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EMBARQUE EM BRIHOISI

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EMBARQUE EM BRIHOISI
EMBARQUE
EM BRIHOISI
,
AGUSTINA
BeSSA-LUIS
EMBARQUE
EM BRINOISI
�
EXPO'Q8"
L
1998.
Agusllna 8essa-Luis e Parque EXPQ
98,
S.A.
Elllb.'1rque em Brindisl resulta de uma compilação de texlos extraidos dos
livros Alegria do ftlutldo
I,
A Brusca e Conversaçóes com DmitrJ e Outras
Fantasias, de AgusUna Dessa-luis, que gentilmente 81110rlzou esta
publicação.
Ilustração e Design
luis Filipe Cunha
Tiragem
5°00 exemplares
ConlposlçãO
FOlocomllogrâ rica
Selecç:to de Cor
Graflseis
Iml)reSS;lO e Acabamento
Prlnter PortugueSQ
Depósito Legal
119 519/98
ISDN
972-8]96-46-5
Lisboa, Abril de
1998
ALEGRIA DO MUNDO
Julo
e
Pompílio
Todas as terras litorais do Alto Minho parecem emergir,
como pequenas Atlântidas pedregosas e crismadas de ven­
tos, do fundo da sua história orientalista. Foram quase to­
das florescentes portos onde se ouvia o repique dos mar­
telos nos estaleiros e onde o cavername dos lugres e dos
navios se levantava como uma ossada antediluviana entre
as paredes dum quintal de armador, com latada de miúdo
cacho coríntio. Porque sucede aos portugueses mistura­
rem, de mente nem judiciosa nem útil, mas em monção de
simples azar, as coisas grandes com as pequenas, as naus
AGUSTI IIA
BESSA. L Uís
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e as figuras de proa com a caldeirada de safio. Gente há
por aqui que se chama ainda Pompílio ou Julo, que os
tempos não subornaram jamais e que possuem, atrás da
casa de barro caiada, uma oficina de barcos onde fabri­
cam, lentamente, com intervalos pingueiros e sonolentos,
obras-primas anavalhadas de siglas, pintadas de rosa e
preto, com olhos ciclópicos na linha de flutuação. Em
monção de azar os talham e saem-lhes malaios esses olhos
antigos. Donde os copiam ou recordam não o sabem; mas
têm a precedência da própria palavra monção, trazida pe­
los marítimos portugueses dos mares das Índias. "O tempo
ou monson, como eles o chamam, em que vêm os barcos,
é o mês de Julho, e permanecem em Bassora até fins de
Outubro, passada cuja época não podiam sair do rio, por
causa dos ventos contrários.»
Este significado passou ao
português monção, adaptando-o os nossos mareantes ao
dizer «tempo para navegar pera tal parte». Mousin berat e
mousin timor traduz-se por vento do Poente e vento do
Levante. Isto informa um velho livro que por aqui guardo,
propício aos interregnos da inspiração e onde aprendo
ciências fabulosas e inteligentes, como a de Salvador Ro­
ca, autor de obras estimadas, entre elas a Sanidade deI
A L EGRIA
DO
MUII O O
cabaJ/o e otros animales sujetos ai arte de albeiteria, ilus­
trada con el arte de herrar.
Pompílio e Julo desbastam tranquilamente o pinheiro
e a acácia brava. São homens muito diferentes e ambos se
dedicam ao mesmo mester.
O primeiro é tartamudo e
sombrio, trabalha a ocultas, finge-se umas vezes louco,
outras vezes ofendido, e ninguém sabe se ganha ou perde
com os seus belos barcos; não gosta de se desfazer deles,
mira-os com desgosto transpor a paliçada de canas da sua
horta e projecta afundá-los no rio, enchendo-os de pe­
dras, vazando-lhes o flanco. Odeia os compradores, olha­
-os como inimigos, e às vezes, com um pouco de vinho,
concede uma das suas obras, com um cuidado de empre­
gá-Ia bem, com um esmero de recomendações, como se,
em vez de entregar um barco de pesca ou de sargaço, ca­
sasse uma filha virgem e bem ourada. E quando entra no
seu terreiro juncado de serrim e lascas claras, sente no ar
o cheiro do verniz ou do alcatrão, vê no chão as ferra­
mentas, os pregos tortos e que não serviram, e uma gali­
nha que os debica com curiosidade e gula, enche-se de
fúria, ameaça matar alguém e diz: «Gilinho, quem te rou­
bou, gilinho?», - que assim chama o barco, seu caixão de
canseiras, sua arca de poderes, sua fortuna de lealdade.
