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as palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas

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as palavras cor-de-rosa e as palavras cinzentas
Nos recreios, começaram a ouvirouvir-se novamente risos
simpáticos e palavras como És o meu melhor amigo,
amigo, Claro que podes
entrar no jogo…
Em casa, as crianças voltaram a usar palavras corcor-dede-rosa:
Obrigada, mamã,
mamã, Por favor,
favor, Desculpa, não fiz
fiz de propósito…
Nos aniversários, cantavacantava-se alegremente e, nas festas da
passagem do ano, formulavaformulava-se votos de felicidade e de saúde.
AS PALAVRAS COR-DE-ROSA
O Sol voltou a brilhar e a deitardeitar-se todas as noites na sua
nuvem corcor-dede-rosa. E, jurojuro-te, os vendedores de palavras cor
cor-dede-
E
-rosa começaram a fazer fortuna! AbriramAbriram-se mesmo outras lojas
especializadas em sorrisos, em suspiros de satisfação, em
delicadeza, em cortesia, em civismo… Foi como mel para o coração.
Quanto às palavras cinzentas, decidiram, diante de tanta
felicidade,
felicidade, desarvorar com quantas patas cinzentas e peludas
tinham.
E, quando alguma se lembrava de vir meter o nariz, garantogaranto-vos que não ficava por muito tempo.
Sophie Carquain
Petites histoires pour devenir grand
Paris, Albin Michel, 2003
(Tradução e adaptação)
AS PALAVRAS CINZENTAS
na imensidão do azul: era o Sol, que estava a desaparecer por causa
dos mausmaus-tratos.
Um dia, sem se saber muito bem porquê, tudo aconteceu de
repente: as palavras corcor-dede-rosa desapareceram do planeta. O que
Já no limite das forças,
forças, o rapazinho caminhou em direcção da
pequena bola amarela.
são palavras corcor-dede-rosa? São palavras delicadas, como, Obrigado,
Obrigado,
– Bom dia – cumprimentou. – Vim buscarbuscar-te. Tudo se
Faça favor,
favor, Se não se importa,
importa, És tão importante para mim.
mim.
tornou cinzento na Terra. Temos frio, sentimosentimo-nos mal. Nunca nos
Palavras tão doces que são como mel no coração.
rimos, nunca dizemos palavras delicadas. Precisas de voltar.
Seria obra do Mago Cinzento, que só gostava do salgado, do
saber--se
picante e do amargo? Não… Eram os homens que, vá lá saber
porquê, preferiam as palavras picantes, amargas e salgadas.
Naquela época, existiam na Terra lojas
lojas de palavras corcor-dede-rosa e lojas de palavras cinzentas. Os vendedores de palavras corcor-dede-rosa vendiam AmoAmo-te,
te, Penso em ti,
ti, Muito Obrigado,
Obrigado, Se faz
E o Sol e o rapazinho
rapazinho começaram ambos a suspirar, pensando
naquela “época corcor-dede-rosa”.
– Precisas de voltar – insistiu Pedro.
– Vou, a título de experiência – resmungou o Sol. – Mas
atira primeiro para a Terra estas palavras corcor-dede-rosa. Assim, o
meu regresso será mais agradável.
favor… Os vendedore
vendedores de palavras cinzentas vendiam sobretudo
Cabeça de alho chocho,
chocho, Não me chateies,
chateies, Cala o bico…
O Sol deu ao menino um conjunto de palavras corcor-dede-rosa: Por
favor,
favor, É simpático da tua parte,
parte, Muito obrigado,
obrigado, Gosto muito de ti,
ti,
A princípio, compravacomprava-se muito mais palavras corcor-dede-rosa do
que palavras cinzentas. Os vendedores de palavras corcor-dede-rosa
faziam bons negócios, e um perfume doce envolvia a Terra. Os
Amor da minha vida,
vida, Se não se importa,
importa, etc. O rapazinho meteumeteu-as
nos bolsos, na boca, no boné, nas meias, em todo o lado. As que ele
conseguisse levar.
vendedores de palavras cinzentas passavam os dias à espera,
porque só tinham clientes uma ou duas vezes por ano, por alturas de
grandes zangas.
Regressou à Terra e distribuiudistribuiu-as ao acaso. De repente, nos
engarrafamentos, as pessoas começaram a desdobrar os papelinhos
corcor-dede-rosa: Faz favor de passar,
passar, Que tempo tão bonito,
bonito, não acha?,
acha?,
No entanto, um dia, os homens puserampuseram-se estranhamente a
Pode ir à minha frente,
frente, não tenho pressa nenhuma…
ao cabo de meses e meses de árdua caminhada, chegou exausto e
comprar palavras cinzentas. Havia uma crise de emprego, uma greve
transido à casa das nuvens.
de corações. Os patrões compravam muitos Vá pregar a outra
outra
– Toc, toc – bateu. – Venho à procura do Sol.
freguesia,
freguesia, Está bem arranjado, homem,
homem, Obrigado pelos seus serviços
mas está despedido
despedido.. Havia guerras entre famílias, divórcios, casais
– Oh, oh! – exclamou a nuvemnuvem-chefe, que tinha tomado
posse do céu cinzento. – Olhem só para isto… Um fedelho ridículo
que vem à procura do senhor Sol! O Sol não aparece a ninguém!
