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Uma abordagem retórico-comparativa da bucólica II de Virgílio e da
Revele, Belo Horizonte, n. 9, p. 140-157, out. 2015
Uma abordagem retórico-comparativa da bucólica II de Virgílio e da bucólica
III de Calpúrnio Sículo
A rhetorical-comparative approach to Virgil’s Bucolics II and to Calpurnius
Siculus’ Bucolics III
Luana Santana Lins1
Resumo: Neste artigo, depois de introduzirmos questões gerais em nexo com os traços principais
e a presença da poesia bucólica em Roma, passamos a investigar alguns aspectos retóricos da
segunda bucólica de Virgílio e da terceira écloga de Calpúrnio Sículo. Sobretudo interessados em
analisar retoricamente esses dois poemas e considerando o aspecto da “invenção” (inuentio),
destacamos como os dois autores recorreram a argumentos de natureza patética, ética e lógica
com o objetivo de gerar a persuasão sentimental em um e outro caso mencionado. Desse modo,
sempre recorrendo a exemplos extraídos dos textos em questão, tentamos descrever, aqui, em
quais pontos argumentativos as ideias e sentimentos expressos por Virgílio e Calpúrnio, nesses
poemas, coincidem ou mostram-se mutuamente diferentes.
Palavras-chave: gênero bucólico; Calpúrnio Sículo; Virgílio; retórica; inuentio.
Abstract: In this paper, after introducing general issues in connection with the main features of
bucolic poetry and with its presence in Rome, we proceed in search of some rhetorical aspects
found in Virgil’s second bucolic and in Calpurnius Siculus’ third eclogue. Mainly interested on
analyzing both of these poems under a rhetorical point of view, and considering the aspect of the
“invention” (inuentio), we highlight how these two authors resorted to arguments of pathetical,
ethical and logical kind, in order to generate sentimental persuasion in both cases mentioned.
Thus, always resorting to examples taken from the aforementioned texts, we try to describe here
in which argumentative points the ideas and feelings expressed through these poems by Virgil
and Calpurnius coincide or present themselves as mutually different.
Keywords: bucolic genre; Calpurnius Siculus; Virgil; rhetoric; inuentio.
Recebido em 30 de junho de 2015.
Aprovado em 4 de agosto de 2015.
1
Graduanda em Letras – Licenciatura Português e Latim pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas
Gerais. O presente artigo foi elaborado como parte dos trabalhos do projeto de iniciação científica “Ressonâncias de
Virgílio no bucolismo de Calpúrnio Sículo”, desenvolvido sob a orientação do Prof. Dr. Matheus Trevizam. E-mail:
[email protected]
eISSN 2317-4242
DOI 10.17851/2317-4242.9.140-157
Revele, Belo Horizonte, n. 9, p. 140-157, out. 2015
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1 Introdução: traços gerais do gênero bucólico e sua representação em Roma
Na Literatura Clássica, o gênero bucólico é, por excelência, a forma poética idealizada
para se cantar a vida pastoril. O poeta-pastor é cúmplice, não mero espectador do mundo que
descreve (BEATO, 1996, p. 43). Assim, ele transporta o leitor-espectador para ambientes que
fazem parte do seu cotidiano, revelando sua íntima relação com a natureza. Segundo Bernardes
(apud BEATO, 1996, p. 42), o gênero bucólico “corresponde a uma necessidade estética do
homem de perspectivar a sua relação com o Tempo, com o Espaço e com os outros homens”. Não
se deve, portanto, crer que o bucolismo seja um gênero que se restringe à relação do homem com
a natureza, em harmonia e tranquilidade. Ainda, tal relação não seria retratada de maneira
atemporal, isto é, desvinculada do momento e do lugar em que foi escrito o poema bucólico.
As origens desse gênero são incertas. Contudo, o siciliano Teócrito (séc. III a.C.) é
considerado um mestre incontestável do bucolismo (GAILLARD; MARTIN, 1990, p. 345). Os
seus Idílios inspiraram sensivelmente o segundo autor de importância, o mantuano Virgílio (séc. I
a.C.). Na Itália, Virgílio foi quem introduziu o gênero, em hexâmetros datílicos, seguindo os
passos dos seus predecessores gregos.
As Bucólicas do poeta mantuano, sua primeira obra de peso, foram escritas na juventude e
feitas à maneira aproximada de Teócrito. Embora a perspectiva seja, em geral, a do poeta-pastor,
a linguagem, bem como o sentimento que lhe toca, é versátil, se consideradas as dimensões
lírica,2 dramática3 e elegíaca4 nos poemas, que ora assumem a forma de uma narração,5 ora de um
diálogo6 ou de um monólogo.7 Organizadas em dez éclogas sobre diversos temas, abarcam o
universo pastoril, o dia-a-dia do pastor, a reverência à natureza, mas, no pano de fundo, incluemse também as vicissitudes atinentes às personagens humanas. Na écloga I, por exemplo, uma das
personagens vê suas terras expropriadas. Percebemos, pois, que a poesia pastoril pode ser
“politizada” ou, ao menos, apresentar algum envolvimento com as questões históricas do tempo,
como na(s) écloga(s) I (e IX), em que o tema é o confisco de terras. Já nas éclogas II, VIII e X, o
assunto é o amor contrariado; nas de número III, V e VII, recorre-se formalmente ao canto
amebeu (canto alternado); as éclogas IV e VI são narrativas mitológicas. A primeira dessas duas
2
Gaillard e Martin (1990, p. 345) afirmam que tradicionalmente o gênero bucólico está ligado à poesia lírica, não só,
segundo nos parece, pelo seu vínculo com a música, mas também pela acentuada expressão do “eu”. De fato, nas
éclogas II e X, de Virgílio, notamos a expressão do “eu-lírico” nos respectivos lamentos de Córidon e Galo diante do
amor não correspondido.
3
GAILLARD; MARTIN, 1990, p. 345: “(…) ela [a poesia bucólica] também aparece, sob certa perspectiva, como
uma forma dramática, ‘na medida’, escreve Pierre Grimal em Le lyrisme à Rome (p. 7), ‘em que implica em uma
mise en scène, em um cenário rústico, em uma indumentária (ao menos imaginada) e em convenções diversas’”.
(tradução nossa)
4
Hélène Casanova-Robin, em análise da écloga II, de Virgílio, observa modalidades elegíacas no lamento de
Córidon, na medida em que há um “fechamento em seu sentimento amoroso” (p. 47). “No entanto, o lamento não diz
respeito, nesse caso, à ausência do outro, como na elegia tradicional, mas ao fato de ser negado em sua existência e
em seu canto”. (VIRGILE, 2014, p. 50 - tradução nossa)
5
As éclogas IV e VI são estruturadas sob a forma de uma narração mitológica.
6
São caracterizadas pelo diálogo pastoril sobre o confisco de terras as éclogas I e IX.
7
A écloga II, por exemplo, embora se inicie com uma narração nos cinco primeiros versos, caracteriza-se pelo
posterior monólogo, com a lamentação, em primeira pessoa, de Córidon; assim, na écloga X, a personagem de Galo
também lamenta seu amor não correspondido.
