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O CRUZAMENTO VOCABULAR EM GALÁXIAS, DE HAROLDO DE
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
O CRUZAMENTO VOCABULAR EM GALÁXIAS, DE HAROLDO DE CAMPOS
Alessandra Ferreira Ignez – USP
Introdução
Quando o assunto é formação de palavras, logo são mencionados os processos derivativos e
composicionais, talvez pela grande produtividade que possuem. Por sua vez, alguns processos são
esquecidos e considerados improdutivos, bem como marginais e anômalos, como no caso do cruzamento
vocabular. Entretanto, como se tem observado, o emprego desse tipo de formação tem se tornado cada vez
mais produtivo em discursos humorísticos, publicitários e literários, em virtude de seu resultado semântico
inusitado.
É comum verificar que muitos neologismos formados a partir de um cruzamento vocabular não vêm a
radicar-se na língua, isto é, possuem uma vida efêmera, que visa a ter um efeito de sentido para um
determinado contexto enunciativo. Contudo, é preciso lembrar que tais criações são extremamente ricas no
que diz respeito à quebra de expectativa, à expressividade e ao resultado semântico. Por essa razão, muitos
autores de obras literárias lançam mão do uso do cruzamento vocabular, buscando expressividade para seus
textos. Esse é o caso de Haroldo de Campos, que gosta de experimentar os efeitos provocados pela formação
de novas palavras. Em sua obra Galáxias, é possível observar um uso significativo dessas formações, além
de outras resultantes de demais processos. Os cruzamentos vocabulares existentes na obra deixam evidente a
criatividade de seu autor, bem como se revelam bastante expressivos graças à motivação semântica que
levou à formação.
Para se desenvolver um trabalho com formação de palavras, é preciso recorrer à Lexicologia e à
Morfologia. Alguns apontam a proeminência das análises dos neologismos de língua para os estudos
lexicológicos e morfológicos, no entanto questionam a importância da análise das criações existentes no
discurso literário para tais estudos, dada a efemeridade da vida dessas palavras, resultante de seu uso restrito.
Porém, é preciso encaminhar-se para defesa dessa importância, pois, embora a maioria dessas criações não
venha a fazer parte do acervo lexical da língua, representa as potencialidades de renovação do léxico, vindo
daí seu interesse para os estudos lexicais e morfológicos.
No caso dos neologismos existentes nos discursos literário, publicitário, humorístico, é necessário
também o apoio da Estilística, em virtude dos aspectos expressivos das palavras formadas. Sendo assim, a
análise voltada para as criações lexicais literárias deve fundamentar-se na Lexicologia, na Morfologia e na
Estilística, a fim de que sejam contemplados os processos formadores, os aspectos mórficos e a
expressividade das novas lexias.
Neste trabalho, apresentar-se-ão alguns aspectos do processo de cruzamento vocabular, além de discutir
sua importância para a Estilística. Serão analisados também alguns casos existentes na obra Galáxias, a fim
de se entender a proeminência essas criações para a obra, bem como a sua expressividade. Para tanto, buscarse-á apoio nas três áreas mencionadas acima.
Considerações sobre neologismo denominativo e neologismo estilístico
As criações lexicais comportam-se de maneira distinta nos diferentes universos de discurso em que
são empregadas. Nas línguas de especialidades, por exemplo, novos termos surgem a fim de preencher uma
necessidade comunicativa, sobretudo, denominativa. No entanto, no universo literário, por exemplo, as
criações não servem propriamente para nomear um novo conceito ou objeto, mas para suprir uma
necessidade expressiva. Como assinala Guilbert (1975, p. 40-44), mesmo que os processos de formação de
palavras sejam os mesmos, a neologia divide-se em dois grupos: denominativa e estilística. A primeira
presta-se a nomear o novo, acompanhando o desenvolvimento de uma dada sociedade e servindo de registro
de uma determinada época, ao passo que a segunda preocupa-se em traduzir de maneira inédita uma ideia já
conhecida, deixando transparecer um modo individual de se perceber a realidade, promovendo, pois, uma
(re)visão do modo de expressão. Dessa maneira, duas preocupações estão envolvidas no processo de criação
de palavras: ora denominativa, ora estilística.
Os neologismos de língua estão relacionados à história de uma sociedade, mas outros, em sua
maioria estilísticos, marcam uma obra ou um dado enunciador, mostrando a individualidade de seu uso.