AGUSTIIIA
BESSA.LUís
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julo é um homem arteiro e rabicho, sabe e usa de vai­
dades, carrega de banda o boné, é tão leviano quanto co­
municativo. Os seus barcos têm uma alma de galeras do
Nilo, quase lhes vemos toldos de seda escarlate e flâmulas
bifurcadas. Mente e ilude a toda a gente, o velho julo; vai
de noite às matas injectar com ácidos as árvores para que
sequem e depois lhas vendam mais baratas. As suas lan­
chas são leves e velozes, mas não duram, a primeira in­
vernia as desconjunta, e, se lhe atribuem culpas, julo diz:
«Faço barcos para ricos, que servem para tirar retratos.»
E havia dantes barcos encalhados na areia, que se freta­
vam para um passeio à barra e que tinham essa frescura
convidativa e folclórica dos barcos de julo. Saltavam nas
ondas como toninhas, gemiam os remos cortando a água
verde. Um terror, quase uma saudade fatalista e desatina­
da, apontava-nos o olhar para terra; e a grande vela cor
de saibro com remendos brancos pregava-se nos ares
pronta a tomar a direcção das ilhas, de Samatra ou de
Bornéu. Era a autêntica mousÍn kerÍng, a estação seca, ou
a monção de julho, que nos impelia nos finos, elegantes,
aventurosos barcos de julo.
Porém só os barcos de Pompílio resistiam à estação
A L EG R IA
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DO
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fria e chuvosa. Mousin dingin, chamavam-lhe os índios do
arquipélago malaio. Esses sim, eram barcos maciços e so­
lenes, com uma vocação de adversidade pesando na arma­
ção, vigiando na popa o leme. Que uns não são outros.
Fabricam os Julos embarcações ribeiras, grande enfeite de
rosetas e cruzes solimanas; e os Pompílios, na tartamuda
sagacidade do seu génio, adereçam aqueles loucos e bri­
guentos lanchões pesqueiros que se lhes vão das mãos ar­
tistas e do coração sinistro pelas águas profundas, de mar
em mar.
Destas praias do Alto Minho ambos ainda se produzem os da monção de Julho, os da monção de Outubro, ambos.
Aparecem eles atrás dos casebres, atrás das sebes de dá­
lias podres e de malmequeres que cheiram a açafrão ou
que cheiram simplesmente mal. Os barcos de Julo e os
barcos de Pompílio - ambos.
Isto me sugerem os abrigos costeiros que foram já lu­
gares de fama onde aportavam as naus. Riem-se-Ihes os
olhos malaios dos barcos novos que ali se aprontam lenta­
mente; e o salgado vento sopra amontoando as negras
algas.
AGUSTltlA
BESSA- L Uís
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Thubal,
O
Homem
«Maravilhosas são as cousas que dizem os teólogos.»
Começa assim António Vieira numa das suas orações en­
gastadas de prudências fantásticas e revoltosas que lhe
valeram cárcere, processo e faina de espírito. Esse formi­
dável homem de letras teve de português o engenho fácil
e do primeiro Adão a arte da desobediência. Muitas são as
imaginações em que se meteu por prazer messiânico e
gosto de confundir os pastores de leis do seu tempo. Con­
ta ele, supomos que com escândalo razoável dos homens
de meias conversas, que, tendo japhet sete filhos, o quin­
to se chamou Thubal e foi o primeiro português do mun­
do. Cretus Thubal, com a corrupção dos anos, deu o que
hoje se chama Setúbal. E consta que nesse Thubal se cum­
priria o melhor da bênção de Noé; o nome profético de
Thubal significa o que parece «homem de todo o mundo» ,
e isto sim é estado, carácter e solicitude de português.
Adianta-se António Vieira numas divagações que o
Santo Ofício atalhou com comedimento e que outras me­
sas de juízo hoje lhe haviam de rebater não com menos
reserva. De tudo, sobra-nos esse Thubal que teve do avô a
15
ALEGRIA
DO
M UIIOO
fantasia marinheira, a sensibilidade da vinha embardada,
e não sei que languidez estreme, entre a piedade e o zelo,
coisas de proveito para a definição de cultura. Thubal,
com que japhet quis significar orbis ou mundanus, é ainda
o que vós conheceis de lento repassador dos campos da
terra, um homem que convive largamente e não se aper­
feiçoa demasiado nos bens deste mundo.
É
por tempera­
mento pródigo, cavalheiresco e desorganizado; mas vigi­
lante em cumprir a sua razão no reino do provável, já
que não lançado a fiar-se nela, mesmo depois de jurada.
