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aquilino ribeiro, Uma Luz ao Longe – “ter olhos que a descubram”
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Paulo Neto
Doutorando (UA)
Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe
– “ter olhos que a descubram”
Paulo Neto
Doutorando (UA)
Palavras­‑chave: Uma Luz ao Longe, Aquilino Ribeiro, sentimento religioso anticlericalismo.
Keywords: Uma Luz ao Longe, Aquilino Ribeiro, religious feeling, anticlaericalism.
A primeira obra, publicada por Aquilino Ribeiro em 1913, Jardim das Tormentas, vê
prelo com doze contos. Entre eles, “A catedral de Córdoba”, “Voluptuoso Milagre”, “Sam
Gonçalo” e “À hora de vésperas”, cujos títulos, logo à partida, remetem para um contexto de
sentimento e intriga religiosa. Também o anatoliano título não se furta à regra, entendido
como visão não adâmica do mundo.
Por seu turno, a derradeira obra publicada em vida do seu autor, em 1963, Tombo no
Inferno – O Manto de Nossa Senhora, tem título que fala pelo conteúdo.
De permeio, as seguintes obras: A Via Sinuosa, tal caminho da cruz, Valeroso Milagre
(separata mais tarde incluída em Estrada de Santiago), O Homem que Matou o Diabo, Arca
de Noé – III Classe, S. Banaboião Anacoreta e Mártir, Por Obra e Graça, O Servo de Deus e
a Casa Roubada, Natal Português, O Livro do Menino Deus, O Arcanjo Negro, Humildade
Gloriosa, Sonho de Uma Noite de Natal, Dom Frei Bartolomeu dos Mártires.
Esta presentificação da temática religiosa na obra aquiliniana, aqui se referindo apenas
nos títulos, é isotópica, se não na intriga em geral, na recorrência com que se evidencia no
cômputo de quase todas as suas obras. Tão curiosa quanto saída da pena de um agnóstico
confesso. Muito poderíamos lavrar nesta fértil veiga; porém, achámos ajustado cingirmo­
‑nos àquelas que são as primícias de Aquilino, com os mistérios, inspirações, imposições e
opressões da mundivivência religiosa, pela primeira vez sentidas e impostas no Colégio da
Lapa, onde ingressa a 10 de Junho de 1895, com dez anos, para fazer a equivalência ao curso
do liceu, e de onde sai, cinco anos volvidos, sincronia que nos é romanceada, autobiografi‑
camente, em Uma Luz ao Longe (1948).
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É preciso conhecer o espaço ríspido, áspero e severo do planalto da Lapa, os rigores
extremos do seu clima, com invernias álgidas de sol posto à meia tarde e estios com canícu‑
las tão bravas que até as lajes parecem fumegar; é preciso conhecer a mole maciça do Colé‑
gio, num granito escuro e espesso curtido pelos séculos; a camarata número 33 com os seus
dezasseis metros quadrados ensimesmados naquela rocha sombria e numa madeira escura,
iluminada por uma janela rompida a sul, o quarto de Aquilino, ou, aqui de Amadeu (o que
ama a Deus); o seu refeitório, suas salas de estudo; o passadiço para a Igreja da Nossa Senhora
da Lapa, rasgado em arco de volta redonda, mal alumiado, durante o dia, por magro janelo
e o interior severo deste Santuário, para abranger com os sentidos aquele topos e entender o
modo de Adolescer em Clausura, parafraseando Carina Infante do Carmo1.
De seguida, tentar entrever a rotina quotidiana de um colégio de padres onde a escolás‑
tica vingava impenitente à mistura com as brincadeiras viris, estudo psitacista, alguns jejuns
e muitas preces místicas. E, deste contexto, tentarmos abarcar quão determinante foi esse
período para o jovem Aquilino, que teve no Padre Joaquim Francisco Ribeiro, pároco da
igreja do Espírito Santo, no Carregal, a uma légua antiga da Lapa, seu estremado progenitor.
