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Rádio a serviço da comunidade
Programa de rádio Sáude no ar, iniciativa do Ministério da Sáude, teve
colaboração de emissoras comerciais e de alto-falantes na prestação de
serviços às comunidades carentes do Nordeste
O rádio é, hoje, parte integrante do cotidiano da grande maioria da população brasileira. Estima-se que, em média, 90% da população de baixa renda, homens e mulheres de
todas as idades, ouvem a programação
radiofônica por cerca de três horas diárias, segundo dados da Marplan (1992).
Pesquisa realizada pela Datafolha, na
Grande São Paulo, em dezembro de 1993, revelou que as pessoas, independentemente da
classe social a que pertencem, passam mais
tempo ouvindo rádio do que assistindo a televisão, lendo jornais ou revistas. A audiência
diária do veículo concentra-se no período de 8
às 18 horas, enquanto a da TV restringe-se ao
horário de 19 às 22 horas.
A grande popularidade do veículo é atribuída ao caráter universal de sua linguagem essencialmente coloquial, simples e direta além da empatia que procura estabelecer com
o ouvinte ao atender suas demandas por lazer,
música, entretenimento, informação e companhia. A audição do rádio pode ser feita em qual-
quer lugar, sem dependência de tomadas ou fios,
e serve como fundo sonoro ao ouvinte ocupado com alguma outra atividade. Por essas características, o veículo é parte fundamental de
qualquer projeto de educação em saúde que
objetive atingir a população de baixa renda e
carente de informação. Consciente de sua importância, a Coordenação de Informação, Educação e Comunicação - IEC, do Ministério da
Saúde, componente do Projeto Nordeste, financiado pelo Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) - elaborou
o programa Saúde no ar como um elemento
adicional de sua estratégia de educação e de
comunicação para a saúde.
Para pensar e definir o programa quanto
ao formato, linguagem, estilo e gênero, fez-se
necessário rever e avaliar as experiências anteriores que utilizaram o veículo em processos
educativos. Só assim se pode evitar a repetição
de erros e fracassos, pois, no Brasil, a história
do rádio educativo é reveladora de uma série
de equívocos que precisam ser superados.
Nélia R. de1 Bianc
RÁDIO E EDUCAÇÃO NO BRASIL
Universidade de Brasíiia e executora ao convêio PNUDIUnB que objetiva o (fesenvolv
do projeto Satide no Ar.
Historicamente, no Brasil, rádio e educação sempre estiveram associados. Roquete
Pinto, fundador da primeira emissora no País,
1. Artigo originalmente publicado no caderno A experiência do programa radiofônicoSaúde no ar na região Nordeste.Brasília.
Coordenadoria de Informação, Educação e Comunicaçáo do Ministério da Saúde, 1997. p. 9-30.
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, defendia
a transmissão de educação e cultura pelo rádio como estratégia para reduzir os elevados
índices de analfabetismo. Ao colocar em prática sua tese, contudo, não atingiu o objetivo
de popularizar o conhecimento. Isto deveuse ao fato de que a programação educativa
produzida pela sua emissora, na década de 20,
era recheada de palestras científicas e literárias, acessíveis apenas a um público seleto,
àquele que tinha recursos para adquirir um
aparelho receptor importado.
A preocupação educativa de
Roquete Pinto originou uma série de outras iniciativas - escolas radiofhicas, por
exemplo - que surgiram, posteriormente,
sob o controle do Estado, universidades
ou instituiçães, com o objetivo de transmitir conhecimento e instrução básica.
A maioria dos programas educativos lançados2 reproduzia o ambiente da sala de aula,
com cursos regulares de Matemática, Português e Ciências, totalmente distanciados do universo simbólico e cultural de seu público-alvo.
A exceção à regra foi a experiência desenvolvida pelo Movimento de Educação de
Base (MEB), na década de 60, que, através de
escolas radiofônicas, alfabetizava adultos e
crianças e cuidava da conscientizaçãopara promover mudanças de atitudes, utilizando, para
tanto, animadores populares que organizavam
audições nas comunidades.
O fracasso das experiências de educação massivo-instrucional pelo rádio, evidenci-
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ado pelo baixos índices de audiência, demonstrou que esse meio não constitui um espaço
adequado para exercer a educação formal.
Segundo Burgos, a utilização do rádio não
é ideal para educar, no sentido formal, porque na vida cotidiana das pessoas ele é percebido e utilizado como lazer e entretenimento nos intervalos entre o trabalho e os
afazeres domésticos3.
Com o objetivo de superar as experiências anteriores surgiu, na década de 70,
o Projeto Minerva, programa radiofônico
governamental de 30 minutos, de cunho informativo-cultural e educativo, de transmissão obrigatória em nível nacional. O programa, no entanto, também não conquistou o
prestígio da audiência, por vários motivos: sua
produção era regionalizada - ficava a cargo da
Fundação Educacional Padre Landell de Moura
(FEPLAN-RS) e da Fundação Padre Anchieta
(SP) - e sua distribuição centralizada.
A regionalização, que poderia ser a
marca do sucesso, não funcionou porque se
concentrou no eixo Sul-Sudeste e, evidentemente, com tal característica, não respondia
à diversidade cultural (costumes, língua e
modo de vida), nem às necessidades e interesses de cada região do país. A experiência
revelou-se negativa e contribuiu para fortalecer a idéia de que rádio educativo é chato,
cansativo e desagradável.
EDUCAÇÃO POPULAR
A margem do educativo institucional,
setores organizados da sociedade civil começaram a utilizar o rádio, na década de 80, com
2. Entre os quais podemos citar o programa Universidade no Ar, lançado em 1941 pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, e os
cursos básicos do Sistema de Rádio Educativo Nacional - Sirena, veiculados no período de 1957-63. Ler mais sobre o ensino pela
radiodifusão no mundo em: White, Robert A. Ensino a distância: experiências e inovações. Comunicação & Educação. n. 3, maio/
ago. 1995. p. 47-56.