Thubal, o português, vê-se que nasceu de japhet que
era um moço murcho de risos quando a piedade lhe toca­
va o coração. O primeiro habitante deste Ocidente tem
exactamente, como os seus filhos, uma certa propensão
costeira, a queda para se instalar à beira-mar e construir
a esmo povoações feias, gotosas, paradas, que o desilu­
dam depressa do lugar e lhe tragam inspirações absortas
doutros azares e caminhos. Não sei se Thubal guardou no
sangue a saga do avô, muito precatado cidadão e decerto
razoável corredor de aventuras. Porque o juízo Final é
uma constante da mente humana; é o esbanjamento do
horror perante a saturação da pequena vileza a que se su-
AGUSTIIIA
OESSA.LUís
jeita o homem quotidiano. E dizemos: «Assim o mundo so­
çobra e se afunda, e nada sobreviverá na iniquidade; mas
um justo entra numa arca que ele próprio construiu, e
permanece a salvo.» Assim acreditamos no imperecível,
leve, resistente, ao sabor das águas. Thubal imagino que
herdou, com o melhor da bênção de Noé, aquilo de abrir
estaleiro na costa e barrar de pez os barcos. Lá está Cretus
Thubal construindo eternamente a arca de salvação, e be­
bendo goladas de vinho morno. Satírico e tristonho, com
olhos azulados, pensa sem pensar, adivinha sem prever o
seu Juízo Final.
Não sei se o conhecem, o tal, pintado na Capela Sisti­
na. Grandes adamastores acobreados pairam nos ares tur­
bulentos; os mortos ressuscitam, os pecadores precipi­
tam-se, as almas eleitas avizinham-se do trono de Deus.
Miguel Ângelo tinha do homem uma ideia catastrófica; era
ainda um discípulo de Savonarola pintando a nudez mo­
numental como uma forma de indignação. Onde está Thu­
bal, ou Japhet, martelando cuidadosamente as pontes da
arca? Não levam eles um casal de cada espécie de ani­
mais? Que espécies, senão espirituais? Que formas, senão
propostas a mudança? Agora paramécias, depois pombas
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A L EG R IA
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M UI I O O
perfeitas. Thubal, o homem, continua a construir a sua
nave que albergará todos os seres da criação. Ali tem gua­
rida não só a inteligência ou a mansidão, como também o
que é astuto e lutador; e certas espécies rasteiras, a tou­
peira cega e o escaravelho empurrando a sua bola de ex­
cremento se resguardam do dilúvio e esperam melhores
dias. Thubal não os escolhe, guarda-os apenas como obe­
diência e respeito. O Juízo Final da Capela Sistina não des­
creve esse lento vogar da arca no escuro dia da sentença
divina; pinta com ardor a condenação dos pecadores, car­
regando-os nos braços dos seus demónios; e vê-se a che­
gada dos justos ao claro trono de luz, recebidos com dis­
tinção, preparando-se para lavar as mãos das misérias dos
seus irmãos. Thubal, o homem,
não está decerto entre
eles. Está lá em baixo, na cidade onde acampou, vindo do
mundo e através do mundo, através das suas próprias ruí­
nas, procurando sempre, não escolhendo excessivamente
o lugar da sua casa, o tempo do seu amigo, a nobreza da
sua vocação.
O homem de todo o mundo é, de certo modo, o portu­
guês tímido e concreto, saudável em resignar de muitas
grandezas, convivente mais do que genial, durável mais
AGUSTIIIA
BESSA. L Uís
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do que imortal. Thubal, o homem, estende o juízo crítico
à própria fatalidade e vai pregando as tábuas da arca, en­
quanto a civilização apodrece, cheira e se abisma. Guar­
dara com respeito um casal de cada espécie, os voadores
e os munidos de cascos, os que têm escamas nos olhos, os
carnívoros, o símio triste, a preguiça que dorme de cabe­
ça para baixo, os monos sábios, as rãs de ventre grande e
que gritam nos charcos quietos. E todos, no silêncio da ar­
ca, esperam melhores dias. Isso enquanto soam os passos
de Thubal que transporta um pequeno balde de alcatrão,
isso enquanto uma claridade se apercebe aqui e além e
não se perde mais na profundidade dos olhos, porque
quem vê deveras a luz não reconhece mais a escuridão.
Thubal, o homem de todo o mundo, senta-se no convés da
sua tosca embarcação e pensa em coisas imediatas, no pe­
rigo corrente, no riso da mulher, numa jarra de vinho.
Não sabe se ama tudo isso, mas não esquece, e isso é im­
portante. Espera entregar a salvo uma espécie de cada ca­
saI; para isso construiu a arca e anda à deriva sobre os
negros mares. Não se lhe pode exigir melhor.
