizando com a urgência de novos parâmetros em pesquisa para a
Linguística Aplicada que estejam atentos às necessidades globais e locais na era da tão
proclamada globalização.
Palavras-chave: Ensino/aprendizagem de língua espanhola. Linguística Aplicada. Pesquisa.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo discutir los cambios paradigmáticos de la Lingüística
Aplicada a partir de la década de 1990, relacionándolos a la enseñanza/aprendizaje de lenguas
en la contemporaneidad y su importancia para el avance de las investigaciones en este área en
Brasil. Será abordado también, el lugar de las investigaciones relacionadas a la lengua
española en el escenario mundial y nacional, terminando con la urgencia de nuevos
parámetros en investigaciones para la Lingüística Aplicada que estén atentos a las necesidades
globales y locales en la era de la tan proclamada globalización.
Palabras-clave:
Enseñanza/aprendizaje
de
lengua
española.
Lingüística
Aplicada.
Investigación.
1 O PRESENTE E FUTURO DA LA: PERSPECTIVAS
A ciência social denominada Linguística Aplicada sofreu, desde seu surgimento,
diversas mudanças conceituais. Moita Lopes (1996) a define como uma área de investigação
que se ocupa das questões referentes à linguagem, tais como os problemas enfrentados pelos
participantes do discurso no contexto social, seja dentro ou fora do ambiente de
ensino/aprendizagem, entretanto não foi sempre esta a sua definição. Ao longo das décadas, a

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura da Universidade Federal da Bahia. E-mail:
[email protected]m.br
DORIS CRISTINA VICENTE DA SILVA MATOS
Linguística Aplicada (doravante LA) passou por várias transformações até deixar de ser
entendida apenas como aplicação de teorias linguísticas a questões do ensino de línguas,
sobretudo, ao ensino de línguas estrangeiras e atingir o seu atual status de ciência social,
interdisciplinar e independente da Linguística geral ou Linguística teórica.
Neste trabalho me centrarei na LA a partir de 1990, pois, foi nesta década que esta
área do conhecimento começou a se reinventar, expandindo seus horizontes para além dos
limites da sala de aula e outros contextos institucionais passaram a ser foco de pesquisas na
área. Os contextos de ensino e aprendizagem de línguas, principalmente o inglês, ainda
ocupavam grande parte das pesquisas, porém outras fronteiras são perpassadas a fim de que
esta ciência rompesse com os modelos anteriores de teorizar e fazer LA.
Essa nova maneira de compreender a LA faz com que a própria disciplina seja
renomeada e ela recebe algumas qualificações, como: “indisciplinar”, “mestiça” ou
“nômade”, na denominação de Moita Lopes (2006), “transgressiva”, “antidisciplinar” e
“modernista”, conforme a nomeia Pennycook (2001; 2006), ou como LA da
“desaprendizagem” (FABRÍCIO, 2006) que vêm a corroborar com o conceito de Linguística
Aplicada Crítica que é esta nova e recente proposta de mudança na área da Linguística
Aplicada que visa a interferir na realidade social, na medida em que propõe pesquisas e
práticas pedagógicas que dialoguem diretamente com as necessidades sociais dos sujeitos
envolvidos.
Pennycook (1998) propõe em seu artigo: A linguística aplicada dos anos 90: em
defesa de uma abordagem crítica, o que ficou conhecido como Linguística Aplicada Crítica
(doravante LAC), entendendo-a como uma forma de antidisciplina ou conhecimento
transgressivo e esclarece que “as sociedades são desigualmente estruturadas e são dominadas
por culturas de ideologias hegemônicas que limitam as possibilidades de refletirmos o
mundo” (PENNYCOOK, 1998, p.24). O autor acrescenta que a aprendizagem de línguas está
totalmente vinculada à manutenção ou à possibilidade de mudanças dessas desigualdades.
Sabemos, então, que, ao privilegiarmos determinados padrões culturais e linguísticos, nós,
professores de línguas estrangeiras, nos tornamos, na maioria das vezes, reprodutores dessas
desigualdades.
