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características de qualidade da maçã `royal gala`

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características de qualidade da maçã `royal gala`
CARACTERÍSTICAS DE QUALIDADE DA MAÇÃ ‘ROYAL GALA’
ARMAZENADA SOB REFRIGERAÇÃO E ATMOSFERA
CONTROLADA1
LUCIANA COSTA LIMA2
AURI BRACKMANN3
MARIA ISABEL FERNANDES CHITARRA4
EDUARDO VALÉRIO DE BARROS VILAS BOAS 5
JANAINE MYRNA RODRIGUES REIS6
RESUMO – Com este trabalho objetivou-se avaliar o efeito de diferentes condições de armazenamento sob atmosfera controlada (AC) em associação com a refrigeração (AR), sobre as características de qualidade da maçã
‘Royal Gala’ produzida em pomar comercial de Vacaria –
RS. A colheita foi realizada conforme a prática usual dos
produtores, na maturação comercial dos frutos (cor de
fundo da epiderme = 8,62; índice de iodo-amido = 5,9;
firmeza da polpa = 84,35N e sólidos solúveis totais =
10%). Após seleção quanto à ausência de injúrias externas, uniformidade de tamanho e coloração da epiderme,
os frutos foram acondicionados em caixas plásticas e
armazenados por 8 meses em minicâmaras a 0,5°C ± 0,2°C
e UR igual a 96% ± 2%, com as seguintes condições de
atmosfera: AC 2/3 - 2kPa de O2 e 3kPa de CO2, AC 1/1 1kPa de O2 e 1kPa de CO2, AC 1/3 - 1kPa de O2 e 3kPa de
CO2 e AC 1/3 + BE - 1kPa de O2 e 3kPa de CO2, com absorção de etileno, que foi mantido entre 0,01 a 0,04µL/L).
Como controle, utilizou-se apenas refrigeração (AR 20,8kPa de O2 e < 0,2kPa de CO2) nas condições de temperatura e umidade relativa acima referidas. As avaliações realizadas após a colheita e com intervalo de 2 meses constaram das seguintes características: diâmetros
transversal e longitudinal, massa, firmeza da polpa, acidez titulável, sólidos solúveis, açúcares solúveis totais,
açúcares redutores e sacarose. Pelos resultados obtidos, demonstrou-se que durante o período de armazenamento em AC e AR ocorreu diminuição dos diâmetros
e massa dos frutos. A AC reduziu a perda de acidez durante o armazenamento, sem afetar as concentrações de
sólidos solúveis, açúcares solúveis totais e sacarose.
Para o armazenamento de maçãs ‘Royal Gala’, recomenda-se a atmosfera com 1Kpa de O2 e 3Kpa de CO2 com
absorção de etileno (AC - 1/3 + BE), que foi mantido entre 0,01 a 0,04µL/L.
TERMOS PARA INDEXAÇÃO: Malus domestica, armazenamento, qualidade.
QUALITY CHARACTERISTICS OF 'ROYAL GALA' APPLE STORED
UNDER REFRIGERATION AND CONTROLLED ATMOSPHERE
ABSTRACT – The goal of this work was to evaluate the
effect of storage conditions under controlled
atmosphere (AC) associated with refrigeration (AR), on
the quality of 'Royal Gala' apple produced in commercial
orchard in Vacaria - RS. The harvest was accomplished
according to the usual practice of the producers, when
the fruits reached the commercial maturation (color of
the epidermis = 8.62; index of iodine-starch = 5.9; pulp
firmness = 84.35N and total soluble solids = 10%). After
selection (fruits without damage, uniform in size and skin
color), the fruits were packaged in plastic boxes and
stored during 8 months in minechambers, at 0.5°C ±
0.2°C and 96% ± 2% of relative humidity and several
atmosphere conditions: AC 2/3 - 2kPa of O2 and 3kPa of
CO2; AC 1/1 - 1kPa of O2 and 1kPa of CO2; AC 1/3 1kPa of O2 and 3kPa
1. Parte da dissertação apresentada à UNIVERSIDADE FEDERAL DE LAVRAS (UFLA), Caixa Postal 37 –
37200.000 – Lavras, MG, pelo primeiro autor, para obtenção do Título de Mestre em Ciência dos Alimentos.