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últimas parece “profetizar” os rumos da humanidade: o início de um novo tempo é anunciado
com o retorno de uma Virgo (a Justiça) e do reino de Saturno (CARVALHO, 2005, p. 167),
caracterizando, assim, a Idade de Ouro, período lendário em que os homens desfrutavam de plena
harmonia entre si e com a natureza. Nessa écloga IV, o marco de tal período coincide com o
nascimento de um menino, para quem o poeta pede a proteção de Lucina, divindade propiciadora
dos partos (CARVALHO, 2005, p. 167). Já na écloga VI, Sileno, sátiro dotado do dom da
profecia e capturado por dois pastores, começa a cadenciar carmina que lhes agradariam. Assim,
canta a origem do universo, além de alguns episódios mitológicos, como o conhecido episódio de
Cila, antes narrado na Odisseia (canto XII).
Então, a importância dessa obra virgiliana repousa no fato de ser ilustrada uma visão da
realidade que, imersa na Arcádia paradisíaca 8 que o poeta criou, torna-se uma visão serena, mas,
ainda assim, “comprometida com os dramas e percalços do homem comum” (CARVALHO,
2005, p. 7). A natureza universal dos sentimentos retratados – amor, aspiração à paz e ao repouso,
sonho de liberdade, entre outros –, é tão intensa que recebeu ecos em autores posteriores, como
Calpúrnio Sículo (séc. I d.C.) e Nemesiano (III d.C.).
Sobre
esse último, teria nascido em Cartago. É autor de quatro bucólicas, inspiradas no modelo do
precursor do gênero na Itália, Virgílio, mas também no seu predecessor mais próximo, Calpúrnio
Sículo (BEATO, 2003, p.101). No entanto, tendo vivido em um contexto histórico, social e
político diverso de seus modelos, esse poeta se distingue, igualmente, no cultivo do bucolismo
(BEATO, 2003, p. 94). Sua “técnica de mosaico”, por exemplo, que consiste na vasta exploração
do recurso da imitatio, apresenta-se como um processo “para salvaguardar um patrimônio que
possivelmente julgaria ameaçado ante o emergir de uma nova Literatura de concepção cristã”
(BEATO, 2003, p. 104).
Quanto ao próprio Calpúrnio Sículo, cuja biografia é pouco conhecida (ao menos, sabe-se
que foi contemporâneo de Nero), é autor de sete éclogas. Entre elas, as éclogas I, IV e VII são de
cunho político e apresentam o tema da Idade de Ouro. Na verdade, segundo explica Rebello
(2010, p. 2460), essa temática está intimamente associada em sua obra ao reinado de Nero,
imaginário iniciador de uma “Idade de Ouro” em Roma. Desse modo, o poeta aborda o programa
de governo desse soberano que, restaurando as leis passadas e a ordem, asseguraria a justiça, a
liberdade, a segurança e a paz (REBELLO, 2010, p. 2460-2461). Já as éclogas II, III, V e VI se
ocupam dos temas do amor e da morte.
Se confrontada a leitura das Bucólicas de Calpúrnio com a da poesia pastoril de Virgílio,
notamos inegável reverberação de temas e formas (GRIMAL, 1994, p. 400). Contudo, não se
trata de uma apropriação servil e desprovida de qualquer criatividade: assim como Virgílio
inovou ao delimitar de maneira mais clara um mundo imaginário da Arcádia, opondo-se ao
“realismo” do autor dos Idílios (GAILLARD; MARTIN, 1990, p. 347), além de pintar cenários
“italianizados” (CARDOSO, 2003, p. 62), Calpúrnio também apresenta algumas características
inovadoras, a exemplo da introdução do locus horridus9 e do gosto pelas máximas, como observa
João Beato (1996, p. 55).
8
Gaillard e Martin (1990, p. 347) defendem que Virgílio cria, até certo ponto, uma “Arcádia paradisíaca”, na medida
em que procura se afastar das contradições, da violência e das disputas políticas urbanas, propondo um mundo regido
por valores opostos: o amor à natureza, o gosto pela música etc.
9
O locus horridus se opõe ao locus amoenus, topos convencional, muito recorrente na poesia pastoril. Ora, enquanto
o locus amoenus se refere às amenidades ligadas a um ambiente bucólico, tranquilo e aprazível, o locus horridus, por
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Isso posto, parece produtivo um estudo comum entre Virgílio e Calpúrnio, que procure,
pela análise da forma e do conteúdo dos dois poemas citados desde o título, explicitar o que têm
em coincidência e em quais pontos divergem. Portanto, propomo-nos a uma análise cotejadora
entre a bucólica II de Virgílio e a bucólica III de Calpúrnio, julgando útil levar em conta a
dimensão retórica no discurso dos amantes.
2 O tema amoroso nas éclogas II (de Virgílio) e III (de Calpúrnio Sículo) e sua mínima
articulação com o aspecto retórico da invenção
Na écloga II de Virgílio, uma voz “amorfa”, cujo enunciador não é identificável – um
narrador externo, portanto –, enceta o poema apresentando Córidon, cujo amor não correspondido
o leva a “lançar palavras confusas aos montes e aos bosques” 10. Ele ama ardentemente Aléxis e,
assim, tenta persuadi-lo de que, embora seja um mero pastor, é tão bem-aventurado quanto Iolas,
rival que seduz seu amante com os encantos urbanos.
Quanto à écloga III de Calpúrnio, o pastor Lícidas lamenta um amor perdido: depois de
uma querela com a sua amada Fílis, é abandonado por ela. Assim contemplamos, também, o tema
do amor não correspondido. Fílis agora se liga a um tocador de flauta, Mopso, e Lícidas tenta,
através de seus carmina, convencer a amada de que é mais afortunado – e digno de amor – que o
rival. Dessa forma, nota-se que, nas duas éclogas, o fazer poético instaura-se como uma tentativa
de trazer o(a) amado(a) para junto de si.
Em Virgílio, Córidon dirige-se ao amado, Aléxis, rogando-lhe que seja sensível à sua
poesia e, portanto, ao amor que nutre por ele:
O crudelis Alexi, nihil mea carmina curas?
Nil nostri miserere? Mori me denique coges.11 (grifo nosso)
Um procedimento similar é constatável na écloga de Calpúrnio. Lícidas pensa que o seu
canto poderá, talvez, aplacar a ira da sua amada Fílis, depois do desentendimento entre ambos:
Iamdudum meditor, quo Phyllida carmine placem.
forsitan audito poterit mitescere cantu;12 (grifos nossos)
outro lado, acompanha as marcas de angústia e sofrimento, como apronta João Beato (BEATO, 1996, p. 55).
Notamos esse topos nos versos 87-88, na écloga III, de Calpúrnio, quando Lícidas ameaça enforcar-se sob uma
árvore: Quod si turpis amor precibus, quod abominor, istis/ obstiterit laqueum miseri nectemus ab illa ilice, quae
nostros primum uiolauit amores (“Mas se um torpe amor será obstáculo para esses tristes/ pedidos, o que eu repilo,
ataremos uma corda naquela/ azinheira, que primeiro profanou nossos amores”. – tradução nossa).
10
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 4-5: Ibi haec incondita solus,/ montibus et siluis studio iactabat inani. (tradução nossa)
11
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 6-7: “Ó cruel Aléxis, em nada te tocam os meus versos?/ Em nada te apiedas de nós?