19 Agosto 1965
A L EG RI A
O O
M U II O O
Pala11lede&
Qualquer dia volto a Náuplia. Pelo caminho de Argos
cheguei lá, e era noite. O forte veneziano estava ilumina­
do no meio do mar, como um grande barco ancorado. As
sereias de Ulisses deviam nadar em volta dele, ouvia-se o
trinado das suas vozes vesperais. Na margem nós ficámos,
num largo pobre onde a poeira de Argos vinha cair, ro­
lando pela estrada da planície seca, morta, pisada. O forte
de Náuplia ficou-nos na memória como um lugar brilhan­
te, meio submerso, talvez pousado no eixo da Atlântida
- um lugar inabordável. O barqueiro, de bigodes murchos
e grisalhos, ofereceu-se para nos transportar. Mas do for­
te falaram, e repeliram a nossa presença. Parecia uma
história de Kafka, a grande fortaleza no meio do mar, en­
grinaldada de luzes, com a multidão de criados vestidos
de branco; a voz que nos proibia a entrada - e nós se­
dentos e empoeirados naquele cais de Náuplia. Cerca dali
partiu a esquadra de Agamémnon para Tróia. Tinham ví­
veres e vinho resinado, e cantavam levantando as ânco­
ras. Vemos ainda as muralhas da sua cidadela, donde se
descortinavam as planas terras de Argos.
AGUSTIIIA
OESSA-LUís
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Palamedes foi uma figura lendária que não teve as
honras de uma tragédia. Perseguido por Ulisses, que o
acusou de aliança com os troianos, acabou lapidado em
hora de desgraça. Era um sábio, inventou dizem que o al­
fabeto, o jogo de xadrez, os pesos e medidas, o calendário
e a moeda. O que não inventou Palamedes, os chineses
imaginaram depois.
É
possível que fosse ele o autor do
projecto do cavalo de Tróia, e que prometesse também
aos inimigos o segredo da estratégia dos argonautas. Esse
homem ambíguo e fantástico, mais grego do que qualquer
dos heróis e semideuses, tem uma dimensão mais acessível
hoje, e sobretudo romanesca. Podemos adivinhá-lo no seu
observatório, pois foi também astrónomo e explicou os
eclipses, podemos vê-lo abordado pelo rei Agamémnon,
carniceiro rei e alma obscura. Palamedes era erudito, não
sei se prudente. O campo de batalha, as divergências das
nações não o interessavam; mas a mudança dos homens
nas suas paixões talvez o convencesse a aproximar-se e a
segui-los. Palamedes embarcou para Tróia com o seu ta­
buleiro de xadrez e as suas tabuinhas escritas em caracte­
res misteriosos. Deviam achá-lo louco e fútil, ou até sus­
peito, os companheiros de Ulisses, e ele próprio, Ulisses,
A L EG R I A
21
OO
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o engenhoso. Palamedes saía de noite pelos campos, e mais
de uma vez penetrou nas linhas inimigas, por distracção e
despreocupação de toda a arte bíblica. Ulisses, que todo
o tempo levava em prodígios de manha e sagacidade, viu
com indignação Palamedes, que falava alto na escuridão
dos campos. «Atraiçoa-nos» - dizia. E murmurava dele.
É
bem possível que Palamedes tivesse um dia um en­
contro com Páris, que lhe chamou mestre e lhe pediu um
pequeno favor, como, por exemplo, distribuir a água nos
banhos ou fazer obra de engenharia nas fontes e cascatas
nos seus jardins. Em dez anos de cerco criam-se relações.
Ulisses não compreendia isto, e bem o demonstrou no seu
regresso ao lar, quando viu o seu próprio palácio cheio
de pretendentes. «Atraiçoam-me» - dizia. Tinha um génio
agressivo, todavia melífluo, o que fazia com que Minerva
o protegesse; ela gostava dos homens um pouco pueris,
permitia-lhes sobreviver nos infortúnios, sem contudo os
fazer felizes. Ulisses venerava os deuses adulando-os e
servindo-se deles. Palamedes servia os homens, mesmo
se os ignorava. Não podia acabar bem uma história assim.
Se eu fosse dramaturgo, escrevia a vida de Palamedes, ou
só o tempo decorrido nos campos de Agamémnon. Pobre
AGUSTIIIA
BESSA.LUís
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rei sábio! Ainda depois de morto, foi o farol inventado
por ele, o que deu a notícia da queda de Tróia e acordou
em Micenas a infame Clitemnestra. Nos jardins da cidade
vencida crepitavam as fontes de Palamedes, juntamente
com os incêndios.
Volto a Náuplia, ainda que seja terrível o seu caminho
de pó, as suas vinhas pardas, as eiras onde secam os co­
rintos. Verei outra vez o forte veneziano no meio do mar,
preto e dourado, com um sussurro de vozes de aves da
água. Sereias ou gaivotas, não sei. Mas volto a Náuplia.
O palácio de Palamedes soterrado, seu muro de desprezo,
desfeito;
seu rosto glabro,
esquecido.