2. Engenheiro Agrônomo, Mestre pela UFLA em Ciência dos Alimentos. Departamento de Ciência dos Alimentos/
UFLA.
3. Engenheiro Agrônomo, Professor, Dr. do Departamento de Fitotecnia - CCR - UFSM - Santa Maria - RS.
355
4. Bioquímica, Professora, Dra. do Departamento de Ciência dos Alimentos/UFLA.
5. Engenheiro Agrônomo, Dr., Professor Adjunto do Departamento de Ciências dos Alimentos/UFLA.
6. Engenheiro Agrônomo, Mestre pela UFLA em Fitotecnia.
of CO2 and AC 1/3 + BE - 1kPa of O2 and 3kPa of CO2,
with ethylene absorption (ethylene concentration was
maintained between 0,01 and 0,04µL/L). Refrigeration
was used as control (AR – 20.8kPa of O2 and <0.2kPa of
CO2) at temperature and relative humidity conditions
described above. Fruit analyses (transverse and
longitudinal diameters, mass, pulp firmness, tritatable
acidity, total soluble solids, total soluble sugars,
reducing sugars and sucrose) were accomplished after
harvest and at intervals of 2 months. The results showed
a decrease in fruit diameters and mass during the storage
in both, AC and AR conditions. The use of AC
maintained tritatable acidity, total soluble solids, total
soluble sugars and sucrose contents during fruit
storage. The best CA storage condition for ‘Royal Gala’
apples was the atmosphere of 1Kpa of O2 and 3Kpa of
CO2 with ethylene absorption (AC - 1/3 + BE – ethylene
concentration between 0.01 and 0.04µL/L).
INDEX TERMS: Malus domestica, storage, quality.
INTRODUÇÃO
Os produtos perecíveis necessitam de armazenamento para balancear as flutuações de preços no mercado entre os períodos de safra e entressafra, podendo,
ainda, ser armazenados por um longo período para aumentar o tempo de comercialização, após o final da estação de colheita (Penteado, 1985). Para o armazenamento
de maçãs por períodos prolongados e com melhor manutenção das características qualitativas, o sistema que
mundialmente se difundiu foi o uso de atmosfera controlada (AC), o qual já vem sendo aplicado também no Brasil (Ebert e Stuker, 1989; Saquet, 1997). Esse sistema baseia-se na modificação da concentração de gases da atmosfera normal com aumento de CO2 e redução de O2,
podendo ainda eliminar-se o etileno produzido naturalmente pelos frutos (Brackmann e Chitarra, 1998).
A macieira (Malus domestica Borkh.) começou a
ser explorada comercialmente no Brasil na década de 60,
em Santa Catarina e, em poucos anos, a maçã transformou-se em produto de grande consumo no País (Freire
et al., 1994).
As características físicas, como a massa, comprimento, diâmetro transversal e coloração da epiderme,
influenciam a aceitabilidade do fruto pelo consumidor e
o rendimento industrial, ao passo que as características
intrínsecas, como os teores de sólidos solúveis (SS), os
quais representam indiretamente os açúcares e da acidez
titulável (AT), bem como o balanço entre os mesmos,
são indicadores das características organoléticas, importantes tanto na industrialização quanto no consumo dos
frutos in natura (Alvarenga e Fortes, 1985).
A ‘Royal Gala’ é considerada uma cultivar semiprecoce, que produz frutos com epiderme vermelhoestriada, com tonalidade vermelho-intensa e uniforme,
enquadrando-se dentro das exigências dos consumido-
res brasileiros, que preferem frutos de sabor adocicado e
epiderme vermelha (Freire et al., 1994).
