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ALEM DO OLHAR - UM JEITO DEFERENTE DE FOTOGRAFAR 1

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ALEM DO OLHAR - UM JEITO DEFERENTE DE FOTOGRAFAR 1
ALEM DO OLHAR - UM JEITO DEFERENTE DE FOTOGRAFAR
Noeli Maria Finardi Floriani dos Santos1
Xico Stocker2
RESUMO: Este artigo é fruto da disciplina de Fotografia ministrada na Licenciatura em Artes
Visuais pelo professor Xico Stocker. A atividade oportunizou aos alunos com necessidades
educacionais especiais fotografarem o que desejassem e da maneira que pudessem. A
experiência aconteceu com alunos da APAE de Rio do Sul. O registro fotográfico realizado
pelos alunos e a observação das reações diante das descobertas destes alunos durante o
processo de fotografar demonstrou que, como afirma Kassar (2000, p. 44), a capacidade de
significar (dar sentido a, interpretar e fazer-se entender) de cada pessoa passa a existir
pelos significados atribuídos pelos outros às suas ações. Tão importante quanto o acesso
ao ato de fotografar, importa o cuidado, a sensibilidade estética e ética do professor ao
conduzir a atividade.
Palavras-chaves: 1. Arte na educação especial. 2. Fotografia. 3. Sensibilidade estética e
ética. 4. Deficiência intelectual.
1. INTRODUÇÃO
Ao planejar este projeto, encontramos muitas dificuldades. A fotografia na
educação especial ainda é um assunto novo e pouco desenvolvido. As citações
referenciadas aqui, estão voltadas às artes na educação especial ou somente a
fotografia.
Existem muitas dificuldades de referências no processo pedagógico
desenvolvido com este público.
Por isso, ao iniciar este trabalho me surpreendi com os resultados
encontrados. Erroneamente pensei que trabalhando em uma escola especial
encontraria grandes dificuldades, mas, percebi que todos independente de sua
dificuldade apreciaram muito a oportunidade de fotografar. A atividade foi um motivo
para tentarem superar suas dificuldades e conseguir fazer algo que jamais haviam
imaginado, e isso os deixou muito felizes, pois um simples gesto que para nós é
comum, para muitos deles é uma batalha árdua e que vale a pena qualquer esforço,
qualquer oportunidade de superação. Deparamo-nos às vezes com situações que
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Acadêmica da Licenciatura em Artes Visuais- UNIDAVI, Rio do Sul/SC
Artista e professor de fotografia da Licenciatura em Artes Visuais- UNIDAVI, Rio do Sul/SC
Anais do X Encontro do Grupo de Pesquisa Educação, Arte e Inclusão – 01, 02 e 03 de Dezembro de 2014
Florianópolis – CEART/UDESC – ISSN: 2176-1566
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nos tornam mais humanos, quando pensamos em deficiência nem sempre sabemos
quais são e como se diagnostica essa deficiência. Tão pouco encontramos como
forma de manifestação de alteridade.
A deficiência é uma situação de vida que, ainda que constituindo um estado
permanente, não deve definir os atributos individuais. As deficiências, neste sentido,
não é uma metonímia do ser, ou seja, diferentemente de um jogo falacioso de lógica,
o todo não é nem deve ser definido por uma de suas partes. Não há pessoa
deficiente, porem uma pessoa (como todas as demais), cujo um dos seus atributos é
não ouvir, não ver, não andar, e assim por diante. (Hugo Otto Beyer, 2006, p 09).
Repensando a deficiência e percebendo a vontade de superação nos alunos,
observamos que os limites impostos a eles, muitas vezes podem ser superados, o
essencial é definirmos um objetivo e proporcionar uma oportunidade para que se
sintam seguros.
2. A INSTITUIÇÃO
A escola onde foi desenvolvido o trabalho é a APAE de Rio do Sul, Escola
Recanto alegre localizada na Avenida sete de setembro, nº 467, Bairro Centro, na
cidade de Rio Do Sul.