Enfim, obrigas-me a morrer”. (tradução nossa)
12
CALPÚRNIO, Bucólicas III, 40-41: “Já há muito, reflito com que poema agradar a Fílis./ Talvez poderá abrandarse ao ouvir o canto”. (tradução nossa)
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Desse modo, já é possível perceber a mobilização de uma dimensão retórica no fazer
desses dois poemas, pois sua própria composição é indicada como uma estratégia através da qual,
nas éclogas em pauta, Córidon e Lícidas tentam sensibilizar o ser amado. Segundo a retórica
antiga, como afirma Reboul, o discurso geralmente era pensado como algo em vínculos com três
“etapas” estruturadoras básicas: a primeira era a invenção (inuentio), “fase” em que o orador
buscava as provas cabíveis; a segunda era a “disposição” (dispositio), que se referia à ordenação
dessas provas (REBOUL, 2004, p. 60); a terceira era a “elocução” (elocutio), que dizia respeito
ao estilo, ou “modo de dizer”. Por fim, havia ainda a “ação” (actio), intimamente ligada à
performance prática do orador, bem como a “memória” (memoria), que se acrescentou, na época
romana, às demais “etapas” discursivas (REBOUL, 2004, p. 43-44).
A partir da leitura dessas duas éclogas, observaremos comparativamente como nelas
opera, sobretudo nos monólogos persuasivos de Córidon e no canto de Lícidas, uma “fase”
pertinente: a invenção, dimensão retórica que apresenta maiores afinidades com o aspecto
conteudístico da estruturação discursiva. 13 Dizemos “aspecto conteudístico” porque é na
invenção, em sentido amplo, que se efetua a coleta de material, o que quer que seja “que vai
constituir o conteúdo de um texto. É tudo o que se diz” (TRINGALI, 1988, p. 62).
2.1 Invenção e gênero deliberativo, empregados para a persuasão amorosa nos poemas
analisados
A invenção, explicamos, é a parte do discurso associada à busca empreendida pelo orador
das provas que tem à sua disposição, e que se apresentam como estratégias persuasivas
(REBOUL, 2014, p. 43). Tringali (1988, p. 62) explica que são provas todos os meios
empregados para argumentar. Elas podem ser “extrínsecas”, isto é, situam-se fora da arte, da
técnica oratória, enfim, da própria retórica (TRINGALI, 1988, p. 67-68). – Como, por exemplo,
em um julgamento, o depoimento das testemunhas, as confissões, as evidências analisadas pelos
peritos etc. – O orador poderá manipulá-las, mas não terá sido ele quem as “criou”. As provas
“intrínsecas”, por outro lado, são imanentes à retórica, pertencem à técnica oratória (TRINGALI,
1988, p. 69). Elas podem ser lógicas ou psicológicas: aquelas persuadem através de silogismos e
exemplos; essas, através dos sentimentos, pois comovem para persuadir, explorando a afetividade
humana (TRINGALI, 1988, p. 74-75). Entre as provas psicológicas, temos os argumentos
13
Reconhecemos duas outras “fases” produtivas para uma análise mais aprofundada: a disposição e a elocução,
ligadas à forma de apresentação de argumentos. Contudo, nosso estudo deter-se-á na análise do conteúdo, isto é, a
invenção. Ainda, como aqui deparamos um objeto escrito (e fixo) de análise, fica-se limitado no aprofundamento dos
pontos relativos à actio (entre os quais se contam, por exemplo, o tom de voz e o gestual do orador diante de seu
“público” – CÍCERO, Divisões da oratória VII, 25), bem como à memoria, pois a eliminação do problema prático da
maneira de recordar-se o enunciador/orador do que precisa dizer torna deslocada, em nosso caso, qualquer emissão
de juízos a respeito.
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éticos,14 que acordam sentimentos (afetividade fraca), e os patéticos,15 que acordam paixões
(afetividade forte e duradoura).
Tais argumentos, contudo, não são escolhidos aleatoriamente: estão – e devem estar – a
serviço dos objetivos do orador; esses objetivos, por sua vez, orientarão os discursos para gêneros
diferentes. Reboul (2004, p. 46) anuncia três gêneros retóricos, em conformidade com uma
divisão consagrada, já, desde a Arte retórica aristotélica: o judiciário, o epidítico e o deliberativo.
É interessante observar que a distinção entre essas três modalidades do discurso se justifica,
sobretudo, pela existência de três tipos de “públicos” diferentes. Assim, constatamos um
elemento importante na elaboração dos discursos: o outro, aquele a quem o orador se dirige
orientará o que deve e é possível dizer. Em outras palavras, conforme aponta Reboul (2014, p.
45), o orador “adapta-se” ao seu público, que é “juiz” de acusação ou defesa sobre um ato
cometido no passado, quando há o gênero judiciário; atenta no presente para as qualidades ou
defeitos de um objeto (ou ser) elogiado ou sob ataque, no epidítico; por fim, posiciona-se sobre as
vantagens ou desvantagens de uma decisão futura, no deliberativo (REBOUL, 2014, p. 45)16.
Nas bucólicas II e III (de Virgílio e Calpúrnio, respectivamente), nota-se a mobilização de
uma dimensão retórica caracterizada pelo tom admoestatório. Isso se constata, por exemplo, pelos
verbos no imperativo, pela descrição às vezes sedutora do ambiente (SAUNDERS, 2008, p. 117),
pela elaboração de certa imagem de si que procura cativar o(a) amante. Quando atentamos para
certos traços verificáveis no nível linguístico e das imagens criadas nos poemas, esses
procedimentos revelam objetivos de persuadir Aléxis/Fílis, de forma a cederem, em seguida, seu
amor aos poetas-pastores em pauta, Córidon e Lícidas. Portanto, o gênero predominante 17 do
discurso, nos dois poemas, é o deliberativo, já que procura incitar a uma decisão futura, isto é, a
que os sentimentos amorosos sejam correspondidos.
Assim, retomando os versos virgilianos citados há pouco:
O crudelis Alexi, nihil mea carmina curas?
Nil nostri miserere? Mori me denique coges.18
Tem-se que Córidon tenta, em vão – pois fala sozinho aos montes e bosques! –, suscitar a
compaixão de Aléxis já quando se refere ao amado como “cruel”, indicando o grande sofrimento
que a indiferença a seu canto (nihil mea carmina curas) ou a falta de comiseração (nil nostri
14
TRINGALI, 1988, p. 75: “Ético, do grego ‘éthos’ = costume, caráter. É a imagem que o orador transmite de si
mesmo (ou do réu ou do adversário), aos ouvintes. O orador varia a própria imagem de acordo com a conveniência
da causa. É, por assim dizer, a máscara – a ‘persona’, no sentido junguiano, que o orador assume”.
15
TRINGALI, 1988, p. 77: “Os argumentos patéticos suscitam paixões nos ouvintes para conduzir-lhes a mente e
arrastar-lhes a vontade”. “Páthos, em grego, quer dizer paixão, patético o que promove paixão”.
16
Reboul (2014, p. 45) acrescenta que “os valores que servem de normas a esses discursos não são os mesmos.
Enquanto o judiciário diz respeito ao justo e ao injusto, o deliberativo diz respeito ao útil e ao nocivo”.
17
Concordamos com Tringali (1988, p. 57) quando explica que, “na prática, nunca topamos com um discurso puro”.