E os criados das
pensões descarnadas, e onde zumbem ainda de noite as
abelhas, chamam os hóspedes com largos gestos servis.
A pracinha, com aquele ar de cenário apodrecido, a voz
que chega da fortaleza e pergunta, com entoação cúpida,
pergunta se somos americanos. E o barqueiro mísero, de
pé no barco que baloiça. «Americano?» - pergunta, ansio­
so, já desprendendo amarras, soltando remos. E nós ficá­
mos. Os balõezinhos venezianos dançavam na água. Era
insólito, e triste, e ignóbil, e não sei que mais. Não volto
a Náuplia, estamos entendidos.
29 Junho 1967
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A L E G R IA
O O
M U II O O
Como o poeta Lena
Voltei às praias antiquíssimas e, se profanadas, ainda
tão encobertas e apenas molestadas pela mão do vento.
Apagou-se um tanto a pegada do banhista, que não vem,
porque acha frio, acha caro, acha triste. E as dunas refa­
zem-se, os juncos crescem; a beleza da montanha de espi­
nhaço seco converte-se numa beleza virtuosa e recatada.
Eu lembro-me. No primeiro ano, era assim de solidão
./
e frescura. Os jovens padres, ainda de batina preta, cantavam contra o vento cantos gregorianos. Era antes do
diálogo, da espécie nova de conversadores. A tolerância
é, disseram já, a virtude dos cépticos. Quando a indife­
rença assenta arraiais nos campos todos do génesis, tor­
namo-nos sorridentes como um pastor aburguesado. A ví­
bora e o lacrau não o incomodam, o lobo não uiva às suas
portas, a peste não lhe leva a Corisca nem a Pinta.
É um
pastor nem alegre nem pesado, prestes a julgar-se bom
entre os homens. Não é a glória de Javé que enche a ter­
ra, mas a satisfação do homem que nela se obstina. A sub­
til palavra da lei «não porás o teu Deus à prova» deixou
de ser entendida. Ninguém a reconhece mais no seu cora-
AGUSTIIIA
BESSA-LUís
24
ção; e a vil lamentação dos que discutem a felicidade dos
ímpios apodera-se daqueles para quem a luta não era esse
pequeno despeito de mendigo.
Esta longa praia vazia reconduz a gente ao pensamen­
to sem templos e sem teorias. Como se de novo a terra se
formasse e, vindo do mar, o homem prometido ao sofri­
mento e, no entanto, portador da boa nova, enraizasse
humilde e sem decepção.
Orgulhoso e decepcionado o tempo em que clamamos.
Contra todas as montanhas nos ocultamos, e a pequena
rocha nos faz prever a catástrofe. Nas coisas insignifican­
tes usamos de força e no coração sombrio perdemos a co­
ragem.
O vasto campo do mar suspira, e, ao retirar-se, a água
deixa na areia unhadas fundas. Tudo é feito para produzir
transformação, tudo o que é verdade é uma forma de in­
tolerância. Veio hoje uma peixeira velha, oracular, negra.
Traz na fímbria da saia o dinheiro guardado. A sua lingua­
gem é violenta e poética; noutra seria obscena, nela é co­
mo uma tranquila faculdade de gerar o seu próprio idio­
ma, e não o desafio de o interpretar. Nenhum teatro a
podia adoptar nem viver. Ela é tão fielmente escoltada
A L E G R IA
25
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M U II O O
pelas suas qualidades, humilde e sem decepção, que a in­
teligência descritiva não consegue submetê-Ia. Diz coisas
tão vivas, que em cada imagem está o rito do nascimento
e da morte. Reproduzir isso é torná-lo impuro.
E é esta a praia; e é este o tempo. Como as almas pe­
nadas criando, do nada que não
sentem,
um olhar sem
profecias, volto aqui. Aqui invento perplexidades e moti­
vos. E assim vou vivendo, como o poeta Lentz, exactamen­
te como se fosse importante. Exactamente.
A BRUS CA
Uma Peacaria
Não sei no que a Vieira se pode ter tornado, mas nesse
tempo era ainda uma aldeia de pescadores, com burros à
solta sob as varandas de madeira e um mercado insólito
onde duas ou três pescadeiras velhas ponderavam as suas
vidas, vendendo, por desfastio, uma quarta de pilritos e
de camarinhas. As dunas eram altas, com baluartes de ca­
marinheiras dum verde azedo e duro. O estuário do Lis
abria-se em faixas lavradas na praia. Um fumo rosa, de
evaporação, flutuava de manhã. Puxavam-se as redes com
juntas de bois, e ao mar faziam-se os barcos deslizando
AGUSTI IIA
B E SSA.LUís
30
em pranchas de pinho. Tudo era quase agressivo na doçu­
ra fria dos lugares e das gentes. Havia apenas uma pensão
pobre, com colchões de palha fermentada; a locandeira
revistava as malas dos hóspedes, com honesta curiosida­
de, e amuava, nos seus setenta anos de menina, se, preca­
vidos, as aferrolhavam. Achava-os desconfiados e, por su­
posto, de más contas. Não sei se tinha razão.