Logo, “a criação lexical deve ser situada, por um lado, numa determinada época, em virtude de sua
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
pertinência à história do léxico, ligada à história da sociedade, e por outro, vista em função da
individualização das criações feitas por locutores identificados na comunidade linguística” (Barbosa, 1981,
p. 77- 78).
O neologismo denominativo possui mais chances de romper a barreira da aceitabilidade, de ser
atualizado por novos falantes em contextos comunicativos vários e de chegar a compor o léxico da língua,
em virtude de preencher uma necessidade comunicativa. Entretanto, os neologismos existentes no discurso
literário – estilísticos – dificilmente farão parte do léxico, pois seu uso está restrito a uma obra ou a um autor.
Cabe mencionar que não deve existir aqui um cotejo valorativo no que diz respeito a neologismos que
chegam a compor o léxico ou não, mas uma distinção baseada na função que desempenham em seus
universos discursivos.
Além das diferenças apontadas, é possível dizer que o discurso científico, por exemplo, evita a
ambiguidade, o duplo sentido, tentando fazer com que os neologismos criados sejam monossêmicos. Mas, o
discurso literário busca a plurissignificação, e muitos dos neologismos criados para ele são
multissignificativos, sendo a imprecisão semântica responsável também pela expressividade alcançada pela
nova lexia no discurso.
Tratando-se do discurso literário, é importante ressaltar que a criação de novas palavras revela a
criatividade do autor, bem como individualizam seu modo de expressão, tornando-se, pois, uma marca de
estilo. Segundo Bakhtin (1997, p. 283),
As condições menos favoráveis para refletir a individualidade na língua são oferecidas
pelos gêneros do discurso que requerem uma forma padronizada, tal como a formulação do
documento oficial, da ordem militar, da nota de serviço, etc. Nesses gêneros só podem
refletir-se os aspectos superficiais, quase biológicos, da individualidade (...). Na maioria
dos gêneros do discurso (com exceção dos gêneros artístico-literários), o estilo individual
não entra na intenção do enunciado, não serve exclusivamente às suas finalidades, sendo,
por assim, dizer, seu epifenômeno, seu produto complementar.
Observa-se que, na literatura, a criação de palavras faz parte da individualização do dizer e que busca
a expressividade, a novidade, a surpresa. A restrição de seu uso evita o seu desgaste, fazendo com que sua
carga de informação e sua novidade não sejam perdidas.
O cruzamento vocabular
Como mencionado, o cruzamento vocabular é considerado um processo de formação de palavras
marginal, improdutivo e anômalo. Contudo, vale observar que, em discursos como o literário, o humorístico
e o publicitário, palavras resultantes desse processo são empregadas com bastante frequência.
Esse processo consiste na redução das bases envolvidas no processo de criação, ou na redução de
pelo menos uma delas, gerando, assim, uma alteração morfofonológica. Alguns o consideram um tipo de
composição, mas, no processo composicional, ou bases são justapostas, ou fundem-se em um único acento
tônico. No caso do cruzamento vocabular, a união das bases se dá de maneira diferente.
É comum encontrar autores que dizem que a união das bases, no caso do cruzamento vocabular, é
desprovida de uma sistematicidade. Entretanto, por meio da observação das criações, é possível buscar uma
tipologia para elas. Cardoso (2009, s/n) assim as divide:
Dificilmente os cruzamentos são estudados como um processo de formação de palavras e,
algumas vezes, são confundidos e analisados como se fossem um caso de composição por
aglutinação. Nesse processo ocorre mais do que uma aglutinação, mas uma união
morfofonológica
impulsionada
e
motivada
pelo
resultado
semântico.
Embora considerado um processo de formação de palavras “marginal”, os cruzamentos
lexicais têm sua função e podem ser sistematizados e estudados como um processo
diferente da composição. Sua principal função, ao se manifestarem no discurso
concretamente realizado, é mostrar que o enunciador é capaz de revelar seus conceitos
internalizados e os efeitos de sentido que pretende apresentar, por meio da criação lexical.
Trata-se, portanto, de um processo em que unidades lexicais se mesclam formando outra
unidade, sem manterem, obrigatoriamente, seus radicais. Há casos em que se mantém a
parte inicial de uma unidade e a parte final de outra (portunhol), há casos em que uma
unidade mantém sua integridade morfofonológica e a outra sofre uma ruptura (showmício),
e há casos em que uma unidade adentra-se na outra (chafé, lixeratura, namorido), havendo
entre elas uma interseção lexical.