Mais explicitamente sobre a LA, Pennycook (1998, p. 46) defende que:
Como linguistas aplicados, precisamos não só nos percebermos como intelectuais
situados em lugares sociais, culturais e históricos bem específicos, mas também
precisamos compreender que o conhecimento que produzimos é sempre vinculado a
interesses. Se estamos preocupados com as óbvias e múltiplas iniquidades da
sociedade e com o mundo em que vivemos, então creio que é hora de começarmos a
assumir projetos políticos e morais para mudar estas circunstâncias. Isso requer que
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rompamos com os modos de investigação que sejam associais, apolíticos e ahistóricos.
Entendo que a investigação em LA contemporânea precisa estar atenta às
características do sujeito pós-moderno, que não é mais visto como detentor de uma identidade
pronta e acabada, mas sim como um sujeito em constante estado de construção e
reconstrução, a partir de suas interações com outros sujeitos e contextos sociais. Segundo
Rajagopalan (2003, p.71) “em qualquer momento dado, as identidades estão sendo adaptadas
e adequadas às novas circunstâncias que vão surgindo”.
O mundo em que vivemos está marcado pelas instantâneas transformações das
relações sociais e econômicas que trazem como consequências alguns fatores: os avanços
tecnológicos, o rompimento de fronteiras, o diálogo entre culturas, os conflitos entre nações e
a hierarquização cultural. Nesse cenário, erguem-se a preocupação e o debate sobre questões
culturais e identitárias, buscando-se compreender essa sociedade constituída de sujeitos
plurais, baseada na diversidade e caracterizada, principalmente, pela desigualdade.
Percebe-se que existe uma lacuna no que diz respeito às pesquisas relacionadas à
LAC, pois, segundo Brito (2008, p. 29) e Silva (2008, p.24), que defenderam suas teses de
doutorado nesta área de conhecimento e fizeram um levantamento bibliográfico sobre o tema
em âmbito nacional e internacional (notadamente Espanha), foi constatada uma escassez de
estudos na área da LAC já que se trata de uma nova e recente proposta de mudança na área da
LA, sendo necessário ampliar o universo dos estudos nesse campo de pesquisa. Para as
autoras, a LA alcança neste momento uma maturidade, tanto interna, quanto externa e em
âmbito internacional, o que se pode perceber por suas redefinições teóricas e seu crescimento
e reconhecimento em congressos e associações pelo mundo.
Ao focar o país no qual Brito (2008) e Silva (2008) realizaram parte de sua pesquisa
de Doutorado, a Espanha, percebo que nele a LA ainda não é vista com este viés crítico e
atento às demandas dos sujeitos plurais da atualidade. No levantamento feito pelas autoras,
Silva (2008, p. 24) conclui que naquele país ainda há uma preocupação muito grande em
questões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem, notadamente do espanhol como
língua estrangeira, focalizada unicamente no aspecto didático, ainda que haja estudos
preocupados com estratégias e recursos recentes de uso global. Esta situação para Silva (2008,
p. 24):
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DORIS CRISTINA VICENTE DA SILVA MATOS
(...) representa uma notória preocupação e empenho por ganhar espaço e retorno
monetário no mercado editorial mundial, com o incentivo e promoção a
determinadas editoras. Logicamente, essa postura também se caracteriza como uma
reação frente à ameaça que o ensino de Inglês tem representado, desde o próprio
surgimento de LA e dessa mais recente leva de globalização que estamos vivendo
todos, em maior ou em menor escala, para o bem ou para o mal.