Ninguém de juízo se alojava na aldeia. Um professor
de línguas cafres, que enroupava o carro como se o de­
fendesse de catarros ou de olhares sem decoro, instalara­
-se na vila. Da profissão que tinha, ensinando a linguagem
dos Balantas, insinuara-se-Ihe um africanismo esteta, pois
se apresentava em estilo safari,
com calções curtos e
meias de linho. Creio que usava capacete colonial e binó­
culos de campanha, mas não o afirmo. Era uma dessas
pessoas que, por terem um ofício raro, se fazem elas pró­
prias excêntricas e um pouco marciais. Todavia, a sensa­
ção de serem diferentes torna-as comunicativas e prestá­
veis com a insignificância das demais espécies humanas.
Andava por toda a parte com extremo à-vontade, tratava
por tu a cozinheira e ia de vez em quando preparar um
prato especial, com gindungo e farinha de suruí. A mulher
A
31
B R USCA
olhava para ele com complacência não isenta de inquieta­
ção. Era um Tartarin do gentílico - e ela sabia-o.
Mas nós, propriamente, estávamos na praia. Acordáva­
mos, e o mar já nos chamava do fundo da escada, com
aquele respirar de quem tem enfisema. Os cachopos co­
miam pêssegos verdes e peixe seco. Sobre grelhas de ca­
nas, via-se o carapau a curtir ao sol. Ouvia-se de súbito
um motor de lancha; os ricos desciam o rio, com a sua
equipagem de desporto, e vinham experimentar a água do
estuário. Regressavam logo, levando às vezes com eles um
amigo abrutado, de olhos garços e que sabia colocar as
redes e navegar no rio.
As pescarias faziam-se em Setembro, em manhãs em
geral brumosas e frescas. O método era simples, Iimitava­
-se a uma estacada que retinha o peixe em cardume sufi­
ciente para uma caldeirada. Mas às vezes era escasso ou
tardio, e traziam-no de São Pedro de Muel e até de Buar­
cos; peixe de escama verde e ventre claro, ou o safio co­
mo um tronco de afogado; o tamboril e o lavagante, tudo
com um punhado de gengibre e sopas de pão moreno. Às
vezes chuviscava e o rio cobria-se duma pele crivada,
dum negro denso. Os hóspedes corriam pelas margens e,
AGUSTIIIA
BESSA- L Uís
32
de longe, aquilo parecia a cena de um desastre, como
quando se vira um bote e não se sabe se acudir ou cha­
mar. Só o professor de línguas cafres não arredava pé, e
continuava a documentar-se, fazendo sugestões extrema­
mente racionais. Ele representava ali o progresso, contra
as forças enigmáticas do costume; costume que era já um
rito, que atingia o significado duma leal pendência com o
destino e que merecia o respeito mais submisso. Não era
por ignorância, com certeza, que a saída para o mar se fa­
zia em tão precárias condições, os barcos quase carrega­
dos pelos homens, esperando o favor da onda. E uma lon­
ga manhã se perdia naquele diálogo com a recusa do mar.
Dez ou vinte vezes o barco era devolvido à praia; os ho­
mens tentavam de novo, destemidos e inermes, com o ter­
ror sagrado nos
valentes corações.
O professor achava
que um pouco de técnica como ajuda, uma engrenagem,
um nada, podiam poupar aquele esforço e conduzir a re­
sultados mais eficazes. Surdamente, um ácido sentimento
se levantou contra ele. Incauto, absorvido pela sua inteli­
gência divulgadora, o professor não se apercebia daquela
ingrata consciência dos que chamava seus discípulos. Re­
madores de grossos braços e veias pretas sob a pele, mo-
33
BRUSCA
ços de cabelos anelados pelo sal,
as velhas de saiotes
franjados na orla pelo uso, olhavam-no friamente. E in­
terrompiam o trabalho quando ele chegava, fosse o de re­
mendar redes, fosse o de pintar um olho de Argos na proa
dum barco. Não eram doidos nem sábios; não queriam
corromper aquela estreita aliança com as coisas do seu
mundo, coisas a que deviam tudo o que eram, a raça de
luto, o pão da liberdade.