Por isso, optamos por entender o deliberativo como o gênero predominante, não ignorando, contudo, algo do
epidítico, por exemplo, na prática de elogiar certos objetos ou até o ser amado/a si na poesia bucólica [CALPÚRNIO,
Bucólicas III, 61-63: Formosior illo/ dicor, et hoc ipsum mihi tu iurare solebas. – “Dizem-me mais/ belo que ele e
isto mesmo tu costumavas jurar-me”. (tradução nossa)].
18
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 6-7: “Ó cruel Aléxis, em nada te tocam os meus versos?/ Em nada te apiedas de nós?
Enfim, obrigas-me a morrer”. (tradução nossa)
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miserere) lhe inflige. Em sua Retórica das paixões, Aristóteles (2000, p. 53) define a compaixão
como “certo pesar por um mal que se mostra destrutivo ou penoso, e atinge quem não o merece”.
Esclarece ainda que, para que se sinta compaixão, é preciso acreditar na honestidade das pessoas
(2000, p. 55): tal é uma disposição em que se sente a compaixão. “Quanto ao que inspira esse
sentimento, é evidente pela definição: entre as coisas penosas e dolorosas, todas as destrutivas
são dignas de compaixão; e quantas são aniquiladoras” (ARISTÓTELES, 2000, p. 55 – grifo
nosso). Além disso, o filósofo acrescenta que “são males dolorosos e destrutivos as mortes, os
ultrajes corporais”, bem como as doenças; entre os males causados pela má sorte, a fealdade, a
debilidade etc. (ARISTÓTELES, 2000, p. 55 - grifos nossos)
Então constatamos, no início da segunda bucólica de Virgílio, sobretudo, uma
argumentação fundada no pathos, visto que Córidon se dirige ao interlocutor (embora ausente)
com intentos de mover-lhe intensamente a afetividade. Vê-se, inclusive, uma amplificação da
argumentação patética, levada a consequências extremas com a anunciação da ideia da própria
morte, justo o que há de mais aniquilador para o homem.
O mesmo tipo de argumentação pode ser percebido na écloga III de Calpúrnio Sículo,
quando Lícidas, igualmente, anuncia a ideia de morte associada à ausência/perda de sua amada:
Phyllida Mopsus habet, Lycidan habet ultima rerum.19
Notamos, na verdade, que a argumentação patética, na écloga calpurniana em pauta,
intensifica-se gradualmente. As primeiras palavras com as quais Lícidas se dirige 20 à amada
evocam o sofrimento constatável quando se descreve sua prostração física, de modo a representar
seu amor não correspondido como causa de uma aparente doença ou, ao menos, de uma
debilidade:
Has tibi, Phylli, preces iam pallidus, hos tibi cantus
dat Lycidas, quos nocte miser modulatur acerba,
dum flet et excluso disperdit lumina somno.21 (grifos nossos)
O amante parece vitimizar-se, ao descrever sua prostração física (pallidus) como uma
evidência de que sofre (miser - “infeliz”). Interessante observar que o poeta estende a sua dor à
descrição da noite (acerba - “amarga”), pois não consegue dormir. A expectativa é, pois, que sua
amada, Fílis, comisere-se diante do seu estado emocional. Para tanto, o pastor torna evidente, isto
é, “tangível aos olhos”, seu sofrimento, através da descrição de seu aspecto, de sua aparência.
Ora, Aristóteles (2000, p. 57) chama a atenção para que:
[...] os que animam suas palavras com gestos, vozes, vestimentas e, em geral,
com a capacidade teatral são mais dignos de compaixão (porque fazem parecer
mais próximos o mal, pondo-o diante de nossos olhos, como algo iminente ou
19
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 91: “Mopso tem Fílis, o fim derradeiro tem Lícidas”. (tradução nossa)
Nos versos 43-44, Iolas, amigo de Lícidas, propõe-se a “anotar” as palavras do poeta-pastor e levá-las, escritas na
casca de uma árvore, para Fílis.
21
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 45-47: “Estes pedidos a ti, Fílis, estes cantos, Lícidas já pálido a ti/ oferece;
esses, infeliz, cadencia na noite amarga,/ enquanto chora e arruína os olhos ao perder o sono”. (tradução nossa)
20
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há pouco consumado). E o que ocorreu recentemente ou está prestes a ocorrer é
mais digno de compaixão [...]. (grifos nossos)
Parece-nos que, em v. 45-47, citados acima, o acúmulo de adjetivos e de verbos que
remete a uma condição digna de pena não é sem propósito, mas, ao contrário, procura pôr diante
dos olhos o sofrimento daquele que busca, de alguma maneira, inspirar o sentimento de
compaixão. Embora não tenhamos, por razões óbvias, condições precisas de analisar “gestos,
vozes, vestimentas”, a leitura dos versos em questão, todavia, permite afirmar que essa
aproximação é feita pela própria linguagem, é dizer, pela seleção lexical, que já destacamos.
Essa descrição “patética” persiste nos versos seguintes (nota-se, ainda, o uso de adjetivos
que visam a suscitar a compaixão)22:
Vt Lycidas domina sine Phyllide tabidus erro.
te sine, uae misero, mihi lilia nigra uidentur. 23 (grifos nossos)
A finalidade dessa tentativa de comoção do objeto do amor é expressa nos versos que
seguem, nos quais Lícidas chama a amante para junto de si, anunciando a sua presença como o
único meio de fazer cessar seu supracitado sofrimento, ilustrado na metáfora dos “lírios negros”,
das “fontes insossas” e dos “vinhos azedos”:
Nec sapiunt fontes et acescunt uina bibenti.
at me tu uenias, et candida lilia fient
et sapientes fontes et dulcia uina bibentur.24 (grifos nossos)
Ora, segundo Tringali (1988, p. 77), “os argumentos patéticos suscitam paixões nos
ouvintes para conduzir-lhes a mente e arrastar-lhes a vontade”. Logo, a paixão (o sentimento de
compaixão, nesse caso)25 deve compelir Fílis a aceitar uma conclusão (a de que Lícidas sofre
intensamente sem ela e que, portanto, ela deve ligar-se a ele para dar fim à sua dor).
Por fim, a argumentação patética é radicalizada com a primeira ameaça de suicídio (v. 8688), caso sua amada esteja, de fato, apaixonada pelo rival. Essa ameaça retorna, é provável, 26 em
22
Sobre os sinais que buscam inspirar o sentimento de compaixão: “Todos esses fatos, por parecerem próximos,
avivam nossa compaixão, uma vez que o infortúnio é imerecido e aparece diante de nossos olhos” (ARISTÓTELES,
2000, p. 57).
23
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 50-51: “Como eu, Lícidas, vago consumido sem Fílis, minha senhora./ Sem
ti, ai de um infeliz, os lírios me parecem negros”. (tradução nossa)
24
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 52-54: “Nem têm gosto as fontes e se azedam os vinhos quando bebo.
/Mas, se tu vieres, não só os lírios se tornarão brancos,/ também as fontes terão sabor e os vinhos serão doces de
beber”. (tradução nossa)
25
Considerando que a compaixão é situada entre as paixões, segundo Aristóteles, é lícito lembrar: “As paixões são
todos aqueles sentimentos que, causando mudança nas pessoas, fazem variar seus julgamentos, e são seguidos de
tristeza e prazer, como a cólera, a piedade, o temor e todas as outras paixões análogas [...]” (ARISTÓTELES, 2000,
p. 5).