A propósito do título desta obra, escreve o seu autor:
Havia encontrado o meu símbolo. Aquela luzinha, assim flébil e celestial, ficou­‑me com efeito
de emblema na vida. Nas horas de maior negrume, quando era para desesperar de todo, surgia­
‑me imprevistamente no báratro dos cuidados. Pequenina, bruxuleante, vinda de longe, crescia
e iluminava­‑me o caminho. Filha da própria ralé, providência de infelizes e aflitos, nunca por
nunca deixou de raiar. Creio que ela existe igualmente para todos os humanos, e não deve ser
outro o fanal que os guiou através das convulsões físicas e sociais do mundo. A questão para o
indivíduo é ter olhos que a descubram. (Ribeiro, 1948: 224)
Esta luz, símbolo de esperança e de otimismo de um homem criado segundo tradições
eclesiásticas, será também a luz da fé. Mas não de uma fé na religião cristã que lhe é incutida
unilateralmente nas duas primeiras décadas de vida, antes uma fé na vida, no homem seu
semelhante, nos animais, na terra madre, no vitalismo da natureza, na justiça e igualdade
humanas, no amor…
De resto, o sagrado e o profano convivem cordialmente em Aquilino, num paganismo
entremeado de erudição teológica e recalcitrante culto católico.
Voltemos a Uma Luz ao Longe e ao espaço onde se escoa a ação:
O lugarejo da Lapa, terra de padeiras, era nada mais nada menos que o produto do camartelo
eclesiástico. (ibid.: 20)
Se a inicial opinião é de cariz negativo, não o deixa de ser também a visão do Santuário
e do Colégio, que se lhe segue:
Cf. Carina Infante do Carmo (1998). Adolescer em clausura. Faro: Universidade do Algarve.
1
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Até ao santuário, com a fachada jesuítica de tope, ligado por um arco de passadiço à bisarma
de pedra lavrada que era a residência da Companhia, havia duas curiosas albergarias para pere‑
grinos e visitadores e quartéis em profusão, espécie de celas a alugar aos rústicos que vinham
dealbar a alma nas semanas rústicas do S. Barnabé e Espírito Santo. (ibid.: 20)
A sua dolorosa entrada para dentro do negro granito das “muralhas de cantaria” colhe
o simbolismo mor do apartamento com o exterior, na cruel separação do seu fiel canito de
mefistofélica graça, Barzabu, forçada à brutalidade do pontapé nos quadris, arremessado pela
bestialidade do Sr. Saraiva, nada atreito às boas práticas e muito arrenegado de modelares
exemplos. Amadeu sentiu, naquele porfiado amor e no sofrimento de Barzabu, “a primeira
lição de desumanidade!”.
E é curioso que tal lição lhe tenha sido transmitida no pórtico do Colégio, face ao
“torvo moloque de granito e sombra”, dentro do qual irá passar a próxima meia década da
sua ainda tão cândida existência.
É o ritual da separação que também o presidiário sofre, quando castigado pela privação
da liberdade, se vê obrigado a virar costas ao mundo, que a freira professa ao entrar da porta
conventual, que o místico determina na solidão do seu eremitério…
Logo no decurso da acomodação, a funérea negatividade do espaço toa pungente no
peito infantil do enclausurado:
Uma vez remontada a escadaria lôbrega, metemos por um extenso, largo, larguíssimo corre‑
dor soalhado, de castanho. Cada uma das tábuas daria madeira para duas tumbas. (ibid.: 29).
E sem transição, após esta curta e ciceronada visita, é empurrado para os pés da Nossa
Senhora da Lapa, “escondida e bela como uma ninfa”, numa cafurna, no meio de um “silêncio
atrido, o silêncio pausa­‑viva das igrejas e dos túmulos”, com este remoque seco do Sr. Saraiva,
a quem até o nome é propício, à laia de ritual partida pregada ao imberbe caloirinho das ber‑
ças, que na aldeia, com a despudorada liberdade e impunidade dos pardalecos, lhe devastava
os pinhões dos seus estimados pinheiros mansos:
– Deixo­‑o aqui. Reze para se fazer gente e se corrigir de vícios e maus costumes. Entre no seio
da Virgem: (ibid.: 30)
Para Amadeu, logo adiante constatar, na sua familiaridade infantil com casas do Senhor,
onde tanto decerto teria brincado:
As igrejas são silenciosas como o fundo do mar.