Por meio das palavras da autora, é possível perceber que, de certo modo, as criações seguem um
modelo. Além disso, verifica-se que, em alguns casos, os constituintes de alguns cruzamentos possuem um
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
segmento fonético comum, sendo, pois, as criações consideradas homófonas, e há também aqueles
cruzamentos cujos constituintes não possuem um segmento fonético comum, sendo considerados, por sua
vez, não-homófonos.
A união das bases envolvidas no cruzamento vocabular é sempre impulsionada, como diz Cardoso,
pelo seu resultado semântico, que pende para o humor, a sátira, surpreendo o interlocutor.
Sandmann (1992, p. 59) também aponta o caráter emocional e depreciativo dos cruzamentos: “traço
que caracteriza muitos cruzamentos vocabulares é sua especificidade semântica, isto é, eles vêm muitas
vezes carregados de emocionalidade, sendo que esta é depreciativa, às mais das vezes, e com pitadas de
ironia.” É preciso dizer que a expressividade dessas criações está fundada no inusitado da aproximação das
bases e, principalmente, no seu sentido. Barbosa (1981, p. 192) assinala que “aquilo que parecia ser um mero
arranjo de significante, revela-se como um neologismo semântico e fonológico dos mais eficazes.” Entendese semântico, neste caso, como aquele que carrega uma carga de informação grande e inesperada.
Existem alguns cruzamentos que entraram para a língua (showmício) e que, com o tempo, vão
perdendo o seu caráter neológico e sua carga de informação. Mas, em muitos outros casos, os cruzamentos
ficarão presos a um contexto enunciativo específico, tornando seu uso restrito, portanto.
O significado da nova formação está associado a várias questões culturais e
comportamentais. Voláteis ou nem tanto, na grande maioria das vezes os cruzamentos
refletem a visão crítica e o humor gerado por um momento específico. Alguns entram na
língua e deixam de ser percebidos como uma espécie de brincadeira lingüística, outros
resumem-se a um momento associado a um fato político, a uma personagem de novela ou
programa de televisão, a um acontecimento explorado pela mídia.
(CARDOSO, 2009)
Como no discurso literário é bastante difícil o desgaste do uso de uma nova lexia, a sua carga de
informação é muito forte e a motivação semântica que levou à criação é transparente.
Tomando sua importância estilística, Martins (2000, p. 123 – 124) ressalta os seguintes aspectos
dessa formação: “revela criatividade, espírito, e sua força expressiva resulta da síntese de significados e do
inesperado da combinação. Prestam-se sobretudo à linguagem do humor, da brincadeira, mas em alguns
casos podem ter um tom lírico até refinadamente estético”.
Como se sabe, para se estudar a expressividade de uma dada palavra é preciso valorizar e considerar
o contexto em que está inserida, pois é a partir dele que se pode definir seu sentido e seus efeitos sugestivos e
expressivos. Sabe-se que o cruzamento vocabular, em geral, carrega um tom bastante jocoso, mas, para os
estudos estilísticos, é preciso entender o significado e a expressividade de cada caso. Como assinala Barbosa
(2001, p. 48), no discurso literário, “os neologismos, como todas as outras marcas discursivas, estão sempre
ligados a uma situação específica de enunciação (...)”. Para tanto, neste trabalho, serão apresentados os
trechos da obra Galáxias em que os neologismos estão inseridos, a fim de que se compreenda melhor seu
sentido e seus efeitos para o texto.
Galáxias: um universo de criações
Galáxias foi publicada em 1984, designada por seu autor uma produção neobarroca “reconsiderada
através de uma óptica concreta” (1977, p. 53). Como se sabe, a poesia concreta se aproxima em muitos
pontos do neobarroco, haja vista, por exemplo, o gosto pela aproximação de opostos, pela visualidade do
texto, pela metáfora e pelo jogo de palavras.
O Neobarroco é considerado um ressurgimento do Barroco no período pós-moderno. Haroldo de
Campos afirma que seu gosto por tendências barrocas já se manifestava antes de se envergar sobre a teoria e
a produção de textos concretos. Em suas obras, encontramos várias metáforas, jogos de palavras, uso de
palavras eruditas, interesse pela visualidade, sonoridade e formação de palavras.