3. BURGOS, C.C. Os novos usos do rádio: o cultural e o educativo postos em questão. In: SOARES, Ismar de O. ,MOTTA, J. M.
A comunicação na constmção da paz. São Paulo: Paulinas, 1987. p. 91-97.
Rádio a serviço da comunidade
propósitos cultural e político, dando novo sentido a esses processos. São experiências em que
organizações populares e sindicais passaram a
manejar e controlar meios tecnológicos para
transmitir suas mensagens nas denominadas
rádios livres ou rádios populares por alto-falantes. Além do caráter libertador de suas mensagens, esses setores mostraram novas e criativas formas de expressão e intercomunicação
social, como a recriação da notícia, a recuperação da história oral da comunidade e a
dramatização de situações do cotidiano. Elas
contribuíram, segundo Burgos, para repensar a
comunicação a partir do popular - aqui entendido como o lugar a partir do qual se torna possível
abarcar e compreender o sentido que adquirem
os processos de comunicação para a audiência.
Pelo viés do popular, o cultural e o
educativo ganharam outro sentido, distinto
daquele vinculado à concepção erudita e formal predominante em produç6es radiofiinicas
ditas edztcativas,direcionadas à alfabetização
e à difusão de conhecimentos.
A produção educativa passa a ser
direcionada à transmissão de valores, promoção humana, desenvolvimento integral do homem e da comunidade, servindo de estímulo à
reflexão e à transformação social4.
Na base dessa mudança está implícita
uma nova forma de definir cultura. Cultura
passa a ser entendida como o oposto à idéia de
mera acumulação de saber a ser cultuado e pre-
servado, sendo assim um espaço de conflito
que reflete a própria dinâmica social. É uma
forma de viver dentro da sociedade, que engloba todos os significados da experiência social? Portanto, no conceito de cultura estão
englobados quer "os significados e valores que
surgem e se difundem nas classes e grupos
sociais, quer as práticas efetivas através das
quais esses valores e esses significados se exprimem e nas quais estão ~ontidos"~.
Nessa perspectiva, a comunicação não
é mero instrumento de transmissão de conhecimentos, mas processo cultural que agrega
conflitos, contradições sociais e as práticas dos
movimentos populares7.
A nova dimensão do cultural/educativo
no rádio aproxima o popular do massivo. Segundo Martín-Barbero8, é necessário pensar o
massivo em seu interior, abandonando velhas
concepções reducionistas como, por exemplo,
a que vê a ação dos meios de comunicação
como elemento de desagregação da cultura ou
aquela que não acredita na capacidade de as
classes populares produzirem cultura. O autor
propõe pensar o massivo como uma nova forma de sociabilidade, que reflete e articula novas condições de existência e luta, ou seja, um
novo modo de funcionamento da hegemonia.
Tal visão implica, necessariamente, na
compreensão do sistema de representações e
imagens com as quais as classes populares
decodificam os produtos simbólicos. Trata-se,
assim, de uma relação mais complexa do que
as teorias relativistas imaginam, não podendo
ser resumida na velha e gasta explicação de
que os meios de comunicação são alienantes.
4. KAPLÚN, Máno. Producción de programas de radio: el guión, Ia realización. Quito: CIESPAL, 1978.
5. FISKE, J. Brisrish Cultural Studies and television (Televisão e os estudos culturais britânicos). In: ALLEN, R. (ed.) Channels of
discourse. U. Of. Nort Caroline Press: Chapel Hill, 1987.
6. WOLF, M. Teorias da Comunicação. Lisboa: Presença, 1987. p. 94.
7. Ver mais sobre esta discussão em: PAULINO, Roseli A. Fígaro. Estudo de recepçno: o mundo do trabalho como mediação da
comunicação. São Paulo, ECA - USP, 1999. (Tese de Doutorado.) (N. Ed.)
8. MARTIN-BARBERO, J. Ln cornunicación desde Ia cultura: crisis de lo nacional y emergencia de lo popular. (A comunicação a
partir da cultura: crise de nacional e emergência do popular) Cultura & Sociedade. São Bernardo do Campo, São Paulo: Imes, n.
13, julho 1985.
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
Nesse sentido, há um estudo significativo realizado por Maria Immacolata Lopes.
Ela analisou diversos programas policiais9
veiculados em emissoras paulistas, dirigidos à
população marginal, e concluiu que essas narrativas não são totalmente alienantes e de evasão. Ao contrário, são profundamente
ambivalentes. Elas reforçam e reproduzem o
conflito latente entre a marginalidade e o sistema que a produz. Referem-se às condições
de vida, particularizam as dificuldades cotidianas das classes marginalizadas e produzem
efeitos ideológicos que podem mobilizar tanto para condutas de consumo como para reações de inconformismo.
E nesse campo tebrico, livre de concepções maniqueístas quanto ao uso da comunicação em processos educativos, que o
prqjeto do programa radiofônico Saúde no
Ar foi pensado e articulado.
Com o propósito de integrar o educativol
cultural ao popular, o projeto buscou inspiração
no trabalho atualmente desenvolvido por produtores de rádio comercial, os quais, em geral, desenvolvem melhor as instâncias educativas nãoformais porque entendem a dinâmica da narrativapopular. Basta observar as programações das
emissoras para verificar que seus discursos
contêm elementos de drama, afeto, amizade,
humor, solidariedade e esperança de mudança, fatores integrantes do universo cultural das
chamadas classes populareslO.Enfim, elas captam a densidade e a diversidade de condições
de existência do popular.