Dessa forma, visando a prolongar o período de
conservação com manutenção das características de
qualidade de maçã ‘Royal Gala’, o presente trabalho foi
realizado utilizando diferentes condições de atmosfera
controlada em associação com o armazenamento refrigerado.
MATERIAL E MÉTODOS
Os frutos da macieira cv. Royal Gala, provenientes de pomar comercial da Empresa Schio, localizada em
Vacaria - RS, da safra de 1998, foram colhidos no ponto
de maturação adequado para armazenamento em AC por
um período prolongado (cor de fundo da epiderme =
8,62, índice de iodo-amido = 5,9; firmeza da polpa =
84,35N e sólidos solúveis totais = 10%). Os frutos préselecionados em função da ausência de injúrias, uniformidade de tamanho e de coloração, após a homogeneização, foram embalados em redes plásticas e acondicionados em caixas plásticas com capacidade para 18kg. O
armazenamento foi realizado em minicâmaras experimentais com atmosfera controlada no Núcleo de Pesquisa em
Pós-colheita do Departamento de Fitotecnia da Universidade Federal de Santa Maria – RS, dispostas no interior de câmaras frigoríficas com volume de 45m3, com temperatura automaticamente controlada em 0,5°C ± 0,2°C.
A umidade relativa dentro das minicâmaras, determinada
com um psicrômetro, foi de 96 ± 2%. Cada minicâmara
apresentou uma combinação de gases, com atmosferas
pré-estabelecidas para cada tratamento, a saber: (AR:
20,8kPa de O2 e < 0,2kPa de CO2 ; AC 2/3: 2kPa de O2 e
3kPa de CO2 ; AC 1/1: 1kPa de O2 e 1kPa de CO2 ; AC 1/3:
1kPa de O2 e 3kPa de CO2 e AC 1/3 + BE: 1kPa de O2 e
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
356
3kPa de CO2, com absorção de etileno, que foi mantido
entre 0,01 a 0,04µL/L). Logo após o fechamento das minicâmaras, procedeu-se à instalação das atmosferas. A
concentração inicial de gases foi obtida pela diluição do
O2 com injeção de nitrogênio e posterior injeção de CO2,
até atingir os níveis preestabelecidos. Os níveis de O2 e
CO2 foram analisados diariamente com o uso de analis adores de gases marca Agridatalog e, posteriormente,
corrigidas para a concentração desejada. A eliminação
do CO2 foi efetuada pela sua absorção em solução de
soda potássica a 50%, e o O2 era aumentado pela injeção
de ar atmosférico na câmara. Para manter a concentração
de etileno baixa (entre 0,01 a 0,04 µL/L), circulou-se o ar
da câmara continuadamente por absorvedores de etileno, contendo vermiculita impregnada com permanganato
de potássio e a concentração foi monitorada com o uso
de cromatógrafo Varian Star 3400X. Nos outros tratamentos, o etileno não foi absorvido nem monitorado.
Na colheita e após cada intervalo de dois meses
de armazenamento, três amostras de 15 frutos de cada
tratamento foram transportadas via aérea e via terrestre
para o Laboratório de Fisiologia Pós-Colheita de Frutos
e Hortaliças do Departamento de Ciência dos Alimentos
da Universidade Federal de Lavras - MG, sendo computado um intervalo de 24 horas entre a saída dos frutos
das minicâmaras de Santa Maria até a chegada em Lavras, para a realização das seguintes análises: coloração
de fundo da epiderme, determinada apenas na colheita
dos frutos para caracterização da cor no início do exp erimento com auxílio da tabela de cores elaborada no Núcleo de Pesquisa em Pós-colheita/UFSM, em que o índice 1 representa um fruto com cor de fundo totalmente
verde e o índice 10 um fruto com cor de fundo amareloouro; teste iodo-amido, também realizado apenas no início do experimento para caracterização da maturação dos
frutos. Os frutos seccionados transversalmente foram
imersos em solução de iodo, segundo recomenações de
Streif (1984). A coloração adquirida pela polpa foi comparada com uma tabela de fotos elaborada por Streif
(1984), com índices que variam de 01 a 10, em que o índice 01 indica o teor máximo de amido e o índice 10 representa o amido totalmente hidrolisado; diâmetros (cm),
determinados na seção transversal e longitudinal do fruto, com auxílio de paquímetro; massa (g), por meio de
balança semi-analítica; firmeza da polpa (N), determinada
com auxílio de penetrômetro com ponta de diâmetro 5/16
polegadas.