Eu tinha sempre uma espécie de casulo barroco na minha poesia, que consistia num
tratamento bastante insistente, bastante radical do problema da metáfora, da estrutura
fônica, de certas possibilidades semânticas da decomposição das palavras. Já em 52 eu fazia
constante montagem de palavras, composição vocabular, verdadeiros ideogramas
semântico-visuais que, se não respondiam àquela estrutura rigorosa que depois se
desenvolveu na poesia concreta (preocupada, a certa altura, com um “geometrismo”
acentuado), já manifestavam uma vocação construtiva e uma tendência barroquista dessa
poesia do começo dos anos 50. De alguns anos para cá (desde 1963, para ser mais preciso),
retomei essas linhas, atravessando toda aquela experiência rigorosamente concreta da “fase
heróica” (podíamos dizer, mondrianesca), de esprit de géométrie... Evidentemente retomei
tudo isto numa dimensão outra, que se encaminha para a abolição das fronteiras entre
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
poesia e prosa: o Livro de Ensaios: Galáxias, que ainda prossegue. Nele toda essa
parafernália barroquista (...) reconsiderada através de uma óptica concreta, aflora
novamente.
(CAMPOS, 1977, p. 52 – 53)
Como dito, pode-se encontrar uma certa afinidade entre o Concretismo e o Neobarroco, sendo
possível dizer quanto às obras de Haroldo de Campos que, como assinala Andrade (2007, p. 51), existe uma
“impossibilidade de se fazer uma separação nítida entre o Haroldo concretista e o Haroldo neobarroco, cujas
linguagens se enlaçam numa relação de ipseidade, sobretudo no que tange aos modos de figuração da
imagem poética”.
Como herança do Concretismo, Haroldo de Campos é conhecido por explorar ao máximo a camada
significante do texto de modo que ela apresente uma convergência com o plano do conteúdo, reforçando-o e,
de certa forma, tornando o objeto retratado concreto.
Dizemos que a poesia concreta visa como nenhuma outra à comunicação. Não nos
referimos, porém, à comunicação-signo, mas à comunicação de formas, à presentificação
do objeto verbal, direta, sem biombos de subjetivismos encantatórios ou de efeito cordial.
Não há cartão de visitas para o poema.
(CAMPOS, 1975, p. 49)
Observa-se, por meio da leitura de sua obras, que a presentificação do objeto é obtida por meio da
exploração de certos aspectos estruturais, que, de acordo com Bosi (1970, p.529):
(...) são processos que visam a atingir e a explorar as camadas materiais do significante (o
som, a letra impressa, a linha, a superfície da página; eventualmente, a cor, a massa) e,
por isso, levam a rejeitar toda concepção que esgote nos temas ou na realidade psíquica
do emissor o interesse e a valia da obra.
Exploram-se, então, recursos sonoros sugestivos, o volume das palavras, a disposição do texto na
página etc, a fim de que eles estabeleçam uma estreita relação com o significado do texto, de modo que a
forma reforce o conteúdo, dando ao leitor a impressão de que o objeto retratado se faz presente e concreto no
texto. Observe-se que a exploração da visualidade também pode ser vista como herança do Barroco.
Em Galáxias o melhor do concreto e do neobarroco aparece: o jogo e a experiência com as palavras.
Um dos traços de estilo mais marcantes da obra é a formação de palavras. O autor com suas criações busca
expressividade e novidade e aproveita, algumas vezes, os efeitos sugestivos da sonoridade, do volume e do
sentido da nova lexia. Os cruzamentos vocabulares são um dos processos utilizados pelo autor nesta obra.
Os cruzamentos em Galáxias
Galáxias é considerado um livro viagem pelo fato de viajar de modo dialógico pelas melhores obras
universais e de viajar em torno do universo da escrita e da palavra. Além disso, por ser uma obra aberta,
permite que o leitor viaje por ela, relendo-a em várias ordens.
O assunto central da obra é a escrita sobre a escrita, o trabalho árduo e incessante do escritor. Para
Haroldo, um livro deve ser um umbigodomundolivro um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a
viagem seja o livro. Muitos de seus cruzamentos vocabulares giram em torno desse assunto.