O espectáculo não me ofuscou. Conhecia já tudo aquilo, os símbolos, os castiçais, os altares e
suas doiraduras, a lâmpada acesa do Altíssimo, a estupefacção dos santos e o ar de ficção humana
da Divindade. Conhecia­‑o de meus pais, de meus avôs, que pagavam o dízimo à Igreja, quei‑
mavam o judeu, penavam derreados com os bens­‑de­‑alma, matavam, roubavam, e vinham ali
dealbar a alma suja, saburrenta de pecados, pávida e arrependida até o primeiro retorno sobre
a barbárie ancestral. Sim, averiguei mais tarde que a conhecia de toda essa caterva de gerações
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crentes e fanáticas, sôfregas a viver e no entanto temerosas do inferno, e acabando por jogar a
cartada da beatitude eterna à força de trintários e legados pios.
Portanto, as igrejas não descerravam para mim nenhuma espécie de inédito. Mas aquela, com a
lapa fulcro de toda a sua tradição devota, com os mil e um painéis parietais contando, em bal‑
bucie de todo primária, os milagres da Senhora, ‘o homem de cobra na boca, a árvore a abater­
‑se sobre o lenhador, o navio a arder no mar’, com o retábulo em alto relevo dos legionários a
jogarem a túnica de Cristo crucificado, exalava um pitoresco que me refazia da imersão mística
a que pretendera sujeitar­‑me o Saraiva, menigrepo nazareno. (ibid.: 30­‑31)
Naturalmente que esta reflexão, produzida em 1948, dista mais de meio século do
acontecimento narrado, mas indicia o cerne do seu facto.
A permanência no Colégio da Lapa era meio para fazer os estudos que lhe permitiriam
o ingresso no seminário e uma carreira eclesiástica quase obrigatória, pondo­‑o em contacto
direto com métodos de pedagogia e uma ciência escolástica impositivos da premência da
aceitação de uma religião que ajudava a crescer e a libertar o corpo e a mente do vício. Porém,
ao contrário e arrepio destes princípios, blandiciosa, a realidade escorregava dentro de um
fechamento onde se erigia a solidão, o medo, o pecado, a idolatria, a hipocrisia, o fanatismo
e a sujeição. Há uma lei dominante com a qual, logo de início, Amadeu choca. Entra em
rutura com aquilo que percebe ser uma humilhação, uma privação da sua personalidade. É o
inconformismo a erguer a sua voz. O inconformismo que parece irromper aqui no seu natu‑
ral rebelde e que, até ao final de sua vida, não mais o deixará. Até que ponto já estava bem
vincado dentro dele ou foi aqui despertado e acicatado pelos remoques cruéis dos próprios
companheiros que dele troçavam sem rebuço nem pudor?