Após homogeneização da polpa juntamente com
a casca, foram analisadas as seguintes variáveis: acidez
titulável (Mol L-1), por titulação com hidróxido de sódio
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
0,1N e fenolftaleína como indicador (ITAL, 1985); sólidos solúveis (%), por refratometria (AOAC, 1990); açúcares solúveis totais (% de glicose, frutose e sacarose),
determinados segundo Dische (1962); açúcares redutores (% de glicose e frutose) doseados pela técnica de
Somogyi adaptada por Nelson (1944); e sacarose (%),
que foi calculada baseando-se na seguinte fórmula: (Açúcares solúveis totais - Açúcares redutores) x 0,95.
O experimento foi conduzido em delineamento inteiramente casualizado, (DIC) com três repetições da unidade experimental, que constou de 15 frutos, dispostos num esquema de parcelas subdivididas, em que as
concentrações de O2 e CO2 foram consideradas os tratamentos das parcelas e os tempos de armazenamento (0,
2, 4, 6 e 8 meses) as subparcelas, visto que em cada combinação de O2 e CO2, foram avaliados os tempos de
armazenamento.
Os resultados foram submetidos à análise de variância (Banzatto e Kronka, 1992) e as médias, comp aradas
pelo teste de Tukey (5%) e análise de regressão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise de cor de fundo da epiderme e o teste
iodo-amido realizados somente no início do experimento
para caracterização da maturação dos frutos apresentaram índices de 8,62 e 5,9, respectivamente, inferindo-se
que os frutos estavam num ponto de maturação adequado para o armazenamento em AC por um período prolongado no momento da colheita.
Os frutos dos diversos tratamentos não apresentaram diferença significativa entre si, quanto às variáveis
diâmetros (transversal e longitudinal) e massa; porém,
houve variação no comportamento ao longo do armazenamento (Figura 1 e 2). Observou-se redução nos diâmetros dos frutos de todos os tratamentos (Figura 1), provavelmente em decorrência da perda de massa ao longo
do armazenamento (Figura 2), embora a umidade relativa
das câmaras tenha sido mantida elevada (96 ± 2%) durante o período experimental.
A perda de massa da ordem de 9,94% (Figura 2)
foi cerca de duas vezes superior à observada no armazenamento comercial de maçãs, que geralmente não alcança o nível de 5%. A demora de 24 horas entre a saída
dos frutos da câmara e a pesagem dos mesmos provavelmente contribuiu para a obtenção desses resultados.
Dois fatores estão envolvidos na perda de massa
dos frutos: o consumo das substâncias armazenadas pelo fruto durante o seu desenvolvimento por meio da respiração, e a perda de água pela transpiração, que resulta
357
na maior parte da perda (Hardenburg et al., 1986). A perda de massa não somente resulta em considerável mu rchamento, mas também em um produto menos atrativo e
de baixa qualidade (Fan, 1992) e mesmo não sendo observado um murchamento visível, tal fenômeno pode acarretar mudanças na coloração e na qualidade comestível dos frutos (Wills et al., 1981).
Ocorreu redução gradual na firmeza dos frutos
durante o período experimental, com variação significativa dos valores entre os tratamentos, notadamente a
partir do 4o mês de armazenamento (Tabela 1).