Desde que as palavras cinzentas tomaram o poder, somos nós, as
que já não se entendiam. Invejas entre irmãos, zangas… CompravaComprava-se vários Já não gosto de ti,
ti, Acabou tudo.
tudo. Nas lojas de palavras
corcor-dede-rosa, muitos Obrigado,
Obrigado, Por favor,
favor, Gosto de ti,
ti, ficavam por
vender.
nuvens pardacentas, que somos os chefes.
– Para o diabo com as palavras doces – diziam os homens.
Dito isto, virou as costas e fechou
fechou-lhe a porta na cara.
O rapazinho sentousentou-se, confuso. Como responder? Não trazia
no bolso uma única palavra cinzenta. Então, começou a chorar. A
nuvem olhou para ele surpreendida: já há muito tempo que não via
ninguém chorar! Naquele universo glacial, todos
todos os olhos estavam
gelados, todos os corações estavam frios.
– Pára com isso imediatamente! – gemeu a nuvem. – Se
não, vou fazer cair um aguaceiro. (Porque as nuvens têm
habitualmente a lágrima ao canto do olho.)
Finalmente comovida, tomou, lá no íntimo, a decisão de o
ajudar.
– Olha – dissedisse-lhe. – Aquela bolinha amarela ali em baixo é
– São caras e não trazem nenhum benefício.
Os vendedores de palavras corcor-dede-rosa, desolados, já não
sabiam onde as armazenar. As lojas corcor-dede-rosa fechavam umas
atrás das outras. PassaPassa-se, Fechado por morte do
proprietário, Liquidação total, Quinze palavras corcor-dede-rosa pelo preço de uma . Mas, mesmo a preços módicos,
elas não atraíam ninguém. As lojas de palavras cinzentas,
cinzentas, essas
sim, prosperavam.
Porque, e isso é bem conhecido, as palavras feias são
contagiosas. Se no recreio te lembrares de lançar uma, receberás
dez em troca! AbriramAbriram-se mesmo lojas especializadas em palavras
feias, risos grosseiros, insultos horríveis. E os vendedores cinzentos
trabalhavam dia e noite para descobrirem jóias raras, as palavras
o Sol.
Pedro abriu os olhos e viu de facto uma bola de bilhar perdida
mais horríveis e mais maldosas!
Como receavam ficar sem provisões, como costuma acontecer
engarrafamentos: Ó aselha, vai mas é plantar batatas!
em tempo de guerra, as pessoas começaram a fazer conservas de
palavras cinzentas. CongelaramCongelaram-nas às dúzias, empilharamempilharam-nas nos
armários da cozinha, nos guardaguarda-fatos, debaixo das camas.
À face da Terra, a atmosfera era glacial. O Sol, que tem medo
das grosserias e dos arraiais de pancada, recusavarecusava-se agora a
brilhar. LembravaLembrava-se de outros tempos, em que era acolhido de
E, upa, ao menor atrito, ao mais pequeno gracejo, à mais
braços abertos:
insignificante discussão, iaia-se à reserva: Cala o bico,
bico, Vai ver se
chove,
chove, És um atraso de vida,
vida, Ó gordefas,
gordefas, e assim por adiante!
– Está bom tempo! Que maravilha! Obrigada,
Obrigada, amigo Sol…
Oh, meu Deus, como gosto do Sol…
Os aniversários tinham lugar no meio dos piores insultos.
Em vez disso, ouviaouvia-se agora:
CantarolavaCantarolava-se Infeliz aniversário, infeliz aniversário,
aniversário, lançandolançando-se
– Que calor horrível! Bolas! Kêkalôr!
uma bomba de palavras feias no meio da festa. Entre os adultos,
Então as nuvens invadiram o céu, e a terra mergulhou num
para se festejar a passagem do ano, comiacomia-se as passas e bebiabebia-se
período glacial. Toda a gente tinha frio. As pessoas recusavamrecusavam-se a
sumo de peúgas pretas, no meio de gracejos do género:
– DesejoDesejo-te um ano péssimo… e, principalmente, muito
despirdespir-se, já não faziam festas umas às outras, já não nasciam
cor--debebés. A Terra estava tão triste, sem flores nem palavras cor
de-
pouca
pouca saúde!
-rosa!
E, quando se abriam as prendas, era um concerto de gemidos:
No entanto, algures no mundo, um rapazinho não queria
– Que feio! Como é que tiveste uma ideia tão má? É, de facto,
o presente que eu mais receava.
habituarhabituar-se às palavras cinzentas. Talvez por, no seu bolso, ter
ficado uma palavra
palavra corcor-dede-rosa meio gelada.
Antes das aulas, as crianças corriam para as lojas cinzentas
e enchiam os bolsos de palavras feias para a hora do recreio. Antes
das férias, os adultos também lá iam, para encherem as malas de
– Eu – dizia Pedro – não quero um mundo onde mais
ninguém canta; onde não se diz bom dia, nem obrigado, onde há
sempre tanto frio. Vou ver se encontro o Sol.
palavras cinzentas, de piadas estúpidas, que atiravam pela janela na
autoauto-estrada,
entre
as
sandes
e
o
café,
durante
os
O rapazinho caminhou durante muito tempo, escalou colinas
geladas, pequenas e grandes montanhas, vulcões extintos. Por fim,
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