26
Ressaltamos que o suicídio é, para esse verso 91, uma hipótese aventada por nós. É possível, também, que o
anúncio de morte, nesses versos, esteja associado à própria debilitação da personagem, que definha diante do amor
não correspondido. Contudo, cremos na possibilidade da primeira hipótese devido à menção de uma corda atada a
uma árvore, dita, em v. 89, “malfazeja”, e indicando, pois, a ameaça de enforcamento, explicitada em v. 87-88.
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v. 91, já citado acima. Nesse ponto, Lícidas procura mobilizar a compaixão de Fílis para fazê-la
aceitar este novo argumento: ele não só sofre sem ela, como também não pode viver sem ela.
Então percebemos que, quanto mais é comovido o outro, tanto mais forte se torna o argumento, e
o “ouvinte” será levado, com grandes chances, a pender pelo intento que se lhe apresenta:
Quod si turpis amor precibus, quod abominor, istis
obstiterit, laqueum miseri nectemus ab illa
ilice, quae nostros primum uiolauit amores.27 (grifos nossos)
No que se refere à bucólica virgiliana de que tratamos por ora, nota-se outro argumento
altamente patético, quando Córidon diz andar sob o sol escaldante à cata das pegadas de Aléxis,
ao passo que toda a natureza e os homens repousam à sombra:
At mecum raucis, tua dum uestigia lustro,
sole sub ardenti resonant arbusta cicadis.28 (grifos nossos)
Na verdade, parece-nos que quase toda a sua enunciação se processa sob essa condição
“deslocada” em relação à atitude dos seres “normais”, isto é, que não estão apaixonados.
Relativizamos, contudo, a afirmação anterior, pois nos versos finais dessa mesma bucólica, em v.
69-73, o poeta parece dar-se conta por inteiro de sua dementia, 29 voltando-se, como lembra
Casanova-Robin (VIRGILE, 2014, p. 59), para uma concepção mais calma e epicurista do amor,
nos passos do poeta Lucrécio. Explicamos: em seu De rerum natura (I, 927-930), Lucrécio
propõe uma visão de amor que se dirija ao retorno à natureza, ao equilíbrio e à ordem do mundo.
Os versos da bucólica virgiliana de que tratamos, 71-7330, ainda segundo a mesma comentadora
francesa (VIRGILE, 2014, p. 60), são uma espécie de incitação à volta ao ciclo da vida, à
obediência à lei natural (todos os seres vivos têm necessidade de buscar o outro à procura do
prazer compartilhado), em que os amores se sucedem sem levar à morte.
Mas, quanto às outras passagens da écloga II de Virgílio (v. 6-68), é possível perceber
uma concepção de amor oposta a essa que acabamos de mencionar, uma visão destrutiva, em que
o poeta-pastor, Córidon, parece doente. Em uma passagem aristotélica citada antes
(ARISTÓTELES, 2000, p. 55), o filósofo precisamente aludira à doença como uma causa
passível, caso “imerecida”, de despertar a compaixão diante de si: note-se, no contexto em jogo,
que o desvario ao meio-dia de Córidon pode ser visto como uma espécie de distúrbio patológico,
27
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 87-88: “Mas se um torpe amor será obstáculo para esses tristes/ pedidos, o
que eu repilo, ataremos uma corda naquela/ azinheira, que primeiro profanou nossos amores”. (tradução nossa)
28
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 12-13: “Mas, enquanto percorro os teus rastros, sob o sol ardente,/ os bosques ressoam
comigo com cigarras roucas”. (tradução nossa)
29
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 60: a! Corydon, Corydon, quae te dementia cepit? – “Ai! Córidon, Córidon, que
insensatez te arrebatou?” (tradução nossa)
30
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 71-73: Quin tu aliquid saltem potius, quorum indiget usus,/ uiminibus mollique paras
detexere iunco?/ Inuenies alium, si te hic fastidit, Alexim. – “Por que tu, algo ao menos preferível, de que a
necessidade/ carece, não te preparas para tecer com os vimes e o junco macio?/ Encontrarás um outro Aléxis, se este
te desdenha”. (tradução nosa)
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tamanha a estranheza de suas atitudes31. Cria-se, portanto, um tom por vezes mais patético do que
há em Calpúrnio. Em v. 66-67, por exemplo, o poeta-pastor descreve em uma bela imagem “o sol
poente que duplica as sombras que crescem”. 32 No entanto, em descompasso com a natureza, que
agora oferece ao homem o frescor da noite, Córidon lamenta:
Me tamen urit amor; quis enim modus adsit amori? 33 (grifo nosso)
Outro aspecto de importância, com relação à forma retórica nas duas bucólicas sob
análise, é que, enquanto essa écloga calpurniana é estruturada como um diálogo, no qual Lícidas
se dirige ao seu amigo Iolas (ele levará seus versos a Fílis), 34 a écloga virgiliana, por outro lado,
é, a partir do quinto verso, feita sob a forma monológica. Ou seja, o interlocutor de Córidon,
Aléxis, não tem uma existência a não ser virtual, imaginária, pois ele se encontra na cidade.
Contudo, o canto daquele não deixa, por isso, de ser persuasivo, se nos remetermos ao sentido
dessa “virtualidade” do ser amado como algo sem real presença, mas, ao menos, possível. Isto é,
o poeta-pastor, na ausência do seu puer desejado, imagina-se a dirigir-lhe o seu lamento,
potencialmente persuadindo-o, caso ele venha a escutar “essas palavras confusas” 35.
As éclogas em análise, contudo, revelam que é possível promover a persuasão para além
do argumento patético. Evidentemente também há, entre as provas psicológicas, os argumentos
éticos (TRINGALI, 1988, p. 75), que acordam sentimentos (afetividade “fraca”). O ethos é um
tipo de argumentação que visa a criar uma imagem positiva de si, a qual se constrói pela e na
linguagem, com intuitos de persuadir. Reboul (2004, p. 48) explica que o orador “deve preencher
as condições mínimas de credibilidade”, aparentar, por exemplo, ser “sincero”. “Sincero: não
dissimular o que pensa nem o que sabe” (REBOUL, 2004, p. 48). Acrescenta, ainda:
Note-se que etos é um termo moral, “ético”, e que é definido como o caráter
moral que o orador deve parecer ter, mesmo que não o tenha deveras. O fato de
alguém parecer sincero, sensato e simpático, sem o ser, é moralmente
constrangedor; no entanto, ser tudo isso sem saber parecer não é menos
constrangedor, pois as melhores causas estão fadadas ao fracasso. (REBOUL,
2004, p. 48)
Córidon, na segunda bucólica de Virgílio, nunca afirma “eu sou um amante dedicado,
digno de teu amor, Aléxis”, mas, por outro lado, mostra, através da linguagem, sê-lo:
Praeterea duo, nec tuta mihi ualle reperti,
capreoli, sparsis etiam nunc pellibus albo:
31
Curiosamente, em outras passagens da Literatura latina também notamos a manifestação de atitudes “inusitadas”
como signo de que se padece de um grave mal. Assim, em Geórgicas III, 537-547, Virgílio esboça o quadro da
completa – e bizarra – mudança do comportamento usual de várias espécies, às quais vitima a Peste Nórica.