Conforme já explicitei anteriormente, a LA tem seu início marcado pelo interesse em
questões relacionadas ao ensino e aprendizagem de línguas, notadamente o inglês e na atual
sociedade em que vivemos a língua, que Elio Antonio de Nebrija1, em 1492, já apontava na
primeira gramática de língua espanhola como instrumento do império, é sinônimo de poder,
não só cultural, como monetário. Esse interesse no desenvolvimento de pesquisas que tenham
um retorno financeiro para editoras impede o avanço das pesquisas em LA que tenham uma
visão crítica desta ciência e que estejam em conformidade com os problemas enfrentados por
nossa sociedade, impedindo “o alargamento dos horizontes da LA no país e bloqueando uma
produção teórica mais abrangente que deixe de marcar passo em questões que pertencem à
fase de arrancada da disciplina”. (SILVA, 2008, p. 25)
Passando do interesse financeiro para o social, Rajagopalan (2003, p.48) já apontava
para o fato de muitos pesquisadores estarem se convencendo da consciência social do
linguista e também para a formação de “um amplo consenso em torno do papel social do
linguista e de suas responsabilidades perante a sociedade”, o que corrobora com a necessidade
de novos parâmetros para a pesquisa em LA, tornando nossas investigações socialmente
relevantes. Sobre a mesma temática, Moita Lopes (2006, p.22) afirma que a LA “necessita da
teorização que considera a centralidade das questões sociopolíticas e da linguagem na
constituição da vida social e pessoal” e Fabrício (2006, p.52) indica que as pesquisas no
campo “navegam por novos mares”, mares estes que não podem conceber mais o
desenvolvimento de pesquisas que não estejam politicamente e socialmente engajadas e se
preocupem somente com aplicação de teorias linguísticas para a resolução de problemas
surgidos no processo de ensino e aprendizagem de línguas, somente no espaço da sala de aula.
2 A LA NO BRASIL
Conforme explicitado anteriormente, a LA foi vista durante muito tempo como
sinônimo de ensino de línguas e como um campo de estudo de aplicação da Linguística
1
Elio Antonio de Nebrija (1444-1522) foi um humanista e filólogo espanhol,
primeira gramática da língua castelhana (1492) e do primeiro dicionário espanhol (1495).
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autor
da
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teórica. Mundialmente, essa ideia perdurou por muito tempo inclusive para aqueles mais
leigos essa é ainda a concepção da LA, entretanto, ao nos voltarmos para a situação da LA no
Brasil, percebemos que diferentemente da situação das pesquisas em outros países, já há um
quadro epistemológico de ruptura com os paradigmas defendidos até então e que não viam a
LA como uma ciência interdisciplinar que está preocupada com os problemas relacionados ao
uso da linguagem em diferentes contextos sociais.
Para Moita Lopes (2006, p. 16) hoje, é possível dizer que a LA é um campo
relativamente bem estabelecido em nosso país e é possível comprovar este feito pelos muitos
programas de pós-graduação na área, pelo apoio das agências de fomento à pesquisa e pela
criação, em 1990, da Associação de Linguística Aplicada no Brasil – ALAB. A página web da
ALAB 2 indica como objetivo da Associação:
(re) construir um lócus acadêmico-científico e reflexivo, fomentando, por sua vez,
estudos e reflexões da área de LA, não concebida mais como aplicação de teorias
linguísticas, mas como um campo de investigação indisciplinar, transgressiva e
híbrida.
A LA se tornou uma disciplina híbrida ou mestiça, onde a interdisciplinaridade, que
ainda é vivida timidamente, é cada vez mais um caminho a ser seguido. Isto é, a LA deve
dialogar com outras áreas, como as ciências sociais, a antropologia, a sociologia, etc, pois,
como afirma Moita Lopes (2006, p.96) “Se quisermos saber sobre linguagem e vida social nos
dias de hoje, é preciso sair do campo da linguagem propriamente dito: ler sociologia,
geografia, história, antropologia, psicologia cultural e social etc.” Pois, parece imprescindível
que a LA se aproxime das áreas que enfoquem o social, o político e a história, ou melhor, essa
é a condição para que a LA possa responder às demandas da vida contemporânea.
Esse novo modo de conceber a LA permite entender melhor os paradigmas existentes
nos dias atuais, já que em meados da década de 1980 até a de 1990 as pesquisas realizadas
dentro dessa área começam a investigar outros contextos sociais que não lidam com ensino,
passando a ser entendida, inclusive, como indisciplinar, ou seja, se reconhece que não pode
mais se constituir como disciplina. Isso se dá pelo fato de que a LA também deseja ousar
pensar de forma diferente da linguística, isto é, ir além de paradigmas consolidados, prontos,
acabados e consagrados.