25
SAÚDE:NO AR:
CONQUISTA DO PÚBI~ICO
Como foi visto, os programas educativos institucionais, em geral, são considerados
aborrecidos, de conteúdo parcial, meramente
de propaganda governamental, em formato e
estilo diferenciados dos padrões do rádio comercial e, o pior, sem periodicidade regular
de produção e distribuição. Tê-los como parte
de uma programação é sinônimo de baixos índices de audiência, e nenhuma emissora arriscaria seu prestígio levando ao ar algo de qualidade duvidosa. A resistência aos mesmos aumenta, principalmente quando sua veiculação
é obrigatória, sem permitir qualquer espaço para
o programador definir o horário mais conveniente aos interesses da emissora.
Desafios
Superar esse estigma era o principal desafio a ser enfrentado na produção do Saúde no ar:
Tanto a Coordenação do IEC quanto a Faculdade de Comunicaçãoda Universidade de Brasíiia,
executora do convênio que viabilizou o projeto,
decidiram vencer a falta de credibilidade, propondo realizar um programa de formato ágil e
dinâmico, com excelente qualidade técnica de
mixagem e de gravação, explorando o potencial
da linguagem do meio com o uso de recursos
variados, da drarnatização a entrevistas com médicos, enfermeiros,agentes comunitários de saúde e população. Qualidade, antes de tudo, foi a
marca registrada do Saúde no ar, característica
considerada fundamental para a conquista do
público e a adesão das emissoras de rádio.
9. LOPES, Maria Immacolata V. Sensacionalismo e estereótipos na cultura de massa - programa policial de rádio e populações
marginais. In: SOARES, I de O. , MOTTA, J. M. A Comunicação na construção da paz. São Paulo: Paulinas, 1987.
10. O termo classes populares refere-se a grandes contingentes de baixa renda, de composição heterogênea: operários, ambulantes,
empregados em todos os ramos de serviço, que, apesar de indefesos, guardam a capacidade de reclamar a igualdade no recebimento
de benefícios sociais. O conceito é meramente descritivo mas permite ver a capacidade de manifestação concreta das classes.
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Rádio a serviço da comunidade
EIemento-chave nessa estratégia era
a regionalização da linguagem e do conteúdo, tarefa difícil de ser concretizada, a princípio, em ações centralizadas, devido aos
elevados custos de produção.
damental que a população compreenda as origens, as causas sociais, políticas e econômicas
geradoras de doenças na região Nordeste.
Com base nesse pressuposto, as mensagens do programa deveriam ser produzidas
dentro dos seguintes critérios:
Nesse caso, havia um elemento
facilitador que possibilitou plenamente essa
aproximação: em cada Estado brasileiro há
uma coordenação de IEC com uma equipe
multidisciplinar, constituída por médicos, enfermeiros, assistentes sociais, pedagogos e jornalista. Esse pessoal foi incorporado à equipe
de produção para realizar, mensalmente, entrevistas com profissionais de saúde, agentes
comunitários e população sobre os temas pautados. As fitas gravadas eram enviadas a
Brasília, via correio, onde eram editadas e incorporadas ao produto final. As entrevistas foram um dos elementos mais positivos do programa, por estabelecerem ligação com o universo simbólico cultural da região, possibilitando a ilustração dos temas com situações
vivenciadas no cotidiano da população.
a) ilustrar os problemas de saúde a partir de situações vivenciadas no cotidiano do
público-alvo;
Princípios
Para criar o formato do programa educativo era necessário definir um princípio norteador
para a abordagem das questões de saúde. Após
algumas discussões realizadas, e em consonância com os princípios teóricos do projeto, ficou
definido que o Saúde no ar partiria do entendimento de que saúde é resultante das condições
de vida, alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego e acesso aos serviços de saúde. Por isso, a
geração de novas atitudes e procedimentos frente aos problemas de saúde deve ser vista como
uma missão de todos, esforço coletivo, e não apenas como uma obrigação governamental. Para
promover tal mudança de comportamentoé fun-
b) evitar a construção de mensagens
normativas e de caráter imperativo; buscar a
mudança do comportamento através do diálogo
e da reflexão sobre a origem dos problemas e a
forma de intervenção, tanto no nível individual
quanto no coletivo, na conquista da solução;
c) instrumentalizar a população do ponto
de vista técnico e conceitual, visando identificar os seus problemas, de forma a capacitá-la
para a análise das causas e conseqüências em
sua prática cotidiana;
d) abordar os temas de saúde numa perspectiva educativa, que considera o universo
simbólico e cultural da população;
e) evitar formulações teóricas e abstratas, bem como o uso de termos técnicos incompreensíveis, na sua maioria, para o público-alvo;
f) estimular a participação da população nas ações decisórias do Sistema Único de
Saúde - SUS, através da ação dos conselhos
municipais de saúde, considerando que cada
pessoa é um agente do processo de luta pela
melhoria da qualidade de vida de sua família e
de sua comunidade;
g) mostrar quais são os meios e ações
que a população pode utilizar para se prevenir
contra as doenças.
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
Com base nesses critérios, as mensagens
do programa deveriam ser facilmente compreensíveis, adequadas do ponto de vista da cultura
da região, práticas, relevantes e sintéticas, além,
é claro, de tecnicamente corretas e positivas.
Outro elemento importante nessa estratégia era romper a unilateralidade, muito comum em produções centralizadas, estabelecendo um canal de comunicação com os ouvintes.
Para tanto, ficou definido que o Saúde no ar
abriria espaço à participação do público, realizada através de cartas. Quem tivesse qualquer
dúvida sobre determinado tema de saúde deveria, para ser atendido, escrever para a produção,
em Brasília,cujo endereço seria sistematicamente divulgado em todas as edições do programa.