32
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 67: Et sol crescentis decedens duplicat umbras.
33
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 68: “Queima-me, porém, o amor; quem tem a medida para o amor?” (tradução nossa)
34
Os versos são dirigidos diretamente a ela: Has tibi, Phylli, preces iam pallidus.../ “Estes pedidos a ti, Fílis, já
pálido...” (tradução nossa)
35
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 4-5: Ibi haec incondita solus montibus et siluis studio iactabat inani.
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bina die siccant ouis ubera: quos tibi seruo.36 (grifos nossos)
Note-se o uso dos pronomes, primeiramente mihi, destacando o agente, isto é, Córidon,
que encontra dois cabritos – até em meio aos perigos de um vale! – e pretende reservá-los para
Aléxis (tibi). Assim, ele cria gradativamente a imagem do amante dedicado. Interessa observar
um pouco mais como o uso do pronome tibi (“para ti”), no caso dativo, destaca o indivíduo a
quem se destina um benefício pela influência de Córidon:
Huc ades, o formose puer: tibi lilia plenis
ecce ferunt Nymphae calathis; tibi candida Nais,
pallentis uiolas et summa papauera carpens,
narcissum et florem iungit bene olentis anethi;
tum, casia atque aliis intexens suauibus herbis,
mollia luteola pingit uaccinia calta.37 (grifos nossos)
Nessa passagem, o poeta-pastor descreve a feitura de grinaldas elaboradas a partir das
mais variadas plantas [(lírios, violetas, papoulas), o narciso, a flor de endro, a “caneleira e outras
plantas suaves” e o cravo], evocando diversas cores e cheiros, como que para despertar os
sentidos do amante. Trata-se de um trabalho manual, artístico, que está intimamente ligado ao
ambiente bucólico pela sua vinculação com a natureza, personificada pela presença das Ninfas e
da Náiade, as quais levarão para Aléxis “lírios em cestos cheios” e tecerão as grinaldas. Ora,
Córidon está a chamar o amante justo para esse ambiente ameno, aprazível (huc ades, o formose
puer).38 Contudo, mais do que apenas convidando, ele parece oferecê-lo ao formoso rapaz como
um presente, reforçando o ethos do amante dedicado. Nesse ponto, remetemo-nos à passagem de
Timothy Saunders que propõe certa análise sobre a descrição do ambiente bucólico como um
objeto a ser dado, como um dom, ao amado. 39 Dessa forma, constatamos uma certa dimensão
argumentativa na própria descrição do ambiente, pois, se Córidon o dedica ao amante, é de
esperar que ele deva parecer agradável, para que Aléxis o aceite como presente. Enfim, a
descrição do ambiente deve ser persuasiva, pois ele deve parecer sedutor o suficiente para
convencer o amado a aceitar o convite. E, se a oferta e a “feitura” desse ambiente40 fazem
Córidon parecer dedicado, sua descrição o faz parecer delicado:
Tum, casia atque aliis intexens suauibus herbis,
36
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 41-43: “Além disso, em um vale não seguro, foram encontrados por/ mim dois cabritos, a
pelagem ainda salpicada de branco:/ cada dia secam dois úberes de ovelha: reservo-os para ti”. (tradução nossa)
37
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 45-50: “Vem cá, ó formoso rapaz: eis que as Ninfas levam para ti/ lírios em cestos
cheios; para ti a branca Náiade,/ que colhe violetas pálidas e pontas de papoulas,/ une o narciso e a flor de endro, de
cheiro agradável;/ então, tecendo com a caneleira e as outras plantas suaves,/ borda as violetas macias com o cravo
amarelo”. (tradução nossa)
38
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 45: “Vem cá, ó formoso rapaz”. (tradução nossa)
39
SAUNDERS (2008, p. 117): “[...] Córidon, de todo modo, encaminha-se para a criação de uma imagem do campo
que convida Aléxis a habitar” (trad. minha). Na sequência (SAUNDERS, 2008, p. 119): “Isso [a importância do
envolvimento de Aléxis em tais imagens] exemplifica, ainda, outro e persuasivo traço da representação ecfrástica do
mundo natural nesses poemas: sua configuração como um presente”. (tradução nossa)
40
Podemos também pensar na “feitura” do ambiente bucólico como metáfora da própria arte do fazer poesia.
Lembremos, Córidon é, antes de mais, um poeta-pastor, tecendo versos, canções, para encantar seu amado.
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mollia luteola pingit uaccinia calta.
Ipse ego cana legam tenera lanugine mala,
castaneasque nuces, mea quas Amaryllis amabat;
addam cerea pruna; honos erit huic quoque pomo;
et uos, o lauri, carpam, et te, proxima myrte,
sic positae quoniam suauis miscetis odores.41 (grifos nossos)
Chamamos a atenção, primeiramente, para a ênfase criada em torno de si mesmo/Córidon
nesses versos que se iniciam com ipse ego (“eu próprio”). Ainda complementando o ethos de um
amante dedicado (ipse ego legam;42 addam cerea pruna;43 et uos, o lauri, carpam),44 é possível
afirmar que ele, inclusive, procura construir sua imagem como a de um homem dotado de
delicadeza. Ele, um “simples” pastor, sabe que é considerado um rústico 45 por Aléxis. O rival,
Iolas, encanta o puer com os “artifícios” da cidade, enquanto ele, Córidon, afastado desse
universo urbano, tenta “pintar” um cenário pastoril que possa rivalizar com aquele outro.
Portanto, o pastor descreve seu presente, o próprio ambiente bucólico, como vimos há pouco,
como algo delicado; ainda, se ele é capaz de oferecer algo delicado, é porque ele próprio também
o é. Essa delicadeza pode ser “visualizada” pelos adjetivos com os quais se caracterizam as flores
e frutos oferecidos: suauibus herbis (v. 49), mollia uaccinia (v. 50), tenera lanugine mala (v.
51), suauis odores (v. 55)46 (grifos nossos).
Lícidas, por sua vez, na terceira écloga de Calpúrnio, igualmente, recorre à argumentação
ética. Ele, porém, conforme exigem as suas circunstâncias, constrói imagens algo diferentes de si,
se o comparamos com a segunda bucólica virgiliana. Dissemos que esse pastor, na écloga III,
tenta recuperar o amor de Fílis, perdido depois de tê-la maltratado.47 É preciso, portanto, que ele
recupere o seu respeito, mostrando-se equilibrado, constante, quando afirma:
Ille ego sum Lycidas, quo te cantante solebas
dicere felicem, cui dulcia saepe dedisti oscula.48 (grifo nosso)
41
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 49-55: “Então, tecendo com a caneleira e as outras plantas suaves,/ borda as violetas
macias com o cravo amarelo./ Eu mesmo colherei frutos alvos com pele delicada,/ castanhas, que minha Amarílis
amava;/ acrescentarei ameixas cor de cera; a honra será, também, desse/ fruto; e vós, ó loureiros, e tu, murta
próxima,/ pois, assim colocados, misturais odores suaves”. (trad. minha)
42
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 51: “Eu próprio colherei”. (trad. minha)
43
VIRGÍLO, Bucólicas II, 53: “Acrescentarei ameixas cor de cera”. (trad. minha)
44
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 54: “E vós, ó loureiros, apanharei”. (trad. minha)
45
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 56-57: Rusticus es, Corydon: nec munera curat Alexis/ nec, si muneribus certes,
concedat Iollas. – “És rústico, Córidon: Aléxis não se importa com os teus/ presentes, Iolas não seria inferior, mesmo
que tu te esforçasses/ com presentes”. (trad. minha)
46
VIRGÍLIO, Bucólicas II: “plantas suaves” (v. 49), “macias violetas” (v. 50), “frutos com pele delicada” (v. 51),
“suaves odores” (v. 55). (trad. minha)
47
“Em um acesso de ciúmes, Lícidas confessa, ao seu amigo Iolas, ter batido em Fílis, depois de tê-la visto
acompanhada de seu rival, Mopso [CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 29-30: Protinus ambas/ diduxi tunicas et
pectora nuda cecidi. – “Logo as duas túnicas/ rasguei e bati no peito”. (trad. minha)].