2
http://www.alab.org.br/pt/a-alab Acesso em 21 de maio de 2012
Revista Inventário - 12ª edição - Jan-Julho. 2013- www.inventario.ufba.br. ISSN 1679-1347
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DORIS CRISTINA VICENTE DA SILVA MATOS
A LA contemporânea deixou de ser associada quase que exclusivamente ao
ensino/aprendizagem de língua estrangeira e dependente do embasamento teórico proveniente
da linguística, considerada, como apontado logo no início desta seção, a sua ciência-mãe. A
LA não ignora visões importantes de outras áreas do conhecimento e as novas perspectivas
têm tratado as práticas a serem investigadas de forma contextualizada, encarando os
indivíduos de pesquisa como heterogêneos e sujeitos ao contexto sociocultural em que estão
inseridos, ou seja, os indivíduos são concebidos socialmente.
3 O LUGAR DA LÍNGUA ESPANHOLA NAS PESQUISAS EM LA
No que se refere às pesquisas em LA na área de espanhol, há ainda uma grande
discrepância entre pesquisadores que participam de eventos ou publicam artigos em
coletâneas referentes à LA quando se compara com a área de língua inglesa. Paraquett (2009)
ao realizar um levantamento dos trabalhos publicados na Revista Brasileira de Linguística
Aplicada (RBLA) desde o lançamento de seu primeiro volume, em 2001 até o décimo quarto
volume, em 2008, constatou que de um total de 130 artigos, apenas 3 se dedicavam ao
espanhol, enquanto 60 se dedicavam ao inglês. Os outros 67 artigos versavam sobre temas
diversos, como estudos do português como língua materna ou estrangeira etc. A partir desta
constatação, a autora tenta em seu artigo descobrir o lugar que ocupam os professores de
espanhol no cenário das pesquisas brasileiras, para poder pensar em estratégias que coloquem
estes mesmos professores “em um novo lugar, mais próximo ao de outros professores e
pesquisadores de línguas estrangeiras de nosso país.” (PARAQUETT, 2009, p. 124)
Em uma publicação mais recente, Paraquett (2012, p. 226) aponta que os números da
RBLA referentes a 2009 e 2010 estão caracterizados pela pulverização de temas, sem que haja
uma preocupação com línguas estrangeiras, o que em seu ponto de vista “confirma o
amadurecimento da publicação”. Essa pulverização de temas indica o caráter interdisciplinar
da disciplina e, segundo a página web3 da revista, revela a preocupação com temas “que
tratam dos muitos fenômenos relacionados a problemas de linguagem da vida real
relacionados à língua em uso em contextos diversos ou à aprendizagem”. Ao verificar os
números referentes aos anos de 2011 e 20124 foi possível confirmar que as temáticas dos
artigos apresentados são cada vez mais diversas e preocupadas em desenvolver uma
abordagem crítica para a LA.
3
4
http://www.periodicos.letras.ufmg.br/rbla/ Acesso em 21 de maio de 2012
http://www.periodicos.letras.ufmg.br/rbla/ Acesso em 21 de maio de 2012
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A LINGUÍSTICA APLICADA NO BRASIL E AS PESQUISAS EM LÍNGUA ESPANHOLA
Para entender esse lugar que ocupam os pesquisadores da área de espanhol nas
investigações em LA é importante recorrer aos processos históricos que culminaram na
posição que ela ocupa hoje. Paraquett (2009) enumera os fatos que considera fulcrais para seu
estabelecimento:
- o início da história de seu ensino no Brasil, em 1919, como disciplina no
Colégio Pedro II;
- a criação, em 1941, do curso de Letras Neolatinas na Universidade Federal do
Rio de Janeiro;
- a assinatura, em 1942, do decreto-lei (N. 4.244) que reconhece o espanhol como
uma das línguas do ensino médio e em 1958, o projeto de lei (4.606/58), que obriga o ensino
de espanhol nas mesmas bases do ensino de inglês;
- a assinatura das Leis de Diretrizes e Bases (LDB), em 1961 e 1971;
- a criação dos Centros de Línguas Estrangeiras Modernas, em 1979;
- a fundação no Rio de Janeiro da primeira associação de professores de espanhol
no Brasil (APEERJ), em 1981;
- a assinatura do Tratado de Assunção que resultou no acordo do MERCOSUL,
em 1991;
- a assinatura da atual LDB, em 1996;
- a fundação, em 2000, da Associação Brasileira de Hispanistas (ABH);
- e a assinatura da Lei 11.161, em 2005, conhecida como a Lei do espanhol.