A eficácia da proposta dependia da definição do público-alvo, o que determinaria,
conseqüentemente, o tipo de emissora para a
veiculação. O público-alvo escolhido era constituído por mulheres de baixa renda, em idade
reprodutiva (15 a 39 anos), e donas de casa. O
pressuposto dessa escolha é que tradicionalmente cabe à mulher a tarefa de educar e cuidar dos filhos, principalmente na região nordestina e entre famílias de baixa renda, onde o
homem ainda é o provedor. A mulher é o alvo
preferencial por estar mais disposta a receber
e aceitar informações que vão contribuir para
a melhoria da qualidade de vida de sua família. Ela é, ainda, o agente transformador da
realidade cotidiana, no nível doméstico.
Para deíinir o espaço de veiculação foi considerado que a audiência de rádio é maciça nas
áreas mais pobres. Segundo dados da Marplan
(1994), 92% dos nordestinos sintonizam alguma
emissora de rádio. Entre as mulheres. esse índice
27
é de 91%, com público mais expressivo exatamente
nos níveis socioeconôrnicos C, D e E. Ainda de
acordo com a pesquisa, os níveis C, D e E, em
especial as donas de casa, têm preferência pelas
emissoras AM, enquanto que as FMs têm maior
audiência nas capitais e entre o público jovem1' .
Foi considerado
nas atuar no campo das emissoras AM, considerando as 400 estações existentes,pois as
mesnias não cobrem todos os municípios da
região Nordeste. Por isso, optou-se por incluir no rol de veiculaqão os serviços de altofalantes, que, em muitas cidades, são o único canal de comunicação dos moradores.
Geralmente, os serviços estão sob controle
de associações de moradores, igrejas católicas e protestantes, clubes de serviço e sindicatos, situados em pontos estratégicos de
grande movimentação.
Estabelecido o marco teórico-conceitual
no qual o programa Saúde no ar estava inserido,
fez-se necessário colocar em prática uma estratégia de ação no sentido de conquistar a adesão
das emissoras de rádio e serviços de alto-falantes. Inicialmente, todas as 400 emissoras AM e
800 pontos de alto-falantes cadastrado^'^ receberam uma correspondência, um mês antes da
distribuição da primeira edição do programa, na
qual o Ministério da Saúde informava sobre a
proposta de produzir um programa educativo
sobre saúde, com qualidade técnica compatível
com a programação das emissoras comerciais, e
que ainda seria permitido aos integrantes do pro-
I l . REVISTA MEIO E MENSAGEM. Informe Regional Nordeste. Maio de 1994.
12. Para compor o banco de endereços de destinatários do projeto foram utilizados dados fornecidos pelo Ministério das Comunicações (emissoras de rádio) e Secretaria de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (serviços de alto-falantes).
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jeto buscar patrocínio no comércio ou na indústria local. Na oportunidade, foi solicitado que se
pronunciassem sobre o assunto.
Nesse comunicado estavam evidenciadas três propostas decisivas na conquista de
apoio à iniciativa:
1. a transmissão do programa não era
obrigatória, ou seja, não fazia parte do horário
destinado por lei ao governo para veiculação
de mensagens oficiais, conforme prevê o Código Brasileiro de Telecomunicações;
2. o programa poderia ser comercializado
pela emissora e veiculado em qualquer horário;
3. havia o compromisso de que fosse
apresentado um produto de qualidade com periodicidade regular, sem fugir ao estilo da programação das emissoras.
As respostas chegaram rápido. Antes
do lançamento, em agosto de 1994,100 emissoras e 80 serviços de alto-falantes manifestaram interesse em conhecer o Saúde no ar
e diziam ter disponibilidade para agendar
sua veiculação.
Apesar de, inicialmente, o número de
interessados ter sido inferior ao dos 1.200 cadastrados, a coordenação do IEC decidiu
enviar o programa a todos. A intenção era ampliar a adesão ao projeto, pela demonstração
do produto.
Paralelamente ao contato com as emissoras, foi iniciado um treinamento a distância
das equipes de IEC nos estados, capacitandoas a realizar entrevistas com técnicos de saúde. A produção de um programa de rádio era
Rádio a serviço da comunidade
algo novo para essas equipes, ou seja, uma tarefa a mais a ser agrupada à sua rotina de trabalho, para a qual a maioria, exceto os jornalistas, não estava preparada.
O treinamento consistiu na distribuição
de apostilas curtas, em linguagem simples e direta, contendo instruções para a realização de
entrevistas, desde a técnica de manuseio do
gravador até o modo de formular as perguntas.
A primeira pauta produzida pelas equipes evidenciou que a sistemática estava certa, mas carecia de aperfeiçoamento. Cada
pauta enviada tinha, anexo, um comentário
crítico sobre o trabalho anterior e uma nova
apostila contendo instruções para superar os
erros cometidos. O ajuste da equipe à qualidade técnica desejada foi obtido aos poucos,
com saldo final bastante positivo: integração
de todos os Estados ao projeto, cumprimento
da pauta dentro dos prazos determinados e
produção de entrevistas com qualidade sonora e de conteúdo.
FORMATO E FASESI3
Vencidas as fases de contatos com as
emissoras e treinamento da equipe de produção, restava trabalhar na construção do formato, estilo e apresentação do Saúde no al:
A primeira definição foi a sua duração.
Havia um entendimento, estabelecido a partir
da análise da programação de emissoras comerciais, de que dificilmente os radiodifusores aceitariam um programa com duração superior a 15
minutos. O motivo seria o risco da perda de agilidade e dinamismo do programa, pela sua natureza informativo-educativa, que poderia cansar o ouvinte, levando-o a mudar de estação.