48
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 55-57: “Eu sou aquele mesmo Lícidas: enquanto eu cantava,/ costumavas
dizer-te feliz, a mim deste muitas vezes doces/ beijos”. (trad. minha)
Revele, Belo Horizonte, n. 9, p. 140-157, out. 2015
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Há, também aqui, um destaque para o agente com o uso do pronome ego, que, em latim,
costuma ser enfático (TOVAR, 1946, p. 52). Vê-se que o pastor quer, pela mobilização das
memórias agradáveis que compartilha com sua amada, mostrar que ele ainda é digno de amor,
pois não mudou, apenas cometeu um erro passageiro ao maltratá-la. Ele se mostra, também,
humilde e flexível ao oferecer as próprias mãos para que ela mesma o puna com açoites:
Quod si dura times etiam nunc uerbera, Phylli,
tradimus ecce manus: licet illae uimine torto,
si libet, et lenta post tergum uite domentur.49 (grifos nossos)
Por fim, temos o esboço do mesmo ethos do amante dedicado presente em Virgílio, como
se explicou há pouco. Lícidas, depois de ressaltar que suas duas mãos merecem castigo,50
reforçando o ethos de alguém flexível (e humilde), lembra que, com essas mesmas mãos, já
trouxe muitos presentes para ela:
His tamen, his isdem manibus tibi saepe palumbes,
saepe etiam leporem decepta matre pauentem
misimus in gremium; per me tibi lilia prima
contingerunt primaeque rosae: uixdum bene florem
degustarat apis, tu cingebare coronis. 51 (grifos nossos)
O pronome me, na expressão per me, indica a origem do benefício, pondo, pois, em
evidência aquele que beneficia, isto é, Lícidas em pessoa, um amante dedicado. Em evidência
mais enfática, pela repetição, está a beneficiária, Fílis (duas próximas ocorrências do pronome
tibi, no caso dativo, indicando a quem se destina a ação, e uma de tu, no caso reto/nominativo,
mas ainda em menção à beneficiária). Em suma, o poeta-pastor constrói ethe (de constância, de
flexibilidade e, por fim, de dedicação), de maneira a (re)fazer junto da amada uma imagem
positiva de si, ou melhor, a recuperar o respeito dela e, assim, o amor perdido pelo excesso que
cometera.
Por fim, constatamos os argumentos lógicos, os quais Reboul (2004, p. 49) inclui em algo
que “diz respeito à argumentação propriamente dita do discurso”, a um esforço técnico e de
talento vinculado à própria elaboração discursiva pelo orador. Vimos que é tarefa desse, na fase
da invenção, “descobrir” as provas: inuentio, em latim, provém do verbo inuenire, ou seja,
“descobrir”, “encontrar” (TRINGALI, 1988, p. 62). Uma questão importante é: onde encontrar as
provas? Nos lugares. Os lugares, por sua vez, são ideias ou esquemas de pensamento de emprego
muito difundido, aos quais devemos recorrer para “nutrir-nos” argumentativamente (TRINGALI,
49
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 71-73: “Mas se ainda agora temes, Fílis, os cruéis açoites/ eis que cedemos
as mãos: deixo que elas com sinuoso vime,/ se queres, e com pâmpanos flexíveis se amarrem às costas”. (trad.
minha)
50
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 75: Accipe, ne dubites, meruit manus utraque poenas. – “Aceita, não
hesites, uma e outra mão mereceu o castigo”. (trad. minha)
51
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 76-80: “Com essas, porém, com essas mesmas mãos muitas vezes/ para ti
os pombos, muitas vezes também uma lebre medrosa,/cuja mãe se despistou, depus em teu colo. Por mim te/
couberam os primeiros lírios e as primeiras rosas: mal/ provara de fato a abelha a flor, enleavas-te com coroas”.
(trad. minha)
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153
1988, p. 64). Os lugares de quantidade, por exemplo, “são lugares-comuns52 que afirmam que
alguma coisa é melhor do que outra por razões quantitativas” (PERELMAN; OLBRECHTSTYTECA, 2000, p. 97). Observe-se como esse lugar resultará em um argumento lógico, pois ele
se estabelece a partir de um silogismo:
“Uma andorinha só não faz verão”.
Ora, embasa a força argumentativa do exemplo acima, hoje identificado com um ditado
de emprego popular, 53 (1) a premissa inicial de que “são necessárias muitas andorinhas para fazer
um verão”, seguindo-se a isso (2) a premissa (subentendida) e (3) a conclusão de que, (2)
havendo uma só andorinha, (3) o verão, enfim, não se faz. Perelman e Olbrechts-Tyteca (2000, p.
97) lembram que o próprio “Aristóteles assinala alguns desses lugares: um maior número de bens
é preferível a um menor número”. É justamente esse argumento lógico o encontrado tanto na
écloga virgiliana quanto na calpurniana, que por ora discutimos:
Despectus tibi sum nec qui sim quaeris, Alexi,
quam diues pecoris, niuei quam lactis abundans.
Mille meae Siculis errant in montibus agnae;
lac mihi non aestate nouum, non frigore defit. 54 (grifos nossos)
Nas passagens destacadas por nós, Córidon afirma ser rico em gado, em leite e em
ovelhas. Notamos frases, introduzidas pelo advérbio enfático quam (“quão”), que apresentam
dois adjetivos do mesmo campo semântico da riqueza: diues (“rico”) e abundans (“abundante”).
Além disso, uma hipérbole marcada pelo numeral mille (“mil”) acentua a ideia de prosperidade.
A sugestão de abundância também pode ser recuperada com a imagem do leite que não lhe falta
nem no verão, nem no inverno. Um procedimento muito similar é perceptível na écloga III, de
Calpúrnio:
Sum quoque diuitior: certauerit ille tot haedos
pascere quot nostri numerantur uespere tauri.
Quid tibi quae nosti referam scis, optima Phylli,
quam numerosa meis siccetur bucula mulctris
et quam multa suos suspendat ad ubera natos.55 (grifos nossos)
52
REBOUL, 2004, p. 52: “Classicamente, dá-se a esses lugares o nome de ‘lugares-comuns’, pois se aplicam a toda
espécie de argumentação; no caso atual não passa de opinião banal expressa de modo estereotipado, enquanto o lugar
comum clássico é um esquema de argumento que se aplica aos dados mais diversos”. Isto é, acrescento, em princípio
se aplicam a qualquer gênero de discurso.