Estes fatos históricos no percurso do ensino e difusão da língua espanhola no Brasil
não foram suficientes para que a disciplina se estabelecesse de maneira equiparada às
pesquisas de nossos colegas de língua inglesa no âmbito da LA. Para entender esta
discrepância, novamente é necessário remeter ao que acontecia naquele momento, pois
“enquanto nos preocupávamos com nossas questões internas (as leis e as associações), nos
afastávamos dos movimentos paralelos que aconteciam no Brasil, em particular, na área da
LA” (PARAQUETT, 2009, p. 127).
Almeida Filho (2007, p.89) aponta como o início da LA no Brasil o ano de 1978, ano
em que ele e Carmen Rosa Caldas-Coulthard voltaram ao Brasil de seu Doutorado na
Inglaterra, local em que se teorizavam questões em torno à LA e ao ensino de línguas. Esse
nascimento teria ocorrido durante um Seminário na Universidade Federal de Santa Catarina,
que teve como tema o ensino nocional-funcional, última novidade no âmbito do ensino de
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línguas na época. Um pouco antes, em meados dos anos 70 estes pesquisadores teriam
presenciado as mudanças paradigmáticas das propostas comunicativas para o ensino de
línguas, na própria Inglaterra e Escócia e naquele momento estavam retornando para o Brasil
com a necessidade de promover mudanças no âmbito da LA aqui também.
Percebe-se que muitos dos teóricos responsáveis pelo início dos trabalhos em LA no
Brasil são da área de inglês e realizaram seus Doutorados em países de língua inglesa, estando
preocupados com o ensino de línguas em geral, porém com forte filiação ao ensino de inglês.
Esta seria uma das principais explicações para o atual descompasso nas pesquisas produzidas
em outras línguas, notadamente o espanhol:
[...] enquanto alguns professores de inglês voltavam ao Brasil de seu doutorado na
Inglaterra trazendo na sua maleta as últimas novidades em métodos de ensino e
aprendizagem, os de espanhol continuávamos com o modelo gramaticalista e sem
dar conta das questões comunicativas, culturais ou discursivas que começam a ser
pensadas para a aprendizagem de línguas. (PARAQUETT, 2009, p. 128)
É notória a divergência no modelo de aprendizagem defendido durante uma mesma
época, pois no ensino de espanhol não se falava ainda em comunicativismo nos anos 70, foi
somente nos anos 90 que este modelo apareceu nos materiais didáticos produzidos na Espanha
e em consequente exportação para o Brasil e até hoje a compreensão do que seja este modelo
de aprendizagem pode não ter sido inteiramente compreendida entre os profissionais da área
(PARAQUETT, 2009).