– Orelhas tem ele!; – E que beiçana!; – Tem cara de tanso!; – É mesmo um gorila!; – Chegou
ontem das brenhas! (…) o desavergonhado; tem mesmo cara de judeu; — É o retrato do mafar‑
rico!; Parece o bicho cacheiro, é pior que um gato assanhado… (ibid.: 54)
A cena de pancadaria que se segue, com o Mascarenhas, evidencia não só a libertação de
toda a raiva que nele se acumulara em tão curto espaço de tempo para tanta inúsita humilhação,
como também a presciência da sua diferença perante aquele “canil de cachorros assanhados”:
O que contava era a hostilidade que se açulara contra mim em toda a canalha… Que havia de
odioso em mim para me receberem daquele jeito? (ibid.: 54)
Há quatro momentos que se concatenam para, e num ápice, desencadear toda a amar‑
gura e revolta em Amadeu: a brutalidade do Saraiva ao apartá­‑lo de seu cão Barzabu; o
gesto arbitrário de humilhação ao lançá­‑lo de joelhos aos pés da Virgem, nas profundezas
do Santuário; a animosidade do acolhimento por seus pares e as seis palmatoadas vigoro‑
sas e injustas ministradas pelo Pe. Mourão. Todos são o rastilho da revolta. Mas voltemos
ao segundo momento… Amadeu na escuridão cortada pela bruxuleante e fantasmagórica
luz das parcas velas, faz o inventário do local para onde fora atirado, aparentemente pouco
impressionado com o aparato circundante:
Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe – “ter olhos que a descubram”
Dorido dos joelhos, levantei­‑me e comecei a percorrer a igreja como um museu. Diverti­‑me
com o Menino Jesus, de casaquinho à Marialva, celebrado no Santuário Mariano com a Senhora
da Boa­‑Morte no seu coro de lacrimárias, com o presépio, ou o Novo Testamento através da
alma semi­‑pagã do povo lusitano, segundo interpretação de Machado de Castro. Depois de
tudo ter visto e comentado com os meus botões, deitei balanço à situação. Era costume fazer
aquilo com os recém­‑chegados àquele ninho de peneireiros? Sorte de vigília de armas à Loiola,
recalcamento da fibra carnal, exercício ascético, ensaio de monocato, numa palavra, uma dose
farta de purga mística a bem do sistema de claustração professado na Casa? Só sabia que me
enfadavam. (ibid.: 31­‑32)
E é aqui, neste descrédito e perceção do abuso cometido, que Amadeu sente a primeira
ânsia de fugir, de se “pôr ao fresco”, que o acompanhará vida afora, sempre que privado de
sua preciosa liberdade, sentindo­‑se ali abandonado e parte de um ritual iniciático que, ao
invés de um atordoamento místico, lhe espicaça a curiosidade inata e o enfadamento, decerto
acutilado pela longura do dia, a mudança radical de hábitos e o apetite, que não seria des‑
piciendo num catraio daquela idade há tantas horas a “voar num céu de hilros”. E Amadeu,
avesso à reza imposta pelo Saraiva, continua sua minudente e reativa descoberta do espaço
soturno, sombrio e prenhe de fantasmas sussurrantes no sopro do vento roçado nos lapêdos,
a sugerir, nessa voz difusa, os augúrios do tempo a vir:
Na aresta da penha, como em querena de nau, contorcionava­‑se dentro do seu absidíolo a
Mater Dolorosa. Expunha o peito lanceado pelas sete espadas, e todavia à força de teatral a sua
lástima não se tornava comunicativa. Ali perto, na capela do Conde da Lapa, alcandorava­‑se
sob a forma de pomba o Divino Espírito Santo. Compunha­‑se seu trono aurifulgente de colu‑
nas e capitéis coríntios da mais especiosa talha. E logo à sua direita, muito nédio e bonito na
nudez pueril, exibia­‑se um S. Sebastião atado à árvore do suplício, o harpão das setas cravado
até à raiz. (ibid.: 33)
Este desfile trágico passa sob os olhos curiosos do jovem Amadeu. As contorções, os
peitos lanceados, as setas cravadas, mais não são que uma exposição gratuita de um pathos
impressionante, mas aposto em argentino trono e fulgente nas talhas adornadas. E o jovem
Amadeu, na entretessitura da ficção, estranhava apenas que aquela fosse a “casa do imenso,
temeroso, omnimodamente soberano Deus” (ibid.: 33­‑34).
Mas, em simultâneo, rente à intimidação, emergia um laivo de diversão que o remetia
para as tergiversações teologais:
Ele estava ali? Estava ali como em toda a parte, pairando acima da minha insignificância sem
deixar de pairar sobre o Cosmos, imperscrutável aos olhos. Assim fora doutrinado e eu o cria.