53
A origem desse ditado, no entanto, não é popular, pois se trata de algo no passado expresso por Aristóteles de
Estagira em sua Ética a Nicômaco (1098a 18-20).
54
VIRGÍLIO, Bucólicas II, 19-22: “Fui desprezado por ti, Aléxis, não indagas quem eu sou,/ quão rico de gado, quão
opulento de leite níveo./ Mil ovelhas minhas vagam nos montes da Sicília./ Não me falta leite fresco no verão, nem
no inverno”. (trad. minha)
55
CALPÚRNIO SÍCULO, Bucólicas III, 63-67: “Sou, também, mais rico; dispute ele em tantos bodes/ apascentar
quanto se contam touros nossos à tarde./ Por que te falaria do que conheces? Sabes, perfeita Fílis,/ quão numerosas
novilhas são ordenhadas por meus tarros/ e quantas retêm aos úberes seus filhotes”. (trad. minha)
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Assim como Córidon, no poema virgiliano em jogo, Lícidas procura mostrar, pela
linguagem, ser vantajoso tê-lo como amante, pois ele é mais rico que o seu rival. Para prová-lo,
lista os seus bens (touros, bodes, novilhas fecundas com seus filhotes), elencando palavras
relacionadas ao mesmo campo semântico: a quantidade. A saber, quot (“quantos”), advérbio
enfático que se liga a um verbo significativo, numerantur (“contam-se”; “enumeram-se”),
etimologicamente relacionado a numerus (“número”) e, portanto, à quantidade. Assim como em
Virgílio, temos duas frases introduzidas pelo advérbio enfático quam. A primeira ocorrência
reforça o adjetivo numerosa, que apresenta a mesma raiz do verbo citado; e, na segunda, temos
um reforço do adjetivo multa (“muitas”), inserido, igualmente, no âmbito significativo da
quantidade, da abundância, mais especificamente. As palavras persuasivas que citamos sobre a
riqueza, nas éclogas em análise, podem ainda assumir sentidos especificamente ligados ao gênero
deliberativo,56 pois apresentam o que é útil (utile) e mesmo agradável (iucundum) para o objeto
de desejo – Aléxis e Fílis –, com intenções de mostrar-lhes ser vantajoso aceitar o amor dos
respectivos pastores, Córidon e Lícidas.
3 Conclusão sucinta sobre as semelhanças ou diferenças no recurso à invenção por Virgílio
e Calpúrnio Sículo
Procuramos neste estudo explicitar, sobretudo a partir da análise dos conteúdos, o que têm
em coincidência e em que divergem os supracitados poemas de Virgílio e Calpúrnio Sículo,
levando em conta a dimensão retórica no discurso dos amantes.
Observamos que ambos os poemas apresentam, em seu discurso direcionado ao objeto de
desejo, a tríade argumentativa aristotélica, a saber, pathos, ethos e, por fim, logos. Constatamos
que esses argumentos são mobilizados, tanto por Córidon quanto por Lícidas, nos dois poemas
sob análise, com o intuito de persuadir o formosus Aléxis e a optima Fílis – respectivamente – a
tomarem uma decisão futura: que sejam sensíveis ao amor que lhes nutrem esses poetas-pastores.
Dessa forma, há um gênero discursivo predominante nessas duas éclogas, o deliberativo.
No que se refere à construção do argumento patético, a análise comparativa revela uma
coincidência de “estratégia”, isto é, a tentativa de acordar o afeto da compaixão nos seus
interlocutores. Verificamos, inclusive, que nos dois poemas esse argumento patético é
intensificado com a indicação do amor não correspondido como a causa de uma aparente doença,
uma debilidade física (em Lícidas) ou mesmo psicológica (em Córidon) e, enfim, levado a
56
Sobre a vinculação das ideias da utilidade e do caráter agradável de algo como argumentos, em específico,
deliberativos (não judiciários ou epidíticos), cf. ARISTÓTELES, s.d., p. 49: I, VI, 1 e 6-7 – “O fim proposto àquele
que aconselha é o útil. Por outro lado, não se delibera sobre o fim, mas sobre os meios que a ele conduzem. Além
disso, estes meios consistem nas coisas úteis na ordem da ação. Enfim, o útil é o bem. (...) As virtudes são
necessariamente um bem, e os que as possuem encontram-se, graças a elas, em boas disposições; elas são criadoras
de bem e ativas. Devemos falar, separadamente, de cada uma delas, de sua natureza e qualidade. O prazer é também
necessariamente um bem, porque todos os seres animados o procuram naturalmente. Por conseguinte, as coisas
agradáveis e belas são necessariamente boas; as agradáveis geram prazer; quanto às coisas belas, umas são
agradáveis, as outras devem ser preferidas em si mesmas e por si mesmas”. Note-se, ainda, que “prazer” e
“utilidade”, no gênero deliberativo, não devem ser pensados como algo situado em campo oposto ao da virtude
(honestum, na tradição latina).
Revele, Belo Horizonte, n. 9, p. 140-157, out. 2015
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consequências extremas, com o anúncio da morte. Em Virgílio, porém, como uma grande parte
da queixa do apaixonado se constrói sob o signo do desvario de Córidon no escaldante sol
mediterrâneo, subentende-se que a dor dessa personagem desdenhada, sendo imensa, acaba, com
tal extensão de seus efeitos, difundindo tons patéticos pela maior parte do poema (v. 6-55), não
só por alguns pontos isolados.
Quanto ao argumento ético, nota-se que, no poema virgiliano em jogo, o poeta-pastor
intenta obter para si a imagem do amante dedicado, a fim de persuadir o puer que deseja a vir
habitar nos campos consigo. Além disso, ele busca construir certa imagem de um homem
delicado, que, possivelmente, compensaria seu status de uir rusticus, mero homem do campo.
Nesse ponto, a descrição do ambiente também revelou uma dimensão retórica, pois ela seria
“ofertada” como um presente ao ser amado (SAUNDERS, 2008, p. 119). Já na écloga
calpurniana, o poeta-pastor, além de elaborar a imagem do amante dedicado, tenta, por outro
lado, construir certos ethe (de constância, de flexibilidade) a fim de recuperar o respeito e, assim,
o afeto de sua amada Fílis. Nessa parte comum das estratégias argumentativas, ainda, Virgílio se
mostra um pouco mais complexo, na medida em que o jogo com os diferentes níveis
significativos associáveis à descrição do ambiente pastoril (mera parcela do canto que evoca
visualmente um espaço convidativo, espécie de “objeto” concreto – pois tem cores, formas,
texturas, odores – a ofertar-se ao amado...) contribui para a feitura de ethe em nexo, até, com
certa dimensão metapoética. Ou seja, o poeta amante é dedicado e delicado inclusive por
empenhar-se e ser capaz de compor, na ficção interna à obra, versos visivelmente tão bem
cuidados e belos.
Por fim, o argumento lógico é fundado, nos dois poemas em pauta, sobretudo no lugar da
quantidade. Ambos os poetas-pastores desejam persuadir seus respectivos objetos de desejo de
que é vantajoso unir-se a eles. Nesse ponto, aliás, notamos que, no nível linguístico, Calpúrnio
Sículo parece até recuperar certas construções virgilianas, com a ocorrência de duas frases
introduzidas pelo advérbio enfático quam.
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