Por essa razão, ficou definido que o Saúde no
ar teria 15 minutos de duração.
13. O programa Saúde no ar conta em sua nova versão ( 1 999-2000) com 48 programas, distribuídos em 666 emissoras de rádio AM
e 800 serviços de alto-falantes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste; e passou de 15 minutos para 10 minutos. (N. Ed.)
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
O formato escolhido para o programa foi o
de revista, com apresentação de dois locutores profissionais, pela sua natureza flexível. No rádio-revista é possível mesclar elementos informativos,
dramáticos e musicais. Éexatamenteessa diversidade de recursos que o torna ameno e agradável,
capaz de despertar a atenção do ouvinte.
O programa foi concebido para ter três
blocos, separados por dois breaks contendo,
ambos, uma chamada estimulando a participação do ouvinte através de carta e um spot ou
jingle de 30 segundos, reforçando a mensagem
principal do tema abordado. Os breaks foram
propositalmente criados para permitir às emissoras a inserção de comerciais, caso obtivessem patrocínio local.
"saúde no ar, um programa para quem
acredita que prevenir é melhor do que remediar", slogan baseado num ditado popular, teve
duas fases distintas quanto à utilização de recursos de produção.
Na primeira fase, de agosto de 1994 a
fevereiro de 1995, o programa apresentou recursos técnicos limitados, em face da escassez
de recursos financeiros. Cada edição abordava
em profundidade apenas um tema de saúde, com
a apresentação de entrevistas gravadas nos Estados e músicas especialmente produzidas por
cantadores populares, além de vinhetas que
entrecortavam o texto (conselho de amigo, prevenir para não remediar, você sabia? e dicas de
saúde). Apesar da limitação de recursos, o programa se diferenciava dos demais pela forma
coloquial, descontraída, sem prejudicar a transmissão do conteúdo técnico.
Sem fugir ao estilo que o consagrou, o
Saúde no ar teve em sua segunda fase, abril de
1995, novos atrativos. Foram produzidas
vinhetas cantadas para a abertura, passagem,
encerramento e quadrosI4. Cada edição abordava dois temas, sempre relacionados à saúde
29
O Projeto encarregou-se também de editar um CD-Rom
com OS maiores sucessos musicais da programação.
da mulher e da criança. O tema principal era
apresentado mediante uma pequena dramatização com atores profissionais, que retratava
o modo como o problema em questão é vivenciado pela comunidade. Em seguida, técnicos
de saúde da região contextualizavam o problema e apresentavam medidas preventivas. Havia, ainda, um quadro fixo sobre alimentação
alternativa com dicas e recomendações sobre
consumo de alimentos típicos da região, acessíveis à população pelo seu baixo custo e recomendados por seu valor nutritivo.
Na perspectiva de preservar o caráter
regional, foram mantidas, nessa segunda fase,
as participações de cantadores populares, inclusive com diversificação de ritmos, passando pelo forró, samba de coco e moda de viola.
Em arnbas as fases havia espaço para responder às dúvidas dos ouvintes que enviavam
cartas à produção. Em geral, era divulgado o
nome do ouvinte, a sua dúvida e, em seguida,
um profissional de saúde respondia a pergunta
formulada. Se ele não desejava ser identifica-
14. Ampliou-se o número de vinhetas em relação à fase anterior, passando de quatro para sete: saúde da criança, saúde da mulher,
você sabia?, alimentação é saúde, prevenir para não remediar, dicas de saúde e conselho de amigo.
30
do, o que geralmente acontecia com aqueles que
tinham dúvidas sobre doenças sexualmente
transmissíveis, a produção enviava exemplares
de folhetos educativos para sua residência e
pautava o tema para edições posteriores.
Questão que mereceu destaque na
fase de produção e gravação do programa
foi a escolha de um estilo de locução/apresentação. Optou-se por fazer uma locução
que não imitasse o modo de falar da população, ou seja, com sotaque regional. Há uma
grande diversidade de sotaques - o
piauiense não fala como o pernambucano e
nem como o baiano - difícil de ser abarcada
em duas vozes. Qualquer tentativa de
colocá-la em prática se revelaria mais uma
imitação do que um elemento de aproximação e identidade com o universo cultural.
Decidiu-se, portanto, pelo uso de palavras regionais, denominação de coisas, objetos, alimentos e situações de forma popular,
Bem como uma locução livre de maneirismos.
Em relação à dramatização das situações,
realizada pelos autores, foi adotado o mesmo
procedimento. Procurou-se dar veracidade às
cenas e às situações, sem imitação de sotaques.
DISTRIRUIÇÃOAS COMUNIDADES
Qual o meio mais prático e seguro para
fazer com que o programa Saúde no ar chegasse às emissoras de rádio e serviços de altofalantes? Essa indagação, que atormentava a
coordenação do projeto, teve várias respostas.
A primeira seria utilizar o canal da Embratel,
no qual é transmitido diariamente o programa
A voz do Brasil. Como o programa é obrigatório, todas as emissoras do Brasil precisam
Rádio a serviço da comunidade
sintonizar esse canal, com pelo menos 15 minutos de antecedência, e aguardar o sinal de
transmissão. A idéia era ocupar esse espaço
para gerar o programa e solicitar aos interessados que o copiassem para posterior veiculação. No entanto, essa idéia foi abandonada por
vários motivos. Entre eles a baixa qualidade
do som, o fato de que a transmissão é para todo
o Brasil e o risco de a emissora não conseguir
fazer a cópia completa.