Observemos o excerto abaixo:
o estelário estepário de palavras costurando ávidas suturando texturando urdilando ardilário
vário laços de letras lábeis tela têxtil telame aranhol aranzol de arames (...) para se ler
bastaria que se perdesse um dia nessa taranteia labirintela (...)
Para o enunciador, o seu texto pode ser considerado um campo ou um céu, onde as estrelas –
palavras – unem-se, costuram-se, a fim de produzir sentidos. Esse costurar faz com que seu texto seja
comparado a uma tela ou a uma teia de aranha. Tais comparações sugerem que existe uma rede em que
palavras são relacionadas. Além disso, por sabermos que Galáxias é um texto que dialoga com outros,
podemos pensar em redes que interligam a obra a outros universos de discurso.
A primeira criação por cruzamento vocabular do excerto é telame, cruzamento de tela e arame.
Pode-se entender que o cruzamento favorece a ideia de entrelaçar contida na palavra teia, pois existe em sua
parte formal um cruzamento entre as duas palavras, um ponto de interseção, como ocorre nas relações
estabelecidas em seu texto. Desse modo, é possível dizer que a forma da palavra reforça o conteúdo.
Existe também uma outra interpretação para telame, que seria uma formação por sufixação. Nesse
caso, o sufixo –ame sugeriria que o texto possui várias telas, ou seja, várias relações.
Em aranzol (aranha + anzol), pode-se interpretar que sua obra envolve, prende o leitor, como faz
uma aranha em sua teia ou um anzol. Vale ressaltar que a atenção do leitor fica presa a esse texto pelo fato de
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
enveredar por um labirinto, em que precisa descobrir a sua saída, sendo preciso, muitas vezes, perder-se
pelas redes de “universos” existentes na obra. Para sugerir essa noção de labirinto, de texto difícil, o autor
cria labirintela (labirinto + tela), palavra que reforça a sua concepção de que sua escrita é uma rede de
palavras, de associações.
No caso de taranteia (tarântula + teia), a nova lexia serve também para reforçar a noção de teia de
aranha, na qual o leitor fica preso e envereda pelas redes de relações.
Nos quatro exemplos, pode-se dizer que as formações chegam a ser poéticas, não são, propriamente,
irônicas. Além disso, é necessário dizer que o processo escolhido faz com que todas as lexias expostas
tenham um ponto de interseção em sua parte formal, o que remete o leitor à ideia de relação que texto
apresenta.
Em determinadas partes da obra, o enunciador intitula-se como escravo da escrita sobre a escrita, ou
seja, um sobrescravo. No decorrer da obra, diz que seu trabalho é árduo e volumoso. O conceito de que ele
sobrevive às dificuldades está expresso no fragmento a seguir:
o que mais vejo aqui é o inviso do ver que se revista e revisa para não dar-se à vista mas
que se vê vê-se é essa cárie cardial do branco que se esbranca o escrever do escrever e
escrevivo escrevivente
Uma das maiores dificuldades do poeta é encarar o branco do papel e começar a escrever. O branco,
o plano, a escrita e a reescrita angustiam aquele que escreve. Porém, este é o seu ofício e dele vive, logo,
poder-se-ia dizer que escrevive (escrever + viver). O neologismo criado permite que o leitor infira que o
poeta vive da escrita, vive escrevendo ou está vivendo enquanto escreve. Além disso, a segunda criação,
escrevivente, é muito sugestiva. Em primeiro lugar, podemos pensar naquele que vive da escrita ou que vive
escrevendo. Porém, sonoramente, também nos remete a escrevente. Pensando nisso, é possível interpretar
também que o neologismo tem o sentido oposto da palavra mencionada. Em escrevente, temos aquele que
escreve o que os outros ditam, ou seja, é orientado, mas, no caso de escrevivente, podemos pensar naquele
que domina a escrita, que pensa, reflete para escrever, ou seja, um ser animado. Além do cruzamento de
escrever + vivente, podemos pensar que escrevivente é um cruzamento de escrever + sobrevivente. Assim,
entende-se que o poeta sobrevive às dificuldades da escrita, que enfrenta os seus obstáculos.
no jornalário no horáriodiáriosemanáriomensárioanuário jornalário moscas pousam
moscas iguais e foscas feito moscas iguais e foscas feito foscas iguais e moscas no
jornalário o tododia entope como um esgoto e desentope como um exgoto e renova mas
não é outro
livro me salva me alegra me alaga o livro é mensagem de aragem é plumapaisagem é
viagemviragem o livro é visagem no infernalário onde suo o salário no abdomerdário
dromerdário hebdomesmário onde nada é vário onde o mesmo esma mesma (...)”