(ibid.: 34)
E será esta a primeira dúvida que em Amadeu é suscitada face a toda uma educação
religiosa muito liberal e este contacto opressivo com a casa do Senhor. Ele, que até ali ouvira
recomendações do género: “– Está quietinho, que Nosso Senhor ralha!”; “– Deus castiga­
‑te!”; “– Reza a Deus que te faça um homem!”. E é deste modo que Amadeu o refere:
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O facto apurado pela minha sensibilidade crítica era que o ente supremo, me podia punir sem
pau nem pedra, que me ralhava, que mais não fosse, por meio do trovão (…) morava naquele
paredal. Não o via, porque incorpóreo por subtileza e perfeição, lhe repugnava a investidura
da matéria. (ibid.: 34)
Se a inteligência de miúdo assim congeminava, na sua imaginação buliçosa, a figura de
Deus, uma espécie de avô, ora tolerante, ora punitivo, uma espécie de nababo capaz de, como
um ilusionista, tirar da cartola, na sua mágica infinita, no fundo, uma lâmpada de Aladino,
prestes a conferir desejos se as palavras certas, o santo e a senha, fossem proferidas, Amadeu,
perante o adiantado da hora e nele crescendo o incómodo aversivo do abandono, peregrina
pelos quatro canto do templo e vai constatando com ironia:
Mas as figurações divinas que gradativamente o representavam a Ele ou a Ele em suas irradiações
com a Pomba, como Cristo Crucificado, como a Senhora das Dores, anjos e serafins, denotavam
um voo mais que rasteiro da fantasia humana, um voo em céu sem estrelas, muito para baixo
das nuvens, um pobre céu de pardais. E tudo, como acto de integração na essência inefável, se
me afigurava de mediocridade aflitiva. (ibid.: 35)
E é Aquilino a falar. À distância de 53 anos, a sua memória busca o entendimento
dos factos que o conduzem à indiferença e que, logo ali, como um batismo de fogo, lhe
são inculcados, naquele “recinto de fraga” prisioneiro, onde “flutuava um odor mefístico,
misto de incenso e de raposinhos”. O jovem Amadeu bocejava, e cansado de marchar sobre
os seus passos, remirando as botas de S. José, deixa “levedar a cólera”. E a cólera dá lugar à
raiva quando, finalmente, chega o Saraiva para, com uma desculpa mesclada de cinismo e
chalaça chocarreira, o conduzir ao frente a frente com o Pe. Leonel, figura simpática, que,
premonitoriamente, depois de muito o apreciar, lhe dispara:
– Vamos, vamos, a pinta é boa… olhos sobre o verde… verde é muito afirmar… Verde impreciso,
por lampejos, sinal de personalidade! Sim, senhor, a pinta é boa.
E continua:
– Boca rude, presságio de horas amargas – proferiu sorrindo. – A tua cara não é de conformista,
coitado! Nariz petulante… vá, vá, temos aqui um homem.
E Amadeu sente o à­‑vontade para desabafar, para afirmar o seu descontentamento, a sua
contrariedade. A sua desilusão se, porventura, tivera alguma ilusão sobre o Colégio da Lapa:
– Gostas da Lapa?
– Não senhor! – respondi terminantemente.
(…)
– Não vieste para o Colégio de vontade, dize lá..?
(…)
– Quero­‑me ir embora –
– Queres­‑te ir embora? Chegaste há bocado e já te queres ir embora? Que bicho te mordeu?
Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe – “ter olhos que a descubram”
– Não me mordeu bicho nenhum. Reconsiderei e adquiri a convicção que não me dou cá.
Deixe­‑me ir embora…
(….)
– Isso passa­‑te – tornou o Pe. Leonel, conciliado.
– Meteu­‑te medo tanta pedra?! Realmente a primeira impressão é de hostilidade. Sabes, temos
uma compensação, estarmos imunes a terramotos. A tectónica terrestre cederá em toda a parte
menos na Serra da Lapa.