O meio mais seguro de fazer com que o
programa atingisse a meta pretendida era
gravá-lo em fita cassete para envio pelo correio. Decidiu-se que as emissoras receberiam,
mensalmente, duas fitas: uma contendo quatro edições do programa e outra com quatro
spots utilizados nos breaks. O uso de duas fitas tinha um propósito. Caso a emissora não
desejasse veicular o programa, poderia inserir
em sua programação normal os spots. Isto propiciava ao radiodifusor uma outra opção de
adesão ao projeto.
Ao longo do tempo, a expedição via
correio acabou expondo falhas. Muitos destinatários reclamavam do atraso na entrega, bem
como o fato de que muitas caixas chegavam
abertas e com ausência de uma fita.
O primeiro sinal de que a experiência estava dando certo foi a adesão das emissoras e dos
serviços de alto-falantes. Na terceira edição do
programa foi solicitado aos destinatários que informassem o dia e horário da veiculação do Saúde no ar. O primeiro levantamento revelou que
156 emissoras (40% do total) e 120 alto-falantes
(15% do total) divulgavam o programa. O resultado foi avaliado de forma positiva considerandose a falta de tradição do brasileiro em responder
cartas. Constatou-se, através do monitorarnento
das coordenações de IEC em alguns Estados, que
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
o programa era veiculado em emissoras que não
responderam a correspondência inicial. Esta talvez tenha sido a maior dificuldade do projeto: ter
um quadro preciso e concreto da veiculação do
Saúde no ar. Dada a extensão de sua área de
abrangência, a ausência desse quadro cria dificuldades para o monitoramento de campoI5, bem
como irregularidade na forma de comunicação
entre as emissoras e a coordenação de IEC.
Outro elemento agregado à avaliação
foram as cartas dos ouvintes enviadas a produção. No período de existência do projeto
foram recebidas 57 cartas que revelaram a
aceitação do público, o acerto no formato
escolhido, a importância das informações
transmitidas e o fato de as mesmas estarem
diretamente relacionadas ao seu cotidiano.
Abaixo, são transcritos alguns trechos
extraídos das cartas, reveladores da apropriação do conteúdo transmitido:
"Escrevo-lhes para parabenizar pelo
programa Saúde no ar, pois é muito importante para auxiliar as mães numa melhor alimentação para seus filhos".
Marinalva Pereira da Silva, São Francisco do Maranhão, MA.
"Emprimeiro lugar gostaria de agradecerpor vocês estarem nos dando oportunidade
de conhecermos melhor a riqueza de nossa região... Pois eu sou pobre e como vocês sabem
às vezes a gente tem até a necessidade de comer comida alternativa, mas por falta de informação desperdiçamos muita coisa".
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Maria Lúcia de Andrade, Nossa Senhora do Glória. SE.
"Este programa é ótimo para as famílias, principalmente, fort$cando todas as orientações dos agentes de saúde. Admiro muito este
programa, estou atenta a toda informação!"
Ana de Fátima Pereira Gomes. Itapagé, CE.
"Gostei muito de ouvir as mensagens sobre saúde que a equipe produziu, principalmente
pelo linguajar acessível e precisão das informações.Atépedi ao responsávelpeladivulgaçãodas
mensagens em nossa cidade,para que me$zesse
uma cópia, pois irei utilizá-la nos encontros de
líderes da Pastoral da Criança, atingindo assim
mais pessoas interessadas no assunto".
José Carlos Guerra, coordenador paroquial de Mortugaba, BA.
"Gostaria de saber como se pega Aids.
Tem vacina ? Como é a prevenção ? Dizem que
no beijo e aperto de mão, abraço, beber água
no mesmo copo não se pega Aids. É verdade??
...Tenho 17 anos, não sei muito sobre tipos de
doenças, principalmente a Aids ..."
Wilma A. da Silva, Jacobina, BA.
"É através da Rádio Currais Novos que
escuto todos os domingos, às 1l h , este ótimo
programa e gosto muito. Por isso resolvi escrever para pedir muitas informações sobre
saúde e$carei muito feliz em receber resposta. Olha, quero saber tudo sobre remédios caseiros e de primeiros socorros de queimaduras de fogo, sol, afogamentos e mordidas de
insetos venenosos..."
Francisca das Chagas Silva, Currais
Novos, RN.
15 A dificuldade, nesse caso em particular, é a ausência de pesquisas de audiência no intenor do país, face aos elevados custos
necessários para sua realização. O Ibope, maior initituto de peiquisa do país, atua apenas em 15 capitais e s6 realiza pesquisa no
interior sob encomenda. Sendo assim, resta o contato via carta como elemento básico de comunicação para o estabelecimento de
qualquer avaliação em maténa de rádio
32
"Não os conheço, mas preciso de pessoas bem informadas,pessoas amigas quepossam ajudar um jovem, que tem 26 anos e que
mora numa cidade pequena e pacata, do interior de Sergipe. Conclui o segundo grau na
capital, mas nem mesmo a cidade grande fez
com que eu perdesse o meu jeito pacato de
sel: Todavia, aprendi a ser mais comunicativo
com as pessoas próximas e distantes. Aqui na
minha cidade há um serviço de som que pertence à prefeitura. Foi por ele que consegui o
endereço de vocês. Por isso resolvi escrevel;
pois necessito de respostas para me prevenir
contra uma doença muito comum entre os homens: o câncer de próstata".
N.S., Divina Pastora, SE.
Sem dúvida alguma, as cartas são instrumentos de avaliação do processo de comunicação, porque, em geral, refletem sentimentos,
anseios e reações de aceitação ou repulsa da
audiência frente às mensagens transmitidas.