Em alguns trechos, o enunciador diz que a escrita poética é cansativa, entretanto, em outros, afirma
que é aquilo que o motiva, que o salva. Nesse trecho, apresenta ao leitor o local de seu trabalho, que
possivelmente é um jornal, chamado por ele de jornalário. Observa-se que, além de manter um jogo sonoro
com outras palavras, o sufixo “-ário” não assume uma conotação positiva nesse contexto, o que faz com que
esse valor não apreciativo se estenda a toda a palavra. Outras criações que são feitas para se referir ao seu
local de serviço são: infernalário, abdomerdário, dromerdário e hebdomesmário. Pela sonoridade final
idêntica, essas palavras se aproximam. Além disso, aproximam-se pelo fato de atribuírem uma ideia negativa
ao jornalário. A criação por sufixação infernalário mostra ao leitor que o ambiente de trabalho do
enunciador é insuportável, ou seja, um inferno. Caso o autor optasse por usar a palavra inferno, não obteria o
mesmo efeito de novidade que atingiu com a criação e, sem a aproximação pelo som, não conseguiria com
que a palavra inferno estabelecesse uma relação tão imediata com jornalário. A repetição sonora (/ário/)
estreita ainda mais a relação entre as duas palavras criadas, fazendo com que o leitor ao ler infernalário logo
infira que se trata do jornalário.
No caso de abdomerdário, dromerdário e hebdomesmário, podemos interpretar que são palavras
resultantes do processo de cruzamento vocabular. Em abdomerdário (abdome + merdário), pode-se entender
que o local de trabalho do enunciador é uma porcaria, uma merda. O abdome está associado ao intestino,
local onde são produzidas as fezes. Poder-se-ia, portanto, pensar também que o jornalário é um local onde
há produções porcarias, fracas etc. A criação dromerdário (dromedário + merdário) está consoante com a
parte em que o enunciador afirma suar o seu salário no seu serviço. Esse cruzamento apresenta um jogo de
humor: o leitor infere que o enunciador trabalha como um camelo, um dromedário no jornalário, ou seja, no
merdário. Em hebdomesmário, há um cruzamento de hebdomadário + mesmário, que pode sugerir que as
publicações semanais feitas pelo jornalário são sempre as mesmas, não trazendo novidades. Sendo assim, as
semanas tornam-se iguais. Esse neologismo está em consonância com o contexto monótono apresentado pelo
enunciador; vale lembrar que ele diz que em seu trabalho moscas iguais pousam, causando-lhe um
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
sentimento de tédio. Observa-se que as duas sufixações apresentadas e os três cruzamentos vocabulares
servem para depreciar a imagem do local de trabalho do enunciador.
Além do cruzamento hebdomesmário, existe uma criação formada a partir de composição por
justaposição que sugere a ideia de monotonia: horáriodiáriosemanáriomensárioanuário. Por meio dessa
criação, em que há a justaposição de cinco bases, o leitor infere que o tempo e os dias passados no jornalário
parecem ser iguais e longos. A monotonia, a falta de surpresa provocam um sentimento de que os dias se
repetem ao longo das semanas, dos meses e do ano, fazendo com que as publicações tragam coisas repetidas.
A forma desse neologismo também pode expressar junto ao seu significado a noção de prolongamento e
extensão de tempo. O composto tododia também sugere que os dias se repetem, que o enunciador vive em
uma rotina, na qual todo dia tem de fazer as mesmas coisas.
A palavra exgoto, por sua vez, faz um jogo com esgoto. No fragmento, o enunciador diz que “o
tododia entope como um esgoto e desentope como um exgoto”, levando o leitor a entender que a rotina, a
monotonia entediam-no, fazendo-o acumular suas frustrações e seu tédio. Esse acúmulo é comparado ao
entupimento de um esgoto. No entanto, o enunciador diz que o tal esgoto é desentupido como um exgoto, o
que pode significar que exterioriza tudo o que sente pelo goto, isto é, parece que expressa por meio de
palavras o que sente, tal leitura pode ser feita pelo efeito de sentido gerado pela junção do prefixo (ex-) à
base (goto).