“Esta instituição tem por missão promover e articula ações de defesa de
direitos, prevenção, orientação, prestação de serviços, apoio à família,
direcionadas à melhoria da qualidade de vida da pessoa com deficiência e à
construção de uma sociedade justa e solidária”. (Plano Político Pedagógico
– 2012, pág. 7).
Segundo o PPP da APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais esta tem por objetivo incluir pessoas com deficiência na sociedade, promover o bem
estar, os direitos e deveres, desenvolver habilidades e potencialidades em cada
educando, proporcionar os estudos e pesquisas relativos a problemas das pessoas
com deficiência, esclarecendo e valorizando o trabalho e as habilidades do
educando, cabendo aos professores e equipe técnica desta escola orientar essas
iniciativas como meio de ampliar o universo de integração desses alunos.
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A instituição tem como proposta o desenvolvimento físico, psíquicos,
intelectual e social das pessoas com deficiência intelectual e/ou múltipla, inseridos
nas
seguintes
modalidades:
Estimulação
Essencial,
Serviços
Pedagógicos
específicos, transtorno Invasivos do Desenvolvimento, Educação Ocupacional,
grupo de Convivência Serviço Itinerante e Serviço de Atendimento Educacional
Especializado – SAEDE – DI. A APAE presta serviço referentes a assistência a
assistência social, educação, saúde, trabalho, emprego e renda de pessoas com
deficiência intelectual e múltipla. Tem uma equipe multiprofissional que presta
serviços especializados nas áreas de assistência social, fonoaudiologia médica,
fisioterapia, terapia ocupacional, pedagogia e psicologia.
A APAE de Rio do Sul foi fundada em 16 de outubro de 1966 e, desde então,
tem sido referência no atendimento à pessoa com deficiência intelectual e múltipla. É
formada por uma diretoria voluntária composta por vinte e seis membros. A
associação é mantedora de um centro de atendimento especializado, cujas atuações
se estendem a aproximadamente duzentos e cinquenta pessoas dos municípios de
Rio do Sul, Agronômica, Laurentino, Lontras e Rio do Oeste.
3. OS ALUNOS
Separei estes alunos em dois grupos.
O primeiro com alunos menos
comprometidos, de boa funcionalidade, percebi que já direcionavam com visão
criteriosa e eletista do que fotografar, após explanação da atividade proposta. No
segundo grupo com alunos mais comprometidos, os de baixa funcionalidade, alguns
apesar da ajuda, não conseguiram direcionar sua imagem ou ter dicernimento para
escolher o que fotografar. Outros devido ao comprometimento motor necessitaram
de ajuda na execução da atividade.
Devido às especificidades dos alunos, com o segundo grupo foi tirado fotos
dentro da sala de aula com uma turma do serviço pedagógico específico –
ocupacional. Notei que enquanto alguns apenas perceberam os cartazes e móveis,
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um deles fotografava o grupo todo, notando-se que sua visão é de grupo, o todo,
sendo desta forma ampla e humanista das dos demais.
A criança aprende de uma forma mais eficaz por meio da participação em
atividades coletivas que tenham significado para ela e nas quais sua
atuação seja perfeitamente assistida e guiada por alguém que tenha
competência e que exerça certa tutoria. (SMOLKA, 1987).
Com o primeiro grupo resolvemos tirar fotos no pátio da escola, alguns destes
alunos escolheram rapidamente o que fotografar, demonstrando assim uma
autonomia já esperada.
Muitos destes encontraram dificuldades que foram
superadas em seguida.
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Estes alunos
Apenas fotografaram o que estava na sua frente, são do
segundo grupo, uma turma do serviço pedagógico específico – ocupacional grupo,
eles encontraram muita dificuldade em entender o que se desejava, e também
encontraram dificuldades em manejar a máquina, necessitando de muita ajuda.