Nessa manhã de pescaria, o professor apresentou-se
protegido com um casaco de pano especial, impenetrável
à água e ao vento. O capuz caído para as costas deixava
ver que era revestido de material sintético, igualmente fi­
no e invulnerável. Nesse dia ele estava particularmente
minucioso nos conselhos que dava e acabrunhante nas
opiniões que emitia. Achava os métodos de pesca extraor­
dinariamente primitivos. Quando toda a gente debandava,
como gaivotas, abrindo grandes asas sobre a cabeça, im­
provisadas com lenços e toalhas, ele ficava, timonando
um pequeno barco de borracha. A corrente arrastava-o
para a estacada, e, como o vento era forte, ele corria na
água de maneira impressionante. O peixe mergulhava para
o fundo.
AGUSTIIIA
OESSA-LUís
34
- Que quer ele? - perguntou um dos convidados, que
tinha voltado para trás para esperar uma desconhecida
com a qual pensava travar conversa. Viu na relva um li­
vro, que era o diário de férias do professor, e abriu-o.
«Os povos falhados são os que sobrevivem», leu ele. E fe­
chou o livro. Nessa altura, o professor aproximava-se da
linha de estacas, perante o silêncio dos pescadores que o
olhavam da margem; o barco rasgou-se como se fosse fei­
to de papel, ao ser atirado pela corrente contra as puas
de madeira.
- Santo nome! - disse a desconhecida. Começou a so­
luçar, sem compreender bem o que se passava. O convida­
do afastou-se dela, com uma espécie de repugnância, pois
a morte
violenta não
é
boa
condutora dos amantes.
O professor foi retirado �s redes, juntamente com algum
peixe miúdo e detritos.
- Este ano não prestou a pescaria - disseram os
ricos. Em compensação, a caldeirada, essa foi excelente.
Tinha robalo e tinha pescada e algum pedaço de lagosta
semicrua, rangente, fina. Tomou-se café sob as ramadas,
que abrigavam do vento; e as crianças corriam como ga­
tos debaixo das mesas, entornando os restos de vinho.
35
BRUSCA
Não sei que deserto morno era o do caminho por onde
voltámos; mas pareceu-me a natureza aplacada, e um si­
lêncio nobre e glauco era o do mar. Do professor já não
havia memória. As mulheres não falaram dele no seu mes­
quinho mercado, na manhã seguinte; falaram de uma pita
morta por um carro, e dos fiados que assentavam no livro
da loja. Loja sobrenatural, com maços de velas tatuados
pelas moscas, que comércio de almas e de tempo se fazia
lá! «Não, não vivo disto; morro disto», disse-nos uma vez
o dono, fatalista, meio letrado, amargo como salmoura.
Tinha a paixão de negociar com a ruína dos outros, como
se negociasse com promessas.
- Não podes pagar, juro-te que não me podes pagar
nunca mais em dias da tua vida.
- Então não levo, então não como.
- Isso podes levar, isso podes comer. Mas pagar, não
penses que pagas, porque não podes.
O contrato era assim. Loucos ou sábios, como o sabe­
remos? Consolávamos o inquieto coração pousando os
olhos na linha imaginária do horizonte, e vivíamos.
CONVERSAÇOES COM
DMITRI E OUTRAS FANTASIAS
embarque em Brindi6i
Escrever uma página inspirada não acontece todos os
dias.
Às
vezes movemos o pensamento pelos atribulados
caminhos do dóméstico, que corrompem a subtileza e a
graça; outras vezes pomos na cabeça o nosso gorro sábio,
e resulta uma enfadonha tabuada de sentimentos. Mas po­
de suceder também que o longo tempo de submissão às
condições da vida prepare a revelação de um momento
excepcional. Como hoje, em que, subitamente, sem desíg­
nio celeste, nem interpretação moral, nos inscrevemos na
hospedaria do desencontro, onde nada se acha do que
AGUSTIIIA
BESSA. L Uís
40
nos sucede, mas só a poeira dos pequenos incidentes hu­
manos que não tiveram história.
Em Brindisi, foi em Brindisi. Comércio portuário, si­
lêncio suplicante no crepúsculo de Brindisi; grandes bone­
cas de rosto alarve e sonso abrem os olhos de esmalte
dentro das suas caixas de cartão. A poeira do cais adere
como um trapo no cimento, um barco parte de Brindisi ao
anoitecer. Estudantes ingleses, byronianos e errantes, so­
bem para a popa onde passarão a noite, sob as estrelas.
Usam longos cabelos como pajens, e, porque não são be­
los, isso parece-nos indecente. Pois a excentricidade é a
beatitude de um privilégio, não é a missão dos espíritos
pobres. Como não são belos os jovens ingleses, com os
seus lábios carnudos e cor-de-rosa, com os seus caracóis
de diva, causam-nos desgosto e medíocre impressão. Não
estão alegres nem tristes partindo de Brindisi ao partir da
noite; provavelmente estão apenas cansados e sem inte­
resse pela aventura que escolheram. Entre eles, como um
grande anjo andrógino e convalescente, anda uma rapari­
ga que bebe devagar uma laranjada. O rosto faminto e
inexpressivo é apenas uma caracterização. Não sem sur­
presa, verificamos que os homens e as mulheres novas
41
COIIVER SAÇÔES
CO M
O MIT R I
OUTRAS
FAIITASIAS
teatralizam a sua consciência, não se informam dela. Um
rosto humano é feito de horas minuciosas, não surge de
repente aberto e realizado perante a façanha de viver.