(…)
– Vai­‑se carpintejar daqui alguém, Sr. Saraiva! Não tenha medo! (ibid.: 39­‑40)
A humanidade, sentiu­‑a Amadeu pela boca e mão do Pe. Leonel, esse asceta de meia­
‑idade, rodeado de livros, pálido e de olhos azuis, de fisionomia simpática. Um franciscano.
Justo. Com quem sonha, a ajeitar­‑lhe a roupa da cama com uma ternura paternal. Mas as
primeiras impressões estavam irreversivelmente colhidas. Aquela alma cândida encalia­‑se na
extensão desolada da Lapa povoada de penedos, aquela cabeça sonhadora, privada da sua
liberdade montesina, sentia a clausura, mas, mais que tudo, sentia, pelo pé, mão e palavras
do Saraiva, a injustiça humana, a opressão e a desilusão perante uma religião que lhe que‑
riam à força incutir e impor, pelo castigo, pela penificação desedificante de um bárbaro, tão
abrutalhado como dúbio nos seus comportamentos parcialmente admitidos e tacitamente
acatados naquela comunidade que o vai formatar, sem resguardo, nos próximos cinco anos
de sua vida.
Uma Luz ao Longe é obra ancha nesta matéria. Porém, cingido à compressão do tempo
aos dois primeiros capítulos nos remetemos, não obstante a presciência de eles conterem a
essência de um porvir anunciado e na certeza de que os sentimentos religiosos aqui se mar‑
cam, identificando com nitidez uma linha duradoira na cosmovisão literária de Aquilino,
da qual não arredará pé até à publicação final.
O evidenciado anticlericalismo emotivo não é diatribe contra a religião. Aquilino, o
jovem crente, de uma religiosidade instintiva e animista, se agnóstico se torna, não deixa, em
toda a vastidão da sua obra, de espraiar amplamente os seus sentimentos religiosos, se bem
que numa perspetiva que critica a conceção desumanizada da verdadeira espiritualidade, mas
sem notórias desavenças com a cultura teológica. No prefácio dedicado a Brito Camacho, em
Andam Faunos pelos Bosques, que seu autor diz ser “uma rapsódia pagã em bemol”, promete
sem cumprir ser este o seu último romance de húmus eclesiástico, e acrescenta:
Mas neste livro os abades não são mais do que um acidente; a personagem central é o génio da
espécie. Às almas santas, aos censores que me acoimam de cronista encartado de clérigos como
Camilo de Brasileiros, direi que são estes os últimos e irrevogáveis do meu guinhol. (Ribeiro,
1931: 8)
Contudo, tal obsessão, se passada com Amadeu, não deixa de se evidenciar com Libó‑
rio de A Via Sinuosa e com Macário de O Homem que Matou o Diabo, todos eles sociologi‑
camente destinados a uma carreira eclesiástica. Libório diz­‑se “formado num ambiente de
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ruínas e santidades”; e é simbolicamente paradigmático o esmagamento de que é vítima,
nesta passagem:
Um dia, estando no coro de S. Francisco, tombaram sobre mim o saltério e o hinário, livros de
estante, de envergadura a neles as vozes eternas poderem cantar, por todos os séculos, a eterni‑
dade do Criador. Com as costelas a ranger e a cara num santo sudário, escabujava debaixo deles,
quando o meu bom mestre apareceu.
Macário, ao entrar no Convento da Fraga pela mão do Dr. Mendanha,
(…) teve a impressão de poisar no pináculo do mundo, um mundo morto, onde esvoaçassem
sem ruído nem pressa gigantescas asas negras” (…) trago­‑lhe o rapaz, padre Augusto, mas, torno
a repetir, não é para fazer dele um bonzo. Por amor de Deus, não mo fanatizem nem lhe que‑
brem o génio, que é alevantado, com rezas e penitências.