Porém, elas não são, neste caso, um indicador
real e abrangente do ponto de vista numérico
do impacto e da penetração do programa na
região. Muitos ouvintes, talvez por timidez ou
por dificuldade em copiar o endereço veiculado no programa, manifestavam sua opinião através de cartas ou visitas à emissora de rádio
local, conforme foi constatado após contato
com algumas delas. Por várias vezes foi solicitado às emissoras o envio dessas cartas, o
que, por motivos desconhecidos, não ocorreu.
USOS DO PROGRAMA
A análise das cartas recebidas também
revelou uma forma muito particular de usos
do programa por outro segmento: os agentes
comunitários de saúde. Muitos deles passaram
a utilizar o programa como elemento de motivação para discussão em palestras e reuniões
Rádio a serviço da comunidade
educativas, promovidas em suas comunidades.
Registrou-se,ainda, uma forma muito
especial de apropriação do produto pelos serviços de alto-falantes:veicular trechos do programa, intercalados com músicas da região.
Exemplo dessa apropriação foi registrado em Jurema, cidade no interior de
Pernambuco, a 228 krn de Recife. Em visita
ao Ministério da Saúde, Narciso Severino da
Silva, 31 anos, proprietário da rádio comunitária Cajurema, contou que essa forma de divulgação chamou a atenção dos ouvintes. Segundo ele, graças ao Saúde no ar houve considerável aumento do número de consultas médicas de crianças e mulheres. "Antes do programa de rádio muitas mulheres não sabiam o
que era pré-natal, outras nem sequer haviam
feito uma consulta médica durante a gravidez.
Mas hoje o povo está mais esclarecido", disse
Narciso, entusiasmado. Ele atribuiu ao projeto o crescimento dos índices de cobertura
vacina1 na cidade. Em 1994, apenas 33,92%
das crianças menores de cinco anos foram vacinadas contra a pólio. Com a divulgação do
programa foram vacinadas, em 1995, na primeira etapa, 88,75% das crianças.
Após seis meses de distribuição do Saúde no ar a coordenação de IEC, em conjunto
com a Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, decidiu fazer uma pesquisa
de avaliação e de veiculação do produto. Até o
momento, as cartas recebidas dos ouvintes
constituíam um instrumento de avaliação qualitativa, que não se caracterizava, em seu conjunto, como uma amostra representativa. Ha-
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]:
Na opinião da maioria dos pesquisados,
o conteúdo do Saúde no ar é rico em informação de benefício para a comunidade, principalmente para aquela que reside no campo, porque
fornece orientações práticas sobre a prevenção
de doenças. Alguns diretores de emissoras mencionaram que, em suas cidades, inúmeras donas de casa aplicavam em seu cotidiano as medidas preventivas relatadas no programa.
A linguagem acessível, de fácil compreensão, a qualidade da produção e da montagem
técnica foram destacados pelos pesquisados
como elementos que valorizavam o programa,
garantindo seu espaço nas emissoras.
A segunda pesquisa foi realizada no mês
de agosto de 1995 e teve o objetivo de avaliar
o impacto das mudanças de formato da segunda fase. As mudanças foram aprovadas pela
maioria das emissoras que responderam à pesquisa (1 1%) e tiveram ampla aceitação junto
ao público-alvo.
A totalidade dos pesquisados aprovou a
dramatização utilizada para introduzir a discussão de um tema, haja vista que seu conteúdo tinha
ligação direta com o cotidiano da população. A
abordagem de mais de um tema em cada programação dividiu a opinião dos entrevistados:39,16%
consideraramque isso confunde o ouvinte; os restantes 60,84% aprovaram tal técnica por considerar que o recurso dá agilidade ao programa.
De acordo com a maioria, o programa
cresceu em termos de qualidade de produção,
constituindo-se num instrumento eficaz para a
transmissão de conhecimentos e promoção da
educação para a saúde. Mesmo não dispondo
A maioria dos pesquisados (79,7%) de pesquisa de audiência de institutos
classificou como boa a repercussão dos pro- renomados - como o Ibope - em seus municídutos junto aos ouvintes. Esta opinião ba- pios, a maioria das emissoras (58,6%) consiseava-se em cartas, telefonemas recebidos e dera boa a repercussão do programa junto ao
contatos mantidos com os ouvintes, os quais público. Elas baseiam sua opinião em cartas,
manifestavam satisfação e interesse em re- telefonemas recebidos e contatos mantidos com
os ouvintes que solicitam reprise de programas
lação aos temas abordados.
e tecem comentários sobre os temas abordados.
via necessidade, portanto, de uma avaliação
mais criteriosa, representativa de um universo, e que poderia ser realizada a baixo custo.
No período de vigência do projeto, foram realizadas duas pesquisasjunto aos diretores de emissoras e serviços de alto-falantes.Na
edição do programa, remetida em fevereiro de
1995, os entrevistados receberam um formulário para preenchimento e posterior remessa via
correio ou fax. As coordenações estaduais ficaram encarregadas de complementar a pesquisa, preenchendo o mesmo formulário após
contato telefônico, pessoal ou por carta com a
direção das emissoras de rádio.
O questionário distribuído continha
questões abertas e fechadas, combinando pesquisa qualitativa e quantitativa - para obter
maior profundidade nas respostas - abordava
aspectos relativos ao conteúdo, formato, estilo, linguagem, diahorário de veiculação e o
impacto do programa perante a audiência.
O resultado da primeira pesquisa foi
bastante animador: o programa Saúde no ar
possuía ampla aceitação junto aos radiodifusores e público-alvo. Das 400 emissoras,
23,97% responderam o questionário da pesquisa. Desse total, 9 1,4% dos entrevistados
disseram que veiculavam o programa e 97,8%
divulgavam o spot em sua programação normal, a maioria deles até cinco vezes ao dia. Na
opinião de 57,4% dos pesquisados o programa e o spot são ótimos quanto ao conteúdo e
apresentação; 40,4% os avaliaram como bons.