Justamente em Brindisi, que não era já a cidade de Virgí­
lio, onde, na sua liteira, prostrado pelas febres solares,
ele morreu, havia um rosto humano.
Era uma mulher já um pouco distraída da sua juventu­
de, mas bela. Era pobre. A maneira como ela perguntava
o preço da passagem para Patras absorvia todo o seu espí­
rito, dava-lhe uma expressão quase demente, como só os
pobres têm quando tratam de dinheiro. Não conhecem a
ganância, não conhecem o significado do lucro; medem e
pesam, com um desprendimento inumano de tudo aquilo
que não é o preço da sua necessidade. Naquela mulher
que comprava um bilhete de convés para Patras, havia
uma tal paixão de convencer a escassez a ser-lhe bastan­
te, que todos nós sentimos que ela era capaz de ignorar a
fortuna, a cidade propícia, os convites obscuros e leais,
para só persuadir aquele momento a ser-lhe útil.
Não
queria seduzir ninguém; no entanto, seria quase louvável
que o fizesse, porque a sua beleza comunicava espanto, e
gratidão e também crueldade. Não sabemos porque a be-
AGUSTIIIA
B E SSA·LUís
42
leza incide sobre a jazida da crueldade, mas assim é. Era
magra e escura, tinha uns olhos sérios, grandes, com pes­
tanas como penas molhadas. E trazia pela mão um rapazi­
nho feio e desengonçado, um desses meninos arrevesados
e trágicos que não sabemos de que promessas nasceram,
que pátrias lhes deram nome; e que representam para
uma mãe formosa uma pobreza mais. Ela queria partir no
barco dessa noite, e contava com sofreguidão e empenho
o seu dinheiro, que era pouco e que não chegava. Sob a
burocrática indiferença do empregado da agência de via­
gens, havia uma pequena desordem do coração, despeito
e infâmia, não se sabe o quê. De repente, todos nós vimos
isso, a veemência absurda daquela mulher que queria par­
tir e que trazia pela mão um rapazinho meio vadio e que
ela arrastava consigo com desespero, provocou um fenó­
meno inexprimível. O empregado da agência apaixonou-se
por ela. Era um homem inteligente e cínico; tinha um sor­
riso intrépido e fino quando ouvia as reclamações das ri­
cas americanas. E, de repente, apaixonou-se. Ficou morto
o seu rosto pálido,
só se descobria nele a crueldade.
E quando lhe seria tão fácil ignorar a falta de algumas
moedas, a insignificante quantia que a mulher necessitava
43
C O NVERSAÇÚES
COM
OMITRI
OUTRAS
FANTASIAS
para partir, ele insistiu em avolumar a impossibilidade, e
o seu rosto morto enfrentou a magia que ela tinha trazido
àquele lugar, em Brindisi. A crueldade dominou-o, e nada
pôde fazer pela mulher. E também nós tememos fazer por
ela algo de bom.
Ela saiu da agência. Era de facto muito bela, escura,
vestida de preto, com olhos inquietos e sérios. Parecia
perseguida e conformada; arrastava consigo o filho com
um ardor que comovia mais do que se demonstrasse por
ele ternura.
Foi em Brindisi. Não sei se me expliquei bem, as letras
não servem às vezes ao coração da realidade. Mas penso
que um rosto humano é feito de momentos assim, de con­
tinuidade, de paixão que não serve aos homens senão pa­
ra que resistam ao seu grande espanto de viver. Assim é.
Vejo Brindisi ao cair da tarde, cidade portuária e desen­
ganada, com grandes bonecas encaixadas às portas, vesti­
das de azul e rosa. Como meretrizes honestas e sem alma.
E os inglesinhos de compridos cabelos, de queixos agudos,
feios. A excentricidade deles, os moços de bordo em man­
gas de camisa, a fuligem nos bancos do convés, a partida
de Brindisi à noite e o rulho do mar à noite. E aquele
AGUSTIIIA
GESSA- L Uís
imóvel rosto,
aquela recusa fria,
44
o sádico encanto do
amor que resistia a participar e a ser. E a beleza, prodígio
para sempre pobre e desamparado, náo embarcara em
Brindisi. Não embarcava em parte alguma, eu tinha a cer­
teza disso.
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