A título de mera confirmação, sete anos volvidos após a saída da Lapa, com passagem
pelo Colégio da Roseira, em Lamego, por Viseu e pelo seminário de Beja, onde ingressa em
outubro de 1902 e de onde é expulso em Novembro de 1903, escreve Aquilino em 1907, no
auge do seu revolucionarismo e ano de sua primeira detenção, no jornal Vanguarda, acerca
do referido seminário:
O seminário de Beja é o limbo das dioceses. A ele se acoitam todos os ordenandos das outras
partes escorraçados por demasiadamente espertos ou palúrdios. (…)
Mas o seminário de Beja não é gratuitamente um ‘refugium peccatorum’. Quem leva a demis‑
sória tem que levar a bolsa bem recheada, e disposições de ser mártir e escarradeira.
Começa o edifício por ser um cárcere de tijolo, sem ar nem luz. Higiene absolutamente alguma.
O regime alimentar é um fac­‑simile do divino mestre nas montanhas. As autoridades, uns
pequenos carrascos, oprimindo à moderna, do alto da sua bondade oleosa.
Tirante alguns professores, aquilo é um sobado de que partilham a tanga e o ceptro os manos
Ançãs. Dissimilhante à superfície, no fundo parecem­‑se como dois ovos de gibóia. Um deles
é o sacerdote pimpão da lei mosaica, abatendo o toiro do sacrifício com uma punhada, alto e
ossado como um poste telegráfico; o outro é uma criatura feita de bolinhos de açúcar, e vinho de
camoezas, tocador de lira às plásticas de Maria, mavioso e terno como uma bandurra de fadista.
Estes siameses correm para as ambições como para dois nortes, a todo o custo, de moral grossa,
intrigando, pervertendo, espadeirando.
Um é comendador e faz tirocínio para bispo; outro, epicurista desembuçado, dá­‑se à vida, com
chácara, vacas malhadas, mulher, mesmo às portas da cidade sob o olhar do paço episcopal. (…)
Fecham­‑se as escolas e abrem­‑se destes viveiros, em que se matam lentamente pobres seres,
sacrificados como uns eunucos, a um porvir odioso mirabolante.
A afeição que Aquilino nutre, por exemplo, pela Nossa Senhora e pelo Menino Jesus
da Lapa retrata­‑se em O Livro do Menino Deus, entre outros, assim como a demonstrada por
Santo António de Lisboa se evidencia em Humildade Gloriosa. Mas se este afeto compassivo
por oragos de sua quase devoção deixa entrever resquícios lamentosos de um sentimento reli‑
gioso que se afastou, definitivamente, de um Libório Barradas, de Lápides Partidas, irrompe
Aquilino Ribeiro, Uma Luz ao Longe – “ter olhos que a descubram”
em cólera, numa total eclesiofobia, quando recorda o prefeito­‑sacristão do Saraiva, o injusto
Pe. Mourão ou os manos Ançã…
E é aqui, à mistura com uma memória e um substrato vivencial teológico, que surgem
teografados os ecos da sua cosmovisão literária, espécie de segunda pele nunca completa‑
mente despida, de “um cético com nostalgia da fé”, no dizer de Paulo Pereira, persistente‑
mente apresentada na meia grosa de títulos que fazem a sua obra.
Bibliografia
RIBEIRO, Aquilino (1948). Uma Luz ao Longe. Lisboa: Bertrand.
(1918). A Via Sinuosa. Lisboa: Bertrand.
(1930). O Homem que Matou o Diabo. Lisboa: Bertrand.
(1931). Andam Faunos Pelos Bosques. Lisboa: Bertrand.
resumo
Analisam­‑se, neste artigo, as modulações do sentimento religioso documentadas na multímoda produção ficcio‑
nal de Aquilino Ribeiro, da nostalgia do sagrado à mais violenta eclesiofobia, concedendo particular destaque
à autobiografia romanceada de Uma Luz ao Longe.
abstract
This article seeks to analyse the modulations of the religious feeling as documented in Aquilino Ribeiro’s diverse
fictional production, ranging from the nostalgic yearning for the sacred to the most acrimonious eclesiophobia,
focusing particularly on his fictional autobiography entitled Uma Luz ao Longe.
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