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Este grupo de alunos fazem parte do primeiro grupo, onde os mesmos
entenderam com pouca dificuldade o que se desejava, muitos já haviam usado
uma máquina fotográfica. Facilmente expuseram o que desejavam fotografar.
4. O ENSINO DE ARTE
O ensino de artes da referida escola viabiliza desenvolver no aluno
competência estética e artística nas diversas modalidades nas áreas das artes
(visuais, música, dança e teatro) tanto para produzir modalidades individuais ou em
grupo, para que gradativamente apreciem, desfrutem e julguem as produções
artísticas.
“A arte é uma linguagem, dessa maneira, uma forma de expressão e
comunicação humana, ela tem um papel fundamental, envolvendo os
aspectos cognitivos, sensíveis e culturais, e isso já é suficiente para que se
justifique sua presença na vida escolar”. (PPP, 2012, pág. 28).
A arte é um campo rico de experimentações, e propõe olhares diferenciados
sobre a realidade.
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Dentro das novas perspectivas do universo da arte, as experiências com a
criação são inspiradas através de vivências pessoais, relatadas nas
diversas linguagens artísticas como, por exemplo, a pintura, o teatro ou a
dança, que, tem por finalidade expressar os sentimentos de um povo, e ao
mesmo tempo levantar questões do mundo psíquico e filosófico”. (Revista
mensagem da APAE, Federação Nacional das APAES, novembro 2013,
ano46, nº 02. Pg.11).
As linguagens artísticas constituem um universo rico e importante, aonde as
pessoas de diferentes culturas e épocas podem se expressar, se comunicar. Essa
capacidade de se expressar através da linguagem artística é uma forma de
conhecimento que possibilita a inclusão.
A arte inclusiva possibilita além da produção artística dos alunos, também a
formação de um público sensível e aberto ao conhecimento da diversidade da arte.
Com esse olhar diferenciado eliminamos as barreiras de comunicação,
arquitetônicas e comportamentais, e por esta razão a Arte representa um vetor de
inclusão social.
A arte no contexto da APAE consiste no uso de linguagens artísticas
como prática educativa acessível a todos os alunos, considerando suas
necessidades individuais. A Arte está presente não apenas nas APAES mas
também em outras entidades. É oferecida ao aluno em todo o seu ciclo de vida e
não só no seu percurso escolar. Dessa forma seu direito de expressão pessoal e a
promoção de sua autonomia e independência serão garantidos.
Produzir conhecimento implica a produção de estado de diferença no
interior de uma dada composição. Conhecer passa por perceber e interferir
no acoplamento de universos de referência, gerador de novas marcas no
sistema do complexo (..)o conhecimento é a produção de marcas
suscitadoras de estados diferentes de ser”. (Pereira, Marcos Villela, 1996.
p.225).
O ensino da Arte é conhecimento a ser construído incessantemente, uma busca
e encontros aprofundados. Muitos desafios, muitas questões, estados de tensividades entre
olhares. Para Susan Sontag, nada impede que alguém que nunca tenha empunhado uma
câmera seja capaz de produzir uma boa imagem, mesmo que lhe falte qualquer
conhecimento técnico, que apenas acione o botão de disparo.
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A fotografia é a única arte importante em que um aprendizado profissional e
inexperientes e os não preparados – isso ocorre por muitas razões, entre
elas o grande peso do acaso (ou da sorte) anos de experiência não
conferem uma vantagem insuperável sobre os no ato de fotografar, além da
preferência pelo espontâneo, pelo tosco, pelo imperfeito. (Sontag, 2003).
5. PLANEJAMENTO
Nesta escola a organização das atividades pedagógicas é desenvolvida
através do planejamento anual, neste documento será prevista as ações que serão
colocadas em prática durante o ano e se concretizarão através de projetos.