Os frutos mantidos sob refrigeração (AR), emb ora menos firmes que os mantidos sob atmosfera controlada aos 6 meses de armazenamento, apresentaram elevação do valor no final do período experimental, sendo
Diâmetro transversal (cm)
Y = 5,84 - 0,1182X + 0,0090X
2
R = 91,19%
5,8
B
6,36
2
Diâmetro longitudinal (cm)
A
5,9
esse resultado provavelmente falseado pela elasticidade
dos tecidos decorrente da perda de turgidez. De acordo
com Fortes e Petri (1982), a excessiva perda d’água dos
tecidos internos reduz a sua turgidez, com enrugamento
da epiderme, dificultando o uso do penetrômetro. Por
outro lado, o uso de atmosferas com elevadas concentrações de O2, mesmo sob baixas temperaturas, resulta
em maior atividade metabólica dos tecidos, com maior
degradação dos polímeros estruturais das paredes celulares (pectinas, celulose, hemicelulose e proteínas) e
conseqüente perda de firmeza, conforme observado até
os 6 meses nos frutos do tratamento AR, e até os 8 meses de armazenamento nos tratamentos com 2Kpa de O2
e 3Kpa de CO2 (AC – 2/3).
5,7
5,6
5,5
5,4
5,3
Y = 6,34 - 0,0158X
R 2 = 94,19%
6,34
6,32
6,30
6,28
6,26
6,24
6,22
6,20
0
2
4
6
8
0
2
4
6
8
Meses de Armazenamento
Meses de Armazenamento
FIGURA 1 – Variação dos diâmetros transversal (A) e longitudinal (B) (cm), de maçãs da cv. Royal Gala em função
do tempo de armazenamento. Lavras, UFLA, MG, 1999.
120
Y = 117,82 - 1,4630X
118
R2 = 93,85%
Massa (g)
116
114
112
110
108
106
104
0
2
4
6
8
Meses de Armazenamento
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
358
FIGURA 2 – Variação da massa (g) de maçãs da cv. Royal Gala em função do tempo de armazenamento. Lavras,
UFLA, MG, 1999.
A redução na concentração de O2 nos tratamenAs mudanças na variável acidez começaram a ser
tos com 1Kpa de O2 (AC – 1/1 e AC – 1/3) contribuiu
observadas no 4° mês, quando os frutos em AR apresignificativamente para a manutenção da firmeza dos frusentaram menor teor de ácidos orgânicos (Tabela 2).
tos, principalmente quando associada à absorção de etiA manutenção de níveis mais elevados de acidez tituláleno (AC – 1/3 + BE) no ambiente de armazenamento.
vel (AT) nos tratamentos em AC provavelmente é conBrackmann (1990) já havia observado maior firmeza nos
seqüência da redução da atividade respiratória, pois
frutos da cv. Royal Gala mantida sob baixas concentra- Brackmann (1990) afirma que os ácidos são as substânções de etileno, sendo o mesmo comportamento obtido
cias mais prontamente disponíveis para obtenção de epor Bortolluzi (1997) nos frutos da cv. Fuji. De acordo
nergia pela célula, pois fazem parte do ciclo de Krebs (ácom Lau (1985), o armazenamento em AC reduz a respicidos tricarboxílicos). Ao final do armazenamento, todos
ração e a produção de etileno nos frutos, contribuindo
os tratamentos em AC apresentam maiores níveis de apara uma maior retenção da firmeza da polpa.
cidez, e a maior retenção da AT foi obtida nos frutos que
O aumento na concentração de CO2 na atmosfera
permaneceram armazenados em 1KPa de O2 e 1 KPa de
de armazenamento não acarretou nenhum efeito aparente
CO2 (AC - 1/1), tratamento esse que diferiu significatina firmeza dos frutos, uma vez que os valores da mesma
vamente do tratamento AR. Brackmann e Saquet (1995),
foram semelhantes nos tratamentos com 1Kpa de O2 e
trabalhando com maçãs ‘Gala’, verificaram que concen1Kpa de CO2 (AC – 1/1) e 1Kpa de O2 e 3Kpa de CO2 (AC
trações de O2 próximas ou menores que 1KPa determina– 1/3) ao final do período experimental.
ram maior retenção da acidez, resultados esses semelhantes aos encontrados por Bortolluzzi (1997) na cv. Fuji.