O foco deste trabalho são os cruzamentos vocabulares, entretanto foi preciso mencionar as outras
formações resultantes de demais processos, pois, com elas, estabelecem uma relação: todas servem para
depreciar a imagem de seu trabalho no jornalário. Entretanto, como mencionado, outras servem para
enaltecer a escrita, o livro. Tais criações revelam um jogo de opostos: trabalho entediante versus livro de
viagem, de mudança.Vejamos as criações que possuem um valor positivo. São elas: plumapaisagem e
viagemviragem. Ambas estabelecem uma relação sonora com mensagem, aragem e visagem. Além disso,
todas possuem no
contexto um valor apreciativo. Para o enunciador, o livro – que o salva do infernalário – é mensagem de
aragem, ou seja, mensagem de boa sorte, de bons ventos. A obra é considerada uma visagem no infernalário,
que pode indicar uma saída. O composto plumapaisagem pode mostrar que o livro traz uma paisagem ao
leitor por meio da pluma, isto é, da pena, da escrita. O enunciador com a criação sugere que a escrita é capaz
criar paisagens para contemplação do leitor. Além disso, não podemos esquecer que, segundo o enunciador,
o livro é uma viagem, de modo que, nessa viagem pela qual envereda o leitor, é possível encontrar várias
vistas criadas a partir do texto. Observemos que dentro de plumapaisagem, existe a palavra mapa, o que
sugere que o leitor pode seguir um mapa para encontrar o melhor roteiro de viagem. A criação formada a
partir de composição por justaposição viagemviragem mostra que a viagem proporcionada pelo livro traz
mudanças, novidades, o que não é possível encontrar no ambiente de trabalho do enunciador, ou seja, no
jornalário. Dessa maneira, pode-se interpretar que o livro é que resgata o enunciador do tédio, da monotonia,
levando-o para a aventura da viagem da escrita.
Conclusão
Essa amostragem de cruzamentos vocabulares revela que alguns possuem um tom mais poético, e
outros, um tom extremamente jocoso. Todos fazem com que o enunciatário perceba o modo como o
enunciador interpreta a realidade. Nesse caso, pôde-se perceber que a obra poética para ele é uma rede de
relações: entre palavras, entre discursos, entre as páginas da obra aberta.
Além disso, o enunciador considera-se escrevivente. Tal adjetivo – bastante sugestivo e polissêmico
– leva o leitor a entender que é um homem que vive da escrita, que vive para ela, que se sente vivo enquanto
escreve ou que sobrevive aos obstáculos da arte do escrever.
Para ele, embora a escrita seja difícil, é aquilo que o salva da monotonia de seu trabalho no
jornalário. Observou-se que, para esse ambiente de trabalho, são criados cruzamentos cujo valor semântico
está imbuído de ironia e jocosidade.
Faz-se importante também notar que, em quase todos os casos apresentados, após a fusão dos
elementos, um mantém sua integridade morfofonológica, e o outro sofre uma ruptura: hebdomesmário,
Anais do SILEL. Volume 1. Uberlândia: EDUFU, 2009.
telame, aranzol, taranteia, labrintela, escrevivo, escrevivente* 1. Mas, há um caso em que se pode considerar
que uma unidade adentra-se na outra: dromerdário. Em todos os exemplos, reconhecem-se as duas palavras
envolvidas no processo. Entretanto, não se pode ignorar que a junção delas causa surpresa nos enunciatários.
É possível também observar que, em todos os casos, os elementos formadores possuem um segmento
fonético comum, sendo, portanto, cruzamentos homófonos: abdomerdário, hebdomesmário, telame, taranteia,
aranzol, labirintela, escrevivo, escrevivente.
Com tais criações, o autor conseguiu atingir efeitos estilísticos: humorístico, satírico, poético, crítico.
Além disso, mostrou sua habilidade em brincar com as possibilidades de formação que a língua lhe permite,
formando palavras que surpreendem seu interlocutor.
Referências bibliográficas
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SANDMANN, Antônio José. Morfologia Lexical. São Paulo: Contexto, 1992.
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No caso de escrevivente, pode-se considerar que, no cruzamento de escrever + vivente, um elemento mantém sua
integridade morfofonológica, e o outro sofre uma ruptura. Entretanto, se se considerar que escrevivente é um
cruzamento de escrever + sobrevivente, os dois elementos perdem uma parte.
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