Rádio a serviço da comunidade
O relato desta experiência demonstra
claramente que ainda é possível desenvolver,
pelo rádio, um projeto institucional de educação e comunicação em saúde, desde que sejam considerados os seguintes aspectos:
a) é fundamental que a definição do
referencial teórico-conceitual seja totalmente
distanciada das experiências que utilizaram o
rádio para educação formal ou para difusão
de uma cultura elitista;
b) romper a unilateralidade que tem
marcado as ações centralizadas, criando formas de participação do público no programa;
c) ter a regionalização como meta: ela é
o caminho para a aproximação do universo
cultural e simbólico do público, o que pode
ser feito utilizando-se a música, modo de falar da população e abordagem dos problemas
da forma como são vividos na região. Significa, basicamente, incorporar ao produto a dimensão do popular;
d) definir claramente o público e a área
de abrangência que se pretende atingir. Ter em
mente que a audiência do meio rádio é segmentada, dada a sua pulverização. Não se pode
atingir todo um público através de uma única
emissora, haja vista as inúmeras implicações
na determinação da linguagem, estilo e formato do produto;
e) conquistar o apoio das emissoras para
veiculação gratuita do programa, sem imposição legal de dia e horário determinados. Para
isso, é importante apresentar um produto com
qualidade técnica, formato e linguagem compatíveis com a rádio comercial. Por possuir tais
qualidades, pode e deve ser patrocinado;
f) estabelecer uma relação profissional
com as emissoras quanto à entrega do produto nos prazos, com regularidade. Os atrasos
geram perda de credibilidade do produtor e
levam a emissora a repetir programas anteriores. Situação essa que conduz à queda da
audiência. Deve-se ter sempre em mente que
rádio é uma empresa que, para se manter no
mercado, precisa conquistar tanto os ouvintes como os patrocinadores;
g) d a r à produção um caráter
profissional. Buscar no mercado o que há
de melhor em locução, operação de áudio,
estúdio de gravação e produção de vinhetas.
Para ter boa aceitação, o trabalho precisa
estar limpo do ponto de vista estético e
impecável quanto ao estilo;
h) por fim deve ser feita uma constante
avaliação do produto, com o objetivo de comgir eventuais falhas. Significa estar sempre
aberto à mudança de rumos, face às críticas.
Nada melhor do que se guiar pela voz do ouvinte: ela é sábia e sincera.
Cada edição do Saúde no ar foi um
aprendizado quanto à criação de formas e
estratégias para transmitir informações vitais.
A descoberta de novos modos de educar
pelo diálogo e pela compreensão, respeitando-se sempre a inteligência do ouvinte.
As cartas recebidas deram apoio e incentivo à continuidade do projeto, indicadores
fiéis de sua aceitação.
Sem dúvida, o rádio ainda é o meio de
comunicação massivo que demanda poucos
recursos de produção e veiculação e, por isso,
deve fazer parte das estratégias de educação
e saúde. É certo que, isoladamente, o meio
tem eficácia limitada em termos educativos,
mas pode ser potencializado se integrado a
outros instrumentos de educação não-formal.
Comunicação & Educação, São Paulo, [18]: 22 a 35, maiolago. 2000
35
Resumo: O artigo destaca a importância do uso
do rádio na veiculação de programas de educação
em saúde. A iniciativa do Ministério da Saúde, através de sua Coordenação de Informação, Educação e Comunicação, em parceria com a Faculdade
de Comunicação da Universidade de Brasília, produziu, entre 1994 e 1995, uma série de programas
radiofônicos de educação em saúde voltada a comunidades carentes do Nordeste. A autora destaca a preocupação do projeto em não repetir erros
do passado na concepção, formatação e veiculação de programas educativos pelo rádio. Discute
sobre as formas de conseguir a adesão das rádios
comerciais e da comunidade na veiculação de projetos institucionais, bem como a importância de se
abrir um canal de comunicação efetivo com a comunidade. 0 s programastemáticos, em formato de
revista, tinham 15 minutos de duração, com breaks
e spots que permitiam maior liberdade as emissoras na forma de veiculação do projeto. Na avaliação, destacou-se a importância de uma produção
profissional, sintonizada com as necessidades da
comunidade e com as exigências próprias da linguagem do veículo. Concluiu-se que a maioria das
emissoras veiculadoras dos programas consideraram a experiência positiva, tendo em vista o sucesso entre os ouvintes.
Abstract: The article stresses the importance of
using the radio to transmit health education
programs.The Health Ministry initiative, through the
Information Coordination, in a partnership with the
Brasília University Communications College,
produced, between 1994 and 1995, a series of radio
programs on health education aimed at poor
communities in Northeastern Brazil. The author
stresses the project's concern in not repeating
previous errors in the conception, formatting and
transmission of educational programs on the radio.
It discusses how it is possible to get commercial
radios and the community to adhere to institutional
project transmissions and it deals with the
importance of opening an effective communication
channel with the community.Thematic programs, in
the magazine format, lasted 15 minutes and had
breaks and spots that allowed for the stations to
have greater freedom to air the project. In the
evaluation stressed the importance of professional
production, in tune with the community needs and
with the vehicle's own language demands. It was
concluded that most stations that aired the programs
considered the experience positive since they were
successful among the listeners.
Palavras-Chave: rádio, Saúde no ar, comunidade,
Nordeste, rádio comercial, serviço de alto-falante,
Ministério da Saúde
Key words: radio, Health on the air, community,
northeast, commercial radio, loudspeaker service,
Health Ministry
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