TABELA 1 – Firmeza da polpa (N) de maçãs da cv. Royal Gala conservadas em AC e em AR. Lavras, UFLA, MG,
1999.
Tratamentos
Meses de Armazenamento
0
2
4
6
8
AR
84,35 a
78,94 a
66,57 a
55,31 a
67,72 c
AC - 2/3
84,35 a
77,66 a
67,35 ab
60,71 b
48,15 a
AC - 1/1
84,35 a
78,38 a
72,18 bc
61,54 b
58,40 b
AC - 1/3
84,35 a
79,39 a
74,29 c
68,18 c
58,49 b
AC - 1/3 + BE
84,35 a
79,96 a
73,60 c
72,02 c
67,57 c
Letras diferentes em cada coluna representam diferenças significativas pelo Teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
TABELA 2 – Acidez titulável (Mol. L-1) de maçãs da cv. Royal Gala conservadas em AC e em AR. Lavras, UFLA, MG,
1999.
Meses de Armazenamento
Tratamentos
0
2
4
6
8
AR
3,3a
3,8a
2,1a
2,0a
1,6a
AC - 2/3
3,3a
3,6a
4,0b
2,9a
2,1ab
AC - 1/1
3,3a
3,5a
3,7b
2,9a
3,1b
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
359
AC - 1/3
3,3a
3,8a
3,6b
2,8a
2,7ab
AC - 1/3 + BE
3,3a
3,9a
3,9b
2,8a
2,7ab
Letras diferentes em cada coluna representam diferenças significativas pelo Teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
Os sólidos solúveis (SS) não diferiram significatibuído à sua reposição provavelmente pela hidrólise do
vamente entre os tratamentos, porém variaram com o
amido, à degradação de polissacarídeos das paredes cetempo de armazenamento (Figura 3), aumentando até o 4o
lulares, ou ainda à perda d’ água pelos frutos (Chitarra e
mês e com pequena redução após o 6o mês de armaze- Chitarra, 1990). Ötles (1992) cita teores de AST em maçãs
namento.
‘Golden Delicious’ e ‘Jonathan’ iguais a 10,99 e 10,06 %,
Fan (1992) afirma que, com a hidrólise da amilorespectivamente, esses mais elevados que os da ‘Royal
pectina a açúcares solúveis, há um incremento no teor
Gala’ analisada no presente experimento, que ficou entre
de SS durante o armazenamento de maçãs, e ainda de
7,52 a 9,74%. A sacarose, no entanto, apresentou valoacordo com Wills et al. (1981), o aumento também pode
res próximos ao da cv. Delicious igual a 2% (Alvarenga
ser devido a maior degradação da protopectina a frações
et al., 1978).
de baixo peso molecular e alta solubilidade. A perda d’
Os açúcares redutores, que são os açúcares preágua pelos frutos também tem relação com o aumento
dominantes na maçã, apresentaram aumento após o 2o
no teor de SS, pois acarreta uma maior concentração nos mês de armazenamento e diferiram significativamente enseus teores. A pequena redução nos valores observada
tre os tratamentos ao longo do período experimental
na segunda metade do armazenamento provavelmente se
(Tabela 3).
justifica pelo consumo dos substratos no metabolismo
Deve-se, no entanto, considerar que, no 8o mês
respiratório das maçãs.
de armazenamento, apenas o tratamento com 1Kpa de O2
Os açúcares solúveis totais (AST), bem como a
e 3Kpa de CO2 (AC – 1/3) diferiu dos demais, sendo, posacarose, embora tenham apresentado variação nos teorém, pela análise estatística, igual ao tratamento com
res ao longo do armazenamento, não diferiram significa- 1Kpa de O2 e 3Kpa de CO2 com absorção de etileno (AC
tivamente entre os tratamentos (Figura 4).