Somamos este fato à posição que ocupa o interesse pela
aprendizagem da língua inglesa em nível mundial que teve seu início após a segunda guerra
mundial:
Por causa de sua internacionalização, o inglês tornou-se um dos mais cobiçados
capitais culturais do mundo contemporâneo em quase todos os contextos e passou a
ser demandado quase de forma obrigatória por uma parte significativa das mais
distintas sociedades. (SIQUEIRA, 2008, p.90)
O ensino do inglês pode ser comparado a uma indústria, pois quando falamos em
número e cifras, sua amplitude é gigantesca e milionária, gerando inúmeros postos de trabalho
e pessoas interessadas em sua aprendizagem. O Brasil não fica atrás, pois:
[...] faz parte do grupo de países do ‘círculo em expansão’, ou seja, onde o inglês é
falado e estudado como língua estrangeira (LE), ou para sermos mais coerentes com
o contexto contemporâneo, inglês como língua internacional (ILI). (SIQUEIRA,
2008, p. 91)
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Se pensarmos historicamente, o status de língua estrangeira mais estudada no Brasil é
recente, pois data de 1809 com um decreto de D. João IV, que determinava o ensino de inglês
e francês nas escolas públicas brasileiras e ao compararmos com os dados apresentados no
começo desta seção, o começo do ensino de espanhol data de 1919, como disciplina no
Colégio Pedro II. É um vácuo temporal de 110 anos que separa o início do ensino de inglês e
o início do ensino de espanhol nas escolas públicas brasileiras, o que corrobora também para a
diferença numérica nas pesquisas em cada área.
O interesse pela difusão da língua espanhola e seu consequente ensino, tanto em
cursos livres, como em escolas, ganhou força com a assinatura do Tratado de Assunção que
teve como resultado o acordo do MERCOSUL, em 1991, considerado como um dos mais
importantes passos para o processo de integração entre os países pertencentes ao Cone Sul do
continente
americano.
Podemos
perceber
que
questões
geopolíticas
influem
no
estabelecimento ou apagamento de uma determinada língua do cenário de prestígio mundial,
pois assim como um dia a língua francesa teve seu ápice como língua de prestígio entre a elite
mundial durante alguns séculos e sua consequente obrigatoriedade nas escolas de nosso país,
posteriormente vimos o mesmo acontecer com a língua inglesa concomitantemente com a
língua francesa, até vivenciarmos, infelizmente nos dias atuais o descaso com que esta língua
é vista no cenário brasileiro, cada vez mais perdendo espaço nas escolas.
Um fator a se ressaltar é a falta de prestígio das línguas dos imigrantes do sul do
Brasil, como o italiano e o alemão, pois apesar da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
(LDB) (1996) indicar que a comunidade escolar deve escolher a língua estrangeira de acordo
com suas possibilidades, não é o que acontece geralmente. Futuramente, não será possível
esquecer que as línguas orientais, como o coreano ou chinês precisarão estar nas escolas, pois
a cada dia crescem esses imigrantes no Brasil atual. Neste sentido, o ensino de língua
estrangeira deve apontar para uma perspectiva plurilíngue, que considere as especificidades
dos grupos com os quais atua.
Outra questão geopolítica que alavancou o ensino de língua espanhola no Brasil foi a
assinatura da Lei 11.161, no ano de 2005, conhecida como a Lei do espanhol, que determina a
oferta obrigatória da língua espanhola pelas escolas públicas e privadas e de matrícula
facultativa pelos alunos do ensino médio, facultando, também a obrigatoriedade de oferta ao
segundo segmento do ensino fundamental. Apesar de o tempo para a aplicação da Lei ter
expirado, ainda é comum encontrar escolas em que não é ofertado seu ensino, principalmente
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em regiões em que a formação de professores de espanhol não é significativa ou que não haja
uma mobilização política para cumpri-la. Através destes dados podemos perceber que o
ensino da língua espanhola nas escolas de nosso país vem aumentando significativamente,
embora ainda não esteja equiparado ao ensino da língua inglesa.
Assim sendo, percebo que nós os pesquisadores em língua espanhola ainda precisamos
ganhar mais espaço nas pesquisas e consequentes publicações em LA e mostrar para a
academia o muito que se tem feito em nossa área, não somente por questões geopolíticas, mas
profissionais, culturais e principalmente sociais. O percurso histórico explica nosso
apagamento científico, porém a história futura está sendo traçada neste momento e dependem
dos pesquisadores a divulgação e o fomento para que ocupemos cada vez mais espaço no
cenário das pesquisas brasileiras e possamos estabelecer o diálogo necessário com as outras
línguas estrangeiras que se ensinam em nosso país, contribuindo, assim, para a pluralidade
linguística e a difusão da LA.
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