Estes projetos são todos desenvolvidos para fornecer ao educando da
instituição uma melhora no seu desenvolvimento social, emocional e motor.
Podemos citar alguns: Projeto de prevenção das deficiências, Grupo de apoio às
famílias, Projeto de cinoterapia e equoterapia, etc., em um total de 10 projetos.
6. A FOTOGRAFIA
A fotografia é hoje um recurso presente na arte educação e na vida de
nossos alunos. No final do século XX a fotografia conquistou um espaço
considerado também como uma linguagem artística. Ela permite que o aluno elabore
uma imagem a partir de seu entendimento, do seu modo particular de ver o mundo.
O aluno ao registrar fotograficamente uma cena ou um momento,
depende de enquadrar o que está vendo e qual ângulo será utilizado, agindo assim
a fotografia surge como linguagem artística.
O professor de Arte deve aproveitar a relação de objetividade e
subjetividade da fotografia e, desenvolver em seus alunos uma visão artística,
deixando que os mesmos decidam o que e como fotografar considerando os
objetivos propostos. Sendo assim oferecer ao aluno uma possibilidade conhecer
uma nova opção de material para elaborar seus trabalhos artísticos, pois a fotografia
vai além dos registros, é uma forma de expressão, de transmitir novas ideias.
O que é a fotografia? Vitché Palacin, em seu livro “Fotografia Teoria e
Prática” define: “fotografia é, essencialmente, a técnica de criação de imagem por
meio de exposição luminosa, fixando está em uma superfície fotossensível, ou seja,
sensível a luz”.
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O termo fotografia foi usado pela primeira vez no Brasil, no interior de são
Paulo, em 1834, por um francês. Antes dessa denominação teve pelo menos mais
duas, heliografia e daguerreotipia.
Com a prática da fotografia, a chegada do sistema digital, percebe-se um
aumento no número de imagens. As novas mídias e a fotografia digital, transformou
a fotografia em um elemento fundamental de comunicação social.
De acordo com Boris Kossoy :
O processo de criação de um fotógrafo engloba aventura estética, cultural e
técnica que irá originar a representação fotográfica, tornar material a
imagem fugaz das coisas do mundo, torna-la, enfim um documento. Seja
durante o processo em que é criada, seja após a sua materialização,
conforme o destino ou uso que a guarda, a representação está envolvida
por uma verdadeira trama. (2002, p.26-27).
7. CONCLUSÃO
A fotografia na educação especial é um assunto novo, mas os alunos
especiais são tão capazes de aprender quanto os do ensino regular, apenas com
mais dificuldades e lentidão.
O professor de artes deve ser criativo e inovador, na educação especial o
professor de artes deve Adaptar as atividades conforme a capacidade de seu aluno.
A fotografia foi para muitos dos alunos algo inédito e, para outros a
oportunidade de pegar, sentir e ter a oportunidade de um contato com a máquina
fotográfica e o prazer de fotografar.
Esperamos que, com este trabalho, quem ainda não teve a oportunidade
de conhecer de perto a realidade da educação especial, possam perceber que,
apesar das dificuldades tanto físicas, motoras e intelectuais, o aluno se sente
valorizado e interessado quando o professor da sala de aula propõe a eles um
desafio. Para nossos alunos as dificuldades são muitas, mas a força de vontade os
transforma e faz com que superem as adversidades que encontram.
REFERÊNCIAS
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Kassar, M. C. M. (2000). Marcas da história social no discurso de um sujeito: Uma
contribuição para a discussão a respeito da constituição social da pessoa com
deficiência. Cadernos CEDES, ano XX, nº 50, pp. 41-54, Abril.
Placin, Vitché. Fotografia: teoria e prática. São Paulo: Saraiva, 2012.
Kossoy, Boris. Realidades e Ficções na Trama Fotográfic. 3º edição, São Paulo: Ateliê
Editoria.
SONTAG, Susan. Diante da Dor dos Outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003
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