– 1/3 + BE). Esse fato indica que a modificação nas conHouve redução acentuada nos teores de AST até
centrações de O2 e de CO2, bem como a absorção de
o 2o mês de armazenamento e de sacarose até o 4 o mês,
etileno da atmosfera de armazenamento, não influenciapossivelmente em decorrência da utilização dos açúcares ram o comportamento dos açúcares redutores dos frucomo substrato respiratório (Figura 4). O aumento subtos.
seqüente nos teores desses constituintes pode ser atri-
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
360
12,0
Y = 10,01 + 0,4067X - 0,0415X 2
R2 = 85,92%
Sólidos solúveis (%)
11,5
11,0
10,5
10,0
9,5
9,0
0
2
4
6
8
Meses de Armazenamento
FIGURA 3 – Teores de sólidos solúveis (%) de maçãs da cv. Royal Gala em função do tempo de armazenamento. Lavras, UFLA, MG, 1999.
A
B
2,3
Y = 1,96 - 0,1427X + 0,0220X2
Y = 8,92 - 1,4126X + 0,4150X2 - 0,0282X 3
2,2
R2 = 98,89%
10
Sacarose (%)
Açúcares solúveis totais (%)
11
9
8
R2 = 96,36%
2,1
2,0
1,9
1,8
7
1,7
6
1,6
0
2
4
6
8
0
2
Meses de Armazenamento
4
6
8
Meses de Armazenamento
FIGURA 4 – Teores de açúcares solúveis totais (A - % de glicose, frutose e sacarose) e sacarose (B - %), de maçãs
da cv. Royal Gala, em função do tempo de armazenamento. Lavras, UFLA, MG, 1999.
TABELA 3 – Açúcares redutores (% de glicose e frutose) de maçãs da cv. Royal Gala conservadas em AC e em AR.
Lavras, UFLA, MG, 1999.
Meses de Armazenamento
Tratamentos
0
2
4
6
8
AR
6,89 a
5,72 b
7,04 bc
7,59 a
6,98 a
AC - 2/3
6,89 a
5,52 b
6,18 a
7,21 a
7,14 a
AC - 1/1
6,89 a
5,43 b
6,29 ab
7,12 a
7,13 a
AC - 1/3
6,89 a
5,34 ab
6,25 ab
7,26 a
8,01 b
Ciênc. agrotec., Lavras, v.26, n.2, p.354-361, mar./abr., 2002
361
AC - 1/3 + BE
6,89 a
4,50 a
7,45 c
7,19 a
7,32 ab
Letras diferentes em cada coluna representam diferenças significativas pelo Teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.
CONCLUSÕES
Os frutos de todos os tratamentos apresentaram
redução semelhante no tamanho (diâmetros transversal e
longitudinal), com acentuada perda de massa (9,94%) ao
final do período exp erimental.
O uso de armazenamento em AC com 1KPa de O2
e 3KPa de CO2 com absorção de etileno (AC – 1/3 + BE)
propiciou frutos com polpa mais firme.
Ao final do armazenamento, a acidez titulável foi
semelhante nos frutos dos tratamentos com atmosfera
controlada. Apenas os frutos com uso de 1KPa de O2 e 1
KPa de CO2 (AC – 1/1) diferiram do controle (refrigeração), com valores mais elevados.
Os teores de sólidos solúveis, bem como o de
açúcares, não foram modificados pelo uso de atmosfera
controlada. O aumento dos açúcares solúveis totais no
armazenamento é concordante ao aumento nos açúcares
redutores.
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